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segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Editorial: A variante delta e as vacinas para Covid-19

Com o avanço da pandemia por Covid-19 em diferentes regiões do mundo, novas mutações têm surgido e muitas delas associadas à maior transmissão e contágio. A variante delta (B.1617.2) é a preocupação mais recente e há evidências de que esteja circulando em níveis altos no Rio de Janeiro e em outras regiões do país.


Nós que trabalhamos na linha de frente já observamos na última semana um aumento do número de casos, seja na população, seja nos profissionais de saúde. A boa notícia é que as internações de casos graves ainda não subiram na mesma proporção até a data deste editorial (16/08/2021), o que provavelmente indica a eficácia vacinal na redução de SDRA e mortalidade.

Neste texto, trouxemos para vocês as evidências mais atuais da eficácia das principais vacinas disponíveis no Brasil para a variante delta, reforçando a importância da imunização coletiva.

Vacinas de mRNA

A vacina da Pfizer foi avaliada em um recente estudo na NEJM e já publicada em nosso portal. Comparando com a cepa original, chamada de alfa, a eficácia foi de 88% após a segunda dose. O estudo da NEJM não separou casos graves dos demais para análise, considerando apenas a população como um todo, mas estudos subsequentes, no Canadá, Escócia e Israel, mostram eficácia para hospitalização e morte em torno de 80-90%!

A vacina da Moderna, também RNA, não está disponível no Brasil, mas apresentou resultados similares aos da Pfizer.

Vetor viral

A vacina da Jansen ainda não concluiu os estudos em humanos contra a variante delta. Apenas um resultado preliminar, ainda não revisado por pares, sugere que o nível de anticorpos neutralizantes induzido seja similar àquele da variante alfa, para a qual a vacina já se mostrou eficaz.

A vacina da AstraZeneca foi avaliada pelo estudo publicado na NEJM junto da Pfizer, porém sua eficácia global, isto é, englobando mesmo casos leves, foi menor, cerca de 67% após duas doses. Estudos no Canadá e na Escócia, ainda não revisados por pares, indicam resultados similares. A boa notícia é que a eficácia para hospitalização e morte é muito boa, com números em torno de 85-90%!
Vírus inativado

A Coronavac é a principal vacina deste grupo e a primeira a ser utilizada no Brasil. O fato de pessoas já imunizadas com duas doses estarem se infectando e às vezes internando tem gerado alarme na população leiga e até entre profissionais de saúde.

Para melhor entender a situação é necessário olhar com calma os estudos disponíveis até o momento. O principal deles foi realizado no Chile, em população do mundo real, e já comentado no nosso portal. A prevenção de infecções pelo Covid, como esperado, ficou em torno de 60-70%. O ponto central das vacinas é a prevenção de formas graves: a eficácia foi de 85 a 90%!

O problema é que neste estudo a maior parte da cepa não era delta. Infelizmente, para essa cepa, ainda não há estudos publicados. Tanto o Instituto Butantã quanto o fabricante chinês afirmam que há pesquisas em andamento, mas até o momento sem resultados revelados.
Conclusão

A disponibilidade de vacinas e a ampla vacinação da população não devem ser estímulos para a suspensão de medidas preventivas importantes, como evitar multidões e manter uso de máscaras. Isso porque o efetivo controle da doença a nível mundial só será possível com a vacinação em ampla escala, em todos os países, a fim de frear os casos graves.

Enquanto houver países com níveis incontroláveis de contágio, como a Indonésia e a Índia, recentemente, o surgimento de novas mutações e a possível resistência às vacinas continuarão a nos assombrar. Estudos com doses de reforço, em especial a Coronavac, são urgentes, a fim de programar o calendário vacinal em 2022.



Ronaldo Gismondi


Editor-chefe médico da PEBMED ⦁ Pós-doutorado em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) ⦁ Coordenador da Cardiologia do Niterói D’Or ⦁ Professor da Universidade Federal Fluminense (UFF)


Referências bibliográficas:
Jongeneelen M, et al. Ad26.COV2.S elicited neutralizing activity against Delta and other SARS-CoV-2 variants of concern. Biorxiv. doi: https://doi.org/10.1101/2021.07.01.450707
Bernal JL, et al. Effectiveness of Covid-19 Vaccines against the B.1.617.2 (Delta) Variant. New England Journal of Medicine. August 12, 2021; 385:585-594. DOI: 10.1056/NEJMoa2108891
Jara A, et al. Effectiveness of an Inactivated SARS-CoV-2 Vaccine in Chile. New England Journal of Medicine. July 7, 2021. DOI: 10.1056/NEJMoa2107715
Nasreen S, et al. Effectiveness of COVID-19 vaccines against variants of concern, Canada. medRxiv preprint doi: https://doi.org/10.1101/2021.06.28.21259420
Sheikh A, et al. SARS-CoV-2 Delta VOC in Scotland: demographics, risk of hospital admission, and vaccine effectiveness. The Lancet. June 14, 2021 DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(21)01358-1
Pancini L. Covid-19: Qual a eficácia das vacinas contra a variante Delta? Revista Exame. 30 de julho de 2021. https://exame.com/ciencia/eficacia-das-vacinas-contra-variante-delta/









Autor: Ronaldo Gismondi
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 16/08/2021
Publicação Original: https://pebmed.com.br/virus-de-marburg-a-febre-hemorragica-detectada-no-guine-que-ainda-nao-possui-vacina/

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Risco de trombose por Covid-19 é maior do que por vacinas

Um estudo de pesquisadores da Universidade de Oxford indica que o risco de ocorrer trombose venosa cerebral (CVT, no acrônimo em inglês) em pessoas com Covid-19 é consideravelmente maior do que nas que receberam vacinas baseadas na tecnologia de RNA mensageiro (mRNA), como os imunizantes da Pfizer, Moderna e Oxford/AstraZeneca, produzida no Brasil pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

A pesquisa Trombose venosa cerebral: um estudo de coorte retrospectivo de 513.284 casos de Covid-19 confirmados e uma comparação com 489.871 pessoas recebendo vacina de mRNA reuniu os pesquisadores Maxime Taquet, John R. Geddes, Paul J. Harrison (os três do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Oxford e da Oxford Health NHS Foundation Trust), Masud Hussain (Departamento Nutfield de Ciências Clínicas da Universidade de Oxford e da Oxford University Hospitals NHS Foundation Trust) e Sierra Luciano (TriNetX, de Cambridge, Massachusetts).

“Embora a magnitude do risco não possa ser quantificada com certeza, o risco após a Covid-19 é aproximadamente de 8 a 10 vezes o relatado para as vacinas, e cerca de 100 vezes maior em comparação com a taxa da população. O aumento do indice de CVT com a Covid-19 é notável, sendo muito mais marcante do que os riscos aumentados para outras formas de acidente vascular cerebral e hemorragia cerebral”, diz o estudo. “Os dados de trombose da veia porta (PVT) destacam que a Covid-19 está associada a eventos trombóticos que não se limitam à vasculatura cerebral”.

Outros efeitos da doença

Usando uma rede de dados eletrônicos de saúde e da Agência de Medicamentos Europeia (EMA), eles analisaram a incidência de CVT e de PVT em pacientes duas semanas após o diagnóstico de Covid-19, comparando-os com casos associados à influenza e às vacinas.

A análise dos dados da TriNetX Analytics – que abrange 59 organizações de saúde, basicamente nos EUA — mostra que a incidência de CVT em pessoas infectadas pelo Sars-CoV-2 é de 39 para cada milhão de pessoas, bem acima dos observados naqueles que receberam as vacinas da Pfizer e da Moderna (4,1 por milhão). No caso da gripe, nenhum caso foi observado. Para o PVT, a incidência foi de 436,4 por milhão em pacientes com Covid-19; 98,4 por milhão após a influenza e de 44,9 após as duas vacinas.

Os testes laboratoriais de pacientes que contraíram o Sars-CoV-2 fornecem ainda indícios sugestivos “de dímero D elevado, fibrinogênio reduzido e uma taxa elevada de trombocitopenia” nos grupos que sofreram CVT e PVT, com uma taxa de mortalidade de 20% e 18,8%, respectivamente.

“Esses dados mostram que a incidência de CVT cresce significativamente após a Covid-19, e é maior do que a observada em relação às vacinas BNT162b2 [Pfizer/BioNTech] e mRNA-1273 [Moderna]”, diz o estudo, referindo-se aos imunizantes mais aplicados no território americano.

A pesquisa destaca que “o risco apresentado pela Covid-19 é também maior do que a última estimativa da Agência Europeia de Medicamentos associada à vacina ChAdOx1 nCoV-19 [Oxford/AstraZeneca, 5 casos por milhão de pessoas], o que, segundo a pesquisa, ajuda a contextualizar riscos e benefícios dos imunizantes.

Sobre a preocupação de uma possível ligação entre as vacinas e a trombose venosa cerebral, e a suspensão por alguns países da aplicação dos imunizantes da AstraZeneca e da Janssen em determinadas faixas da população, o documento observa que “um componente-chave do cálculo de risco-benefício ainda é atualmente desconhecido: o risco absoluto de CVT após um diagnóstico de Covid-19”.

Com base na rede eletrônica, o estudo abrangeu um corte de pacientes que tiveram o diagnóstico confirmado de Covid-19 entre 20 de janeiro de 2020 e 25 de março deste ano, identificando outros problemas, como dímero D elevado, fibrinogênio reduzido e uma taxa elevada de trombocitopenia duas semanas após o diagnóstico da doença. Para comparação, também foram observadas as taxas de CVT e trombose esplâncnica em pessoas que receberam a vacina da AstraZeneca, com base em dados da EMA.

Dos 513.284 pacientes incluídos no estudo, 54,8% eram mulheres com idade média de 46,6 anos. Do número total pesquisado, 20 sofreram CVT nas duas semanas seguintes ao diagnóstico de Covid-19. O risco foi significativamente mais alto em pacientes com histórico de doença cardiovascular. Entre os 20 casos, seis foram observados em pacientes com menos de 30 anos; quatro entre 30 e 39 anos; dois entre 40 e 49; dois entre 50 e 59; três entre 60 e 69; e três entre 70 e 79. Entre os que tomaram vacina foram observados dois casos: um que recebeu o imunizante da Pfizer e outro sobre o qual não foi possível precisar se recebeu Pfizer ou Moderna.

O risco relacionado de desenvolver CVT com a Covid-19 também foi maior do que o registrado pela EMA após a aplicação da AstraZeneca (169 casos para 34 milhões de pessoas).

Em relação ao PVT, o risco também é significativamente maior: 436,4 por milhão contra 44,9 por milhão entre os imunizados. Entre estes últimos, foram observados 22 casos: 11 após a vacina da Pfizer, dois após a Moderna e nove em que não se sabe qual o imunizante utilizado. Na Europa, os incidentes com PVT foram também maiores do que os registrados pela EMA para tromboses esplâncnicas após o uso da AstraZeneca (53 casos em 34 milhões ou 1,6 por milhão de pessoa.

O estudo destaca que os dados devem ser analisados com cuidado, já que a magnitude dos riscos de Covid-19 versus a população não é baseada em cortes combinados por idades e outros fatores demográficos. Diz ainda que não é possível concluir que as vacinas baseadas no mRNA aumentem o risco de CVT. Amostragens maiores seriam necessárias para abordar a questão.

Estudo no Brasil aponta relação com trombose

No Brasil, um artigo publicado na revista científica Memórias do Instituto Oswaldo Cruz chama a atenção para a relação entre o aumento da formação de coágulos (também chamados de trombos), que podem obstruir a circulação, e o Sars-CoV-2. Seus autores, um grupo de dez pesquisadores, propõem que sua classificação seja mudada e que a Covid-19 seja a primeira infecção considerada uma febre viral trombótica. Atualmente, o agravo é classificado como Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG).

O estudo é assinado por especialistas em terapia intensiva, cardiologia, hematologia, virologia, patologia, imunologia e biologia molecular, que atuam em seis instituições de assistência médica e pesquisa científica no Brasil: Hospital Pró-Cardíaco, Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Faculdade de Medicina de Petrópolis (Unifase), Instituto Nacional do Câncer (Inca), Instituto Carlos Chagas (Fiocruz Paraná) e United Health Group. No IOC/Fiocruz, participam os Laboratórios de Virologia Comparada e Ambiental, de Aids e Imunologia Molecular, de Inflamação, de Patologia e de Imunofarmacologia.






Autor: Cristina Azevedo (Agência Fiocruz de Notícias)
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 16/04/2021
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/risco-de-trombose-por-covid-19-e-maior-do-que-por-vacinas

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Pesquisadores explicam como funcionam as duas potenciais vacinas que deram entrada na Anvisa


Foto: PixabayNo final da semana passada, duas potenciais novas vacinas contra a covid-19 entraram com pedido na Anvisa para realização de testes clínicos: a Versamune, que está sendo desenvolvida pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, em parceria com a startup Farmacore e a estadunidense PDS Biotechnology, e a ButanVac, pelo Instituto Butantan em parceria com o Icahn School of Medicine, no Mount Sinai, em Nova York (EUA).

Versamune

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recebeu o pedido para início da fase de ensaio clínico nas fases 1 e 2 da vacina Versamune na última quinta-feira, 25 de março. O imunizante contra covid-19 é uma produção do consórcio formado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, com a Farmacore, startup brasileira responsável pelo desenvolvimento tecnológico, e a PDS Biotechnology, que licenciou para a Farmacore o sistema adjuvante/carreador da formulação vacinal.

O trabalho está sendo coordenado pelo professor Celio Lopes Silva do Departamento de Bioquímica e Imunologia da FMRP e conta com apoio e financiamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). Na primeira fase do ensaio clínico, o imunizante será aplicado em 360 voluntários, e os pesquisadores estimam concluir as fases 1 e 2 entre três ou quatro meses com início em maio. Já a fase 3 deverá contar com 20 mil voluntários em diversos estados do Brasil.

A previsão é que todo o estudo clínico seja finalizado entre nove e 12 meses, ou seja, caso tudo dê certo, a vacina desenvolvida na USP em Ribeirão Preto pode estar disponível para a população no início de 2022. No sábado, dia 27 de março, a Anvisa solicitou os resultados do controle de qualidade dos insumos e do ensaio pré-clínico, que estão em fase de finalização pelo consórcio.

“Os resultados dos estudos não clínicos mostraram que ela é segura para animais e, diferentemente das outras vacinas, ela tem a capacidade de ativar todo o sistema imunológico que impede não só a entrada do sars-cov-2 para dentro das células como também matam as células já infectadas. Acreditamos que o imunizante gere uma memória imunológica de até 12 anos”, afirma o professor Célio Lopes Silva.

Além disso, conta o professor, essa vacina induz a memória imunológica de longa duração; é simples e segura (não contém vírus inativados, partículas virais, adjuvantes tradicionais e complexos, DNA, mRNA); tem boa estabilidade e facilidade nas estratégias de produção e distribuição; conta com facilidades tecnológicas para que possa ser produzida integralmente no Brasil nas fases de vacinação em massa; e permite estabelecer uma base tecnológica nacional para ajudar a vencer futuros desafios de novas pandemias que possam impactar significativamente a saúde da população.

Os pesquisadores produziram uma formulação vacinal composta do antígeno S1 do sars-cov-2, obtido na forma recombinante, e associado a uma nanopartícula lipídica denominada Versamune que é usada como carreador/adjuvante vacinal. Essa formulação composta da S1 e Versamune, induz ativação da imunidade humoral (ativação de linfócitos B para produção de níveis elevados de anticorpos neutralizantes que impedem a entrada do vírus para dentro das células), imunidade celular (ativação de linfócitos T CD8 e T CD4 que eliminam as células infectadas) e imunidade inata (ativação da via de sinalização de IFN tipo I, que é crítica para manter o sistema imunológico ativado e a geração de respostas imunes adaptativas sustentadas contra infecções virais). Além disso, a Versamune participa da ativação de células NK, macrófagos e células dendríticas que são importantes para ativação geral do sistema imune e combater infecções virais.

“No geral, podemos definir essa como uma vacina nanoparticulada, que contém o antígeno S1, veiculada com um carreador. É um imunizante que, ao entrar na célula, estimula todo o sistema imunológicoo”, resume Silva ao Jornal da USP.

O investimento reúne recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Farmacore Biotecnologia Ltda. e da americana PDS Biotechnology.
ButanVac

Na última sexta (26) Instituto Butantan anunciou que pediria à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorização para iniciar em abril um ensaio clínico de fases 1 e 2 para o desenvolvimento da ButanVac, mais uma vacina contra a covid-19 que pode se juntar ao plantel dos imunizantes produzidos no Brasil. Uma produção em pequena escala já foi finalizada para ser aplicada nos voluntários dos testes.

Os resultados das fases 1 e 2 visam a determinar se a vacina é segura e tem resposta imune capaz de prevenir o desenvolvimento da doença. Em caso positivo, o estudo pode prosseguir para a fase 3, em que uma quantidade maior de voluntários (milhares) é vacinada e acompanhada.

A ButanVac é diferente da CoronaVac, a vacina produzida pelo Butantan que está sendo aplicada atualmente na população brasileira. Enquanto que a CoronaVac utiliza uma versão inativada do próprio sars-cov-2 inteiro, a ButanVac tem como “princípio ativo” um vírus geneticamente modificado em laboratório para expressar em sua superfície uma única proteína do novo coronavírus – a proteína spike (S), que o sars-cov-2 utiliza para entrar nas células humanas e tem sido a mais utilizada em projetos de vacinas para gerar uma resposta imune específica contra ele. O vírus modificado é o da doença de Newcastle (NDV, em inglês), um patógeno que causa gripe em aves mas é inofensivo aos seres humanos.

Espera-se que a pessoa que receber a vacina gere uma resposta imunológica contra a proteína S. Assim, se ela entrar em contato posteriormente com o sars-cov-2, seu organismo já terá aprendido a combater o vírus da covid.

Figurativamente falando, é como se você colocasse uma máscara com o retrato-falado de um bandido sobre o rosto de uma pessoa inocente (o vírus geneticamente modificado) e soltasse essa pessoa no transporte público de uma cidade (o organismo da pessoa vacinada), para treinar a polícia local (o sistema imunológico) a reconhecer o rosto do fugitivo no meio da multidão e prendê-lo antes que ele tenha tempo de praticar algum crime (causar a covid-19).

A capacidade de gerar resposta imune da vacina é promissora, na perspectiva de Olga Chaim, professora licenciada da UFPR e atualmente pesquisadora na Universidade da Califórnia em San Diego, em razão escolha do vírus Newcastle, que foi “isolado de aves e já se mostrou bastante imunogênico em testes in vitro e nos testes pré-clínicos em animais. É um perfeito candidato. Não gera doença, mas ativa resposta imune”.

No processo de fabricação da vacina, o vírus modificado é injetado em ovos de galinha com os embriões ainda vivos. Uma agulha fura o topo do ovo e outra insere o vírus. Após um intervalo, o vírus se replica dentro do ovo, que é colocado numa câmara fria. O embrião morre e os vírus são liberados para o líquido que fica ao redor do embrião. Depois o líquido é purificado, e o vírus é inativado (para impedir que se replique e cause doença). Finalmente, o líquido é adicionado à formulação da vacina, processado e envasado.

É exatamente o mesmo processo utilizado pelo Butantan para a produção da vacina sazonal da gripe; e é aí que reside o grande trunfo do instituto para desenvolver e produzir essa nova vacina aqui também. Já a CoronaVac não pode ser produzida dessa forma porque o sars-cov-2 não se reproduz em ovos de galinha e precisa ser multiplicado em culturas de células in vitro.

O vírus Newcastle modificado (NDV-S) foi desenvolvido por cientistas da Icahn School of Medicine, no Mount Sinai, em Nova York (EUA). Já a proteína S estabilizada do vírus sars-cov-2 utilizada na vacina foi desenvolvida na Universidade do Texas em Austin. ‬Os testes pré-clínicos, com animais, foram feitos nos Estados Unidos, e a ideia é que os testes clínicos (com seres humanos) ocorram no Brasil, Vietnã e Tailândia.

“A iniciativa faz parte de um consórcio internacional em que o Butantan é o principal produtor, com 85% da capacidade total de produção, e tem o compromisso de fornecer a vacina ao Brasil e a países de baixa e média renda”, informou o instituto, em seu primeiro comunicado, do dia 26 de março.

O Butantan é um dos responsáveis por desenvolver clinicamente o produto, escalonar e padronizar os processos produtivos e produzir a vacina. De acordo com o instituto, todos os processos produtivos, desde a qualificação dos ovos embrionados, inoculação, crescimento viral, processamento e purificação viral, inativação, formulação, qualificação, controle de qualidade, produção em escala, envase, rotulagem e registro sanitário serão realizados em suas instalações.

Segundo Ricardo Palacios, diretor médico de pesquisa clínica do instituto, a nova vacina terá perfil alto de segurança. “Nós sabemos produzir a ButanVac, temos tecnologia para isso e sabemos que vacinas inativadas são eficazes contra a covid-19. Poder entregar mais vacinas é o que precisamos em um momento tão crítico”, explica, em nota publicada pelo Butantan.

“Por isso é tão importante termos nossa própria expertise e fábricas rodando no Brasil”, disse ao Jornal da USP o biólogo Paulo Lee Ho, pesquisador e ex-diretor do Centro de Biotecnologia e da Divisão de Desenvolvimento Tecnológico e Produção do Instituto Butantan. Apesar do vírus modificado ter sido desenvolvido nos Estados Unidos, ele destaca que todo o processo de produção e transformação desse vírus em uma vacina propriamente dita será desenvolvido dentro do Butantan. “Inovação não é uma ideia; inovação é produto”, diz. “E se você não desenvolve produção, você não tem produto.”

É uma situação diferente da CoronaVac, em que o insumo farmacêutico ativo (IFA) contendo o vírus inativado é produzido pela empresa Sinovac, na China, e enviado já pronto ao Brasil para ser processado e envasado no Butantan. No caso da ButanVac, o IFA será produzido aqui desde o início, utilizando a plataforma de cultivo viral em ovos do Instituto.

Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan, afirma que será possível entregar a ButanVac à população ainda neste ano – dependendo, é claro, do sucesso dos testes clínicos e aprovação dos resultados pela Anvisa. “Após o final da campanha de produção da Influenza, que termina em maio, podemos iniciar imediatamente a produção da ButanVac. Atualmente, nossa fábrica envasa a Influenza e a CoronaVac”, diz.




Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 29/03/2021
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/variante-sul-africana-do-coronavirus-e-identificada-pela-primeira-vez-no-brasil/

quinta-feira, 4 de março de 2021

Ciclo ILP-FAPESP discute a corrida das vacinas contra a COVID-19

Ciclo ILP-FAPESP discute a corrida das vacinas contra a COVID-19 

Participarão do evento pesquisadores envolvidos em estudos clínicos de fase 3 das vacinas CoronaVac, Oxford/AstraZeneca, Janssen e Pfizer/BioNTech (foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)


Pesquisadores que estão à frente dos estudos de quatro imunizantes contra a COVID-19 testados no país vão apresentar, num único evento, os processos dos testes clínicos em humanos e resultados de eficácia e segurança obtidos para as vacinas CoronaVac, Oxford/AstraZeneca (AZD1222), Janssen (Ad26.COV2.S) e Pfizer/BioNTech.

As duas primeiras vacinas já receberam aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para uso emergencial e integram o Plano Nacional de Imunização. As vacinas da Janssen e da Pfizer/BioNTech foram testadas no país, mas ainda não se sabe se chegarão ao público brasileiro.

O evento integra o ciclo ILP-FAPESP de Ciência e Inovação, parceria entre a Fundação e o Instituto Legislativo Paulista (ILP) da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), com o objetivo de divulgar os resultados das pesquisas científicas financiadas com recursos públicos à sociedade em geral e aos legisladores e gestores públicos em particular. A reunião virtual ocorrerá nesta segunda-feira (01/03), das 15h às 17h, e será transmitida pelo canal da Alesp no YouTube.

A chefe do laboratório de Pesquisa Clínica em DST e Aids do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), Beatriz Grinsztejn, fará uma análise dos resultados obtidos até o momento no estudo Ensemble-Fase 3 para avaliar a eficácia e segurança da vacina da Janssen. A pesquisadora, que é co-chair do estudo para a América Latina pela rede CoVPN/NIAID/NIH, apresentará os dados avaliados pela reunião do comitê que recomendou ao FDA, agência norte-americana que regula medicamentos, a autorização da vacina. No Brasil, o estudo previu o recrutamento de 7 mil voluntários por 28 centros de pesquisas.

O epidemiologista Edson Duarte Moreira Jr., que coordena no Brasil, a partir do Centro de Pesquisa Clínica do Hospital Santo Antônio, em Salvador, os estudos clínicos de fase 3 do imunizante contra a COVID-19 desenvolvido pelos laboratórios Pfizer/BioNTech, apresentará uma atualização dos resultados da utilização dessa vacina no mundo, desde sua aprovação para uso emergencial até o impacto da vacinação na incidência de casos da doença. Apesar de ainda não estar disponível no país, a vacina foi a primeira a obter da Anvisa o registro definitivo. O pesquisador também compartilhará com seus pares e o público suas considerações sobre o futuro da pandemia.

O Instituto Butantan coordena os estudos clínicos da vacina CoronaVac no Brasil, além de ter dado início ao envasamento e distribuição do imunizante para o Sistema Único de Saúde (SUS). O diretor da instituição, Dimas Covas, vai tratar das vacinas e soros produzidos pela instituição. Recentemente, o Butantan iniciou em Serrana, município paulista com 48 mil habitantes, estudo inédito da CoronaVac com o objetivo de avaliar o impacto da vacinação em massa no combate à pandemia de COVID-19.

Também participará do encontro Lily Yin Weckx, coordenadora do Centro de Referência de Imunobiologia Especial da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), responsável por coordenar o estudo clínico da vacina Oxford/AstraZeneca no Brasil. Ela vai descrever a trajetória do desenvolvimento clínico à licença para uso emergencial do imunizante e mostrará os principais resultados dos testes em humanos, eficácia com uma e duas doses e o impacto das novas variantes.

As inscrições devem ser feitas no endereço www.al.sp.gov.br/ilp/cursos-eventos/detalheAtividade.jsp?id=6685.

Os debates poderão ser acompanhados no canal da Alesp no YouTube.



Autor: Agência FAPESP
Fonte: FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data: 26/02/2021
Publicação Original: https://agencia.fapesp.br/ciclo-ilp-fapesp-discute-a-corrida-das-vacinas-contra-a-covid-19/35281/

quinta-feira, 19 de março de 2020

Coronavirus: dos EUA à China, os países prontos para testar vacinas


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A corrida para desenvolver uma vacina contra o novo coronavírus, causador da doença covid-19, avança rapidamente.

Na terça-feira (17/03), o governo da China anunciou que havia desenvolvido "com êxito" uma vacina contra o vírus SARS-CoV-2 e que já havia autorizado os testes em humanos.

As autoridades chinesas não disseram quando os testes começarão.

O anúncio ocorreu um dia após os Estados Unidos iniciarem os primeiros testes em humanos de uma possível vacina. Quarenta e cinco voluntários saudáveis participam dos testes.

Porém, segundo especialistas, serão necessários vários meses - talvez até 18 - para saber se essas vacinas funcionam.

Isso porque os protocolos internacionais exigem um longo acompanhamento para saber se as vacinas são eficazes e não causam efeitos nocivos.

A BBC News Brasil relata a seguir em que pé estão algumas das principais iniciativas para desenvolver a vacina contra o novo coronavírus:
China

Segundo o governo da China, a vacina chinesa foi desenvolvida pela equipe de pesquisadores da Academia Militar de Pesquisa Médica, ligada à Academia Militar de Ciências.

A epidemióloga Chen Wei, que lidera o grupo, disse que a vacina cumpre todos os padrões internacionais e regulamentos locais, e que está pronta para "uma produção em grande escala, segura e efetiva".

Porém, essa não é a única vacina desenvolvida na China contra o novo coronavírus.


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Várias instituições chinesas disseram na terça-feira que iniciarão em abril os testes clínicos para comprovar a eficiência de várias vacinas

Várias instituições chinesas disseram na terça-feira que iniciarão em abril os testes clínicos para comprovar a eficiência de várias vacinas em que vêm trabalhando, segundo a agência de notícias Efe.

Uma dessas vacinas já está sendo testada em animais. Ela foi desenvolvida por um grupo que inclui pesquisadores das universidades de Pequim, Tsinghua e Xiamen, segundo o Ministério da Educação chinês.

Também em abril ocorrerão os testes de uma vacina desenvolvida na plataforma mRNA, segundo o subdiretor da Comissão Municipal de Saúde de Xangai, Yi Chengdong. Essa vacina foi criada a partir de proteínas virais derivadas das proteínas estruturais de um vírus.
EUA

Os primeiros testes de uma vacina contra o novo coronavírus nos EUA estão sendo feitos na cidade de Seattle pela organização Kaiser Permanente.

Segundo uma nota divulgada pela instituição, os primeiros quatro voluntários receberam nesta terça-feira injeções. Os testes são respaldados pelo governo.

A vacina não poderá causar a covid-19, pois contém um código genético inofensivo copiado do vírus que provoca a doença.

Os trabalhos - financiados pelo National Institutes of Health - pularam um passo que normalmente é seguido nessas iniciativas: garantir primeiro que a vacina consiga provocar uma resposta imune em animais.


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Testes são respaldados pelo governo Donald Trump

Os pesquisadores, da empresa Moderna Therapeutics, disseram que a vacina foi criada com um processo de eficácia comprovada.

"Essa vacina usa uma tecnologia pré-existente. Foi criada com um padrão muito alto, empregando coisas que sabemos que são seguras para as pessoas, e quem participa no teste será submetido a um acompanhamento muito rigoroso", disse o médico John Tregoning, especialista em doenças infecciosas do Imperial College de Londres.

"Sim, isso está muito rápido, mas esta é uma corrida contra o vírus, e não contra outros pesquisadores, e está sendo feito pelo bem da humanidade", afirma.

Os voluntários receberão doses diferentes da vacina experimental. Cada um será vacinado no braço em duas ocasiões, com um intervalo de 28 dias.
Alemanha

A imprensa da Alemanha noticiou no domingo (15/03) que o governo dos EUA havia oferecido ao laboratório alemão CureVac "grande quantias de dinheiro" para ter acesso exclusivo a uma vacina para a covid-19 em desenvolvimento.

Segundo a revista Die Welt, o presidente Donald Trump estava fazendo "todo o possível para garantir uma vacina contra o coronavírus para os EUA, mas apenas para os EUA".

O ministro da Saúde da Alemanha, Jens Spahn, disse que a compra do laboratório CureVac pelo governo Trump estava "fora de cogitação", e que a companhia desenvolveria a vacina "para todo o mundo", e "não para países específicos".
Brasil

O imunologista Jorge Kalil, diretor do laboratório de imunologia do Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, lidera uma pesquisa financiada pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) para desenvolver no Brasil a vacina contra o novo coronavírus.

Desde segunda-feira, Kalil acompanha os trabalhos à distância, após seu filho ser diagnosticado com a covid-19.

Os cientistas brasileiros sob sua liderança, ligados à Faculdade de Medicina da USP, irão sintetizar em laboratório uma parte de uma proteína do coronavírus, importante para penetração na célula.


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Médico Jorge Kalil, de 66 anos, está em isolamento após filho ser diagnosticado com covid-19

Por meio do método, os cientistas planejam chegar, nos próximos meses, a uma vacina. Primeiro, ela será testada em camundongos. Caso os testes tragam bons resultados, a expectativa é de que possa ser aplicada em pacientes em até um ano e meio.

A vacina dos brasileiros busca recriar uma parte da proteína do vírus. A técnica se baseia no uso de partículas semelhantes a vírus (VLPs, na sigla em inglês de "virus like particles") — tal semelhança faz com que sejam facilmente reconhecidas pelas células do sistema imunológico.

Desta forma, segundo os estudos brasileiros, as VLPs — que não têm material genético do vírus, o que impossibilita a replicação — são introduzidas no sistema imunológico junto com os antígenos (substâncias que fazem com que o sistema imunológico produza anticorpos).

Assim, auxiliam na produção de uma resposta do organismo ao novo coronavírus.



Autor: BBC News Mundo
Fonte: BBC Brasil News
Sítio Online da Publicação: BBC Brasil News
Data: 19/03/2020
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51954858

quinta-feira, 19 de julho de 2018

HPV: por que vacinação de adolescentes contra vírus de transmissão sexual que causa câncer não avança no Brasil


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MANUELA BRANDOLFF/PALÁCIO PIRATINI
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No ano passado, 900 mil vacinas 'encalhadas' foram liberadas para homens e mulheres fora na faixa etária alvo para que não estragassem

Cinco anos depois de o Brasil fazer a primeira campanha nacional de vacinação contra o Papilomavírus Humano (HPV) e de disponibilizar a vacina gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS), apenas 48,7% das meninas entre 9 a 14 anos no país – a população-alvo recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) – foram imunizadas.

O HPV é responsável por 99% dos casos câncer de colo de útero, o terceiro mais frequente entre as mulheres no Brasil, o quarto que mais mata – e um dos poucos que pode ser prevenido com vacina.

São mais de 100 tipos de vírus, dos quais 13 são considerados de alto risco, podendo causar, além dos tumores cervicais, câncer de ânus, vulva, vagina e de pênis. Altamente contagioso, muitas vezes assintomático e sem cura, ele é transmitido principalmente durante a relação sexual sem proteção.

O vírus está presente em mais da metade população brasileira sexualmente ativa. Pesquisa realizada pela Associação Hospitalar Moinhos de Vento em parceria com o Ministério da Saúde mostrou que 54,6% dos indivíduos entre 16 e 25 anos no país têm HPV. Divulgada no fim do ano passado, a análise teve a participação de 5,8 mil mulheres e 1,8 mil homens de todas as regiões.

Países como a Austrália conseguiram reduzir a prevalência do HPV na população para cerca de 1% e estão perto de erradicar o câncer de colo de útero. Em vizinhos como o Chile, a cobertura da vacina passa de 70%.
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Em 2013, o Brasil fez uma grande parceira público-privada para nacionalizar o processo de fabricação da vacina e, no ano seguinte, iniciou a campanha pelo SUS em escolas de todo o país.

De lá para cá, contudo, a taxa de cobertura para as duas doses, essenciais para a imunização, não passou de 50%. No ano passado, esse percentual chegou a 48,7%. A campanha deste ano começou em março e, a partir de setembro, o SUS começa a aplicar a segunda dose.

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Altamente contagioso e muitas vezes assintomático, HPV não tem cura

Vacinar adolescentes é mais difícil do que imunizar as crianças, muitas vezes encaminhadas para o posto de saúde diretamente pelo pediatra, destacam médicos consultados pela BBC News Brasil.

Há a questão do receio dos efeitos colaterais – neste caso, alergias leves aos componentes do medicamento –, a mistura entre o "medo de agulha" e a sensação de que a doença é algo distante e, no caso específico do HPV, a visão distorcida de alguns pais de que a vacinação poderia dar início precoce à vida sexual dos filhos.

Para infectologistas e especialistas em HPV, contudo, a principal razão para que o país esteja longe da meta de 80% de cobertura foi a saída da vacinação das escolas.
Da escola para o posto de saúde

Em 2014, o lançamento da campanha foi feito nos colégios, onde aconteceram as rodadas da primeira dose – com cobertura de mais de 100%. Em setembro daquele ano, porém, a segunda rodada de imunização foi transferida para os postos de saúde, onde se mantém até hoje.

"É muito difícil levar o adolescente à sala de vacinação", pondera Isabella Ballalai, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

As razões vão desde as particularidades da própria faixa etária, para a qual o câncer é uma realidade distante – e que, ao contrário das crianças menores, já consegue dizer "não" aos pais –, até as dificuldades práticas, como o horário de funcionamento dos postos de saúde, em geral de segunda a sexta, em horário comercial.

Apesar de não ser obrigatória por lei, a maioria dos postos exige a presença de um responsável para vacinar o adolescente, diz Ballalai.

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WILSON DIAS/AG. BRASIL
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Distribuição pelo SUS começou em 2014, com a primeira dose aplicada em escolas de todo o país

Para que a cobertura chegue à meta de 80% estabelecida pelo Ministério da Saúde, que proporcionaria redução significativa dos casos de câncer e da incidência de verruga genital, por exemplo, a imunização deveria voltar para as escolas, ela destaca, como fazem Austrália e Chile – este último, convidado da próxima Jornada Nacional de Imunizações, organizado pela SBIm, para compartilhar sua experiência.

"Enquanto a vacinação não for para dentro da escola, a gente não vai aumentar a cobertura", concorda Rosana Richtmann, médica do Instituto de Infectologia Emílio Ribas.
'Dificuldade operacional'

A coordenadora do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde, Carla Domingues, afirma que o desempenho do Brasil está de acordo com a média global de cobertura contra o HPV, entre 50% e 70%, segundo ela.

Casos como o da Austrália são "exceções", porque "estão fazendo vacinação eminentemente nas escolas". A dificuldade para repetir a fórmula no Brasil, ela diz, passa pela falta de estrutura dos municípios, que têm a competência de vacinar a população.

As secretarias municipais de saúde, afirma, precisariam de "equipes volantes" para ir às escolas, sem depender dos profissionais dos postos de saúde, que muitas vezes já trabalham além da capacidade.

"Muito município não tem dinheiro para fazer essas contratações e outros nem podem, por causa dos limites da Lei de Responsabilidade Fiscal", ressalta.

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'É inaceitável a gente ainda ter morte por câncer de colo de útero no Brasil, uma doença que se previne com vacina', destaca Fedrizzi

O Ministério da Educação (MEC) "já foi uma resistência, hoje não é mais", e atua em conjunto com a Saúde no âmbito do Programa de Saúde na Escola. "A dificuldade é operacional mesmo", afirma a coordenadora.

Ela destaca, contudo, que elevar a cobertura da vacina continua entre as prioridades do PNI e que a pasta mantém diálogo com os municípios, além das campanhas para esclarecer e alertar a população sobre a importância da imunização.

O desempenho aquém do esperado fez com que, no ano passado, 900 mil vacinas destinadas à população-alvo – meninas entre 9 a 14 anos e meninos entre 11 a 14 anos – quase vencessem.

Para evitar que isso acontecesse, diz Domingues, o SUS ampliou a idade máxima para imunização gratuita e vacinou homens e mulheres de até 26 anos.
O caso de sucesso da Austrália contra o HPV

A Austrália é o primeiro candidato a erradicar o câncer de colo de útero nas próximas décadas, de acordo com a International Papillomavirus Society (IPS), organização internacional que reúne médicos especialistas em HPV.

A campanha começou em 2007, com vacinação de meninas nas escolas. Cinco anos depois, a incidência de verrugas genitais na população já havia reduzido em 90%, destaca o médico brasileiro Edison Natal Fedrizzi, membro do IPS.

Em 2013, os meninos foram incluídos na campanha e, em 2015, a incidência de HPV entre mulheres de 18 a 24 anos despencou de 22,7%, registrado dez anos antes, para 1,1%.

"É inaceitável a gente ainda ter morte por câncer de colo de útero no Brasil, uma doença que se previne com vacina", destaca o especialista.

A imunização dos adolescentes, ele destaca, tem três grandes benefícios. Primeiro, a resposta imunológica é melhor que a dos adultos – a partir dos 15 anos, a recomendação é de não apenas duas, mas três doses. A probabilidade de exposição prévia ao vírus, por sua vez, é pequena – e a vacina é inócua nos casos em que a pessoa já está contaminada.

Depois, o custo para o sistema de saúde, de forma geral, é menor.

Nesse sentido, deve-se levar em conta também o chamado "efeito da proteção de rebanho" – quanto mais jovens se imunizarem antes do início da vida sexual, o nível de contágio das novas gerações tende a ser menor e o vírus tende a circular menos, diminuindo a prevalência do HPV.

Assim, de forma indireta, a vacinação também diminuiria a incidência do câncer, poupando, em última instância, recursos do SUS.

"Por isso que vacinar os meninos (incluídos no ano passado no programa de imunização) também é essencial, porque eles são vetores de transmissão", destaca o especialista.

À frente do Projeto HPV, no hospital universitário da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Fedrizzi destaca o caso bem-sucedido de Florianópolis, em que as secretarias de saúde e educação se juntaram para trazer a vacinação de volta para as escolas e conseguiram cumprir a meta de 80% de cobertura.

"Diante do problema para mobilizar as equipes (dos postos de saúde) para irem às salas de aula, Floripa criou o 'dia de a escola ir ao posto'", diz ele.
'Os antivacina não são problema no Brasil'

A vacina distribuída no Brasil é quadrivalente. Ela imuniza contra dois tipos do vírus do HPV considerados de alto risco, o 16 e 18, apontados como responsáveis por 70% dos casos de câncer de colo de útero, e contra os dois tipos de baixo risco responsáveis por 90% das verrugas genitais, o 6 e 11.

É fornecida gratuitamente para meninas com idade entre 9 e 14 anos e para meninos entre 11 e 14 anos. Na rede privada, cada dose custa por volta de R$ 200.

A vacina do SUS é da marca Gardasil, produzida pelo laboratório Merck Sharp and Dohme (MSD) em parceria com o Instituto Butantan. O acordo fechado pelo Ministério da Saúde em 2013 com a empresa americana prevê transferência de tecnologia para que o Brasil, nos próximos anos, se torne autossuficiente na produção do medicamento.

Ele praticamente não apresenta efeitos colaterais, diz Fedrizzi, por se tratar de uma vacina recombinante – que não usa, por exemplo, o vírus atenuado na composição, mas partes do organismo.

Apesar de casos sem relação com a vacina terem provocado alguma reação contrária a ela no início da campanha, em 2014, o impacto das pessoas "antivacina" na baixa cobertura é pequeno, afirma o médico.

O episódio de paralisia em três meninas vacinadas em Bertioga (SP) naquele ano, que chegou a assustar alguns pais, comprovadamente não estavam ligados à imunização, destaca Fedrizzi.

"Esse não é um problema nosso. Uma pesquisa recente mostra que, na França, 41% da população desconfia das vacinas. No Brasil, esse percentual é de 4%. A questão aqui é outra", concorda Ballalai, da Sociedade Brasileira de Imunizações.

"O único efeito colateral (mais significativo) pode ser psicossomático", destaca Richtmann, infectologista do Emílio Ribas, referindo-se ao "medo de agulha", que pode fazer com que alguns adolescentes passem mal.




Autor: Camilla Veras Mota
Fonte: BBC News Brasil em São Paulo
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data de Publicação: 17/07/2018
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44705298

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Vacinas para vírus emergentes

Vacinas para vírus emergentes

Identificação de uma nova linhagem do vírus do Nilo Ocidental, feita por pesquisadores do Brasil e do Senegal, pode levar ao desenvolvimento de vacinas (imagem: PLOS e CDC)
Dengue, Zika e chikungunya são nomes que passaram a fazer parte do dia a dia dos brasileiros. A busca por vacinas, tratamentos e métodos de prevenção contra a infeção dos chamados vírus emergentes está entre os grandes desafios da epidemiologia mundial. E novos agentes patológicos continuam a surgir. É o caso do arbovírus que causa a febre do Nilo Ocidental.

A doença afeta milhares de pessoas todos os anos e é assintomática em 80% dos casos. Cerca de um em cada cinco infectados desenvolve febre e outros sintomas. Em menos de 1% dos casos, especialmente entre idosos e crianças, a doença provoca consequências neurológicas importantes, afetando o sistema nervoso central, causando meningite, encefalite e, em casos extremos, paralisia aguda, levando à morte.

O vírus do Nilo Ocidental foi identificado pela primeira vez em Uganda, em 1937, e em seguida, nos anos 1950, no Egito (daí seu nome). A doença não tinha grande importância epidemiológica. Nos anos 1990, isso mudou. Levado por aves migratórias da África à Europa, o vírus se espalhou da França à Rússia. Em 1999, chegou aos Estados Unidos. Diversos surtos ocorreram desde então. A partir de 1999, foram contabilizados mais de 20 mil casos na América do Norte, com quase 1,8 mil óbitos. Ainda não existe vacina contra o vírus.

“O vírus do Nilo Ocidental ainda não chegou ao Brasil, mas é apenas uma questão de tempo até que isso venha a ocorrer”, alerta o virologista Paolo Zanotto, chefe do Laboratório de Evolução Molecular e Bioinformática do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo.

Daí a importância de uma nova pesquisa que tem Zanotto como um dos autores e cujos resultados acabam de ser publicados. O trabalho sinaliza o desenvolvimento de uma vacina nos próximos anos. Isso se deve à constatação de que a linhagem 8 do vírus, descoberta em 1992, é pouco virulenta e seus efeitos são especialmente brandos.

O artigo foi publicado na revista PLOS Neglected Tropical Diseases e é resultado de uma colaboração entre virologistas do Instituto Pasteur de Dakar, no Senegal, da Universidade de São Paulo e da Universidade Federal de São Carlos. Contou com apoio da FAPESP, do CNPq e de órgãos de financiamento da União Europeia.

São conhecidas nove linhagens do vírus do Nilo Ocidental. O desenvolvimento de uma vacina feita com os vírus brandos da linhagem 8 poderia, em tese, “ensinar” o sistema imunológico a se defender de todas as outras linhagens – em especial as linhagens 1 e 2, que são as mais disseminadas, e a de número 7, a pior de todas.

Trata-se de um estratégia de defesa imunológica semelhante à empregada na vacina da gripe, que mistura as linhagens mais recentes do vírus influenza para combater a gripe do ano, sempre causada por uma cepa recém-evoluída e, portanto, nova, contra a qual não se tem imunidade.

O vírus do Nilo Ocidental já provocou surtos no Canadá (1999-2007), nos Estados Unidos (1999 a 2012) e no México (2003). Ele é transmitido por picadas de mosquitos, que infectam, além de humanos, as aves migratórias.

“Quanto tempo vai levar para que aves migratórias que passam o verão na América do Norte tragam o vírus para os seus refúgios de inverno na América Central? O vírus do Nilo Ocidental está chegando”, disse Zanotto.

O professor e seu aluno de doutoramento Nicholas Di Paola (bolsista da FAPESP) estão entre os autores do trabalho que faz um levantamento das características biológicas e filogenéticas das linhagens do vírus do Nilo Ocidental presentes no Oeste da África.

Os investigadores principais são Di Paola e sua colega senegalesa Gamou Fall. Zanotto divide a responsabilidade científica pelo trabalho com o colega Amadou Alpha Sall, diretor do Instituto de Dakar.

A pesquisa faz parte do trabalho de doutoramento de Di Paola, um nova-iorquino filho de brasileira e norte-americano que, nos últimos quatro anos, divide seu tempo entre São Paulo e o Senegal, onde coletou as amostras do vírus. “Levei um ano e meio para aprender as técnicas necessárias para a coleta e análise do material”, disse Di Paola.

O vírus do Nilo Ocidental pertence à família flavivírus, a mesma dos vírus da hepatite e do Zika. O vírus do Nilo Ocidental infecta um grande espectro de animais. Ele já foi isolado em 65 espécies de mosquitos e carrapatos, assim como em 225 espécies de aves e outras 29 espécies de vertebrados, como cavalos e primatas, entre eles humanos.

“Uma novidade do trabalho foi que pela primeira vez isolamos o vírus da linhagem 7 a partir de carrapatos”, disse Di Paola.

Imunidade contra linhagens perigosas

O estudo consistiu no sequenciamento de três genes isolados em amostras do vírus coletadas na África Ocidental por Di Paola e Fall. Os genes sequenciados são representantes das linhagens mais disseminadas globalmente (linhagem 1), da mais virulenta (7) e da menos virulenta (8).

Uma vez sequenciados, os genes foram comparados com as 862 sequências genéticas do vírus do Nilo Ocidental armazenadas no GenBank – sendo que 770 delas são provenientes da América do Norte, todas da linhagem 1A.

Para reduzir o tempo de processamento computacional, optou-se por excluir as sequências da linhagem 1A, diminuindo o universo de análise a 95 sequências, a partir das quais foi possível estabelecer a análise filogenética do vírus. Entre os resultados descobriu-se duas características importantes das linhagens 7 e 8.

No caso da linhagem 8, a menos virulenta, detectou-se a substituição do gene P122S, o que induz mutações que podem estar relacionadas às baixas taxas de replicação desta linhagem, o que explicaria a sua baixa virulência.

“É por isso que a linhagem 8 é ideal para a eventual produção de uma vacina”, disse Zanotto. Segundo o professor, o desenvolvimento de uma vacina a partir de um vírus com baixíssima virulência teria a capacidade de conferir imunidade contra as linhagens mais perigosas, 1, 2 e 7, sem o risco do desenvolvimento de sintomas da doença.

No caso da linhagem 7, os virologistas brasileiros e senegaleses foram capazes de identificar uma mutação (no gene S653F NS5) que está associada com a resistência aumentada desta linhagem ao interferon, a proteína produzida pelas células brancas do sistema imune e que são responsáveis por interferir na replicação dos patógenos invasores. Tal mutação pode ajudar a explicar a alta virulência da linhagem 7.

“Com exceção de uma única possível infestação acidental, que ocorreu no laboratório na África, a linhagem 7 nunca foi isolada em humanos. Mas nos testes in vivo no laboratório ela foi devastadora entre as cobaias”, disse Zanotto.

A baixa virulência da linhagem 8 e a alta virulência da linhagem 7 foram testadas, comprovadas e aferidas em experimentos tanto in vitro em células infectadas, quanto in vivo, inoculando camundongos no laboratório de Dakar. No caso da linhagem 8, ela mostrou pouca capacidade de replicação in vitro e praticamente nenhuma virulência entre as cobaias.

As equipes de virologistas da USP e do Senegal têm uma história de mais de 20 anos de colaboração científica, estabelecida a partir de estudos em conjunto sobre os vírus da dengue, do famigerado ebola e, mais recentemente, do vírus Zika.

A existência de surtos desses vírus emergentes no Brasil e no Senegal possibilitou ao Instituto de Ciências Biomédicas da USP e ao Instituto Pasteur de Dakar formarem quadros e aprenderem técnicas a ponto de se tornarem duas instituições de ponta no que concerne às pesquisas com arbovírus, os vírus transmitidos por insetos.

Prova disso foi a quantidade e a qualidade dos trabalhos desenvolvidos nos dois institutos durante o auge do surto de Zika em 2015. “Em 2015, o Instituto Pasteur de Dakar e a equipe da USP publicaram uma quantidade de pesquisas relevantes superior àquela feita até mesmo pelos pesquisadores do Centro de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos”, disse Zanotto.

O artigo Biological and phylogenetic characteristics of West African lineages of West Nile vírus (doi: https://doi.org/10.1371/journal.pntd.0006078), de Gamou Fall, Nicholas Di Paola, Martin Faye, Moussa Dia, Caio César de Melo Freire, Cheikh Loucoubar, Paolo Marinho de Andrade Zanotto, Ousmane Faye e Amadou Alpha Sall, pode ser lido em: http://journals.plos.org/plosntds/article?id=10.1371/journal.pntd.0006078.

Autor: Peter Moon
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data de Publicação: 23/01/2018
Publicação Original: http://agencia.fapesp.br/vacinas_para_virus_emergentes/27024/