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segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Novos bairros de Niterói recebem Aedes com Wolbachia



Fonte: Camile de Oliveira (WMP Brasil)


O WMP Brasil avança em Niterói e cinco novos bairros começarão a receber os mosquitos com Wolbachia, aliados no combate à dengue, zika, chikungunya. Fonseca, Engenhoca, Cubango, Santana e São Lourenço entram na lista dos locais que receberão Aedes aegypti com Wolbachia.

Esta metodologia inovadora, sem fins lucrativos, autossustentável e complementar, que ajuda a reduzir as doenças transmitidas pelo Aedes aegypti começa a ser implementada nestes bairros no início de setembro. As liberações dos mosquitos serão feitas durantes 16 semanas por técnicos da Fiocruz, em carro identificado e também por Agentes de Saúde da Prefeitura de Niterói, em pontos mapeados e pré-determinados. Após algumas semanas de liberação, armadilhas usadas para capturar mosquitos serão instaladas em residências e estabelecimentos disponibilizados por voluntários. O objetivo é monitorar o estabelecimento da população de Aedes aegypti com Wolbachia.

As liberações de mosquitos são precedidas por uma série de ações educativas e de comunicação com o objetivo de informar a população sobre o método Wolbachia. Esta etapa tem o apoio e a participação de parceiros do WMP nos bairros, como lideranças comunitárias e associações de moradores, unidades de saúde, escolas e organizações não-governamentais.

De acordo com o líder do WMP no Brasil, Luciano Moreira, o método utilizado é seguro para as pessoas e para o ambiente. “Não há risco de interferência deste trabalho em outras pesquisas e ações que visam o controle dos mosquitos e de doenças transmitidas por eles. Nosso objetivo é proteger as comunidades destes municípios dessas arboviroses”.

Mosquitos Aedes aegypti com Wolbachia têm capacidade reduzida de transmitir dengue, zika, chikungunya. Ao serem soltos na natureza se reproduzem com os mosquitos de campo e geram Aedes aegypti com as mesmas características, tornando o método autossustentável, conforme ilustrado na figura abaixo. Esta iniciativa não usa qualquer tipo de modificação genética.



Análises preliminares na região

Análises preliminares apontam que o método Wolbachia já apresenta resultados positivos na redução dos casos de dengue e chikungunya em áreas onde a Wolbachia já está estabelecida. Os resultados ainda não são definitivos. “Pela natureza do projeto, por ser algo vivo e dinâmico, com fatores sazonais, dinâmica das doenças e população é necessário tempo para mostrar resultados”, aponta Betina Durovni, líder de epidemiologia do WMP Brasil.

De acordo com estudos estatísticos três anos seria o prazo mais adequado para análises mais robustas do ponto de vista científico. As liberações de Aedes aegypti com Wolbachia na área em estudo de Niterói tiveram início em janeiro de 2017. Em julho a área terá dois anos de observação e até o momento os resultados são considerados promissores, porém não definitivos.

Resultados WMP Brasil nos municípios do Rio de Janeiro e Niterói

Com os novos bairros o WMP Brasil passa a atender 29 bairros no Rio de Janeiro e 33 bairros em Niterói, totalizando 62 bairros já atendidos pelo projeto. São 909 mil pessoas beneficiadas no RJ e 373 mil em Niterói.

Wolbachia

A Wolbachia é um microrganismo presente em cerca de 60% dos insetos na natureza. Ela foi inserida em ovos de Aedes aegypti na Universidade de Monash, na Austrália, onde se identificou que, uma vez presente nestes mosquitos, a capacidade de transmissão das doenças fica reduzida. O método é seguro para as pessoas e para o ambiente, pois a Wolbachia vive apenas dentro das células dos insetos.

WMP Brasil

O WMP Brasil, antes chamado Eliminar a Dengue: Desafio Brasil faz parte do World Mosquito Program (WMP), uma iniciativa internacional sem fins lucrativos presente atualmente em 12 países que trabalha para proteger a comunidade global de doenças transmitidas por mosquitos. No Brasil, o projeto é conduzido pela Fiocruz.

O WMP iniciou as liberações nas áreas piloto, Jurujuba - Niterói e Tubiacanga – Ilha do Governador, em 2015. Em novembro de 2016 deu início a liberação em larga escala em Niterói e em agosto de 2017 no Rio de Janeiro. No mês de abril de 2019 o programa anunciou expansão para três novos municípios no Brasil: Campo Grande (MS), Petrolina (PE) e Belo Horizonte (MG).




Autor: Camile de Oliveira (WMP Brasil)
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 29/08/2019
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/novos-bairros-de-niteroi-recebem-aedes-com-wolbachia

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Wolbachia inibe transmissão do vírus da febre amarela



Por: Glória Galembeck (Agência Fiocruz de Notícias)


A presença da bactéria Wolbachia em Aedes aegypti tem a capacidade de reduzir a transmissão do vírus da febre amarela nesta espécie de mosquito. A descoberta é o tema de um artigo publicado pela Gates Open Research. A pesquisa que resultou no artigo, intitulado Pluripotency of Wolbachia against Arbovirus: the case of yellow fever, foi supervisionada pelo pesquisador da Fiocruz e líder do World Mosquito Program (WMP) no Brasil, Luciano Moreira. O WMP é um programa internacional de combate à doenças transmitidas por mosquitos e, no Brasil é conduzido pela Fundação.

O artigo é resultado do trabalho conjunto de pesquisadores de três instituições: Instituto René Rachou (IRR/Fiocruz Minas), Fundação Ezequiel Dias (Funed) e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A transmissão urbana da doença por Aedes aegypti não é relatada no Brasil desde 1942. Entretanto, pesquisadores apontam que o risco de reurbanização da febre amarela existe, uma vez que o Aedes aegypti está presente na maioria das cidades de clima tropical e subtropical do mundo e foi o principal vetor no passado. Entre os anos de 2016 e 2018 o Brasil enfrentou alguns surtos de febre amarela, arbovirose transmitida pelos mosquitos silvestres dos gêneros Haemagogus e Sabethes. Houve mortalidade de até 30%. Atualmente, além da febre amarela, o Método Wolbachia é eficiente na prevenção da transmissão das seguintes arboviroses: dengue, zika, chikungunya e febre mayaro.

O estudo

Para realizar a pesquisa foram utilizados dois grupos isolados de vírus da febre amarela (YFV), obtidos de humanos e de macacos, originários dos últimos surtos ocorridos no estado de Minas Gerais. Esses vírus foram multiplicados em cultura de células de insetos e adicionados à alimentação sanguínea ministrada a Aedes aegypti com e sem Wolbachia. Como as amostras de sangue usadas na alimentação poderiam conter anticorpos devido a, por exemplo, aplicação da vacina contra a doença, a amostra passou por um processo para assegurar a eliminação desses anticorpos antes de alimentar os mosquitos.

A infecção provocada pelos vírus nos mosquitos foi acompanhada nos tempos de 7, 14 e 21 dias após a alimentação sanguínea, a partir da análise da cabeça e do tórax dos insetos. Foi verificado que, em mosquitos com Wolbachia, a quantidade de YFV foi menor do que nos mosquitos que não possuíam o microorganismo em suas células.

Em outro ensaio, foi realizada a coleta de saliva em Aedes aegypti com e sem Wolbachia, alimentados com sangue contendo o vírus da febre amarela ( 7, 14 e 21 dias após a alimentação). Essa saliva foi injetada em mosquitos Aedes aegypti sem a bactéria Wolbachia. Após cinco dias, esses insetos foram analisados, revelando que nenhum dos mosquitos que receberam saliva oriunda de Aedes aegypti com Wolbachia se infectou com o vírus da febre amarela. Já entre os mosquitos que receberam a saliva de Aedes aegypti sem Wolbachia, houve infecção.

A saliva dos mosquitos também foi utilizada em um teste com camundongos. Os camundongos que receberam injeção da saliva extraída de Aedes aegypti com Wolbachia que receberam sangue contaminado com febre amarela não se infectaram. Já os grupo em que foi aplicada a injeção de saliva extraída de Aedes aegypti sem Wolbachia, houve a infecção. "Os resultados indicam que, caso a febre amarela volte a ter transmissão urbana pelo Aedes aegypti, o Método Wolbachia pode ser uma estratégia complementar para prevenir a transmissão da doença, junto com o programa de vacinação", observou Luciano Moreira.

Na avaliação do médico Pedro Fernando da Costa Vasconcelos, diretor do Instituto Evandro Chagas, órgão vinculado à Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) do Ministério da Saúde (MS), existem condições para que o Aedes aegypti seja um vetor de febre amarela. "Existe possibilidade, pois há pessoas suscetíveis, vírus circulando em áreas periurbanas, como regiões de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro próximas a matas. Estudos demonstram que o Aedes aegypti e o Aedes albopictus têm a capacidade de se infectar com o vírus da febre amarela", explicou.

No Paraguai, em 2008, houve surtos da doença transmitida pelo Aedes aegypti, com registro de óbitos, na periferia da capital Assunção. Angola enfrentou uma epidemia de casos urbanos em 2016.

Entretanto, Vasconcelos considera improvável o reaparecimento da febre amarela urbana no Brasil. "O Aedes aegypti não é um excelente vetor para a doença e temos uma cobertura vacinal razoavelmente alta", observou o pesquisador. Outro aspecto relevante diz respeito ao vetor. "Estudos sugerem que o Aedes aegypti que circula atualmente, de origem asiática, é menos suscetível ao vírus da febre amarela do que o mosquito que circulava nos séculos XVII, XVIII e XIX, de origem africana, que ingressou no Brasil com o tráfico de escravos", explicou Vasconcelos.

A doença

A febre amarela é uma doença infecciosa causada por um vírus do gênero Flavivirus, da família Flaviviridae. Provoca uma infecção febril aguda de curta duração (no máximo 10 dias), de gravidade variável e que pode levar à morte.

No ciclo silvestre da febre amarela, que é o que ocorre no Brasil, os primatas não humanos (macacos) são os principais hospedeiros e amplificadores do vírus. Os vetores são mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes, que têm hábitos estritamente silvestres. Locais que têm matas e rios, nos quais o vírus, seus hospedeiros e vetores ocorrem naturalmente, são consideradas como áreas de risco.

A vacina antiamarílica é fabricada pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz) e oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS). É recomendada para as pessoas a partir de 9 meses de idade, que residem ou que se deslocam para os municípios que compõem a área com recomendação de vacina - a lista está disponível no site do Ministério da Saúde.




Autor: Glória Galembeck
Fonte: Agência Fiocruz de Notícias
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 18/02/2019
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/wolbachia-inibe-transmissao-do-virus-da-febre-amarela