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terça-feira, 22 de novembro de 2022

Pesquisa reduz o tempo e o custo de terapia contra o câncer

Uma das terapias mais avançadas para o tratamento do câncer é a CART-Cell, que consiste na modificação das células do sistema imunológico do próprio paciente para combater o tumor. O processo de geração das CAR-T é realizado em laboratório a partir da junção de células T com receptores quiméricos de antígenos (CAR). Principais componentes do sistema de defesa do organismo e responsáveis por reconhecerem e eliminarem células infectadas, as células T são modificadas geneticamente e ligadas ao receptor artificial CAR (Chimeric Antigen Receptor, em inglês). Essa terapia é muito importante porque no organismo as células T, que geralmente nos protegem contra infecções e tumores, podem perder a capacidade de reconhecer as células do câncer.


O método point-of-care utiliza células recém-modificadas, produzidas em 24 horas por meio de metodologias ultrarrápidas, com custo até 20 vezes menor (Ilustração: Shape Esquemas Didáticos)

Na prática, a terapia inclui várias etapas que demandam tempo, logística e alto custo. Primeiro a célula T é retirada do paciente, depois transferida para centros/laboratórios especializados – muitas vezes em outros países –, em seguida é ativada e modificada geneticamente para expressar o CAR, depois multiplicada/expandida – processo que pode levar de 5 a 20 dias –, até ser transferida para o hospital e reintroduzida no paciente. O maior fator limitante à sua expansão é o fato de ser um processo personalizado, no qual cada paciente exige um processo de produção próprio.

Apesar de bem-sucedida, em especial em leucemia e linfomas de células B, a terapia CART-Cell tem um custo muito elevado e é inacessível à maioria dos pacientes. Por isso, a equipe coordenada por Martín Bonamino no Programa de Terapia Celular e Gênica do Instituto Nacional do Câncer (Inca) desenvolveu um processo que reduz o tempo, o custo e facilita a logística. O estudo conquistou o primeiro lugar na categoria “Iniciativas para o Controle do Câncer” do Prêmio Marcos Moraes, promovido pela Fundação do Câncer.

O processo desenvolvido no Inca não requer laboratório de biossegurança e pula as etapas de ativação e expansão das células T. Chamado de point-of-care, o método utiliza células recém-modificadas, produzidas em 24 horas por meio de metodologias ultrarrápidas. O custo também pode ser 20 vezes menor do que o obtido pelo protocolo tradicional. A pesquisa integra a tese de doutorado da bióloga Luiza Abdo, que conta com bolsa de Doutorado Nota 10, da FAPERJ, para conduzir seus estudos. “Fico muito feliz e com o coração aquecido com esse reconhecimento”, diz Luiza. Segundo a pesquisadora, os ensaios vêm demonstrando a mesma sobrevida de camundongos obtida no protocolo tradicional. “Agora estamos aperfeiçoando o processo, adicionando moléculas para aumentar a longevidade das células”, explica.


Luiza Abdo diz que precisou ter experiências fora do País para entender que não estamos aquém do resto do mundo (Fotos: arquivo pessoal)

O trabalho, publicado na revista internacional OncoImmunology, em 2020, também foi premiado na categoria “Inovação Tecnológica em Oncologia” no 11º Prêmio Octavio Frias de Oliveira, no mesmo ano, e foi contemplado no prêmio internacional Jovem Pesquisador Promega, em 2022. “Precisei ter experiências fora do País para entender que não estamos aquém do resto do mundo e que nossas pesquisas são bastante reconhecidas no exterior”, confessa Luiza. Além de Luiza, integram a equipe da pesquisa Leonardo Chicaybam, Luciana Barros, Luísa Marques, Mariana Duarte e Priscila Souza, pesquisadores coordenados por Martín Bonamino, chefe do Programa de Terapia celular e gênica do Inca.

Formada em Biologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Luiza sempre se interessou pelas áreas do câncer e da obesidade, doenças que para ela apresentam grandes desafios futuros. Ela conta que sua opção pelo Inca deveu-se ao fato de ali ter a oportunidade de aplicar os resultados das pesquisas nos pacientes. Luiza também reconhece que sua opção pelo mestrado e pelo doutorado nas áreas da terapia celular e gênica contribuiu muito para impulsionar sua carreira. “Quero fazer com que os resultados das pesquisas cheguem ao maior número de pessoas possível e que a terapia seja acessível a pacientes do SUS”, afirma Luiza.





Autor: Paula Guatimosim
Fonte: Faperj
Sítio Online da Publicação: Faperj
Data: 10/11/2022
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=221.7.6#topo

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Por que estão aumentando os casos de câncer entre os menores de 50 anos em todo o mundo



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Ilustração de célula cancerosa; os cânceres de início precoce têm marcadores genéticos diferentes em comparação com os cânceres de início tardio


*Siobhan Glavey é professora de patologia da Universidade de Medicina e Ciências da Saúde do Royal College of Surgeons na Irlanda


Sabemos o que precisamos fazer para reduzir o risco de ter câncer, certo? Usar filtro solar, parar de fumar, evitar alimentos processados, perder peso, dormir o suficiente…


Algumas evidências, no entanto, têm indicado que muito do que causa o câncer está ligado aos nossos primeiros anos de vida e até a fatores anteriores ao nosso nascimento. Um estudo recente do hospital Brigham and Women's e da Universidade Harvard diz que esse pode ser o caso especialmente em cânceres que ocorrem antes dos 50 anos.


A descoberta mais importante deste estudo, publicado na revista científica Nature Reviews Clinical Oncology, é que as pessoas nascidas após 1990 são mais propensas a desenvolver câncer antes dos 50 anos de idade do que as pessoas nascidas, por exemplo, em 1970. Isso significa que os jovens serão mais sobrecarregados pelo câncer do que as gerações passadas, o que trará consequências para os sistemas de saúde, a economia e as famílias.


Aquilo a que fomos expostos no início da vida pode afetar nosso risco de desenvolver câncer mais tarde, e esse estudo de revisão analisou como diferentes fatores podem afetar os cânceres de início precoce. Ainda não está totalmente claro quais fatores importam mais nos primeiros anos da vida, mas os principais candidatos são a dieta, o estilo de vida, o ambiente e os micróbios que vivem no nosso intestino, formando a microbiota intestinal.


Ao observar um grande número de pessoas, os pesquisadores podem ver que os hábitos alimentares e de estilo de vida são formados cedo. Isso é constatado na obesidade, já que as crianças obesas são mais propensas a se tornarem adultos obesos. Uma vez que a obesidade é um fator de risco conhecido para o câncer, conclui-se que esses adultos provavelmente desenvolverão câncer em idade mais precoce, possivelmente porque foram expostos ao fator de risco por mais tempo.



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Pessoas obesas desde a infância viverão por mais tempo expostas a um fator de risco para o câncer


É claro que alguns desses cânceres de início precoce são detectados por melhores procedimentos, atualmente, de rastreamento e diagnóstico, o que contribui para o aumento de novos cânceres diagnosticados anualmente em todo o mundo. Mas isso não explica tudo.


O câncer de início precoce tem marcadores genéticos diferentes em comparação com o câncer de início tardio e é mais propenso a se espalhar do que o câncer diagnosticado mais tarde. Isso significa que esse tipo de câncer pode exigir tratamentos distintos e uma abordagem mais personalizada —adaptada à idade do paciente no momento em que o câncer se desenvolveu.

Bactérias intestinais


O estudo do hospital Brigham and Women's analisou 14 tipos de câncer e descobriu que a composição genética, a agressividade e o crescimento do câncer eram diferentes em pacientes desenvolveram a doença antes dos 50 anos e naqueles que a desenvolveram depois dos 50.


Essa diferença pareceu ser mais proeminente em vários tipos de câncer do trato gastrointestinal, como o colorretal, pancreático e de estômago. Uma possível razão para isso é a ligação com nossa dieta e com a nossa microbiota.



CRÉDITO,GETTY IMAGES
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Bactérias que vivem no intestino se alimentam de fibras, entre outros

As bactérias intestinais passam por alterações a depender da amamentação, do uso de antibióticos e da ingestão de açúcar. E à medida que os hábitos mudam na sociedade ao longo do tempo, o mesmo acontece com as bactérias em nosso intestino. Isso pode fomentar a implementação de impostos sobre o açúcar, conforme recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).


Se as nossas células saudáveis são programadas no útero, as células que causam câncer também podem ser. Sabe-se que a dieta materna, a obesidade, a poluição do ar e os pesticidas aumentam o risco de câncer e de doenças crônicas.


Por outro lado, restrições severas na alimentação durante a gravidez, como em casos de fome, aumentam o risco de câncer de mama na prole. Essa descoberta mostra que são necessárias diferentes abordagens quanto às condições sociais das pessoas nos esforços para se diminuir o risco de câncer.


Como hematologista, cuido de pacientes com mieloma múltiplo, um câncer incurável no sangue que geralmente afeta pacientes com mais de 70 anos. Nos últimos anos, houve um aumento de pessoas mais jovens diagnosticadas com esse tipo de câncer em todo o mundo, o que é apenas parcialmente explicado por melhores ferramentas de triagem e diagnóstico. O recente estudo na Nature Reviews Clinical Oncology aponta a obesidade como um importante fator de risco para o câncer de início precoce, mas claramente existem outros fatores de risco a serem descobertos.


Compreender o que faz o câncer de início precoce, quais fatores de risco realmente importam e o que pode ser feito para preveni-los são alguns dos primeiros passos para desenvolver estratégias de prevenção para as gerações futuras.


**Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado aqui sob uma licença Creative Commons. Leia aqui a versão original (em inglês).


- Este texto foi publicado originalmente em https://www.bbc.com/portuguese/geral-63593022






Autor: The Conversation
Fonte: Siobhan Glavey*
Sítio Online da Publicação: bbc
Data: 11/11/2022
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-63593022

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Pesquisa reduz o tempo e o custo de terapia contra o câncer


O método point-of-care utiliza células recém-modificadas, produzidas em 24 horas por meio de metodologias ultrarrápidas, com custo até 20 vezes menor (Ilustração: Shape Esquemas Didáticos)

Uma das terapias mais avançadas para o tratamento do câncer é a CART-Cell, que consiste na modificação das células do sistema imunológico do próprio paciente para combater o tumor. O processo de geração das CAR-T é realizado em laboratório a partir da junção de células T com receptores quiméricos de antígenos (CAR). Principais componentes do sistema de defesa do organismo e responsáveis por reconhecerem e eliminarem células infectadas, as células T são modificadas geneticamente e ligadas ao receptor artificial CAR (Chimeric Antigen Receptor, em inglês). Essa terapia é muito importante porque no organismo as células T, que geralmente nos protegem contra infecções e tumores, podem perder a capacidade de reconhecer as células do câncer.

Na prática, a terapia inclui várias etapas que demandam tempo, logística e alto custo. Primeiro a célula T é retirada do paciente, depois transferida para centros/laboratórios especializados – muitas vezes em outros países –, em seguida é ativada e modificada geneticamente para expressar o CAR, depois multiplicada/expandida – processo que pode levar de 5 a 20 dias –, até ser transferida para o hospital e reintroduzida no paciente. O maior fator limitante à sua expansão é o fato de ser um processo personalizado, no qual cada paciente exige um processo de produção próprio.

Apesar de bem-sucedida, em especial em leucemia e linfomas de células B, a terapia CART-Cell tem um custo muito elevado e é inacessível à maioria dos pacientes. Por isso, a equipe coordenada por Martín Bonamino no Programa de Terapia Celular e Gênica do Instituto Nacional do Câncer (Inca) desenvolveu um processo que reduz o tempo, o custo e facilita a logística. O estudo conquistou o primeiro lugar na categoria “Iniciativas para o Controle do Câncer” do Prêmio Marcos Moraes, promovido pela Fundação do Câncer.

O processo desenvolvido no Inca não requer laboratório de biossegurança e pula as etapas de ativação e expansão das células T. Chamado de point-of-care, o método utiliza células recém-modificadas, produzidas em 24 horas por meio de metodologias ultrarrápidas. O custo também pode ser 20 vezes menor do que o obtido pelo protocolo tradicional. A pesquisa integra a tese de doutorado da bióloga Luiza Abdo, que conta com bolsa de Doutorado Nota 10, da FAPERJ, para conduzir seus estudos. “Fico muito feliz e com o coração aquecido com esse reconhecimento”, diz Luiza. Segundo a pesquisadora, os ensaios vêm demonstrando a mesma sobrevida de camundongos obtida no protocolo tradicional. “Agora estamos aperfeiçoando o processo, adicionando moléculas para aumentar a longevidade das células”, explica.


Luiza Abdo diz que precisou ter experiências fora do País para entender que não estamos aquém do resto do mundo (Fotos: arquivo pessoal)

O trabalho, publicado na revista internacional OncoImmunology, em 2020, também foi premiado na categoria “Inovação Tecnológica em Oncologia” no 11º Prêmio Octavio Frias de Oliveira, no mesmo ano, e foi contemplado no prêmio internacional Jovem Pesquisador Promega, em 2022. “Precisei ter experiências fora do País para entender que não estamos aquém do resto do mundo e que nossas pesquisas são bastante reconhecidas no exterior”, confessa Luiza. Além de Luiza, integram a equipe da pesquisa Leonardo Chicaybam, Luciana Barros, Luísa Marques, Mariana Duarte e Priscila Souza, pesquisadores coordenados por Martín Bonamino, chefe do Programa de Terapia celular e gênica do Inca.

Formada em Biologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Luiza sempre se interessou pelas áreas do câncer e da obesidade, doenças que para ela apresentam grandes desafios futuros. Ela conta que sua opção pelo Inca deveu-se ao fato de ali ter a oportunidade de aplicar os resultados das pesquisas nos pacientes. Luiza também reconhece que sua opção pelo mestrado e pelo doutorado nas áreas da terapia celular e gênica contribuiu muito para impulsionar sua carreira. “Quero fazer com que os resultados das pesquisas cheguem ao maior número de pessoas possível e que a terapia seja acessível a pacientes do SUS”, afirma Luiza.




Autor: Paula Guatimosim
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 03/11/2022
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=221.7.6

terça-feira, 5 de julho de 2022

Estudo revela conjunto de genes desregulados no câncer de pâncreas e aponta potenciais alvos terapêuticos

Entre as muitas descobertas resultantes do Projeto Genoma Humano, concluído em 2003, está o fato de que grande parte dos genes humanos não gera RNAs que codificam proteínas – na verdade, apenas cerca de 5% têm essa função. Trata-se de uma classe que ficou conhecida como DNA lixo e que, durante as duas últimas décadas, foi deixada de lado quando o assunto é o tratamento de doenças como câncer. Se até agora os grandes alvos terapêuticos têm sido os RNAs mensageiros (que servem de molde para a síntese de proteínas), atualmente os pesquisadores chegam cada vez mais perto de descobrir que esses RNAs não codificadores podem, sim, ter funções importantes. É o caso de um estudo publicado recentemente na revista Cellular Oncology, que concluiu que RNAs longos não codificadores (lncRNAs) podem ter atuação no câncer de pâncreas.


Pesquisadores da USP estudaram em amostras de pacientes e linhagens de tumor a expressão de RNAs longos não codificadores – tipo que não dá origem a proteínas – e identificaram um grupo de genes com expressão aumentada no contexto da doença (imagem: Freepik)

O trabalho – que contou com apoio da FAPESP (projetos 13/13844-2, 13/13350-0, 14/03943-6 e 19/04420-0) e foi realizado por uma equipe multidisciplinar composta por bioquímicos, biólogos moleculares e celulares, bioinformatas e médicos – analisou um conjunto de lncRNAs em linhagens celulares de tumor de pâncreas e utilizou, em laboratório, ferramentas específicas para manipular sua expressão gênica. O resultado foi a confirmação de seu caráter oncogênico, ou seja, sua expressão favorece a formação de tumores.

“Percebemos que, ao silenciar os lncRNAs, características da célula tumoral foram reduzidas e ela se tornava menos agressiva e maligna porque se proliferava menos, migrava menos, invadia menos e fazia menos reparo de DNA”, afirma Eduardo M. Reis, professor do Departamento de Bioquímica do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP).

De acordo com o pesquisador, esses resultados fazem avançar a compreensão sobre o câncer de pâncreas, que, mesmo não tendo incidência tão alta quanto outros tipos de tumores, é letal e tem opções de tratamento mais limitadas.

“Desde que se começou a estudar a biologia molecular e a utilizar ferramentas de sequenciamento de nova geração para identificar novos marcadores, diversos tumores passaram a contar com melhores tratamentos, que causaram um impacto muito positivo na sobrevida, por exemplo, de pacientes com câncer de mama, de pulmão e de próstata”, conta Reis. “Infelizmente não foi o caso do câncer de pâncreas.”

O próximo passo agora é manipular e silenciar a atividade desses RNAs longos não codificadores em modelos tumorais in vivo, em que fragmentos de tumores de pacientes são implantados e mantidos em camundongos (xenotumores). A meta é confirmar se é possível reduzir, de fato e na prática, a agressividade do tumor.

Em paralelo, além de fragmentos de tumores, os pesquisadores que atuam com Reis também analisam bancos de dados de sequenciamento de RNA de célula única (do inglês, single-cell RNA-Seq). Com esse tipo de análise é possível obter o transcriptoma (conjunto de RNAs transcritos) de cada uma das células que compõem um tecido, em vez de olhar o tecido como um todo. A ideia é verificar também a atividade desses lncRNAs nos diferentes tipos celulares que compõem o microambiente do tumor e, dessa forma, aprofundar o entendimento de suas funções e possibilidades de uso como biomarcador.

“Diga-me com quem andas…”

Além do aspecto mais aplicado ao tratamento do câncer de pâncreas, o estudo liderado por Reis contribui com uma estratégia para desvendar o mecanismo de ação dos RNAs não codificadores. Sabe-se que eles estão aumentados no tumor e que, quando manipulados, causam efeito na célula. Porém, ainda não se compreende exatamente como isso acontece. Ao contrário dos RNAs mensageiros, cuja função pode ser prevista a partir da proteína codificada em sua sequência, com os lncRNAs isso ainda não é possível.

“É mais ou menos como quando os arqueólogos e pesquisadores encontraram os hieróglifos egípcios em uma língua absolutamente desconhecida e não dispunham da Pedra de Roseta para traduzi-los e entendê-los”, explica Reis. “Para esses lncRNAs, ainda não conhecemos o código que traduz a informação contida na sua sequência primária em uma estrutura tridimensional capaz de exercer funções específicas.”

Para contornar essa limitação, os pesquisadores utilizaram uma abordagem de bioinformática em que a atividade desses RNAs não codificadores é avaliada no contexto de uma rede de coexpressão, junto com a atividade de outros genes codificadores de proteína cuja função já se conhece. Comparando tumores e amostras não tumorais, verificou-se que vários RNAs não codificadores apresentam um padrão de coexpressão semelhante ao de genes codificadores com funções importantes no contexto do câncer. Gerou-se então a seguinte hipótese no estilo “diga-me com quem andas e te direi quem tu és”: se os RNAs têm o mesmo padrão, então podem realizar as mesmas atividades ou estarem submetidos à mesma regulação.

Foi assim que, no estudo, chegou-se à constatação de que o lncRNA UCA1 especificamente é necessário para o reparo de DNA em células tumorais expostas à radiação ionizante. Ou seja, a expressão desse RNA não codificador aparentemente ajuda o tumor a se recuperar dos danos causados pelo tratamento com radioterapia.

Segundo o pesquisador, o estudo contribui com um catálogo relevante de possíveis funções moleculares de lncRNAs oncogênicos que pode ajudar a ampliar as possibilidades de estudo da função dos RNAs não codificadores em cânceres de pâncreas e, consequentemente, levar mais pesquisadores a explorar o desenvolvimento de novas opções terapêuticas.

O artigo Annotation and functional characterization of long noncoding RNAs deregulated in pancreatic adenocarcinoma pode ser lido em: https://link.springer.com/article/10.1007/s13402-022-00678-5.




Autor: Julia Moióli
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data: 04/07/2022
Publicação Original: https://agencia.fapesp.br/estudo-revela-conjunto-de-genes-desregulados-no-cancer-de-pancreas-e-aponta-potenciais-alvos-terapeuticos/39031/

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Pare de fumar: tabagismo pode provocar câncer, tuberculose, doenças respiratórias, impotência e infertilidade



Reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma doença crônica causada pela dependência à nicotina, o tabagismo é um problema mundial de saúde pública que está relacionado ao surgimento de pelo menos 50 doenças como diabetes, hipertensão, AVC, infarto, doenças respiratórias, câncer, tuberculose, impotência e infertilidade. Nesta terça-feira (31), no Dia Mundial Sem Tabaco, o Ministério da Saúde reforça a importância de parar de fumar.

Para tratar as doenças e incapacitações provocadas pelo tabagismo, o Brasil precisa desembolsar anualmente cerca de R$ 125 bilhões. No mundo todo, são registradas aproximadamente 8 milhões de mortes precoces por ano em decorrência do tabaco. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA), instituto federal vinculado ao Ministério da Saúde responsável pelo Programa Nacional de Controle do Tabagismo, o tabaco causa a maior parte de todos os cânceres de pulmão no país e é um fator de risco significativo para AVC e ataques cardíacos.

Os produtos de tabaco que não produzem fumaça também estão associados ao desenvolvimento de câncer de cabeça, pescoço, esôfago e pâncreas, assim como muitas outras patologias buco-dentais. Além disso, a fumaça também pode matar: os fumantes passivos, ou seja, aquelas pessoas que não fumam, mas que convivem com pessoas que fazem uso do tabaco, podem desenvolver várias doenças, principalmente nos ambientes domiciliar e de trabalho. No mundo, mais de 1,2 milhão de pessoas morrem em decorrência do fumo passivo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Pelo Sistema Único de Saúde (SUS), são oferecidos tratamentos integrais e gratuitos às pessoas que desejam parar de fumar por meio de medicamentos como adesivos, pastilhas, gomas de mascar (terapia de reposição de nicotina) e bupropiona, além do acompanhamento médico necessário para cada caso. Basta procurar atendimento em uma das mais de 48 mil Unidades Básicas de Saúde distribuídas em todo o Brasil, que fornecerão informações sobre locais e horários de tratamento em cada região.
Programa Nacional de Controle do Tabagismo

O Programa Nacional de Controle do Tabagismo tem como objetivo reduzir a prevalência de fumantes e, por consequência, a morbimortalidade relacionada ao consumo do tabaco e seus derivados no Brasil. As iniciativas sempre são focadas na prevenção à iniciação do tabagismo, principalmente entre adolescentes e jovens; promoção da cessação do ato de fumar; e proteção da população da exposição à fumaça do tabaco, com foco na redução do dano individual, social e ambiental do tabaco e seus derivados.

Além disso, a política é responsável por articular e integrar a rede de tratamento do tabagismo no Sistema Único de Saúde (SUS), as campanhas e outras ações educativas sobre prevenção e cessação do tabagismo e a promoção de ambientes livres de fumo.
Dia Mundial Sem Tabaco

O Dia Mundial Sem Tabaco, celebrado anualmente em 31 de maio desde 1987, foi criado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para alertar sobre as doenças e mortes evitáveis relacionadas ao tabagismo. No Brasil, o INCA é o órgão responsável pela divulgação e elaboração do material técnico para subsidiar as comemorações em níveis federal, estadual e municipal.
Mais de 100 motivos para parar de fumar

A OMS listou mais de 100 razões para parar de fumar como forma de mobilizar, motivar, sensibilizar e encorajar os tabagistas a deixarem de fumar. A lista foi organizada por tema e traz vários elementos que reforçam e motivam a cessação do tabagismo, como esses:

=> Quando você usa produtos de tabaco e nicotina, coloca em risco a saúde de seus amigos e familiares - não apenas a sua.
=> Fumar cigarros eletrônicos perto de crianças compromete a saúde e a segurança delas.
=> O uso de tabaco traz consequências sociais negativas.
=> Fumar reduz sua fertilidade.
=> Todas as formas de tabaco são letais.
=> Produtos de tabaco aquecidos são prejudiciais à saúde.
=> Os cigarros eletrônicos são prejudiciais à saúde e não são seguros.
=> O uso de tabaco, principalmente o fumo, tira o fôlego.
=> Tabaco causa mais de 20 tipos de câncer.
=> Os fumantes têm maior probabilidade de perder a visão e a audição.
=> O uso de tabaco e nicotina prejudica seu bebê.
Após parar de fumar, os benefícios aparecem rápido, como:

=> Após 20 minutos, a pressão sanguínea e a pulsação voltam ao normal.
=> Após 2 horas, não há mais nicotina circulando no sangue.
=> Após 8 horas, o nível de oxigênio no sangue se normaliza.
=> Após 12 a 24 horas, os pulmões já funcionam melhor.
=> Após 2 dias, o olfato já percebe melhor os cheiros e o paladar já degusta melhor a comida.
=> Após 3 semanas, a respiração se torna mais fácil e a circulação melhora.
=> Após 1 ano, o risco de morte por infarto do miocárdio é reduzido à metade.
=> Após 10 anos, o risco de sofrer infarto será igual ao das pessoas que nunca fumaram.

Outras informações podem ser consultadas na Coordenação de Controle do Tabagismo na sua Secretaria Estadual de Saúde, por telefone, ou no Disque Saúde 136.

Gustavo Frasão
Ministério da Saúde
Categoria
Saúde e Vigilância Sanitária





Autor: Ministério da Saúde
Fonte: Ministério da Saúde
Sítio Online da Publicação: Ministério da Saúde
Data: 31/05/2022
Publicação Original: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2022/maio/pare-de-fumar-tabagismo-pode-provocar-cancer-tuberculose-doencas-respiratorias-impotencia-e-infertilidade

terça-feira, 31 de maio de 2022

O câncer raro que tem dor nas costas como principal sintoma

O mieloma múltiplo é um tipo de câncer do sangue que afeta o sistema hematológico, resultando, principalmente, em complicações nos rins e nos ossos — com sintomas difíceis de serem diferenciados de outras várias doenças.

A doença ataca os plasmócitos, um tipo de glóbulo branco, que tem a função de produzir anticorpos para combater infecções. Em vez de células saudáveis, surgem versões malignas que se multiplicam e passam a produzir anticorpos anormais, conhecidos como proteína M ou proteína monoclonal, que prejudica diferentes partes do organismo — e por isso a doença leva a palavra "múltiplo" em seu nome.

Os pacientes costumam sentir, antes de qualquer outro sinal, uma dor lombar, sintoma bastante genérico, que pode ser resultado de uma noite dormida em posição não tão confortável, um treino pesado demais na academia ou tantos outros fatores do dia a dia. Mas que também é considerado o principal sintoma desse câncer raro.


Foi justamente esse incômodo que levou o comerciante Luiz Fernando Fontenele, de 37 anos, a começar uma longa jornada de exames e consultas médicas até descobrir a doença. "Eu sentia muita dor e só sete meses depois de sofrer a primeira fratura recebi o diagnóstico. Eu mesmo levantei a suspeita por ter lido sobre os sintomas na internet", lembra.


Assim como aconteceu com Luiz Fernando, a doença pode levar à fraturas, por deixar os ossos mais fracos, anemia, pelo excesso de células plasmáticas na medula óssea, que causa uma redução número de células formadoras de sangue, e em casos mais graves, a insuficiência renal, devido ao dano que o quadro causa aos túbulos renais.



CRÉDITO,DIVULGAÇÃO
Legenda da foto,

Luiz Fernando no evento de divulgação 'Juntos Somos Mais Fortes', promovido pela Amgen e International Myeloma Foundation Latin America

Embora raro, é o segundo câncer de sangue mais frequente no mundo. No Brasil, estima-se que quatro a cada cem mil pessoas sofram com a doença, uma média de 7600 novos casos a cada ano.

A doença é mais comum para pessoas com mais de 60 anos, mas há diagnósticos em pessoas mais jovens. O caso mais emblemático da literatura mundial aconteceu aqui no Brasil. Um menino de 8 anos, morador de Salvador, na Bahia, foi diagnosticado com o quadro. De acordo com a organização IMF (International Myeloma Foundation Latin America), ele foi a primeira criança da história a receber o diagnóstico.

O mieloma múltiplo pode ser detectado por exame de urina ou pelo exame de sangue chamado de eletroforese de proteínas séricas, solicitado quando os sintomas indicam doença inflamatória, doença autoimune, infecção aguda ou crônica, doença hepática ou renal.

"Embora acredite que o exame não precise ser pedido como rotina para todas as pessoas - até por que isso poderia significar um gasto público que tiraria recursos de outras doenças - considero inaceitável que um paciente possa ficar tanto tempo com sintomas, e por desconhecimento de profissionais que não são especialistas, não tenha um pedido de exame que leve ao diagnóstico", afirma Angelo Maiolino, professor de hematologia na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Após os primeiros sintomas, 29% dos pacientes com mieloma múltiplo demoram um ano para receberem o diagnóstico, e 28% esperam por um tempo ainda mais longo, de acordo com uma pesquisa feita pela Abrale (Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia).

"Já vi casos de pessoas que estavam fazendo diálise, com os rins muito comprometidos, que só descobriram a doença três anos depois", diz Maiolino.



CRÉDITO,ASIAVISION/GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Dor nas costas é o principal sintoma do câncer raro

Tratamento

Desde o primeiro diagnóstico de mieloma múltiplo, no século 18, a medicina apresentou avanços na evolução tato nos conhecimentos biológicos da doença como nos tratamentos, que hoje permitem que os pacientes com esse tipo de câncer tenham vidas mais longas e com mais bem-estar.

A doença não tem cura, mas para muitos casos, os tratamentos que permitem que os pacientes vivam bem, com bom controle dos sintomas. "É como se eles tivessem uma doença crônica como é o diabetes, a hipertensão...", diz Maiolino.

A intervenção precoce, de acordo com o médico, é o caminho para que o avanço da doença não comprometa a saúde dos pacientes de forma irreversível. "Usamos um tipo de tratamento para cada estágio da doença, mas se o quadro é descoberto tardiamente, o paciente não conseguirá colher os benefícios das fases iniciais do cuidado", explica.

Outra opção bastante comum é a indicação do transplante de células-tronco. Antes da realização do transplante, é feito o tratamento com quimioterapia ou radioterapia para que a medula óssea já existente (local onde o corpo fabrica sangue, glóbulos brancos e vermelhos e plaquetas) dê espaço para que uma nova medula possa ser criada.

A nova medula óssea é um líquido com gelatinoso que pode vir de doador ou ser autólogo (do próprio paciente).

Luiz Fernando foi transplantado, mas sofreu uma recidiva, ou seja, a doença voltou. "Foi mais difícil do que receber o diagnóstico. Faço um tratamento específico, com uma combinação de medicamentos a cada 28 dias em ambiente hospitalar e a cada 21 dias em casa. Descobri o mieloma múltiplo com 28 anos e não me lembro de um dia que passei sem dor. É difícil, mas a gente aprende a conviver. A combinação de remédios permite que eu tenha uma vida normal."







Autor: Giulia Granchi
Fonte: BBC News Brasil em São Paulo
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 30/05/2022
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-61528422

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Aprovada no Brasil primeira terapia gênica para combater câncer

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) concedeu nesta quarta-feira, 23/2, o primeiro registro sanitário para um produto de terapia gênica que utiliza células T para o combate ao câncer.

A primeira terapia do gênero, conhecida como CAR-T, disponível para amplo uso no Brasil é o tisagenlecleucel (Kymriah®), da empresa Novartis Biociências S.A, pertencente a uma nova geração de imunoterapias personalizadas contra o câncer, que se baseiam na coleta e na modificação genética de células sanguíneas imunes dos próprios pacientes. O objetivo “treinar” as próprias células do paciente para combater o carcinoma.

Um tratamento que utiliza essa mesma tecnologia está sendo desenvolvido pelos pesquisadores do Centro de Terapia Celular (CTC-FAPESP-USP) do Hemocentro de Ribeirão Preto, ligado ao Hospital das Clínicas. Em 2019, o mineiro Vamberto Luiz de Castro, de 62 anos, diagnosticado com linfoma não Hodgkin de células B, foi o primeiro paciente a receber o tratamento no país.


A abordagem mostrou resultados promissores no paciente, que estava em estado terminal. No entanto, os médicos não conseguiram acompanhar a condição do aposentado a longo prazo, que veio a óbito dois meses após o tratamento, em decorrência de um acidente doméstico.

Indicação da terapia gênica

A indicação do tratamento é para pacientes pediátricos e adultos jovens (até 25 anos) com leucemia linfoblástica aguda (LLA) de células B, refratária ou a partir da segunda recidiva, além de pacientes adultos com linfoma difuso de grandes células B (LDGCB) recidivado ou refratário, após duas ou mais linhas de terapia sistêmica.

A nova tecnologia já tinha sido aprovada em outros países, como os Estados Unidos, Japão e os da União Europeia.


“O produto baseado em células CAR-T é uma abordagem tecnológica pioneira para o tratamento que atende à necessidade não atendida de outros tratamentos em pacientes com câncer grave. É uma nova opção onde as alternativas são muito limitadas, com taxas de remissão e sobrevida promissoras em ensaios clínicos avaliados pela Anvisa”, disse a Anvisa em nota.

Veja mais: A evolução no tratamento da hemofilia: da analgesia com gelo à possibilidade de terapia gênica

Avaliação do produto

A terapia genética CAR-T Cell contra o câncer apresentou resultados positivos em uma análise de caso de dois pacientes, publicada recentemente pela revista Nature.

Os pesquisadores destacaram que esses dois casos demonstraram que a terapia ataca o câncer imediatamente, mas que também pode permanecer dentro do corpo por anos e manter a doença sob controle.

Para a aprovação do registro do produto foram incluídas medidas de responsabilização e controle, como capacitação dos profissionais de saúde envolvidos no manejo do produto, qualificação específica para quem irá manipular, administrar e monitorar o paciente e atenção dedicada ao paciente e familiares com orientações pós-uso do produto.






Autor: Úrsula Neves
Fonte: PEBMED
Sítio Online da Publicação: PEBMED
Data: 25/02/2022
Publicação Original: https://pebmed.com.br/aprovada-no-brasil-primeira-terapia-genica-para-combater-cancer/

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Câncer de placenta: nova pesquisa impacta tratamento


A recusa por parte de pacientes em se submeter a tratamentos mais agressivos foi um dos motivos para a realizaçao do estudo retrospectivo dos procedimentos adotados (Foto: Fernando Zhiminaicela/Pixabay)

Artigo publicado na revista Lancet Oncology confirma a eficácia do tratamento menos agressivo contra o câncer na placenta. O estudo foi liderado pelo pesquisador Antonio Rodrigues Braga Neto, que coordena estudos sobre a doença trofoblástica gestacional (DTG) na Maternidade Escola da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e no Hospital Universitário da Universidade Federal Fluminense (UFF). O trabalho, produzido em parceria com o Imperial College of London e a Harvard Medical School, foi publicado na última sexta-feira, 25 de junho.

"A partir de relatos de mulheres que se recusaram a realizar o tratamento mais agressivo, passamos a investigar alternativas para o tratamento do câncer da placenta e, por meio desse estudo, confirmamos que é possível utilizar apenas um medicamento para as sessões de quimioterapia em casos de escore de risco da Figo [Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia] 5 e 6", explica Braga. De acordo com o pesquisador, isso significa uma diminuição dos efeitos colaterais como enjôos e quedas de cabelo e até mesmo o desenvolvimento de tumores na vida futura dessas pacientes. O tocoginecologista acrescenta que a DTG é plenamente curável, mesmo nos casos mais graves, desde que seja feito o diagnóstico precoce e o tratamento ocorra em Centros de Referência.

A DTG é uma doença rara. A cada ano surgem 20 mil novos casos ao redor do globo e, por esse motivo, torna-se difícil realizar estudos randomizados de pesquisa clínica. O trabalho recém publicado consistiu em um estudo retrospectivo que incluiu pacientes atendidas nos três centros de referência entre 1964 a 2018: os hospitais escola do Imperial College of London (Charing Cross Hospital); da Harvard Medical School (Brigham and Women’s Hospital) e da UFRJ (Maternidade Escola).

O pesquisador explica que a gestação nesses casos não passa de 12 semanas e, em grande parte dos casos, a remoção do feto em formação é suficiente para eliminar a doença. As demais pacientes precisarão de quimioterapia. E apenas nos casos de metástase, coriocarcinoma, e níveis elevados de gonadotrofina coriônica humana (hCG - marcador tumoral dessa doença) fica configurado casos de tumores mais agressivos, em que a quimioterapia com mais de um medicamento pode ser necessária.



Braga Neto: 'O câncer na placenta é uma doença plenamente curável quando é feito diagnóstico precoce' (Foto: Arquivo pessoal)


Em uma primeira etapa foram coletados 5025 registros de pacientes com o câncer da placenta e a partir daí verificou-se a gravidade da doença em uma escala que vai de 0-6, com as atualizações necessárias da classificação, modificada ao longo das últimas décadas. Do total, apenas 431 dos casos eram de maior gravidade (escore da FIGO 5 ou 6). Entre estas pacientes, que tinham entre 26 e 40 anos, 80 foram submetidas ao tratamento mais agressivo, com mais de um medicamento. Neste grupo, houve uma morte. Enquanto entre as 351 que foram atendidas com apenas um medicamento, houve duas mortes.

O próximo passo dos pesquisadores será enviar cartas às sociedades médicas da área para confirmar a efetividade do tratamento menos agressivo, procedimentos que já estão sendo adotados nas maternidades-escola da UFRJ e no Hospital Universitário da UFF. Ao longo dos anos, a FAPERJ tem apoiado as pesquisas do Núcleo de Estudos em Doenças Trofoblásticas, coordenado pelo professor Braga, que, para essa pesquisa, contou também com a Bolsa de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), órgão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.





Autor: Juliana Passos
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 01/07/2021
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4254.2.0

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Pesquisa com proteína p53 aponta novos caminhos para diagnóstico e tratamento do câncer


Os agregados malignos da p53 acontecem devido à transição de fase da proteína alterada, que passa do seu estado líquido para gel, e depois sólido (Ilustração: Guilherme de Oliveira)
Mesmo sendo resultado de "pesquisa básica", devido à sua importância, a notícia foi publicada nos principais veículos de comunicação do País e ganhou a capa da edição do final de abril da Chemical Science, publicação da Royal Society of Chemistry, especializada em assuntos relacionados à química aplicada à biologia e medicina: pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sob a coordenação do professor do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis (IBqm/UFRJ) e presidente da FAPERJ, Jerson Lima Silva, anunciaram uma importante descoberta sobre alterações em uma proteína, a p53, que pode sofrer alterações que estariam na origem de percentual expressivo dos casos de câncer. Envolvida em centenas de processos essenciais do corpo humano, a p53 tem como função principal preservar a integridade do código genético em cada célula, ou seja, a manutenção da mesma sequência ao longo de toda a molécula de DNA. Quando há divisão celular, a p53 verifica eventual ocorrência de mutação na sequência do código genético, evento decorrente de uma duplicação defeituosa do DNA. Caso haja uma alteração, é função da p53 impedir que a divisão celular se complete. Os agregados malignos da p53 acontecem devido à transição de fase da proteína p53 mutada, que passa do seu estado líquido para gel, e, em seguida, para o sólido, tornando-se irreversíveis, iniciando a multiplicação e o surgimento de tumores. É quando a proteína deixa de ser guardiã e passa a ser vilã.

Por isso, desta vez, os pesquisadores focaram seus estudos no nível molecular da proteína e, com a ajuda de tecnologia de ponta como a microscopia eletrônica de transmissão, espectroscopia de ressonância magnética nuclear e de microscopia de fluorescência, conseguiram analisar cada etapa da sequência de eventos que dão origem aos anômalos.

A pesquisa, que recebeu apoio financeiro da FAPERJ e do CNPq e abre possibilidades futuras para um possível tratamento do câncer, também irá ajudar a esclarecer o processo de formação dos tumores e auxiliar o desenvolvimento de novas ferramentas para exame e diagnóstico precoce e prognóstico do câncer. Os dois primeiros autores do trabalho, Elaine Petronilho e Murilo Pedrote, são bolsistas de pós-doutorado da FAPERJ. De acordo com os pesquisadores, a análise dos aglomerados já revelou que algumas substâncias impedem a agregação da p53, outras desfazem os agregados, e essas observações podem contribuir para o desenvolvimento de medicamentos que evitem os aglomerados. O desafio será conseguir evitar os agregados sem prejudicar as funções da p53. Devido a suas múltiplas e fundamentais funções, a p53 alterada também está envolvida em outras doenças, como mal de Parkinson, Alzheimer e esclerose lateral amiotrófica (ELA). O Boletim Faperj entrevistou o professor Jerson Lima, coordenador do estudo:


Jerson Lima: professor titular da UFRJ e presidente da FAPERJ, o bioquímico é o coordenador do estudo, que ganhou amplo destaque nos meios de Comunicação (Foto: Lécio A. Ramos)


Boletim Faperj: Muitos grupos de pesquisa no Brasil e no mundo estudam a P53. Qual foi o caminho seguido pela equipe do IBqM para chegar a essa descoberta?

Jerson Lima: No início da década de 2000, o nosso grupo estudava várias proteínas que formam agregados amiloides tóxicos na célula e estão envolvidas em doenças neurodegenerativas como Parkinson, Alzheimer e doenças priônicas. No caso da p53, sabíamos que as mutações somáticas (em um único gene) estavam associadas à maioria dos tipos de câncer. Começamos a estudar a p53 e, em 2003, publicamos dois trabalhos pioneiros que apontaram para o caráter amilóide do tipo príon da agregação de p53 e sua relevância para o câncer. Logo em seguida verificamos que esses agregados amilóides de p53 mutante eram encontrados em células de câncer de mama, o que mostra sua relevância biológica. Esses resultados foram confirmados posteriormente por outros grupos em diferentes tipos de câncer, como tumores de pele, prostáticos e ovarianos. Essa descoberta pioneira mostrava que que a proteína p53 mutante exerce um efeito regulador dominante negativo na proteína p53 do tipo selvagem, uma vez que pode arrebanhar essa proteína funcional para estes agregados, bem com conferir efeitos de ganho de função oncogênica (resistência à quimioterapia, por exemplo) ao coagregar a outras proteínas como p63, p73 e outros fatores de transcrição, privando a célula de várias proteínas importantes que deixam de exercer suas funções por estarem retidas nesses agregados. Em vários artigos mais recentes temos demonstrado o grande potencial de usar a inibição da agregação de p53 como um alvo importante contra o câncer. Nesse cenário, o grupo tem usado como estratégica a identificação de novos compostos capazes de prevenir a formação de agregados da p53, tais como moléculas naturais e sintéticas, como análogos do resveratrol, pequenos peptídeos sintéticos, aptâmeros de ácidos nucléicos, glicosaminoglicanos, dentre outros. Nesse trabalho mais recente, o grupo fornece o caminho celular da formação desses agregados. Os agregados “malignos” de p53 seriam resultado de um fenômeno conhecido como transição de fase, quando uma molécula sai de um estado equivalente a gotas líquidas e se transforma em condensados de gel ou mesmo em agregados sólidos e irreversíveis. Essa foi a descoberta mais importante desse trabalho.

Há quanto tempo não havia um resultado tão significativo nas pesquisas acerca do câncer?

O câncer não é uma doença única, são muitas doenças que podem se beneficiar com essa descoberta. O fato de mais de 50% dos tumores malignos possuírem mutação de p53, torna a mudança de fase dentro da célula da p53 e consequente agregação um alvo perfeito para terapias. Se nenhuma nova terapia for desenvolvida, o câncer associado às mutações na proteína p53 levará à morte de mais de meio bilhão de pessoas nas próximas décadas. O nosso trabalho ganhou destaque porque detalha o caminho dentro do núcleo da célula onde o processo de mudança de fase pode ocorrer. Tanto a separação como a transição de fases desempenham papéis importantes no funcionamento de macromoléculas no interior das células, permitindo que diferentes componentes celulares se liguem e formem estruturas como o nucléolo, localizado no núcleo celular e composto de proteínas, DNA e RNA. O nosso estudo mostra como moléculas de RNA, muito presentes no núcleo e especialmente no nucléolo, podem afetar o curso das alterações da p53, transformando-a de um fator de supressão tumoral para um fator oncogênico (estimulador de tumores).

Essa descoberta pode fazer com que a indústria farmacêutica invista mais em pesquisas com a P53?

Exatamente, porque esse caminho está agora parcialmente desvendado e a indústria farmacêutica, junto com os grupos de pesquisa, pode desenvolver medicamentos que atuem na agregação da p53 mutada. Há dois anos, demonstramos que um medicamento antitumoral (Prima-1), que está em fase 3 de pesquisa clínica, tem como principal mecanismo de ação a inibição da agregação de mutantes de p53.

Num cenário futuro, essa pesquisa contribuiria para melhor o tratamento com Imunoterapia?

Toda doença mais complexa precisa ser tratada com mais de um medicamento. Além das imunoterapias já disponíveis para tratamento de algumas formas de câncer, pode-se inclusive desenvolver anticorpos monoclonais que impeçam a agregação da p53 e restabeleçam a função de supressão tumoral.




Autor: Ascom Faperj
Fonte: Faperj
Sítio Online da Publicação: Faperj
Data: 21/06/2021
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4247.2.0

segunda-feira, 17 de maio de 2021

De onde vem o câncer e por que não desapareceu com a evolução?



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O demônio da Tasmânia é vítima de uma forma particular de câncer, transmissível de um indivíduo para outro


O câncer levanta uma infinidade de questões para os biólogos, muitas delas ainda sem resposta. Como podemos explicar as origens da doença? Por que é tão difícil de curar? Por que a vulnerabilidade ao câncer persiste na maioria dos organismos multicelulares?


Os enfoques baseados na explicação dos mecanismos dessa doença e na pesquisa clínica não são suficientes para abordar essas perguntas.


Devemos olhar para o câncer a partir de uma nova perspectiva, adotando uma visão evolutiva. Em outras palavras, devemos enxergar o câncer pelos olhos de Charles Darwin, pai da teoria da evolução.


Há alguns anos, o esforço conjunto de biólogos evolucionistas e oncologistas vem fomentando reflexões que se traduzem em avanços transversais benéficos para ambas as disciplinas, ao mesmo tempo que mudam nossa compreensão da doença.

Como a evolução dos organismos multicelulares abre caminho para o câncer


O câncer afeta todo o reino animal multicelular. A razão é que se trata de uma doença ancestral relacionada ao aparecimento de metazoários (animais compostos por várias células, diferentemente dos protozoários que são formados por uma única célula), há mais de 500 milhões de anos.

O aparecimento de organismos tão complexos exigiu o desenvolvimento de altos níveis de cooperação entre a variedade de células que os compõem.



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O câncer afeta todo o reino animal multicelular


Na verdade, essa cooperação é sustentada por comportamentos complementares e altruístas, em particular pela apoptose ou suicídio celular (pelo qual uma célula ativa sua autodestruição ao receber um determinado sinal) e pela renúncia à reprodução direta por parte de toda célula que não seja uma célula sexual.


Ou seja, a evolução para entidades multicelulares estáveis ​​foi produzida pela seleção de adaptações que, por um lado, facilitavam o funcionamento coletivo e, por outro, reprimiam os reflexos unicelulares ancestrais.


O câncer representa uma ruptura dessa cooperação multicelular, seguida pela aquisição de adaptações que permitem que essas células "renegadas" se aperfeiçoem em seu próprio modo de vida.


Em outras palavras, as células malignas começam a "trapacear".


Podem fazer isso por terem sofrido mutações genéticas (modificações na sequência dos genes) ou epigenéticas (modificações que alteram a expressão dos genes e que, além de transmissíveis, são reversíveis, ao contrário das mutações genéticas), ou ainda ambas, o que confere a elas um valor seletivo mais alto em comparação com as células de comportamento cooperativo.


Pode consistir, por exemplo, em vantagens de crescimento, multiplicação, etc.


Da mesma forma, é imperativo que as células que carregam essas modificações se situem em um microambiente favorável à sua proliferação.


Se essas "rebeliões celulares" não são suprimidas adequadamente pelos sistemas de defesa do corpo (como o sistema imunológico), a abundância de células cancerosas pode aumentar localmente.


Consequência: os recursos se esgotam e essas células podem iniciar então comportamentos individuais ou coletivos de dispersão e colonização em direção a novos órgãos, as conhecidas metástases, responsáveis lamentavelmente ​​pela maioria das mortes por câncer.


Dessa forma, em poucos meses ou anos, uma única célula cancerosa pode gerar um "ecossistema" complexo e estruturado, o tumor sólido (comparável a um órgão funcional), assim como metástases mais ou menos disseminadas pelo organismo.


Um aspecto intrigante dessa doença consiste no número significativo de semelhanças entre os atributos das células cancerosas provenientes de diferentes órgãos, indivíduos e até espécies, o que sugere que os processos que acontecem em cada caso são semelhantes.


Porém, cada câncer evolui como uma nova entidade, já que, tirando os cânceres transmissíveis mencionados anteriormente, os tumores sempre desaparecem junto com seus hospedeiros, sem transmitir suas inovações genéticas nem fenotípicas.


Então, como explicar essas semelhanças?

Persistência do câncer ao longo do tempo evolutivo


Do ponto de vista evolutivo, há duas hipóteses que podem explicar o surgimento do câncer e a semelhança de seus atributos.



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Cada câncer evolui como uma nova entidade


A teoria do atavismo explica o câncer como um retorno às capacidades anteriores das células, entre as quais se encontra a liberação de um mecanismo de sobrevivência excelentemente preservado, sempre presente em todas as células eucarióticas e, portanto, em todos os organismos multicelulares.


Acredita-se que a seleção desse antigo mecanismo tenha ocorrido durante o período Pré-Cambriano, que começou há 4,55 bilhões de anos e terminou há 540 milhões de anos.


Durante esse período, que viu surgir a vida em nosso planeta, as condições ambientais eram muito diferentes das de hoje e, muitas vezes, desfavoráveis.


As forças seletivas que atuavam sobre os organismos unicelulares favoreceram as adaptações para a proliferação celular.


Algumas dessas adaptações, selecionadas ao longo da vida unicelular, permaneceram para sempre presentes, mais ou menos ocultas em nossos genomas.


Quando sua expressão escapa dos mecanismos de controle, começa uma luta entre os traços unicelulares ancestrais e os traços multicelulares atuais — e é aí que pode surgir um câncer.


Além disso, esta hipótese também poderia explicar por que as células cancerosas se adaptam tão bem a ambientes ácidos e pobres em oxigênio (anóxicos), uma vez que essas condições eram comuns no período Pré-Cambriano.


A segunda hipótese envolve um processo de seleção somática — as células somáticas agrupam todas as células de um organismo com exceção das células sexuais —, que leva a uma evolução convergente, ou seja, ao aparecimento de traços análogos.


Esta hipótese sugere que o surgimento dos traços celulares que caracterizam as células "traiçoeiras" passa por uma forte seleção cada vez que um novo tumor aparece, independentemente de quais sejam as causas imediatas desses traços.


Esses processos de seleção somática, ao ocorrer em ambientes regidos em grande parte pelas mesmas condições ecológicas (como as que reinam dentro de organismos multicelulares), levariam a uma evolução convergente.


Isso poderia explicar as semelhanças que observamos por meio da diversidade do câncer. Não podemos esquecer que só vemos cânceres que conseguem se desenvolver, mas não sabemos quantos "candidatos" fracassaram ao não conseguir adquirir as adaptações necessárias no momento certo.



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Existem diferentes hipóteses sobre a evolução do câncer


Essas duas hipóteses não são excludentes: o reaparecimento de um mecanismo ancestral pode ser seguido por uma seleção somática que culmina em uma evolução convergente.


Seja qual for a razão da origem do câncer, há uma questão que permanece sem resposta: se essa doença costuma causar a morte do hospedeiro, por que a seleção natural não foi mais eficaz em tornar os organismos multicelulares completamente resistentes ao câncer?

Incidência de câncer não é maior em animais grandes


Os mecanismos de supressão do câncer são numerosos e complexos. Cada divisão celular pode causar mutações somáticas que alteram os mecanismos genéticos que controlam a proliferação celular, a reparação do DNA e a apoptose, afetando assim o controle do processo de formação do câncer (carcinogênese).


Se cada divisão celular envolve uma certa probabilidade de produzir uma mutação cancerígena, o risco de desenvolver câncer deveria ser em função do número de divisões celulares ao longo da vida de um organismo.


No entanto, as espécies de grande porte e que vivem mais não têm mais câncer do que as pequenas, que vivem menos tempo.


Nas populações naturais de animais, a frequência de câncer varia, em geral, entre 0% e 40% para todas as espécies estudadas — e não há relação com a massa corporal.


Em elefantes e camundongos, são observados níveis de prevalência bastante semelhantes de câncer, apesar de os elefantes desenvolverem muito mais divisões celulares ao longo de suas vidas do que os camundongos.


Esse fenômeno é conhecido como "paradoxo de Peto".


A explicação para esse paradoxo está no fato de que as forças evolutivas selecionaram mecanismos de defesa mais eficazes nos animais grandes do que nos pequenos, o que permite reduzir o risco associado ao câncer devido ao aumento do tamanho.



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O rato-toupeira-pelado não tem medo do câncer, que o afeta apenas de forma circunstancial


Por exemplo, os elefantes têm vinte cópias do gene supressor de tumores TP53, enquanto os humanos dispõem de apenas duas.


Encontramos exceções notáveis ​​a essa tendência geral, como o caso de espécies de pequeno porte com longevidade fora do normal. Essas espécies também dificilmente desenvolvem câncer.


Um bom exemplo é o do rato-toupeira-pelado (Heterocephalus glaber), uma espécie cujos indivíduos vivem muito tempo (espécie longeva) e não desenvolvem tumores espontâneos, com exceção de alguns casos de câncer detectados de forma circunstancial.

Uma doença que se manifesta tardiamente


Lembremos também que a eficácia das defesas contra o câncer diminui uma vez que os organismos realizam o essencial a sua reprodução, já que as pressões evolutivas são menores nessa fase da vida.



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A eficácia das defesas contra o câncer diminui com a idade


Essa perda de eficácia, junto com o acúmulo de mutações ao longo do tempo, explica por que a maioria dos cânceres (mama, próstata, pulmão, pâncreas...) aparece na segunda metade da vida.


Uma das principais implicações evolutivas é que se, a partir de uma perspectiva darwiniana, o câncer não é uma preocupação relevante quando se manifesta após a fase reprodutiva, isso também significa que nossas defesas terão sido otimizadas pela seleção natural, para não erradicar sistematicamente os processos oncogênicos, mas para controlá-los enquanto temos capacidade reprodutiva.


No final, essas defesas de baixo custo, cujo objetivo é resistir diante dos tumores, acabam sendo mais vantajosas para garantir o sucesso reprodutivo do que como estratégias de erradicação sistemática, que seriam sem dúvida muito mais onerosas.


O sistema imunológico, por exemplo, não trabalha a troco de nada...


Em geral, os seres vivos são regidos por relações de compromisso, trade-offs em inglês, o que significa que qualquer investimento em uma função requer uma série de recursos e energia que não estarão mais disponíveis para outras funções.


Nossas defesas contra doenças, incluindo o câncer, não estão fora dessa regra operacional.


Infelizmente, essas defesas de baixo custo contra o câncer acabam se transformando em bombas tardias... Em outras palavras, a lógica darwiniana nem sempre nos leva a resultados que correspondem às nossas expectativas como sociedade em termos de saúde!


Embora a maioria das mutações cancerígenas ocorra em células somáticas ao longo da vida, há casos raros de câncer causados ​​por mutações hereditárias na linha germinal, aquela que produz células sexuais.


Essas mutações congênitas, às vezes, são mais frequentes do que poderíamos esperar do equilíbrio mutação-seleção.


Este paradoxo pode ser explicado por vários processos evolutivos. Por exemplo, foi sugerido que a seleção natural provavelmente não agirá sobre essas mutações se, mais uma vez, seus efeitos negativos à saúde se manifestarem somente após o término do período reprodutivo.


Por outro lado, é possível recorrer à teoria da pleiotropia antagonista. Essa teoria prevê que certos genes têm efeitos contrários sobre a probabilidade de sobrevivência/reprodução de acordo com a idade: seus efeitos seriam positivos no início da vida e negativos no restante.


Se o efeito positivo inicial for significativo, é possível que a seleção retenha essa variante genética, mesmo que cause uma doença fatal mais tarde.


Por exemplo, as mulheres que têm uma mutação nos genes BRCA1 e BRCA2 apresentam um risco significativamente maior de desenvolver câncer de mama ou de ovário, mas essas mutações parecem estar relacionadas com uma fertilidade maior.

Implicações em termos de tratamento


O câncer, verdadeiro fardo das populações humanas, é antes de tudo um fenômeno regido por processos evolutivos, desde sua origem na história da vida até seu desenvolvimento em tempo real em um paciente.



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Uma nova perspectiva sobre o câncer pode facilitar o surgimento de terapias inovadoras


A tradicional separação entre a oncologia e a biologia evolutiva, portanto, deve desaparecer, uma vez que limita nossa compreensão da complexidade dos processos que culminam na manifestação da doença.


Esta nova perspectiva sobre o câncer pode ser útil para o desenvolvimento de soluções terapêuticas inovadoras que limitem os problemas associados às estratégias de tratamento atualmente disponíveis.


Essas terapias de altas doses, que buscam matar o máximo de células malignas, muitas vezes acabam causando a proliferação de células resistentes. Por outro lado, a terapia adaptativa, profundamente enraizada na biologia evolutiva, pode ser uma abordagem alternativa.


Essa estratégia consiste em reduzir a pressão associada às terapias de altas doses com o objetivo de eliminar apenas parte das células cancerosas sensíveis.


Trata-se de manter um nível suficiente de competição entre as células cancerosas sensíveis e as células cancerosas resistentes, a fim de evitar ou limitar a proliferação irrestrita de células resistentes.

Um problema que não se limita ao ser humano


Até recentemente, a oncologia raramente adotava os conceitos da biologia evolutiva para melhorar a compreensão dos processos malignos.


Da mesma forma, ambientalistas e biólogos evolucionistas dificilmente se interessavam pela existência desses fenômenos em suas pesquisas sobre os seres vivos.



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O câncer é um modelo biológico pertinente para estudar a evolução dos seres vivos


Mas as coisas mudam, e o estudo do câncer — ou melhor, dos processos oncogênicos como um todo — na fauna selvagem está despertando um entusiasmo cada vez maior na comunidade de ambientalistas e biólogos evolucionistas.


De fato, hoje, o câncer se mostra claramente como um modelo biológico pertinente para estudar a evolução dos seres vivos, assim como um fenômeno biológico importante para compreender as várias facetas da ecologia das espécies animais e suas consequências no funcionamento dos ecossistemas.


Embora nem sempre evoluam para formas invasivas ou metástases, os processos tumorais são onipresentes nos metazoários e há estudos teóricos que sugerem que, provavelmente, nestes últimos tenham influência em variáveis-chave na ecologia, como os traços da história de vida, as habilidades competitivas, a vulnerabilidade a parasitas e predadores e até mesmo a capacidade de se dispersar.


Esses efeitos são provenientes tanto das consequências patológicas dos tumores quanto dos custos associados ao funcionamento dos mecanismos de defesa dos hospedeiros.


Compreender as consequências ecológicas e evolutivas das interações tumor-hospedeiro também se tornou um tópico de pesquisa de referência na ecologia e na biologia evolutiva nos últimos anos.


Essas questões científicas são ainda mais pertinentes quando praticamente todos os ecossistemas do planeta, especialmente os meios aquáticos, estão contaminados hoje em dia por substâncias de origem antrópica e, muitas vezes, mutagênicas.


Portanto, é essencial melhorar a compreensão das interações tumor-hospedeiro e seus efeitos em cascata dentro das comunidades, a fim de prever e antecipar as consequências das atividades humanas no funcionamento dos ecossistemas e na manutenção da biodiversidade.




* Audrey Arnal é pesquisadora de pós-doutorado, laboratório MIVEGEC (UMR IRD 224-CNRS 5290 -Universidade de Montpellier, França), Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD).


Benjamin Roche é diretor de pesquisa do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD).


Frédéric Thomas é diretor de pesquisa no Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), laboratório MIVEGEC (UMR IRD 224-CNRS 5290-Universidade de Montpellier, França).


Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado aqui sob uma licença Creative Commons.




Autor: Audrey Arnal, Benjamin Roche e Frédéric Thomas
Fonte: The Conversation
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 16/05/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-56688632

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Um ano após tratar câncer, americana é 1ª a cruzar Canal da Mancha a nado 4 vezes sem parar


Direito de imagemJON WASHERImage captionSarah Thomas dedicou a travessia a 'todos os sobreviventes de câncer por aí'

Uma americana se tornou a primeira pessoa a cruzar a nado o Canal da Mancha - trecho de mar entre o Reino Unido e a França - quatro vezes sem parar.

Sarah Thomas, de 37 anos, começou o desafio épico nas primeiras horas do último domingo e terminou 54 horas e 10 minutos depois.

A nadadora de ultramaratonas em águas abertas - que completou um tratamento de câncer de mama há um ano - dedicou a travessia a "todos os sobreviventes (da doença) por aí".

Thomas foi prejudicada pela forte correnteza na etapa final, mas terminou a travessia na terça-feira por volta das 6h30 da manhã (horário local).

Até agora, quatro nadadores tinham cruzado o Canal da Mancha três vezes sem parar. Mas Thomas foi a primeira a completar a quarta volta.



Direito de imagemLORETTA COXImage captionAo concluir trajeto, Sarah Thomas disse estar 'bem cansada' e que passaria o dia dormindo

No ano passado, ela foi submetida a um tratamento para combater um câncer de mama, e a equipe médica disse que "a natação era sua forma de lidar com a doença".

Falando à BBC pouco depois de chegar à praia, ela disse: "Não consigo acreditar que fizemos isso."

"Na verdade, estou um pouco zonza. Havia um monte de gente na praia para em me encontrar e congratular, e foi bom da parte deles, mas estou mesmo é atordoada."

Ela disse que planejava passar o dia dormindo: "Estou bem cansada neste momento."
'Absolutamente inspirador'

Pela previsão inicial, o percurso seria de cerca de 128,7 quilômetros, mas por causa das correntes, Thomas acabou nadando quase 209 quilômetros. A distância mais curta no Canal da Mancha, entre Dover (Inglaterra) e Calais (França) é de 33,3 km em linha reta.

"É uma vitória, ela testou os limites da resistência."

"Foi incrível, absolutamente inspirador. No final, ficamos muito emocionados", conta Kevin Murphy, observador oficial da travessia.

Ao sair da água em Dover, cidade portuária no sudeste da Inglaterra, Thomas comemorou sua entrada para o livro dos recordes com champanhe e chocolate.




Image captionThomas nadou sem parar por 54 horas e 10 minutos

Ela completou sua primeira travessia em águas abertas em 2007, cruzou o Canal da Mancha pela primeira vez em 2012 e, novamente, em 2016.

No sábado à noite, na véspera da travessia, Thomas admitiu em uma postagem no Facebook que estava "assustada" com o desafio.

"Estou esperando essa travessia há mais de dois anos e lutei muito para chegar aqui", acrescentou.

"Estou 100%? Não. Mas sou o melhor que posso ser agora, depois de tudo o que passei, com mais explosão e garra do que nunca."



Autor: BBC News Brasil
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 17/09/2019
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-49725531

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Câncer e Homens

"Tanto meu pai quanto meu avô morreram de câncer de cólon - isso é o que me motiva a ser examinada", diz David.

“Meu pai não foi examinado. Na verdade, não foi até que ele teve alguns sintomas que ele foi ao médico e eles encontraram o câncer. Infelizmente, nesse ponto, já havia se espalhado.

"Comecei a ser exibido ao redor quando fiz 50 anos, e desde então eu os tenho regularmente", diz ele. “A preparação é desagradável, mas o procedimento em si não é nada.

"Se eles podem pegar [câncer] cedo, antes que se torne um problema, por que não ser rastreado?"

Dicas para diminuir sua chance de ter câncer
Você pode fazer várias coisas para diminuir as chances de ter câncer. Alguns dos mais importantes são:

Ficar longe do tabaco. Se você fuma, tente sair, ícone externo e ficar longe da fumaça de outras pessoas.
Manter-se atualizado sobre testes de rastreamento para câncer colorretal e de pulmão.
Limitando a quantidade de álcool que você bebe.
Protegendo sua pele do sol.
Chegar e manter um peso saudável e permanecer fisicamente ativo.
Fatos rápidos sobre câncer e homens
Os tipos mais comuns de câncer entre os homens nos EUA são câncer de pele, câncer de próstata, câncer de pulmão e câncer colorretal.
A maioria dos cânceres de próstata cresce lentamente e não causa nenhum problema de saúde nos homens que os têm. O tratamento pode causar efeitos colaterais graves. Converse com seu médico antes de decidir fazer o teste ou tratar de câncer de próstata.
Uma vacina contra papilomavírus humano (HPV) é recomendada rotineiramente para meninos com 11 ou 12 anos de idade para prevenir câncer anal e verrugas genitais. A vacina também é recomendada para todos os meninos e homens adolescentes até os 21 anos, qualquer homem que faça sexo com homens até os 26 anos e homens com sistema imunológico comprometido (inclusive o HIV) até os 26 anos, se não receberem todas as doses da vacina. quando eles eram mais jovens.





Autor: CDC GOV
Fonte: CDC GOV
Sítio Online da Publicação: CDC GOV
Data: 13/06/2019
Publicação Original: https://www.cdc.gov/cancer/dcpc/resources/features/cancerandmen/

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Relatório Anual à Nação: A mortalidade geral por câncer continua a diminuir  

Resultado de imagem para câncer

O último Relatório Anual da Nação sobre o Status do Câncer revela que, para todos os locais de câncer combinados, as taxas de mortalidade por câncer continuaram diminuindo em homens, mulheres e crianças nos Estados Unidos de 1999 a 2016. Taxas de incidência global de câncer de novos cânceres, diminuiu em homens de 2008 a 2015, depois de aumentar de 1999 a 2008, e foi estável em mulheres de 1999 a 2015. Em uma seção especial do relatório, os pesquisadores analisaram as taxas e tendências de câncer em adultos de 20 a 49 anos .


O relatório anual é um esforço de colaboração entre o National Cancer Institute (NCI), parte dos Institutos Nacionais de Saúde; os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC); a American Cancer Society (ACS); e a Associação Norte-Americana de Registros Centrais de Câncer (NAACCR). O relatório apareceu no Jornal do Instituto Nacional do Câncer em 30 de maio de 2019.


"Estamos encorajados pelo fato de que o relatório deste ano continua a mostrar o declínio da mortalidade por câncer para homens, mulheres e crianças, bem como outros indicadores de progresso", disse Betsy A. Kohler, diretor executivo da NAACCR. “Há também várias descobertas que destacam a importância da pesquisa contínua e dos esforços de prevenção do câncer.”


A seção especial mostra um quadro diferente para a incidência de câncer e mortalidade entre homens e mulheres com idades entre 20 e 49 anos do que entre pessoas de todas as idades. No relatório principal, de 2011 a 2015, a taxa de incidência média anual para todos os locais de câncer combinados foi cerca de 1,2 vezes maior entre homens do que entre mulheres e de 2012 a 2016, a taxa de mortalidade anual média entre homens foi de 1,4 vezes a taxa entre as mulheres. No entanto, quando os pesquisadores analisaram apenas homens e mulheres de 20 a 49 anos, eles descobriram que tanto a incidência quanto as taxas de mortalidade eram maiores entre as mulheres.



Os autores relataram que, na faixa etária de 20 a 49 anos de 2011 a 2015, a taxa de incidência média anual para todos os cânceres invasivos foi de 115,3 (por 100.000 pessoas) entre homens, comparada a 203,3 entre mulheres, com taxas de incidência de câncer diminuindo em média. 0,7% ao ano entre os homens e aumentando em média 1,3% ao ano entre as mulheres. Durante o período de 2012 a 2016, a taxa anual média de morte por câncer foi de 22,8 (por 100.000 pessoas) entre os homens e 27,1 entre as mulheres nessa faixa etária.


Os cânceres mais comuns e suas taxas de incidência entre mulheres de 20 a 49 anos foram mama (73,2 por 100.000 pessoas), tireóide (28,4) e melanoma da pele (14,1), com incidência de câncer de mama muito superior à incidência de qualquer outro câncer. Os cânceres mais comuns entre homens de 20 a 49 anos foram cólon e reto (13,1), testículos (10,7) e melanoma da pele (9,8).



"A maior carga de câncer entre as mulheres do que homens com idades entre 20 e 49 anos foi um achado surpreendente deste estudo", disse Elizabeth Ward, Ph.D., principal autora do estudo e consultora da NAACCR. "A alta carga de câncer de mama em relação a outros tipos de câncer nesta faixa etária reforça a importância da pesquisa sobre prevenção, detecção precoce e tratamento do câncer de mama em mulheres mais jovens".


Ao estudar essa faixa etária, os autores também descobriram que, de 2012 a 2016, as taxas de mortalidade caíram 2,3% ao ano entre os homens e 1,7% ao ano entre as mulheres.


"É importante reconhecer que as taxas de mortalidade por câncer estão diminuindo na faixa etária de 20 a 49 anos, e que as taxas de declínio entre as mulheres nessa faixa etária são mais rápidas do que nas mulheres mais velhas", disse Douglas R. Lowy, MD, diretor em exercício do NCI.


Os autores também relataram na seção especial que as taxas de incidência de câncer de mama in situ e tumores não malignos do sistema nervoso central entre mulheres e homens com idades entre 20 e 49 anos são substanciais. Eles escreveram que alguns dos tumores malignos e não malignos mais frequentes que ocorrem nessa faixa etária podem estar associados a efeitos consideráveis ​​em longo prazo e tardios relacionados à doença ou ao seu tratamento. Os autores concluem que o acesso ao tratamento oportuno e de alta qualidade e cuidados de sobrevivência é importante para melhorar os resultados de saúde e qualidade de vida para os adultos mais jovens diagnosticados com câncer.


O relatório deste ano descobriu que, entre todas as idades combinadas, as tendências existentes de incidência e mortalidade para a maioria dos tipos de câncer continuam. As taxas de novos casos e mortes por câncer de pulmão, bexiga e laringe continuam a diminuir como resultado do declínio de longo prazo no tabagismo. Em contraste, as taxas de novos casos de câncer relacionados ao excesso de peso e inatividade física - incluindo mama uterina, pós-menopausa e colorretal (somente em adultos jovens) - vêm aumentando nas últimas décadas.


Várias mudanças notáveis ​​nas tendências foram observadas no relatório. Após décadas de incidência crescente, as taxas de incidência de câncer de tireóide nas mulheres estabilizaram de 2013 a 2015. Os autores escreveram que isso pode ser devido a mudanças nos processos de diagnóstico relacionados a revisões nas diretrizes de manejo da American Thyroid Association para pequenos nódulos de tireoide.


O relatório também mostra um rápido declínio nas taxas de mortalidade por melanoma da pele nos últimos anos.




Autor: CDC investigation
Fonte: CDC investigation
Sítio Online da Publicação: CDC investigation
Data: 30/05/2019
Publicação Original: https://www.cdc.gov/media/releases/2019/p0530-annual-report-cancer-mortality.html

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Seu paciente com câncer pode fazer reabilitação cardíaca?

reabilitação cardíaca

Há um mês a American Heart Association publicou um documento que explanava sobre o racional e as especificações para reabilitação cardíaca em pacientes com câncer. Ele se torna importante no momento em que há 16,7 milhões de sobreviventes da doença nos EUA atualmente.

Esses pacientes têm um risco de 1,3-3,6 vezes de morte cardiovascular e de 1,7-18,5 vezes de ter um fator de risco cardiovascular como hipertensão arterial, diabetes ou dislipidemia. Este documento inclui recomendações do prévio guideline da American Society of Clinical Oncology (ACO) para seleção de pacientes com câncer que teriam maior predisposição à disfunção cardíaca:
Alta dose de antraciclina (doxorrubicina > 250 mg/m2, epirrubicina > 600 mg/m2 ) ou alta dose de radioterapia > 30Gy ou doses mais baixas de antraciclina combinadas com doses mais baixas de radioterapia
Baixa dose de antraciclina ou trastuzumab sozinhos mais ao menos dois fatores de risco (tabagismo, hipertensão, diabetes, obesidade, dislipidemia) ou idade de 60 anos ao diagnóstico ou função cardíaca comprometida (história de infarto agudo do miocárdio, fração de ejeção reduzida, valvopatia moderada)
Baixa dose de antraciclina seguida por trastuzumab

A reabilitação cardíaca (CR) foi definida como prover serviços de longo prazo envolvendo avaliação médica, prescrição de exercícios, modificação dos fatores de risco cardiovasculares, e educação, aconselhamento, e mudanças de comportamento.


Metanálises demonstraram que a CR reduz a mortalidade cardiovascular (CV) e internações hospitalares e melhora a qualidade de vida dos pacientes com doença arterial coronariana. A referência para CR é uma recomendação classe 1 da American Heart Association (AHA)/American College of Cardiology (ACC) Foundation em seu guideline para pacientes com síndromes coronarianas agudas. A CR é pensada para o paciente com câncer porque:
Oferece exercício com o objetivo de melhora a longo prazo de desfechos CV
Oferece a oportunidade de medir e subsequentemente reduzir os fatores de risco CV
Fornece uma abordagem individualizada para o exercício e terapia medicamentosa que permite ajustes críticos
Fornece vigilância para comunicar aos assistentes mudanças nos sinais vitais, sintomas e intolerância ao exercício
Algoritmo para referência à CR

Neste algoritmo notamos que pacientes com deficiências físicas ou de fala serão encaminhados à fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia e à reabilitação oncológica. Pacientes com sintomas cardíacos ou com histórico de infarto do miocárdio, revascularização ou valvopatia, passarão por uma consulta com cardiologista e por um teste cardiopulmonar antes de serem indicados à CR.

Pacientes assintomáticos, mas que tomaram baixas doses de antraciclina seguidos de trastuzumab passarão por teste cardiopulmonar, podendo ser encaminhados para CR ou para programas comunitários para pacientes com câncer (destino também dos assintomáticos que não passaram por quimioterapia nem por radioterapia). Antes, no entanto, de se encaminhar o paciente para a CR existe um checklist a ser observado como medida de segurança.




Autor: Alexandre Marins Rocha
Fonte: PebMed
Sítio Online da Publicação: PebMed
Data: 21/05/2019
Publicação Original: https://pebmed.com.br/seu-paciente-com-cancer-pode-fazer-reabilitacao-cardiaca/

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Câncer: pesquisa analisa a influência da poluição na internação pela doença

A poluição relacionada ao tráfego é um grande problema nos centros urbanos, e uma grande parcela da população fica vulnerável aos seus efeitos à saúde. Um artigo publicado no Cadernos de Saúde Pública identificou potencial associação entre as internações hospitalares por câncer do aparelho respiratório com a densidade de tráfego veicular no município São Paulo. A pertinência do tema decorre neste Dia Mundial de Combate ao Câncer.

De acordo com a pesquisa na qual se baseou o artigo Influência da densidade de tráfego veicular na internação por câncer do aparelho respiratório no Município de São Paulo, Brasil, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (International Agency for Research on Cancer - IARC), que está vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS), concluiu que a exposição à poluição do ar e ao material particulado presentes no ambiente externo é carcinogênica para humanos, reclassificando-a do Grupo 2 para o Grupo 1.

Para os autores do artigo, Adeylson Guimarães Ribeiro, Oswaldo Santos Baquero, Samuel Luna de Almeida, Clarice Umbelino de Freitas, Maria Regina Alves Cardoso e Adelaide Cassia Nardocci, da Universidade de São Paulo, é evidente que o risco relativo da poluição do ar para a ocorrência do câncer de pulmão é muito menor quando comparado com o risco entre os fumantes ativos, contudo, a poluição do ar afeta toda a população.

Segundo o artigo, alguns trabalhos têm mostrado o impacto da poluição atmosférica para a saúde da população no município de São Paulo, Brasil, mas há carência de estudos nacionais e internacionais que busquem investigar a associação entre a poluição do ar e o câncer do aparelho respiratório, utilizando dados de internação hospitalar.

Neste estudo ecológico relatado no artigo do Cadernos de Saúde Pública foram considerados os dados de internações hospitalares por câncer do aparelho respiratório oriundos dos sistemas público (Autorização de Internação Hospitalar - AIH) e particular (Comunicação de Internação Hospitalar - CIH), obtidos junto à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Compreende os anos de 2004 a 2006, em razão de ser o único período em que se teve acesso aos dados do sistema privado. Foi utilizada no estudo somente a primeira internação de cada indivíduo residente com idade acima de 20 anos, codificada conforme a 10ª revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-10): C32 - neoplasia maligna da laringe, C33 - neoplasia maligna da traqueia, C34 - neoplasia maligna dos brônquios e dos pulmões.

Para efeito de informação do espaço de pesquisa, o município de São Paulo ocupa uma área de 1.521,110km2 e tem uma população estimada em torno de 12 milhões de habitantes, sendo sua densidade demográfica em 2010 de 7.398,26 habitantes/km2. É a capital do Estado de São Paulo, considerado o principal polo industrial nacional, e apresentou um Produto Interno Bruto (PIB) per capita em 2014 em torno de 52 mil Reais Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de 2017. Conta com uma frota de cerca de 8,4 milhões de veículos que circulam diariamente nos seus 18 mil quilômetros de vias, segundo dados do Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo de 2017. A distribuição das vias e do volume de tráfego é variada, apresentando grande adensamento de ambos na região central da cidade, além de extensos corredores e rodovias que cruzam a área urbana do município.
 
Sobre o Dia Mundial do Câncer
 
De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Dia Mundial do Câncer foi criado em 2005 pela União Internacional para o Controle do Câncer (UICC), com o apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS), e acontece todo ano, em 4 de fevereiro. Trata-se de campanha de utilidade pública a qual visa tentar evitar milhões de mortes a cada ano por meio do aumento da consciência e educação sobre doença, além da pressão sobre governos e indivíduos em todo o mundo para que se mobilizem pelo controle do câncer.

O Inca informa 11 dicas para prevenir o câncer:
 
Não fume
 
Essa é a regra mais importante para prevenir o câncer, principalmente os de pulmão, cavidade oral, laringe, faringe e esôfago. Parar de fumar e de poluir o ambiente é fundamental para a prevenção do câncer.
 
Alimentação saudável protege contra o câncer
 
Uma ingestão rica em alimentos de origem vegetal como frutas, legumes, verduras, cereais integrais, feijões e outras leguminosas, pode prevenir o câncer.

Mantenha o peso corporal adequado
 
Estar acima do peso aumenta as chances de desenvolver câncer. Por isso, é importante controlar o peso por meio de uma boa alimentação e realizar atividade física. Cerca de um terço de todos os casos de câncer podem ser evitados com esta atitude.

Pratique atividades físicas
 
Caminhar, dançar, trocar o elevador pelas escadas, levar o cachorro para passear, cuidar da casa ou do jardim ou buscar modalidades como a corrida de rua, ginástica, musculação, entre outras. Experimente, ache aquela modalidade que você goste!

Amamente

O aleitamento materno é a primeira ação de alimentação saudável. A amamentação até os dois anos ou mais, sendo exclusiva até os seis meses de vida da criança, protege as mães contra o câncer de mama e as crianças contra a obesidade infantil.
 
Mulheres entre 25 e 64 anos devem fazer o exame preventivo do câncer do colo do útero a cada três anos 
 
As alterações das células do colo do útero são descobertas facilmente no exame preventivo (conhecido também como Papanicolaou), e são curáveis na quase totalidade dos casos. Por isso, é importante a realização periódica deste exame.

Vacine contra o HPV as meninas de 9 a 14 anos e os meninos de 11 a 14 anos
 
A vacinação contra o HPV, disponível no SUS, e o exame preventivo (Papanicolaou) se complementam como ações de prevenção do câncer do colo do útero. Mesmo as mulheres vacinadas, quando chegarem aos 25 anos, deverão fazer um exame preventivo a cada três anos, pois a vacina não protege contra todos os subtipos do HPV.
 
Vacine contra a hepatite B
 
O câncer de fígado está relacionado à infecção pelo vírus causador da hepatite B e a vacina é um importante meio de prevenção deste câncer. O Ministério da Saúde disponibiliza nos postos de saúde do País a vacina contra esse vírus para pessoas de todas as idades.
 
Evite a ingestão de bebidas alcoólicas
 
Seu consumo, em qualquer quantidade, contribui para o risco de desenvolver câncer. Além disso, combinar bebidas alcoólicas com o tabaco aumenta a possibilidade do surgimento da doença.

Evite comer carne processada
 
Carnes processadas como presunto, salsicha, linguiça, bacon, salame, mortadela, peito de peru e blanquet de peru podem aumentar a chance de desenvolver câncer. Os conservantes (como os nitritos e nitratos) podem provocar o surgimento de câncer de intestino (cólon e reto) e o sal provocar o de estômago.

Evite a exposição ao sol entre 10h e 16h
 
Use sempre proteção adequada, como chapéu, barraca e protetor solar, inclusive nos lábios. Se for inevitável, use chapéu de aba larga, camisa de manga longa e calça comprida.




Autor: Ensp/Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 05/02/2019
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/cancer-pesquisa-analisa-influencia-da-poluicao-na-internacao-pela-doenca