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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Brasileiros criam sistema para prever epidemias de dengue e febre amarela




CRÉDITO,JOAO PAULO BURINI/GETTY IMAGES
Legenda da foto,

O mosquito Aedes aegypti é o principal transmissor de dengue, zika e chikungunya em regiões urbanas do Brasil


Num ano marcado pelo surgimento de um novo coronavírus, velhos conhecidos dos brasileiros continuaram a causar estragos: dengue, chikungunya, zika e febre amarela afetaram a saúde de centenas de milhares de pessoas país adentro.


Dados do último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde revelam que foram contabilizados mais de 979 mil casos suspeitos de dengue no Brasil ao longo de 2020.


Outras moléstias infecciosas transmitidas por picadas de mosquitos também tiveram números relevantes: foram quase 80 mil notificações de chikungunya, cerca de 7 mil de zika e 19 de febre amarela.


Os cientistas classificam essas quatro doenças como endemias. Isso significa que elas acontecem com frequência e se repetem há anos em algumas regiões específicas de nosso continente.


Mas será que é possível prever novos surtos e impedir que os números de casos e mortes subam vertiginosamente?

Essa é a missão de um grupo de cientistas espalhados por mais de dez instituições nacionais e internacionais.


Eles acabam de lançar um projeto ambicioso, que vai monitorar o comportamento desses vírus pelos próximos cinco anos.


A partir daí, eles pretendem criar modelos que permitirão se antecipar às futuras crises de saúde pública causadas por essas enfermidades.


Um 'Big Brother' da biologia


A pesquisa vai acontecer em quatro lugares: São José do Rio Preto (SP), Manaus (AM) e em algumas regiões do Pantanal e do Panamá.


"São locais em que há muita transmissão de doenças por mosquitos e onde temos laboratórios e profissionais capacitados para trabalhar", justifica o médico virologista Maurício Lacerda Nogueira, professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp) e um dos coordenadores da iniciativa.


Ao longo dos próximos cinco anos, os cientistas vão fazer um monitoramento contínuo dos quatro personagens envolvidos no processo de uma epidemia: os vírus, os mosquitos, os animais intermediários e os seres humanos.


A proposta é, entre outras coisas, fazer o sequenciamento genético dos vírus causadores dessas doenças e analisar a distribuição e o comportamento de seus transmissores: os mosquitos Aedes aegypti (que dissemina dengue, zika e chikungunya em ambientes urbanos), Haemagogus e Sabethes (vetores da febre amarela em áreas silvestres).


Outra atividade será acompanhar os animais que também podem ser infectados por esses agentes infecciosos, especialmente algumas espécies de macacos.


Apesar de não transmitirem a doença diretamente às pessoas, o aumento de casos entre os primatas pode significar o início de um novo surto ou o aumento do risco de transmissão em áreas de transição entre cidades e florestas.


"Também vamos coletar e analisar amostras de pacientes com casos suspeitos e observar o que acontece com milhares de pessoas que moram em determinados bairros dos quatro centros de estudo", detalha a virologista Lívia Sacchetto, pós-doutoranda na Famerp.



CRÉDITO,VICTOR MORIYAMA/GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Em 2018, o Brasil enfrentou a pior pandemia de febre amarela desde 1942. A morte de macacos em regiões de mata foi o primeiro sinal da crise de saúde pública

Efeitos práticos (e imediatos)


A partir da coleta de tantas informações, os cientistas pretendem criar modelos que permitirão se antecipar às crises sanitárias antes mesmo que elas se iniciem.


Nogueira lembra que, entre 2018 e 2019, a região de São José do Rio Preto, no interior paulista, enfrentou uma epidemia de dengue do tipo 2 — sabe-se que existem quatro tipos diferentes do vírus causador dessa doença, que circulam com mais ou menos intensidade de forma periódica.


"Nós conseguimos prever que a dengue tipo 2 iria se tornar um problema em breve e conseguimos avisar as autoridades a tempo para que algumas medidas preventivas fossem tomadas", recorda.


Com alertas desse tipo, é possível reforçar as ações de combate ao Aedes aegypti, como a limpeza de terrenos baldios e reservatórios de água parada que servem de criadouro para o mosquito.


No caso da febre amarela, por exemplo, o aparecimento dos primeiros casos entre os macacos de uma região já pode ser suficiente para que aconteçam reforços nas campanhas de vacinação para proteger aqueles que ainda estão suscetíveis.


Um segundo ponto essencial do projeto está na análise de outros vírus que também são transmitidos por mosquitos e já circulam pelo Brasil e pelas Américas.


"Já foram identificados no país vírus como o mayaro e o oropouche, que podem provocar epidemias futuras e precisam ser estudados de perto", acrescenta Sacchetto.



CRÉDITO,JOHAN ORDONEZ/GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Reservatórios de água parada são o principal criadouro de mosquitos como o Aedes aegypti

Os ingredientes da crise


Para dar início ao projeto, os responsáveis publicaram recentemente um artigo científico em que discutem os principais fatores por trás do surgimento das epidemias de dengue, zika, chikungunya e febre amarela.


De acordo com os autores, não há mais dúvidas sobre o papel da mudança climática e da destruição de florestas nativas no agravamento deste processo.


"Vemos infestações enormes de Aedes, que se aproveitam de temperaturas quentes para se reproduzir com mais facilidade", explica Sacchetto.


Além disso, muitos vírus ficam "quietinhos" dentro de áreas silvestres. Mas o desmatamento e a entrada de seres humanos nesses locais faz com que os agentes infecciosos acabem "pulando" para nossa espécie, num processo parecido ao que ocorreu com o coronavírus responsável pela pandemia atual.


Mas os cientistas desejam ir além desses conhecimentos básicos e estabelecer outros ingredientes que servem de gatilho para o aumento de infecções por essas doenças transmitidas por mosquitos.


"Queremos olhar de perto para eventos maiores, como o deslocamento populacional ou fenômenos climáticos como o El Niño e o La Niña, para entender como eles contribuem com essas epidemias", vislumbra Nogueira.


A pesquisa envolve cerca de dez instituições nacionais e internacionais. Além da própria Famerp, outros participantes vêm do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, da Universidade Federal do Mato Grosso, da Universidade Federal do Amazonas, da Universidade Estadual do Novo México (EUA), do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e do Instituto Comemorativo Gorgas de Estudos da Saúde (Panamá), entre outras.


O trabalho é financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos e conta com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).




Autor: André Biernath
Fonte: BBC News Brasil em São Paulo
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 11/02/21
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-56018298

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Pesquisadores reconstituem epidemia de febre amarela em São Paulo por meio de técnicas genômicas

 

Entre 2016 e 2018, ocorreram três ondas epidêmicas no Estado. As rotas percorridas pelo vírus e seus desdobramentos foram descritos por um grupo internacional de pesquisadores na revista PLOS Pathogens com base no sequenciamento de 51 isolados virais extraídos de mosquitos e de macacos (foto: Eduardo Cesar/Pesquisa FAPESP)

Normalmente restrito à região amazônica, o vírus da febre amarela circulou de forma atípica no Sudeste do país entre 2016 e 2018, causando as maiores epidemia e epizootia das últimas décadas. Segundo dados do Ministério da Saúde, em todo o Brasil, foram confirmados no período ao menos 2.251 casos da doença em humanos e outros 1.567 em macacos.

No Estado de São Paulo, de acordo com um estudo publicado na revista PLOS Pathogens, ocorreram três ondas epidêmicas/epizoóticas nesses anos, causadas por linhagens distintas do vírus. Na primeira, entre julho de 2016 e janeiro de 2017, o patógeno entrou pelo norte do Estado, provavelmente vindo de Minas Gerais, e se disseminou principalmente em cidades como São José do Rio Preto e Ribeirão Preto. A segunda, um pouco mais intensa, começou em fevereiro de 2017 e durou até junho do mesmo ano, abrangendo desde a fronteira de Minas Gerais com Poços de Caldas até a região de Campinas. O maior número de casos, porém, foi registrado durante a terceira onda: entre julho de 2017 e fevereiro de 2018. Depois de chegar à capital, o vírus se disseminou para o Vale do Paraíba, ao norte, e para o Vale do Ribeira, ao sul, encontrando cidades com alta densidade populacional e baixo índice de vacinação, tornando-se um relevante problema de saúde pública.

As conclusões, descritas no periódico por um grupo internacional de pesquisadores apoiado pela FAPESP, se baseiam na análise genômica de 51 isolados virais extraídos tanto de mosquitos coletados nas áreas afetadas como de macacos que morreram em decorrência da doença e foram encaminhados ao Instituto Adolfo Lutz (IAL) por equipes do Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE).

“Com base na distribuição geográfica e temporal dos casos em primatas não humanos e também em análises filogenéticas [estudo das mutações no genoma viral que levam ao surgimento de novas linhagens] e filogeográficas [estudo dos processos que determinaram a distribuição geográfica das diferentes linhagens], foi possível identificar os momentos em que o vírus entrou no Estado de São Paulo, a taxa e a direção de propagação e todos os desdobramentos dessa circulação”, conta à Agência FAPESP Renato de Souza, pesquisador do IAL e um dos autores principais do artigo.

Tamanho grau de detalhamento na descrição de uma epidemia só foi possível graças ao uso de uma tecnologia de sequenciamento conhecida como MinION, explica Souza. Por ser portátil, rápida e barata, a plataforma permite o monitoramento dos casos em tempo real, no local em que estão ocorrendo.

A estratégia foi usada no Brasil pela primeira vez em 2016, para descrever a trajetória percorrida pelo vírus zika nas Américas (leia mais em agencia.fapesp.br/25356/). Mais recentemente, tem auxiliado pesquisadores do Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (CADDE) a monitorar a evolução da COVID-19 no Brasil. O projeto é coordenado pelos pesquisadores Ester Sabino (Universidade de São Paulo) e Nuno Faria (Universidade de Oxford, Reino Unido) e tem apoio da FAPESP, do Medical Research Council e do Fundo Newton (os dois últimos do Reino Unido).

Hospedeiro acidental

O vírus da febre amarela circula de forma permanente na Amazônia e, eventualmente, encontra um conjunto de condições favoráveis que lhe permite escapar. Para isso, explica Souza, é preciso haver o encontro de uma população do mosquito vetor com uma população de primatas silvestres densa o suficiente para manter a cadeia de transmissão ao menos por um período.

“Essa expansão não é permanente. Após um tempo o vírus perde a capacidade de circular naquele ambiente e só volta se for reintroduzido. Entre 2016 e 2018 ocorreu uma expansão sem precedentes da área de circulação. O vírus encontrou um momento ótimo, conseguiu se disseminar entre os primatas silvestres da Serra da Mantiqueira e chegar à região próxima ao Parque Zoológico de São Paulo, na capital. Pode ser que isso aconteça de novo daqui a alguns anos, quando as populações de primatas nesses locais voltarem a alcançar um ótimo populacional”, diz o pesquisador.

Do ponto de vista epidemiológico, explica Souza, o que ocorreu no período foi um surto de febre amarela silvestre. Isso porque, apesar do grande número de casos entre humanos, a transmissão se deu exclusivamente por meio de mosquitos silvestres, como os gêneros Haemagogus e Sabethes, e fora do ambiente urbano.

“Nesse caso, a exposição humana é acidental. A penetração cada vez maior do homem no ambiente silvestre foi um dos fatores que contribuíram”, avalia.

Caso fosse estabelecida uma estrutura de transmissão urbana, por meio de mosquitos Aedes aegypti, a incidência da doença seria ainda maior, equivalente à que se observa nas epidemias de dengue, explica Souza.

“O grande problema é que a estrutura de transmissão silvestre está cada vez mais próxima das cidades. E isso aumenta o risco de ocorrer a introdução do vírus no contexto urbano”, diz o pesquisador.

Monitorar a circulação do patógeno em populações de macacos tem sido apontada como uma estratégia eficaz de vigilância epidemiológica, que permite identificar precocemente regiões em risco e planejar estratégias de controle, como campanhas de vacinação.

“Uma estratégia de vigilância que se baseia somente no monitoramento de casos em humanos detecta apenas 20% dos infectados, que é a parcela dos sintomáticos. Haverá, portanto, muita subnotificação. Já entre os macacos, há espécies em que 90% dos indivíduos desenvolvem sintomas e morrem após contrair a doença. Monitorá-los permite identificar a disseminação do vírus ainda em fase inicial, a tempo de implementar programas de combate”, afirma Souza.

O artigo Genomic Surveillance of Yellow Fever Virus Epizootic in São Paulo, Brazil, 2016 – 2018 pode ser lido em https://journals.plos.org/plospathogens/article?id=10.1371/journal.ppat.1008699.




Autor: Karina Toledo | Agência FAPESP
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data: 06/10/2020
Publicação Original: https://agencia.fapesp.br/pesquisadores-reconstituem-epidemia-de-febre-amarela-em-sao-paulo-por-meio-de-tecnicas-genomicas/34293/

terça-feira, 14 de abril de 2020

Combate ao Aedes Aegypti: prevenção e controle da Dengue, Chikungunya e Zika

Combate ao Aedes Aegypti: dengue, zika, febre amarela e chikungunya





























Ministério da Saúde convoca a população brasileira a continuar, de forma permanente, com a 
mobilização nacional pelo combate ao mosquito transmissor da dengue, zika e chikungunya, doenças que podem gerar outras enfermidades, como microcefalia e Guillain-Barré, o Aedes Aegypti.

O período do verão é o mais propício à proliferação do mosquito Aedes aegypti, por causa das chuvas, e consequentemente é a época de maior risco de infecção por essas doenças. No entanto, a recomendação é não descuidar nenhum dia do ano e manter todas as posturas possíveis em ação para prevenir focos em qualquer época do ano.

Por isso, a população deve ficar atenta e redobrar os cuidados para eliminar possíveis criadouros do mosquito. Essa é a única forma de prevenção. Faça a sua parte. #CombateAedes
DENUNCIE FOCOS DO MOSQUITO AEDES AEGYPTI: Quando o foco do mosquito Aedes Aegypti é detectado e não pode ser eliminado pelos moradores ou pela população, como em terrenos baldios ou lixos acumulados na rua, a Secretaria Municipal de Saúde deve ser acionada para remover os possíveis focos/criadouros. Faça sua parte!



Autor: Ministerio da Saúde
Fonte: Ministerio da Saúde
Sítio Online da Publicação: Ministerio da Saúde
Data: 14/04/2020
Publicação Original: 
https://www.saude.gov.br/informes-de-arboviroses

quarta-feira, 27 de março de 2019

Vacina da febre amarela pode proteger contra zika, indica estudo brasileiro



Vacina da febre amarela pode ajudar contra o vírus da Zika: Pesquisa concluiu que a vacina protegeu camundongos da infecção do vírus em laboratório — Foto: Divulgação



Enquanto cientistas do mundo correm em busca de uma vacina contra o vírus Zika, pesquisadores no Rio de Janeiro constataram que a resposta pode estar em uma vacina amplamente disponível, testada e adotada mundialmente: a da febre amarela.


"Talvez a solução estivesse na nossa frente o tempo todo", diz o médico Jerson Lima Silva, professor do Instituto de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um dos coordenadores de estudo divulgado na segunda-feira (25).


Conduzida por dezesseis pesquisadores da UFRJ e da Fundação Oswaldo Cruz, a pesquisa concluiu que a vacina da febre amarela protegeu camundongos da infecção do vírus em laboratório, reduzindo a carga do vírus no cérebro e prevenindo deficiências neurológicas.


"Apareceu como um ovo de Colombo", diz Silva, referindo-se à expressão que descreve uma solução complexa que, depois de demonstrada, parece óbvia.


"Nossa pesquisa mostra que uma vacina eficiente e certificada, disponível para uso há diversas décadas, efetivamente protege camundongos contra infecção do vírus Zika", diz o estudo, publicado online que ainda precisa passar pelo processo de revisão por pares exigido por periódicos científicos, que têm um trâmite demorado.


Esse sistema de publicação é adotado para disponibilizar rapidamente resultados iniciais de pesquisas à comunidade científica internacional.


A corrida por uma vacina contra a zika começou em 2016, quando se comprovou a suspeita de que a doença recém-chegada ao Brasil, até então considerada inofensiva, era a causa do surto de bebês que nasciam com microcefalia e malformações neurológicas - conjunto de sintomas hoje designado como síndrome da zika congênita.



A corrida por uma vacina começou em 2016, quando se comprovou a suspeita de que a doença era a causa do surto de bebês com microcefalia — Foto: AP Photo/Felipe Dana


O surto levou o governo brasileiro e a Organização Mundial da Saúde a decretarem situações de emergência, posteriormente suspensas. Além dos graves problemas que pode causar nos bebês durante a gestação, a zika é associada ao surgimento da síndrome de Guillain-Barré em adultos.




Vírus semelhantes




Tanto a zika e quanto a febre amarela são transmitidos por vírus da família dos Flavivírus. A estruturas biológicas dos vírus são semelhantes, o que inspirou a equipe no Rio a testar os efeitos da vacina de febre amarela sobre o vírus Zika.


Além disso, diz o médico Jerson Lima Silva, a região que teve maior incidência de zika, o Nordeste do país, é também a que tinha a menor cobertura vacinal para febre amarela. "Então resolvemos testar essa hipótese", afirma o professor da UFRJ. O estudo foi coordenado por Silva, Andrea Cheble Oliveira e Andre Gomes, do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Biologia Estrutural e Bioimagem, e pelo professor Herbert Guedes, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ.


A equipe realizou testes com dois grupos de camundongos, um composto por indivíduos saudáveis e outro por indivíduos com sistema imune comprometido, mais suscetíveis à propagação do vírus.


O Aedes aegypti é o mosquito transmissor da zika e da febre amarela — Foto: Pixabay/Divulgação


Nos dois grupos, parte dos animais foi imunizada com a vacina de febre amarela e outra recebeu apenas uma solução salina, sem nenhum efeito imunológico. Depois, todos receberam injeções intracerebrais do vírus da zika, de modo a simular infecções com alto índice de letalidade.


"Sem a vacina, os mais suscetíveis morreram e os normais desenvolveram sintomas da doença. Já entre os vacinados, os suscetíveis não morreram e todos apresentaram carga viral extremamente reduzida no cérebro", explica Silva. O vírus Zika consegue furar a proteção da placenta durante a gestação, e se alastra pelo cérebro do bebê, impedindo que se forme corretamente.




Próximos passos




A pesquisa foi conduzida ao longo de dois anos. O grupo trabalha agora para entender os mecanismos de proteção contra o vírus desenvolvidos a partir da vacina da febre amarela. O médico diz que o próximo passo é realizar testes em primatas.


"Os resultados foram muito evidentes. A gente acredita que há uma grande chance de (a vacina da febre amarela) proteger humanos (contra a zika), já que os testes com animais demonstraram uma proteção tão forte", considera Silva. Ele espera que os próximos passos para determinar se a vacina pode ser recomendada à sociedade como uma proteção eficiente contra a zika não tardem. Por enquanto, entretanto, é preciso cautela. "Como todo estudo científico, este precisa ser reproduzido e confirmado", diz.


Se o efeito for comprovado para humanos, ressalta o pesquisador da UFRJ, haveria uma grande vantagem em poder contar com uma vacina licenciada, usada há décadas e disponível no mercado - e que poderia ser distribuída e aplicada prontamente no caso de um novo surto de infecções. Desenvolver uma nova vacina envolve passar por muitos testes, acertos e erros e etapas de segurança.


O estudo teve financiamento da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Ministério da Saúde, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).




Autor: BBC
Fonte: BBC
Sítio Online da Publicação: BBC
Data: 26/03/2019
Publicação Original: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/03/26/vacina-da-febre-amarela-pode-proteger-contra-zika-indica-estudo-brasileiro.ghtml

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Febre amarela: veja 5 mitos e verdade sobre a doença

1. Macacos são transmissores da doença

Mito.

Macacos atuam como reservatório da doença, mantendo a circulação viral no ambiente silvestre. Não ocorre transmissão direta entre macacos e humanos, mas, ao se aproximar de áreas florestais, seres humanos podem ser picados por mosquitos infectados e contrair a doença.

Macacos infectados pelo vírus da febre amarela também podem adoecer e morrer da doença. Assim, a morte desses primatas em áreas silvestres próximas a cidades serve de alerta para a circulação viral, constituindo uma importante forma de vigilância epidemiológica.
2. A febre amarela é uma doença leve e sem grandes repercussões clínicas

Mito.

A maioria das pessoas que é infectada pelo vírus da febre amarela permanece assintomática ou com doença autolimitada. Entretanto, aproximadamente 15% evolui para a forma grave, a qual tem alta letalidade (40 – 60%).

Sinais de alerta para o desenvolvimento de formas graves incluem febre alta, cefaleia intensa, náuseas e vômitos, dor abdominal ou lombossacra, sonolência, icterícia importante e diáteses hemorrágicas, que podem se manifestar como petéquias, sangramento gengival ou em óstios de acessos vasculares, hematêmese e/ou melena.
3. A vacina fracionada é pior do que a com dose padrão

Mito.

Para a proteção de curto e médio prazo, a vacina com dose fracionada é tão eficaz quanto a com dose padrão. Por esse motivo, é utilizada, não somente no Brasil, em situações de surto em que a demanda pela vacina seja maior do que o número de doses padrão disponíveis para imunização da população sob risco.

Ainda não existem estudos que comprovem com segurança que a dose fracionada seja capaz de gerar resposta imune protetora para toda a vida. Assim, para quem foi vacinado com a dose fracionada, recomenda-se uma dose de reforço após oito anos. Da mesma forma, para a emissão do Certificado Internacional de Vacinação e Profilaxia, é necessária a vacinação com a dose padrão, adequadamente registrada em cartão vacinal.
4. Idosos apresentam maior risco de eventos adversos graves

Verdade.

A doença viscerotrópica aguda associada à vacina da febre amarela (DVA-VFA) é uma disfunção aguda que ocorre nos primeiros 10 dias após a vacinação e que cursa com sinais e sintomas semelhantes à doença, tais como febre, cefaleia, astenia, artralgia, diarreia, vômitos, diarreia, dor abdominal, trombocitopenia e disfunções hepática e renal.

É considerada um evento grave, mas felizmente é raro, com uma frequência de aproximadamente 0,4 casos a cada 100 mil doses administradas na população geral. Estudos observaram que, pacientes com mais de 60 anos, estariam sob maior risco de desenvolver essa complicação, o que leva à recomendação de analisar individualmente cada caso para indicar vacinação ou não.

Contudo, é importante salientar que, mesmo com risco maior nessa população, a DVA-VFA continua sendo um evento raro e o risco de adoecimento deve ser levado em conta no momento de indicar a vacinação.
5. A vacina é exigida para entrar em alguns países

Verdade.

Alguns países exigem a apresentação do Certificado Internacional de Vacinação e Profilaxia (CIVP) para que viajantes entrem em seu território. Enquanto alguns lugares, como Angola, Costa do Marfim e Guiana Francesa, exigem comprovação de vacinação de todos os viajantes, enquanto outros somente o fazem daqueles provenientes de áreas de transmissão da doença.

Para retirar o Certificado, é necessário apresentar o comprovante de vacinação contra febre amarela preenchido de forma adequada (contendo, de forma legível, data de administração, fabricante e lote da vacina, assinatura do profissional que realizou a aplicação e identificação da unidade de saúde em que ocorreu a vacinação) e documento oficial com foto original. A retirada pode ser feita em unidades cadastradas da Anvisa.


febre amarela



Autor: Isabel Cristina Melo Mendes
Fonte: PEBMED
Sítio Online da Publicação: PEBMED
Data: 19/02/2019
Publicação Original: https://pebmed.com.br/febre-amarela-veja-5-mitos-e-verdade-sobre-a-doenca/

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Wolbachia inibe transmissão do vírus da febre amarela



Por: Glória Galembeck (Agência Fiocruz de Notícias)


A presença da bactéria Wolbachia em Aedes aegypti tem a capacidade de reduzir a transmissão do vírus da febre amarela nesta espécie de mosquito. A descoberta é o tema de um artigo publicado pela Gates Open Research. A pesquisa que resultou no artigo, intitulado Pluripotency of Wolbachia against Arbovirus: the case of yellow fever, foi supervisionada pelo pesquisador da Fiocruz e líder do World Mosquito Program (WMP) no Brasil, Luciano Moreira. O WMP é um programa internacional de combate à doenças transmitidas por mosquitos e, no Brasil é conduzido pela Fundação.

O artigo é resultado do trabalho conjunto de pesquisadores de três instituições: Instituto René Rachou (IRR/Fiocruz Minas), Fundação Ezequiel Dias (Funed) e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A transmissão urbana da doença por Aedes aegypti não é relatada no Brasil desde 1942. Entretanto, pesquisadores apontam que o risco de reurbanização da febre amarela existe, uma vez que o Aedes aegypti está presente na maioria das cidades de clima tropical e subtropical do mundo e foi o principal vetor no passado. Entre os anos de 2016 e 2018 o Brasil enfrentou alguns surtos de febre amarela, arbovirose transmitida pelos mosquitos silvestres dos gêneros Haemagogus e Sabethes. Houve mortalidade de até 30%. Atualmente, além da febre amarela, o Método Wolbachia é eficiente na prevenção da transmissão das seguintes arboviroses: dengue, zika, chikungunya e febre mayaro.

O estudo

Para realizar a pesquisa foram utilizados dois grupos isolados de vírus da febre amarela (YFV), obtidos de humanos e de macacos, originários dos últimos surtos ocorridos no estado de Minas Gerais. Esses vírus foram multiplicados em cultura de células de insetos e adicionados à alimentação sanguínea ministrada a Aedes aegypti com e sem Wolbachia. Como as amostras de sangue usadas na alimentação poderiam conter anticorpos devido a, por exemplo, aplicação da vacina contra a doença, a amostra passou por um processo para assegurar a eliminação desses anticorpos antes de alimentar os mosquitos.

A infecção provocada pelos vírus nos mosquitos foi acompanhada nos tempos de 7, 14 e 21 dias após a alimentação sanguínea, a partir da análise da cabeça e do tórax dos insetos. Foi verificado que, em mosquitos com Wolbachia, a quantidade de YFV foi menor do que nos mosquitos que não possuíam o microorganismo em suas células.

Em outro ensaio, foi realizada a coleta de saliva em Aedes aegypti com e sem Wolbachia, alimentados com sangue contendo o vírus da febre amarela ( 7, 14 e 21 dias após a alimentação). Essa saliva foi injetada em mosquitos Aedes aegypti sem a bactéria Wolbachia. Após cinco dias, esses insetos foram analisados, revelando que nenhum dos mosquitos que receberam saliva oriunda de Aedes aegypti com Wolbachia se infectou com o vírus da febre amarela. Já entre os mosquitos que receberam a saliva de Aedes aegypti sem Wolbachia, houve infecção.

A saliva dos mosquitos também foi utilizada em um teste com camundongos. Os camundongos que receberam injeção da saliva extraída de Aedes aegypti com Wolbachia que receberam sangue contaminado com febre amarela não se infectaram. Já os grupo em que foi aplicada a injeção de saliva extraída de Aedes aegypti sem Wolbachia, houve a infecção. "Os resultados indicam que, caso a febre amarela volte a ter transmissão urbana pelo Aedes aegypti, o Método Wolbachia pode ser uma estratégia complementar para prevenir a transmissão da doença, junto com o programa de vacinação", observou Luciano Moreira.

Na avaliação do médico Pedro Fernando da Costa Vasconcelos, diretor do Instituto Evandro Chagas, órgão vinculado à Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) do Ministério da Saúde (MS), existem condições para que o Aedes aegypti seja um vetor de febre amarela. "Existe possibilidade, pois há pessoas suscetíveis, vírus circulando em áreas periurbanas, como regiões de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro próximas a matas. Estudos demonstram que o Aedes aegypti e o Aedes albopictus têm a capacidade de se infectar com o vírus da febre amarela", explicou.

No Paraguai, em 2008, houve surtos da doença transmitida pelo Aedes aegypti, com registro de óbitos, na periferia da capital Assunção. Angola enfrentou uma epidemia de casos urbanos em 2016.

Entretanto, Vasconcelos considera improvável o reaparecimento da febre amarela urbana no Brasil. "O Aedes aegypti não é um excelente vetor para a doença e temos uma cobertura vacinal razoavelmente alta", observou o pesquisador. Outro aspecto relevante diz respeito ao vetor. "Estudos sugerem que o Aedes aegypti que circula atualmente, de origem asiática, é menos suscetível ao vírus da febre amarela do que o mosquito que circulava nos séculos XVII, XVIII e XIX, de origem africana, que ingressou no Brasil com o tráfico de escravos", explicou Vasconcelos.

A doença

A febre amarela é uma doença infecciosa causada por um vírus do gênero Flavivirus, da família Flaviviridae. Provoca uma infecção febril aguda de curta duração (no máximo 10 dias), de gravidade variável e que pode levar à morte.

No ciclo silvestre da febre amarela, que é o que ocorre no Brasil, os primatas não humanos (macacos) são os principais hospedeiros e amplificadores do vírus. Os vetores são mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes, que têm hábitos estritamente silvestres. Locais que têm matas e rios, nos quais o vírus, seus hospedeiros e vetores ocorrem naturalmente, são consideradas como áreas de risco.

A vacina antiamarílica é fabricada pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz) e oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS). É recomendada para as pessoas a partir de 9 meses de idade, que residem ou que se deslocam para os municípios que compõem a área com recomendação de vacina - a lista está disponível no site do Ministério da Saúde.




Autor: Glória Galembeck
Fonte: Agência Fiocruz de Notícias
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 18/02/2019
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/wolbachia-inibe-transmissao-do-virus-da-febre-amarela

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Chikungunya e febre amarela: evento debate desafios no verão


Com a chegada do verão, a Fiocruz e a Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro - em parceria com o Conselho dos Secretários Municipais de Saúde (Cosems), a Associação dos Prefeitos e Municípios do Rio de Janeiro (Aemerj) e a Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (SVS/MS) - alertam para a possibilidade de uma epidemia de chikungunya e para o aumento de casos de febre amarela no verão de 2018 e 2019. De janeiro até outubro deste ano, já foram notificados cerca de 37 mil casos de chikungunya no estado, enquanto ao longo de 2017, no mesmo período, foram registradas 4.425 ocorrências. Quanto à febre amarela, este ano, foram 268 casos da doença.

Para analisar o atual cenário e debater estratégias contra essas doenças, a Fiocruz, a Secretaria de Estado de Saúde, o Cosems e a Aemerj promovem o encontro Febre Amarela e Chikungunya – Desafios e Perspectivas do Verão 2018 e 2019, nesta quarta-feira (12/12), das 8h30 às 16h, no Hotel Novo Mundo, no Flamengo. O encontro tem por objetivo fortalecer a capacidade de resposta da área de saúde diante do cenário epidemiológico de chikungunya e febre amarela no Rio de Janeiro.

O evento também será realizado em Salvador (BH), Fortaleza (CE), Mato Grosso do Sul (MS), Belo Horizonte (MG), Manaus (AL), Porto Velho (RO) e Teresina (PI).




Segundo dados da Secretária Estadual de Saúde, até dia 27 de novembro foram notificados16.157 casos de chikungunya na Região Metropolitana II do estado, com oito óbitos; no Norte Fluminense, 7.799; na Região da Baixada Litorânea, 1.140; e na Região Noroeste Fluminense 1.723. No município do Rio, foram registrados 8.997 casos.

“Temos que preparar o estado para enfrentar esse cenário epidemiológico. É preciso debater o que já foi feito e o que falta fazer. No caso da chikungunya, por exemplo, temos que pensar em um centro de hidratação com analgesia, em leitos em hospitais para casos graves, em especial para casos pediátricos”, observa o pesquisador e infectologista da Fiocruz, Rivaldo Venâncio da Cunha, coordenador de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência da Instituição.

O seminário tem como público-alvo gestores e profissionais da área de saúde, além de pesquisadores e estudantes de graduação e pós-graduação. Todos os secretários municipais do estado foram convidados para debater estratégias em seus municípios, os quais estarão acompanhados de técnicos da área de vigilância e assistência. O encontro será dividido em duas mesas. Pela manhã, será discutido o cenário epidemiológico da febre amarela e chikungunya. Na parte da tarde, o foco será nas estratégias para o enfrentamento da epidemia.




“A chance de um mosquito infectado pelo vírus chikungunya encontrar uma pessoa sem anticorpos é gigantesca no atual cenário do Rio de Janeiro, onde a maioria da população não tem anticorpos contra essa doença”, afirmou Rivaldo Venâncio.

Para o secretário de Estado de Saúde, Sérgio Gama, o enfrentamento contra o Aedes, transmissor da dengue, zika e chikungunya e vacinação contra a febre amarela, doença transmitida pelos mosquitos Haemagogus e Sabethes é um dever de toda a sociedade.

“Ao longo dos anos o estado criou diversas estratégias para o combate ao Aedes e mais recentemente tivemos êxito evitando uma epidemia de febre amarela. Nos dois casos precisamos do apoio irrestrito da população e é isso que estamos buscando com esse evento: criar novas estratégias para mobilizar as pessoas", disse o secretário.

O seminário contará com a presença de vários gestores em saúde de todo o Estado do Rio de Janeiro e isso legitima as medidas do encontro. Para Sérgio Gama é importante “atuar fortemente” para conter o avanço do mosquito, além de convocar a população para fazer parte das medidas de controle e se imunizar contra a febre amarela com as vacinas disponíveis nos postos de saúde.




Autor: Regina Castro
Fonte: COC/Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 11/12/2018
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/chikungunya-e-febre-amarela-evento-debate-desafios-no-verao

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Identificado fármaco que elimina vírus da febre amarela e chikungunya


Mesmo fármaco utilizado no tratamento da hepatite C crônica é capaz de eliminar os vírus da chikungunya e da febre amarela – Foto: Fernanda Carvalho / Fotos Públicas

Estudo realizado no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP mostrou que o fármaco sofosbuvir, utilizado no tratamento da hepatite C crônica, é capaz de eliminar também os vírus da chikungunya e da febre amarela.

“Células humanas infectadas pelo vírus da chikungunya foram tratadas com sofosbuvir e o fármaco eliminou o vírus sem danificar as células. A droga se mostrou 11 vezes mais efetiva contra o vírus do que contra as células”, disse uma das autoras do estudo, Rafaela Milan Bonotto.

O estudo relativo à chikungunya foi realizado no âmbito do doutorado de Bonotto com Bolsa da FAPESP, com orientação do professor Lucio Freitas-Junior.

Artigo a respeito, assinado por Bonotto, Freitas-Junior e colaboradores, está disponível na plataforma aberta F1000Research. O artigo sobre a pesquisa relativa à febre amarela deverá ser publicado brevemente.

A descoberta tem enorme importância para a saúde pública, pois uma epidemia de chikungunya está prevista para os próximos dois anos no Brasil (leia em agencia.fapesp.br/27975).

“O processo para obtenção de um fármaco é extremamente demorado e caro. O tempo entre o início da pesquisa e a disponibilização do produto no mercado é, em média, de 12 anos. O custo é da ordem de US$ 1,5 bilhão ou mais. O sofosbuvir é uma droga que passou por todo o processo de aprovação para uso humano. Isso possibilita que ela possa vir a ser utilizada contra a chikungunya em um a três anos. O custo, estimado em cerca de US$ 500 mil, seria muito menor”, disse Freitas-Junior.

O pesquisador lembra que a chikungunya é uma doença grave não apenas pelo episódio agudo em si – que apresenta um quadro semelhante ao da dengue –, mas por poder deixar como sequela dores articulares altamente debilitantes, que se estendem por meses ou anos, e podem eventualmente incapacitar a pessoa a exercer sua atividade profissional e até mesmo a sair da cama.


Sofosbuvir já é utilizado no tratamento da hepatite C e passou por todos os testes para uso humano. Isso possibilita que venha a ser mais facilmente empregado em eventual epidemia de chikungunya prevista para os próximos dois anos (a imagem mostra hematócitos humanos obtidos do fígado. À esquerda, infectados pelo chikungunya. À direita, desinfectados por ação do sofosbuvir, cuja fórmula molecular está no meio da figura – Imagem: Divulgação via Agência Fapesp

“Não há vacina desenvolvida e as ferramentas para diagnóstico ainda precisam ser otimizadas. O sofosbuvir é algo concreto que pode se tornar uma ferramenta poderosa para lutar contra esse vírus. Os resultados de nossa pesquisa possibilitam que as instituições eventualmente interessadas deem início aos ensaios clínicos”, disse Freitas-Junior.

“Ainda não sabemos com precisão como a droga atua em termos moleculares. O que constamos foi o resultado macroscópico: a eliminação do vírus e a preservação das células. No tratamento da hepatite C, o sofosbuvir se mostrou efetivo por inibir a proteína que sintetiza o genoma viral. Pode ser que ocorra o mesmo no caso da chikungunya, mas o mecanismo de ação ainda precisa ser elucidado”, afirmou Bonotto.

O estudo foi conduzido na Phenotypic Screening Platform (PSP), uma nova iniciativa do Departamento de Microbiologia do ICBP. A PSP desenvolve ensaios de triagem fenotípica, utilizados com sucesso na descoberta de fármacos com novos mecanismos de ação.

A plataforma tem um portfólio com mais de 15 tipos diferentes de ensaios fenotípicos, conduzidos nos padrões preconizados pela indústria farmacêutica. Os ensaios têm sido empregados na estratégia de reposicionamento de fármacos para doenças infecciosas.

Além de Bonotto e de Freitas-Junior, participaram do estudo: Glaucia Souza-Almeida, Soraya Jabur Badra, Luiz Tadeu Figueiredo e Carolina Borsoi Moraes.

O artigo Evaluation of broad-spectrum antiviral compounds against chikungunya infection using a phenotypic screening strategy pode ser lido em https://f1000research.com/articles/7-1730/v1.



Autor: José Tadeu Arantes
Fonte: Agência Fapesp
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 12/11/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-biologicas/identificado-farmaco-que-elimina-virus-da-febre-amarela-e-chikungunya/

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Mapeamento traça origens e dispersão do vírus da febre amarela no País


Um mapeamento traçou as origens e dispersão do vírus da febre amarela durante o maior surto em 100 anos no Brasil. Ouça abaixo a entrevista que uma das autoras do trabalho, Ester Sabino, concedeu ao programa Jornal da USP no Ar. Na imagem, o mosquito Sabethes, um dos que tiveram papel importante no surto recente – Foto: James Gathany/CDC via Agência Fapesp



Avanço da febre amarela reflete ação do homem na natureza

Osurto de febre amarela vivenciado pelo Brasil entre o fim de 2016 e o início de 2018, o maior dos últimos 100 anos, ganhou terreno apenas pela via silvestre de transmissão da doença, em que mosquitos dos gêneros Sabethes e Haemagogus, que habitam copas de árvores, transmitiram o vírus primeiro para macacos e depois para seres humanos. Não houve disseminação da doença por meio do mosquito Aedes aegypti, de hábitos urbanos, que transmite outras doenças, como zika, dengue e chikungunya. Não há registro de febre amarela transmitida por A. aegypti desde 1942. Essas conclusões fazem parte de estudo publicado na Science. Segundo o trabalho, no Cerrado mineiro, área bastante afetada pela epidemia, os casos em humanos começaram a aparecer, em média, quatro dias depois de o vírus ter se tornado dominante em populações de macacos de áreas vizinhas. O surto causou mais de 600 mortes de pessoas e 2.043 casos de febre amarela no País.

A professora Ester Cerdeira Sabino, diretora do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo (IMT) da USP, falou ao Jornal da USP no Ar sobre o trabalho publicado na revista Science do qual é coautora. Os resultados estabeleceram uma estrutura para monitorar a transmissão do vírus em tempo real, que contribuirá na criação de uma estratégia global para eliminar epidemias futuras. 

Ouça a seguir:

Mapeamento: origens e dispersão

“O vírus espalhou-se rapidamente em populações locais de mosquitos silvestres e primatas não humanos a uma velocidade média de 3,3 quilômetros (km) por dia, em direção às grandes cidades dos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro”, diz o biomédico português Nuno Faria, da Universidade de Oxford, da Inglaterra, primeiro autor do artigo. O trabalho integrou dados epidemiológicos e sequências de genoma de 64 amostras do vírus coletadas de vítimas da doença durante a epidemia e contou com a participação de pesquisadores da USP, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Instituto Adolfo Lutz e Fiocruz, entre outras instituições.

Análises das amostras de vírus permitiram um mapeamento genético da presença geográfica do vírus em tempo real durante a epidemia.


Nosso estudo descreve um novo método para sequenciar genomas de vírus em menos de 48 horas com um aparelho portátil que cabe na palma de uma mão, explica Faria.


Kit de testes, com sequenciamento de DNA, para uso em campo – Foto: Nuno Faria/Universidade de Oxford via Agência Fapesp

“Há menos de três anos, esse processo era demorado, caro e apenas se podia fazer em poucas instituições brasileiras.” Mapeando o grau de proximidade genética entre vírus que infectavam diferentes populações de macacos e humanos, Faria e seus coautores descobriram que, apesar de ter emergido em Minas Gerais, o vírus que desencadeou o surto era mais relacionado com linhagens que circulam na região amazônica.Para descartar a hipótese de que o Aedes pudesse ter contribuído para o surto, os pesquisadores fizeram um recorte da epidemia levando em conta a localização precisa dos casos, idade e sexo das vítimas. Chegaram a um perfil médio do indivíduo infectado – homem, jovem adulto, morador de bairro próximo a área de floresta – que se enquadrava no modelo de transmissão da febre amarela silvestre, ainda que houvesse exceções. Se o surto tivesse sido causado pela forma urbana de transmissão da doença, seriam atingidas mulheres, crianças e idosos em maior número, argumentam os pesquisadores.

Um mapa feito para o estudo mostra círculos interconectados que revelam a relação geográfica entre as 64 amostras de vírus que tiveram material genético sequenciado e o momento em que elas foram detectadas. A figura indica que, muitas vezes, os macacos e os mosquitos sozinhos não seriam capazes de levar a doença tão rápido e tão longe. Mesmo sem auxílio do Aedes, humanos tiveram papel importante em disseminar o vírus, seja pelo deslocamento de pessoas doentes, tráfico de animais silvestres infectados ou até mosquitos de floresta pegando “carona” em carros.


Se o ciclo urbano de febre amarela tivesse de fato ocorrido em 2017, a estratégia de vacinação teria sido comprometida. “Esse risco ainda é real”, afirma Renato Souza, virologista do Instituto Adolfo Lutz, coautor do estudo na Science. “Sabemos que o Aedesapresenta algum grau de competência para transmissão da febre amarela. O vírus da doença se aproximou muito da população humana, nas áreas periféricas, e pode infectar populações desse mosquito.”Por contar com um número limitado de doses de vacina no início do surto, as autoridades de saúde precisaram escolher áreas prioritárias para se anteciparem ao deslocamento das populações de vírus. O fato de mosquitos do gênero Aedes não terem tido papel relevante nessa epidemia facilitou o planejamento.

O estudo multicêntrico também oferece pistas para a compreensão de por que o último surto de febre amarela foi maior do que os anteriores, nos quais os casos no país não passavam de algumas dezenas. Segundo Souza, dessa vez certamente contribuiu o fato de que a febre amarela silvestre chegou a regiões onde a porcentagem de população humana vacinada era baixa, menos de 80%. “Fora isso, o vírus atingiu áreas de floresta em que havia populações de primatas completamente suscetíveis a ele”, afirma o pesquisador.

De acordo com Nuno Faria, ainda há fatores desconhecidos que precisam ser computados para oferecer uma resposta mais precisa sobre a dimensão tão grande do último surto. “Por meio da análise de dados históricos, sabemos que existem ondas de transmissão de febre amarela silvestre, que podem ser de sete em sete ou de 14 em 14 anos, dependendo das regiões geográficas”, afirma o pesquisador português. Isso pode estar relacionado à dinâmica do vírus nos “reservatórios”, animais que sustentam a presença do vírus quando ele não está circulando em macacos nem em humanos. “Infelizmente sabemos ainda muito pouco sobre as espécies que atuam como reservatório do vírus, onde existe transmissão silenciosa de febre amarela, aparentemente sem causar óbito.”




Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 30/08/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-biologicas/sao-paulo-pode-se-tornar-zona-endemica-de-febre-amarela-2

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Febre amarela

DRAUZIO VARELLA 


Ameaças de epidemia causam pânico desde a Antiguidade. Pior quando são disseminadas por contágio inter-humano, transmitidas por insetos ou agentes desconhecidos.

Se você, leitor, está assustado com esses casos de febre amarela em São Paulo, preste atenção.

Navegadores que visitaram as costas da África, no tempo das caravelas, falavam de “uma febre misteriosa com calafrios, dores, delírios e vômitos negros capazes de levar o forasteiro à morte em poucos dias”.

Descrições como essa fizeram acreditar que a febre amarela teve sua origem no continente africano, suposição consistente com a constatação de que o Aedes aegypti, um dos mosquitos transmissores do arbovírus causador da enfermidade, provir da África.

A partir do século 16, o mosquito emigrou repetidas vezes para as Américas, nos porões dos infames navios negreiros, em promiscuidade com mulheres e homens com apresentações pouco sintomáticas da doença. Ao chegar ao Novo Mundo, o arbovírus encontrou condições ideais para a disseminação: água parada e populações virgens de contato com ele.

A partir do século 18, ocorreriam epidemias recorrentes nas cidades das Américas, Europa e Ásia. José P. Rego estima que uma delas tenha atingido 90 mil dos 266 mil habitantes do Rio de Janeiro, apenas no ano de 1872.

Mais tarde, ficou evidente existirem duas formas idênticas da enfermidade: a silvestre, transmitida por mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes, que se infectam ao picar macacos doentes, e a urbana, transmitida pelo Aedes aegypti, o mesmo da dengue, zika, etc.

O último caso de febre amarela urbana no Brasil foi descrito em 1942. As formas silvestres, no entanto, continuaram a emergir, porque não há como eliminar a doença entre os macacos nem a transmissão ocasional para quem invade territórios habitados por eles.

Estamos vivendo uma epidemia urbana na cidade de São Paulo e adjacências? Claro que não. Todos os casos relatados até hoje são silvestres.

Esses doentes poderão infectar os Aedes e se disseminar pela cidade? Acho muito difícil. As autoridades sanitárias do nosso estado têm sido eficazes no registro dos pacientes e na vacinação das populações das áreas de risco.

Nada justifica o desespero de uma pessoa da zona sul deslocar-se para a zona norte atrás da vacina. Não é ético sobrecarregar os serviços de saúde locais com gente que não corre risco, em prejuízo daqueles que vivem em áreas nas quais apareceram macacos infectados.

Como agir? É simples: siga as orientações da Secretaria da Saúde do Estado. Dá para confiar? Temos um argumento forte: o último caso de transmissão urbana ocorreu há 76 anos.

É possível que, no final, tenhamos de vacinar a população toda, mas essa estratégia deverá ser implementada de modo ordenado segundo critérios técnicos. Não dá para ser feita na correria do salve-se quem puder.

Isso quer dizer que as autoridades sanitárias brasileiras têm adotado as medidas necessárias para combater a forma silvestre?

Não. Embora no estado de São Paulo a prevenção esteja bem organizada, em vários pontos do Brasil ela é precária. Num país que troca ministros e secretários da Saúde em subserviência a acordos políticos, que enfrenta a falta crônica de recursos, que esvaziou a Fundação Nacional de Saúde, responsável pelo combate às endemias rurais, que não estocou quantidade suficiente das vacinas que agora fazem falta e que não acompanha com estudos-sentinela rigorosos as migrações dos macacos doentes, ficamos expostos a situações como a atual.

Além dessas deficiências, faltam investimentos para desenvolvermos vacinas mais seguras, preparadas pela tecnologia de DNA recombinante. Com os avanços da biotecnologia e cientistas de alto nível no país, faz sentido o maior produtor mundial de vacinas contra a febre amarela continuar a produzi-las em ovos embrionados?

Em resumo, caríssimo leitor: se você mora na Vila Mariana, na Penha, na Mooca, no Tatuapé ou em qualquer bairro em que não tenham aparecido macacos mortos pela doença, aguarde a orientação da Secretaria do Estado. Não perca tempo nas filas. A vacinação desnecessária para você neste momento poderá faltar para quem realmente precisa dela.

Sobre o autor: Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.


Autor: Drauzio Varella
Fonte: Drauzio Varella UOL
Sítio Online da Publicação: UOL
Publicação Original: https://drauziovarella.uol.com.br/drauzio/artigos/febre-amarela-3/

terça-feira, 31 de julho de 2018

Tecnologia indica qual composto inibe vírus da febre amarela

Laboratório Phenotypic Screening Platform foi reformado por meio de uma parceria com a empresa Eurofarma – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Há um ano e meio, o Brasil enfrentou um surto de febre amarela. Neste período, o grupo de pesquisa Phenotypic Screening Platform, coordenado pelo professor Lucio Freitas-Junior, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, em São Paulo, descobriu que drogas utilizadas no tratamento da hepatite C poderiam funcionar para combater o vírus causador da febre amarela.

Essa descoberta foi realizada graças à tecnologia de triagem fenotípica, conhecida como High Content Screening, na qual moléculas químicas ou fármacos já existentes são identificados como possíveis combatentes de um determinado patógeno, como vírus, parasitas ou bactérias.

De acordo Freitas-Junior, um dos órgãos mais afetados pelo vírus da febre amarela é o fígado. Por isso, os pesquisadores utilizaram as células humanas derivadas do órgão para fazer os testes e descobrir quais compostos impediriam a infecção pelo patógeno.

Em uma placa de ensaio com 384 poços foi colocada cultura de células infectadas com o vírus. Cada uma delas ainda recebeu diferentes compostos químicos com ação desconhecida contra o causador da febre amarela e, em algumas divisórias, foram colocados fármacos com atividade antiviral conhecida.

“Esses fármacos são utilizados como controle, ou seja, a análise automatizada feita pelo instrumento identifica qual dos compostos apresentou atividade semelhante ao antiviral já utilizado contra o vírus”, explica o pesquisador.Grupo de pesquisa Phenotypic Screening Platform, do ICB, onde são realizadas as análises de triagem fenotípica – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A diferenciação é feita pela máquina a partir de um software adaptado pelo grupo de pesquisa do ICB, que distingue as células humanas infectadas das não infectadas.

“A triagem fenotípica torna possível determinar de forma automatizada quais das novas substâncias teve desempenho semelhante, ou melhor ao dos fármacos conhecidos”, disse Freitas-Junior.

Ele ressalta que com essa tecnologia se economiza muito tempo para colocar uma droga no mercado. “Geralmente, são cerca de 10 anos, com a triagem, esse número reduz para três ou quatro. Reposicionamento de fármacos é uma estratégia que pode ter muito sucesso.”

Freitas-Junior ainda completa: “Quando a gente pensa em uma doença como a febre amarela, com letalidade de até 50%, dezenas de pessoas nos hospitais morrendo, essa tecnologia traz uma esperança muito grande.”

A triagem fenotípica pode ser aplicada para outras doenças humanas e de animais, como infecções por nematoides intestinais em bovinos. Giovana Cintra, uma das alunos do grupo de pesquisa, utilizou a técnica para descobrir quais compostos poderia matar um verme de vida livre muito parecido com o patógeno bovino.

“Incubamos os vermes e dois corantes diferentes indicam se ele está vivo ou morto. Após analisar qual composto é mais interessante, são feitas diversas melhorias na molécula para deixá-la mais seletiva ou mais potente”, explica Giovana.Placa de ensaio com os 384 poços para analisar a reação de compostos ao vírus da febre amarela – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Triagem fenotípica no Brasil

O pesquisador Lucio Freitas-Junior teve contato com a técnica na Coreia do Sul, onde trabalhou por oito anos com a indústria farmacêutica internacional. Em 2016, ele trouxe a triagem fenotípica para o Brasil por ver o potencial para o estudo de doenças negligenciadas, como dengue, zika, febre amarela e chikungunya.

As doenças negligenciadas são causadas por agentes infecciosos e são consideradas endêmicas, principalmente, em populações de baixa renda. Essas enfermidades também apresentam baixos investimentos, seja em pesquisas, produção de medicamentos e em seu controle.
O pesquisador Lucio Freitas Junior analisa material no laboratório – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

“O Brasil é endêmico para as doenças as quais pesquiso, mas carente de pesquisa biomédica aplicada em interação com a indústria”, segundo o cientista

O grupo de pesquisa coordenado por Freitas-Junior ganhou um novo espaço para dar continuidade aos estudos com a tecnologia. No dia 28 de junho, em parceria com a Eurofarma, o ICB inaugurou olaboratório Phenotypic Screening Platform. “Não tínhamos financiamento público disponível para financiar a reforma do espaço, então precisávamos da iniciativa privada. Ter um comprometimento desses da indústria farmacêutica é fantástico.”

A parceria com a Eurofarma ocorreu por meio de um programa chamado Parceiros do ICB. Além da reforma do laboratório, o grupo de Freitas-Junior também está desenvolvendo um projeto de pesquisa de descoberta de fármacos em parceria com a mesma empresa. “Esperamos que este seja o primeiro de muitos projetos em parceria com a indústria.”




Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data de Publicação: 30/07/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/universidade/tecnologia-indica-qual-composto-inibe-virus-da-febre-amarela/

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Dose fracionada da vacina para febre amarela garante imunidade prolongada

Resultado de imagem para febre amarela

Em 9 de janeiro, o Ministério da Saúde divulgou que adotaria o fracionamento da vacina de febre amarela nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia como parte do enfrentamento ao surto da doença. Durante a divulgação, em coletiva de imprensa realizada em Brasília, o órgão governamental informou que a medida se baseava em estudo clínico desenvolvido pelo Instituto de Tecnologia de Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz), que demonstrava a eficácia da medida por pelo menos oito anos. Em paralelo à adoção da medida devido ao quadro epidemiológico, começava a corrida por publicar o trabalho por parte dos responsáveis pelo estudo, com vistas à comprovar para a comunidade acadêmica e os formuladores de políticas públicas de todo o mundo que a aplicação da dose fracionada da vacina de febre amarela atenuada de Bio-Manguinhos/Fiocruz tem respaldo científico e resulta no fundamental: a imunização da pessoa vacinada.

Essa corrida chegou ao fim: na última sexta-feira (18/5), o artigo Duration of post-vaccination immunity to yellow fever in volunteers eight years after a dose-response study foi publicado em acesso aberto na revista Vaccine. O trabalho apresenta o difícil quadro em que se insere a necessidade de imunização contra a febre amarela: a produção anual da vacina, em todo o globo, cobre apenas 17% das doses necessárias para obter uma cobertura de 80% nas áreas onde há recomendação para a mesma (80 milhões de produção anual para uma demanda de 450 milhões de doses.

Maior produtor mundial desta vacina, Bio-Manguinhos/Fiocruz diversificou suas iniciativas para oferecer alternativas à essa demanda de Saúde Pública. O Instituto busca aumentar sua capacidade de fornecimento, como através da construção do novo Complexo Industrial de Biotecnologia em Saúde, no Rio de Janeiro. E também, desde 1988, pesquisa o tema da redução das doses. O estudo agora tornado público é, portanto, o passo mais recente – e preciso – de uma ideia gestada já há 30 anos, mesma idade do Sistema Único de Saúde (SUS).

Desde então o Instituto avalia se doses reduzidas de sua vacina são capazes de obter a mesma eficácia, protegendo o indivíduo vacinado com grau similar ao da dose padrão. Neste estudo, que retoma pesquisa clínica realizada em 2009, foi possível determinar que sim, voluntários vacinados com as doses de 10.447, 3.013 e 587 UI (unidades internacionais) obtiveram imunidade similar àqueles vacinados com a dose de referência para a vacina de febre amarela atenuada de Bio-Manguinhos, de 27.476 UI, na rotina usual de aplicação subcutânea usando o volume de 0,5 ml.

Consultor Científico Sênior de Bio-Manguinhos/Fiocruz, Reinaldo de Menezes Martins é o principal autor do artigo, escrito à várias mãos, em sua maioria do Instituto: assinam também Maria de Lourdes S. Maia, Sheila Maria Barbosa de Lima, Tatiana Guimarães de Noronha, Janaina Reis Xaviera, Luiz Antonio Bastos Camacho (Ensp), Elizabeth Maciel de Albuquerque, Roberto Henrique Guedes Farias (Exército brasileiro), Thalita da Matta de Castro, Akira Homma. Participou também o Grupo de Colaboração para Estudos sobre a Duração de Imunidade da Vacina de Febre Amarela (Suelen Manhães Pessanha, Maria Letícia Borges dos Santos, Robson Leite de Souza Cruz, Dayana Cristina Vieira de Souza, Ricardo Cristiano Brum, Clara Lucy de Vasconcelos Ferroco, Deborah Araújo da Conceição, Leonardo Secundino, Olindo Assis Martins Filho e Ana Carolina Campi Azevedo).

Em entrevista ao site de Bio-Manguinhos/Fiocruz, Reinaldo de Menezes afirma que o trabalho prosseguirá através do acompanhamento dos voluntários, o que pode confirmar a hipótese de que as doses fracionadas garantem imunidade similares à da dose padrão por mais do que os oito anos assumidos na campanha do Ministério da Saúde. Confira aqui a conversa.



Autor: Paulo Schueler
Fonte: Bio-Manguinhos/Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data de Publicação: 24/05/2018
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/dose-fracionada-da-vacina-para-febre-amarela-garante-imunidade-prolongada

quarta-feira, 18 de abril de 2018

'Radis' divulga novas ações de prevenção contra a febre amarela

Apesar de ser uma doença conhecida, prevenível por vacinação, as abordagens contra a febre amarela não evitaram o aumento de 50,8% no número de casos em 2018, em relação a 2017. Some-se a isso o risco confirmado de reurbanização da doença, que mobiliza ativistas e especialistas para a divulgação de informações confiáveis e a necessidade de convencer a população a se vacinar. Radis apresenta, a seguir, um guia atualizado sobre a febre amarela, com base em orientações fornecidas por pesquisadores em oficina ministrada para jornalistas, no mês de março (veja abaixo). Na pauta, os estudos sobre o novo medicamento, avaliações sobre a eficácia da vacina e a defesa da imunização - medida comprovada de prevenção do retorno da doença às cidades. Leia a reportagem completa da Radis, n° 187.


Expansão geográfica

“O que está acontecendo é absolutamente previsível”, explicou Akira Homma, presidente do Conselho Político e Estratégico do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz). A curva epidemiológica da febre amarela silvestre, conforme explicou o pesquisador, tem alguns “anos silenciosos”, em que não ocorrem novos casos, e isso levou ao negligenciamento da vacinação. “Em 2017, durante o inverno, o ministro da Saúde ‘decretou’ o fim da epidemia, mas era apenas a diminuição sazonal do número de casos com a queda das temperaturas”, criticou o pesquisador. Ele lembra que está havendo, ao longo dos anos, uma expansão geográfica da doença em direção ao litoral do país devido ao desequilíbrio do ecossistema, e a população mais suscetível é a de adultos, geralmente trabalhadores ou quaisquer pessoas que entrem nas florestas para desempenhar atividades durante o dia, uma vez que o mosquito é diurno. “Calor, chuvas, explosão da população de mosquitos migrando para o Sul e buscando primatas não humanos sensíveis é o contexto em que essa expansão geográfica ocorre”, explicou.

Novo medicamento

Das pessoas que se infectam com o vírus da febre amarela, a maior parte (até 80%) fica assintomática ou apresenta sintomas leves que podem se confundir com uma gripe comum. No entanto, os pacientes que geralmente chegam aos hospitais são os casos graves, com o que o infectologista André Siqueira, pesquisador do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) descreve como “sintomas trágicos”, com alto grau de mortalidade. Para tentar salvar a vida desses pacientes, um novo estudo vai avaliar o uso do medicamento sofosbuvir contra a febre amarela. Originalmente indicado para hepatite C, o protocolo do medicamento está sendo desenvolvido em um ensaio clínico em parceria com diversos hospitais do país. Estudos preliminares em laboratório demonstraram a eficácia do sofosbuvir contra o vírus em células de camundongo. “A droga foi escolhida para o estudo porque é a primeira já testada em modelos in vivo. Até agora, fizemos uso off-label [fora da indicação original da bula] do medicamento em pacientes graves, e a nossa observação é que a administração precoce tem resultados promissores”, explicou André, na oficina sobre o tema.

Reurbanização: como prevenir

Existe o risco real de reurbanização da febre amarela? Segundo estudo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) em parceria com o Instituto Pasteur, na França, infelizmente, a resposta é sim. A pesquisa mostrou que diferentes espécies de mosquitos dos gêneros Aedes, Haemagogus e Sabethes são capazes de transmitir o vírus. “Os dados indicam que, na hipótese de o vírus ser introduzido na área urbana do Rio de Janeiro por um mosquito infectado, existem múltiplas oportunidades para o início da transmissão local”, afirmou Ricardo Lourenço de Oliveira, chefe do Laboratório de Mosquitos Transmissores de Hematozoários do IOC. Para prevenir o chamado transbordamento da doença do ciclo silvestre para o urbano, o estudo, publicado na revista internacional Scientific Reports, em julho de 2017, ressalta que é essencial que as pessoas que entrem em contato com as áreas de mata onde há circulação da forma silvestre sejam imunizadas. O Aedes aegypti não é um vetor altamente competente para a transmissão da febre amarela, diferentemente de outras doenças, como a dengue, zika e chikungunya. No entanto, a presença de muitos mosquitos em locais com alta densidade populacional - não vacinada - e a introdução de uma pessoa com alta viremia (um recém-chegado de viagem, por exemplo, com muitos vírus circulando no sangue, nos primeiros três a cinco dias após a infecção pelo vírus), é um quadro que pode favorecer a transmissão dentro das cidades.

Cobertura vacinal baixa

Ainda em 2016, durante o surto de febre amarela no estado de Minas Gerais, que é endêmico para a doença, o porcentual da população vacinada era de 40%. Esse número é considerado baixíssimo pelo epidemiologista Akira Homma. O porcentual da população vacinada contra a febre amarela no Estado do Rio de Janeiro até fevereiro de 2018 era de apenas 7%, e de São Paulo, 15%. “Há doses suficientes sendo distribuídas pelo SUS para toda a população, e é absoluta a segurança da vacina. O que é necessária é uma estratégia de comunicação mais eficaz”, afirmou Akira Homma. Em fevereiro, dois turistas chilenos morreram de febre amarela após visita à Ilha Grande, distante 100 quilômetros da capital do Rio de Janeiro, fato que ele considera alarmante.

Macacos sentinelas

A doença em seu ciclo silvestre não é erradicável, pois o vírus permanece nos mosquitos, que vivem nas copas das árvores dentro das florestas, e nos macacos. Os animais, quando adoecem e morrem dão o alerta de que o vírus está circulando e atingindo animais sem imunidade em áreas de transição entre a zona rural e a urbana. Por isso, os macacos são os chamados “sentinelas”, já que alertam de que é hora de reforçar a vacinação de toda a população em torno de um caso de animal doente.

Doses fracionadas

A vacina (e a dose que vem sendo aplicada no SUS na campanha atual) é segura e eficaz, e deve ser tomada por todos aqueles que nunca foram vacinados, salvo algumas exceções como gestantes e imunodeprimidos. A vacinação de mulheres que estejam amamentando e pessoas maiores de 60 anos deve ser feita sob recomendação médica. “As pesquisas indicam que, mesmo com a aplicação da dose reduzida em um quinto da dose padrão, a vacina produzida por Bio-Manguinhos/Fiocruz sustenta a proteção similar por pelo menos oito anos a partir do momento da vacinação”, reforçou Tatiana Noronha, médica e pesquisadora de Bio-Manguinhos. A vacina, que é do tipo de vírus atenuado, induz a produção de anticorpos em 95% das pessoas.




Autor: Ensp/Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data de Publicação: 17/04/2018
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/radis-divulga-novas-acoes-de-prevencao-contra-febre-amarela

sexta-feira, 13 de abril de 2018

SP, BA e RJ têm vacinação contra febre amarela 'bem abaixo da meta' da campanha, diz ministério



Moradores de Itu, no interior de São Paulo, esperam por vacina contra a febre amarela; para o Ministério da Saúde, é necessário aumentar a procura (Foto: TV TEM/Reprodução)


O Rio de Janeiro atingiu meta de 40,9% dos vacinados contra a febre amarela durante a campanha de vacinação; São Paulo chegou a 52,4% da população-alvo e Bahia vacinou 55%. Esses dados estão "bem abaixo" da vacinação ideal para o controle da doença em áreas que historicamente não tinham a circulação do vírus, mas que agora estão sob maior risco, diz o Ministério da Saúde. Segundo dados da literatura científica sobre o tema, é necessário vacinar 95% da população-alvo para se ter um maior controle sob o surto.


Os números são do último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde e de nota de alerta da pasta sobre a baixa imunização contra a febre amarela. A pasta disse ainda que, nesses três estados, 10 milhões de pessoas ainda precisam ser vacinadas contra a doença. A meta de imunização é de 23,8 milhões nessas regiões. O Brasil tem 331 mortes por febre amarela desde julho de 2017 e 1.127 casos confirmados.


Carla Domingues, coordenadora do Programa Nacional de Imunização do Ministério da Saúde (PNI), explica que o principal gargalo está na vacinação do adulto. "Na criança, a mãe leva para o posto e vacina". Ela afirma que o ministério está em diversas reuniões com os estados e municípios para tentar coordenar uma "vacinação ativa", com profissionais de saúde disponíveis em terminais de transporte público, por exemplo.



"Para atingir a meta, talvez seja necessário uma vacinação extra-muro, fora dos serviços de saúde. Estamos tentando coordenar isso com os estados e municípios em reuniões estratégicas. Minas Gerais fez isso e as metas melhoraram muito. Espírito Santo vacinou em campo de futebol", explica Carla.


Os estados de Rio de Janeiro, Bahia e São Paulo possuem uma circulação emergente do vírus e, por isso, foram alvos de campanhas de vacinação contra a doença esse ano. Embora a ideia do governo seja expandir a vacinação para todo o país e nesses três estados; a prioridade nesse momento são áreas de maior circulação do vírus.


Por esse motivo, os dados apresentados se referem às 77 cidades que fizeram parte da estratégia de fracionamento da dose da vacina (quando uma vacina "inteira" é dividida em cinco) e aos 52 municípios de São Paulo que posteriormente foram integrados à campanha. Quando o ministério fala de população-alvo, assim, a referência é aos residentes dessas regiões.


Segundo o infectologista e pediatra Renato Kfouri, o ideal para a febre amarela ainda é que 100% da população-alvo seja vacinada. "A febre amarela tem um perfil diferente de outras doenças. Não é como outras infecções que, se muitas pessoas estão vacinadas, você impede a circulação do vírus porque há uma imunização na maioria", diz.



"Se alguém que não tomou a vacina for para a mata, ela está sim com risco de infecção; então, há uma proteção aí que é individual e independente das metas nacionais", completa o especialista.




De fato, Carla Domingues explica que a meta para a população sem contraindicação para a vacina (alergia a ovo, por exemplo) é de 100%. "O dado de 95% conta com o fato de que algumas pessoas não podem tomar o imunizante", diz. Afora as pessoas que não podem tomar a vacina, a dose é indicada para todos entre 9 meses e 59 anos.


"A febre amarela não tem o que chamamos de imunidade de rebanho, uma proteção indireta que ocorre quando a doença é transmitida de pessoa para a pessoa. Cada um tem que tomar a vacina", explica Carla.



A coordenadora do Programa de Imunização do ministério explica que cada estado também terá que olhar no seu "microdado" para ver quais regiões ou bairros estão com baixa cobertura vacinal. "Não é possível saber, em nível nacional, qual bairro não aderiu à ação", diz.


Estratégias para imunização nacional e situação atual


Até abril de 2019, o Ministério da Saúde espera ter a vacina disponível em todos os municípios brasileiros. Hoje, 65% do Brasil tem a vacina com aplicação de rotina. Atualmente, diz a pasta, a vacina só não está disponível em alguns estados do Nordeste e da região Sul. Em julho, devem entrar os estados do Sul e em janeiro as regiões do Nordeste.


"A vacina da febre amarela ficará disponível o ano inteiro em todos os postos de saúde do Brasil. Não é uma vacina sazonal, como a da gripe, que entra e sai do calendário. As campanhas são apenas de mobilização", explica.






Febre amarela circula com mais força até maio



O ministério diz ainda que a alta de transmissão da febre amarela deve ir até maio. A febre amarela, como dengue, zika e chikungunya -- outras doenças também transmitidas por mosquito --possuem uma característica de sazonalidade e são mais frequentes no verão.


A pasta informa que, nessa temporada, o vírus da febre atinge 35,6 milhões de pessoas em áreas que anteriormente não pertenciam ao ciclo de recomendação da vacina. No verão passado, o surto atingiu 11,2 milhões de pessoas. Portanto, há um aumento de mais de 200% nas pessoas que hoje estão mais suscetíveis à febre amarela.



"A vacinação é a única proteção contra a doença. O Ministério da Saúde chama a população para se proteger contra a febre amarela indo aos postos de vacinação e garantir a sua imunização", disse a pasta.



A vacina é direcionada a todas as pessoas entre nove meses de idade e 59 anos. Há algumas restrições, como pessoas com doenças relacionadas à imunidade e com alergia a ovo.


Passada a alta da febre amarela (mais frequente no verão), o próximo-alvo do Ministério da Saúde será a vacina da gripe, com campanha nacional que deve começar ainda esse mês para população específica (idosos, gestantes, entre outros). A circulação do vírus influenza começa a ser mais frequente em junho, durante o inverno.



Autor: Monique Oliveira
Fonte: G1 Globo
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 13/04/2018
Publicação Original: https://g1.globo.com/bemestar/noticia/sp-ba-e-rj-tem-vacinacao-contra-febre-amarela-bem-abaixo-da-meta-diz-ministerio.ghtml

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Fiocruz promove inovação no diagnóstico molecular de febre amarela



Em resposta ao crescimento de casos de febre amarela, o Ministério da Saúde distribuiu, desde 2017, mais de 68 milhões de doses da vacina aos estados brasileiros – são 52 milhões de doses a mais do que o total distribuído em 2016. Em março de 2018, o Ministério anunciou que todo o território nacional será área de recomendação para vacina até abril de 2019, com previsão de imunizar mais de 77 milhões de pessoas. Medida central para prevenção e controle da doença, a vacina é considerada segura e apresenta eficácia de 95% a 99%. Entretanto, assim como qualquer vacina ou medicamento, pode causar eventos adversos. Nesses casos pouco frequentes, ocorrem sintomas idênticos aos da infecção natural pelo vírus. Para distinguir a origem do caso é necessário identificar, em laboratório, se o paciente apresenta o vírus selvagem – aquele em circulação num determinado local, transmitido pela picada de mosquitos – ou o vírus atenuado – que é utilizado na produção da vacina. Uma inovação em diagnóstico molecular idealizada pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e desenvolvida em parceria com a Universidade de Bonn, da Alemanha, permite diferenciar com precisão e mais agilidade se a origem do caso foi uma transmissão comum ou um evento adverso após a vacinação.

A novidade foi desenvolvida pelo Laboratório de Flavivírus do IOC/Fiocruz, que atua como referência regional para febre amarela junto ao Ministério da Saúde. A virologista Ana Bispo idealizou o projeto a partir de uma demanda concreta. “Criamos uma solução que permite dar respostas mais rápidas em termos de diagnóstico. Diante de um surto de febre amarela, a confirmação laboratorial é uma ferramenta importante na definição das estratégias de vigilância da circulação do vírus e controle da doença”, destacou a chefe do Laboratório de Flavivírus. O método diferencial, que utiliza a técnica de RT-PCR em tempo real, supera em muito a velocidade da tradicional técnica de sequenciamento genético do vírus, atualmente disponível para a diferenciação entre vírus selvagem e vírus vacinal. Enquanto o sequenciamento pode variar de três a 15 dias, o novo protocolo de RT-PCR em tempo real leva de uma a duas horas. Além disso, pode ser conduzido por um profissional que domine as técnicas básicas de diagnóstico molecular, enquanto o método de sequenciamento viral exige profissionais com capacitação específica para análise dos resultados do sequenciamento do material genético do vírus. O desenvolvimento e a validação do protocolo estão descritos em um artigo publicado no periódico científico ‘Emerging Infectious Diseases’, publicado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC).



Projeto foi idealizado pela virologista Ana Bispo (Foto: Gutemberg Brito)

A metodologia de RT-PCR em tempo real é baseada na identificação do material genético do vírus em uma amostra. Para chegar a um teste preciso, os pesquisadores buscaram regiões do genoma em que o vírus selvagem e a cepa vacinal são diferentes, o que permite a diferenciação entre ambos. Foram criados dois protocolos: o protocolo chamado de ‘alvo único’ (quando há necessidade da realização de duas reações separadas para detectar a presença do vírus selvagem e da cepa vacinal) e de ‘alvo duplo’ (quando a detecção é realizada em uma mesma reação).

O protocolo mostrou ser capaz de detectar o vírus selvagem e o vírus vacinal com alta sensibilidade e especificidade diagnóstica. “Um ponto merece destaque: para garantir que não havia o risco de reação cruzada, foram realizados experimentos com mais de 40 vírus diferentes durante o desenvolvimento do método. Tivemos a grata surpresa de conseguir desenvolver um método inédito de alta sensibilidade, especificidade e rápido para diferenciar vírus febre amarela selvagem e vírus vacinal”, comemora a pesquisadora. Além disso, o procedimento permite quantificar a carga viral presente na amostra.

Atualmente, o procedimento está sendo aplicado no Laboratório de Flavivírus do IOC para caracterizar o tipo de infecção em amostras de casos suspeitos de eventos adversos após a vacinação. O protocolo tem potencial para contribuir especialmente na rotina de esclarecimento de casos suspeitos de eventos adversos à vacinação junto ao Programa Nacional de Imunizações (PNI). A pedido da Coordenação Geral de Laboratórios de Saúde Pública do Ministério da Saúde (CGLAB), está em curso a produção, em caráter de protótipo, de um kit de insumos para uso no protocolo. Essa etapa está sendo realizada por meio de colaboração do IOC com o Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP). A perspectiva é de que, no futuro, os insumos possam ser utilizados na rede de Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacens), que atua no diagnóstico laboratorial de febre amarela. Para André Luiz de Abreu, da Coordenação Geral de Laboratórios de Saúde Pública do Ministério da Saúde (CGLAB/SVS/MS), a novidade poderá beneficiar a rotina de trabalho em todo o país. “Essa é uma inovação pensada por um Laboratório da rede para aperfeiçoar o conjunto das atividades de diferenciação em diagnóstico da febre amarela. Existe potencial de agilizar o processo em todo o Brasil”, avaliou.

“A exemplo da idealização inédita do desenvolvimento de um teste rápido e sensível capaz de diagnosticar simultaneamente Zika, dengue e chikungunya e hoje disponível na rede de Lacens, a nova proposta desenvolvida no Laboratório de Flavivírus representa mais uma conquista importante para o diagnóstico laboratorial. Novamente, conseguimos obter uma solução concreta para um desafio da rotina dos laboratórios que lidam com o diagnóstico dessas doença”, a virologista detalha.

O novo protocolo tem ainda mais um benefício: oferece resultados conclusivos mesmo quando a amostra tem baixa concentração do vírus. Nesses casos, pode não ser possível realizar a análise tradicional diretamente a partir do material clínico, sendo necessária a realização de uma etapa intermediária para isolamento do vírus, que é então replicado em laboratório. No entanto, a situação se torna um problema na hipótese de um paciente que tenha simultaneamente a infecção selvagem e a vacinal – um paciente, portanto, que é picado por um mosquito com o vírus pouco antes ou pouco depois do momento em que foi vacinado, quando a imunidade provocada pela vacinação ainda não foi estabelecida. Nessa circunstância, aumentam as chances de que, por conta da etapa intermediária de isolamento viral, seja detectado apenas vírus presente em maior quantidade na amostra, apesar dos dois vírus estarem presentes. Já o novo protocolo de RT-PCR em tempo real diferencial é capaz de detectar ao mesmo tempo a presença dos dois vírus – mesmo que um deles esteja em concentração mais baixa na amostra do paciente.

Laboratório de Flavivírus

O Laboratório de Flavivírus do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) atua regularmente desde a década de 1990 no diagnóstico laboratorial de amostras de pacientes com suspeita da doença provenientes dos estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais e Bahia. Também realiza análises de amostras de primatas desde 2014. Além disso, com o aumento do número de casos suspeitos desde 2017, o laboratório também foi designado pelo Ministério da Saúde para processar amostras do Ceará e Rio Grande do Norte. Segundo o Ministério da Saúde, entre junho de 2016 e junho de 2017, foram confirmados 777 casos e 261 óbitos por febre amarela no país. E de julho de 2017 a 03 de abril de 2018, já foram contabilizados 1.127 casos e 328 óbitos.


Autor: Lucar Rocha
Fonte: IOC/Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data de Publicação: 12/04/2018
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/fiocruz-promove-inovacao-no-diagnostico-molecular-de-febre-amarela