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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Dengue, chikungunya e zika: conheça as diferenças

O Brasil é um país que apresenta vários tipos de clima, com predominância dos quentes e úmidos, essa característica faz com que uma grande quantidade de insetos se estabeleça no território, como os mosquitos do gênero Aedes, que se desenvolvem, principalmente, em zonas tropicais e subtropicais. Esses mosquitos são importantes vetores de doenças, tais como: dengue, chikungunya e zika, sendo a espécie que merece maior atenção no Brasil.




Além de serem transmitidas pelo mesmo mosquito, essas doenças apresentam alguns sintomas semelhantes, o que pode dificultar o diagnóstico. Entretanto, pequenas diferenças existem e podem ser usadas como critério para o diagnóstico. A dengue, por exemplo, é a doença mais grave quando comparada à chikungunya e à zika, pois causa febre, dores no corpo, dores de cabeça e nos olhos, falta de ar, manchas na pele e indisposição. Em casos mais graves, pode provocar hemorragias, que podem ocasionar óbito.

Já a chikungunya também causa febre e dores no corpo, mas as dores se concentram principalmente nas articulações, diferentemente da dengue, que causa dores predominantemente musculares. Alguns sintomas da chikungunya duram em torno de duas semanas, contudo, as dores articulares podem permanecer por vários meses. Casos de morte são muito raros, mas a doença, em virtude da persistência da dor, afeta bastante a qualidade de vida do paciente.

Por fim, a zika é a doença que causa os sintomas mais leves. Pacientes com essa enfermidade apresentam febre mais baixa que as citadas anteriormente, olhos avermelhados e coceira característica. Em virtude desses sintomas, muitas vezes a doença é confundida com alergia. Normalmente a zika não causa morte e os sintomas não duram mais que sete dias. No entanto, é importante lembrar, que a doença causa sérios problemas em gestantes e seus bebês, tais como a microcefalia. Além disso, a zika de relaciona com uma síndrome neurológica que causa paralisia, chamada de Síndrome de Guillain-Barré.

O tratamento dessas doenças é praticamente o mesmo, uma vez que não existem medicamentos específicos para elas. Recomenda-se que o paciente, nos três casos, permaneça em repouso e beba bastante líquido. Alguns medicamentos são indicados para dor, mas não se deve recorrer a remédios que contenham ácido acetilsalicílico, pois, podem desencadear hemorragias.

A melhor forma de diagnóstico da doença é através do hemograma, que ajuda muito na diferenciação dos quadros, uma vez que a queda nas plaquetas e a leucopenia são mais significativas na Dengue e quase inexistente na zika. Além disso, Bio-Manguinhos possui cinco kits para diagnóstico que detectam essas doenças em seu portfólio, cinco deles são testes rápidos, cujos resultados saem em 20 minutos: DPP® Dengue IgM/IgG, TR DPP® DENGUE NS1 - Bio-Manguinhos, DPP® Chikungunya IgM/IgG, DPP® Zika IgM/IgG e DPP® ZDC, este último ajuda a detectar não só dengue como zika e chikungunya simultaneamente.

O portfólio do Instituto conta ainda com mais dois kits moleculares: Kit Molecular ZC D-Tipagem - Bio-Manguinhos e Kit ZDC (zika, dengue e chikungunya), que utiliza a plataforma de PCR em tempo real para detectar a infecção pelos vírus zika, dengue e chikungunya nos primeiros dias após a infecção. Funciona de maneira complementar aos testes sorológicos, que precisam de um período de aproximadamente 7 dias após o início dos sintomas para entregar um resultado positivo.

Não existem vacinas contra as doenças citadas, com exceção da dengue. Assim sendo, a melhor forma de prevenção é reduzir a infestação de mosquitos por meio da eliminação de criadouros, sempre que possível, ou manter os reservatórios e qualquer local que possa acumular água totalmente cobertos com telas/capas/tampas.





Autor: Juliana Xavier (Bio-Manguinhos/Fiocruz)*
Fonte: fiocruz
Sítio Online da Publicação: fiocruz
Data: 31/01/2023
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/dengue-chikungunya-e-zika-conheca-diferencas

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Zika vírus: primeiro caso de gestante infectada em 2022 é registrado no Brasil

A Paraíba registrou o primeiro caso de uma gestante infectada por zika vírus no Brasil. A infectada tem 41 anos, está no terceiro trimestre da gestação e passa bem. Ainda não é possível dizer se o bebê tem microcefalia. A Secretaria de Saúde do Estado (SES-PB) está acompanhando o caso. 

O país já registrou outros casos de zika vírus neste ano. Em abril, a Secretaria de Saúde de Goiás (SES-GO) confirmou dois casos no interior do estado. 

Mais recentemente, no início de junho, as autoridades de saúde confirmaram o primeiro caso de zika vírus de 2022 em Pernambuco. Segundo a Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE), a paciente é uma mulher de 20 anos, moradora do município de Timbaúba, região da Zona da Mata do estado, que não está grávida.

Zika vírus

O zika vírus é o principal causador de microcefalia em bebês. Até o momento, não há tratamento para reduzir as chances dessa malformação. Indivíduos infectados pelo vírus podem não perceber a doença, uma vez que é assintomática em 80% dos casos. 

O diagnóstico é baseado em sintomas clínicos e circunstâncias epidemiológicas, com a realização de exames de sangue que podem ajudar os médicos. Alguns são úteis nos três a cinco primeiros a partir do início dos sintomas (RT-PCR) e outros que detectam a presença de anticorpos, mas somente são úteis após cinco dias (sorológicos). 

Uma vez demonstrada a presença do vírus em uma área ou território, a confirmação não é necessária em todos os pacientes e o uso de testes laboratoriais será ajustado à vigilância virológica de rotina da enfermidade.

Os principais sintomas são febre baixa, erupções cutâneas (principalmente exantema maculopapular), cefaleia, dores nas articulações e nos músculos, mal-estar geral e conjuntivite não purulenta que aparecem entre dois a sete dias após a picada do mosquito vetor. 

Em maio de 2015, autoridades de saúde pública brasileiras confirmaram pela primeira vez a transmissão do vírus zika no país, mais especificamente na região Nordeste do Brasil.. 

Em julho do mesmo ano, foi detectada a associação da doença com a síndrome de Guillain-Barré e, em outubro, os pesquisadores observaram a associação entre a infecção e as malformações do sistema nervoso central ao nascimento, incluindo microcefalia. 

Formas de transmissão

O principal modo de transmissão do vírus é a picada do mosquito Aedes aegypti. 

No entanto, de acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), uma pessoa com zika pode transmitir o vírus aos seus parceiros através do sexo vaginal, anal e, provavelmente, oral. O compartilhamento de brinquedos sexuais também pode colocar uma pessoa em risco. O zika já foi detectado no sêmen, fluidos vaginais, saliva, urina e leite materno. 

Ainda não há evidências de que o zika possa ser transmitido através da saliva durante beijos profundos. 

Entretanto, já existem evidências documentadas de transmissão sexual do zika de homem para mulher, homem para homem e mulher para homem. A transmissão sexual de mulher para mulher ainda não foi relatada, mas é biologicamente plausível.






Autor: Letícia Suzano Lelis Bellusci
Fonte: PEBMED
Sítio Online da Publicação: PEBMED
Data: 15/06/2022
Publicação Original: https://pebmed.com.br/zika-virus-primeiro-caso-de-gestante-infectada-em-2022-e-registrado-no-brasil/

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Pesquisa confirma transmissão sexual do vírus zika em Pernambuco



Uma pesquisa realizada pela Fiocruz Pernambuco, em colaboração com a Universidade Estadual do Colorado (CSU) dos Estados Unidos, encontrou evidências científicas da importância da transmissão sexual do vírus na epidemia de zika em Pernambuco. Trata-se do primeiro estudo brasileiro a chegar a essa conclusão e o segundo no mundo a demonstrar que a transmissão sexual do vírus da zika tem um papel muito mais importante na epidemia do que se estimava inicialmente. O primeiro foi realizado em Porto Rico (2019).

Outras investigações anteriores já haviam comprovado a existência desta forma de transmissão em localidades sem a presença do mosquito vetor, o Aedes aegypti e sem indicar qual a sua relevância na epidemia. O estudo pernambucano aponta que essa contribuição é significativa. "A via sexual não parece ser unicamente responsável pelo contágio sustentado do zika, mas associada à transmissão pelo mosquito pode contribuir significativamente para a disseminação eficiente do vírus", explica a pesquisadora Tereza Magalhães (CSU e Fiocruz PE), que coordenou o projeto, ao lado dos pesquisadores Ernesto Marques (Fiocruz PE e Universidade de Pittsburgh, EUA) e Brian Foy (CSU). A pesquisa contou com financiamento do National Institutes of Health (NIH).

Além do cuidado metodológico para tentar enxergar a transmissão sexual de forma separada da vetorial, a equipe do projeto precisou superar um grande desafio no início da pesquisa: a redução drástica dos casos de zika, a partir de 2017 (em Pernambuco e em todo o país), que acabou inviabilizando a identificação de novos casos para se somarem à coorte do estudo. Assim, os investigadores precisaram buscar uma estratégia alternativa para o projeto, envolvendo participantes de uma pesquisa anterior, sobre diagnóstico de dengue, e moradores de suas residências. Realizado por Tereza e Ernesto entre maio de 2015 e maio de 2016, esse estudo recrutou pacientes atendidos na UPA de Paulista (PE) com sintomas sugestivos de dengue. O trabalho foi realizado em colaboração com o pesquisador da Universidade de Heidelberg (Alemanha) e CSU, Thomas Jaenisch.

O resultado foi surpreendente, pois, ao final das análises, 60% dentre os mais de duzentos e cinquenta pacientes estudados foram casos confirmados de infecções com os vírus zika e chikungunya, sendo pouquíssimos casos de dengue. Portanto, esse estudo se revelou um importante registro do período final da epidemia de zika e do posterior crescimento dos casos de chikungunya em Pernambuco, doenças que haviam se instalado silenciosamente na população.

A partir desse conhecimento acumulado, foram convidados os participantes dessa pesquisa anterior (denominados index), seus parceiros sexuais e até mais dois moradores da mesma residência, formando uma coorte de 425 pessoas. O objetivo foi comparar, através de sorologia, a exposição prévia dos participantes aos vírus zika e chikungunya. A hipótese era que a exposição ao zika seria maior entre os parceiros sexuais, já que esse vírus é transmitido por sexo e pela picada do mosquito. A comparação com o chikungunya foi muito importante no estudo já que não é transmitido sexualmente (somente pela picada do mosquito).

Foram coletadas amostras de sangue, realizados testes sorológicos e aplicados questionários, para responder a dois tipos de análise. Primeiro foi avaliado o risco da pessoa ser positiva para zika ou chikungunya quando morando com paciente index soropositivo para o respectivo vírus, sendo ela parceira sexual ou não. Depois, esse mesmo risco foi observado em todos os pares de uma mesma residência, independente de serem formados pelo paciente index.

Os resultados apontaram que, no caso do zika, o risco de ter sido exposto ao vírus foi significativamente maior (risco relativo de 3.9) para o parceiro sexual do que para o morador no mesmo espaço que não era parceiro sexual (risco relativo de 1.2). Para chikungunya, utilizado nessa pesquisa como "controle", o resultado foi bem diferente e o risco se mostrou igual para todos os moradores (parceiros sexuais ou não; risco relativo de 2-2.5). Na segunda parte das análises, os pares sexuais das residências tiveram uma maior probabilidade de terem sorologia concordante para o zika do que os pares sem relação sexual, fato que não foi observado com o grupo chikungunya.

Foram coletados também dados clínicos retrospectivos dos participantes. Uma das informações obtidas, em relação aos participantes soropositivos para zika, é que uma menor porcentagem de pares sexuais disse que teve sintomas típicos de arboviroses, comparando com os pares não sexuais. "Isso pode indicar que, se essas pessoas dos pares sexuais foram infectadas com o zika através de relação sexual e não da picada de mosquitos, talvez a sintomatologia seja diferente de acordo com a forma de transmissão", declara Tereza, ressaltando a importância de que esse fator seja levado em conta na fase aguda da doença. "É muito importante até para o manejo clínico, pois pode ser que o médico não consiga fazer um diagnóstico correto se avaliar somente sintomas típicos", complementa.

O estudo mostrou que a transmissão sexual do zika em áreas endêmicas, associada à transmissão vetorial, pode ter sido um dos fatores responsáveis pela rápida disseminação do vírus nas Américas e em outras regiões afetadas pela pandemia em 2015/2016.

Mais detalhes sobre a pesquisa - que contou ainda com a participação das pesquisadoras da Fiocruz PE Ana Brito, Clarice Morais e Marli Tenório, além de vários estudantes e técnicos da instituição – podem ser obtidos no artigo Follow-up household serosurvey in Northeast Brazil for Zika virus: sexual contacts of index patients have the highest risk for seropositivity.





Autor: Fiocruz Pernambuco
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 22/10/20
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/pesquisa-confirma-transmissao-sexual-do-virus-zika-em-pernambuco

terça-feira, 14 de abril de 2020

Combate ao Aedes Aegypti: prevenção e controle da Dengue, Chikungunya e Zika

Combate ao Aedes Aegypti: dengue, zika, febre amarela e chikungunya





























Ministério da Saúde convoca a população brasileira a continuar, de forma permanente, com a 
mobilização nacional pelo combate ao mosquito transmissor da dengue, zika e chikungunya, doenças que podem gerar outras enfermidades, como microcefalia e Guillain-Barré, o Aedes Aegypti.

O período do verão é o mais propício à proliferação do mosquito Aedes aegypti, por causa das chuvas, e consequentemente é a época de maior risco de infecção por essas doenças. No entanto, a recomendação é não descuidar nenhum dia do ano e manter todas as posturas possíveis em ação para prevenir focos em qualquer época do ano.

Por isso, a população deve ficar atenta e redobrar os cuidados para eliminar possíveis criadouros do mosquito. Essa é a única forma de prevenção. Faça a sua parte. #CombateAedes
DENUNCIE FOCOS DO MOSQUITO AEDES AEGYPTI: Quando o foco do mosquito Aedes Aegypti é detectado e não pode ser eliminado pelos moradores ou pela população, como em terrenos baldios ou lixos acumulados na rua, a Secretaria Municipal de Saúde deve ser acionada para remover os possíveis focos/criadouros. Faça sua parte!



Autor: Ministerio da Saúde
Fonte: Ministerio da Saúde
Sítio Online da Publicação: Ministerio da Saúde
Data: 14/04/2020
Publicação Original: 
https://www.saude.gov.br/informes-de-arboviroses

quinta-feira, 12 de março de 2020

Casos de dengue, zika e chikungunya aumentam no verão



Por: Gabriella Ponte (Bio-Manguinhos/Fiocruz)*


Segundo o último Boletim Epidemiológico (fevereiro) do Ministério da Saúde, houve um número alarmante de casos de dengue, zika e chikungunya nas primeiras sete semanas de 2020, período de verão, com altas temperaturas e incidência de chuvas em todo o país. Só de dengue, foram notificados mais de 180 mil casos, enquanto que chikungunya foram quase seis mil e zika quase 580. O Ministério da Saúde alertou que a endemia de dengue é mais preocupante que a de coronavírus, por exemplo, e que a população deve continuar combatendo o mosquito transmissor, evitando a proliferação do Aedes aegypti.

Com relação a dengue, entre as semanas epidemiológicas 1 e 6 de 2020 (de 29 de dezembro de 2019 a 9 de fevereiro de 2020), 645 amostras foram positivas para detecção da dengue pelo método de biologia molecular (PCR). Até o momento, o sorotipo predominante no país é o DENV-2 com 517 (80,2%) amostras detectadas. O DENV-2 foi o sorotipo mais predominante nas regiões Sul (78,9%), Centro-Oeste (100%) e Sudeste (100%). Já o sorotipo DENV-1 foi predominante nas regiões Nordeste (80%) e Norte (66,7%). No entanto, existem diferenças da predominância dos sorotipos entre as unidades federadas, com destaque para o estado de Roraima onde foi possível detectar dois sorotipos (DENV 1 e 2), e o estado do Paraná que apresentou detecção viral de três sorotipos (DENV 1, 2 e 4).

Até o dia 16 de fevereiro, foram confirmados 111 casos de dengue grave (DG) e 1.371 casos de dengue com sinais de alarme (DSA), que são pacientes com sintomas preocupantes. Ressalta-se que 264 casos de DG e DSA permanecem em investigação. Até o momento, foram confirmados 32 óbitos por dengue, sendo 26 por critério laboratorial (nove no Paraná, sete em São Paulo, sete no Mato Grosso do Sul, dois no Distrito Federal e um no Acre,) e seis por clínico-epidemiológico (cinco no Paraná e um no Acre). Permanecem em investigação 115 óbitos. A faixa etária acima de 60 anos concentra 62,5% dos óbitos confirmados (20 óbitos) por dengue. Em relação à chikungunya, foram confirmados dois óbitos por critério laboratorial, um no estado do Rio de Janeiro (faixa etária: menor de um ano) e um no Mato Grosso (faixa etária: 20 a 29 anos).


Sobre os sorotipos da dengue

É importante procurar orientação médica ao surgirem os primeiros sintomas, pois as manifestações iniciais podem ser confundidas com outras doenças, como febre amarela, malária ou leptospirose e não servem para indicar o grau de gravidade da doença.

Todos os quatro sorotipos de dengue (1, 2, 3 e 4) podem produzir formas assintomáticas, brandas e graves, incluindo fatais. Deve-se levar em consideração três aspectos:
1. Todos os quatro sorotipos podem levar à dengue grave na primeira infecção, porém com maior frequência após a segunda ou terceira;

2. Existe uma proporção de casos que têm a infecção subclínica, ou seja, são expostos à picada infectante do mosquito Aedes aegypti mas não apresentam a doença clinicamente, embora fiquem imunes ao sorotipo com o qual se infectaram; isso ocorre com 20 a 50% das pessoas infectadas;

3. A segunda infecção por qualquer sorotipo da dengue é predominantemente mais grave que a primeira, independentemente dos sorotipos e de sua sequência. No entanto, os sorotipos 2 e 3 são considerados mais virulentos.

É importante lembrar que muitas vezes a pessoa não sabe se já teve dengue por duas razões: uma é que pode ter tido a infecção subclínica (sem sinais e sem sintomas), e outra é pelo fato da facilidade com que a dengue, principalmente nas formas brandas, pode confundir-se com outras viroses febris agudas.

* Com informações da Biblioteca Virtual em Saúde




Autor: Gabriella Ponte (Bio-Manguinhos/Fiocruz)
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 11/03/2020
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/casos-de-dengue-zika-e-chikungunya-aumentam-no-verao

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Desnutrição de mães contribui para síndrome do zika em bebês

Grupo de 27 pesquisadores brasileiros, americanos, ingleses e argentinos assina artigo, publicado no dia 10 de janeiro, no periódico Science Advances, sobre a correlação da desnutrição de mães e a síndrome congênita do vírus zika. A pesquisa entrevistou 83 mães, todas residentes no Ceará, para melhor compreensão dos hábitos alimentares. Os dados epidemiológicos mostraram que quase metade (cerca de 40%) das mães que teve crianças com síndrome congênita também apresentava desnutrição proteica.




Imagem representativa da chegada do vírus (manchas vermelhas) ao cérebro (Divulgação)


“A pesquisa partiu do cruzamento de dados de microcefalia no Brasil fornecidos pelo Ministério da Saúde entre 2015 e 2018 com o mapa da fome no País e contou com a pesquisa em campo que acompanhou as 83 mulheres, avaliando sua dieta no período de gestação. Por último, fizemos testes em camundongos para verificar os efeitos de uma dieta com baixa ingestão de proteínas e verificamos que existe correlação entre desnutrição e má formação do sistema nervoso”, explica Patrícia Garcez, professora do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ICB/UFRJ) e Jovem Cientista do Nosso Estado da FAPERJ.

A biomédica destaca que há uma grande variedade na prevalência da síndrome congênita do zika, transmitida de mães infectadas para o feto no primeiro trimestre de gravidez. Essa variação da transmissão vertical pode ser de apenas 1%, por exemplo, em países desenvolvidos como os Estados Unidos; chegando a 3%-12% no Brasil, sendo importante ainda esclarecer, segundo ela, a variação existente em diferentes regiões do País. No Nordeste, houve mais casos de bebês com síndrome congênita do vírus zika do que em outras regiões. Diante dessa diferença, o grupo postulou que deveria haver cofatores, atuando na habilidade do vírus em infectar e afetar o embrião. Outro cofator mencionado em estudo liderado por Stevens Rehen, pesquisador do Instituto D'Or e professor da UFRJ – que também recebe apoio da FAPERJ para a realização de suas pesquisas –, é a exposição à Saxitoxicina, bastante presente em locais com baixos índices de saneamento básico.



Patrícia Garcez: estudo mostrou que desnutrição ou má nutrição proteica pode facilitar a transmissão vertical do vírus da zika (Foto: Divulgação)


Nesta publicação, o grupo de pesquisadores exploraram a relação potencial entre desnutrição e malformações associada ao vírus da zika através da análise do banco de dados integrado do Ministério da Saúde. O grupo focou a investigação em 24 dos 27 estados brasileiros, desde que o vírus aumentou em virtude da abundância de Aedes circulantes. O resultado foi uma correlação significativa entre casos de microcefalia e ocorrências de desnutrição, sugerindo que estados caracterizados por um número maior de casos com desnutrição, na última década, também contavam com mais crianças com malformações desde o surgimento da síndrome do vírus no Brasil.

A desnutrição ou má nutrição proteica causa depressão no sistema imunológico e pode facilitar a transmissão vertical de vírus da zika. A partir daí, o grupo procurou investigar o efeito da nutrição materna na quebra da barreira placentária e, por conseguinte, os efeitos causados pelo vírus no desenvolvimento do sistema nervoso central. Garcez explica que o grupo utilizou um modelo de interação do vírus e estresse nutricional proteico durante o desenvolvimento do sistema nervoso em camundongos. Os efeitos desses fatores foram avaliados em estágios pré e pós-natal por meio de diferentes técnicas complementares de imagens com alta resolução e técnicas histológicas, e, dessa forma, foi possível compreender e detalhar essas alterações causadas pelo vírus da zika e a dieta das gestantes. E os resultados, mais uma vez, comprovaram a correlação. Somente as proles de fêmeas com desnutrição proteica nasciam com microcefalia associada ao virus da zika.

A pesquisa foi financiada pelo Zika Rapid Response, do Medical Research Council, do Reino Unido; pela FAPERJ, Ministério da Saúde do Brasil e American Association of Physical Anthropologists (AAPA), dos Estados Unidos.



Autor: FAPERJ
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 16/01/2020
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3908.2.3

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Zika: estudo relaciona desnutrição materna e microcefalia

Dados do Ministério da Saúde apontam que, entre novembro de 2015 e outubro de 2019, o Brasil teve quase 3,5 mil casos confirmados de microcefalia e outras alterações possivelmente ligadas ao vírus zika. Mais da metade das notificações ocorreu no Nordeste. Recém-publicado na revista científica internacional Science Advances, um estudo lança luz sobre um dos fatores que podem ajudar a explicar a alta concentração da doença na região: a desnutrição materna. Analisando dados epidemiológicos, o trabalho constata a correlação territorial entre as notificações de microcefalia e desnutrição. Para embasar essa evidência verificada nas estatísticas, experimentos com camundongos foram realizados. Os resultados apontam que a combinação de baixa ingestão de proteínas e infecção viral em fêmeas de camundongos durante a gestação resulta em um quadro mais severo da síndrome congênita do zika, com um número maior de danos à placenta, redução na formação de neurônios no feto e subsequente microcefalia.

A pesquisa coordenada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em colaboração com Universidade Federal do Pará (UFPA), Instituto Evandro Chagas (IEC) e Instituto Estadual do Cérebro Paulo Niemayer (IECPN) integra um projeto de iniciativa do Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador (DSAST) do Ministério da Saúde, coordenado pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz). O objetivo é investigar fatores ambientais que podem potencializar os efeitos neurotóxicos do vírus zika durante a gestação. Também participaram do trabalho o Instituto para Estudos em Neurociência e Sistemas Complexos (Enys) e a Universidade Nacional de La Plata (UNLP), na Argentina; Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e Universidade de Oxford, no Reino Unido.

Coordenador do projeto, o pesquisador do Laboratório de Microbiologia Celular Flávio Alves Lara explica que o número de casos de síndrome congênita do zika apresenta variações regionais que não estão diretamente relacionadas ao número de gestantes infectadas pelo vírus. “O semiárido nordestino não foi a região mais atingida pelo vírus zika no Brasil, mas registrou maior frequência e gravidade de casos de microcefalia. A pedido do Ministério da Saúde, estamos conduzindo pesquisas para entender os fatores que podem ter agravado a situação na região. O trabalho que acaba de ser publicado aponta que a desnutrição proteica é um deles”, afirma o pesquisador.

Uma investigação anterior integrada ao projeto já havia apontado que a saxitoxina, um composto produzido por bactérias que podem ser encontradas em reservatórios de água, potencializa os danos causados pelo zika. Os resultados foram publicados no site de pré-print bioRxiv em setembro passado. O estudo foi realizado em colaboração com o Instituto D’Or de Pesquisa, UFRJ e Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).


Microscopia: em azul, as células que dão origem aos neurônios no cérebro de embriões de camundongos. O vírus zika, em vermelho, se replica nessa região cerebral, promovendo a morte de algumas dessas células, em verde (Imagem: Raissa Rilo Christoff)

Contexto da epidemia

Para avaliar a correlação entre a síndrome congênita do zika e a desnutrição no Brasil, os pesquisadores analisaram os registros de microcefalia e de internações por desnutrição em 24 estados com clima mais favorável à proliferação do mosquito Aedes, transmissor do vírus. A análise estatística sugeriu que os estados com maior número de casos de desnutrição na última década apresentaram mais pacientes com microcefalia desde a emergência do zika. Entrevistas com um grupo de mães de bebês afetados pela síndrome congênita no Ceará apontaram ingestão de proteínas abaixo da média estadual e regional, reforçando a hipótese.

Nos ensaios em camundongos, os pesquisadores observaram que a infecção pelo zika durante a gestação teve desfechos negativos no grupo infectado com baixa ingestão de proteínas em comparação com o grupo infectado que recebeu alimentação regular. As fêmeas com dieta restrita mostraram sinais de resposta imune menos eficiente contra o vírus, resultando em maior carga viral no organismo. As ninhadas apresentaram alterações características da síndrome congênita do zika, incluindo microcefalia. Os problemas não foram observados no grupo com alimentação regular.

Os pesquisadores realizaram ainda análises moleculares com objetivo de desvendar os mecanismos envolvidos nas lesões provocadas pela combinação entre infecção e restrição nutricional. Os testes apontaram prejuízo na expressão de genes importantes para a resposta imune e o desenvolvimento cerebral, entre outros.

Os autores da pesquisa ressaltam que a investigação sobre os fatores ambientais que agravam a síndrome congênita do zika é importante não apenas para compreender a emergência da doença, mas também para a preparação para futuras epidemias. “Outras epidemias de zika devem ocorrer no futuro, e é importante buscar estratégias para reduzir os casos de microcefalia. Além disso, o entendimento dos mecanismos envolvidos nas lesões pode ser a base para o desenvolvimento de novos tratamentos”, afirma Lara.




Autor: Maíra Menezes (IOC/Fiocruz)*
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 14/01/2020
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/zika-estudo-relaciona-desnutricao-materna-e-microcefalia

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Zika: exame para diagnóstico, desenvolvido no Brasil, chega ao mercado




O exame sorológico que detecta a presença de anticorpos contra o vírus zika em amostras de sangue chegou ao mercado brasileiro. Desenvolvido pela empresa AdvaGen Biotech, em colaboração com pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) e do Instituto Butantan, o teste é capaz de identificar se a pessoa foi infectada mesmo após o término da fase aguda da doença.

Além disso, o produto apresenta alta precisão mesmo em quem já tive dengue ou febre amarela, o que deve facilitar o trabalho dos médicos e das autoridades de saúde pública.

Com a liberação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o uso comercial, a empresa responsável está validando o kit de testes para fazer parte do Projeto Cegonha, do Sistema Único de Saúde (SUS) para o acompanhamento das gestantes em todo o país. Os responsáveis calculam que o custo do teste por pessoa fique em torno de R$ 30.
Testes do novo exame para zika

Testado em mais de 3 mil mulheres de diferentes estados do país, o método foi baseado na metodologia conhecida como ELISA (ensaio de imunoabsorção enzimática), justamente para ser de baixo custo e de amplo alcance para a população.


A plataforma é composta por uma placa com 96 pequenos poros em que uma proteína viral capaz de ser reconhecida pelo sistema imunológico fica aderida. Esses poros são preenchidos com os soros de até 94 pacientes simultaneamente, com outros dois poros usados como controle.

Nos casos em que os pacientes já foram contaminados com o zika vírus, os anticorpos IgG ficam aderidos à proteína viral, o que é detectado em seguida por ensaios colorimétricos.

De acordo com Edison Luiz Durigon, pesquisador do ICB-USP e um dos responsáveis pelo desenvolvimento do novo teste, a quantidade de anticorpos pode determinar se a infecção é mais recente ou antiga.

“Se a quantidade diminuiu bastante, é provável que a infecção tenha ocorrido há um ano, por exemplo. Esse anticorpo não desaparece totalmente do organismo, mas diminui muito com o tempo. Mesmo que a pessoa tenha um nível baixo de anticorpos de uma infecção antiga, ao entrar em contato novamente com o vírus, os níveis de imunidade rapidamente se recuperam”, explica o pesquisador.


Diferenciais do novo exame

Além de determinar quais pessoas já foram expostas ao vírus, o novo teste sorológico é capaz de identificar casos de mulheres que foram infectadas pelo vírus durante a gravidez e cujos bebês nasceram sem microcefalia, uma vez que essas crianças podem apresentar no futuro complicações de desenvolvimento como déficit cognitivo e dificuldades motoras.

Para Edison Luiz Durigon, o novo teste pode ser estratégico para a formulação de políticas públicas. “A microcefalia é só a ponta do iceberg. A doença é assintomática muitas vezes e até hoje não sabemos a dimensão da epidemia por carência de dados. Acreditamos que cerca de 90% das gestantes que tiveram zika não relataram a doença por não terem notado a infecção. Portanto, muitas das crianças que nasceram sem microcefalia podem vir a apresentar disfunções que só serão percebidas a partir da idade escolar”, disse o especialista.

Ainda segundo o pesquisador, com o novo método é possível identificar esses casos específicos, que necessitam de exames mais sofisticados, como tomografia e ressonância, para detectar essas lesões no cérebro.

Outra grande vantagem do teste em relação aos já disponíveis no mercado é a capacidade de medir anticorpos muito específicos e, assim, identificar a ocorrência de infecção por zika no soro sanguíneo mesmo em amostras de pessoas que já tiveram contato com patógenos aparentados, como o vírus da dengue.




Autor: Michelle Costa Galbas
Fonte: Pebmed
Sítio Online da Publicação: Pebmed
Data: 05/11/2019
Publicação Original: https://pebmed.com.br/zika-exame-para-diagnostico-desenvolvido-no-brasil-chega-ao-mercado/

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Zika: descoberto vírus em placentas de gestantes com exame negativo




Foi descoberta a presença do vírus da zika nas placentas de gestantes que tiveram os sintomas da doença no período de epidemia, mas com resultado negativo em exames anteriores. Como foram realizadas mais amostras do que o atual protocolo estadual exige, os pesquisadores responsáveis, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), solicitam à Secretaria de Saúde de São Paulo que avalie mudanças nesse processo, principalmente em relação à coleta e ao armazenamento das amostras.

Os exames foram realizados pela então doutoranda Emanuella Meneses Venceslau, que concedeu uma entrevista exclusiva para o Portal PEBMED.

“Descobrimos que a placenta é um tecido que podemos considerar como um reservatório do vírus da zika, pois mesmo após um grande período de tempo depois da infecção, é possível encontrá-lo. Tivemos pacientes que foram infectadas no primeiro trimestre da gestação, não foram diagnosticadas durante esse primeiro trimestre (na fase aguda da doença) e, no entanto, conseguimos identificar a presença da zika na placenta mais tarde”, explica Emanuella Meneses Venceslau.

Os resultados do estudo serão publicados na próxima edição do Frontiers in Microbiology.

Metodologia aplicada

Do total de 77 mulheres identificadas com sintomas, 49 tiveram os seus bebês no Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher da Unicamp (Caism). Houve dois casos de microcefalia, ambos evoluindo para óbito neonatal.

Catorze mulheres com falso-negativo deram à luz no Caism. Os tecidos das placentas colhidos e os exames de sangue foram analisados pelo Instituto Adolfo Lutz, que tem o padrão de usar uma única amostra de placenta.

As pacientes autorizaram a coleta também pelos pesquisadores da Unicamp. A diferença do resultado foi grande. A análise foi realizada em 17 placentas e o vírus foi confirmado em 14 delas. Antes, todas estavam com resultado negativo para a zika pelos resultados do Instituto Adolfo Lutz.

As gestantes foram acompanhadas desde a gestação, entre os anos de 2016 e 2017, até os nascimentos dos bebês, que ocorreram entre 2017 e 2018, sem a ocorrência de microcefalia, sintoma característico da zika.

A segunda conclusão do estudo foi em relação à técnica de coleta realizada, que foi uma técnica de coleta estratificada, que pertence à família de amostras probabilísticas e consiste em dividir todo o objeto de estudo em diferentes subgrupos ou estratos diferentes, de maneira que um indivíduo pode fazer parte apenas de um único estrato ou camada.

“Essa técnica foi utilizada seguindo a padrão do Caism, da Unicamp, onde se coletava quatro porções do cordão umbilical, de diversas regiões da placenta. Talvez a coleta mais ampla do tecido dê uma diferença no diagnóstico, assim como o método de armazenamento da placenta, que para a nossa pesquisa, foi realizado seguindo altos padrões, mantidas congeladas a -70º”, conta a pesquisadora.
Próxima fase do estudo

Para dar continuidade ao estudo, os responsáveis pelo Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher da Unicamp estão entrando em contato com as 14 mães que tiveram essas placentas coletadas com resultado falso-negativo.

“Dessas, duas perderam os seus recém-nascidos. Então, restam 12 para entrar em contato e pedir que retornem à instituição para que façam um acompanhamento dessas crianças para verificar se elas ainda podem manifestar algum tipo de alteração visual, auditiva, neurológica, etc. a longo prazo”, conta Emanuella Meneses Venceslau.
Como se falou muito do zika só pela microcefalia, uma das principais dúvidas entre os pesquisadores é se as arboviroses podem ter outros tipos de consequências.

Mudança no protocolo do diagnóstico da Zika

Em relação ao protocolo, primeiro é preciso ter a discussão deste estudo com a Secretaria de Estado da Saúde e, posteriormente, do estado de São Paulo com Ministério da Saúde. A Unicamp aguarda retorno do estado sobre essa questão.

A pesquisa foi realizada com uso de recursos, como um freezer a -70º, que não existem atualmente em todas as maternidades. Por isso, será necessário discutir o que será possível fazer para obter o diagnóstico mais acurado.
Segundo a autora do estudo, a coleta da placenta tem que ser realizada de imediato, de preferência na primeira e segunda hora, coletadas as amostras e feita uma conservação especial.

Para Emanuella Meneses Venceslau, está sendo realizado um bom trabalho em relação à prevenção às arboviroses, mas que as autoridades médicas deveriam dar uma atenção maior para a cobertura do saneamento básico no país, que é a fonte da maioria desses problemas. “Acredito que quando tivermos um país com 100% ou até mesmo 90% de cobertura de saneamento básico, 90% das doenças que enfrentamos agora, com esses surtos e epidemias, irão sumir”, conclui.




Autor: Úrsula Neves
Fonte: Pebmed
Sítio Online da Publicação: Pebmed
Data: 17/10/2019
Publicação Original: https://pebmed.com.br/zika-descoberto-virus-em-placentas-de-gestantes-com-exame-negativo/https://pebmed.com.br/zika-descoberto-virus-em-placentas-de-gestantes-com-exame-negativo/

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Estudo de pesquisadores da UFRJ revela que o vírus da Zika também afeta o cérebro de adultos

Os danos neurológicos causados pelo vírus da Zika vão além dos já conhecidos casos de má-formação cerebral em bebês (microencefalia). A doença também afeta os adultos. Como isso ocorre foi o tema do estudo de uma rede de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que teve como desdobramento a publicação de um artigo nesta quinta-feira, 5 de setembro, no periódico científico Nature Communications. Intitulado Zika virus replicates in adult human brain tissue and impairs synapse function and memory in adult mice, o artigo relata as conclusões dos experimentos dos cientistas, demonstrando que o vírus infecta o tecido cerebral adulto, causando complicações motoras e de memória, e como isso ocorre.

“A descoberta esclarece como o vírus induz o surgimento de complicações neurológicas, conforme observado em adultos durante o surto de Zika de 2015, o que ainda não era conhecido pela literatura médica. Pensava-se que o vírus atacava apenas os neurônios imaturos dos bebês”, destacou a autora principal do artigo, a neurocientista Claudia Pinto Figueiredo, que é professora do Departamento de Biotecnologia Farmacêutica da Faculdade de Farmácia da UFRJ. Ela coordenou o estudo junto com o também neurocientista Sergio Teixeira Ferreira, professor do Instituto de Bioquímica Médica (IBqM/UFRJ) e do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF/UFRJ), e a virologista Andrea Thompson Da Poian, também professora do IBqM/UFRJ.

Além dos coordenadores, o artigo tem como autores Fernanda Barros-Aragão, Rômulo Neris, Paula Frost, Carolina Soares, Isis Souza, Julianna Dias Zedler, Danielle Zamberlan, Virgínia de Sousa, Amanda Souza, André Luis Guimarães, Maria Bellio, Jorge M. de Souza, Soniza Alves-Leon, Gilda Neves, Heitor Paula-Neto, Newton Castro, Fernanda De Felice, Iranaia Assunção-Miranda e Julia Clarke.

O ponto de partida para a formação do grupo se deu logo após o surto de Zika ocorrido entre 2015. Na ocasião, a FAPERJ lançou, de forma pioneira, o Programa Pesquisa em Zika, Chikungunya e Dengue no Estado do Rio de Janeiro, para fomentar pesquisas sobre doenças disseminadas pelo mosquito Aedes aegypti. A partir dessa iniciativa, a rede de pesquisa na UFRJ foi formada e posteriormente, em 2016, foi fortalecida com o apoio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

Havia relatos científicos da presença do vírus da Zika no líquor – o líquido que banha o sistema nervoso central – de pacientes adultos durante a fase aguda da infecção. Para investigar as consequências da infecção, os pesquisadores da UFRJ inocularam o vírus isolado de um paciente brasileiro no cérebro de camundongos adultos. Inicialmente, constataram que o vírus infecta o cérebro dos adultos e logo observaram que ele se multiplica especialmente nas áreas cerebrais relacionadas com a memória e o controle dos movimentos corporais. “Isso explica relatos de confusão mental em pessoas adultas com Zika, de falhas temporárias na memória e dificuldades motoras”, disse Andrea Da Poian. “Os efeitos neurológicos nos roedores tiveram seu ápice seis dias após a infecção e praticamente desapareceram 60 dias depois. Mas, em humanos, esse tempo seria bem diferente. Todo o ciclo de vida de um camundongo dura apenas dois anos”, completou a bolsista Nota 10 da FAPERJ, Fernanda Barros, aluna do doutorado em Ciências Morfológicas com ênfase em Neurociência do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB/UFRJ).

O trabalho foi enriquecido pela união de expertises entre pesquisadores da área de Virologia e da área de Neurociência. O neurocientista Sergio Ferreira, que trabalhou em parceria com Fernanda De Felice, usou sua experiência nos estudos da Doença de Alzheimer para desvendar os mecanismos moleculares relacionados aos danos do vírus da Zika no cérebro adulto. “Observamos nos experimentos que as falhas de memória e motoras ocorrem devido ao processo de inflamação do cérebro causado pelo vírus. O problema é que essa inflamação passa a ser tóxica no cérebro. Ela cria um problema na comunicação entre os neurônios, que ocorre normalmente por meio das sinapses [o processo no qual os neurônios transmitem sinais entre si]. No cérebro com Zika, as sinapses são literalmente atacadas pelas microglias, que são células relacionadas ao nosso sistema imunológico”, detalhou Sergio.

Outro ponto importante da pesquisa foi testar o uso de um medicamento anti-inflamatório já utilizado largamente para o tratamento de artrite reumatoide, cujo nome genérico é infliximabe, com o objetivo de reduzir os danos neurológicos causados pelo vírus da Zika. “Já utilizávamos o infliximabe para testar caminhos para amenizar a perda de memória relacionada ao Alzheimer. Esse medicamento inibe a molécula TNF-alfa, envolvida no processo da inflamação cerebral e na ativação das microglias”, disse Sergio. “Outro medicamento testado pelo grupo foi a minociclina (um antibiótico), que impede que as microglias sejam ativadas pela inflamação”, acrescentou Fernanda Barros.

Os pesquisadores ainda não sabem quantas pessoas infectadas pelo vírus da Zika de fato podem ter prejuízos neurológicos e a eficácia do uso desses medicamentos em humanos. Além dos testes realizados com camundongos, seria preciso prosseguir em uma nova etapa, a de testes clínicos, com pessoas infectadas pela doença. “Para isso, é preciso haver um grande esforço de pesquisa e uma soma de recursos, com a continuidade de investimentos por parte das agências de fomento, além da aprovação pelos Comitês de Ética em Pesquisa”, disse Sergio. “Esse tipo de estudo é muito relevante para o estabelecimento de novas políticas de saúde pública, e para avançarmos no entendimento da doença, o que pode resultar no descobrimento de novos alvos terapêuticos e preventivos para os pacientes infectados pelo vírus da Zika”, destacou Claudia.



Autor: Débora Motta
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 05/09/2019
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3833.2.8

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Zika causa danos neurológicos também em adultos, aponta estudo


Direito de imagemGETTY IMAGES

Image captionPesquisa mostra que o vírus também consegue infectar e se multiplicar em cérebros adultos, com sequelas, em alguns casos, de perda de memória e habilidades motoras

O vírus da zika é capaz de causar danos neurológicos não apenas no cérebro em formação de fetos, mas também no de adultos, aponta um estudo produzido por pesquisadores brasileiros e publicado nesta quinta-feira (5/9) no periódico Nature Communications.

O vírus, transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, foi responsável por cerca de 5 mil casos suspeitos de Síndrome Congênita do Zika no Brasil apenas entre 2015 e 2016, infectando células cerebrais ainda em desenvolvimento no útero materno e causando microcefalia em bebês. Mas, até há pouco, acreditava-se que os efeitos da infecção em adultos se limitassem a sintomas mais leves, como febre, dores musculares, erupção cutânea e dores de cabeça. Embora casos de danos neurológicos tenham sido identificados, o fenômeno e seus mecanismos foram pouco estudados.

Agora, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) confirmam que o vírus também consegue infectar - e se multiplicar em - cérebros adultos, atingindo neurônios mais maduros e provocando, em alguns casos, desde quadros temporários de confusão mental e dificuldade motora até problemas mais graves, de coma ou perda de memória.

Os pesquisadores ainda não sabem precisar qual a incidência desses problemas, ou seja, quantas pessoas infectadas pelo zika de fato podem ter prejuízos neurológicos, nem em qual proporção esses prejuízos são ou não permanentes. Por enquanto, acredita-se que os danos mais graves ocorram em uma minoria dos casos.

"Na maioria das vezes, o Zika causa aqueles sintomas leves que se resolvem logo, como a erupção cutânea", explica à BBC News Brasil Claudia Pinto Figueiredo, coordenadora do Programa de Pós-graduação em Ciências Farmacêuticas da UFRJ e líder da pesquisa. "Mas em um número importante de casos - ainda não sabemos quantos, o que exigiria um estudo epidemiológico - o vírus causa complicações."

A pesquisadora aponta que a gravidade do quadro depende, muitas vezes, do estado de saúde do paciente antes de ele ser infectado pelo Zika.


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JOSÉ CRUZ/AGÊNCIA BRASILImage captionDano maior do Zika é sobre células cerebrais em desenvolvimento, causando microcefalia; acima, reunião em Brasília, em 2017, sobre impactos da doença no continente

"Um paciente saudável, que não tenha fatores de risco de desenvolver doenças neurológicas ou psiquiátricas, pode não desenvolver nada (nenhuma complicação). Mas um paciente que tem tendência a demência ou é mais idoso, por exemplo, pode desenvolver mais problemas. Isso torna muito difícil avaliar o que o vírus (é capaz de) causar e por quanto tempo."
A pesquisa

Os pesquisadores da UFRJ (Figueiredo e os colegas Sérgio Ferreira e Andreia Da Poian) já haviam escutado de médicos relatos de pacientes adultos com complicações neurológicas após a infecção pelo Zika, mas isso ainda não havia sido colocado à prova em laboratório.

Para fazê-lo, coletaram tecidos cerebrais humanos de pacientes que se submetiam a cirurgias neurológicas no hospital da universidade.

Esses tecidos foram cultivados em laboratório e infectados pelo Zika. "Vimos que o vírus infectava os neurônios e se replicava, ou seja, produzia novas partículas virais", prossegue Figueiredo.

Depois, os pesquisadores testaram o efeito do vírus em cérebros de camundongos, com conclusões semelhantes: a infecção causava um processo inflamatório no cérebro dos roedores e resultava na perda de sinapses - que é o processo em que os neurônios transmitem impulsos entre si. O Zika, aponta o estudo, se multiplicava principalmente em áreas relacionadas à memória e ao controle motor.

Nos roedores, os efeitos neurológicos atingiam seu pico seis dias após a infecção e praticamente desapareciam 60 dias depois. No entanto, o efeito em humanos pode ser mais duradouro, a depender de cada caso.

"A vida do camundongo é de dois anos, então 60 dias é muito tempo para eles, proporcionalmente", diz Figueiredo.


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FERNANDA CARVALHO/ FOTOSPÚBLICASImage captionDescobertas recentes abrem novas frentes relacionadas ao estudo da zika, transmitida pelo Aedes aegypti
Nova frente de pesquisa

As descobertas, afirma Figueiredo, abrem uma "nova frente de trabalho" relacionada aos estudos do Zika, que continua ativo no Brasil - foram registrados 2.344 prováveis casos de infecção pelo vírus entre janeiro e março deste ano, segundo o mais recente boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, datado de abril.

"(O efeito em adultos) não é o principal problema do Zika, considerando que a microcefalia em bebês foi algo devastador. E em adultos, não é uma maioria que vai desenvolver complicações. Mas (o objetivo) é ajudar a traçar novas políticas de saúde pública para avaliar melhor esses pacientes."

Mais informações sobre esses impactos até então pouco conhecidos do Zika, diz ela, podem ajudar médicos a traçar diagnósticos neurológicos melhores e mais rápidos em pacientes que saibam que foram infectados pelo vírus, economizando custos de exames e tomografias.

Além disso, o estudo da UFRJ identificou que, em alguns casos, um medicamento anti-inflamatório - de nome genérico infliximab -, hoje usado no tratamento de artrite reumatoide, pode ajudar no tratamento de pacientes adultos com complicações neurológicas da zika, embora não em todos os casos.

Um grave problema futuro na busca para entender melhor os impactos do Zika, opina Figueiredo, é o anúncio do governo de cortes de 5,6 mil bolsas de pós-graduação da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).

Bolsas do tipo serviram para garantir a conclusão da pesquisa recém-publicada - que teve financiamento também da Rede de Pesquisa em Zika, Chikungunya e Dengue no Estado do Rio de Janeiro e da Fundação Carlos Chagas de Amparo à Pesquisa (Faperj) -, e sua ausência deve inviabilizar pesquisas futuras sobre o vírus.

"Bolsas são fundamentais para realizarmos pesquisas como esta. Não temos pesquisadores contratados, mas sim alunos bolsistas de pós-graduação da Capes coordenados por professores. Sem as bolsas, vai ser impossível fazer ciência", diz ela.



Autor: BBC Brasil News
Fonte: BBC Brasil News
Sítio Online da Publicação: BBC Brasil News
Data: 05/09/2019
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-49569915https://www.bbc.com/portuguese/geral-49569915

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Palestra na Ensp abordou zika e saúde global

A Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz) recebeu a professora da London School of Economics and Political Science (LSE), Clare Wenham, para ministrar a palestra Limpe sua casa e não engravide: zika e uma crítica feminista da securitização da Saúde Global, na sexta-feira (9/8). Promovida pela Rede Zika Ciências Sociais, coordenada pelo pesquisador da Ensp Gustavo Matta e pela pesquisadora do Instituto de Pesquisas René Rachou (Fiocruz Minas), Denise Pimenta, a atividade abordou a falta de inclusão da mulher em políticas de segurança e saúde global, além dos seus impactos durante as emergências sanitárias.

De acordo com a especialista do Departamento de Políticas de Saúde Global da LSE, as autoridades falham em incluir mulheres em políticas de segurança e saúde pública global. Por isso, continuam sendo negligenciadas durante crises de saúde. "Isso significa que as mulheres vão continuar a enfrentar um impacto desigual durante emergências sanitárias”, salientou. “Nós precisamos fazer com que as políticas de saúde sejam feitas também por mulheres, e dar certeza de que as políticas em saúde também serão boas e inclusivas para elas”.

A pesquisadora ainda mencionou o fato de que as desigualdades estruturais nas políticas de saúde pública – segundo ela, um dos fatores que fazem doenças transmitidas por vetores emergirem – acabam afetando grupos mais vulneráveis da sociedade, como mulheres pobres e negras. "Para o governo, é fácil responsabilizar as mulheres porque é um grupo com poder político limitado. Não há menção específica sobre mulheres em políticas de saúde globais em alguns documentos do Reino Unido e Estados Unidos, por exemplo”, afirmou.

Apesar de demonstrar que a construção de políticas públicas que sustentam lideranças governamentais notadamente apresentam uma superioridade masculina implícita, Clare admitiu que mudanças estão surgindo. “O Conselho de Segurança das Nações Unidas, por exemplo, demonstrou preocupação quanto ao impacto sobre as mulheres do surto de Ebola no Oeste da África”, disse.

Para a professora, a mudança se inicia a partir da conscientização. O reconhecimento das diferenças de gênero, e seus respectivos efeitos, seriam a base para a desconstrução de estereótipos e renovação de métodos científicos. Ainda que já tenham sido feitas alterações sobre esse quadro de generalização, não há um senso comum. “Eles estão começando a pensar sobre isso, mas não é lugar comum, ainda não é o tipo de políticas que estamos vendo. Então, a consciência é o começo, reconhecer o problema e desenvolver a política adequada”.

Professora e diretora do Mestrado em Política de Saúde Global da LSE, Wenham trabalha com a correlação entre saúde global e relações internacionais, com enfoque em segurança e regulamentação da saúde global. Sua mais recente pesquisa aborda doenças como Zika e Ebola, além do panorama global e das estruturas governamentais no controle de doenças.




Autor: Mariane Freitas e Matheus Cruz (Ensp/Fiocruz)
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 20/08/2019
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/palestra-na-ensp-abordou-zika-e-saude-global

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Estudo mostra que a infecção pelo vírus zika pode causar disfunção da bexiga



Por: Mayra Malavé (IFF/Fiocruz)

Já não há dúvidas, a Bexiga Neurogênica (BN) está entre as complicações relacionadas à Síndrome Congênita do Zika Vírus (SCZV), de acordo com os novos resultados da pesquisa realizada no Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz). Uma recente publicação se soma ao estudo publicado em março de 2018, que apresentou à comunidade científica internacional a BN como uma sequela da SCZV.

Estes novos resultados, que focam no aspecto urodinâmico do problema, foram decorrência da continuidade e aprofundamento da pesquisa iniciada em 2016 pelo Ambulatório de Urodinâmica Pediátrica do IFF/Fiocruz. No artigo, intitulado Neurogenic bladder in the settings of congenital Zika syndrome: a confirmed and unknown condition for urologists, os autores chamam a atenção de especialistas sobre a importância de investigar esta nova causa de Bexiga Neurogênica, para prevenir a lesão renal.

O artigo sobre esse novo estudo foi divulgado no veículo científico internacional Jornal of Pediatric Urology, e, para conhecer mais sobre a sua importância, a seguir a médica Lucia Monteiro esclarece os detalhes da pesquisa:

O que é a Bexiga Neurogênica?

LM: É uma disfunção da bexiga causada por dano neurológico, que é diagnosticada através do estudo urodinâmico. Os sintomas mais comuns são a infecção urinária e a incontinência ou a retenção urinária, que nem sempre são percebidos em crianças pequenas. Mas o risco de complicações graves é alto (infecções recorrentes, entre outros, que podem inclusive chegar ao comprometimento dos rins). Por isso é importante estar atento porque o diagnóstico precoce e o início oportuno do tratamento podem mitigar o impacto da doença e promover, a longo prazo, a saúde do paciente.

Como surgiu a pesquisa que relacionou a condição de BN com a Síndrome Congênita do Zika Vírus?

LM: Nós fomos os primeiros no mundo a descobrir que esses pacientes tinham bexiga neurogênica e isso só foi possível porque no IFF/Fiocruz já havia uma equipe multidisciplinar, coordenada pela Maria Elizabeth Lopes Moreira, que vinha investigando os pacientes com SCZV quando a síndrome era uma coisa nova. Quando nossa equipe, do Ambulatório de Urodinâmica Pediátrica viu as alterações neurológicas encontradas nas ressonâncias magnéticas realizadas para o controle da microcefalia destes pacientes, observamos que as áreas que controlam o sistema urinário inferior também estavam afetadas. E suspeitamos que esses pacientes poderiam desenvolver BN. Escrevemos o projeto para investigar as sequelas urológicas, e após aprovação pelo CEP/IFF, submetemos ao Edital N° 14/2016 do MCTIC/FNDCT-CNPq/MEC-CAPES/MS-Decit. Fomos selecionados e passamos a integrar as coortes nacionais para a prevenção e combate ao vírus zika. Na primeira fase da pesquisa, avaliamos 20 pacientes e todos (100%) tinham BN de alto risco. Temos uma vasta experiência, de mais de 25 anos tratando pacientes com esta disfunção miccional, e isso nos ajudou a concluir que todos os pacientes com SCZV poderiam estar afetados, e precisavam ser investigados.

Por que uma segunda pesquisa?

LM: Na verdade não é uma segunda pesquisa, e sim uma segunda publicação resultante da continuidade e aprofundamento da pesquisa iniciada em 2016. Embora a primeira publicação tenha sido muito importante por ser a primeira a confirmar BN como sequela da SCZV, a população de estudo ainda era pequena. O Brasil já tinha mais de três mil pacientes afetados, a maioria na região Nordeste, que precisavam também ser beneficiados. Nesta segunda publicação, triplicamos o número de pacientes investigados e continuamos encontrando bexiga neurogênica em todos (100%). Também aprofundamos as questões relacionadas às situações de risco para o sistema urinário e escrevemos o artigo buscando alertar os especialistas que continuava desconhecendo o problema.

Qual é a importância destes segundos resultados?

LM: Esses novos resultados acabaram de vez com as dúvidas e confirmaram que a bexiga neurogênica é realmente uma sequela da síndrome. Tanto que atualmente não consideramos mais a indicação da avaliação urodinâmica nestes pacientes como parte da pesquisa, mas sim como uma obrigação clínica, já que nossa experiência mostra que esse é um problema que tem tratamento, e que o diagnóstico e a intervenção precoce podem reduzir em até três vezes o risco destes pacientes desenvolverem lesão renal. Anteriormente, como não existia comprovação científica da relação entre a condição de BN e a SCZV, o estudo urodinâmico não fazia parte do protocolo de atendimento nessas crianças.

Para um paciente sem tratamento, qual é o maior risco de ter uma infecção urinária?

LM: É lesar o rim. Cada episodio de infecção urinária grave tem potencial para gerar uma cicatriz no rim, que ficará para sempre. Um rim continuamente agredido por infecções pode evoluir para insuficiência renal, e todos nós conhecemos os problemas sofridos por pacientes que necessitam de hemodiálise e transplante. Além disso, a BN pode gerar graves problemas sociais, relacionados à incontinência urinaria crônica e as visitas recorrentes ao hospital e internações para o tratamento de infecção urinaria, entre outros. E isso tudo pode ser evitado com realização do exame para comprovar o diagnostico e iniciar o tratamento.

Qual é a importância do exame urodinâmico em pacientes com SCZV?

LM: A urodinâmica é o único exame que diagnostica com certeza, por isso é o padrão ouro na bexiga neurogênica. Além disso, ajuda a orientar e a avaliar o tratamento e por isso, repetir o exame é muito importante. Como analisa o enchimento e o esvaziamento da bexiga, a urodinâmica é capaz de evidenciar situações de risco, como bexigas muito pequenas, com pressões muito elevadas ou que não se esvaziam completamente durante a micção, um problema constantemente observado em pacientes com SCZV e que causa infecção urinária. Com a segunda publicação nós mostramos isso. O ideal seria que estes pacientes fizessem o exame desde o primeiro mês de vida. Temos que lembrar que a BN é uma das sequelas que podem ser tratadas e normalizadas no âmbito da SCZV. Quanto mais cedo começamos a tratar, maior a probabilidade de melhorar a resposta do rim.

O que acontece agora?

LM: Já sabemos da obrigação de investigar o sistema urinário de todos os pacientes com alteração neurológica devido a SCZV, e de orientar estas famílias sobre a importância e as vantagens do tratamento urológico na evolução do paciente. Não é mais só o interesse de pesquisa, temos responsabilidades com estes pacientes e precisamos lutar para aumentar a adesão e evitar as faltas que vem impedindo o acompanhamento adequado. Estamos também revisando os dados referentes á evolução e resposta ao tratamento, para que possam ser compartilhados com as famílias e a comunidade científica, incluindo uma avaliação exaustiva de todos os episódios de infecção urinaria, com o apoio da médica do Ambulatório de Urodinâmica Pediátrica do IFF/Fiocruz, Glaura Cruz e da bolsista Julia Oliveira. No âmbito nacional, estamos ampliando cooperações e realizando capacitações para que as sequelas urológicas possam ser investigadas e tratadas, principalmente na região Nordeste que é a mais afetada, permitindo que mais crianças possam ser beneficiadas.

O tempo está passando, as crianças ficando mais velhas e estamos perdendo a janela de oportunidade para reverter o processo de cronificação desta doença urológica. As evidências tem apontado para bexigas neurogênica de alto risco, com grande parte dos pacientes fazendo retenção urinaria e vários já tendo sido internados por infecção urinaria grave. Estamos tentando sensibilizar as famílias e os profissionais de saúde para a importância de realizar o exame, comparecer com regularidade as consultas e fazer o tratamento.

Quais são as dificuldades atuais?

LM: A falta de conhecimento de que a SCZV causa BN atrasa a investigação e o tratamento. Por isso a população e os profissionais devem ser sensibilizados para os riscos que a síndrome pode causar ao trato urinário, de maneira que tratamentos adequados sejam iniciados para evitar danos renais irreversíveis. Meu incomodo é saber que existem muitas crianças ainda desassistidas. Até onde vai o meu conhecimento, além de nós, somente as crianças das coortes de Macaíba (RN) e de Campina Grande (PB) estão sendo investigadas e tratadas, e esses são os centros com os quais temos cooperação. Alguns outros profissionais estão começando a investigar, com base nas nossas publicações. Embora ainda não possamos afirmar se permanecerá assim por longo prazo, a maioria dos pacientes que já foram avaliados estão apresentando boa resposta ao tratamento. Atualmente, acreditamos que todas as crianças com SZCV têm potencial para desenvolver BN, e por isso todas precisam ter acesso ao exame urodinâmico para o devido diagnóstico e o correto tratamento. Mas ainda falta muito para isso se tornar realidade.

Qual é o panorama atual no tratamento para BN em pacientes com SCVZ?

LM: Estamos evoluindo, mas um dos maiores problemas é o absenteísmo. Em geral, os pacientes faltam muito aos exames e às consultas. A criança com SCZV tem muitos problemas e muitas demandas. Como os sintomas urológicos são muito silenciosos, é muito comum que estes sejam negligenciados pelas famílias em privilégio de outros que são mais visíveis. Na Bexiga Neurogênica, o sintoma vai ser percebido lá na frente, quando as complicações aparecerem. Acredito que isso faça com que muitos pais marquem o exame e não compareçam. Existe também uma rejeição à realização do cateterismo, por medo e desconhecimento. Temos alguns pacientes cujos pais não aceitavam a realização do exame até o momento que a criança desenvolveu uma infecção urinária grave, consequência da doença. Uma das nossas metas atuais é reduzir o absenteísmo e para isso estamos contando com o apoio das especialistas do Ambulatório de Urodinâmica Pediátrica do IFF/Fiocruz, Grace Araújo e Jo Malacarne, e da bolsista Nathalia Lopes, para confirmação prévia de comparecimento às consultas e exames e com reforço do contato e acompanhamento com as mães.

Fontes consultadas:

Primeiro artigo: Neurogenic bladder findings in patients with Congenital Zika Syndrome: A novel condition

Segundo artigo: Neurogenic bladder in the settings of congenital Zika syndrome: a confirmed and unknown condition for urologists

Orientações para investigação: Criteria to evaluate neurogenic bladder in patients with Congenital Zika Syndrome

Artigo de revisão: Early treatment improves urodynamic prognosis in neurogenic voiding dysfunction: 20 years of experience



Autor: Mayra Malavé
Fonte: IFF/Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 11/07/2019
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/estudo-mostra-que-infeccao-pelo-virus-zika-pode-causar-disfuncao-da-bexiga

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Biossensor para diagnóstico rápido e preciso de zika

Uma tecnologia de baixo custo para diagnosticar de forma rápida e precisa o vírus zika foi desenvolvida por pesquisadores ligados ao Centro de Desenvolvimento de Materiais Funcionais (CDMF), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) apoiado pela FAPESP e sediado na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Resultados da pesquisa foram publicados nas revistas Scientific Reports e Talanta.

O grupo, liderado por Talita Mazon, do Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer, em Campinas, desenvolveu um biossensor portátil, econômico e simples de usar – ideal para aplicações no ponto de atendimento. O custo estimado do dispositivo é de R$ 450.

Uma placa de circuito impresso comumente usada em aparelhos eletrônicos foi modificada pelos cientistas, que elaboraram um compósito de óxido de zinco e grafeno para imobilizar um anticorpo contra a proteína NS1 do zika em um eletrodo. A placa biossensora mostrou alta sensibilidade e seletividade para a proteína-alvo.

Com apenas uma gota de urina do paciente é possível fazer o teste e a presença da molécula viral se torna visível em gráficos na tela de um computador ou de um equipamento portátil, como um telefone celular.

Segundo Mazon, o importante é que o biossensor consegue distinguir o zika do vírus da dengue. As duas espécies aparentadas produzem proteínas semelhantes e a maioria dos testes existentes pode dar resultados falsos positivos e falsos negativos, comprometendo o tratamento.

“Conseguimos identificar o zika desde o primeiro até o oitavo dia da infecção", disse a pesquisadora à assessoria de comunicação do CDMF. O centro também recebe financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) por meio do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia dos Materiais em Nanotecnologia (INCTMN).

O artigo Controlling parameters and characteristics of electrochemical biosensors for enhanced detection of 8-hydroxy-2′-deoxyguanosine , de Aline M. Faria, Elisa B. M. I. Peixoto, Cristiane B. Adamo, Alexandre Flacker, Elson Longo e Talita Mazon, pode ser lido em www.nature.com/articles/s41598-019-43680-y.

O artigo Early diagnosis of Zika infection using a ZnO nanostructures-based rapid electrochemical biosensor, de Aline Macedo Faria e Talita Mazon, pode ser lido em: www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0039914019304783?via%3Dihub.






Autor: Agência FAPESP
Fonte: FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data: 19/06/2019
Publicação Original: http://agencia.fapesp.br/biossensor-para-diagnostico-rapido-e-preciso-de-zika/30787/

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Fiocruz desenvolve teste para Zika mais barato e rápido

Agência Brasil


Sumaia Villela/Agência Brasil 
Exames para identificar vírus da Zika vão poder ser feitos em 20 minutos


Exames para identificar infecção pelo vírus da Zika em breve vão poder ser feitos em 20 minutos. Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em Pernambuco, desenvolveram um método simples e 40 vezes mais barato que o tradicional. A expectativa é que chegue aos postos de saúde antes do final do ano, beneficiando, principalmente, os municípios afastados dos grandes centros, onde o resultado do teste de Zika pode demorar até 15 dias. As informações são de um dos criadores da técnica, o pesquisador da unidade Jefferson Ribeiro.


“Tendo em vista que a técnica atual (PCR) é extremamente cara e o Brasil tem poucos laboratórios de referência que podem realizar o diagnóstico de Zika – até um tempo atrás eram apenas cinco, inclusive a Fiocruz de Pernambuco -, uma cidade pequena, no interior do estado, acaba prejudicada. A amostra precisa sair do interior, ir para a capital, para ser processada, enfim, se pensarmos nesses municípios, o resultado pode demorar 15 dias”, destaca Ribeiro.

Outra vantagem do novo teste é que pode ser feito por qualquer pessoa nos posto de saúde, não exige treinamento complexo. Com um kit rápido, basta coletar amostras de saliva ou urina, misturar com reagentes fornecidos em um pequeno tubo plástico e depois aquecer em banho maria. Vinte minutos depois, se a cor da mistura se tornar amarela, está confirmado o diagnóstico de Zika, se ficar laranja, o resultado é negativo. Hoje, o teste PCR (reação em da polimerase), com reagentes importados, é feito com material genético retirado das amostras, o que demora mais.

O teste elaborado pela Fiocruz Pernambuco é também mais preciso, ou seja, tem uma taxa de erro menor, acusando a doença mesmo em casos que não foram detectados pela PCR.

A expectativa dos pesquisadores é que o kit seja desenvolvimento pela indústria nacional, com a participação da Bio-manguinhos, e disponibilizado até o fim do ano. Testes semelhantes já são usados para o vírus da dengue e outras bactérias. “Essa é a nossa pretensão, para facilitar a disponibilidade para o Sistema Único de Saúde”, disse Ribeiro.

Zika
O número de casos de Zika, que pode causar microcefalia em bebês, vem diminuindo nos últimos anos. No entanto, o país ainda teve 8.680 diagnósticos em 2018 (em 2017 foram 17.593), com maior incidência no Norte e Centro-Oeste. A doença está relacionada à falta de urbanização e de saneamento básico e costuma aumentar nas estações chuvosas.

A Zika é transmitida principalmente por picadas de mosquito, mas também durante a relação sexual desprotegida e de mãe para filho, na gestação. Provoca complicações neurológicas como a microcefalia e a Síndrome de Guillain Barré. Começa com manchas vermelhas pelo corpo, olho vermelho, febre baixa e dores pelos corpos e nas juntas, geralmente, sem complicações.

O novo teste para a Zika foi desenvolvido no mestrado em Biociências e Biotecnologia em Saúde, com orientação do professor Lindomar Pena. Em breve, será publicado em detalhes em revista científica. Anteriormente, os pesquisadores publicaram artigo com os resultados dos testes para amostras de mosquitos infectados e não de secreções humanas.




Autor: R7 Saúde
Fonte: R7 Saúde
Sítio Online da Publicação: R7 Saúde
Data: 14/4/2019
Publicação Original: https://noticias.r7.com/saude/fiocruz-desenvolve-teste-para-zika-mais-barato-e-rapido-14042019?amp

quarta-feira, 27 de março de 2019

Vacina da febre amarela pode proteger contra zika, indica estudo brasileiro



Vacina da febre amarela pode ajudar contra o vírus da Zika: Pesquisa concluiu que a vacina protegeu camundongos da infecção do vírus em laboratório — Foto: Divulgação



Enquanto cientistas do mundo correm em busca de uma vacina contra o vírus Zika, pesquisadores no Rio de Janeiro constataram que a resposta pode estar em uma vacina amplamente disponível, testada e adotada mundialmente: a da febre amarela.


"Talvez a solução estivesse na nossa frente o tempo todo", diz o médico Jerson Lima Silva, professor do Instituto de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um dos coordenadores de estudo divulgado na segunda-feira (25).


Conduzida por dezesseis pesquisadores da UFRJ e da Fundação Oswaldo Cruz, a pesquisa concluiu que a vacina da febre amarela protegeu camundongos da infecção do vírus em laboratório, reduzindo a carga do vírus no cérebro e prevenindo deficiências neurológicas.


"Apareceu como um ovo de Colombo", diz Silva, referindo-se à expressão que descreve uma solução complexa que, depois de demonstrada, parece óbvia.


"Nossa pesquisa mostra que uma vacina eficiente e certificada, disponível para uso há diversas décadas, efetivamente protege camundongos contra infecção do vírus Zika", diz o estudo, publicado online que ainda precisa passar pelo processo de revisão por pares exigido por periódicos científicos, que têm um trâmite demorado.


Esse sistema de publicação é adotado para disponibilizar rapidamente resultados iniciais de pesquisas à comunidade científica internacional.


A corrida por uma vacina contra a zika começou em 2016, quando se comprovou a suspeita de que a doença recém-chegada ao Brasil, até então considerada inofensiva, era a causa do surto de bebês que nasciam com microcefalia e malformações neurológicas - conjunto de sintomas hoje designado como síndrome da zika congênita.



A corrida por uma vacina começou em 2016, quando se comprovou a suspeita de que a doença era a causa do surto de bebês com microcefalia — Foto: AP Photo/Felipe Dana


O surto levou o governo brasileiro e a Organização Mundial da Saúde a decretarem situações de emergência, posteriormente suspensas. Além dos graves problemas que pode causar nos bebês durante a gestação, a zika é associada ao surgimento da síndrome de Guillain-Barré em adultos.




Vírus semelhantes




Tanto a zika e quanto a febre amarela são transmitidos por vírus da família dos Flavivírus. A estruturas biológicas dos vírus são semelhantes, o que inspirou a equipe no Rio a testar os efeitos da vacina de febre amarela sobre o vírus Zika.


Além disso, diz o médico Jerson Lima Silva, a região que teve maior incidência de zika, o Nordeste do país, é também a que tinha a menor cobertura vacinal para febre amarela. "Então resolvemos testar essa hipótese", afirma o professor da UFRJ. O estudo foi coordenado por Silva, Andrea Cheble Oliveira e Andre Gomes, do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Biologia Estrutural e Bioimagem, e pelo professor Herbert Guedes, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ.


A equipe realizou testes com dois grupos de camundongos, um composto por indivíduos saudáveis e outro por indivíduos com sistema imune comprometido, mais suscetíveis à propagação do vírus.


O Aedes aegypti é o mosquito transmissor da zika e da febre amarela — Foto: Pixabay/Divulgação


Nos dois grupos, parte dos animais foi imunizada com a vacina de febre amarela e outra recebeu apenas uma solução salina, sem nenhum efeito imunológico. Depois, todos receberam injeções intracerebrais do vírus da zika, de modo a simular infecções com alto índice de letalidade.


"Sem a vacina, os mais suscetíveis morreram e os normais desenvolveram sintomas da doença. Já entre os vacinados, os suscetíveis não morreram e todos apresentaram carga viral extremamente reduzida no cérebro", explica Silva. O vírus Zika consegue furar a proteção da placenta durante a gestação, e se alastra pelo cérebro do bebê, impedindo que se forme corretamente.




Próximos passos




A pesquisa foi conduzida ao longo de dois anos. O grupo trabalha agora para entender os mecanismos de proteção contra o vírus desenvolvidos a partir da vacina da febre amarela. O médico diz que o próximo passo é realizar testes em primatas.


"Os resultados foram muito evidentes. A gente acredita que há uma grande chance de (a vacina da febre amarela) proteger humanos (contra a zika), já que os testes com animais demonstraram uma proteção tão forte", considera Silva. Ele espera que os próximos passos para determinar se a vacina pode ser recomendada à sociedade como uma proteção eficiente contra a zika não tardem. Por enquanto, entretanto, é preciso cautela. "Como todo estudo científico, este precisa ser reproduzido e confirmado", diz.


Se o efeito for comprovado para humanos, ressalta o pesquisador da UFRJ, haveria uma grande vantagem em poder contar com uma vacina licenciada, usada há décadas e disponível no mercado - e que poderia ser distribuída e aplicada prontamente no caso de um novo surto de infecções. Desenvolver uma nova vacina envolve passar por muitos testes, acertos e erros e etapas de segurança.


O estudo teve financiamento da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Ministério da Saúde, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).




Autor: BBC
Fonte: BBC
Sítio Online da Publicação: BBC
Data: 26/03/2019
Publicação Original: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/03/26/vacina-da-febre-amarela-pode-proteger-contra-zika-indica-estudo-brasileiro.ghtml

segunda-feira, 18 de março de 2019

Pesquisadores da Fiocruz desenvolvem teste que custa R$ 1 para detectar zika em menos de uma hora



Aedes aegypti é o mosquito transmissor da dengue, febre amarela, chikungunya e vírus da zika — Foto: Pixabay/Divulgação


Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Pernambuco desenvolveram uma técnica mais barata e mais rápida para detectar o vírus da zika. Depois de cinco meses de pesquisa, foi desenvolvido um teste que custa R$ 1 e apresenta resultados em menos de uma hora. O padrão utilizado atualmente, o PCR, tem custo unitário de R$ 40 e mostra resultados após cinco horas.


De acordo com o estudante Seferino Jefferson, autor da pesquisa, a tecnologia não necessita o uso de equipamentos complexos ou caros para apresentar o resultado. “Queríamos chegar a um método que não precisasse de tanta complexidade para diagnosticar a doença e chegamos a esse resultado. Cada teste custa R$ 1 e o resultado pode ser visto a olho nu”, diz o pesquisador.


Chamada de amplificação isotérmica mediada por alça, a técnica mistura agentes moleculares com o material genético do indivíduo em teste. O método também diminui o tempo de obtenção dos resultados em relação à técnica PCR. “Os reagentes do nosso teste mostram [resultados] em pouco mais de 20 minutos”, afirma Jefferson.


Para chegar ao resultado, foram utilizadas 60 amostras de mosquitos Aedes aegypti e Culex quinquefasciatus. Os insetos foram infectados naturalmente ou em laboratório com os vírus da zika, dengue, febre amarela e chikungunya. Na próxima etapa da pesquisa, o grupo pretende concluir os testes com amostras humanas.


O orientador da pesquisa, Lindomar Pena, conta que o método também apresenta mais sensibilidade. “Em alguns casos em que o vírus da zika não foi detectado pela PCR, nós conseguimos detectar através desse teste”, afirma o professor.


O método, no entanto, apresenta resultados específicos para zika e não apresentou reação cruzada para outras arboviroses. “Vamos patentear para disponibilizar ao público. A nossa expectativa é de que a população possa utilizar esse método nos próximos anos”, declara Pena.




Autor: G1 PE
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 15/03/2019
Publicação Original: https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2019/03/15/pesquisadores-da-fiocruz-desenvolvem-teste-que-custa-r-1-para-detectar-zika-em-menos-de-uma-hora.ghtml

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Pessoas com anticorpos contra a dengue têm menor chance de contrair zika



O surto da zika, ocorrido no período de 2015/2016, representou uma das maiores emergências de saúde pública do Brasil. Um novo estudo liderado por pesquisadores da Fiocruz Bahia, Fiocruz Pernambuco, Universidade Federal da Bahia (UFBA) e a Escola Pública de Yale, além de outros parceiros internacionais, demonstrou que as pessoas que possuíam anticorpos contra a dengue tinham menor probabilidade de serem infectadas pelo zika durante o surto.

A revelação de que a imunidade resultante da infeção gerada pelo vírus da dengue protegeu indivíduos da zika foi obtida a partir do acompanhamento de uma coorte de 1.453 pessoas, formada por moradores do bairro Pau da Lima, em Salvador, Bahia, uma área em que cerca de 73% dos indivíduos tiveram contato com o vírus zika. O estudo que descreve os procedimentos da pesquisa e os mecanismos que geram a proteção foi publicado na revista Science.

Os vírus da zika e da dengue compartilham muitas semelhanças genéticas e circulam nas mesmas regiões. Uma questão-chave em ainda estava em aberto foi se os anticorpos que são gerados a partir de uma infecção por dengue poderiam protegem as pessoas ou as tornam mais suscetíveis a uma infecção por zika. “Este estudo é o primeiro a avaliar esta questão e demonstrar que a imunidade à dengue pode proteger contra uma infecção por zika em populações humanas”, disse Federico Costa, pesquisador visitante da Fiocruz Bahia e professor do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA.

O pesquisador da Fiocruz Bahia, Mitermayer Galvão dos Reis, destacou que a população de Pau da Lima já é acompanhada há quase 20 anos pelo grupo de pesquisa e defendeu que o fato do trabalho ser multicêntrico contribuiu para o avanço no conhecimento científico. “Estudos anteriores realizados na Fiocruz Bahia já indicaram que a infecção por zika também gerou resposta imune cruzada contra dengue. Mostramos que trabalhando de forma organizada, em parcerias, você pode aumentar o conhecimento científico, gerar evidencia para tomada de decisões políticas futuras e formar e capacitar recursos humanos”, afirmou.

Uma explicação para a relação entre a epidemia e a síndrome congênita associada a zika também foi oferecida pelos pesquisadores. “A taxa de infecção extremamente alta entre as mulheres grávidas de comunidades empobrecidas, como no nosso local de estudo, foi certamente a principal razão pela qual tivemos um grande surto de microcefalia entre as crianças no final de 2015”, disse Albert Ko, professor da Escola de Saúde Pública de Yale e um dos autores principais do estudo.

A pesquisa indicou que, embora a taxa geral de infecção tenha sido alta em Pau da Lima, os pesquisadores descobriram grandes diferenças no risco de infecção pelo zika, em curtas distâncias. Dependendo de onde as pessoas viviam, as taxas de infecção variavam de um mínimo de 29% a um máximo de 83%. Os autores defenderam que, embora houvesse áreas da comunidade que não foram atingidas pelo zika durante o surto, a grande maioria da população estava infectada com o vírus altamente transmissível e por isso desenvolveu imunidade a esse vírus, o que, por sua vez, levou à extinção da transmissão e causou o declínio do surto. “A pandemia de zika criou altos índices gerais de imunidade a esse vírus nas Américas, o que será uma barreira para os surtos nos próximos anos”, disse Isabel Rodriguez-Barraquer, professora assistente da Universidade da Califórnia, em San Francisco.

O estudo foi apoiado pela Escola de Saúde Pública de Yale, Ministérios da Saúde, Educação e Ciência e Tecnologia do Brasil e os Institutos Nacionais de Saúde.




Autor: IGM/Fiocruz Bahia
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 11/02/2019
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/pessoas-com-anticorpos-contra-dengue-tem-menor-chance-de-contrair-zika

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Quem teve dengue está protegido contra o zika vírus?

A dengue (DENV) e o zika (ZIKV) estão amplamente correlacionados e possuem mais elementos em comum do que apenas a transmissão pelo mosquito Aedes aegypti. Ambas as doenças são denominadas como arbovírus, são autolimitadas, causam sintomas semelhantes (febre, dor de cabeça e no corpo) e podem deixar sequelas graves nos pacientes.

Na literatura científica há uma vasta gama de materiais que abordam os sintomas e efeitos adversos relacionados ao vírus da zika e da dengue. No entanto, faltam evidências que confirmem, por exemplo, se a infecção por DENV protegeria o indivíduo contra infecção do ZIKV.

Com base neste questionamento, foram elaborados dois estudos independentes entre si que analisaram indivíduos infectados pelo zika vírus. O primeiro levantamento foi realizado no Brasil, em Salvador (BA), após epidemia da doença na capital baiana em 2015-16; e o segundo ocorreu na Nicarágua, depois de um surto do ZIKV em 2016.

O primeiro estudo denominou-se Impact of preexisting dengue immunity on Zika virus emergence in a dengue endemic region foi conduzido por Rodriguez-Barraquer et al, que selecionaram 1453 moradores da capital baiana. Por meio de um teste que mediu a imunoglobulina G3 (IgG3), responsável pela resposta contra antígenos os pesquisadores ZIKV NS1. pesquisadores descobriram que 73% dos participantes já haviam sido infectados com o zica durante a última epidemia (2015-2016). Os anticorpos preexistentes associados ao DENV também foram relacionados a 9% de redução no risco para a infecção do ZIKV (IC 95% [1 a 17%]).

No entanto, o estudo Prior dengue virus infection and risk of Zika: A pediatric cohort in Nicaragua, conduzido por Aubree Gordon et al entre 2016 e 2017, contesta os achados dos pesquisadores brasileiros e sugere que a preexistência de anticorpos contra o vírus da dengue não diminui o risco de infecção pelo do zika, apesar de amenizar os efeitos da segunda doença. A pesquisa foi conduzida em Managua, capital do país, com aproximadamente 3.700 pacientes pediátricos (entre 2 e 14 anos).

Os pesquisadores identificaram 1.356 infecções por zika (560 sintomáticos e 796 assintomáticos) entre os participantes. Por meio da história do paciente, pelo menos uma infecção anterior por dengue foi constatada em 743 crianças, 24,5% do total pesquisado. O estudo concluiu que os sintomas do ZIKV foram menores quando houve presença anterior de DENV (razão de incidência: 0,63; IC 95% [0,48 a 0.81]; p <0,005), porém o risco de infecção permaneceu inalterado. A limitação da pesquisa deveu-se ao coorte ser composto apenas por crianças, logo mais pesquisa devem ser aplicadas para determinar a relação entre as duas doenças em um público mais amplo.







Autor: Roberto Caligari
Fonte: PEBMED
Sítio Online da Publicação: PEBMED
Data: 08/02/2019
Publicação Original: https://pebmed.com.br/quem-teve-dengue-esta-protegido-contra-o-zika-virus/