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quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Paternidade tardia: quais os riscos de ser pai mais velho?



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Muitos homens estão postergando os planos de paternidade por causa de projetos educacionais e profissionais

Homens que decidem virar pais depois dos 35 anos correm um risco maior de ter filhos prematuros ou com autismo, revelam as pesquisas.

Além disso, a cada ano que passa, os espermatozoides sofrem baixas significativas na quantidade e na qualidade — o que pode dificultar as tentativas de gerar um descendente.

Essas informações são particularmente importantes num cenário em que os planos de ter um bebê são postergados para cada vez mais tarde, por causa dos projetos profissionais e educacionais.


E isso ocorre num contexto em que apenas os riscos da maternidade tardia são bem mais conhecidos entre a população. De forma geral, as mulheres sabem da dificuldade aumentada da gestação após os 35 ou os 40 anos.


Do lado paterno (e pouco conhecido) dessa história, a boa notícia é que existem recomendações, exames e tratamentos que permitem acompanhar cada caso e diminuem os riscos ao bebê, como você confere a seguir.

Um fenômeno cada vez mais frequente


A médica Karla Giusti Zacharias, que é especialista em reprodução humana e integra o corpo clínico da Rede D'Or - Hospital São Luiz Itaim, em São Paulo, relata que recebe com frequência no consultório homens mais velhos que desejam ter um filho.


"Vejo pacientes de 50 ou 60 anos que estão num segundo casamento com uma esposa mais jovem, que deseja engravidar", observa.


A dúvida que eles trazem aos profissionais da saúde é justamente aquela que aparece no título desta reportagem: quais os riscos de ser pai mais velho?


Em linhas gerais, o aparelho reprodutor masculino funciona numa lógica completamente diferente do feminino.


A partir da puberdade, que acontece lá pelos 10 aos 14 anos, os homens começam a fabricar os espermatozoides — produção essa que continua a acontecer durante toda a vida.


Já as mulheres nascem com todos os óvulos prontos. Eles são liberados também a partir da puberdade, a cada novo ciclo menstrual.


Só que a quantidade de gametas nelas é limitada — as meninas têm entre 300 mil e 500 mil óvulos no momento da primeira menstruação — e costuma quase acabar quando elas chegam aos 45 a 55 anos, quando ocorre a menopausa.


Ou seja: enquanto novos espermatozoides são produzidos constantemente nos testículos, os óvulos são guardados numa espécie de "poupança", e liberados aos poucos ao longo da adolescência e da vida adulta.


Mas daí vem a questão importante: embora a fabricação dos gametas masculinos seja constante, a qualidade desse processo não é a mesma após uma certa idade.


Com o passar dos anos, é natural que essas células sejam feitas em menor quantidade e apresentem mais defeitos.


Essas falhas, por sua vez, podem impedir a fecundação (quando um espermatozoide entra no óvulo), o que leva à dificuldade para ter um filho.


Porém, algumas pesquisas indicam que, mesmo quando as tentativas de gerar um descendente são bem sucedidas, existe o risco de que o bebê apresente com mais frequência algumas condições de saúde, como nascimento prematuro, complicações após o parto e até autismo.



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Os espermatozoides são fabricados de forma contínua a partir da puberdade

O que dizem os estudos


Uma investigação feita em 2018 na Escola de Medicina da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, analisou dados de mais de 40 milhões de partos e descobriu que, de forma geral, quanto mais velho é o pai, maior o risco para a criança.


Homens que têm filhos após os 35 anos correm um risco relativamente mais alto de que o bebê nasça com baixo peso, tenha convulsões ou precise de ventilação mecânica para respirar logo após o parto.


Indivíduos com mais de 45 anos apresentam uma probabilidade 14% maior de que a criança seja prematura (quando ela vem ao mundo antes de 37 semanas de gestação). Naqueles que já passaram dos 50, há um risco 28% mais elevado de o recém nascido precisar ficar um tempo numa Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal.


À época da publicação do artigo, o médico Michael Eisenberg, professor de urologia e autor principal da pesquisa, esclareceu que números do tipo não devem ser interpretados com alarmismo. Na visão dele, os achados servem para que as famílias se planejem bem e façam os acompanhamentos necessários.


"Há uma tendência de olharmos para os fatores maternos na hora de avaliar os riscos associados ao nascimento. Mas nosso estudo mostra que ter um bebê saudável é um trabalho de equipe, e a idade do pai também contribui para isso", declarou.


Já um artigo de revisão sistemática e metanálise (um tipo de trabalho científico que compila e organiza várias pesquisas publicadas anteriormente sobre um mesmo tema) publicado em 2017 apontou outro perigo da paternidade tardia: o risco aumentado de autismo.


Como conclusão, o trabalho aponta que, a cada aumento de 10 anos na idade do pai, há uma probabilidade 21% maior de o filho ter esse transtorno no desenvolvimento neurológico, que está relacionado a dificuldades na comunicação, na interação social e no comportamento.


A ciência ainda não sabe responder com certeza o que uma coisa tem a ver com a outra.


O médico Alfredo Canalini, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia, aponta que existem evidências de uma relação entre paternidade tardia e maior probabilidade de doenças como esquizofrenia, mas os estudos sobre o tema não são suficientemente sólidos.


O especialista ainda aponta que, mesmo com a queda na qualidade e na quantidade de espermatozoides com o passar dos anos, a tendência é que os gametas mais aptos sejam bem sucedidos e um deles faça a fecundação — o que diminui os riscos à saúde da criança que será gerada.


"O caminho até o óvulo pode ser comparado a uma ultramaratona, e geralmente apenas os espermatozoides capacitados e saudáveis conseguem chegar perto da linha de chegada", compara.


Mas será que, diante de todos esses perigos, existem meios de minimizar os problemas e garantir uma gestação saudável?

Como ficar mais protegido


Canalini ressalta que não existe uma receita de bolo para driblar os possíveis perigos da paternidade tardia.


"A biologia do aparelho reprodutor masculino é muito individualizada e cada homem precisa passar por um atendimento para a gente entender o que está acontecendo e o que pode ser feito", diz.



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Homens que desejam ser pais mais velhos devem pesar a carga de trabalho envolvida na criação de um filho


Uma consulta dessas envolve o clínico geral ou o urologista, médico especialista nas vias urinárias e nos órgãos sexuais e reprodutivos do homem.


Essa avaliação pode ser feita de rotina, a cada ano, quando há o desejo de ter um filho ou se alguns sintomas aparecem, como irritação excessiva, falta de libido, dificuldade para ter ou manter a ereção, além das tentativas frustradas de engravidar.


"E, claro, existem aquelas recomendações clássicas que valem para a saúde do corpo inteiro, como ter uma alimentação saudável, evitar o sedentarismo, fazer atividade física regular, não fumar, manter o peso adequado…", lista o médico.


Zacharias lembra que, quando as mudanças de estilo de vida não surtiram resultado, é possível partir para exames e tratamentos específicos.


"Se existe um perfil muito ruim dos espermatozoides, podemos propor algumas terapias para melhorar a qualidade ou a quantidade deles", resume.


Por fim, a especialista destaca um último risco que afeta diretamente os pais mais velhos: a carga de trabalho envolvida com a criação de um filho.


"Não podemos nos esquecer que muitos homens mais velhos estão numa fase da vida em que eles já trabalharam bastante e estão mais cansados", aponta.


"É preciso colocar na balança e pensar na importância de acompanhar o desenvolvimento da criança, levantar de madrugada para trocar fralda, brincar…"


"Os casais devem conversar sobre isso para que sempre tomem a melhor decisão para eles e para a família", conclui.





Autor: André Biernath - @andre_biernath
Fonte: BBC News Brasil em Londres
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 11/08/2022
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-62478442

terça-feira, 31 de maio de 2022

Refluxo: por que alguns alimentos elevam risco



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Dor na região do estômago, queimação e ânsia. Esses eram alguns dos sintomas que a estudante de educação física Emanuelle Carolina Pereira, de 21 anos, tinha ao sofrer com o refluxo (ou doença do refluxo gastroesofágico).

O refluxo ocorre devido ao retorno anormal do conteúdo do estômago (com pH ácido) ao esôfago, podendo atingir, em alguns casos, a laringe e a cavidade oral. Segundo especialistas, alimentos que provocam um maior relaxamento da musculatura da transição entre o esôfago e o estômago estão associados às queixas da doença. Assim, a ingestão de chocolates, cafés, refrigerantes, bebidas alcoólicas e frituras aumentam o risco de a pessoa desenvolver o problema. Entenda mais abaixo.

A condição se torna uma doença quando os sinais ocorrem ao menos uma vez por semana e atrapalham a qualidade de vida do paciente. Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, cerca de 25% da população adulta sofre com o incômodo.

Emanuelle conta que se queixava desde bebê, mas que os efeitos maiores foram sentidos quando ela era adolescente. "Comecei a me alimentar mais com fast food e sentia ele voltando", diz.

Três anos atrás, ela iniciou um tratamento de curta duração para amenizar os sintomas e fazer com que as crises diminuíssem. Ela mudou os hábitos alimentares e sentiu uma melhora no dia a dia.



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Emanuelle, de 21 anos, foi diagnosticada com lesões no esôfago

No entanto, um ano depois de iniciar o procedimento, voltou a comer de forma errada, com alimentos gordurosos, e também sofreu com alguns efeitos colaterais da medicação.

Ao realizar uma nova endoscopia, exame comum que verifica alterações dos órgãos gastrointestinais, ela recebeu o diagnóstico de lesões no esôfago.

A estudante segue tratando esse novo sintoma e espera que os sinais do refluxo diminuam, já que atrapalham muito sua rotina. "Ele complica um pouco os exercícios que exigem mais força abdominal. Para comer também é ruim, pois dá muita sensação de queimação. Não é nada legal."

Coxinha e café eram os grandes vilões

O aposentado José Félix, de 64 anos, também sofreu com a doença do refluxo gastroesofágico por anos. "Fã" de coxinha, café e comidas gordurosas, ele sentiu os efeitos da ingestão excessiva desses alimentos.

Os sinais ocorriam quase imediatamente depois de consumi-los e ele não se dava conta que estava desenvolvendo refluxo.



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José Félix, de 64 anos, se alimentava mal e sofreu com refluxo por anos

"Sentia muita queimação, soluço e, às vezes, era tão forte que dava até tontura quando eu me abaixava para pegar algo", relembra.

Ignorando os sintomas por muito tempo e pegando receitas caseiras na internet — o que os médicos não recomendam— ele só procurou um gastroenterologista quando a condição começou a atrapalhar muito suas atividades no dia a dia.

Depois de alguns exames, recebeu o diagnóstico de refluxo e já estava desenvolvendo uma gastrite. Além da medicação, José precisou mudar seu padrão alimentar e levar a sério o tratamento.

"Parei com fritura e segui todas recomendações médicas. Depois de umas semanas, já senti uma grande melhora", diz.

Até hoje o aposentado tenta seguir uma alimentação mais saudável e evita fast food e bebidas cafeinadas. Ele diz que às vezes é difícil resistir, mas que não deseja sentir os sintomas que tinha anteriormente.

"Se como uma coxinha até hoje não me sinto 100%. Então, evito."

O que causa o refluxo?



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Resistir às frituras é uma forma de diminuir o risco

O retorno do conteúdo do estômago para o esôfago pode ser fisiológico ou, quando ocorre de forma frequente, é caracterizado pela doença do refluxo gastroesofágico.

"Em condições normais, existe entre o esôfago e o estômago um mecanismo de barreira anatômica e funcional, que pode ser influenciado por alguns fatores que acabam favorecendo a ocorrência do refluxo", explica Helen Perussolo Alberton, médica do Serviço de Gastroenterologia e Hepatologia do Hospital Marcelino Champagnat, em Curitiba (PR).

Geralmente, maus hábitos alimentares são os principais causadores do problema. Os alimentos que provocam um maior relaxamento da musculatura da transição entre o esôfago e o estômago —conhecido como esfíncter esofágico inferior —estão associados às queixas da doença.



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O consumo de frutas cítricas em excesso também está associado ao refluxo

A ingestão de chocolates, cafés, refrigerantes, bebidas alcoólicas e frituras aumentam o risco de a pessoa desenvolver o problema.

"Estes têm seu tempo de digestão no estômago mais prolongado. As bebidas gaseificadas também aumentam a pressão dentro do órgão, piorando o refluxo", ressalta Clóvis Massato Kuwahara, endoscopista e professor do curso de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

O tabagismo também aumenta a incidência da doença do refluxo gastroesofágico. Além do cigarro, o consumo excessivo de frutas cítricas como limão, laranja, maracujá e outras também estão associados à condição.



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Café e chocolate devem ser evitados

Quais são os sintomas?

Os sinais podem demorar a aparecer e é importante que assim que os primeiros sintomas surjam, a pessoa procure um médico gastroenterologista.

Os mais comuns são azia, queimação sentida geralmente atrás do peito, e a regurgitação, que é a percepção do retorno do conteúdo ácido em direção ao esôfago e boca.



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Quando acontece de forma frequente, o retorno do conteúdo do estômago para o esôfago é caracterizado pela doença do refluxo gastroesofágico

O refluxo também pode se manifestar com sintomas atípicos como tosse, rouquidão, pigarro, sensação de afogamento, mau hálito e até desgaste do esmalte dentário.

Ele ainda pode comprometer órgãos extraesofágicos, diz a médica do Hospital Marcelino Champagnat.

Para receber o diagnóstico de doença, é necessário que o paciente faça consultas com especialistas e realize exames específicos como a endoscopia.

Como tratar o problema?

A abordagem inicial deve ser feita com mudanças comportamentais e alimentares.

Nesta primeira, é possível realizar com ações simples no dia a dia. Uma delas é respeitar os horários das refeições, realizá-las de três em três horas e evitar a ingestão excessiva de pratos pesados e calóricos antes de dormir.

Também é aconselhado elevar a cabeceira da cama para evitar o refluxo noturno e evitar possíveis engasgos.

Já na alimentação, é indicada uma diminuição do consumo de comidas e bebidas ricas em cafeína, gordura e acidez.

Em paralelo, sob orientação médica, o paciente pode tomar medicamentos antiácidos que auxiliam na melhora do "esvaziamento" do estômago. Normalmente, todo o tratamento pode durar seis meses.

Quando não ocorrem mudanças no quadro, a pessoa precisa realizar novos exames. Um deles é a manometria, que estuda a função motora do esôfago e avalia se o órgão tem algum tipo de fragilidade ou alterações nas funções peristálticas.

Eduardo Grecco, gastrocirurgião e endoscopista do Instituto EndoVitta, explica que a pessoa também pode ser submetida ao procedimento chamado phmetria, que mede a acidez gástrica e indica a quantidade ideal de remédio que o médico pode receitar.

Em alguns casos, há ainda alternativas cirúrgicas e endoscópicas indicadas para indivíduos que possuem um nível alto de acidez no esôfago.

"No caso de procedimentos cirúrgicos, é confeccionada uma válvula antirefluxo em volta do esôfago e o paciente fica um ou dois dias internado", explica Grecco, que é coordenador do Serviço e da Residência Médica de Endoscopia da Faculdade de Medicina do ABC. Segundo ele, aproximadamente 80% dos pacientes apresentam resultado satisfatório e ficam sem sintomas do refluxo após o procedimento.





Autor: Priscila Carvalho
Fonte: Rio de Janeiro para a BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 31/05/2022
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-61521632

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

O cientista brasileiro que descobriu o maior cometa já visto no Universo: 'Foi pura sorte, um acaso'



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O cosmólogo brasileiro Pedro Bernardinelli descobriu o maior cometa já conhecido pela humanidade

Quando iniciou seu doutorado nos Estados Unidos, o cosmólogo Pedro Bernardinelli, de 27 anos, não esperava encontrar cometas. "A ideia não era essa. O que aconteceu foi sorte mesmo", diz. Em abril deste ano, ele encontrou um enorme astro em uma tabela cheia de dados sobre objetos espalhados pelo Universo. Mas não apenas isso: era o maior cometa conhecido pela humanidade, cerca de 2,5 vezes maior que o detentor do recorde anterior.


Dias depois, o então cometa C/2014UN271 mudou de nome para Bernardinelli-Bernstein, homenagem ao cientista brasileiro e a seu orientador no doutorado, Gary Bernstein. "Houve um processo para a troca de nome, mas durou poucos dias. Me pediram para guardar segredo. Foi uma experiência engraçada", conta.


O novo astro já tinha sido detectado pela primeira vez em 2014, mas havia poucos informações sobre ele. Até este ano, ele era apenas um pontinho luminoso em milhares de fotos do céu tiradas por telescópios que observam o universo. Por isso levava a alcunha provisória, um número. Agora, a partir da análise do brasileiro, sabemos que ele tem cerca de 4,5 bilhões de anos e um diâmetro de 150 km (distância entre Rio de Janeiro e Cabo Frio ou São Paulo e Bertioga), o maior já registrado.



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O cometa deve chegar no ponto mais próximo do Sol em janeiro de 2031

Ele também está vindo na direção da Terra, mas não há com o que se preocupar. Os dados mostram que o cometa chegará ao ponto mais próximo do Sol em janeiro de 2031, e, ainda assim, será a uma distância de 11 UAs (cerca de 1,5 bilhões de quilômetros, próximo da órbita de Saturno).


"Uma piada que costumo contar: falar que esse objeto está vindo na direção da Terra não é errado, porque ele realmente está. Mas é a mesma coisa que falar que, toda vez que recebo meu salário, minha fortuna chega perto da fortuna do Silvio Santos. Tecnicamente está certo, mas não quer dizer que vai chegar lá", brinca o cosmólogo.


O brasileiro integra o Dark Energy Survey (DES), uma iniciativa com estudantes de universidades de oito países, incluindo o Brasil. De maneira colaborativa, o objetivo do grupo "é mapear centenas de milhões de galáxias, detectar supernovas e encontrar padrões de estrutura cósmica que podem revelar a natureza da energia escura que está acelerando a expansão do Universo", segundo site da iniciativa.


Segundo o DES, o cometa descoberto pelo brasileiro é "cerca de 1000 vezes mais massivo do que um cometa típico, tornando-o indiscutivelmente o maior cometa descoberto nos tempos modernos".

Descoberta 'por acaso'



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Telescópio Blanco, no Chile, tem sido usado para a descoberta de novos astros no Universo


BBC Lê

A equipe da BBC News Brasil lê para você algumas de suas melhores reportagens

Episódios

Fim do Podcast


O doutorado e o projeto de pesquisa de Bernardinelli tinham outro foco: medir o tamanho de galáxias e a influência da matéria escura no Universo.


Mas em uma análise com dados reunidos nos últimos seis anos, ele e outros colegas começaram a encontrar alguns "objetos transnetunianos", astros que estão além da órbita de Netuno, o oitavo planeta do Sistema Solar.


"A grande graça desses objetos é que eles são uma espécie de entulho da formação do Sistema Solar, são os restos que foram chutados para longe. Vale muito a pena estudá-los porque, com eles, é possível reconstruir a história do Sistema Solar", diz.


Neste ano, Bernardinelli se deparou com um cometa maior e um pouco mais próximo do que Netuno enquanto analisava uma tabela com milhares de números que representam astros detectados em imagens feitas por telescópios.


"Foi pura sorte, um acaso. Ele estava bem no limite do que era possível recuperar com os dados. Foi bem óbvio que era algo diferente", conta.


O cometa logo chamou atenção da comunidade de cosmólogos por ser um típico astro vindo da Nuvem de Oort, uma região nos confins do Sistema Solar (depois de Urano e Netuno) e supostamente ocupada por bilhões de objetos que orbitam o Sol.


As órbitas desses astros são consideradas "excêntricas": elas podem chegar muito perto do Sol e, em seguida, ficar extremamente distantes. A maioria dos cometas de ciclo longo, vindos da Nuvem de Oort, leva milhares e até milhões de anos para completar essa volta em torno da estrela.


No ano passado, um cometa chamado C/2002 F3 (Neowise), vindo da Nuvem de Oort, pôde ser visto da Terra durante o verão no hemisfério Norte. Foi uma oportunidade única, pois ele só passará novamente pelo planeta daqui a 6,8 mil anos.


Já o Bernardinelli-Bernstein, com uma orbita "achatada", tem um caminho ainda mais demorado. "Sabemos que ele teve uma passagem dentro do Sistema Solar há cerca de 3,5 milhões de anos e que objetos como ele foram chutados para a Nuvem de Oort há 4,5 bilhões de anos. Então estimamos que ele tenha essa idade", diz o cientista.


O cometa terá seu periélio (momento em que chega mais próximo do Sol) em 21 de janeiro de 2031. "É quando ele fica mais brilhante para quem está observando da Terra", diz Pedro Bernardinelli.


Esse período de dez anos para o periélio é um ponto positivo da descoberta, segundo o cosmólogo. "A gente pegou esse objeto muito distante do Sol, e isso não é sempre que acontece. A gente ainda não entende o que os cometas fazem quando estão muito longe do Sol. Temos dez anos para monitorá-lo, é uma oportunidade incrível", diz.


A partir de 2023, um observatório chamado LSST (Large Synoptic Survey Telescope), no Chile, cujo objetivo é achar objetos no Universo, passará a tirar fotos do céu inteiro a cada três dias. Para o cientista brasileiro, a iniciativa ajudará a entender melhor o cometa que leva seu nome. "A melhor maneira de descrever é que teremos uma foto dele a cada três dias, teremos um filme dele se mexendo pelo Universo", explica.



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Apelidado de Bernardinelli-Bernstein, corpo celeste tem 150 km de diâmetro, mas não vai colidir com nosso planeta

Trabalho 'chatíssimo'


Pedro Bernardinelli nasceu em Itaquera e cresceu na Vila Matilde, ambos na periferia da zona leste de São Paulo. "Quando chegou o vestibular, eu gostava de física e computadores, então escolhi Física, porque aliava os dois", conta.


Ele entrou na USP e se formou em 2015. Já durante a graduação, quando começou a estudar o Universo, um professor o convenceu a pular o mestrado e tentar uma bolsa de doutorado em alguma universidade dos Estados Unidos. Conseguiu na Universidade da Pensilvânia, onde passou a integrar o Dark Energy Survey.


O trabalho de um cosmólogo em si, diz o cientista, pode ser bastante entediante. Portanto, não é verdadeira aquela imagem de uma pessoa comum que descobre um cometa que vai destruir a Terra olhando por um telescópio na janela de casa (como no filme-catástrofe Impacto Profundo).


"Não é assim que funciona. Na verdade você fica dias e dias olhando tabelas com milhares de números e tenta encontrar alguma coisa ali. O trabalho é basicamente processar dados em um supercomputador", diz.


Aconteceu assim com o próprio cometa Bernardinelli-Bernstein. "Depois da tabela, o processo de verificação foi essencialmente ficar horas e horas olhando imagens em preto e branco com uma bolinha bem fraca no meio para ver o que era esse objeto", explica.


"Isso é uma coisa chatíssima. Eu tinha que parar a cada meia hora, abrir a janela para descansar a vista, já estava vendo tudo em preto e branco", conta.


Nos últimos meses, Bernardinelli iniciou um pós-doutorado na Universidade de Washington, em Seattle. Agora, pretende estudar melhor o cometa que leva seu nome. Há muitas coisas a descobrir, diz.


"Ainda não entendemos o que os cometas fazem longe do Sol. Estamos interessados em saber quais são os processos que ocorrem na superfície desses objetos, como o derretimento do gelo quando há aproximação do Sol", explica.


O cosmólogo e outros cientistas também querem saber quantos desses astros existem. "Esse é o primeiro cometa desse tamanho já visto. Mas ele é único ou há outros? Qual é a população desses objetos no Sistema Solar?", questiona.






Autor: Leandro Machado
Fonte: BBC News Brasil em São Paulo
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 20/11/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-59269265

quarta-feira, 30 de junho de 2021

As moléculas de estresse que nos deixam mais propensos a sofrer com 'coração partido'



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A cardiomiopatia de Takotsubo, popularmente conhecida como síndrome do coração partido, é uma condição que se caracteriza pelo enfraquecimento da câmara principal de bombeamento do coração e costuma surgir após uma situação de forte estresse, como a perda de um ente querido, ou, por exemplo, um terremoto ou outro desastre natural.

Também já foi relatada após um evento feliz, como um casamento, ou um evento estressante, como uma reunião ou o início de um novo emprego, embora de acordo com a Fundação Britânica do Coração, cerca de 30% dos pacientes não consigam identificar o que a desencadeou.

Identificada pela primeira vez no Japão no início dos anos 1990, a síndrome se assemelha muito a um ataque cardíaco em seus sintomas. Pessoas que sofrem com isso — principalmente mulheres no pós-menopausa — sentem dor no peito, falta de ar e, em alguns casos, palpitações, náuseas e vômitos.

"As pessoas vão para o hospital achando que é um infarto, mas quando os médicos olham o coração, primeiro veem que não há entupimento (nas artérias), depois veem que ficou com um formato estranho: a parte superior contrai-se muito intensamente, enquanto a inferior parece estar paralisada", explica Sian Harding, professor de Farmacologia Cardíaca do Instituto Nacional do Coração e Pulmão da universidade Imperial College em Londres, no Reino Unido.

Adrenalina


Embora a maioria se recupere após alguns dias ou semanas e o dano cardíaco seja leve em comparação com um ataque cardíaco, a síndrome pode ser recorrente e, em cerca de 5% dos casos, fatal.

Sabe-se que o aumento repentino da adrenalina causado pelo estresse agudo gerado por um violento golpe emocional é o que está por trás da perda de movimento da parte inferior do coração que leva à síndrome de Takotsubo.

Mas o que uma equipe de pesquisadores do Imperial College de Londres, supervisionada por Harding, descobriu agora é que existem duas moléculas-chave associadas à doença.

De acordo com os resultados da pesquisa, o aumento dessas duas moléculas (micro-RNA 16 e micro-RNA 26a) ligadas ao estresse, ansiedade e depressão, tornam a pessoa mais propensa a sofrer com a síndrome, já que seu corpo fica mais sensível à adrenalina.



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Síndrome muda temporariamente forma do coração

Mais estresse crônico, mais sensibilidade à adrenalina

No laboratório, os pesquisadores expuseram células do coração de humanos e ratos a essas moléculas.

"Pudemos ver que depois disso, associado a baixos níveis de estresse crônico por duas a seis semanas, as células se tornaram mais suscetíveis à síndrome de Takotsubo", explica Harding.

"Se você tem essas moléculas por muito tempo, elas te predispõem à síndrome."

Ou seja, "baixos níveis de estresse crônico fazem seu corpo responder assim a um episódio de estresse dramático e agudo", diz a pesquisadora.

Atualmente, não existe um tratamento específico para a síndrome do coração partido. As pessoas geralmente passam alguns dias no hospital, enquanto esperam que o coração se recupere por conta própria.

Compreender o mecanismo dessa condição, no entanto, abre caminho para o desenvolvimento de tratamentos que evitem sua recorrência em pessoas que já sofreram dela, ao medir os níveis dessas duas moléculas no sangue e bloqueando-as, se necessário.

Mas também é importante aprender a reconhecer a doença e não confundi-la com um ataque cardíaco.

"Quando as pessoas chegam ao hospital é muito importante saber se estão ou não com Takotsubo, porque, se você fizer alguns exames pensando que é um infarto, pode piorar a situação", diz Harding.







Autor: BBC News Brasil
Fonte: BBC News Brasi
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasi
Data: 30/06/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-57659342

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Aprovação da OMS dá 'aval' à Coronavac, dizem especialistas



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Depois de uma sequência de estudos que reforçaram nas últimas semanas a eficácia da vacina Coronavac contra a covid-19, o imunizante desenvolvido pela farmacêutica chinesa Sinovac recebeu mais uma sinalização positiva nesta terça-feira (1/6): a Organização Mundial da Saúde (OMS) aprovou seu uso emergencial.


Isso quer dizer, na prática, que países poderão acelerar seus processos de aprovação interna para uso de vacina, casos suas regras permitam que decisões de órgãos internacionais como a OMS sirvam como comprovação de eficácia e segurança; e que o imunizante poderá ser incorporado ao consórcio Covax Facility, liderado pela o OMS com o objetivo de distribuir doses entre os países de forma mais igualitária.


No Brasil, a Coronavac já tem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para uso emergencial e é produzida em parceria com o Instituto Butantan, vinculado ao governo estadual de São Paulo.


"É mais uma aval que a gente não tinha muita dúvida que viria, porque (a vacina) preenche todos os requisitos. Os dados da CoronaVac realmente são muito bons no mundo real, no Uruguai, Chile, no município de Serrana (SP), mostrando o impacto positivo da introdução da vacina em programas públicos de imunização", explica o médico infectologista Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), citando estudos recentes que mostraram os benefícios da vacina em diferentes lugares.


"O estudo de Serrana é emblemático porque tem uma situação experimental e controlada, quase um laboratório da vida real, demonstrando que a vacina consegue reduções expressivas no número de casos, na hospitalização e mortalidade. E isso em um cenário de circulação predominante da (variante) P.1"


Kfouri se refere a um estudo conduzido no município paulista e que teve resultados apresentados nesta segunda-feira (31/5), conforme mostrou a BBC News Brasil.


Lá, 95% da população adulta foi vacinada com duas doses da CoronaVac — chegando a aproximadamente 28 mil pessoas na cidade cuja população é de 45 mil. Segundo os dados apresentados em entrevista coletiva, as mortes por covid-19 foram reduzidas em 95%; as internações, em 86%; e os casos sintomáticos, em 80%.


As reações adversas também se mostraram pouco significativas: 4,4% dos participantes apresentaram algum incômodo após a primeira dose, e apenas 0,02% deles tiveram efeitos colaterais grau 3, como dor na cabeça ou nos músculos, que chegam a prejudicar as atividades diárias.


É importante destacar, porém, que estes resultados ainda não foram publicados em uma revista científica, onde eles costumam passar pela avaliação de cientistas independentes, na chamada "revisão dos pares".


No Uruguai, também citado por Kfouri, o Ministério da Saúde divulgou em 25 de maio que duas doses da CoronaVac conseguiram reduzir em 97% a mortalidade por covid-19 na população imunizada; em 95% a internação em UTI; e em 57% a ocorrência da doença.


O ministério da Saúde do Chile também publicou em abril resultados preliminares mostrando que a eficácia da CoronaVac, depois de duas doses, foi de 80% na prevenção de morte; 89% na internação em UTI; e 67% na ocorrência da doença com sintomas.



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CoronaVac contém o vírus inteiro inativado da Sars-CoV-2, enquanto as demais vacinas injetam no organismo humano genes da spike do coronavírus

Testes da 'vida real'


Membro do Comitê de Vacinas Covid-19 da OMS (SAGE), a médica infectologista e epidemiologista Cristiana Toscano explica que as vacinações em larga escala permitem a realização de estudos considerados de fase 4, que avaliam a efetividade de uma vacina.


As fases anteriores são realizadas ainda em ambientes controlados, com voluntários acompanhados muito de perto por equipes que conduzem os chamados ensaios clínicos. Já na fase 4, as pessoas avaliadas são da própria população.


"Para o registro e utilização em ampla escala de uma vacina, são necessários estudos clínicos de fase 3, que avaliam a eficácia — ou seja, como a vacina funciona em condições ideais, no ambiente controlado de um ensaio, para prevenir infecção, doença, hospitalização, morte... E também nessa etapa, avalia-se a segurança", explica Toscano, referindo-se à etapa que agências sanitárias como a Anvisa costumam exigir para aprovação de uma vacina.


"Os estudos de efetividade (fase 4) são de funcionamento da vacina no mundo real, sujeito a todas questões operacionais e realidades de mundo real interferindo", acrescenta a médica, também professora da Universidade Federal de Goiás (UFG).


"Tendo evidência de que a vacina funciona e é segura (fase 3), já se sabe que serão necessários estudos de seguimento em ampla escala para monitorar a segurança e efetividade (fase 4)."




Outro estudo de "vida real" mencionado por Toscano foi um realizado em Manaus, já no cenário de circulação da variante P.1, com profissionais de saúde vacinados com pelo menos uma dose da CoronaVac. O estudo preliminar, publicado em abril ainda sem revisão dos pares, mostrou uma eficácia de 49,6% na prevenção à doença com sintomas — mas a médica lembra que, por motivos óbvios, os desfechos mais importantes que uma vacina deve evitar são hospitalização e morte, e estes têm apresentado percentuais maiores de prevenção.


Testes na realidade também permitem esmiuçar como a vacinação pode variar em diferentes grupos populacionais, como os idosos. Um estudo preliminar publicado no final de maio, por exemplo, mostrou que em pessoas com mais de 70 anos vacinadas com duas doses de CoronaVac, a efetividade na prevenção da doença com sintomas foi de 42% — abaixo da eficácia de 50,38% para adultos encontrada nos ensaios clínicos.


"Alguns grupos em particular, por exemplo os idosos, foram subrepresentados em ensaios clínicos de vacinas contra a covid, por questões de segurança (nos testes) — como foram também crianças e gestantes. Primeiro, foram feitos estudos com adultos saudáveis; depois que foi verificada a segurança neste grupo, foram permitidos estudos adultos com comorbidades; e depois, foram incorporados os idosos", relata Cristiana Toscano.


"Então, existe uma recomendação muito importante de que se realizem estudos de efetividade particularmente em idosos."


Em um comunicado desta terça-feira (1/6), ao anunciar a aprovação do uso emergencial da CoronaVac, a OMS reconheceu que há poucos estudos envolvendo idosos e crianças. Entretanto, a organização recomenda a vacinação com a CoronaVac a partir dos 18 anos de idade pois "dados coletados durante o uso subsequente em vários países e informações de imunogenicidade sugerem que a vacina provavelmente tem efeito protetor em idosos".

Quanto mais farto e variado o 'elenco de vacinas', melhor


A aprovação do uso emergencial acontece após a análise, por especialistas membros e consultores da OMS, de dados sobre a qualidade, segurança e eficácia das vacinas. Na avaliação da CoronaVac, a organização informou ter feito também inspeções in loco de fábricas.


Uma vez que a OMS tem estratégias, como a Covax Facility, para melhorar o acesso a tratamentos e vacinas em países mais pobres, ela avalia também as condições de armazenamento e transporte — como a exigência de refrigeração das doses.



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Aprovação do uso emergencial pela OMS acontece após a análise, por especialistas membros e consultores, de dados sobre a qualidade, segurança e eficácia das vacinas


Segundo a entidade, a facilidade de armazenamento da CoronaVac "a torna muito administrável e particularmente adaptável a cenários de poucos recursos". Sua recomendação é de que a vacina seja aplicada em duas doses, no intervalo de duas a quatro semanas.


Além desta, a OMS já aprovou o uso emergencial de vacinas da Pfizer/BioNTech; Astrazeneca-SK Bio; Serum Institute of India; Astra Zeneca EU; Janssen; Moderna e Sinopharm.


"Essas vacinas terão eficácias diferentes, intervalos diferentes, reações diferentes, algumas serão mais baratas ou caras... Mas o que elas têm em comum é a segurança, efeitos colaterais pequenos perto dos benefícios, e boa proteção formas graves da doença — com desfechos de mortalidade e hospitalização", avalia Renato Kfouri.


Cristiana Toscano também comemora a nova integrante do "elenco" de vacinas validadas e recomendadas pela OMS.


"Fica muito claro, globalmente e a nível nacional, que a gente precisa de várias vacinas para o controle da pandemia. Precisamos de uma grande quantidade para atingir a população prioritária do mundo todo. E quanto mais rapidamente a gente consegue chegar à altas coberturas, mais rapidamente a gente consegue evitar a mortalidade e hospitalização, e na sequência reduzir a transmissão viral — conseguindo eventualmente controlar essa pandemia", diz a epidemiologista e infectologista.





Autor: Mariana Alvim - @marianaalvim
Fonte: BBC News Brasil em São Paulo
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 02/06/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-57326314

segunda-feira, 17 de maio de 2021

De onde vem o câncer e por que não desapareceu com a evolução?



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O demônio da Tasmânia é vítima de uma forma particular de câncer, transmissível de um indivíduo para outro


O câncer levanta uma infinidade de questões para os biólogos, muitas delas ainda sem resposta. Como podemos explicar as origens da doença? Por que é tão difícil de curar? Por que a vulnerabilidade ao câncer persiste na maioria dos organismos multicelulares?


Os enfoques baseados na explicação dos mecanismos dessa doença e na pesquisa clínica não são suficientes para abordar essas perguntas.


Devemos olhar para o câncer a partir de uma nova perspectiva, adotando uma visão evolutiva. Em outras palavras, devemos enxergar o câncer pelos olhos de Charles Darwin, pai da teoria da evolução.


Há alguns anos, o esforço conjunto de biólogos evolucionistas e oncologistas vem fomentando reflexões que se traduzem em avanços transversais benéficos para ambas as disciplinas, ao mesmo tempo que mudam nossa compreensão da doença.

Como a evolução dos organismos multicelulares abre caminho para o câncer


O câncer afeta todo o reino animal multicelular. A razão é que se trata de uma doença ancestral relacionada ao aparecimento de metazoários (animais compostos por várias células, diferentemente dos protozoários que são formados por uma única célula), há mais de 500 milhões de anos.

O aparecimento de organismos tão complexos exigiu o desenvolvimento de altos níveis de cooperação entre a variedade de células que os compõem.



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O câncer afeta todo o reino animal multicelular


Na verdade, essa cooperação é sustentada por comportamentos complementares e altruístas, em particular pela apoptose ou suicídio celular (pelo qual uma célula ativa sua autodestruição ao receber um determinado sinal) e pela renúncia à reprodução direta por parte de toda célula que não seja uma célula sexual.


Ou seja, a evolução para entidades multicelulares estáveis ​​foi produzida pela seleção de adaptações que, por um lado, facilitavam o funcionamento coletivo e, por outro, reprimiam os reflexos unicelulares ancestrais.


O câncer representa uma ruptura dessa cooperação multicelular, seguida pela aquisição de adaptações que permitem que essas células "renegadas" se aperfeiçoem em seu próprio modo de vida.


Em outras palavras, as células malignas começam a "trapacear".


Podem fazer isso por terem sofrido mutações genéticas (modificações na sequência dos genes) ou epigenéticas (modificações que alteram a expressão dos genes e que, além de transmissíveis, são reversíveis, ao contrário das mutações genéticas), ou ainda ambas, o que confere a elas um valor seletivo mais alto em comparação com as células de comportamento cooperativo.


Pode consistir, por exemplo, em vantagens de crescimento, multiplicação, etc.


Da mesma forma, é imperativo que as células que carregam essas modificações se situem em um microambiente favorável à sua proliferação.


Se essas "rebeliões celulares" não são suprimidas adequadamente pelos sistemas de defesa do corpo (como o sistema imunológico), a abundância de células cancerosas pode aumentar localmente.


Consequência: os recursos se esgotam e essas células podem iniciar então comportamentos individuais ou coletivos de dispersão e colonização em direção a novos órgãos, as conhecidas metástases, responsáveis lamentavelmente ​​pela maioria das mortes por câncer.


Dessa forma, em poucos meses ou anos, uma única célula cancerosa pode gerar um "ecossistema" complexo e estruturado, o tumor sólido (comparável a um órgão funcional), assim como metástases mais ou menos disseminadas pelo organismo.


Um aspecto intrigante dessa doença consiste no número significativo de semelhanças entre os atributos das células cancerosas provenientes de diferentes órgãos, indivíduos e até espécies, o que sugere que os processos que acontecem em cada caso são semelhantes.


Porém, cada câncer evolui como uma nova entidade, já que, tirando os cânceres transmissíveis mencionados anteriormente, os tumores sempre desaparecem junto com seus hospedeiros, sem transmitir suas inovações genéticas nem fenotípicas.


Então, como explicar essas semelhanças?

Persistência do câncer ao longo do tempo evolutivo


Do ponto de vista evolutivo, há duas hipóteses que podem explicar o surgimento do câncer e a semelhança de seus atributos.



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Cada câncer evolui como uma nova entidade


A teoria do atavismo explica o câncer como um retorno às capacidades anteriores das células, entre as quais se encontra a liberação de um mecanismo de sobrevivência excelentemente preservado, sempre presente em todas as células eucarióticas e, portanto, em todos os organismos multicelulares.


Acredita-se que a seleção desse antigo mecanismo tenha ocorrido durante o período Pré-Cambriano, que começou há 4,55 bilhões de anos e terminou há 540 milhões de anos.


Durante esse período, que viu surgir a vida em nosso planeta, as condições ambientais eram muito diferentes das de hoje e, muitas vezes, desfavoráveis.


As forças seletivas que atuavam sobre os organismos unicelulares favoreceram as adaptações para a proliferação celular.


Algumas dessas adaptações, selecionadas ao longo da vida unicelular, permaneceram para sempre presentes, mais ou menos ocultas em nossos genomas.


Quando sua expressão escapa dos mecanismos de controle, começa uma luta entre os traços unicelulares ancestrais e os traços multicelulares atuais — e é aí que pode surgir um câncer.


Além disso, esta hipótese também poderia explicar por que as células cancerosas se adaptam tão bem a ambientes ácidos e pobres em oxigênio (anóxicos), uma vez que essas condições eram comuns no período Pré-Cambriano.


A segunda hipótese envolve um processo de seleção somática — as células somáticas agrupam todas as células de um organismo com exceção das células sexuais —, que leva a uma evolução convergente, ou seja, ao aparecimento de traços análogos.


Esta hipótese sugere que o surgimento dos traços celulares que caracterizam as células "traiçoeiras" passa por uma forte seleção cada vez que um novo tumor aparece, independentemente de quais sejam as causas imediatas desses traços.


Esses processos de seleção somática, ao ocorrer em ambientes regidos em grande parte pelas mesmas condições ecológicas (como as que reinam dentro de organismos multicelulares), levariam a uma evolução convergente.


Isso poderia explicar as semelhanças que observamos por meio da diversidade do câncer. Não podemos esquecer que só vemos cânceres que conseguem se desenvolver, mas não sabemos quantos "candidatos" fracassaram ao não conseguir adquirir as adaptações necessárias no momento certo.



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Existem diferentes hipóteses sobre a evolução do câncer


Essas duas hipóteses não são excludentes: o reaparecimento de um mecanismo ancestral pode ser seguido por uma seleção somática que culmina em uma evolução convergente.


Seja qual for a razão da origem do câncer, há uma questão que permanece sem resposta: se essa doença costuma causar a morte do hospedeiro, por que a seleção natural não foi mais eficaz em tornar os organismos multicelulares completamente resistentes ao câncer?

Incidência de câncer não é maior em animais grandes


Os mecanismos de supressão do câncer são numerosos e complexos. Cada divisão celular pode causar mutações somáticas que alteram os mecanismos genéticos que controlam a proliferação celular, a reparação do DNA e a apoptose, afetando assim o controle do processo de formação do câncer (carcinogênese).


Se cada divisão celular envolve uma certa probabilidade de produzir uma mutação cancerígena, o risco de desenvolver câncer deveria ser em função do número de divisões celulares ao longo da vida de um organismo.


No entanto, as espécies de grande porte e que vivem mais não têm mais câncer do que as pequenas, que vivem menos tempo.


Nas populações naturais de animais, a frequência de câncer varia, em geral, entre 0% e 40% para todas as espécies estudadas — e não há relação com a massa corporal.


Em elefantes e camundongos, são observados níveis de prevalência bastante semelhantes de câncer, apesar de os elefantes desenvolverem muito mais divisões celulares ao longo de suas vidas do que os camundongos.


Esse fenômeno é conhecido como "paradoxo de Peto".


A explicação para esse paradoxo está no fato de que as forças evolutivas selecionaram mecanismos de defesa mais eficazes nos animais grandes do que nos pequenos, o que permite reduzir o risco associado ao câncer devido ao aumento do tamanho.



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O rato-toupeira-pelado não tem medo do câncer, que o afeta apenas de forma circunstancial


Por exemplo, os elefantes têm vinte cópias do gene supressor de tumores TP53, enquanto os humanos dispõem de apenas duas.


Encontramos exceções notáveis ​​a essa tendência geral, como o caso de espécies de pequeno porte com longevidade fora do normal. Essas espécies também dificilmente desenvolvem câncer.


Um bom exemplo é o do rato-toupeira-pelado (Heterocephalus glaber), uma espécie cujos indivíduos vivem muito tempo (espécie longeva) e não desenvolvem tumores espontâneos, com exceção de alguns casos de câncer detectados de forma circunstancial.

Uma doença que se manifesta tardiamente


Lembremos também que a eficácia das defesas contra o câncer diminui uma vez que os organismos realizam o essencial a sua reprodução, já que as pressões evolutivas são menores nessa fase da vida.



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A eficácia das defesas contra o câncer diminui com a idade


Essa perda de eficácia, junto com o acúmulo de mutações ao longo do tempo, explica por que a maioria dos cânceres (mama, próstata, pulmão, pâncreas...) aparece na segunda metade da vida.


Uma das principais implicações evolutivas é que se, a partir de uma perspectiva darwiniana, o câncer não é uma preocupação relevante quando se manifesta após a fase reprodutiva, isso também significa que nossas defesas terão sido otimizadas pela seleção natural, para não erradicar sistematicamente os processos oncogênicos, mas para controlá-los enquanto temos capacidade reprodutiva.


No final, essas defesas de baixo custo, cujo objetivo é resistir diante dos tumores, acabam sendo mais vantajosas para garantir o sucesso reprodutivo do que como estratégias de erradicação sistemática, que seriam sem dúvida muito mais onerosas.


O sistema imunológico, por exemplo, não trabalha a troco de nada...


Em geral, os seres vivos são regidos por relações de compromisso, trade-offs em inglês, o que significa que qualquer investimento em uma função requer uma série de recursos e energia que não estarão mais disponíveis para outras funções.


Nossas defesas contra doenças, incluindo o câncer, não estão fora dessa regra operacional.


Infelizmente, essas defesas de baixo custo contra o câncer acabam se transformando em bombas tardias... Em outras palavras, a lógica darwiniana nem sempre nos leva a resultados que correspondem às nossas expectativas como sociedade em termos de saúde!


Embora a maioria das mutações cancerígenas ocorra em células somáticas ao longo da vida, há casos raros de câncer causados ​​por mutações hereditárias na linha germinal, aquela que produz células sexuais.


Essas mutações congênitas, às vezes, são mais frequentes do que poderíamos esperar do equilíbrio mutação-seleção.


Este paradoxo pode ser explicado por vários processos evolutivos. Por exemplo, foi sugerido que a seleção natural provavelmente não agirá sobre essas mutações se, mais uma vez, seus efeitos negativos à saúde se manifestarem somente após o término do período reprodutivo.


Por outro lado, é possível recorrer à teoria da pleiotropia antagonista. Essa teoria prevê que certos genes têm efeitos contrários sobre a probabilidade de sobrevivência/reprodução de acordo com a idade: seus efeitos seriam positivos no início da vida e negativos no restante.


Se o efeito positivo inicial for significativo, é possível que a seleção retenha essa variante genética, mesmo que cause uma doença fatal mais tarde.


Por exemplo, as mulheres que têm uma mutação nos genes BRCA1 e BRCA2 apresentam um risco significativamente maior de desenvolver câncer de mama ou de ovário, mas essas mutações parecem estar relacionadas com uma fertilidade maior.

Implicações em termos de tratamento


O câncer, verdadeiro fardo das populações humanas, é antes de tudo um fenômeno regido por processos evolutivos, desde sua origem na história da vida até seu desenvolvimento em tempo real em um paciente.



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Uma nova perspectiva sobre o câncer pode facilitar o surgimento de terapias inovadoras


A tradicional separação entre a oncologia e a biologia evolutiva, portanto, deve desaparecer, uma vez que limita nossa compreensão da complexidade dos processos que culminam na manifestação da doença.


Esta nova perspectiva sobre o câncer pode ser útil para o desenvolvimento de soluções terapêuticas inovadoras que limitem os problemas associados às estratégias de tratamento atualmente disponíveis.


Essas terapias de altas doses, que buscam matar o máximo de células malignas, muitas vezes acabam causando a proliferação de células resistentes. Por outro lado, a terapia adaptativa, profundamente enraizada na biologia evolutiva, pode ser uma abordagem alternativa.


Essa estratégia consiste em reduzir a pressão associada às terapias de altas doses com o objetivo de eliminar apenas parte das células cancerosas sensíveis.


Trata-se de manter um nível suficiente de competição entre as células cancerosas sensíveis e as células cancerosas resistentes, a fim de evitar ou limitar a proliferação irrestrita de células resistentes.

Um problema que não se limita ao ser humano


Até recentemente, a oncologia raramente adotava os conceitos da biologia evolutiva para melhorar a compreensão dos processos malignos.


Da mesma forma, ambientalistas e biólogos evolucionistas dificilmente se interessavam pela existência desses fenômenos em suas pesquisas sobre os seres vivos.



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O câncer é um modelo biológico pertinente para estudar a evolução dos seres vivos


Mas as coisas mudam, e o estudo do câncer — ou melhor, dos processos oncogênicos como um todo — na fauna selvagem está despertando um entusiasmo cada vez maior na comunidade de ambientalistas e biólogos evolucionistas.


De fato, hoje, o câncer se mostra claramente como um modelo biológico pertinente para estudar a evolução dos seres vivos, assim como um fenômeno biológico importante para compreender as várias facetas da ecologia das espécies animais e suas consequências no funcionamento dos ecossistemas.


Embora nem sempre evoluam para formas invasivas ou metástases, os processos tumorais são onipresentes nos metazoários e há estudos teóricos que sugerem que, provavelmente, nestes últimos tenham influência em variáveis-chave na ecologia, como os traços da história de vida, as habilidades competitivas, a vulnerabilidade a parasitas e predadores e até mesmo a capacidade de se dispersar.


Esses efeitos são provenientes tanto das consequências patológicas dos tumores quanto dos custos associados ao funcionamento dos mecanismos de defesa dos hospedeiros.


Compreender as consequências ecológicas e evolutivas das interações tumor-hospedeiro também se tornou um tópico de pesquisa de referência na ecologia e na biologia evolutiva nos últimos anos.


Essas questões científicas são ainda mais pertinentes quando praticamente todos os ecossistemas do planeta, especialmente os meios aquáticos, estão contaminados hoje em dia por substâncias de origem antrópica e, muitas vezes, mutagênicas.


Portanto, é essencial melhorar a compreensão das interações tumor-hospedeiro e seus efeitos em cascata dentro das comunidades, a fim de prever e antecipar as consequências das atividades humanas no funcionamento dos ecossistemas e na manutenção da biodiversidade.




* Audrey Arnal é pesquisadora de pós-doutorado, laboratório MIVEGEC (UMR IRD 224-CNRS 5290 -Universidade de Montpellier, França), Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD).


Benjamin Roche é diretor de pesquisa do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD).


Frédéric Thomas é diretor de pesquisa no Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), laboratório MIVEGEC (UMR IRD 224-CNRS 5290-Universidade de Montpellier, França).


Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado aqui sob uma licença Creative Commons.




Autor: Audrey Arnal, Benjamin Roche e Frédéric Thomas
Fonte: The Conversation
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 16/05/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-56688632

O problema de saúde que pode matar até 10 milhões em 2050 se o mundo não agir



CRÉDITO,CHRISTOPH BURGSTEDT/SCIENCE PHOTO LIBRARY/GETTY
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Será que as bactérias podem voltar a ser a principal causa de morte da humanidade?


Pasteur disse que a sorte só favorece as mentes preparadas (le hasard ne favorise que les esprits préparés).


Talvez seja por isso que quando, ao voltar das férias, Alexander Fleming descobriu que um fungo havia contaminado seu cultivo de estafilococos, ele não se conformou simplesmente.


Em vez de jogá-los no lixo, ele observou que, perto do fungo, as colônias de estafilococos haviam morrido.

Essa observação levou à descoberta da penicilina, que deu início à era dos antibióticos.


E posso dizer que aqueles que vivem nesta era são privilegiados na história da nossa espécie.


Os antibióticos são substâncias com a extraordinária capacidade de matar bactérias sem fazer mal ao paciente infectado.


São provavelmente, junto com as vacinas, um dos avanços científicos mais importantes da medicina.

As bactérias podem voltar a ser a principal causa de morte da humanidade


Antes da era dos antibióticos, as infecções bacterianas eram a principal causa de morte no planeta.


É por isso que doenças como a peste, tuberculose, lepra ou cólera fazem parte da nossa história.


Isso pareceu ter chegado ao fim quando os antibióticos entraram em cena.


Mas não era tão simples. O primeiro a avisar foi o próprio Fleming.


Em 1945, em seu discurso de ganhador do Prêmio Nobel, ele alertou que o uso indevido dessas moléculas poderia selecionar bactérias resistentes.


No entanto, durante as primeiras décadas da era dos antibióticos, uma infinidade de novas moléculas foi encontrada, e os tratamentos funcionaram sem problemas.


Por isso, os antibióticos foram usados ​​de maneira despreocupada e em grandes quantidades.


Hoje as coisas mudaram muito. Há décadas não encontramos novos antibióticos, e as bactérias multirresistentes (que resistem a várias famílias de antibióticos diferentes) são o pão nosso de cada dia nos hospitais.


Na verdade, em 2014, estimou-se que a resistência aos antibióticos causava 700 mil mortes a cada ano e que esse número aumentaria para 10 milhões de mortes por ano até 2050.


Se não conseguirmos frear a resistência, as bactérias serão novamente a principal causa de morte da humanidade, e também se cumprirá a profecia de Louis Pasteur de que os micróbios terão a última palavra (Messieurs, c'est les microbes qui auront le dernier mot).

O erro de subestimar as bactérias


Como é que não conseguimos prever o aparecimento da multirresistência e a perda de eficácia dos nossos tratamentos?


Bem, fundamentalmente, porque subestimamos a capacidade de evolução das bactérias.



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Capacidade de evolução das bactérias foi subestimada


Longe do modelo simples de mutação e seleção que acreditávamos no início do século 20 reger o surgimento das resistências, as bactérias possuem várias estratégias muito mais poderosas para superar situações adversas.


Uma delas é a transferência horizontal de genes, que faz com que bactérias de diferentes espécies troquem DNA que pode ser útil para elas.


Isso conecta qualquer bactéria que enfrenta uma ameaça (como, por exemplo, aquelas dos hospitais quando tratadas com antibióticos) com soluções que se originaram em outros micro-organismos de qualquer outra parte do planeta.


A outra estratégia que não fomos capazes de prever é a existência de um acelerador evolutivo em bactérias chamado integron.


O integron é uma plataforma genética que permite às bactérias capturar genes que fornecem novas funções, agindo como memórias que armazenam funções úteis para a bactéria.


Um dos elementos chave para o integron é que os genes que foram úteis em um dado momento, mas já não são mais, se expressam muito pouco. Em outras palavras, representam um baixo gasto de energia para a bactéria.


Isso é fundamental porque uma das razões pelas quais acreditávamos que as bactérias nunca seriam multirresistentes é que pensávamos que a resistência implicaria um custo energético alto. O integron resolve isso expressando pouco os genes que não o interessam.


Mas esta situação não é estática: se a bactéria é atacada por antibióticos, o integron é ativado e reorganiza seus genes para encontrar o gene de resistência ao antibiótico que agora vai matá-la.


Em suma, o integron é como uma memória bacteriana que permite aprender novas funções, reduzindo o gasto energético quando essas funções não são utilizadas e lembrando delas quando voltam a ser necessárias.


Isso nos levou a postular a teoria de que o integron proporciona à bactéria adaptação sob demanda.

O integron em ação


Em nosso último trabalho, pesquisadores das Universidade de Oxford, no Reino Unido, e da Universidade Complutense de Madri, na Espanha, puderam ver o integron em ação e confirmar essa teoria.


Para isso, construímos dois integrons quase idênticos na bactéria patogênica Pseudomonas aeruginosa (uma bactéria que causa infecções respiratórias).


Ambos integrons possuem três genes de resistência na mesma ordem, de modo que o último gene não confere resistência à gentamicina porque se expressa pouco (mas se o colocássemos na primeira posição do integron, esse gene proporcionaria resistência).


A única diferença entre os dois integrons é que a integrase não funciona em um deles. A integrase é justamente a proteína responsável por capturar e reorganizar os genes do integron.


Usando duas bactérias idênticas, exceto pelo gene da integrase — em uma o integron funciona, e na outra não —, é possível comparar a capacidade de desenvolver resistência proporcionada por um integron.


Para fazer isso, forçamos em laboratório várias populações dessas duas bactérias a crescer em concentrações cada vez maiores desse antibiótico.


Assim, podemos avaliar sua capacidade adaptativa medindo o número de populações que sobrevivem e são extintas quando a concentração do antibiótico aumenta.


Além disso, sequenciamos os genomas das populações em concentrações baixas de antibióticos e em concentrações muito elevadas.


O que nossos experimentos demonstram claramente é que, quando o integron funciona, permite a sobrevivência de mais populações em altas concentrações de antibiótico do que quando ele não funciona.


O sequenciamento mostrou que, no início dessa corrida evolutiva, o integron reorganiza aleatoriamente seus genes de resistência, gerando variabilidade genética muito rápido. E a seleção pelo antibiótico pode atuar sobre esta variabilidade.


Isso é fundamental em concentrações mais altas, nas quais encontramos exclusivamente bactérias que moveram o gene de resistência à gentamicina para a primeira posição do integron e, assim, conseguiram aumentar sua resistência.


No futuro, nossa pesquisa ajudará a desenvolver intervenções que diminuam a resistência e nos ajudem a conter esta pandemia silenciosa.


* José Antonio Escudero é professor e pesquisador de microbiologia da Universidade Complutense de Madri, na Espanha.


Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado aqui sob uma licença Creative Commons. Leia aqui a versão original (em espanhol).




Autor: José Antonio Escudero
Fonte: The Conversation
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 17/05/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-57072040

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Cientistas investigam como espiritualidade pode ajudar a saúde do corpo



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No Brasil, instituições respeitadas têm se dedicado a estudar o quanto a espiritualidade do paciente auxilia na cura de doenças físicas e psíquicas


Raiva, rancor, orgulho, medo, egoísmo. Sentimentos comuns a todos os seres humanos podem estar no cerne de boa parte das doenças enfrentadas pela humanidade, segundo a própria medicina. Várias instituições no Brasil e no mundo vêm se dedicando a estudar até que ponto a saúde do indivíduo é influenciada, literalmente, pelo seu estado de espírito.


No país, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), o Instituto de Psiquiatria (IPq) da USP, por meio do Programa de Saúde, Espiritualidade e Religiosidade (Proser), e a Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com o Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde (Nupes), têm investigado o quanto a espiritualidade (não necessariamente a religiosidade) do paciente auxilia na cura de doenças físicas e psíquicas - que podem ser agravadas a partir de sentimentos ruins e pensamentos destrutivos.


Nos Estados Unidos, grandes instituições de ensino como a Escola de Medicina de Stanford, as Universidades Duke, a da Flórida, a do Texas e Columbia mantêm centros de estudos exclusivos sobre o assunto, assim como a Universidade de Munique, na Alemanha, a de Calgary, no Canadá, e o Royal College of Psychiatrists, no Reino Unido. Para os centros de pesquisa, há um conjunto de evidências que indicam que diversas expressões da espiritualidade têm impacto significativo na saúde e no bem-estar, associadas a menores níveis de mortalidade, depressão, suicídio, uso de drogas, ou mesmo internações e medicamentos.


As instituições ressaltam que espiritualidade é diferente de religião: em tese, uma pessoa religiosa é espiritualizada; mas alguém espiritualizado não necessariamente segue uma religião - e pode até não acreditar em Deus. A espiritualidade estaria ligada à busca pessoal de um propósito de vida e de uma transcendência, envolvendo também as relações com a família, a sociedade e o ambiente.

Perdão e gratidão no controle da pressão arterial


"A espiritualidade é um estado mental e emocional que norteia atitudes, pensamentos, ações e reações nas circunstâncias da vida de relacionamento, sendo passível de observação e mensuração científica", diz o médico Álvaro Avezum Júnior, diretor da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), professor do centro de cardiopneumologia da USP e do programa de doutorado do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia.

Segundo ele, a espiritualidade é expressa através de crenças, valores, tradições e práticas. "Quem tem menos disposição ao perdão está mais disponível a enfrentar enfermidades coronárias", diz o especialista, que também é diretor do Centro Internacional de Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. Da mesma maneira, diz, a raiva acumulada pode levar à diabetes.


Avezum é um dos principais estudiosos do país da relação entre espiritualidade e saúde. Esteve à frente da iniciativa da SBC em publicar, há dois anos, as Diretrizes Brasileiras Sobre Espiritualidade e Fatores Psicossociais, que integram o conjunto de prevenção cardiovascular. "A SBC foi a primeira sociedade de cardiologia do mundo a associar enfermidade moral a doença cardíaca, a partir de evidências científicas", diz.


Segundo ele, com intervenções baseadas em perdão e gratidão é possível controlar, por exemplo, a pressão arterial. "Mas não um perdão condicional, que mantém o ressentimento, e sim um perdão emocional, que muda o que se sente em relação ao agressor", afirma.



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Relação entre profissionais da saúde e pacientes deve ser guiada pela empatia


Agora seus estudos buscam ir além e entender a origem da doença. "Queremos mostrar que é possível prevenir a doença tratando a espiritualidade primeiro, por meio do perdão e da gratidão, além de reforçar outras atitudes positivas como solidariedade, compaixão, humildade, paciência, confiança e otimismo", diz ele, que não se importa com eventuais céticos no meio científico. "Se alguém diz que isto não é ciência está sendo dogmático, porque escolhe o que investigar".


Até 2019, antes da pandemia do novo coronavírus, as doenças cardíacas eram a principal causa de morte entre adultos no Brasil. Foram 116.766 óbitos em 2019 relacionados aos males do coração, informa o Ministério da Saúde. Segundo Avezum, já existem artigos e estudos sobre espiritualidade e covid-19 no mundo (eram 110 até o último dia 25 de abril, segundo registros do buscador PubMed, da National Library of Medicine, dos Estados Unidos). Mas os resultados ainda são inconclusivos, diz.


"Para combater o coronavírus, o melhor é não se expor e se valer da religiosidade e da fé para enfrentar os desafios do isolamento social", afirma.

"Vou morrer, doutor?"


O interesse de Avezum no tema começou com o trabalho da médica americana Christina Puchalski que, desde 1996, procura inserir o componente espiritual no cuidado com os pacientes. Christina dirige o Instituto George Washington para Espiritualidade e Saúde (GWish), da Universidade George Washington. Ela defende que os médicos levantem o histórico espiritual do paciente para entendê-lo de forma integral. O objetivo é identificar as crenças e valores que realmente importam ao indivíduo, e como isso atua na forma como ele lida com a doença.


"Se o paciente acredita que a meditação o acalma, o médico deve ter essa informação em mãos e recomendar que ele mantenha a prática, ao mesmo tempo em que toma a medicação", diz o médico Frederico Leão, coordenador do Proser do IPq. "É preciso adotar a prática espiritual que esteja em harmonia com as crenças de cada um, porque isso vai contribuir para o tratamento".


Pesquisar o impacto dessas práticas na saúde mental dos pacientes é o foco do IPq, que também promove cursos sobre como o abordar o tema nos consultórios.


Segundo Leão, até o início dos anos 2000, os médicos tinham muito receio em falar sobre o assunto, mesmo sendo o Brasil um país onde mais de 80% da população se declara cristã. "Muitos não sabiam - e talvez ainda não saibam - como fazer essa abordagem", diz ele. "É o caso do cirurgião que, antes da cirurgia, pede para rezar um Pai Nosso com toda a equipe e o paciente questiona: 'Por que isso, doutor, vou morrer?'".


Leão destaca as pesquisas do psiquiatra americano Harold Koenig, da Universidade Duke, para quem negligenciar a dimensão espiritual do paciente é como ignorar o seu aspecto social ou psicológico, ou seja, ele não é tratado de forma integral. "Koenig constatou que o pensamento positivo, a meditação e a oração não afetam só a mente, mas o organismo como um todo", afirma Leão, para quem essas práticas se tornam ainda mais essenciais em tempos de pandemia do novo coronavírus. "Só os muito alienados não estão revendo seu padrão de vida neste momento".

Pânico e ressentimento


Helma Gonçalves do Nascimento Martins acordou se sentindo estranha naquela sexta-feira, 8 de janeiro. Aos 48 anos, a fisioterapeuta achou que a dor e o cansaço eram resultado do treino cardiovascular feito na véspera. Mas os sintomas do novo coronavírus vieram com força. "Tive febre, dor no corpo, perda de olfato, era um sintoma novo a cada quatro horas", diz. "Me faltava ar até para tomar um copo d'água". Com o marido e a filha caçula em casa, ela se isolou no quarto da criança. E aí teve início o pior dos sintomas: o pânico.



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A espiritualidade vai muito além da religião e envolve nosso estado mental e emocional


"A ansiedade bateu muito forte, era o medo da morte a todo instante, não conseguia pensar em outra coisa, achava que eu não ia aguentar", diz ela, que foi monitorada pelo seu médico durante os 14 dias de tratamento. "Ele me dizia: 'Estou 100% com você, a gente vai vencer este vírus', e eu procurava acreditar. É uma doença em que você sente a morte ao seu lado e precisa estar sozinha".


O pior da covid-19 passou nos primeiros dez dias. Mas os sintomas continuaram por mais de um mês. "Eu sentia uma fraqueza muscular imensa, tontura", diz.


O tratamento com remédios foi encerrado e Helma começou a ser atendida pela tia do marido, uma terapeuta holística. Ela lhe aplicava massagens e passes de reiki. "Aquilo fortaleceu o meu espírito. Comecei a me sentir bem melhor e um mês depois já voltei a trabalhar o dia todo", afirma. Evangélica, ela acredita que a espiritualidade a ajudou na recuperação. "Você quer lutar, quer sobreviver e vem uma força, que você não sabe bem de onde, e te ajuda a buscar a luz em meio ao pânico, a superar os sentimentos ruins". Para ela, suas doenças foram agravadas pelo seu estado emocional. "Três meses antes do coronavírus, em outubro, sofri uma angina, um pré-infarto. Enfrentava uma crise conjugal e não conseguia perdoar. Depois, passei a ficar desesperada em relação ao futuro, ao trabalho, por conta da pandemia. A falta de perdão e de fé me abalaram demais".


O psicólogo Laerson Cândido de Oliveira ressalta o valor do amor, da oração, da positividade e da fé no futuro. "Costumamos ter muita solidariedade em relação a quem está distante de nós, a quem não conhecemos, mas somos incapazes de perdoar as menores faltas cometidas por pessoas do nosso convívio", diz ele, que dirige o Instituto Espírita Cidadão do Mundo (IECIM), em São Paulo.


Segundo ele, o ódio e o ressentimento aprisionam o indivíduo, levando-o a um estado doentio, enquanto o medo e o egoísmo paralisam impulsos positivos, no sentido de auxílio ao próximo.

Contra o negacionismo


As práticas de massagem (ayurveda) e reiki, usadas por Helma no tratamento das sequelas da covid-19, integram a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPICs), adotada em 2006 pelo Ministério da Saúde. Hoje, a PNPICs engloba 29 recursos terapêuticos - muitos baseados em conhecimentos tradicionais como acupuntura, ioga, meditação, fitoterapia, homeopatia e quiropraxia, e outros mais recentes, como ozonioterapia e biodança. Atualmente, são oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em 54% dos municípios do país.


A adoção da PNPICs segue orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) que, em 1988, incluiu a dimensão espiritual no conceito de saúde multidimensional. Para a organização, espiritualidade é "o conjunto de todas as emoções e convicções de natureza não material, com a suposição de que há mais no viver do que pode ser percebido ou plenamente compreendido, remetendo a questões como o significado e sentido da vida, não se limitando a qualquer tipo específico de crença ou prática religiosa".


"A PNPICs pode fazer a grande diferença para a saúde da população, ao valorizar o conhecimento tradicional, as culturas regionais, amparada no aculturamento espiritualista, sobretudo a um baixo custo", diz o neurocientista Sérgio Felipe de Oliveira. "É a possibilidade de diálogo com a população", prossegue ele, para quem o diálogo entre ciência e espiritualidade nunca foi tão urgente.


"A ciência não pode se fechar em cima de si mesma, em um conhecimento hermético. Ela precisa ouvir e conversar com a população. Senão, quando nós precisamos da ciência, o povo não ouve. Aí surgem o negacionismo e as fake news", diz ele, que entre 2007 e 2014 ministrou a disciplina optativa Medicina e Espiritualidade na Faculdade de Medicina na USP.


Para Sergio Felipe, é fundamental que o médico crie uma relação de empatia com o paciente. "Tanto o povo brasileiro quanto o americano são religiosos, acreditam na força da oração e na proteção de Deus. O médico precisa valorizar a dimensão espiritual do paciente para integrá-la ao tratamento", afirma.


É neste sentido, por exemplo, que o médico deve explicar que o paciente não pode estar estressado quando for tomar o medicamento, porque a adrenalina vai atrapalhar a sua eficácia. "O estado de espírito do indivíduo interfere na farmacocinética, ou seja, na absorção e distribuição do remédio no organismo", diz. "Se a oração e a fé do paciente podem acalmá-lo, isso será importante para que a medicação surta efeito".

Risadas no centro cirúrgico


Na cabeça do médico, fazer a junção entre o material e o espiritual não é tão simples. "Somos treinados a observar a dimensão física do paciente e, para a maioria, é difícil aliar este conhecimento técnico com a espiritualidade", afirma a médica pediatra Carolina Camargo Vince. "É preciso ser cuidadoso na abordagem, para que o paciente não pense que a cura dele depende de um milagre", diz ela, que integra a equipe de oncologia pediátrica do Hospital Israelita Albert Einstein e do Instituto do Tratamento do Câncer Infantil do Hospital das Clínicas de São Paulo.


No dia a dia, Carolina costuma estender os cuidados à família da criança. "O diagnóstico de câncer afeta a saúde mental e emocional não só do paciente, mas das famílias, especialmente quando se trata de uma criança", diz ela. É comum em um primeiro momento haver um sentimento de revolta por parte dos pais, que se perguntam por que isso acontece com o filho deles, ou por que não foram eles o alvo da doença, no lugar das crianças, afirma.


"O câncer te coloca frente a frente com a questão da espiritualidade, é um momento de reflexão existencial", diz Carolina, para quem as crianças, em geral, desenvolvem sua espiritualidade de maneira plena. "Não passa pela cabeça delas desistir ou desesperar, elas vão procurar mecanismos dentro delas mesmas para se adaptar a um novo momento de vida, que envolve muitos remédios, picadas, desconfortos e às vezes longos períodos de internação".


Paciente de Carolina, Cora Grigio foi diagnosticada com leucemia quando tinha cinco anos e meio. "Para mim, até então, essa doença era sinônimo de morte", conta Patrícia Ferreira Silvério, mãe de Cora, que viu a filha encarar a situação com leveza.


"A Dra. Carol explicou para ela o que estava acontecendo de maneira didática e delicada", lembra. "E durante todo o tratamento, que durou dois anos e dois meses, minha filha só chorou uma vez". Espirituosa e alegre, Cora sempre gostou de se enfeitar para ir ao hospital, onde brincava com quem estivesse perto. "Deitada na maca, ela ia rindo com as médicas para o centro cirúrgico", lembra Patrícia, que hoje alimenta o Instagram da filha, uma modelo de 8 anos. "Ela começou a fazer campanhas quando ainda estava carequinha, tamanha a autoestima".


Mas para a mãe o processo nunca foi tranquilo. "Um dia, depois das primeiras sessões de quimioterapia, levei um susto quando um tufo de cabelo dela saiu na escova. Cora percebeu e começou a cantar para me alegrar", diz Patrícia. "Não aguentei e chamei meu marido, precisava chorar um pouco".


Para Patrícia, a doença da única filha foi capaz de lhe mostrar que ela não está no controle de tudo. "Eu sempre fui a que tomava a frente das coisas, a que resolvia tudo. Mas me deparei com algo que eu não conseguia resolver. Eu tinha que buscar paz para passar pelo sofrimento", diz ela, uma católica que se aproximou do espiritismo na época do tratamento de Cora.



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A forma como o paciente e sua família lidam com a doença pode fazer diferença no resultado final do tratamento e na recuperação

Mentes perturbadas


A pediatra intensivista Cíntia Tavares Cruz sempre quis tratar do tema espiritualidade com as famílias, mas não sabia como abordar. Ao longo do seu curso de medicina na Universidade de Campinas (Unicamp), o mais perto que ela chegou do assunto foi quando aprendeu sobre ética e humanização.


"O paciente que chega à UTI está em colapso do corpo físico. Existe alto grau de incerteza, tudo sai do falso controle. Depois de resgatá-lo, é preciso tratar de questões que o levaram até ali e vão além do físico", diz ela, que só ouviu falar sobre espiritualidade quando se especializou em medicina paliativa. Voltada a doentes crônicos, a especialidade busca proporcionar ao paciente e sua família uma qualidade de vida integral, envolvendo físico, social, emocional e espiritual. "Neste sentido, as práticas integrativas fazem toda a diferença".


Na opinião da fisioterapeuta Juliana Faria do Nascimento, as PNPICs contribuem para o equilíbrio energético e permitem melhorar a imunidade do indivíduo. "Por isso, o Conselho Nacional de Saúde pediu que este tipo de tratamento não fosse interrompido durante a pandemia", diz ela, que trabalha em Adamantina (SP) e tem entre os seus pacientes diabéticos, hipertensos e portadores de doenças cardiovasculares que viram aumentar seu grau de ansiedade e estresse durante o confinamento. "Uma mente perturbada não consegue evoluir na parte física", afirma.


Cíntia Cruz concorda. "A adoção de práticas integrativas ajuda a desbloquear a espiritualidade do paciente. Isso não vai acabar com o seu sofrimento, mas vai ajudá-lo a lidar melhor com este momento difícil, ao sair da inércia e da vitimização", diz a pediatra, que trabalha como intensivista no Hospital Infantil Sabará, em São Paulo, e como paliativista no Hospital das Clínicas.


Foi o que aconteceu com o pequeno Kaleb, de 10 anos. Vítima de sarcoma histiocítico, um tipo raro e agressivo de câncer, que se disseminou por todo o corpo, ele passou a ter contato no hospital com a meditação para controlar a dor. "Por vezes eu estava no quarto conversando com a médica e ele pedia silêncio para meditar", lembra a mãe de Kaleb, Fernanda Hochstedler.

"Deus não se esqueceu da gente"


Foi a segunda vez que Kaleb teve câncer. Na primeira, quando ele ainda tinha 8 anos, foi diagnosticado com leucemia. Se incomodou com a perda de cabelo, mas respondeu bem ao tratamento ao longo do primeiro ano. Um dia, porém, começou a sofrer com febres altas e persistentes. Uma investigação profunda levou ao diagnóstico de sarcoma.


"Foi muito difícil dizer a ele que surgiu um novo câncer e que ele precisava passar por um transplante de medula", diz Fernanda. "Dissemos a ele que não sabíamos o final da história, mas que ele jamais estaria sozinho e que Deus não se esqueceu da gente", diz ela que, com o marido e outros quatro filhos, segue a Igreja Internacional do Calvário, de origem canadense.


O transplante foi feito em novembro de 2019. As sessões intensas de quimioterapia levaram a uma reação no pulmão e ele voltou a ser internado em 3 de março do ano passado. "Quando surgiu a pandemia, fiquei o tempo todo com ele no hospital, passei quase um mês sem ver meus outros filhos", diz Fernanda. Para suprir em parte a falta dos irmãos, a quem Kaleb sempre foi apegado, a mãe sugeriu que eles fizessem novos amigos no hospital - alguns mantidos até hoje.


"Quando você foca na vida da outra pessoa, você cria empatia e transforma a sua própria perspectiva", diz ela. "Isso nos ajudou a lidar com as emoções e a não nos entregarmos ao desespero".


O momento de dor profunda, porém, chegou. Kaleb precisou ser entubado em abril e, em 12 de maio de 2020, faleceu. Dois dias antes, sem perspectiva de melhoras, Fernanda e o marido questionaram se os irmãos queriam se despedir de Kaleb. Todos concordaram. O garoto permanecia sedado, mas os irmãos conversaram com ele. "O meu caçula disse: 'Vá para casa, Kaleb. Nós vamos mais tarde'", lembra Fernanda, que chegou a colocar o filho já morto no colo. "Deixá-lo ir, depois de tanto sofrimento, trouxe muita paz", diz ela, para quem Deus se tornou muito mais real depois de toda a experiência. "É claro que houve dor e desespero, mas a fé nos permitiu não permanecer lá e voltarmos a viver".





Autor: Daniele Madureira
Fonte: São Paulo para a BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 09/05/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-56655826

Como foi a reentrada de foguete chinês descontrolado, que caiu no Oceano Índico



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Foguete foi lançado em 29 de abril


Os destroços do foguete chinês Longa Marcha 5B caíram no Mar Arábico, perto das Ilhas Maldivas, no Oceano Índico, de acordo com autoridades daquele país.


De acordo com imprensa estatal da China, partes do foguete entraram na atmosfera da Terra às 10h24 deste domingo (9/5) horário de Pequim (22h24 de sábado, 8/5, no Brasil).


A reentrada dos destroços do foguete também foi confirmada pelo 18º Esquadrão de Controle Espacial dos Estados Unidos, que se dedica a rastrear objetos artificiais na órbita da Terra.


O Comando Espacial dos EUA disse, por meio de um comunicado, que poderia "confirmar que a Longa Marcha 5B reentrou na Península Arábica". "Não se sabe se os destroços impactaram a terra ou a água", disse o comando.


Roscosmos, a agência espacial da Rússia, também relatou que destroços caíram no Oceano Índico.


A reentrada descontrolada do foguete na Terra causou preocupação, embora as autoridades chinesas e especialistas independentes tenham alertado que havia muito pouco risco de os destroços caírem em uma área habitada.

Foguete chinês descontrolado: EUA monitoram destroços que devem cair sobre a Terra no sábado


A China havia lançado o Longa Marcha 5B em 29 de abril para colocar em órbita um trecho da estação espacial que aquele país está construindo.


Vários sites de rastreamento dos Estados Unidos e da Europa monitoraram a reentrada do foguete, mas não foi possível determinar se ele se desintegraria ao entrar.


Nem foram capazes de identificar onde os possíveis destroços cairiam.



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China deu mais um passo em seu ambicioso programa espacial com lançamento do módulo Tianhe

Reentrada na Terra


A maioria dos componentes do Longa Marcha 5B se desintegrou ao entrar na atmosfera terrestre e os destroços caíram no Oceano Índico, de acordo com a imprensa estatal chinesa, citada pela agência de notícias Reuters.


As coordenadas localizam o ponto de impacto no Oceano Índico, ao norte do arquipélago das Maldivas, localizado a sudoeste do Sri Lanka e a 600 km da Índia.


Com 18 toneladas, o Longa Marcha 5B é um dos maiores artefatos a ter retornado descontroladamente à Terra em décadas.

Preocupação


Antes da reentrada do foguete, havia o temor de que detritos pudessem cair em uma área habitada.


O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Lloyd Austin, disse que a China foi negligente ao permitir a devolução descontrolada de um objeto tão grande.



CRÉDITO,BBC
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Terra está rodeada de satélites, mas também de lixo espacial


A China, por sua vez, rebateu essa acusação. A imprensa daquele país descreveu os alertas do Ocidente como "exageros" e previu que os destroços cairiam em algum lugar em águas internacionais.


Especialistas espaciais também previram que as chances de alguém ser atingido por um pedaço de lixo espacial eram muito pequenas, especialmente porque grande parte da superfície da Terra é coberta por oceanos e grandes áreas de nosso planeta são desabitadas.


Vários especialistas em modelagem de detritos espaciais apontaram que a reentrada aconteceria provavelmente na noite de sábado ou no domingo.


Eles previram que a maior parte do artefato se incendiaria durante sua imersão final na atmosfera, embora sempre houvesse a possibilidade de que metais com alto ponto de fusão e outros materiais duráveis pudessem atingir a superfície da Terra.


"A reentrada no oceano sempre foi estatisticamente a mais provável", tuitou Jonathan McDowell, especialista do Centro de Astrofísica da Universidade de Harvard, que monitorou a queda do foguete.


A missão do Longa Marcha 5B


Em 29 de abril, a China usou o foguete para colocar parte de sua estação espacial em órbita.


A estação espacial do gigante asiático será montada a partir de vários módulos que serão enviados em diferentes horários.


A China espera que ela entre totalmente em operação até o fim de 2022.


Para ter sua estação espacial pronta no prazo, a China estabeleceu um cronograma apertado de 11 lançamentos para os próximos dois anos.


A estação em forma de T deve funcionar por 10 anos e sua vida útil pode ser estendida para 15 anos com reparo e manutenção adequados, de acordo com a Academia de Tecnologia Espacial da China.


Espera-se que seja a única estação operacional em órbita aberta a parceiros estrangeiros após a 'aposentadoria' da Estação Espacial Internacional.




Autor: BBC News Brasil
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 09/05/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-57048256

A técnica dos psicólogos para saber quando alguém está mentindo



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Muita gente acha que sabe dizer quando alguém está mentindo, mas é extremamente difícil encontrar indicadores confiáveis


A polícia achou que Marty Tankleff, de 17 anos, parecia calmo demais depois de encontrar os corpos da mãe esfaqueada e do pai espancado na casa da família em Long Island, no Estado de Nova York, nos EUA.


As autoridades não acreditaram em suas alegações de inocência, e ele passou 17 anos na prisão pelos assassinatos.

Em outro caso, a polícia achou que Jeffrey Deskovic, de 16 anos, estava aflito e ansioso demais para ajudar os detetives depois que seu colega de escola foi encontrado estrangulado.


Ele também foi julgado por mentir e cumpriu quase 16 anos de prisão pelo crime.


Um deles não estava transtornado o suficiente. O outro estava transtornado demais. Como esses sentimentos opostos podem ser pistas reveladoras de culpa?


Não são, diz a psicóloga Maria Hartwig, pesquisadora do John Jay College of Criminal Justice da Universidade da Cidade de Nova York.


Ambos os rapazes, posteriormente inocentados, foram vítimas de uma concepção errônea generalizada: que você pode identificar um mentiroso pela maneira como ele age.


Em diferentes culturas, as pessoas acreditam que certos comportamentos — como desviar o olhar, inquietação e gagueira — entregam os mentirosos.


Mas, na verdade, pesquisadores encontraram poucas evidências para apoiar essa crença, apesar de décadas de pesquisas.


"Um dos problemas que enfrentamos como pesquisadores da mentira é que todo mundo pensa que sabe como a mentira funciona", afirma Hartwig, coautora de um estudo sobre pistas não-verbais para mentira publicado na revista acadêmica Annual Review of Psychology.


Esse excesso de confiança levou a erros judiciais graves, como Tankleff e Deskovic sabem muito bem.


"Os erros de detecção de mentira custam caro para a sociedade e para as pessoas vítimas de erros de julgamento", explica Hartwig.


"Tem muita coisa em jogo."

Sinais errados


Os psicólogos sabem há muito tempo como é difícil identificar um mentiroso.


Em 2003, a psicóloga Bella DePaulo, agora afiliada à Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, e seus colegas examinaram a literatura científica existente e reuniram 116 experimentos que comparavam o comportamento das pessoas ao mentir e ao dizer a verdade.


Os estudos avaliavam 102 possíveis pistas não-verbais, incluindo desviar o olhar, piscar, falar mais alto (uma pista não-verbal porque não depende das palavras usadas), encolher os ombros, mudar a postura e movimentar a cabeça, mãos, braços ou pernas.


Nenhuma delas provou ser um indicador confiável de um mentiroso, embora algumas fossem levemente correlacionadas, como pupilas dilatadas e um pequeno aumento — indetectável ao ouvido humano — no tom de voz.


Três anos depois, DePaulo e o psicólogo Charles Bond, da Texas Christian University, também nos EUA, revisaram 206 estudos envolvendo 24.483 observadores que julgaram a veracidade de 6.651 comunicações de 4.435 indivíduos.


Nem os especialistas em segurança pública, nem os estudantes voluntários foram capazes de distinguir as afirmações verdadeiras das falsas mais do que 54% das vezes — um pouco acima do acaso.


Em experimentos individuais, a precisão oscilou de 31 a 73% — e variou mais amplamente em estudos menores.


"O impacto da sorte é aparente em estudos pequenos", diz Bond. "Em estudos de tamanho suficiente, a sorte se nivela."


Este efeito em relação ao tamanho sugere que a maior precisão relatada em alguns dos experimentos pode apenas se resumir ao acaso, explica o psicólogo e analista de dados aplicados Timothy Luke, da Universidade de Gotemburgo, na Suécia.


"Se não encontramos grandes efeitos até agora", diz ele, "é porque provavelmente não existem."


A sabedoria popular diz que você pode identificar um mentiroso pela forma como ele soa ou age.


Mas quando os cientistas analisaram as evidências, descobriram que muito poucas pistas realmente tinham qualquer relação significativa com mentir ou dizer a verdade.


Mesmo as poucas associações que eram estatisticamente significativas não eram fortes o suficiente para serem indicadores confiáveis.


Os peritos da polícia, no entanto, frequentemente apresentam um argumento diferente: que os experimentos não eram realistas o suficiente.


Afinal de contas, eles dizem, os voluntários — a maioria estudantes — instruídos a mentir ou dizer a verdade em laboratórios de psicologia não enfrentam as mesmas consequências que os suspeitos de crimes na sala de interrogatório ou no banco dos réus.


"Os 'culpados' não tinham nada em jogo", afirma Joseph Buckley, presidente da John E Reid and Associates, que treina milhares de policiais todos os anos em detecção de mentiras baseada em comportamento.


"Não era uma motivação real, consequente."



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É difícil identificar um mentiroso com testes


Samantha Mann, psicóloga da Universidade de Portsmouth, no Reino Unido, achava que as críticas da polícia eram pertinentes quando começou a pesquisar sobre a mentira há 20 anos.


Para aprofundar a questão, ela e o colega Aldert Vrij assistiram a horas de entrevistas em vídeo da polícia com um serial killer condenado e identificaram três verdades conhecidas e três mentiras conhecidas.


Mann pediu então a 65 policiais ingleses que vissem as seis declarações e julgassem quais eram verdadeiras e quais eram falsas. Como as entrevistas eram em holandês, os oficiais julgaram inteiramente com base em pistas não-verbais.


Os policiais estavam corretos 64% das vezes — melhor do que o acaso, mas ainda não muito precisos, diz ela.


E aqueles que se saíram pior foram os que disseram confiar em estereótipos não-verbais como "mentirosos desviam o olhar" ou "mentirosos são inquietos".


Na verdade, o assassino manteve contato visual e não se inquietou ao mentir.


"Esse cara estava claramente muito nervoso, sem dúvida", afirma Mann, mas controlou seu comportamento para contrariar estrategicamente os estereótipos.


Em um estudo posterior, também realizado por Mann e Vrij, 52 policiais holandeses não se saíram melhor do que o acaso ao tentar distinguir entre declarações verdadeiras e falsas de familiares que haviam matado seus parentes e negado veementemente em coletivas de imprensa que foram usadas no estudo.


Notavelmente, os policiais com pior desempenho foram aqueles que acreditaram que as demonstrações de emoção eram genuínas. Mas o que isso significa?


"Se o marido matou a esposa, ele poderia estar perturbado por uma série de razões, como remorso ou (medo de) ser preso", diz Mann.


"O comportamento não-verbal é tão idiossincrático. Se você se concentrar no comportamento não-verbal, como as emoções, você vai cometer erros."


Confirmando esses resultados em larga escala, anos depois, Hartwig e Bond revisaram a literatura de estudos que comparavam as habilidades das pessoas para detectar mentiras de alto e baixo risco.


Eles não encontraram evidências de que as pessoas detectassem melhor as mentiras contadas por criminosos ou suspeitos acusados ​​injustamente em investigações policiais do que aquelas contadas por voluntários em laboratório.

Algo a esconder


De assassinos em série a estudantes mentindo em experimentos de laboratório, as mentiras em todos esses experimentos foram ditas oralmente.


Em um estudo publicado em 2019, Mann examinou a farsa não-verbal, como quando alguém está tentando esconder uma atividade ilícita — um tipo de mentira relevante para detectar terroristas ou contrabandistas.


Ela recrutou 52 estudantes universitários voluntários e pediu a metade deles que transportasse um laptop que supostamente continha fotos confidenciais em um trajeto de balsa entre duas cidades.


Os voluntários foram orientados a tentar se misturar em meio à multidão e não parecerem "suspeitos", porque haveria pessoas tentando identificá-los.


A outra metade do grupo recebeu um telefone celular comum para transportar, sem instruções para esconder o que estavam fazendo.


Quando Mann mostrou os vídeos das viagens de balsa para 104 outros voluntários e pediu que identificassem os "contrabandistas", os observadores não se saíram melhor do que o acaso.


Em entrevistas posteriores, os "contrabandistas" disseram que estavam nervosos, mas conscientemente tentaram agir normalmente e controlar o nervosismo com táticas como ouvir música ou usar seus telefones.


Em seguida, Mann aumentou o nível de tensão do experimento. Metade de um novo grupo de 60 voluntários recebeu um envelope com moedas russa, egípcia e coreana para esconder, enquanto a outra metade não "contrabandeou" nada.


Mas, desta vez, Mann enviou dois pesquisadores para andar pela balsa e analisar os passageiros, aparentando comparar seus rostos com fotos em um telefone celular.


Desta vez, 120 observadores que tentavam identificar os "contrabandistas" no vídeo acertaram 39,2% das vezes — bem menos do que o acaso.


A razão, diz Mann, é que os "contrabandistas" conscientemente se esforçaram para parecer normais, enquanto os voluntários "inocentes" do grupo de controle agiram com naturalidade.


A surpresa deles com a vigilância inesperada pareceu aos observadores um sinal de culpa.

Disfarçar bem


A descoberta de que mentirosos podem esconder o nervosismo com sucesso é a peça que faltava na pesquisa sobre mentira, diz o psicólogo Ronald Fisher, da Universidade Internacional da Flórida, nos EUA, que treina agentes do FBI, a polícia federal americana.


"Não são muitos os estudos que comparam as emoções internas das pessoas com o que os outros percebem", diz ele.


"A questão toda é que os mentirosos ficam mais nervosos, mas isso é um sentimento interno, ao contrário do modo como eles se comportam, conforme observado pelos outros."


Estudos como estes levaram os pesquisadores a abandonar em grande parte a busca por pistas não-verbais para a mentira.


Mas existem outras maneiras de identificar um mentiroso?



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Ideias preconcebidas sobre como as pessoas se comportam ao mentir resultaram em erros judiciais


Hoje, os psicólogos que investigam a mentira estão mais propensos a se concentrar em pistas verbais e, particularmente, em maneiras de ampliar as diferenças entre o que dizem os mentirosos e quem fala a verdade.


Por exemplo, os interrogadores podem reter evidências estrategicamente por mais tempo, permitindo que um suspeito fale mais livremente, o que pode levar os mentirosos a contradições.


Em um experimento, Hartwig ensinou essa técnica a 41 policiais em treinamento, que na sequência identificaram corretamente os mentirosos em cerca de 85% das vezes — em comparação com 55% de outros 41 recrutas que ainda não haviam recebido o treinamento.


"Estamos falando de melhorias significativas nas taxas de precisão", diz Hartwig.


Outra técnica de interrogatório explora a memória espacial ao pedir que suspeitos e testemunhas descrevam uma cena relacionada a um crime ou um álibi para ser desenhada.


Como isso reforça a lembrança, quem diz a verdade pode apresentar mais detalhes.


Em um estudo simulado de missão de espionagem publicado por Mann e seus colegas no ano passado, 122 participantes se encontraram com um "agente" no refeitório da escola, trocaram um código e, em seguida, receberam um pacote.


Posteriormente, os participantes instruídos a dizer a verdade sobre o que aconteceu forneceram 76% mais detalhes sobre a experiência durante uma entrevista para ilustrar o ocorrido do que aqueles solicitados a encobrir a troca de código-pacote.


"Quando você ilustra, está revivendo um evento — então isso ajuda a memória", diz Haneen Deeb, psicóloga da Universidade de Portsmouth, coautora do estudo.


O experimento foi desenvolvido com a contribuição da polícia do Reino Unido, que regularmente recorre a entrevistas para ilustração e trabalha com pesquisadores de psicologia, como parte da transição para os interrogatórios de presunção de inocência, que substituiu oficialmente os interrogatórios do tipo acusatório nas décadas de 1980 e 1990 no país após escândalos envolvendo condenações injustas e abusos.

Mudança lenta


Nos EUA, porém, essas reformas baseadas na ciência ainda precisam ser introduzidas significativamente na polícia e em outras autoridades de segurança.



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As técnicas de detecção de mentira desenvolvidas no século 20 são notoriamente imprecisas


A Administração de Segurança de Transporte (TSA, na sigla em inglês) do Departamento de Segurança Interna dos EUA, por exemplo, ainda usa pistas não-verbais de mentira para selecionar passageiros para interrogatório nos aeroportos.


A lista de verificação de triagem comportamental secreta da agência instrui os agentes a procurar pistas que indiquem supostos mentirosos, como desviar o olhar — considerado um sinal de respeito em algumas culturas —, olhar fixo prolongado, piscar rapidamente, reclamar, assobiar, bocejar de forma exagerada, cobrir a boca ao falar e inquietação ou cuidados pessoais excessivos.


Todas essas pistas foram completamente desacreditadas por pesquisadores.


Com os agentes se baseando em fundamentos tão vagos e contraditórios para suspeita, talvez não seja surpreendente que passageiros tenham apresentado 2.251 queixas formais entre 2015 e 2018, alegando que foram selecionados com base na nacionalidade, raça, etnia ou outros motivos.


O escrutínio do Congresso em relação aos métodos de triagem da TSA em aeroportos remonta a 2013, quando o General Accounting Office (GAO)​ — o órgão de auditoria do Congresso americano — revisou as evidências científicas para detecção de comportamento e descobriu que eram insuficientes, recomendando a TSA a limitar seu financiamento e restringir seu uso.


Em resposta, a TSA eliminou o uso de oficiais de detecção de comportamento independentes e reduziu a lista de verificação de 94 para 36 indicadores, mas manteve muitos elementos sem respaldo científico, como suor intenso.


Em resposta ao novo escrutínio do Congresso, a TSA prometeu em 2019 melhorar a supervisão da equipe para reduzir a criação de perfis. Ainda assim, a agência continua a ver valor na triagem comportamental.



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Ao serem interrogadas, as pessoas podem ficar nervosas ou angustiadas por uma série de motivos, não apenas por estarem escondendo a verdade


Como um oficial da Segurança Interna disse aos investigadores do Congresso, vale a pena incluir indicadores comportamentais de "bom senso" em um "programa de segurança racional e defensável", mesmo que não atendam aos padrões acadêmicos de evidência científica.


O gerente de relações com a imprensa da TSA, R Carter Langston, diz que o órgão "acredita que a detecção comportamental fornece uma camada crítica e eficaz de segurança dentro do sistema de transporte do país."


A TSA cita dois casos distintos de detecção comportamental bem-sucedidos nos últimos 11 anos que impediram três passageiros de embarcar em aviões com dispositivos explosivos ou incendiários.


Mas, como diz Mann, sem saber quantos supostos terroristas escaparam da segurança sem serem detectados, o sucesso de tal programa não pode ser medido.


E, na verdade, em 2015, o chefe interino da TSA foi afastado após agentes infiltrados do Departamento de Segurança Interna contrabandearem com sucesso, em uma investigação interna, dispositivos explosivos falsos e armas reais por meio da segurança do aeroporto 95% das vezes.


Em 2019, Mann, Hartwig e 49 outros pesquisadores universitários publicaram uma revisão de estudos avaliando as evidências da triagem de análise comportamental, concluindo que os profissionais de segurança pública deveriam abandonar essa pseudociência "fundamentalmente equivocada", que pode "prejudicar a vida e a liberdade dos indivíduos".


Hartwig, por sua vez, se juntou ao especialista em segurança nacional Mark Fallon, ex-agente especial do Serviço de Investigação Criminal da Marinha dos Estados Unidos e ex-diretor assistente de Segurança Interna, para criar um novo currículo de treinamento para investigadores mais solidamente baseado na ciência.


"O progresso tem sido lento", diz Fallon.


Mas ele espera que reformas futuras salvem as pessoas do tipo de condenações injustas que marcaram as vidas de Jeffrey Deskovic e Marty Tankleff.


Para Tankleff, os estereótipos de mentirosos se revelaram ferrenhos.


Em anos de campanha para ser absolvido e recentemente para exercer advocacia, o rapaz reservado e estudioso teve que aprender a mostrar mais sentimento "para criar uma nova narrativa" de inocente injustiçado, diz Lonnie Soury, gerente de crise que foi sua coach nesse esforço.


Funcionou, e Tankleff finalmente conseguiu ser admitido na Ordem de Nova York em 2020. Por que demonstrar emoção era tão importante?

"As pessoas", diz Soury, "são muito tendenciosas".

*Este artigo foi publicado originalmente na Knowable Magazine e republicado aqui com permissão.




Autor: Jessica Seigel
Fonte: BBC Future (Knowable Magazine)*
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 07/05/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-56799659