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sexta-feira, 22 de julho de 2022

Covid: Animais de estimação podem pegar e transmitir o coronavírus?



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Gatos podem pegar o coronavírus, mas episódios conhecidos são raros

No final de junho, um grupo de pesquisadores da Tailândia relatou o primeiro caso conhecido em que um ser humano pegou covid após ter contato com um gato que estava infectado com o coronavírus.

Essa é a quarta espécie animal em que foi documentada a infecção com o patógeno e a possibilidade de transmissão da doença para pessoas — as outras três são os visons, os hamsters e os veados de cauda branca.

Mas, afinal, os bichos de estimação podem mesmo pegar covid? A resposta é sim, e há diversos estudos que confirmam essa possibilidade.


Porém, pelo que se sabe até agora, esses casos são raros e a infecção tende a ser bem mais leve neles.


A BBC News Brasil ouviu especialistas para entender os potenciais riscos da covid entre os pets — e se existe algo que pode ser feito para protegê-los.
O caso da Tailândia


O episódio aconteceu em agosto de 2021 na cidade de Bangcoc, capital da Tailândia. O relatório completo sobre o caso foi publicado no final de junho deste ano no periódico científico especializado Emerging Infectious Diseases.


Um pai e um filho, cujas identidades foram preservadas, receberam diagnóstico positivo para covid e, seguindo a recomendação local, foram transferidos para uma unidade de isolamento na cidade de Songkhla, localizada no sul do país.


Na mudança temporária, eles levaram um gato, que ficou no mesmo quarto deles por alguns dias.


Depois, o animal foi transferido para um hospital veterinário, onde passou por uma avaliação e alguns exames, que depois comprovaram que o bichano também estava com covid.


Durante a consulta, na hora em que a veterinária passou o swab (haste flexível) no nariz do gato, ele espirrou.


A profissional usava máscara e luvas, mas estava com os olhos desprotegidos — e foi provavelmente nesse momento que a transmissão do coronavírus para ela aconteceu.


Três dias após a consulta, a veterinária estava com febre, tosse e espirros. Um teste confirmou o diagnóstico de covid nela também.


Mas como os cientistas sabem que o patógeno veio mesmo do gato? Ao analisar o histórico da paciente, eles viram que nenhum contato próximo dela estava com covid naqueles dias (o que diminui a probabilidade de a infecção ter ocorrido a partir de outro indivíduo).


Para completar, os autores do trabalho realizaram análises genéticas de amostras colhidas do pai, do filho, da veterinária e do gato. Todos apresentavam a mesma variante do vírus, com sequências genéticas idênticas. Isso, por sua vez, reforçou a possibilidade de a transmissão ter acontecido por meio do gato.



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Num zoológico localizado na Bélgica, um hipopótamo recebeu diagnóstico positivo para covid em dezembro de 2021

Um 'retorno' à natureza?


A história do gato na Tailândia está longe de ser única.


Ao longo dos últimos dois anos, cientistas de várias partes do mundo descreveram outros episódios de animais que também se infectaram com o coronavírus e até desenvolveram alguns sintomas.


Foi o caso de diversas espécies que vivem em zoológicos e santuários, como leões, tigres, leopardos, lontras, gorilas, hienas, quatis, hipopótamos e até peixes-boi.


O Sars-CoV-2, coronavírus responsável pela pandemia atual, também foi encontrado em bichos de estimação, como gatos, cachorros, hamsters e furões.



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Sars-CoV-2 também já infectou cachorros, mostram estudos

Muito provavelmente, todos esses animais tiveram contato com cuidadores e tutores que estavam com covid.

Algumas espécies, porém, não apenas se infectaram, como também há evidências de que tenham transmitido o patógeno de volta para outros seres humanos.


Por ora, são quatro os episódios que se encaixam nessa categoria: os visons (ou minks, animais usados pela indústria de casacos de pele) na Europa, os hamsters em Hong Kong, os veados de cauda branca no Canadá e, mais recentemente, o gato na Tailândia.


Esse fenômeno é descrito entre os especialistas com o termo spillback (algo como "retorno", em tradução livre para o português).


Ele é um processo contrário ao spillover (algo como "transbordamento"), que acontece quando um patógeno que circula numa espécie passa a afetar algumas outras.


O spillover foi o que provavelmente aconteceu com o Sars-CoV-2: a tese mais aceita é a de que ele infectava apenas morcegos no Sudeste Asiático quando sofreu uma série de mutações genéticas que permitiram que ele "pulasse", ou "transbordasse", para seres humanos e começasse a ser transmitido de pessoa para pessoa.


"Cerca de 75% das doenças infecciosas que nos afetam surgiram a partir de outros animais. Os vírus, bactérias, fungos e protozoários estão lá, no hospedeiro natural, como um animal silvestre, sofrem mutações e adquirem uma afinidade por um novo hospedeiro", detalha a bióloga molecular Ana Gorini da Veiga, professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).



CRÉDITO,GETTY IMAGES
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Em Hong Kong, hamsters vendidos num pet shop pegaram covid e transmitiram para pessoas


A pesquisadora lembra que essa não foi a primeira vez que um coronavírus "pula" para os seres humanos nas últimas duas décadas. Em 2002, o Sars-CoV passou por morcegos e civetas até chegar a nós. Já em 2011, o Mers-CoV, antes restrito a morcegos, camelos e dromedários, ganhou a habilidade de circular entre as pessoas.


Em paralelo ao spillover, o spillback também aconteceu com o causador da covid, o Sars-CoV-2: várias espécies de animais, que antes não eram afetadas por esse patógeno, também começaram a ser infectadas de 2020 para cá.

Devo me preocupar?


Apesar dos casos documentados, os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil entendem que a infecção pelo Sars-CoV-2 é muito rara em outros animais.


"Por mais que exista a possibilidade de infecção e ela não seja nenhuma surpresa para nós, a afinidade deste coronavírus com as demais espécies é muito pequena", esclarece o virologista Paulo Eduardo Brandão, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo.


E nada indica que o patógeno esteja evoluindo para infectar com mais voracidade outros seres além dos próprios humanos.


"O Sars-CoV-2 é um vírus muito seletivo em termos de hospedeiro. E a chegada das novas variantes mostra que ele está ficando cada vez mais especializado em nos infectar", analisa o cientista.


"Portanto, pelo que sabemos até agora, os animais não têm nenhuma importância na transmissão deste patógeno e raramente desenvolvem sintomas", completa.



CRÉDITO,REUTERS
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Minks (ou visons) foram uma das primeiras espécies em que foi observada a infecção e a transmissão do coronavírus causador da covid

Algumas precauções básicas


Uma pessoa que está com covid e precisa se isolar em casa deve tomar algum cuidado especial com os animais de estimação?


Os especialistas orientam manter um certo distanciamento do bicho, caso seja possível.


"Muitas vezes, durante a quarentena, o animal é uma ótima companhia. Porém, se você for ficar no mesmo ambiente, vale manter um distanciamento, usar máscara e reforçar os cuidados de higiene", orienta Gorini.


Brandão reforça que, se não tiver jeito de restringir o contato, manter o convívio com o pet não vai representar uma grande ameaça. "Não podemos repetir o que aconteceu em 2020, quando vários animais foram abandonados por seus tutores", diz.


"Ou seja: se você puder se isolar e outra pessoa cuidar do animal, melhor. Mas se você mora sozinho ou não tem com quem deixar, pode manter a rotina dentro de casa", resume.


O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos orienta que não se deve colocar máscaras nos animais — isso pode até causar algum mal à saúde deles.


Também não há necessidade de passar álcool em gel, desinfetante ou outros produtos de limpeza nas patas, no pelo ou na pele dos bichinhos.


Por fim, vale sempre conversar com o veterinário se o seu animal de estimação apresentar algum sinal atípico, abandonar a rotina, sentir-se prostrado e parar de comer, beber água ou fazer cocô e xixi.


Esses sintomas podem significar que ele está com alguma doença — e o diagnóstico precoce permite iniciar o tratamento com rapidez.


- Texto originalmente publicado em https://www.bbc.com/portuguese/internacional-62225094






Autor: André Biernath - @andre_biernath
Fonte: Da BBC News Brasil em Londres
Sítio Online da Publicação: BBC News
Data: 21/07/2022
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-62225094

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Coronavírus: apesar de vacinas e controles, estação na remota Antártida enfrenta surto de covid



CRÉDITO,INTERNATIONAL POLAR FOUNDATION
Legenda da foto,

Dois terços dos funcionários da estação estão infectados, mas as autoridades dizem que a situação não é grave


Uma estação belga de pesquisa científica na Antártida está enfrentando um surto de covid-19, apesar de os trabalhadores ali estarem totalmente vacinados e de o local estar em uma das regiões mais remotas do mundo.


Desde 14 de dezembro, pelo menos 16 dos 25 trabalhadores da Estação Polar Princesa Elisabeth contraíram o vírus.


Até agora, segundo as autoridades, os casos continuam moderados.


"A situação não é dramática", disse Joseph Cheek, gerente de projeto da International Polar Foundation, à BBC.


"Embora tenha sido um inconveniente colocar em quarentena os membros da equipe que pegaram o vírus, isso não afetou significativamente nosso trabalho na estação em geral", disse Cheek.


"A todos os residentes da estação foi oferecida a opção de partir em voo programado para 12 de janeiro. No entanto, todos manifestaram o desejo de ficar e continuar o seu trabalho", acrescentou.


A notícia do surto foi relatada pela primeira vez no jornal belga Le Soir.

Legenda do vídeo,

Covid: 5 boas notícias sobre a ômicron, variante que mantém pandemia em alta


O primeiro teste positivo foi registrado no dia 14 de dezembro, em uma equipe que havia chegado sete dias antes.


Eles e outros pesquisadores com resultado positivo foram colocados em quarentena, mas o vírus continuou a circular.


Os funcionários que chegam à estação têm que estar vacinados contra o vírus e testados.


Há dois médicos na estação e novas chegadas ao posto avançado foram suspensas até o surto terminar.


A estação Princess Elisabeth é operada pela International Polar Foundation e entrou em serviço em 2009.


Não é a primeira vez que estações de pesquisa na Antártida são afetadas por um surto de coronavírus. No ano passado, vários militares chilenos baseados na estação de pesquisa Bernardo O'Higgins foram infectados depois que os marinheiros de um navio de abastecimento testaram positivo para o vírus.






Autor: BBC News Brasil Saúde
Fonte: BBC News Brasil Saúde
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil Saúde
Data: 03/01/2022
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-59857874

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Pesquisadores descobrem efeitos de planta da Amazônia contra o novo coronavírus

Uma planta encontrada na Amazônia pode se tornar uma aliada no combate ao novo coronavírus (SARS-CoV-2). Com o nome científico Siparuna cristata, a espécie (da mesma família daquela popularmente conhecida como limão-bravo) começou a ser investigada inicialmente por ter propriedades contra a gripe, em estudo coordenado pela pesquisadora Gilda Guimarães Leitão, do Instituto de Pesquisas de Produtos Naturais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPN/UFRJ), e por Suzana Guimarães Leitão, docente da Faculdade de Farmácia da UFRJ. Na instituição, Suzana coordena o Laboratório de Fitoquímica e Farmacognosia, voltado ao estudo de plantas da biodiversidade brasileira. “Em estudo anterior do nosso grupo de pesquisa, confirmamos que o extrato em diclorometano da Siparuna cristata, uma planta medicinal reconhecida pela sabedoria popular no tratamento de gripes e resfriados, apresenta atividade anti-Influenza. Assim, passamos a investigar também os efeitos da planta contra o novo coronavírus. Devido à situação emergencial da Covid-19, a busca por substâncias anti-SARS-CoV-2 é fundamental para a saúde pública”, justificou Suzana, que vem realizando seus projetos com apoio da FAPERJ, por meio do programa Cientista do Nosso Estado.




O estudo teve como resultado a recente publicação de um artigo na revista científica Brazilian Journal of Pharmacognosy, intitulado "Flavonoids from Siparuna cristata as Potential Inhibitors of SARS‑CoV‑2 Replication" (https://link.springer.com/article/10.1007%2Fs43450-021-00162-5). Em colaboração com as pesquisadoras Milene Miranda e Marilda Siqueira — ambas do Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) e coautoras do artigo —, elas investigam as propriedades de flavonoides (compostos bioativos com propriedades antioxidantes, antivirais, antibacterianas e anti-inflamatórias) presentes nos extratos da planta amazônica. Dois flavonoides (kumatakenina e a retusina) demonstraram uma promissora capacidade de inibir a replicação in vitro do coronavírus (SARS-CoV-2).

No Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo do IOC, foram realizados os ensaios antivirais, usando dois modelos de células diferentes, a Vero (célula de rim de macaco) e a Calu-3 (modelo celular de pneumócito humano). Os flavonoides retusina e a kumatakenina foram capazes de inibir a replicação do vírus SARS-CoV-2 nos modelos celulares, com resultados mais expressivos que aqueles obtidos nos ensaios comparativos realizados com os medicamentos que vêm sendo testados por grupos de pesquisa internacionais em casos de infecções por coronavírus (a combinação de lopinavir e ritonavir).

"A retusina foi a molécula com melhor desempenho em nosso ensaio antiviral in vitro. Comparando esta molécula com a combinação Lopinavir/ritonavir, inibidores da protease viral, o resultado foi superior nas células Vero em mais de 1200 vezes e na Calu-3 em mais de 400 vezes", disse Milene. “Esses resultados mostram a relevância dos estudos de bioprospecção da nossa biodiversidade para a busca de potenciais novos fármacos", completou Suzana.


Detalhe da retusina em pó: o flavonoide se destacou pela sua capacidade de inibir, in vitro, a replicação do novo coronavírus

Os flavonoides foram isolados pela doutoranda Carla Monteiro Leal, do Programa de Biotecnologia Vegetal da UFRJ, no Laboratório de Fitoquímica e Cromatografia Contracorrente, coordenado por Gilda Guimarães Leitão, no Instituto de Pesquisas de Produtos Naturais Walter Mors (IPPN/UFRJ). “Usamos a cromatografia contracorrente, técnica muito empregada para separação e purificação na indústria farmacêutica. Por cromatografia líquida e análise de espectrometria de massas, descobrimos a composição química detalhada dos extratos da planta”, contou Gilda.

O grupo contou, ainda, com a colaboração da química Manuela Leal da Silva, do Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade Nupem/UFRJ, em Macaé, e seus alunos de pós-graduação do PPGMCF/UFRJ e do PGBCS/IOC/Fiocruz, para a realização de estudos in sílico, que revelaram os flavonoides como possíveis inibidores das proteases de SARS-CoV-2, e da farmacêutica Rosineide Costa Simas, especialista em espectrometria de massas e professora visitante na Faculdade de Farmácia entre 2017 e 2019.

Trata-se de um resultado promissor, que precisa de continuidade para chegar à etapa de ensaios clínicos. “Precisamos de mais estudos, incluindo testes toxicológicos, para avançar para a realização de ensaios clínicos, com pessoas. Sabemos do potencial da biodiversidade brasileira. O Brasil é detentor de uma das mais importantes biodiversidades do mundo e queremos dar continuidade a esse projeto. O estudo coloca em nosso horizonte a possibilidade de aplicação de flavonoides metilados, como a retusina, para o desenvolvimento de uma terapia antiviral no tratamento de Covid-19”, concluiu Suzana.

Assinam o artigo: Carla Monteiro Leal, Suzana Guimarães Leitão, Romain Sausset, Simony C. Mendonça, Pedro H. A. Nascimento, Caio Felipe de Araujo R. Cheohen, Maria Eduarda A. Esteves, Manuela Leal da Silva, Tayssa Santos Gondim, Maria Eduarda S. Monteiro, Amanda Resende Tucci, Natália Fintelman‑Rodrigues, Marilda M. Siqueira, Milene Dias Miranda, Fernanda N. Costa, Rosineide C. Simas e Gilda Guimarães Leitão.






Autor: Débora Motta
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 25/11/2021
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4380.2.5

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Pesquisadores medem carga de coronavírus em locais públicos



Pesquisadores vinculados ao Instituto de Biologia, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Ibrag/Uerj) desenvolveram um equipamento para capturar e medir a carga de coronavírus em diversos ambientes a partir de aerossóis presentes na atmosfera. A ideia é fornecer informações mais precisas sobre a concentração de SARS-Cov-2 e a capacidade de contágio. "A maioria das pesquisas sobre risco de contágio está baseada em modelos teóricos. Nós estamos tentando verificar isso na prática", explica o coordenador do projeto, Heitor Evangelista.

De acordo com o biofísico, as pesquisas que indicam uma grande capacidade de contágio foram feitas em hospitais. Entre os ambientes em que Evangelista e sua equipe pretendem realizar os testes estão escolas públicas, a estação Central do Brasil, entre outros locais de grande aglomeração. O desenvolvimento do projeto conta, entre outras fontes de recursos, com financiamento da Segunda Chamada Emergencial de Projetos Para Combater os Efeitos da Covid-19, lançada pela FAPERJ após o início da pandemia.

O equipamento, batizado de CoronaTrap, atualmente passa pelos últimos ajustes para facilitar seu deslocamento. Como é possível visualizar neste vídeo de divulgação do projeto, os vírus capturados são armazenados em um recipiente de cor âmbar chamado “bioflask” e mantidos sob baixas temperaturas para que não se degradem. "Um dos grandes desafios para a realização dessas medições é a enorme sensibilidade do coronavírus à degradação ambiental. Então, ao lado do professor César Amaral/Uerj, quatro pesquisadores pós-doc, um mestrando e três graduandos, iniciamos este projeto logo no começo da pandemia", conta.


Heitor Evangelista (à esq. de óculos) e parte da equipe desenvolvedora do CoronaTrap em atividade na comunidade Santa Marta (Foto: Divulgação)


Para Evangelista, a baixa probabilidade de contágio nas atividades ao ar livre e com distanciamento entre pessoas deve ser confirmado pelos testes que estão sendo realizados. "Os coronavírus resistem pouco à luz solar e à temperatura, o que resulta em nossa dificuldade de capturá-los ao ar livre". Ele acrescenta que a equipe identificou uma grande diferença entre a quantidade de vírus em ambientes fechados e abertos. Enquanto ao ar livre o CoronaTrap fica praticamente sem vírus, em determinados locais fechados com aglomerações, com luz ambiente de baixa intensidade e ar condicionado, a coleta pode ser expressiva. "No entanto, é preciso realizar mais medição para que tenhamos certeza do que está faltando fazer quanto as medidas de prevenção do contágio", reforça.

Entender a composição dessas pequenas partículas suspensas na atmosfera, os aerossóis, é um trabalho para o qual Heitor Evangelista tem se dedicado há vários anos. Especialmente na região da Antártica e para o qual conta com financiamento do programa Cientista do Nosso Estado da FAPERJ. A partir desses estudos é possível avaliar os impactos da ação humana na atmosfera e compreender o fenômeno das mudanças climáticas.




Autor: Juliana Passos
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 22/07/2021
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4264.2.7

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Pesquisadores medem carga de coronavírus em locais públicos



Pesquisadores vinculados ao Instituto de Biologia, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Ibrag/Uerj) desenvolveram um equipamento para capturar e medir a carga de coronavírus em diversos ambientes a partir de aerossóis presentes na atmosfera. A ideia é fornecer informações mais precisas sobre a concentração de SARS-Cov-2 e a capacidade de contágio. "A maioria das pesquisas sobre risco de contágio está baseada em modelos teóricos. Nós estamos tentando verificar isso na prática", explica o coordenador do projeto, Heitor Evangelista.

De acordo com o biofísico, as pesquisas que indicam uma grande capacidade de contágio foram feitas em hospitais. Entre os ambientes em que Evangelista e sua equipe pretendem realizar os testes estão escolas públicas, a estação Central do Brasil, entre outros locais de grande aglomeração. O desenvolvimento do projeto conta, entre outras fontes de recursos, com financiamento da Segunda Chamada Emergencial de Projetos Para Combater os Efeitos da Covid-19, lançada pela FAPERJ após o início da pandemia.

O equipamento, batizado de CoronaTrap, atualmente passa pelos últimos ajustes para facilitar seu deslocamento. Como é possível visualizar neste vídeo de divulgação do projeto, os vírus capturados são armazenados em um recipiente de cor âmbar chamado “bioflask” e mantidos sob baixas temperaturas para que não se degradem. "Um dos grandes desafios para a realização dessas medições é a enorme sensibilidade do coronavírus à degradação ambiental. Então, ao lado do professor César Amaral/Uerj, quatro pesquisadores pós-doc, um mestrando e três graduandos, iniciamos este projeto logo no começo da pandemia", conta.




Heitor Evangelista (à esq. de óculos) e parte da equipe desenvolvedora do CoronaTrap em atividade na comunidade Santa Marta (Foto: Divulgação)


Para Evangelista, a baixa probabilidade de contágio nas atividades ao ar livre e com distanciamento entre pessoas deve ser confirmado pelos testes que estão sendo realizados. "Os coronavírus resistem pouco à luz solar e à temperatura, o que resulta em nossa dificuldade de capturá-los ao ar livre". Ele acrescenta que a equipe identificou uma grande diferença entre a quantidade de vírus em ambientes fechados e abertos. Enquanto ao ar livre o CoronaTrap fica praticamente sem vírus, em determinados locais fechados com aglomerações, com luz ambiente de baixa intensidade e ar condicionado, a coleta pode ser expressiva. "No entanto, é preciso realizar mais medição para que tenhamos certeza do que está faltando fazer quanto as medidas de prevenção do contágio", reforça.

Entender a composição dessas pequenas partículas suspensas na atmosfera, os aerossóis, é um trabalho para o qual Heitor Evangelista tem se dedicado há vários anos. Especialmente na região da Antártica e para o qual conta com financiamento do programa Cientista do Nosso Estado da FAPERJ. A partir desses estudos é possível avaliar os impactos da ação humana na atmosfera e compreender o fenômeno das mudanças climáticas.




Autor: Juliana Passos
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 22/07/2021
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4268.2.9

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Enzima bioluminescente produzida por vagalume poderá ser usada para detectar o novo coronavírus



Ao combinar uma enzima encontrada em vagalumes com uma proteína capaz de se ligar ao novo coronavírus, pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) desenvolveram uma nova estratégia para detectar em amostras biológicas anticorpos contra o patógeno causador da COVID-19.

A enzima usada na pesquisa pertence à classe das luciferases, cujo papel é catalisar reações que transformam energia química em energia luminosa – fenômeno que genericamente recebe o nome de bioluminescência. Dentre todas as luciferases conhecidas, aquela produzida pelo vagalume Amydetes vivianii é uma das que geram bioluminescência mais brilhante e estável.

O inseto é encontrado no campus de Sorocaba da UFSCar e recebeu esse nome em homenagem ao professor Vadim Viviani, que descobriu a espécie e clonou em bactérias o DNA que codifica a luciferase desse vagalume. O pesquisador também investigou a estrutura molecular e as funções da enzima.

“Pegamos nossa luciferase mais brilhante e a acoplamos, por engenharia genética, a uma proteína capaz de se ligar aos anticorpos. Se os anticorpos contra SARS-CoV-2 estiverem presentes na amostra, a ligação ocorrerá e isso poderá ser detectado por meio da emissão de luz”, diz Viviani à Agência FAPESP.

De forma semelhante, a presença de proteínas específicas do SARS-CoV-2, indicando a infecção, pode ser detectada pela molécula bioluminescente na presença de anticorpos específicos.

No ritmo acelerado que tem caracterizado as pesquisas focadas na pandemia, o estudo foi concluído em menos de um ano, com recursos exclusivos do Projeto Temático “Bioluminescência de artrópodes: diversidade biológica em biomas brasileiros; origem bioquímica; evolução estrutural/funcional de luciferases; diferenciação molecular das lanternas; aplicações biotecnológicas, ambientais e educacionais”, apoiado pela FAPESP.

Patente depositada

Viviani conta que já depositou um pedido de patente para o novo sistema bioluminescente no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). E diz que o estudo é tão recente que o artigo que o descreve ainda está em fase de redação.

“Testamos com sucesso o método para diversos anticorpos, que podem ser detectados por técnicas como imunoblotes e Western Blot”, afirma Viviani.

“Nos imunoblotes, amostras de antígeno são imobilizadas em uma superfície. Em seguida tratadas com materiais como o soro sanguíneo do paciente. Se o material contiver o anticorpo, este se liga ao antígeno, formando o complexo antígeno-anticorpo, que é revelado por um anticorpo secundário – em geral marcado com uma proteína que gera um sinal fluorescente ou quimioluminescente. Em nosso estudo, o anticorpo secundário marcado é uma proteína, com alta afinidade por anticorpos, ligada à luciferase, que gera bioluminescência”, informa Viviani.

O Western Blot é um método que permite separar as proteínas em uma amostra de tecidos biológicos ou extratos. O método separa as proteínas por meio de eletroforese, técnica que promove a migração de íons em um campo elétrico, possibilitando separá-los de acordo com o seu tamanho e carga.

O trabalho foi desenvolvido no Laboratório de Bioquímica e Tecnologias Bioluminescentes da UFSCar e contou com a colaboração de Paulo Lee Ho, do Instituto Butantan.

O próximo passo, agora, é saber se a quantidade de anticorpos presentes na saliva ou esfregaço nasal (swab) é suficiente para desencadear a bioluminescência, de modo que o novo biossensor possa ser utilizado em testagem rápida e não invasiva para COVID-19.

“Para levar adiante essa segunda fase da pesquisa, já estamos em tratativas com o pesquisador Heidge Fukumasu, da USP. Outra perspectiva será o emprego de nanotecnologia para desenvolvimento de imunoensaios em colaboração com o grupo de pesquisa da professora Iseli Nantes, da Universidade Federal do ABC [UFABC]”, conta Viviani.

“Este estudo é um exemplo de como uma pequena espécie de vagalume pode proporcionar tantos benefícios à sociedade. Um exemplo de como a biodiversidade de nossas florestas e a ciência, ambas tão severamente ameaçadas, podem, juntas, trazer soluções inovadoras e agregar valor econômico e social a um país em desenvolvimento, como o Brasil”, conclui o pesquisador.





Autor: José Tadeu Arantes
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data: 14/07/2021
Publicação Original: https://agencia.fapesp.br/enzima-bioluminescente-produzida-por-vagalume-podera-ser-usada-para-detectar-o-novo-coronavirus/36330/

terça-feira, 6 de julho de 2021

Nova linhagem do coronavírus, denominada P5, é identificada no Estado do Rio de Janeiro



A rede Corona-Ômica-RJ, para o monitoramento do coronavírus, recebeu mais recursos da FAPERJ e que possibilitam o monitoramento quinzenal no Estado do Rio de Janeiro. O monitoramento identificou, em maio, uma nova possível linhagem, originária da P.1.1.28, na região de Barra Mansa e de Porto Real, na divisa com o Estado de São Paulo, e que só agora foi denominada de P5. Esta linhagem possui, dentre outras, duas mutações na proteína Spike (E484Q e N501T) que podem estar associadas ao escape do sistema imunológico e com transmissibilidade do vírus. A descoberta foi amplamente divulgada pelos noticiários de jornais e emissoras de televisão ao longo da semana.

Os resultados também descrevem a a linhagem descendente da VOC gamma (P.1) que foi denominada de P.1.2. Esta linhagem foi inicialmente encontrada na região norte do Estado e agora já está disseminada em todas as regiões do Estado do Rio e em outros estados. Os dados de monitoramento ainda mostram que a linhagem P.1 continua sendo a mais frequente (78%) no Estado e, a baixa frequência da VOC Alpha (B.1.1.7) e o declínio da P.2, desde novembro do ano passado.

Segundo Ana Tereza Vasconcelos, do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), o monitoramento municipal e em tempo real, realizado pelo Rio de Janeiro, é extraordinário para o Brasil, e está dentro das recomendações da Organização Mundial da Saúde que preconiza 18 dias como intervalo ideal entre a divulgação de novos dados. Dos 92 municípios fluminenses, 91 já estão sendo monitorados. De março até junho de 2021,mais de 2.300 amostras já foram sequenciadas e processadas no supercomputador Santos Dumont, do LNCC, instituição vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Apenas o município de Comendador Levi Gasparian ainda não tem amostras coletadas.Os dados são de pacientes com diagnóstico confirmado da infecção pelo SARS-CoV-2 monitorados em centros de referências e hospitais do Estado do Rio de Janeiro. Os relatórios são emitidos a cada 15 dias com os dados atualizados de 380 amostras sequenciadas no período e que, imediatamente, são disponibilizadas no endereço eletrônico http://www.corona-omica.rj.lncc.br/#/.

O material é enviado pelo Laboratório Central de Saúde Pública Noel Nutels e pela Unidade de apoio ao diagnóstico da covid(UNADIG) ao Laboratório de Virologia Molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coordenado pelo professor Amilcar Tanuri, que faz a extração do material. Em seguida, é sequenciado e analisado no LNCC, em Petrópolis, e os resultados saem em apenas cinco dias.

"Até o momento, o monitoramento não apresentou nenhuma nova cepa em circulação no Estado que cause preocupação relevante para o cenário epidemiológico, mas a vigilância segue investigando as modificações sofridas pelo SARS-CoV-2 e aprofundando os efeitos apresentados", esclarece Cláudia Mello, subsecretária adjunta da Secretaria de Estado de Saúde e idealizadora da pesquisa.

A Rede Corona-Ômica-RJ é integrada por uma equipe multidisciplinar de pesquisadores de laboratórios de diferentes instituições do Estado do Rio de Janeiro, incluindo além do LNCC e da UFRJ, a Secretaria Estadual de Saúde, Secretária Municipal do Rio de Janeiro, pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Universidade Estadual do

Norte Fluminense (Uenf), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Fundação Getúlio Vargas (FGV). O projeto tem como foco o monitoramento epidemiológico do vírus SARS-CoV-2 por meio da vigilância genômica, a identificação de mutações e caracterização de novas linhagens. Além disso, atua na identificação e caracterização de fatores genômicos virais e do hospedeiro acometido pela covid-19 associados às manifestações clínicas da doença através da análise integrativa de dados ômicos (genômica viral, exomas e transcritomas humanos), epidemiológicos e metadados.





Autor: Claudia Jurberg
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 24/06/2021
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4250.2.9

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Nova linhagem do coronavírus, denominada P5, é identificada no Estado do Rio de Janeiro



O Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) participa do monitoramento do vírus responsável pela pandemia de Sars-Cov2; a equipe é coordenada por Ana Tereza Vasconcelos (Foto: Divulgação)

A rede Corona-Ômica-RJ, para o monitoramento do coronavírus, recebeu mais recursos da FAPERJ e que possibilitam o monitoramento quinzenal no Estado do Rio de Janeiro. O monitoramento identificou, em maio, uma nova possível linhagem, originária da P.1.1.28, na região de Barra Mansa e de Porto Real, na divisa com o Estado de São Paulo, e que só agora foi denominada de P5. Esta linhagem possui, dentre outras, duas mutações na proteína Spike (E484Q e N501T) que podem estar associadas ao escape do sistema imunológico e com transmissibilidade do vírus. A descoberta foi amplamente divulgada pelos noticiários de jornais e emissoras de televisão ao longo da semana.

Os resultados também descrevem a a linhagem descendente da VOC gamma (P.1) que foi denominada de P.1.2. Esta linhagem foi inicialmente encontrada na região norte do Estado e agora já está disseminada em todas as regiões do Estado do Rio e em outros estados. Os dados de monitoramento ainda mostram que a linhagem P.1 continua sendo a mais frequente (78%) no Estado e, a baixa frequência da VOC Alpha (B.1.1.7) e o declínio da P.2, desde novembro do ano passado.

Segundo Ana Tereza Vasconcelos, do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), o monitoramento municipal e em tempo real, realizado pelo Rio de Janeiro, é extraordinário para o Brasil, e está dentro das recomendações da Organização Mundial da Saúde que preconiza 18 dias como intervalo ideal entre a divulgação de novos dados. Dos 92 municípios fluminenses, 91 já estão sendo monitorados. De março até junho de 2021,mais de 2.300 amostras já foram sequenciadas e processadas no supercomputador Santos Dumont, do LNCC, instituição vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Apenas o município de Comendador Levi Gasparian ainda não tem amostras coletadas.Os dados são de pacientes com diagnóstico confirmado da infecção pelo SARS-CoV-2 monitorados em centros de referências e hospitais do Estado do Rio de Janeiro. Os relatórios são emitidos a cada 15 dias com os dados atualizados de 380 amostras sequenciadas no período e que, imediatamente, são disponibilizadas no endereço eletrônico http://www.corona-omica.rj.lncc.br/#/.

O material é enviado pelo Laboratório Central de Saúde Pública Noel Nutels e pela Unidade de apoio ao diagnóstico da covid(UNADIG) ao Laboratório de Virologia Molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coordenado pelo professor Amilcar Tanuri, que faz a extração do material. Em seguida, é sequenciado e analisado no LNCC, em Petrópolis, e os resultados saem em apenas cinco dias.

"Até o momento, o monitoramento não apresentou nenhuma nova cepa em circulação no Estado que cause preocupação relevante para o cenário epidemiológico, mas a vigilância segue investigando as modificações sofridas pelo SARS-CoV-2 e aprofundando os efeitos apresentados", esclarece Cláudia Mello, subsecretária adjunta da Secretaria de Estado de Saúde e idealizadora da pesquisa.

A Rede Corona-Ômica-RJ é integrada por uma equipe multidisciplinar de pesquisadores de laboratórios de diferentes instituições do Estado do Rio de Janeiro, incluindo além do LNCC e da UFRJ, a Secretaria Estadual de Saúde, Secretária Municipal do Rio de Janeiro, pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Fundação Getúlio Vargas (FGV). O projeto tem como foco o monitoramento epidemiológico do vírus SARS-CoV-2 por meio da vigilância genômica, a identificação de mutações e caracterização de novas linhagens. Além disso, atua na identificação e caracterização de fatores genômicos virais e do hospedeiro acometido pela covid-19 associados às manifestações clínicas da doença através da análise integrativa de dados ômicos (genômica viral, exomas e transcritomas humanos), epidemiológicos e metadados.





Autor: Claudia Jurberg
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 24/06/2021
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4250.2.9

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Nova linhagem do coronavírus, denominada P5, é identificada no Estado do Rio de Janeiro







O Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) participa do monitoramento do vírus responsável pela pandemia de Sars-Cov2; a equipe é coordenada por Ana Tereza Vasconcelos (Foto: Divulgação)

A rede Corona-Ômica-RJ, para o monitoramento do coronavírus, recebeu mais recursos da FAPERJ e que possibilitam o monitoramento quinzenal no Estado do Rio de Janeiro. O monitoramento identificou, em maio, uma nova possível linhagem, originária da P.1.1.28, na região de Barra Mansa e de Porto Real, na divisa com o Estado de São Paulo, e que só agora foi denominada de P5. Esta linhagem possui, dentre outras, duas mutações na proteína Spike (E484Q e N501T) que podem estar associadas ao escape do sistema imunológico e com transmissibilidade do vírus. A descoberta foi amplamente divulgada pelos noticiários de jornais e emissoras de televisão ao longo da semana.

Os resultados também descrevem a a linhagem descendente da VOC gamma (P.1) que foi denominada de P.1.2. Esta linhagem foi inicialmente encontrada na região norte do Estado e agora já está disseminada em todas as regiões do Estado do Rio e em outros estados. Os dados de monitoramento ainda mostram que a linhagem P.1 continua sendo a mais frequente (78%) no Estado e, a baixa frequência da VOC Alpha (B.1.1.7) e o declínio da P.2, desde novembro do ano passado.

Segundo Ana Tereza Vasconcelos, do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), o monitoramento municipal e em tempo real, realizado pelo Rio de Janeiro, é extraordinário para o Brasil, e está dentro das recomendações da Organização Mundial da Saúde que preconiza 18 dias como intervalo ideal entre a divulgação de novos dados. Dos 92 municípios fluminenses, 91 já estão sendo monitorados. De março até junho de 2021,mais de 2.300 amostras já foram sequenciadas e processadas no supercomputador Santos Dumont, do LNCC, instituição vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Apenas o município de Comendador Levi Gasparian ainda não tem amostras coletadas.Os dados são de pacientes com diagnóstico confirmado da infecção pelo SARS-CoV-2 monitorados em centros de referências e hospitais do Estado do Rio de Janeiro. Os relatórios são emitidos a cada 15 dias com os dados atualizados de 380 amostras sequenciadas no período e que, imediatamente, são disponibilizadas no endereço eletrônico http://www.corona-omica.rj.lncc.br/#/.

O material é enviado pelo Laboratório Central de Saúde Pública Noel Nutels e pela Unidade de apoio ao diagnóstico da covid(UNADIG) ao Laboratório de Virologia Molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), coordenado pelo professor Amilcar Tanuri, que faz a extração do material. Em seguida, é sequenciado e analisado no LNCC, em Petrópolis, e os resultados saem em apenas cinco dias.

"Até o momento, o monitoramento não apresentou nenhuma nova cepa em circulação no Estado que cause preocupação relevante para o cenário epidemiológico, mas a vigilância segue investigando as modificações sofridas pelo SARS-CoV-2 e aprofundando os efeitos apresentados", esclarece Cláudia Mello, subsecretária adjunta da Secretaria de Estado de Saúde e idealizadora da pesquisa.

A Rede Corona-Ômica-RJ é integrada por uma equipe multidisciplinar de pesquisadores de laboratórios de diferentes instituições do Estado do Rio de Janeiro, incluindo além do LNCC e da UFRJ, a Secretaria Estadual de Saúde, Secretária Municipal do Rio de Janeiro, pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Fundação Getúlio Vargas (FGV). O projeto tem como foco o monitoramento epidemiológico do vírus SARS-CoV-2 por meio da vigilância genômica, a identificação de mutações e caracterização de novas linhagens. Além disso, atua na identificação e caracterização de fatores genômicos virais e do hospedeiro acometido pela covid-19 associados às manifestações clínicas da doença através da análise integrativa de dados ômicos (genômica viral, exomas e transcritomas humanos), epidemiológicos e metadados.





Autor: EcoDebate
Fonte: IBGE
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 23/06/2021
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4250.2.9

terça-feira, 22 de junho de 2021

Nova vacina universal tem como alvo coronavírus para prevenir futuras pandemias


Nova vacina universal tem como alvo coronavírus para prevenir futuras pandemias
Estudo da UNC-Chapel Hill mostra que uma vacina pode ser eficaz contra COVID-19, SARS e outras doenças relacionadas ao coronavírus

Cientistas da Escola Gillings de Saúde Pública Global da Universidade da Carolina do Norte desenvolveram uma vacina universal que protegeu camundongos não apenas contra COVID-19, mas também contra outros coronavírus e acionou o sistema imunológico para combater uma variante perigosa.

Embora ninguém saiba qual vírus pode causar o próximo surto, os coronavírus permanecem uma ameaça após causar o surto de SARS em 2003 e a pandemia global de COVID-19.

Para prevenir uma futura pandemia de coronavírus, os pesquisadores UNC-Chapel Hill desenvolveram a vacina para fornecer proteção contra o atual coronavírus SARS-CoV-2 e um grupo de coronavírus conhecido por fazer o salto de animais para humanos.

As descobertas foram publicadas na revista Science pelos autores principais David Martinez, um pesquisador de pós-doutorado na Escola de Saúde Pública Global da UNC Gillings e Hanna H. Gray Fellow no Howard Hughes Medical Institute, e Ralph Baric , um epidemiologista na UNC Gillings School of Global Public Saúde e professor de imunologia e microbiologia na Escola de Medicina da UNC, cujas pesquisas geraram novas terapias para combater doenças infecciosas emergentes.

Os autores principais trabalharam com uma equipe de cientistas da UNC-Chapel Hill , da Duke University School of Medicine e da University of Pennsylvania Perelman School of Medicine.

Os pesquisadores da UNC-Chapel Hill estão desempenhando um papel fundamental no desenvolvimento da vacina contra o coronavírus . Depois de testar a eficácia da primeira geração de vacinas COVID-19, eles se concentraram em uma vacina de segunda geração: uma que tem como alvo os sarbecovírus, disse Baric.

Os sarbecovírus, parte da grande família dos coronavírus, são uma prioridade para os virologistas depois que duas doenças devastadoras causaram nas últimas duas décadas: SARS e COVID-19.

A abordagem da equipe começou com mRNA, que é semelhante às vacinas Pfizer e Moderna usadas hoje. Mas, em vez de incluir o código do mRNA para apenas um vírus, eles fundiram o mRNA de vários coronavírus.

Quando administrada a camundongos, a vacina híbrida gerou anticorpos neutralizantes contra várias proteínas de pico – que os vírus usam para se prender a células saudáveis, incluindo uma associada com B.1.351, conhecida como variante sul-africana.

“A vacina tem o potencial de prevenir surtos quando usada quando uma nova variante é detectada”, disse Baric, um pioneiro na preparação para uma pandemia.

O documento inclui dados de camundongos infectados com SARS-CoV e coronavírus relacionados e a vacina preveniu a infecção e danos aos pulmões em camundongos. Testes adicionais podem levar a testes clínicos em humanos no próximo ano.

“Nossas descobertas parecem brilhantes para o futuro porque sugerem que podemos desenvolver mais vacinas universais de pan coronavírus para proteger proativamente contra vírus que sabemos que correm o risco de emergir em humanos”, disse Martinez. “Com essa estratégia, talvez possamos prevenir um SARS-CoV-3.”


Referência:

Chimeric spike mRNA vaccines protect against Sarbecovirus challenge in mice
By David R. Martinez, Alexandra Schäfer, Sarah R. Leist, Gabriela De la Cruz, Ande West, Elena N. Atochina-Vasserman, Lisa C. Lindesmith, Norbert Pardi, Robert Parks, Maggie Barr, Dapeng Li, Boyd Yount, Kevin O. Saunders, Drew Weissman, Barton F. Haynes, Stephanie A. Montgomery, Ralph S. Baric
Science 22 Jun 2021: eabi4506 DOI: 10.1126/science.abi4506



Henrique Cortez, tradução e edição, a partir de informações da University of North Carolina at Chapel Hill

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/06/2021





Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 22/06/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/06/22/nova-vacina-universal-tem-como-alvo-coronavirus-para-prevenir-futuras-pandemias/

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Covid: Como herança genética neandertal influencia resposta imunológica ao coronavírus



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Neandertais desapareceram há 40 mil, mas deixaram uma herança genética


A descoberta feita na Gruta Guattari, em Roma, dos restos mortais de nove neandertais- os verdadeiros senhores do oeste da Europa (ainda que a área onde viveram seja mais ampla)- pode nos oferecer um outro olhar sobre nossa história evolutiva.


É um achado muito importante pois constitui uma peça fundamental para esclarecer nossas origens e nosso passado, e revela que a herança dos neandertais segue existindo hoje


Na atualidade, essa herança afeta muitos aspectos da nossa vida diária e, como se constatou num estudo recente, os genes dos neandertais influenciam parte da nossa suscetibilidade à covid-19.


É uma herança que, ao que tudo indica, não acabará no esquecimento junto com seu desaparecimento há 40 mil anos. Aliás, 2% do DNA dos indivíduos de origem euroasiática é procedente dos neandertais.


Desse percentual, alguns dos genes estudados influenciam na qualidade e tipo de sono, humor, tendência de isolamento e na suscetibilidade à infecção pelo coronavírus.

Proteção genética


Um estudo feito pelo Instituto de Antropologia Evolutiva Max Plack, na Alemanha, e o Instituto Karolinska, na Suécia, demonstrou que os genes presentes no cromossomo 3 humano podem se associar a formas mais graves de infecção pelo SARS-CoV-2, mas alguns genes do cromossomo 12 de origem neandertal podem favorecer a resposta imunológica e nos proteger do ataque do vírus.



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Descoberta na Gruta Guattari dos restos de nove neandertais pode nos oferecer um novo olhar sobre nossa história evolutiva


Estima-se que a presença desses genes pode reduzir em 22% a probabilidade de desenvolver a doença. Por isso, talvez as pessoas assintomáticas que se contaminaram com coronavírus sejam mais neandertais do que pensam.


Estudos dos genes predispostos à infecção poderiam levar à identificação precoce de pacientes em risco, segundo os pesquisadores. Além disso, trata-se de variantes genéticas que têm uma distribuição diferente na população humana: até 60% da população europeia e 50% da população do sul asiático carregaria a variante que predispõe à infecção.


Ela não foi encontrada na população africana e do leste asiático. Mas a boa notícia é que a variante protetora estaria no patrimônio genético de um terço da população mundial (excluindo o continente africano, onde essa variante não está presente).

Sensibilidade para a arte


A herança não acaba aí.


Os neandertais tinham uma constituição física robusta, andavam erguidos, tinham um crânio mais largo que o nosso no sentido anteroposterior e não tinham queixo (um traço típico dos humanos modernos).


Mas a organização das estruturas do ouvido, que permitem escutar, era muito parecida à dos humanos. Essa descoberta permitiu considerar a possibilidade de os neandertais terem tido um sistema de comunicação verbal parecido com o dos humanos.


Também herdamos a sensibilidade artística. É possível falar deles como os primeiros artistas da história: as cavernas da Extremadura, Cantábria e Andaluzia levam as marcas de grupos de neandertais que se comunicavam com a arte, da maneira mais imediata e primitiva que se conhece.



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

É possível que os neandertais tenham tido um sistema de comunicação verbal parecido com o dos humanos

A herança dos neandertais


Mas, até que ponto conhecemos nossos primos? É verdade que eram ignorantes e feios, como eram descritos no século 19? As respostas a essa e mais perguntas foram obtidas a partir de estudos feitos com material ósseo, não apenas a nível morfológico, mas também com o emprego de tecnologia moderna para analisar moléculas e obter o quadro completo dessa espécie, cujos primeiros restos foram encontrados em 1856, numa caverna no vale de Neander (Dusseldorf, Alemanha).


Em 2008, o Instituto de Antropologia Evolutiva Max Planck sequenciou pela primeira vez o DNA mitocondrial (um pequeno "anel" que herdamos de nossas mães) de um neandertal.


Desde então, temos aprendido a conhecer ainda mais nossos primos e desvendar sua vida secreta, injustamente considerada inferior à dos Homo sapiens por antropólogos do século 19.



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Uma das causas possíveis para o desaparecimento dos neandertais é a consanguinidade


Por exemplo, eles não eram exclusivamente carnívoros. A dieta dos neandertais compreendia uma variedade de alimentos ricos em amido, lentilhas e frutas secas. Também se aproveitavam dos recursos que o mar oferecia (mexilhão, principalmente), como se evidenciou em um estudo realizado sobre neandertais encontrados na Caverna de Moscerino (Roma, Itália).


Eles viviam na Europa e ocupavam também boa parte do oeste asiático. As investigações feitas em fósseis nos permitem estimar que se distribuíam nessas regiões entre 400 mil e 40 mil anos atrás, aproximadamente.


Depois desse período, os neandertais foram desaparecendo progressivamente, chegando a ser extintos por diferentes causas.

Os perigos da consanguinidade


Uma delas é certamente a elevada consanguinidade (a frequência de uniões entre parentes próximos): por causa do tamanho reduzido dos grupos de neandertais distribuídos na Europa e as mudanças climáticas que tiveram que enfrentar, não havia outra alternativa a não ser se reproduzir e formar par com familiares próximos que integravam a tribo.


Esse fenômeno é perigoso para os indivíduos porque leva à manifestação de todas aquelas doenças cujo mecanismo patogênico se deve a alelos (variantes de um mesmo gene) defeituosos recessivos.


Normalmente, herdamos uma cópia do DNA nuclear da nossa mãe e uma outra cópia do nosso pai. Na maioria dos casos, se o alelo é defeituoso, o outro progenitor aportará uma informação correta do gene para evitar que a enfermidade se manifeste no indivíduo.


No caso de filhos de parentes próximos, é mais provável que uma doença genética se manifeste, porque é altamente possível que ambos os pais carreguem uma cópia idêntica do mesmo alelo.


É o caso da Casa dos Habsburgo, família que compunha o Império Austro-Húngaro, cujo prognatismo (proeminência dos dentes em relação ao plano da face) não passa desapercebido nos livros de história.


*Lorenza Coppola Bove é professora de Antropologia Forense da Universidade Pontificia da Espanha


*Esta história foi publicada no The Conversation e reproduzida aqui com mediante a licença Creative Commons. Clique aqui para ler a versão original.




Autor: Lorenza Coppola Bove
Fonte: The Conversation
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 10/06/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-57361036

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Pesquisa revela ‘pontos quentes’ globais onde novos coronavírus podem surgir

Pesquisa revela ‘pontos quentes’ globais onde novos coronavírus podem surgir

Uma nova análise revela que a expansão da produção concentrada de gado na China pode estar criando condições favoráveis ​​para que os coronavírus saltem de morcegos-ferradura para animais domesticados antes de infectar humanos



Vacas descansam perto de uma caverna em Yunnan, China, onde morcegos-ferradura foram encontrados carregando um vírus que se assemelha muito ao SAR-CoV-2. (Foto AP de The Yomiuri Shimbun)


Mudanças globais no uso da terra – incluindo fragmentação florestal, expansão agrícola e produção pecuária concentrada – estão criando “pontos quentes” favoráveis ​​para morcegos que carregam coronavírus e onde as condições estão prontas para que as doenças passem de morcegos para humanos, encontra uma análise publicada esta semana por pesquisadores da University of California, Berkeley, do Politecnico di Milano (Polytechnic University of Milan) e da Massey University da Nova Zelândia.

Embora as origens exatas do vírus SARS-CoV-2 permaneçam obscuras, os cientistas acreditam que a doença provavelmente surgiu quando um vírus que infecta morcegos-ferradura foi capaz de se espalhar para os humanos, seja diretamente através do contato de animais selvagens com humanos, ou indiretamente primeiro infectar um animal hospedeiro intermediário, como o pangolim, às vezes conhecido como tamanduá escamoso. Morcegos-ferradura são conhecidos por carregar uma variedade de coronavírus, incluindo cepas que são geneticamente semelhantes às que causam COVID-19 e síndrome respiratória aguda grave (SARS).

O novo estudo usou o sensoriamento remoto para analisar os padrões de uso da terra em toda a área de alcance do morcego-ferradura, que se estende da Europa Ocidental ao Sudeste Asiático. Ao identificar áreas de fragmentação florestal, assentamento humano e produção agrícola e pecuária, e comparando-os a habitats de morcegos-ferradura conhecidos, eles identificaram potenciais pontos quentes onde o habitat é favorável para essas espécies de morcegos e de onde esses chamados vírus zoonóticos poderiam potencialmente saltar de morcegos para humanos. A análise também identificou locais que poderiam facilmente se tornar pontos críticos com mudanças no uso do solo.

“Mudanças no uso da terra podem ter um impacto importante na saúde humana, tanto porque estamos modificando o meio ambiente, mas também porque podem aumentar nossa exposição a doenças zoonóticas”, disse o coautor do estudo Paolo D’Odorico, professor de ciências ambientais, política e gestão na UC Berkeley. “Cada mudança formal no uso da terra deve ser avaliada não apenas pelos impactos ambientais e sociais sobre os recursos, como estoques de carbono, microclima e disponibilidade de água, mas também pelas possíveis reações em cadeia que podem impactar a saúde humana.

A maioria dos pontos quentes atuais está concentrada na China, onde uma crescente demanda por produtos de carne impulsionou a expansão da pecuária industrial em grande escala. A produção concentrada de gado é particularmente preocupante porque a prática reúne grandes populações de animais geneticamente semelhantes, geralmente imunossuprimidos, que são altamente vulneráveis ​​a surtos de doenças, disseram os pesquisadores.

A análise também descobriu que partes do Japão, norte das Filipinas e China ao sul de Xangai correm o risco de se tornarem pontos quentes com mais fragmentação florestal, enquanto partes da Indochina e da Tailândia podem passar para pontos quentes com aumentos na produção de gado.




O morcego-ferradura é conhecido por carregar uma variedade de coronavírus, incluindo cepas que se assemelham àquelas que causam a síndrome respiratória aguda grave (SARS) e COVID-19 em humanos. (Foto de Davidvraju via Wikimedia Commons | CC BY-SA 4.0)


“As análises objetivaram identificar o possível surgimento de novos pontos quentes em resposta a um aumento em um dos três atributos de uso do solo, destacando tanto as áreas que poderiam se tornar adequadas para transbordamento quanto o tipo de mudança no uso do solo que poderia induzir a ativação do ponto quente, ”Disse a co-autora do estudo Maria Cristina Rulli, professora de hidrologia e segurança hídrica e alimentar no Politécnico de Milão, na Itália. “Esperamos que esses resultados possam ser úteis para identificar intervenções direcionadas específicas da região, necessárias para aumentar a resiliência aos transbordamentos de coronavírus”.

A invasão humana no habitat natural também pode aumentar indiretamente a exposição a doenças zoonóticas, reduzindo a valiosa biodiversidade. Quando as terras florestais se tornam fragmentadas e os habitats naturais são destruídos, as espécies que requerem habitats muito específicos para sobreviver, chamadas de “especialistas”, podem diminuir ou mesmo extinguir-se. Sem a competição de especialistas, espécies “generalistas”, que são menos exigentes quanto ao seu habitat, podem assumir o controle.

Os morcegos-ferradura são uma espécie generalista e têm sido frequentemente observados em áreas caracterizadas por distúrbios humanos. Trabalhos anteriores de Rulli, D’Odorico e do co-autor do estudo David Hayman também relacionaram a fragmentação da floresta e a destruição do habitat na África aos surtos do vírus Ebola.

“Ao criar condições que são desvantajosas para as espécies especializadas, as espécies generalistas são capazes de prosperar”, disse D’Odorico. “Embora não possamos rastrear diretamente a transmissão do SARS-CoV-2 da vida selvagem para os humanos, sabemos que o tipo de mudança no uso da terra que traz os humanos para a cena está tipicamente associado à presença desses morcegos que são conhecidos por carregam o vírus. ”

Embora a China tenha sido líder no plantio de árvores e outros esforços de ecologização nas últimas duas décadas, muitas das árvores foram plantadas em áreas descontínuas de terra ou fragmentos de floresta. Para inclinar o equilíbrio ecológico em favor de espécies especializadas, criar áreas contínuas de cobertura florestal e corredores de vida selvagem são mais importantes do que aumentar a cobertura total de árvores.

“ A saúde humana está ligada à saúde ambiental e também à saúde animal”, disse D’Odorico. “Nosso estudo é um dos primeiros a conectar os pontos e realmente aprofundar os dados geográficos sobre o uso da terra para ver como os humanos estão entrando em contato com espécies que podem ser portadoras.”

Os coautores do artigo também incluem Nikolas Galli do Politecnico di Milano e David Hayman da Massey University


Referência:

Rulli, M.C., D’Odorico, P., Galli, N. et al. Land-use change and the livestock revolution increase the risk of zoonotic coronavirus transmission from rhinolophid bats. Nat Food (2021). https://doi.org/10.1038/s43016-021-00285-x

Henrique Cortez, tradução e edição, a partir de original da University of California, Berkeley

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 03/06/2021




Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 03/06/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/06/01/estudo-inedito-detecta-agrotoxicos-em-alimentos-ultraprocessados/

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Coronavírus no cérebro: Drogas que bloqueiam receptor poderiam prevenir ou tratar problemas neurológicos

Sintomas neurológicos têm sido relatados em pacientes com covid-19 e crescem as evidências de que o coronavírus tem a capacidade de neuroinvasão, ou seja, de entrar no sistema nervoso central e infectar suas células. Um artigo de pesquisadores da USP e colaboradores no periódico Molecular Psychiatry discute possíveis mecanismos para que os vírus acessem o sistema nervoso e os efeitos inflamatórios que provocam no cérebro, sugerindo que a ativação exagerada de um receptor celular chamado P2X7R está associada a essa “tempestade inflamatória”.


Coordenador da pesquisa, o professor do Instituto de Química (IQ) da USP Henning Ulrich explica que a infecção por sars-cov-2 induz a uma condição de neuroinflamação, e que “a inflamação crônica no cérebro é uma característica em doenças psiquiátricas como depressão e também neurodegenerativas, como a doença de Parkinson”.


Henning Ulrich - Foto: Arquivo Pessoal


Deste modo, os pacientes com estes distúrbios, que estão associados à ativação de mecanismos neuroimunes, podem ser mais suscetíveis a desenvolver condições graves do sistema nervoso central pela covid-19. Drogas para diminuir esta ativação, portanto, poderiam ser um caminho para evitar os danos da doença no cérebro.

O cérebro está logo ali

A primeira pergunta que podemos fazer é: como o coronavírus chega até o cérebro?. Este é um processo intrincado para ser descrito, mas que na prática pode ocorrer relativamente rápido.



Deidiane Ribeiro - Foto: Arquivo Pessoal


Ágatha Giacomelli - Foto: Arquivo Pessoal


“Estudos após a morte indicam que o vírus é capaz de infectar células do cérebro, uma vez que ele já foi identificado no tecido cerebral de pacientes infectados com o sars-cov-2”, diz Deidiane Elisa Ribeiro, que realiza pós-doutorado no IQ e que divide a primeira autoria do trabalho com a também pesquisadora em pós-doutorado Ágatha Oliveira Giacomelli. Ela explica que, para isso, o vírus precisa ultrapassar uma proteção que envolve nosso encéfalo chamada barreira hematoencefálica, e há algumas hipóteses sobre como ele consegue fazer isso.


Para começar, o vírus entra no corpo principalmente pelo nariz, e chega até os pulmões. E para infectar qualquer célula, ele precisa se ligar a proteínas que ficam nas membranas das células, chamadas receptores. Mas é necessário que sejam os receptores certos. Nos pulmões, ele utiliza tanto receptores TMPRSS2 como ACE2.





Após infectar algumas células do pulmão, e se reproduzir usando a maquinaria celular (já que o vírus não possui uma), o sars-cov-2 se espalha pelo órgão rapidamente. As células que foram infectadas liberam proteínas pró-inflamatórias e moléculas de ATP (aquela molécula mais conhecida por ser a reserva de energia nas células). Quando está em grande quantidade no meio externo à célula, o ATP causa danos celulares.


O ATP também ativa receptores P2X7 em células pulmonares e em macrófagos – células de defesa que fagocitam (englobam e destroem) agentes estranhos como vírus. Isso faz com que os macrófagos aumentem a liberação das principais substâncias do processo inflamatório, as citocinas, além de quimiocinas – e mais ATP, num ciclo que se retroalimenta induzindo à famosa “tempestade de citocinas”. Vários processos fisiológicos ficam desregulados em razão disso.




Pela circulação, tanto o vírus como os fatores pró-inflamatórios liberados chegam a outros tecidos do corpo, inclusive ao cérebro. Para isso, ele infecta as células endoteliais da barreira hematoencefálica, além de infectar astrócitos e neurônios adjacentes aos vasos sanguíneos ligando-se aos receptores ACE2 destas células.




Durante a infecção, a barreira hematoencefálica fica mais permeável e deixa que passem para o tecido cerebral citocinas (moléculas pró-inflamatórias) e células de defesas como leucócitos. O problema é que muitos desses leucócitos estão infectados, recheados de vírus, e agem como cavalos de tróia, levando os vírus para dentro do sistema nervoso central. Está aí uma das rotas do sars-cov-2 até o cérebro, mas há outra possível, que também começa no nariz.


Na cavidade nasal, o vírus infecta e se multiplica em células sustentaculares, usando como acesso, novamente, os receptores TMPRSS2 e ACE2. Essas células também expressam os receptores P2X7 e iniciam um ciclo semelhante ao já descrito.

Finalmente, o sars-cov-2 também pode infectar neurônios sensoriais olfativos, e usar suas conexões para ingressar no sistema nervoso central.


Uma vez no cérebro, o vírus pode alterar funções cerebrais tanto infectando neurônios e células da glia (outras células do sistema nervoso que têm uma série de funções), quanto pelos efeitos que vêm da tempestade de citocinas. O resultado é um processo inflamatório caracterizado por hiperativação das células da glia. Ainda, a tempestade de citocinas induz à formação de coágulos e aumenta a permeabilidade de pequenos vasos sanguíneos, os capilares, podendo resultar em um acidente vascular cerebral, o AVC.


Foto: Infográfico feito pelos pesquisadores


A importância do receptor P2X7


Na fisiologia humana, alguns estímulos podem levar a um ciclo que reforça o desequilíbrio. Ciclos assim são chamados de feedback positivo, ou retroalimentação positiva. O mecanismo envolvido nos prejuízos causados pelo coronavírus no tecido cerebral pode ser caracterizado como um feedback positivo, desencadeando uma série de eventos danosos que se intensificam mutuamente.

Primeiramente, o estresse celular induz à liberação daquelas substâncias pró-inflamatórias, as citocinas, e do ATP. O ATP, por sua vez, ativa os receptores P2X7, que no cérebro estão presentes principalmente em células da glia. A primeira é a micróglia, que no sistema nervoso central tem, entre outros papéis, a função de defesa. Outro tipo de células da glia que têm receptores P2X7 são os astrócitos. Com os receptores P2X7 ativados, aumenta a entrada de cálcio nestas células, o que, por sua vez, aumenta a liberação de um neurotransmissor chamado glutamato. O glutamato ativa outros receptores presentes nos astrócitos e nos terminais nervosos dos neurônios – o que também abre as portas para entrada de cálcio nessas células, resultando, de novo, em liberação de glutamato e de mais ATP. “O ATP foi sugerido há pouco tempo como um neurotransmissor”, lembra Deidiane Ribeiro, “então esta é uma proposta relativamente recente, e tem se mostrado que este sistema tem várias funções em diversas patologias”.

A partir daí, o cálcio que ingressa nos neurônios desencadeia outros mecanismos que resultam na produção de óxido nítrico, entrando em reações que, por sua vez, geram as chamadas espécies reativas de oxigênio, mais conhecidas como radicais livres, extremamente danosos às células, desde as membranas celulares até o próprio DNA. “O principal efeito disso seria a morte de neurônios”, explica Deidiane Ribeiro.

Conforme o cálcio entra na célula pela ativação do receptor P2X7, o potássio sai dela. Nas micróglias, esse potássio pode desencadear a ativação de um inflamassoma (complexo de proteínas que é um sensor da inflamação) chamado NLRP3. “O inflamassoma é uma espécie de sensor de perigo”, define o professor Ulrich. O NLRP3 então induz a uma cascata de eventos que, ao final, resulta no agravamento do processo inflamatório.

A hiperativação do receptor P2X7 e a estimulação do inflamassoma NLRP3 são observadas em pacientes com desordens psiquiátricas e doenças neurodegenerativas, como o Parkinson. Isso, postulam os pesquisadores, poderia aumentar tanto a suscetibilidade destes pacientes à infecção pelo sars-cov-2 quanto a gravidade com que a covid-19 se manifesta neles. Além disso, a infecção pelo sars-cov-2 em si poderia desencadear ou agravar esses transtornos cerebrais.

Assim, argumentam, inibir a expressão exagerada do receptor P2X7 e também do inflamassoma NLRP3 poderiam ser estratégias promissoras para prevenir ou tratar complicações psiquiátricas ou doenças neurodegenerativas associadas à covid-19.

Alto impacto


O professor Henning Ulrich destaca o reconhecimento do trabalho dos pesquisadores, publicado numa revista científica de alto impacto pertencente ao grupo Nature. “Temos poucos trabalhos brasileiros nesta revista, que também cobra uma taxa de mais de 4 mil dólares para que os artigos fiquem disponíveis em acesso aberto. Devido à importância do nosso trabalho, reconhecida pelos editores, foi permitido que o artigo ficasse aberto sem que fosse cobrada esta taxa”, conta, ao ressaltar que este é o segundo artigo do seu grupo publicado no periódico desde o último ano.

Ulrich é o principal nome no Brasil na pesquisa de doenças psiquiátricas e neurodegenerativas e mecanismos de neurorregeneração envolvendo a chamada sinalização purinérgica, descoberta nos anos 1990, e de que participam os receptores purinérgicos, especialmente o P2X7, ativado pelo ATP.


“O que investigamos é o efeito danoso deste receptor na doença de Parkinson, em que estamos vendo características similares ao que estamos propondo aqui para a covid, como a morte celular”, diz. E completa: “quando inibimos o receptor P2X7 em modelos animais, vemos tanto uma melhoria na função motora, afetada no Parkinson, como uma redução da morte neuronal, especificamente dos neurônios dopaminérgicos, envolvidos nesta doença, além de uma diminuição da neuroinflamação, com a redução da ativação excessiva da glia, que é muito danosa no sistema nervoso”.Henning Ulrich


O artigo Hyperactivation of P2X7 receptors as a culprit of COVID-19 neuropathology tem autoria de Deidiane Elisa Ribeiro (IQ) e Ágatha Oliveira-Giacomelli (IQ), com colaboração de Talita Glaser (IQ), Vanessa F. Arnaud-Sampaio (IQ), Roberta Andrejew (IQ), Luiz Dieckmann (Unifesp), Juliana Baranova (IQ), além da professora do IQ Claudiana Lameu, do professor Mariusz Z. Ratajczak (Universidade de Louisville, EUA) e do professor do IQ Henning Ulrich, que é o coordenador das pesquisas.



Autor: Reportagem: Luiza Caires
Diagramação: Camila Paim
Fonte: JORNAL DA USP
Sítio Online da Publicação: JORNAL DA USP
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/coronavirus-no-cerebro-drogas-que-bloqueiam-receptor-poderiam-prevenir-ou-tratar-problemas-neurologicos/

Variante sul-africana do coronavírus é identificada pela primeira vez no Brasil

A variante sul-africana do coronavírus, conhecida como B.1.351, foi identificada pela primeira vez no Brasil, por meio de análises genéticas, em uma amostra coletada na cidade de Sorocaba (interior de São Paulo). A descoberta foi feita por um grupo de pesquisadores reunidos em uma rede de vigilância genômica que monitora a disseminação do vírus da covid-19 no Estado de São Paulo, coordenada pelo Instituto Butantan e com participação da USP e outras instituições de pesquisa. A variante sul-africana preocupa os cientistas porque ela é mais transmissível e tem maior capacidade de fugir do sistema imune das pessoas infectadas.



Rafael Santos Bezerra - Foto: Arquivo pessoal (Reprodução/Linkedin)


A descoberta é descrita em artigo publicado como preprint (versão prévia de artigo científico), no site medRxiv em 4 de abril. O trabalho teve origem no estabelecimento de uma rede de vigilância genômica do vírus sars-cov-2 no Estado de São Paulo, integrando diversos laboratórios inclusive da iniciativa privada. “O foco da pesquisa é o sequenciamento e obtenção de genomas do sars-cov-2 em diversas localidades do Estado, para desta forma entender a dinâmica de disseminação do vírus na população, assim como encontrar potenciais novas variantes”, explica ao Jornal da USP o pesquisador Rafael dos Santos Bezerra, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, um dos autores do trabalho. “Isso já vem se demonstrando efetivo com o achado da cepa sul-africana encontrada na cidade de Sorocaba.”


Ao todo, os pesquisadores sequenciaram e geraram 217 genomas do vírus, a partir de uma coleta inicial de amostras em diversas cidades paulistas, entre as quais Sorocaba, Araçatuba, Marília, Taubaté, Campinas e Ribeirão Preto, além de munícipios das regiões da Grande São Paulo e Baixada Santista. “Posteriormente classificamos cada isolado do vírus, conforme sua respectiva linhagem, e caracterizamos o padrão de mutações”, descreve Bezerra. “A fim de traçar o histórico evolutivo dessas sequências, executamos análises genéticas e, por fim, reconstruímos a história temporal do isolado da B.1.351, desta forma podendo estimar uma possível data de introdução da linhagem no País.”


Dos 217 genomas analisados, 64.05% eram pertencentes à linhagem P.1, surgida no Estado do Amazonas e identificada pela primeira vez no Japão, seguida pelas linhagens B.1.1.28, que era a de maior distribuição no Brasil e provavelmente originou a P.1, com 25.34% e a B.1.1.7, conhecida como variante inglesa do coronavírus, que apareceu em 5.99% das amostras. “A linhagem P.2, também possivelmente originária da B.1.1.28, que é uma variante de grande interesse científico, foi detectada em apenas 0.92% dos casos. Isso demonstra um possível avanço da P.1 sobre outras linhagens que eram predominantes em São Paulo, como a B.1.1.28”, relata o pesquisador.

“Apesar da variante sul-africana ter sido identificada em uma única amostra, esse fato é preocupante por ela ter um comportamento muito parecido com o da P.1, apresentando maior transmissibilidade e escape do sistema imune.”




Mutações

Segundo o trabalho, a linhagem identificada em Sorocaba compartilha 15 mutações com o isolado inicialmente caracterizado na África do Sul, porém não apresenta seis dessas mutações definidoras e tem em seu genoma nove mutações exclusivas. “Entretanto, as análises genéticas demonstram a proximidade inegável de nosso isolado com a linhagem sul-africana, sendo que se agrupa com outras sequências deste mesmo tipo, mais precisamente com isolados da variante sequenciados na Europa”, aponta Bezerra. “A origem do ancestral comum mais recente desta variante genômica foi inferida entre meados de outubro e final de dezembro de 2020. A análise das sequências geradas demonstrou a predominância da linhagem P.1 e permitiu a detecção precoce da cepa sul-africana pela primeira vez no Brasil.”




O pesquisador relata que ainda é difícil estabelecer com maior precisão a forma como a variante do vírus chegou a Sorocaba. “Temos apenas uma sequência e estamos trabalhando no rastreamento de outras possíveis pessoas que tiveram contato com o paciente”, diz. “Entretanto a hipótese mais segura nesse instante é que seja uma cepa importada, pois Sorocaba é uma área de indústrias com alto fluxo de pessoas, porém apenas com mais isolados poderemos confirmar um possível evento de convergência.”


De acordo com Bezerra, a vigilância genômica tem se mostrado uma ferramenta de alto valor no entendimento e controle de pandemias, tornando possível, entre outras coisas, entender substituições de linhagens que podem ser mais transmissíveis como a P.1 e a B.1.351. “Isso pode ajudar governantes a se guiarem, por exemplo, com a aplicação de medidas mais restritivas para conter o avanço de tais linhagens”, destaca. “Outro fator importante e que pode ser exemplificado foi a postura adotada pelo governo japonês, que descobriu a P.1 antes mesmo do Brasil por sequenciamento do genoma do vírus e assim pôde conter a sua transmissão local.”



Foto: Freepik


“No âmbito da vacinação podemos estudar em tempo real possíveis mutações do vírus que podem acarretar falhas na vacina e assim agir antes da disseminação em massa dessas variantes”, ressalta Bezerra. “Outro importante fator é a formação de bancos de dados que podem ajudar no desenvolvimento de vacinas, medicamentos, dentre outros fatores”. O artigo Genomic monitoring unveil the early detection of the SARS-CoV-2 B.1.351 lineage (20H/501Y.V2) in Brazil foi publicado como preprint no site medRxiv em 4 de abril.

O estudo foi feito por uma rede de laboratórios e pesquisadores, coordenada pelo Instituto Butantan, em São Paulo. “Vários laboratórios e pesquisadores auxiliaram em seu desenvolvimento como, por exemplo, a FMRP, onde genomas virais estão sendo gerados no Hemocentro de Ribeirão Preto”, afirma o pesquisador. Também colaboraram no trabalho pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade de KwaZulu-Natal (África do Sul), que contribuíram fortemente com aporte intelectual e técnico, e a empresa Mendelics, sediada em São Paulo.

Vigilância


Ouvido pelo Jornal da USP, o virologista Anderson Brito, que não participou deste estudo, aponta que a presença de uma nova variante do coronavírus reforça a necessidade de maiores investimentos em testagem RT-PCR e em vigilância genômica. “Uma nova linhagem viral foi introduzida no País e levamos semanas para identificá-la”, comenta. “Estudos independentes têm apontado que esta variante, em particular, pode impactar a capacidade de neutralização de alguns anticorpos produzidos pelas vacinas. Isso pode representar um desafio ainda maior para a contenção da disseminação viral.”


Segundo o virologista, o estudo mostrou que a pessoa infectada com a variante não tinha histórico de viagem recente, seja no Brasil, seja para fora do País. “Isso indica que, provavelmente, a linhagem foi introduzida por outra pessoa, vinda do exterior, e ela se espalhou na comunidade local antes de infectar o residente de Sorocaba”, avalia. “Também indica que cadeias de transmissão desse vírus estão em curso ao menos no Estado de São Paulo.”



Brito explica que ainda não há estudos que comparem a capacidade de competição entre as linhagens do coronavírus. “Porém, as variantes P.1 e P.2 estão bastante difundidas no País, de norte a sul, e se a B.1.351 tem capacidade de competir com as variantes que já tempos, levará meses até que possamos ver uma mudança significativa na frequência das linhagens circulantes”, destaca. “O que temos que entender é que qualquer variante, mais transmissível ou não, traz riscos à saúde pública. Medidas de distanciamento e vacinação rápida, em conjunto, são essenciais para evitar o cenário de colapso do sistema de saúde, sejam quais forem as variantes em circulação.”

Mais informações: e-mail rafaelbezerra@usp.br, com Rafael dos Santos Bezerra



Autor: Júlio Bernardes
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 06/04/2021
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/variante-sul-africana-do-coronavirus-e-identificada-pela-primeira-vez-no-brasil/

sábado, 13 de março de 2021

Covid-19: 8 lições aprendidas em um ano de pandemia



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Mesmo após a vacinação, especialistas afirmam que máscaras, lavagem das mãos e distância social ainda são medidas necessárias


Quando o primeiro caso de covid-19 (Sars-CoV-2) foi detectado, há mais de um ano, o vírus surpreendeu cientistas, médicos e pacientes.


No dia 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou oficialmente que havia uma pandemia de covid-19 no mundo. Um ano depois, a doença tirou mais de 2,6 milhões de vidas e gerou 117 milhões de casos em todo o mundo, segundo dados até 10 de março.


Durante esse tempo, médicos e cientistas coletaram uma grande quantidade de evidências sobre o novo coronavírus. Por isso, agora sabemos mais sobre como ele é transmitido e como pode ser tratado com mais eficácia.


Veja, a seguir, oito lições importantes que aprendemos:

1. As máscaras faciais são essenciais para conter a covid-19


O uso de máscara facial, sozinho, não impede a disseminação do coronavírus, mas ajuda muito a conter a transmissão, de acordo com vários estudos.


Desde junho, a Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza o uso de máscaras de tecido para todo mundo que precisa sair de casa.


O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, fez a mesma indicação um pouco antes, a partir do mês de abril.


Recentemente, com o avanço de novas variantes do coronavírus, alguns países europeus passaram a exigir o uso de máscaras cirúrgicas ou de padrão equivalente à PFF2 e N95.


Embora as orientações variem de país para país, cientistas e estudos apontam que as máscaras N95, PFF2 ou equivalente oferecem um grau maior de proteção do que as cirúrgicas ou de tecido e devem ser priorizadas em situações de maior risco.


No Brasil, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) mantém a indicação de máscaras de tecido, limpas e secas, para a população em geral, enquanto as máscaras cirúrgicas e as N95, PFF2 e equivalentes devem ser usadas "pelos profissionais que prestam assistência a pacientes suspeitos ou confirmados de covid-19 nos serviços de saúde".


"A máscara de pano foi útil, e ainda é útil, mas funciona para proteger os outros de você, diminuindo a emissão de partículas de quem está usando", disse o engenheiro biomédico Vitor Mori, membro do grupo Observatório Covid-19 BR.


Atualmente, cientistas buscam formas de melhorar o nível de proteção. Em fevereiro, o CDC mostrou que o uso de uma máscara de tecido por cima de uma máscara cirúrgica pode ampliar o nível de proteção. O estudo reforça a conclusão, que vem sendo divulgada por diversos cientistas, de que um bom ajuste da máscara ao rosto é fundamental para aumentar sua eficiência geral.

2. Covid-19 não afeta apenas os idosos



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Não são apenas os idosos: os jovens também podem ser gravemente afetados pela covid-19


O risco de desenvolver sintomas graves com covid-19 aumenta com a idade, colocando os adultos mais velhos em maior risco. A razão para isso é muito simples: à medida que envelhecemos, nosso sistema imunológico também envelhece, deixando nosso corpo menos capaz de combater infecções.


No entanto, isso não significa que os jovens sejam imunes à covid-19 — mesmo aqueles que não apresentam problemas de saúde subjacentes, como diabetes, hipertensão e obesidade.


Como qualquer outra pessoa, os jovens também podem desenvolver sintomas graves, precisar de hospitalização ou até morrer por causa da doença.


Mesmo assim, o risco de morte por covid-19 entre menores de 50 anos (e especialmente entre menores de 30 anos) é considerado baixo.


A BBC ouviu depoimentos de enfermeiras na Espanha que afirmam que a pneumonia derivada da covid-19 estava se tornando uma complicação regular em pacientes mais jovens.


"Este vírus pode colocar jovens no hospital por semanas, ou mesmo matá-los", disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, em março de 2020.


Ghebreyesus também alertou que mesmo que os jovens não possam sofrer gravemente com a doença, seu comportamento pode significar "a diferença entre a vida e a morte para outra pessoa".

3. Covid não é uma 'gripezinha'



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Covid e gripe compartilham alguns sintomas, mas a covid é muito mais perigoso para muitas pessoas


Sintomas de Covid podem ser semelhantes aos da gripe: febre, tosse, fadiga. Algumas pessoas também podem sentir dores na musculatura, dores de cabeça e, possivelmente, diarreia ou vômito.


E como a gripe, o coronavírus pode ser transmitido antes que as pessoas apresentem quaisquer sintomas, ou os pacientes podem até ser assintomáticos.


No entanto, o resultado da covid é muito mais sério para muitas pessoas.


Políticos como o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, ou o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, podem ter tentado minimizar a gravidade da covid-19, dizendo que era como uma "gripezinha", ​​mas as estatísticas em ambos os países contam uma história diferente.


Nos Estados Unidos, a covid tem sido a principal causa de morte nos últimos meses (mais de 520 mil pessoas morreram até agora), enquanto no Brasil o número já passou de 260 mil mortes, superando outras doenças altamente letais, como acidente vascular cerebral, doenças cardíacas e pneumonia, segundo dados oficiais do Brasil.

4. Evidências sugerem que o coronavírus é de origem animal (e não foi produzido em laboratório)



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Em algumas partes da Ásia, existem mercados onde morcegos, ratos e cobras podem ser comprados como alimento


A equipe da OMS que investigou as origens do Sars-CoV-2 em Wuhan, na China, diz que todas as evidências apontam para uma origem "animal" do novo coronavírus.


"Todos os dados que coletamos até agora nos levam a concluir que a origem do coronavírus é animal", disse o chefe da missão da OMS, Peter Ben Embarek.


De acordo com Embarek, as evidências mostram que o novo coronavírus apareceu pela primeira vez em morcegos: "Mas é improvável que esses animais sejam encontrados em Wuhan. Ainda não foi possível identificar o animal intermediário", explicou.


Embarek disse que a investigação sobre a origem do coronavírus ainda é um trabalho em andamento, mas acrescentou que a hipótese de que o novo coronavírus tenha escapado de um laboratório é "extremamente improvável".

5. Cloroquina e hidroxicloroquina não funcionam como tratamento contra covid-19



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Não há evidências de que a cloroquina e a hidroxicloroquina funcionem contra covid-19: elas podem até causar efeitos prejudiciais


No início da pandemia, acreditou-se que a cloroquina, remédio tradicionalmente usado para combater a malária, e seu derivado, a hidroxicloroquina, poderiam funcionar como tratamentos contra a covid.


Pesquisadores chineses e um grupo de pesquisa francês sugeriram que as drogas poderiam ser eficazes, mas desde então muitos estudos relataram que essas drogas não trazem benefícios ou podem até causar efeitos prejudiciais.


Em julho do ano passado, a OMS suspendeu os ensaios com hidroxicloroquina após descobrir que não houve redução na mortalidade em pacientes com covid-19. Até hoje não há eficácia comprovada no uso dessas drogas em casos relacionados ao coronavírus.

6. É improvável que você seja infectado por embalagens



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Lave as mãos com água e sabão por 20 segundos ao voltar das compras de alimentos e repita como precaução depois de guardar os alimentos


No início da pandemia, milhares de pessoas dividiram nas redes sociais a angústia de ter que limpar embalagens e alimentos regularmente.


Mas, de acordo com a OMS, "não há casos confirmados de covid-19 transmitidos por alimentos ou embalagens de alimentos".


No entanto, a OMS lista uma série de precauções para evitar a contaminação cruzada, como o uso de desinfetante para as mãos antes de entrar nas lojas e a orientação "lavar bem as mãos ao voltar para casa, após manusear embalagens de alimentos e antes de comer".


Nessa linha, a Food and Drug Administration (FDA) dos EUA produziu um relatório que diz que não há evidências comprovadas de que o alimento ou sua embalagem sejam uma fonte provável de transmissão do coronavírus.


A entrega de alimentos em domicílio não deve ser motivo de preocupação, mas é importante lavar as mãos após receber a comida.


Especialistas também aconselham o uso de sacolas plásticas apenas uma vez.

7. Você pode pegar covid mais de uma vez



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Ter covid uma vez não garante que você não será infectado novamente no futuro


Uma pesquisa da agência de saúde pública do governo britânico, Public Health England, descobriu que a maioria das pessoas que contraíram covid-19 (83%) tem imunidade por pelo menos cinco meses.


No entanto, casos de reinfecção, embora raros, estão sendo identificados em vários países. E a maior preocupação para os especialistas em saúde é a reinfecção com novas variantes.


Se um número significativo de pessoas que superaram a covid-19 começar a testar positivo novamente, pode ser devido a uma nova variante. Neste caso, uma cepa que é capaz de evitar os anticorpos gerados pelo corpo de uma pessoa após uma primeira infecção.


Existem muitos milhares de versões diferentes do coronavírus circulando, mas as mais preocupantes no momento são:

A variante do Brasil (também conhecida como P.1), que já foi encontrada em pelo menos 15 países
A variante do Reino Unido ou Kent (também conhecida como B.1.1.7), que se espalhou para mais de 50 países e parece estar em mutação novamente
A variante da África do Sul (B.1.351), encontrada em pelo menos 20 outros países


Não é inesperado que novas variantes tenham sido desenvolvidas, já que todos os vírus sofrem mutação enquanto fazem cópias de si mesmos para se espalhar e prosperar.


Muitas dessas diferenças são irrelevantes. Alguns podem até ser prejudiciais à sobrevivência do vírus. Mas alguns podem torná-lo mais infeccioso ou ameaçador.


Nos três casos acima, as novas variantes mais contagiosas desempenharam um papel importante na produção de altas taxas de infecções e hospitalizações.

8. Até agora, as vacinas ainda devem funcionar contra novas variantes



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As novas cepas de covid representam um novo desafio para conter a propagação da doença


As vacinas atuais foram elaboradas com base em versões anteriores do coronavírus, mas os cientistas acreditam que ainda devem funcionar, embora talvez não tão bem.


Um estudo recente sugere que a variante brasileira pode estar resistindo a anticorpos em pessoas que deveriam ter alguma imunidade porque tinham contraído e covid e se recuperado de uma versão anterior do coronavírus.


Os primeiros resultados de laboratório, no entanto, sugerem que a vacina da Pfizer pode proteger contra as novas variantes, embora um pouco menos eficaz.


Duas novas vacinas contra o coronavírus que podem ser aprovadas em breve (uma da Novavax e outra da Janssen) parecem oferecer alguma proteção também.


Dados da equipe de vacinas Oxford-AstraZeneca sugerem que ela protege da mesma forma contra a nova variante do Reino Unido. Ele oferece menos proteção contra a variante da África do Sul, embora ainda deva proteger contra casos graves.


Os primeiros resultados da Moderna sugerem que sua vacina é eficaz contra a variante da África do Sul, embora a resposta imunológica possa não ser tão forte ou duradoura.


No Brasil, o Instituto Butantan informou que estudos preliminares realizados com pessoas vacinadas demonstram que a Coronavac é capaz de neutralizar variantes do novo coronavírus. Dados iniciais apontam, segundo o instituto, que a Coronavac é capaz de combater as variantes P.1 (também conhecida como amazônica) e P.2 (do Rio de Janeiro) do novo coronavírus.


Novas variantes podem surgir no futuro, mas mesmo no pior cenário, as vacinas poderiam ser redesenhadas e ajustadas para serem uma combinação melhor. Isso poderia acontecer em questão de semanas ou meses, se necessário, dizem os especialistas.


Podemos um dia acabar tratando o coronavírus como tratamos a gripe, onde uma nova injeção é produzida a cada ano para compensar quaisquer alterações nos vírus da gripe circulantes.




Autor: BBC News Brasil
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 11/03/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-56358467