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quarta-feira, 25 de março de 2020

O crescimento da pandemia de coronavírus e a redução da poluição ambiental, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Só tenho para oferecer sangue, suor e lágrimas”
Winston Churchill (às vésperas da entrada na segunda guerra mundial)

A epidemia de coronavírus assustou a China nos meses de janeiro e início de fevereiro de 2020 e provocou a paralisação das atividades econômicas do gigante asiático. O resto do mundo olhou com curiosidade e certa angústia, mas não imaginou a possibilidade de um surto global. O índice Dow Jones da Bolsa de Nova Iorque que iniciou o ano pouco acima de 28 mil pontos se manteve acima de 29 mil pontos até o dia 21 de fevereiro, refletindo uma tranquilidade do mercado financeiro americano e global diante do que acontecia no leste asiático.

Mas tudo começou a mudar rapidamente na última semana de fevereiro, quando o mundo percebeu que havia algo de novo e assustador no ar. O índice Dow Jones caiu para cerca de 19 mil pontos no dia 20 de março de 2020, um crash de estonteantes 35%. Trilhões de dólares desapareceram da economia internacional em menos de um mês. A Organização Mundial de Saúde (OMS) demorou a dizer que se tratava de uma pandemia e assumiu a gravidade da situação no dia 11 de março de 2020.

No dia 29 de fevereiro, a Covid-19 já estava presente em cerca de 80 países, atingindo 86,6 mil pessoas e provocando 2,98 mil mortes globalmente. Mas 92,2% dos casos e 96,4% dos óbitos estavam na China. A tabela abaixo mostra os 8 países com maior número de casos, mais a situação do Brasil e o total mundial. Nota-se que em 29 de fevereiro, a Coreia do Sul estava em segundo lugar em número de pessoas infectadas (3.150 casos), a Itália em terceiro lugar (1.128 casos) e o Irã em quarto lugar (593 casos). Alemanha, Espanha, Estados Unidos e França tinham 100 casos ou menos e o Brasil somente 2 casos. Os 8 países concentravam 98,1% dos casos e 99,5% das mortes. Retirando a China, os outros 7 países tinham 6% dos casos e somente 3,1% dos óbitos.



Mas o quadro mudou completamente ao longo do mês de março. O crescimento dos casos na China foi muito pequeno, passando para 81,1 mil casos, com um crescimento de apenas 0,1% ao dia, entre 29/02 e 22/03. O número de mortes na China passou para 3,3 mil, com um crescimento diário de 0,6% ao dia, no mesmo período. Portanto, a China que tinha 92,1% dos casos da doença e 96,4% das mortes em 29/02, diminuiu para 24,2% e 22,3% do total, respectivamente, em 22/03/2020. A taxa de letalidade (número de mortes em relação ao número de casos) na China foi de 4% no dia 22 de março.

Ao contrário, os outros 7 países com maior número de casos e de mortes, depois da China, aumentaram sua participação relativa. Eles passaram de 6% para 57,1% dos casos e 3,1% para 69,8% das mortes durante os primeiros 22 dias de março. A Itália, o segundo país com maior impacto do surto, passou de 1,1 mil casos para 59,1 mil casos (um aumento exponencial de 19,7% ao dia) e 29 mortes para 5,5 mil mortes (um aumento exponencial de 26,9% ao dia), entre 29/02 e 22/03. A taxa de letalidade, em 22/03, foi de 9,3 mortes para cada caso confirmado, a maior entre todos os países.

Os Estados Unidos, que tinham somente 68 casos no final de fevereiro, assumiram o terceiro lugar no ranking mundial, com 32,4 mil casos em 22/03, um crescimento de impressionantes 32,3% ao dia. O número de mortes também foi significativo, passando de 1 morte para 414 mortes no período, um crescimento de 31,5% ao dia e uma taxa de letalidade de 1,3 mortes para cada caso confirmado.

Alemanha (com a menor taxa de letalidade), Espanha, e França possuem evolução aproximadamente semelhante do número de casos, mas a Espanha apresentou muito mais mortes e uma taxa de letalidade de 6,1. Já o Irã que ocupava o terceiro lugar no ranking global até semana passada, caiu para o 6º lugar e depois da Itália é o país com maior taxa de letalidade, isto é, 7,8 óbitos para cada caso registrado. Já a Coreia do Sul é um caso de sucesso pois caiu do segundo lugar no ranking para o oitavo lugar e o crescimento dos casos em março foi de “apenas” 4,8% ao dia e a taxa de letalidade de somente 1,2 óbitos para cada caso.

No mundo, o número de casos passou de 86,6 mil em 29/02 para 335,2 mil até o final da tarde do dia 22/03/2020, um crescimento de 6,3% ao dia. E o número de mortes passou de 2.977 para 14,6 mil óbitos no mesmo período, com crescimento de 7,5% ao dia e uma taxa de letalidade de 4,4 mortes para cada caso confirmado.

O Brasil apresenta uma tendência de aumento preocupante do surto de coronavírus, pois havia apenas dois casos confirmados no final de fevereiro e passou para 1.546 casos em 22/03, um aumento de 35,3% ao dia – o maior crescimento entre os 8 países apresentados na tabela. Mesmo com a quarentena do fim de semana (21 e 22 de março) o número de casos quase que dobrou em relação à sexta-feira. O número de mortes era zero no final de fevereiro, apresentou o primeiro caso no dia 17 de março e atingiu 25 casos em 22/03. Considerando o período de 17/03 a 22/03 a variação diária no número de óbitos foi de 90%. Portanto, a taxa de letalidade brasileira que está em 1,6, deve subir muito nos próximos dias.

O restante do mês de março vai ser um período de subida da curva exponencial, pois a pandemia já está se espalhando em cerca de 200 países e territórios. O impacto na saúde pública vai ser enorme, assim como o impacto econômico vai ser terrível. A situação é parecida com aquela às vésperas da entrada na segunda guerra mundial, quando Winston Churchill disse: “Só tenho para oferecer sangue, suor e lágrimas”.

Mas enquanto a pandemia de Covid-19 joga a economia para baixo, ao mesmo tempo, joga a saúde do meio ambiente para cima. A pandemia de coronavírus veio revelar uma verdade que algumas pessoas insistiam em negar que é um impacto do crescimento econômico sobre a degradação ambiental. Na China, a epidemia de coronavírus diminuiu a produção industrial, provocou feriados prolongados e a introdução de restrições de viagens, que resultam em menores emissões de CO2. Houve uma redução geral da queima de combustíveis fósseis e o preço do barril do petróleo (WTI a menos de US$ 20) caiu para o patamar do final do século passado. As emissões da China diminuíram em um quarto ou 100 milhões de toneladas, refletindo nas imagens abaixo captadas pela Nasa.



Assim, a piora dos indicadores econômicos tem sido acompanhada por um melhora nos indicadores ambientais. Em todos os lugares, quer seja a limpeza das águas dos canais de Veneza ou a redução da poluição do ar nas grandes cidades da Ásia, a natureza agradece a trégua e a quarentena humana. A NOAA da Nasa já indica que o ritmo de crescimento da concentração de CO2 na atmosfera desacelerou. Globalmente, a Covid-19 está provocando a redução das atividades antrópicas – fechando fábricas, paralisando os transportes, cortando significativamente o número de voos, etc. – resultando em uma recessão econômica que deve produzir uma diminuição nas emissões de carbono em 580 milhões de toneladas de carbono em 2020, como mostra o gráfico abaixo.



Como afirmei em entrevista ao Correio da Cidadania (21/03/2020), a crise é tão grave que pode repetir “na pior das hipóteses, uma depressão econômica do nível da crise de 1929 e um número de mortes do nível do que ocorreu na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O certo é que os infortúnios serão severos e prolongados e os cenários podem ser bastante catastróficos. O desarranjo econômico, social e psicológico poderá ser maior do que os efeitos diretos da Covid-19 nos próximos meses, transformando 2020 em um ano ímpar”.

Quando tudo isto passar, a humanidade vai ter a oportunidade de refletir sobre o fato de que é impossível manter o modelo insustentável de produção e consumo. Perceberá que precisa reduzir a pegada ecológica global e tratar a natureza como uma aliada e não como inimiga. O ser humano precisa acordar para o fato de que sem tratar bem a ECOlogia não há como sustentar a ECOnomia. E que manter o crime do Ecocídio é o mesmo que optar pelo suicídio.

José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382



Referências:

ALVES, JED. A pandemia de Coronavírus e o pandemônio na economia internacional, Ecodebate, 09/03/2020

https://www.ecodebate.com.br/2020/03/09/a-pandemia-de-coronavirus-covid-19-e-o-pandemonio-na-economia-internacional-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. “A recessão em 2020 é inexorável e a palavra-chave para as pessoas é sobrevivência”, Correio da Cidadania, 21/03/2020

https://www.correiocidadania.com.br/34-artigos/manchete/14095-a-recessao-em-2020-e-inexoravel-e-a-palavra-chave-para-as-pessoas-e-sobrevivencia



in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 24/03/2020







Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 24/03/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/03/24/o-crescimento-da-pandemia-de-coronavirus-e-a-reducao-da-poluicao-ambiental-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Câncer: pesquisa analisa a influência da poluição na internação pela doença

A poluição relacionada ao tráfego é um grande problema nos centros urbanos, e uma grande parcela da população fica vulnerável aos seus efeitos à saúde. Um artigo publicado no Cadernos de Saúde Pública identificou potencial associação entre as internações hospitalares por câncer do aparelho respiratório com a densidade de tráfego veicular no município São Paulo. A pertinência do tema decorre neste Dia Mundial de Combate ao Câncer.

De acordo com a pesquisa na qual se baseou o artigo Influência da densidade de tráfego veicular na internação por câncer do aparelho respiratório no Município de São Paulo, Brasil, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (International Agency for Research on Cancer - IARC), que está vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS), concluiu que a exposição à poluição do ar e ao material particulado presentes no ambiente externo é carcinogênica para humanos, reclassificando-a do Grupo 2 para o Grupo 1.

Para os autores do artigo, Adeylson Guimarães Ribeiro, Oswaldo Santos Baquero, Samuel Luna de Almeida, Clarice Umbelino de Freitas, Maria Regina Alves Cardoso e Adelaide Cassia Nardocci, da Universidade de São Paulo, é evidente que o risco relativo da poluição do ar para a ocorrência do câncer de pulmão é muito menor quando comparado com o risco entre os fumantes ativos, contudo, a poluição do ar afeta toda a população.

Segundo o artigo, alguns trabalhos têm mostrado o impacto da poluição atmosférica para a saúde da população no município de São Paulo, Brasil, mas há carência de estudos nacionais e internacionais que busquem investigar a associação entre a poluição do ar e o câncer do aparelho respiratório, utilizando dados de internação hospitalar.

Neste estudo ecológico relatado no artigo do Cadernos de Saúde Pública foram considerados os dados de internações hospitalares por câncer do aparelho respiratório oriundos dos sistemas público (Autorização de Internação Hospitalar - AIH) e particular (Comunicação de Internação Hospitalar - CIH), obtidos junto à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Compreende os anos de 2004 a 2006, em razão de ser o único período em que se teve acesso aos dados do sistema privado. Foi utilizada no estudo somente a primeira internação de cada indivíduo residente com idade acima de 20 anos, codificada conforme a 10ª revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-10): C32 - neoplasia maligna da laringe, C33 - neoplasia maligna da traqueia, C34 - neoplasia maligna dos brônquios e dos pulmões.

Para efeito de informação do espaço de pesquisa, o município de São Paulo ocupa uma área de 1.521,110km2 e tem uma população estimada em torno de 12 milhões de habitantes, sendo sua densidade demográfica em 2010 de 7.398,26 habitantes/km2. É a capital do Estado de São Paulo, considerado o principal polo industrial nacional, e apresentou um Produto Interno Bruto (PIB) per capita em 2014 em torno de 52 mil Reais Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de 2017. Conta com uma frota de cerca de 8,4 milhões de veículos que circulam diariamente nos seus 18 mil quilômetros de vias, segundo dados do Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo de 2017. A distribuição das vias e do volume de tráfego é variada, apresentando grande adensamento de ambos na região central da cidade, além de extensos corredores e rodovias que cruzam a área urbana do município.
 
Sobre o Dia Mundial do Câncer
 
De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Dia Mundial do Câncer foi criado em 2005 pela União Internacional para o Controle do Câncer (UICC), com o apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS), e acontece todo ano, em 4 de fevereiro. Trata-se de campanha de utilidade pública a qual visa tentar evitar milhões de mortes a cada ano por meio do aumento da consciência e educação sobre doença, além da pressão sobre governos e indivíduos em todo o mundo para que se mobilizem pelo controle do câncer.

O Inca informa 11 dicas para prevenir o câncer:
 
Não fume
 
Essa é a regra mais importante para prevenir o câncer, principalmente os de pulmão, cavidade oral, laringe, faringe e esôfago. Parar de fumar e de poluir o ambiente é fundamental para a prevenção do câncer.
 
Alimentação saudável protege contra o câncer
 
Uma ingestão rica em alimentos de origem vegetal como frutas, legumes, verduras, cereais integrais, feijões e outras leguminosas, pode prevenir o câncer.

Mantenha o peso corporal adequado
 
Estar acima do peso aumenta as chances de desenvolver câncer. Por isso, é importante controlar o peso por meio de uma boa alimentação e realizar atividade física. Cerca de um terço de todos os casos de câncer podem ser evitados com esta atitude.

Pratique atividades físicas
 
Caminhar, dançar, trocar o elevador pelas escadas, levar o cachorro para passear, cuidar da casa ou do jardim ou buscar modalidades como a corrida de rua, ginástica, musculação, entre outras. Experimente, ache aquela modalidade que você goste!

Amamente

O aleitamento materno é a primeira ação de alimentação saudável. A amamentação até os dois anos ou mais, sendo exclusiva até os seis meses de vida da criança, protege as mães contra o câncer de mama e as crianças contra a obesidade infantil.
 
Mulheres entre 25 e 64 anos devem fazer o exame preventivo do câncer do colo do útero a cada três anos 
 
As alterações das células do colo do útero são descobertas facilmente no exame preventivo (conhecido também como Papanicolaou), e são curáveis na quase totalidade dos casos. Por isso, é importante a realização periódica deste exame.

Vacine contra o HPV as meninas de 9 a 14 anos e os meninos de 11 a 14 anos
 
A vacinação contra o HPV, disponível no SUS, e o exame preventivo (Papanicolaou) se complementam como ações de prevenção do câncer do colo do útero. Mesmo as mulheres vacinadas, quando chegarem aos 25 anos, deverão fazer um exame preventivo a cada três anos, pois a vacina não protege contra todos os subtipos do HPV.
 
Vacine contra a hepatite B
 
O câncer de fígado está relacionado à infecção pelo vírus causador da hepatite B e a vacina é um importante meio de prevenção deste câncer. O Ministério da Saúde disponibiliza nos postos de saúde do País a vacina contra esse vírus para pessoas de todas as idades.
 
Evite a ingestão de bebidas alcoólicas
 
Seu consumo, em qualquer quantidade, contribui para o risco de desenvolver câncer. Além disso, combinar bebidas alcoólicas com o tabaco aumenta a possibilidade do surgimento da doença.

Evite comer carne processada
 
Carnes processadas como presunto, salsicha, linguiça, bacon, salame, mortadela, peito de peru e blanquet de peru podem aumentar a chance de desenvolver câncer. Os conservantes (como os nitritos e nitratos) podem provocar o surgimento de câncer de intestino (cólon e reto) e o sal provocar o de estômago.

Evite a exposição ao sol entre 10h e 16h
 
Use sempre proteção adequada, como chapéu, barraca e protetor solar, inclusive nos lábios. Se for inevitável, use chapéu de aba larga, camisa de manga longa e calça comprida.




Autor: Ensp/Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 05/02/2019
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/cancer-pesquisa-analisa-influencia-da-poluicao-na-internacao-pela-doenca

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Controle e redução da poluição ambiental, artigo de Roberto Naime

A poluição pode ser entendida como qualquer alteração em um meio, de modo a tornar o ambiente deletério ou prejudicial ao ser humano ou a qualquer forma de vida que este ambiente normalmente abriga, ou que prejudique uma funcionalidade de vida.

Qualquer mudança em um ambiente, resultante da introdução de poluentes na forma de matéria ou energia, pode ser entendida como poluição.

Geralmente, associa-se a poluição aos malefícios que possam ser causados ao homem. No entanto, ela pode resultar em danos a fauna e a flora, e até mesmo ao meio físico natural.

Meio ambiente é o conjunto de relações entre os meios físico, biológico e antrópico. Podemos dizer que meio ambiente é como a confiança ou o casamento. A confiança é uma relação de integridade entre 2 pessoas. E o casamento também. É intangível, não dá pra gente tocar e pegar.

O meio ambiente é assim. É intangível. Não dá pra gente tocar e pegar. Tocar numa pedra, na água ou no solo é tocar num elemento ambiental do meio físico. Tocar uma planta, um animal, é tocar num elemento do meio biológico. Tocar numa plantação, num produto industrializado ou num depósito de resíduos sólidos é tocar num elemento do meio antrópico ou sócio econômico.

Os principais constituintes do meio físico são as rochas, solos, águas superficiais e subterrâneas, geomorfologia e climas. No meio biológico, os constituintes são a flora e a fauna. E no meio antrópico ou sócio econômico são todas as atividades do homem, nos setores primário, secundário, terciário e até quaternário, conforme os autores mais modernos.

Mas afinal o que são as relações? Quando alguém preserva um bioma, protegendo, evitando incêndios, impedindo caça e pesca predatórias, está construindo um tipo de relação com o bioma. Quando alguém vai lá e incendeia um pedaço de cerrado está estabelecendo uma outra relação entre o homem e o bioma.

As atividades humanas têm resultado na produção de resíduos, na forma de energia ou de matérias sólidas, líquidas ou gasosas, os quais são lançados no ambiente, causando a poluição.

Várias formas de poluição têm sido constatadas e, em função dos tipos de resíduos ou do ambiente onde os mesmos são lançados, podem ser classificadas como poluição do solo, do ar, da água, acústica, radioativa, dos pesticidas, térmica, entre outras modalidades.

Nos solos, o lançamento de produtos químicos ou de resíduos no solo pode resultar na sua poluição. Como aplicação de defensivos agrícolas ou de fertilizantes, destinação inadequada de resíduos sólidos, lançamento de esgotos domésticos ou industriais; e até dejetos de animais.

Os defensivos agrícolas são usados no combate a animais nocivos como insetos e roedores, ou a ervas daninhas e podem alcançar o solo, permanecendo por muito tempo, como ocorre com os inseticidas clorados orgânicos, em geral apresentando alta persistência. A partir do solo, esses produtos químicos são carreados para as águas superficiais ou subterrâneas, com riscos para o homem e outros animais.

São exemplos de inseticidas clorados o DDT, o Aldrin, o Dieldrin, o Clordane e o Heptacloro, os quais podem levar vários anos para desaparecer do solo, após a sua aplicação.

Os fertilizantes que são usados para melhorar a produtividade agrícola do solo podem, quando em teores elevados, tornam-se prejudiciais principalmente quando alcançam as coleções superficiais ou subterrâneas de água. A disposição incorreta dos resíduos sólidos no solo resulta em vários problemas ambientais.

O lançamento de esgotos domésticos ou industriais no solo, através de práticas inadequadas ou mesmo por meio de sistemas de tratamento tipo lagoas de estabilização ou de outras técnicas de aplicação de resíduos líquidos no solo, pode resultar no carreamento de impurezas para águas superficiais ou subterrâneas, causando poluição.

Além disso, um solo com microrganismos oriundos de dejetos pode, através do contato com a pele humana, transmitir algumas doenças, principalmente as verminoses como ancilostomíase.

Entre as medidas de controle da poluição e de suas consequências, destacam-se práticas adequadas de destinação dos resíduos sólidos, evitando os depósitos de lixo a céu aberto, afastamento adequado entre os aterros sanitários e os recursos hídricos, para evitar que líquidos no solo, alcancem a água, execução de sistemas sanitários de destinação dos dejetos; devem ser evitados os lançamentos de dejetos no solo, a céu aberto e controle dos sistemas de tratamento de esgoto através de sua disposição no solo, que devem estar sempre distantes dos recursos hídricos e adotando-se medidas de controle da infiltração dos resíduos no terreno.

Também tem relevância controle da aplicação de defensivos agrícolas, incluindo: uso de produtos menos persistentes, tais como os inseticidas fosforados e proibição de aplicação desses produtos em áreas próximas aos mananciais além de obrigatoriedade do uso do receituário agronômico para utilização desses produtos e aplicação de pesticidas na dosagem correta e na época adequada.

O controle da utilização de fertilizantes deve ser realizado, evitando a sua aplicação em áreas onde possa haver riscos de poluição da água, sendo incrementado o uso de adubos orgânicos, em substituição aos produtos químicos. E remoção periódica dos dejetos de animais e destinação adequada para os mesmos.

Os recursos hídricos, superficiais e subterrâneos, estão sujeitos a poluição por lançamento de esgotos domésticos ou industriais em águas superficiais, infiltração de esgoto no solo, até alcançar a água subterrânea, a partir de sistemas de fossa-sumidouro, de depósitos de lixo ou do lançamento de resíduos líquidos no solo, carreamento de produtos químicos, de resíduos sólidos, ou de outros detritos lançados no solo, e lançamento e infiltração de águas pluviais, que muitas vezes, conduzam esgotos ou resíduos sólidos.

Os poluentes, quando presentes na água, podem resultar em danos ao homem, às outras formas de vida e ao próprio ambiente aquático, tais como transmissão de doenças ao homem, através dos microrganismos patogênicos, malefícios causados ao homem e animais aquáticos, pelos produtos químicos tóxicos e redução da quantidade de oxigênio dissolvido na água, como consequência da intensa atividade das bactérias aeróbicas no consumo da matéria orgânica, resultando na morte de peixes e de outros organismos aquáticos.

Ainda inconvenientes relativos ao uso da água para banhos e outras práticas recreativas, prejuízos ao abastecimento industrial e aos outros usos da água, danos às propriedades marginais, com reflexos na agricultura e na irrigação, causando a desvalorização dessas áreas e proliferação excessiva de algas e de vegetação aquática, processo conhecido como eutrofização.

Sendo a água um recurso natural indispensável ao homem, é imprescindível que a sua qualidade seja preservada, por meio de medidas de controle da poluição.

O controle da poluição da água deve ser essencialmente preventivo, surgindo como medida mais eficaz a execução de sistemas sanitários de coleta e tratamento de esgotos domésticos e industriais.

Nas cidades, a construção de redes coletoras e de estações de tratamento de esgotos domésticos e industriais representa a melhor forma de evitar que esses resíduos alcancem os recursos hídricos de modo não-sanitário.

Outras medidas devem ser adotadas visando ao controle da poluição da água como afastamento adequado entre sistemas de fossas e poços, controle do “chorume” produzido em aterros de resíduos sólidos, evitando que os mesmos alcancem os recursos hídricos e preservação das áreas vizinhas aos recursos hídricos superficiais, por meio da adoção de faixas de proteção marginais aos mesmos, as quais devem ser mantidas com vegetação.

E também controle da aplicação de pesticidas e fertilizantes e disciplinamento do uso do solo nas proximidades dos recursos hídricos, evitando-se as atividades que possam resultar na poluição da água.

Poluição do ar é produzida pelos lançamentos de gases e pequenas partículas na atmosfera, que podem alterar sensivelmente a qualidade do ar, provocando a sua poluição.

Além da quantidade e do teor dos poluentes lançados na atmosfera, alguns fatores ambientais podem influir no processo de poluição do ar.

A poluição do ar depende, principalmente, de fontes de emissão de poluentes, tipos e quantidades de resíduos e período de emissão dos mesmos, e também das peculiaridades climáticas do ambiente, tais como a velocidade e direção dos ventos e a estabilidade atmosférica, as quais podem contribuir para uma maior ou menor dispersão, transformação ou remoção dos poluentes.

E também das condições topográficas que influem na circulação do ar. Um exemplo das condições climáticas contribuindo para o agravamento da poluição é o fenômeno conhecido como “inversão térmica”.

Normalmente, a temperatura da atmosfera decresce com a altura, ficando as camadas mais frias de ar sobre as camadas mais quentes. Ocorre um movimento ascendente do ar, a partir da superfície da terra, com o ar mais quente, que é mais leve subindo e o ar mais frio que é mais pesado, descendo. Este fenômeno contribui para a dispersão do ar, no sentido vertical.

Em algumas regiões, quando ocorrem condições meteorológicas anormais, acontece o fenômeno inverso, ou seja, a temperatura do ar passa a ser maior nas camadas superiores, existindo a “inversão térmica”.

Nessas situações, o movimento vertical do ar é prejudicado, formando-se uma camada estável. Os poluentes lançados na atmosfera concentram-se nas proximidades da superfície da terra, podendo resultar em grave problema de poluição. Caso comum na cidade de São Paulo.

As principais fontes de poluição atmosférica são fontes industriais, incluindo as fábricas e outros processos, tais como a queima de combustíveis derivados do petróleo, em fornos caldeiras e análogos e fenômenos ligados a transportes, compreendendo os veículos automotores de vários tipos e o tráfego aéreo.

Existem outras fontes, tais como incineração de resíduos sólidos, perdas por evaporação em petroquímica, queima de combustíveis para aquecimento de edificações, queima da vegetação e até consumo de cigarro.

Os principais poluentes atmosféricos são material particulado ou fuligem, monóxido de carbono, óxidos de enxofre, hidrocarbonetos em geral, óxidos de nitrogênio e oxidantes fotoquímicos.

A presença de poluentes na atmosfera pode resultar em prejuízos à saúde humana, aos animais, aos vegetais e aos materiais em geral, podendo serem citados danos à saúde humana, contribuindo para a maior incidência de doenças respiratórias, irritação nos olhos e pulmões, redução da visibilidade, devido à presença de partículas de materiais na atmosfera e obrigando ao uso de colírios como em São Paulo.

Também danos aos animais, prejuízos aos materiais, tais como corrosão do ferro, aço e mármore, deterioração da borracha, de produtos sintéticos e tecidos e sujeira de roupas, prédios e monumentos;

O excesso de ruído provoca alterações ambientais, constituindo a poluição acústica ou poluição sonora. Muitas atividades desenvolvidas pelo homem, principalmente nos grandes centros urbanos, resultam na emissão de sons em altas intensidades.

Entre as principais fontes de poluição acústicas, destacam-se os meios de transportes terrestres, o trafego aéreo, as obras de construção civil, as atividades industriais e aparelhos eletrodomésticos, dentre outros.

A principal consequência da poluição acústica é a perda gradativa da audição. Além disso, o excesso de ruído provoca incômodo, irritabilidade, exaustão física, distúrbios psíquicos, perturbações do sistema nervoso central, além de perturbações cardíacas e circulatórias.
A intensidade do som é medida por intermédio de uma unidade chamada decibel, expressa em escala logarítmica. Embora cada pessoa reaja de modo diferente ao barulho, pode-se dizer que o mesmo começa a tornar-se nocivo ao homem a partir do nível de 70 decibéis.

Entre as medidas de controle da poluição acústica, estão o controle da emissão de ruídos, e o disciplinamento do uso e ocupação do solo, de modo que as atividades barulhentas, tais como aeroportos e zonas industriais, fiquem adequadamente distantes de áreas residenciais e de outros usos sensíveis.
Não se deve atribuir todas as responsabilidades ao setor público.

É necessário que cada um faça sua parte para o aperfeiçoamento do arranjo coletivo e obtenção de melhor qualidade de vida.



Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.



Referência:
http://www.inf.furb.br/sias/saude/Textos/poluicao_ambiental.htm



in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/01/2019




Autor: Roberto Naime
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 15/01/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/01/15/controle-e-reducao-da-poluicao-ambiental-artigo-de-roberto-naime/