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quarta-feira, 14 de julho de 2021

SOFI 2021: Relatório da ONU destaca os impactos da pandemia no aumento da fome no mundo


A fome mundial passou por um agravamento dramático em 2020, é o que destacam as Nações Unidas hoje –e provavelmente, o aumento está relacionado às consequências da COVID-19. Embora o impacto da pandemia ainda não tenha sido totalmente mapeado, o relatório O Estado da Insegurança Alimentar e Nutrição no Mundo (SOFI) 2021, construído através do esforço de várias agências das Nações Unidas, estima que cerca de um décimo da população global –até 811 milhões de pessoas– estava subalimentada no ano passado. O número sugere que será necessário um grande esforço para o mundo honrar sua promessa de acabar com a fome até 2030.

O SOFI 2021 é a primeira avaliação global desse tipo em tempos de pandemia. O relatório é publicado em conjunto pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (WFP) e a Organização Mundial da Saúde (OMS).

As edições anteriores já haviam alertado o mundo de que a segurança alimentar de milhões –muitas crianças entre elas– estava em jogo. “Infelizmente, a pandemia continua expondo fraquezas em nossos sistemas alimentares, que ameaçam a vida e o sustento de pessoas em todo o mundo”, escrevem os chefes das cinco agências da ONU no Prefácio deste ano.

Eles alertam sobre uma “conjuntura crítica”, ao mesmo tempo que depositam novas esperanças no aumento do ímpeto diplomático. “Este ano oferece uma oportunidade única para o avanço da segurança alimentar e nutrição por meio da transformação dos sistemas alimentares com a próxima Cúpula de Sistemas Alimentares da ONU, a Cúpula Nutrição para o Crescimento e a COP26 sobre mudança climática.” “O resultado desses eventos”, acrescentam os cinco, “dará forma à [...] segunda metade da Década de Ação para Nutrição das Nações Unidas” –um compromisso de política global que ainda não atingiu seu objetivo.

Os números em detalhes

Já em meados da década de 2010, a fome havia começado a subir, diminuindo as esperanças de um declínio irreversível. Perturbadoramente, em 2020 a fome disparou em termos absolutos e proporcionais, ultrapassando o crescimento populacional: estima-se que cerca de 9,9% entre todas as pessoas tenham sofrido de desnutrição no ano passado, ante 8,4% em 2019.

Mais da metade de todas as pessoas subalimentadas (418 milhões) vivem na Ásia; mais de um terço (282 milhões) na África; e uma proporção menor (60 milhões) na América Latina e no Caribe. Mas o aumento mais acentuado da fome foi na África, onde a prevalência estimada de desnutrição –em 21% da população– é mais do que o dobro de qualquer outra região. 

Em outras análises, o ano de 2020 também foi devastador. No geral, mais de 2,3 bilhões de pessoas (ou 30% da população global) não tinham acesso a alimentação adequada durante todo o ano: este indicador –conhecido como prevalência de insegurança alimentar moderada ou grave– saltou em um ano tanto quanto nos cinco anteriores combinados. A desigualdade de gênero se aprofundou: para cada 10 homens com insegurança alimentar, havia 11 mulheres com insegurança alimentar em 2020 (de 10,6 em 2019).

A má nutrição persistiu em todas as suas formas, com as crianças pagando um preço alto: em 2020, estima-se que mais de 149 milhões de menores de cinco anos sofriam de atraso de crescimento ou eram muito baixos para sua idade; mais de 45 milhões –debilitadas ou muito magras para sua altura; e quase 39 milhões –acima do peso. Três bilhões de adultos e crianças permaneceram excluídos de dietas saudáveis, em grande parte devido aos custos excessivos. Quase um terço das mulheres em idade reprodutiva sofre de anemia. Globalmente, apesar do progresso em algumas áreas –mais bebês, por exemplo, estão sendo alimentados exclusivamente com leite materno –o mundo não está a caminho de atingir as metas de nenhum indicador nutricional até 2030. 

Outros fatores do aumento da fome e da desnutrição 

Em muitas partes do mundo, a pandemia provocou recessões brutais e prejudicou o acesso aos alimentos. No entanto, mesmo antes da pandemia, a fome estava se espalhando; o progresso na má nutrição foi lento. Isso foi ainda mais impactante em nações afetadas por conflitos, mudanças climáticos ou outras crises econômicas, ou lutando contra a alta desigualdade –todos os quais o relatório identifica como os principais motores da insegurança alimentar, que por sua vez interagem entre si –quanto mais fatores um país tem, pior é a subalimentação e a má nutrição, maior a insegurança alimentar e mais proibitivo o custo de alimentações saudáveis para seus cidadãos.

Seguindo as tendências atuais, o Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo estima que a Meta 2 do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (Fome Zero até 2030) não será alcançada por uma margem de quase 660 milhões de pessoas. Destes 660 milhões, cerca de 30 milhões podem estar ligados aos efeitos duradouros da pandemia.

O que pode (ainda) ser feito 

Conforme descrito no relatório do ano passado, transformar os sistemas alimentares é essencial para alcançar a segurança alimentar, melhorar a nutrição e colocar alimentações saudáveis ao alcance de todos. A edição deste ano vai além, delineando seis “caminhos de transformação”. Estes, dizem os autores, contam com um “conjunto coerente de políticas e carteiras de investimento” para combater os impulsionadores da fome e da má nutrição. 

Dependendo do fator específico (ou combinação de fatores) que cada país enfrenta, o relatório insta os formuladores de políticas a: 

  • Integrar políticas humanitárias, de desenvolvimento e de construção da paz em áreas de conflito –por exemplo, por meio de medidas de proteção social para evitar que as famílias vendam bens escassos em troca de alimentos;
  • Ampliar a resiliência climática em todos os sistemas alimentares –por exemplo, oferecendo aos pequenos agricultores amplo acesso a seguro contra riscos climáticos e financiamento baseado em previsões;
  • Fortalecer a resiliência dos mais vulneráveis à adversidade econômica –por exemplo, por meio de programas em campo ou de apoio em dinheiro para diminuir o impacto de choques do tipo pandêmico ou volatilidade dos preços dos alimentos; 
  • Intervir ao longo das cadeias de abastecimento para reduzir o custo de alimentos nutritivos –por exemplo, incentivando o plantio de safras biofortificadas ou facilitando o acesso dos produtores de frutas, legumes e verduras aos mercados;
  • Combater a pobreza e as desigualdades estruturais –por exemplo, estimulando cadeias de valor de alimentos em comunidades pobres por meio de transferências de tecnologia e programas de certificação;
  • Fortalecer os ambientes alimentares e mudar o comportamento do consumidor –por exemplo, eliminando as gorduras trans industriais e reduzindo o teor de sal e açúcar no abastecimento alimentar, ou protegendo as crianças do impacto negativo do marketing alimentar.

O relatório também pede um “ambiente propício para mecanismos e instituições de governança” para tornar a transformação possível. Ele recomenda que os formuladores de políticas consultem amplamente; para empoderar mulheres e jovens; e expandir a disponibilidade de dados e novas tecnologias. Acima de tudo, insistem os autores, o mundo deve agir agora –ou assistir os fatores de impulsionamento da fome e da má nutrição se repetirem com intensidade crescente nos próximos anos, mesmo depois de passado o choque da pandemia. 

GLOSSÁRIO

Fome: uma sensação desconfortável ou dolorosa causada por energia insuficiente da alimentação. Privação de alimentos; não comer calorias suficientes. Usado aqui de forma intercambiável com subalimentação (crônica). Medido pela prevalência de subalimentação (Prevalence of Undernourishment – PoU).

Insegurança alimentar moderada: um estado de incerteza sobre a capacidade de obter alimentos; risco de pular refeições ou ver comida acabar; sendo forçado a comprometer a qualidade nutricional e/ou quantidade dos alimentos consumidos.

Insegurança alimentar grave: ficar sem comida; fome experimentada; no extremo, ficar sem comer por um dia ou mais.

Má nutrição: condição associada a deficiências, excessos ou desequilíbrios no consumo de macro e/ou micronutrientes. Por exemplo, desnutrição e obesidade são formas de má nutrição. O atrofiamento ou o atraso no crescimento infantil são indicadores de subnutrição. 







Autor: OMS
Fonte: OMS
Sítio Online da Publicação: paho
Data: 12/07/2021
Publicação Original: https://www.paho.org/pt/noticias/12-7-2021-sofi-2021-relatorio-da-onu-destaca-os-impactos-da-pandemia-no-aumento-da-fome-no

OMS emite novas recomendações sobre edição do genoma humano para avanço da saúde pública


Dois novos relatórios complementares divulgados nesta segunda-feira (12) pela Organização Mundial da Saúde (OMS) fornecem as primeiras recomendações mundiais para ajudar a estabelecer a edição do genoma humano como uma ferramenta para a saúde pública, com ênfase na segurança, eficácia e ética.

Os novos relatórios voltados para o futuro resultam da primeira consulta ampla e global voltada à edição do genoma humano somática, da linhagem germinativa e hereditária. A consulta, que durou mais de dois anos, envolveu centenas de participantes representando diversas perspectivas de todo o mundo, incluindo cientistas e pesquisadores, grupos de pacientes, líderes religiosos e povos indígenas.

“A edição do genoma humano tem o potencial de avançar nossa capacidade de tratar e curar doenças, mas o impacto total só será percebido se o implementarmos para o benefício de todas as pessoas, em vez de alimentar mais desigualdades de saúde entre e dentro dos países”, afirmou Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.

Os benefícios potenciais da edição do genoma humano incluem um diagnóstico mais rápido e preciso, tratamentos mais direcionados e prevenção de doenças genéticas. As terapias de genes somáticos, que envolvem a modificação do DNA de um paciente para tratar ou curar uma doença, têm sido usadas com sucesso para tratar o HIV, a doença falciforme e a amiloidose por transtirretina. A técnica também pode melhorar muito o tratamento de uma variedade de cânceres.

No entanto, existem alguns riscos, por exemplo, com a edição do genoma humano da linhagem germinativa e hereditária, que alteram o genoma de embriões humanos e podem ser transmitidos às gerações subsequentes, modificando as características dos descendentes.

Os relatórios publicados oferecem recomendações sobre a governança e supervisão da edição do genoma humano em nove áreas distintas, incluindo registros de edição do genoma humano; pesquisa internacional e viagens médicas; pesquisa ilegal, não registrada, antiética ou insegura; propriedade intelectual; e educação, engajamento e empoderamento. As recomendações enfocam as melhorias no nível dos sistemas necessárias para desenvolver a capacidade em todos os países para garantir que a edição do genoma humano seja usada com segurança, eficácia e ética.

Os relatórios também fornecem uma nova estrutura de governança que identifica ferramentas, instituições e cenários específicos para ilustrar os desafios práticos na implementação, regulamentação e supervisão da pesquisa do genoma humano. A estrutura de governança oferece recomendações concretas para lidar com cenários específicos, como:

  • Um ensaio clínico hipotético de edição do genoma humano somática para a doença falciforme proposto para ocorrer na África Ocidental;
  • Proposta de uso de edição de genoma somática ou epigenética para melhorar o desempenho atlético; e
  • Uma clínica imaginária com base em um país com supervisão mínima da edição do genoma humano hereditária que oferece esses serviços a clientes internacionais após fertilização in vitro e diagnóstico genético pré-implantação.

“Esses novos relatórios do Comitê Consultivo de Especialistas da OMS representam um salto em frente para essa área emergente da ciência”, disse a cientista-chefe da OMS, Soumya Swaminathan. “À medida que a pesquisa mundial se aprofunda no genoma humano, devemos minimizar os riscos e aproveitar as maneiras pelas quais a ciência pode levar a uma saúde melhor para todos, em qualquer lugar.”

O que vem pela frente

A OMS vai:

  • Convocar um pequeno comitê de especialistas para considerar as próximas etapas para o Registro, incluindo como monitorar melhor os ensaios clínicos usando tecnologias de edição do genoma humano de interesse;
  • Convocar as partes interessadas multissetoriais para desenvolver um mecanismo acessível para relatórios confidenciais de preocupações sobre pesquisa de edição do genoma humano possivelmente ilegal, não registrado, antiético e inseguro e outras atividades;
  • Como parte de um compromisso para aumentar a ‘educação, envolvimento e capacitação’, conduzir webinars regionais com foco nas necessidades regionais/locais. Trabalhar dentro da Divisão de Ciência para considerar como construir um diálogo global inclusivo sobre tecnologias de fronteira, incluindo trabalho entre as Nações Unidas e a criação de recursos baseados na web para informações confiáveis sobre tecnologias de fronteira, incluindo edição do genoma humano.




Autor: OMS
Fonte: OMS
Sítio Online da Publicação: paho
Data: 12/07/2021
Publicação Original: https://www.paho.org/pt/noticias/12-7-2021-oms-emite-novas-recomendacoes-sobre-edicao-do-genoma-humano-para-avanco-da-saude

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Aprovação da OMS dá 'aval' à Coronavac, dizem especialistas



CRÉDITO,GETTY IMAGES


Depois de uma sequência de estudos que reforçaram nas últimas semanas a eficácia da vacina Coronavac contra a covid-19, o imunizante desenvolvido pela farmacêutica chinesa Sinovac recebeu mais uma sinalização positiva nesta terça-feira (1/6): a Organização Mundial da Saúde (OMS) aprovou seu uso emergencial.


Isso quer dizer, na prática, que países poderão acelerar seus processos de aprovação interna para uso de vacina, casos suas regras permitam que decisões de órgãos internacionais como a OMS sirvam como comprovação de eficácia e segurança; e que o imunizante poderá ser incorporado ao consórcio Covax Facility, liderado pela o OMS com o objetivo de distribuir doses entre os países de forma mais igualitária.


No Brasil, a Coronavac já tem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para uso emergencial e é produzida em parceria com o Instituto Butantan, vinculado ao governo estadual de São Paulo.


"É mais uma aval que a gente não tinha muita dúvida que viria, porque (a vacina) preenche todos os requisitos. Os dados da CoronaVac realmente são muito bons no mundo real, no Uruguai, Chile, no município de Serrana (SP), mostrando o impacto positivo da introdução da vacina em programas públicos de imunização", explica o médico infectologista Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), citando estudos recentes que mostraram os benefícios da vacina em diferentes lugares.


"O estudo de Serrana é emblemático porque tem uma situação experimental e controlada, quase um laboratório da vida real, demonstrando que a vacina consegue reduções expressivas no número de casos, na hospitalização e mortalidade. E isso em um cenário de circulação predominante da (variante) P.1"


Kfouri se refere a um estudo conduzido no município paulista e que teve resultados apresentados nesta segunda-feira (31/5), conforme mostrou a BBC News Brasil.


Lá, 95% da população adulta foi vacinada com duas doses da CoronaVac — chegando a aproximadamente 28 mil pessoas na cidade cuja população é de 45 mil. Segundo os dados apresentados em entrevista coletiva, as mortes por covid-19 foram reduzidas em 95%; as internações, em 86%; e os casos sintomáticos, em 80%.


As reações adversas também se mostraram pouco significativas: 4,4% dos participantes apresentaram algum incômodo após a primeira dose, e apenas 0,02% deles tiveram efeitos colaterais grau 3, como dor na cabeça ou nos músculos, que chegam a prejudicar as atividades diárias.


É importante destacar, porém, que estes resultados ainda não foram publicados em uma revista científica, onde eles costumam passar pela avaliação de cientistas independentes, na chamada "revisão dos pares".


No Uruguai, também citado por Kfouri, o Ministério da Saúde divulgou em 25 de maio que duas doses da CoronaVac conseguiram reduzir em 97% a mortalidade por covid-19 na população imunizada; em 95% a internação em UTI; e em 57% a ocorrência da doença.


O ministério da Saúde do Chile também publicou em abril resultados preliminares mostrando que a eficácia da CoronaVac, depois de duas doses, foi de 80% na prevenção de morte; 89% na internação em UTI; e 67% na ocorrência da doença com sintomas.



CRÉDITO,SCIENCE PHOTO LIBRARY
Legenda da foto,

CoronaVac contém o vírus inteiro inativado da Sars-CoV-2, enquanto as demais vacinas injetam no organismo humano genes da spike do coronavírus

Testes da 'vida real'


Membro do Comitê de Vacinas Covid-19 da OMS (SAGE), a médica infectologista e epidemiologista Cristiana Toscano explica que as vacinações em larga escala permitem a realização de estudos considerados de fase 4, que avaliam a efetividade de uma vacina.


As fases anteriores são realizadas ainda em ambientes controlados, com voluntários acompanhados muito de perto por equipes que conduzem os chamados ensaios clínicos. Já na fase 4, as pessoas avaliadas são da própria população.


"Para o registro e utilização em ampla escala de uma vacina, são necessários estudos clínicos de fase 3, que avaliam a eficácia — ou seja, como a vacina funciona em condições ideais, no ambiente controlado de um ensaio, para prevenir infecção, doença, hospitalização, morte... E também nessa etapa, avalia-se a segurança", explica Toscano, referindo-se à etapa que agências sanitárias como a Anvisa costumam exigir para aprovação de uma vacina.


"Os estudos de efetividade (fase 4) são de funcionamento da vacina no mundo real, sujeito a todas questões operacionais e realidades de mundo real interferindo", acrescenta a médica, também professora da Universidade Federal de Goiás (UFG).


"Tendo evidência de que a vacina funciona e é segura (fase 3), já se sabe que serão necessários estudos de seguimento em ampla escala para monitorar a segurança e efetividade (fase 4)."




Outro estudo de "vida real" mencionado por Toscano foi um realizado em Manaus, já no cenário de circulação da variante P.1, com profissionais de saúde vacinados com pelo menos uma dose da CoronaVac. O estudo preliminar, publicado em abril ainda sem revisão dos pares, mostrou uma eficácia de 49,6% na prevenção à doença com sintomas — mas a médica lembra que, por motivos óbvios, os desfechos mais importantes que uma vacina deve evitar são hospitalização e morte, e estes têm apresentado percentuais maiores de prevenção.


Testes na realidade também permitem esmiuçar como a vacinação pode variar em diferentes grupos populacionais, como os idosos. Um estudo preliminar publicado no final de maio, por exemplo, mostrou que em pessoas com mais de 70 anos vacinadas com duas doses de CoronaVac, a efetividade na prevenção da doença com sintomas foi de 42% — abaixo da eficácia de 50,38% para adultos encontrada nos ensaios clínicos.


"Alguns grupos em particular, por exemplo os idosos, foram subrepresentados em ensaios clínicos de vacinas contra a covid, por questões de segurança (nos testes) — como foram também crianças e gestantes. Primeiro, foram feitos estudos com adultos saudáveis; depois que foi verificada a segurança neste grupo, foram permitidos estudos adultos com comorbidades; e depois, foram incorporados os idosos", relata Cristiana Toscano.


"Então, existe uma recomendação muito importante de que se realizem estudos de efetividade particularmente em idosos."


Em um comunicado desta terça-feira (1/6), ao anunciar a aprovação do uso emergencial da CoronaVac, a OMS reconheceu que há poucos estudos envolvendo idosos e crianças. Entretanto, a organização recomenda a vacinação com a CoronaVac a partir dos 18 anos de idade pois "dados coletados durante o uso subsequente em vários países e informações de imunogenicidade sugerem que a vacina provavelmente tem efeito protetor em idosos".

Quanto mais farto e variado o 'elenco de vacinas', melhor


A aprovação do uso emergencial acontece após a análise, por especialistas membros e consultores da OMS, de dados sobre a qualidade, segurança e eficácia das vacinas. Na avaliação da CoronaVac, a organização informou ter feito também inspeções in loco de fábricas.


Uma vez que a OMS tem estratégias, como a Covax Facility, para melhorar o acesso a tratamentos e vacinas em países mais pobres, ela avalia também as condições de armazenamento e transporte — como a exigência de refrigeração das doses.



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Aprovação do uso emergencial pela OMS acontece após a análise, por especialistas membros e consultores, de dados sobre a qualidade, segurança e eficácia das vacinas


Segundo a entidade, a facilidade de armazenamento da CoronaVac "a torna muito administrável e particularmente adaptável a cenários de poucos recursos". Sua recomendação é de que a vacina seja aplicada em duas doses, no intervalo de duas a quatro semanas.


Além desta, a OMS já aprovou o uso emergencial de vacinas da Pfizer/BioNTech; Astrazeneca-SK Bio; Serum Institute of India; Astra Zeneca EU; Janssen; Moderna e Sinopharm.


"Essas vacinas terão eficácias diferentes, intervalos diferentes, reações diferentes, algumas serão mais baratas ou caras... Mas o que elas têm em comum é a segurança, efeitos colaterais pequenos perto dos benefícios, e boa proteção formas graves da doença — com desfechos de mortalidade e hospitalização", avalia Renato Kfouri.


Cristiana Toscano também comemora a nova integrante do "elenco" de vacinas validadas e recomendadas pela OMS.


"Fica muito claro, globalmente e a nível nacional, que a gente precisa de várias vacinas para o controle da pandemia. Precisamos de uma grande quantidade para atingir a população prioritária do mundo todo. E quanto mais rapidamente a gente consegue chegar à altas coberturas, mais rapidamente a gente consegue evitar a mortalidade e hospitalização, e na sequência reduzir a transmissão viral — conseguindo eventualmente controlar essa pandemia", diz a epidemiologista e infectologista.





Autor: Mariana Alvim - @marianaalvim
Fonte: BBC News Brasil em São Paulo
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 02/06/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-57326314

sábado, 13 de março de 2021

Remdesivir: Como funciona a droga contra a covid-19 aprovada no Brasil e contraindicada pela OMS



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A aprovação da Anvisa estabelece que o remdesivir só será prescrito em situações bastante específicas


Um ano e um dia após o início da pandemia de covid-19, o Brasil aprovou o primeiro medicamento específico contra a doença: o remdesivir (também grafado como rendesivir), desenvolvido pela farmacêutica americana Gilead Sciences.


O anúncio foi feito na manhã desta sexta-feira (12/03) por representantes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa.


"O registro do medicamento é fruto da eficácia, da segurança e da qualidade apresentadas. Seu uso será restrito aos hospitais, para que os pacientes sejam adequadamente monitorados", explicou Gustavo Mendes, gerente geral de Medicamentos e Produtos Biológicos da Anvisa.


O fármaco, já aprovado em mais de 50 países (incluindo Estados Unidos, Canadá, Japão e toda a União Europeia), teve seu uso contraindicado pela Organização Mundial da Saúde em novembro de 2020.


"O remdesivir não vai ajudar no controle ou mudar o curso da pandemia. É uma medicação que pode diminuir um pouco a chance de o paciente grave precisar do respirador, mas nos estudos ela não alterou a mortalidade e tem um custo elevadíssimo", pontua a infectologista Raquel Stucchi, da Universidade Estadual de Campinas.

Mas como funciona esse tratamento? E em que casos de covid-19 ele será administrado?

Um freio no estrago viral


A droga desenvolvida pela Gilead Sciences pertence à classe dos antivirais, que têm o objetivo de diminuir ou interromper a replicação dos vírus dentro do nosso corpo.


"O papel exato que ela faz frente à covid-19 permanece incerto", observa o infectologista Leonardo Weissmann, do Instituto Emílio Ribas, em São Paulo.


No início da infecção, o coronavírus invade as células localizadas na boca, no nariz e nos olhos.


A partir daí, ele aproveita o maquinário celular para criar novas cópias de si mesmo, que perpetuam esse processo ao se apoderarem de novas células.


Esse ataque avança por várias partes do organismo e alcança órgãos como os pulmões e os intestinos.


Para completar a bagunça, ocorre uma reação inflamatória, que pode lesar outros sistemas e tecidos vitais do corpo.


A consequência dessa agressão toda são os sintomas típicos da covid-19, como febre, dor muscular, tosse e falta de ar.



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O remdesivir foi desenvolvido pela farmacêutica americana Gilead Sciences


Na maioria dos casos, o sistema imunológico consegue controlar a situação após alguns dias.


Mas muitos pacientes evoluem mal. Eles precisam ficar internados e recebem doses de oxigênio e outros cuidados para sobreviver.


Uma parcela deles, infelizmente, não resiste aos danos e acaba morrendo.


O remdesivir atuaria em alguma dessas etapas do processo infeccioso, freando a replicação do vírus no organismo humano.

O que a ciência diz?


O remdesivir foi testado num estudo patrocinado pelo Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos que envolveu 1.048 voluntários hospitalizados com covid-19.


Entre fevereiro e maio do ano passado, 532 participantes da pesquisa receberam doses do medicamento durante 10 dias.


Os outros 516 tomaram placebo, que é uma substância sem nenhum efeito terapêutico.


Ao observarem como os dois grupos se saíram, os cientistas notaram que aqueles que foram tratados se recuperaram após 10 dias, em média.


Já na turma do placebo, esse tempo se prolongou para 15 dias.


Esses dados foram publicados no dia 5 de novembro no periódico científico The New England Journal of Medicine.


Duas semanas depois, a OMS divulgou uma atualização em suas diretrizes contraindicando o uso do remdesivir por não considerar que ainda havia uma comprovação científica robusta.


"As evidências sugerem uma falta de benefícios em mortalidade, necessidade de ventilação mecânica, tempo de melhora clínica e outros desfechos importantes", anunciou a entidade.


Para Stucchi, a decisão da OMS tem a ver com os efeitos discretos e o valor elevado do tratamento. "Em termos de custo-benefício, o remdesivir não se mostrou efetivo ainda", avalia a médica.




CRÉDITO,EPA/KEN CEDENO


Quando teve covid-19, o ex-presidente americano Donald Trump usou o remdesivir

O preço de venda no Brasil ainda não está definido. Mas, nos Estados Unidos, o valor do tratamento completo fica na casa dos US$ 3 mil (cerca de R$ 17 mil).

Por meio de nota enviada à imprensa após a aprovação da Anvisa, a diretora médica sênior da Gilead Sciences no Brasil, Rita Manzano Sarti, comentou a questão:


"Acreditamos que muitas vidas poderão ser salvas frente aos benefícios que o remdesivir pode gerar num momento de pico da pandemia, desafogando o sistema de saúde e dando oportunidade para mais pacientes serem tratados adequadamente."

Durante a coletiva de imprensa, a Anvisa também deu o seu ponto de vista sobre as avaliações distintas feitas pelas agências regulatórias internacionais e a OMS:


"O estudo feito pela OMS avaliou mais a ocorrência de mortalidade e pacientes com perfil um pouco diferente dos avaliados nos outros estudos que consideramos para liberar o remédio. O estudo que consideramos válido focou na redução do tempo de hospitalização dos pacientes, e vimos que houve uma redução na hospitalização", defendeu Renata Soares, gerente de avaliação de segurança e eficácia da Anvisa.

Como será seu uso?


A aprovação da Anvisa estabelece que o remdesivir só será prescrito em situações bastante específicas.

Ele será comercializado na forma de pó concentrações e, na hora da utilização, precisa passar por um processo de reconstituição para virar líquido e ser injetado.

É importante destacar que o fármaco não estará disponível nas farmácias e só será usado em ambiente hospitalar.

A terapia está liberada apenas para uso entre cinco e dez dias em indivíduos com mais de 12 anos e com um peso superior a 40 quilos.

Além de covid-19 avançada, o paciente elegível para o tratamento deverá apresentar um quadro de pneumonia e necessitar de oxigênio suplementar não invasivo.

Em outras palavras, ele não pode estar em ventilação mecânica ou oxigenação por membrana extracorporal (conhecida como ECMO).

Para Weissmann, o medicamento ainda está cercado de incertezas. "Os dados que temos sugerem que ele reduz o tempo de recuperação, o que pode ser um benefício clínico. Entretanto, não foi demonstrada claramente uma redução da mortalidade", avalia.

O uso ou não da terapia dependerá da avaliação caso a caso que será feita pela equipe de profissionais da saúde.

Outros tratamentos

Por ora, nenhuma outra droga mostrou ser capaz de prevenir ou tratar especificamente a covid-19.

Nos casos mais graves, que exigem hospitalização e intubação, os médicos costumam utilizar oxigênio e alguns remédios anti-inflamatórios.

Nos quadros leves e moderados, a indicação é ficar em casa, fazer repouso, tomar bastante água e, se necessário, usar medicações que controlem a febre e a dor no corpo.

Caso apareça falta de ar ou os sintomas piorem, vale procurar a orientação de um profissional de saúde ou um pronto-socorro.


Drogas como a hidroxicloroquina, a ivermectina e a azitromicina, que compõem o chamado "tratamento precoce" ou o "kit-covid", não possuem nenhuma eficácia e são contraindicadas pelas mais importantes instituições de saúde nacionais e internacionais, por conta do risco de efeitos colaterais sérios, como arritmia cardíaca.





Autor: André Biernath
Fonte: BBC News Brasil em São Paulo
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 12/03/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-56382058

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Coronavírus: OMS elogia China e diz que há 'janela de oportunidade' para evitar crise global


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O coronavírus causa infecção respiratória aguda grave

A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que existe uma "janela de oportunidade" para impedir que o surto do novo coronavírus se torne uma crise global mais ampla.

O diretor-geral da agência, Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse que as medidas adotadas pela China para combater o vírus em seu epicentro são a melhor maneira de impedir sua disseminação.

Ao mesmo tempo, o embaixador da China na Organização das Nações Unidas (ONU) pediu que os países não cometam exageros em suas reações à epidemia.

Pelo menos 427 pessoas morreram — 426 na China e uma nas Filipinas — entre os mais de 20,6 mil casos confirmados em todo o mundo, 99% deles na China.

Desde a semana passada, o governo brasileiro investiga casos de suspeitas do vírus, mas não houve nenhuma confirmação até o momento.

De acordo com os dados oficiais mais recentes, há atualmente 13 casos suspeitos em quatro Estados: São Paulo (6), Rio de Janeiro (1), Rio Grande do Sul (4) e Santa Catarina (2).

A OMS declarou uma emergência de saúde global por causa do surto, mas disse que o vírus ainda não constitui uma pandemia — termo aplicado à disseminação mundial de uma nova doença.



Cerca de 80% dos que morreram tinham mais de 60 anos e 75% deles tinham problemas de saúde pré-existentes, como condições cardiovasculares e diabetes, de acordo com a Comissão Nacional de Saúde da China.

O novo coronavírus causa infecção respiratória aguda grave, e os sintomas geralmente começam com febre, seguida por tosse seca. A maioria das pessoas infectadas provavelmente se recuperará completamente, exatamente como ocorre com uma gripe.
O que a OMS disse?

O diretor-geral da OMS elogiou as autoridades chinesas por sua resposta no epicentro do surto, a cidade de Wuhan, na província de Hubei, onde milhões de pessoas estão em quarentena.

"Há uma janela de oportunidade por causa das fortes medidas que a China está adotando no epicentro, na fonte. Então, vamos aproveitar esta oportunidade para evitar uma maior disseminação e controle", disse Ghebreyesus, enfatizando que os países desenvolvidos não estão compartilhando dados sobre o surto adequadamente.

Ghebreyesus também reiterou seu pedido para que não sejam impostas restrições de viagens e comércio, ao destacar que 22 países haviam relatado oficialmente ter tomado medidas deste tipo. Ele solicitou que, nestes casos, estas ações fossem "de curta duração e proporcionais" e revistas regularmente.

Mas Chen Xu, embaixador da China na ONU, disse que algumas restrições vão contra as recomendações da OMS.

Sylvie Briand, chefe da Divisão Global de Preparação para Riscos Infecciosos da OMS, afirmou que o surto não é "atualmente" uma pandemia.

Embora mais de duas dúzias de países tenham relatado casos, não houve confirmações na África ou na América Latina. A OMS também disse que 27 casos de infecções entre humanos ocorreram em nove países fora da China.

Briand ainda enfatizou a importância de lidar com rumores infundados, dizendo que eles podem ser um "obstáculo para uma boa resposta ao surto e dificultar a implementação eficaz de medidas".


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Autoridades chinesas foram acusadas de subestimar a gravidade do vírus
O que há de novidades sobre o surto no mundo?

Os governos do Reino Unido e da França recomendaram a seus cidadãos na China que deixem o país se puderem. O conselho veio depois que uma autoridade de alto escalão do governo chinês admitiu "deficiências" na resposta do país ao surto.

Entre outros desdobramentos, Taiwan disse que a partir de sexta-feira negaria a entrada a todos os estrangeiros que estiveram na China continental nos últimos 14 dias.

Macau, uma região administrativa especial da China e um dos maiores centros de jogos de azar da Ásia, anunciou que fecharia temporariamente todos os seus cassinos.

As autoridades de saúde estão examinando cerca de 3,7 mil pessoas a bordo de um navio de cruzeiro próximo do Japão depois da confirmação de que um passageiro estava contaminado com o vírus.

E mais três países asiáticos — Cingapura, Malásia e Tailândia — confirmaram infecções entre cidadãos que não haviam viajado para a China.

Mais de 75 mil pessoas podem ter sido infectadas em Wuhan, dizem especialistas. Mas estimativas da Universidade de Hong Kong indicam que o número total de casos pode ser muito maior do que os números oficiais.

David Heymann, que liderou a reação da OMS ao surto da Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars), entre 2002 e 2003, também causado por um coronavírus, disse à agência de notícias Associated Press que o novo coronavírus ainda parece estar se disseminando e é cedo para estimar quando o surto atingirá seu pico.




Autor: BBC News Brasil
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 04/02/2020
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51365340

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Coronavírus: o que é pandemia e por que a OMS ainda não declarou uma no caso atual


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O termo 'pandemia' é usado para descrever situações em que uma doença infecciosa ameaça muitas pessoas de forma simultânea no mundo inteiro

Os primeiros casos do novo coronavírus foram confirmados na China cerca de um mês atrás. Com a chegada do vírus a mais de 20 países, médicos e cientistas estão preocupados diante da velocidade de disseminação da doença.

Na quinta-feira (30/01), a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou emergência de saúde pública de interesse internacional — o que, oficialmente, significa a ocorrência de um "evento extraordinário que constitui um risco à saúde pública para outros Estados por meio da disseminação internacional de doenças e potencialmente exige uma resposta internacional coordenada".


Um exemplo recente é o da gripe suína, em 2009, à qual é atribuída a morte de centenas de milhares de pessoas, de acordo com a estimativa de especialistas.

As pandemias acontecem, em geral, quando há um vírus novo capaz de infectar seres humanos com facilidade e de ser transmitido de uma pessoa a outra de forma eficiente e continuada.

O novo coronavírus, pelo que se sabe até agora, tem essas características.

Assim, sem uma vacina contra o agente patogênico ou tratamento que possa prevenir a doença, conter a sua disseminação é crucial.


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Isolar pacientes e casos suspeitos é a melhor forma de controlar a disseminação do vírus, apontam infectologistas
Quando uma pandemia é declarada?

De acordo com a descrição da OMS das fases de uma pandemia, o novo coronavírus estaria a um passo de se tornar uma.

Primeiro, porque está se espalhando entre seres humanos e por já ter sido detectado em uma série de países vizinhos da China, além de outros mais distantes.

A pandemia aconteceria se houvesse o aparecimento de surtos localizados em diversas regiões do mundo ao mesmo tempo.
Qual a probabilidade de que isso aconteça?

Ainda não se sabe com precisão a gravidade do novo coronavírus e em que proporção ele irá se propagar.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirma que a disseminação fora da China, no momento, parece ser "mínima e lenta".

Há mais de 17 mil casos confirmados e 360 mortes, a maioria na China.

Fora do país asiático, há mais de 150 casos confirmados e uma morte, nas Filipinas.

"Se investirmos em lutar contra a doença no epicentro (do surto), na fonte, a disseminação para outros países será mínima e lenta", disse Ghebreyesus em uma reunião do Conselho Executivo da OMS nesta segunda-feira (03/02).

Cada pandemia é diferente e, até que o vírus comece de fato a circular globalmente, é impossível prever totalmente seus efeitos.

Especialistas acreditam que o novo coronavírus — que, de acordo com os dados mais recentes, matou cerca de 2% dos infectados — possa ser menos letal do que outras doenças que protagonizaram surtos recentes de vírus da mesma família, como a Síndrome Respiratoria Aguda Grave (9,5%), a Sars, e a Síndrome Respiratória do Oriente Média (de 35%), que ficou conhecida como Mers.

A decisão da OMS de declarar emergência global veio do fato de que a doença tem sido transmitida entre humanos fora da China e a possibilidade de que possa atingir países com sistemas de saúde frágeis.

Apesar de a instituição recomendar aos países que tomem medidas para prevenir o aparecimento da doença ou limitar seu contágio, ela também destacou que, por ora, não avalia que haja necessidade de limitar viagens ou o comércio internacional.




Autor: Michelle Roberts
Fonte: Editora de Saúde na BBC News
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 03/02/2020
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-51363153

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Coronavírus: o que esperar da nova reunião da OMS que decidirá sobre estado de emergência


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AFP
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Potencial de disseminação global motiva nova reunião de comitê da OMS

*Atualizada pela última vez às 23h55 de 29/01/20

Um comitê especial da Organização Mundial da Saúde (OMS) se reunirá novamente nesta quinta-feira (30/01) para decidir se o surto do novo coronavírus é ou não uma emergência de saúde pública de interesse internacional.

Ao anunciar a nova reunião, o diretor-geral da agência, Tedros Adhanom Ghebreyesus, explicou que apenas 1% dos mais de 6 mil casos confirmados até agora do vírus descoberto em dezembro foram registrados fora da China.

Mas ele destacou que já foram notificadas transmissões do novo coronavírus em ao menos outros três países. "O potencial de maior disseminação global é o motivo pelo qual convoquei o comitê", disse Ghebreyesus.

A decretação de uma situação de emergência de saúde pública de interesse internacional é uma medida usada raramente, apenas para eventos mais graves que podem demandar ações globais para conter a transmissão de uma doença.

O que é uma situação de emergência internacional?

A OMS a define oficialmente como um "evento extraordinário que constitui um risco à saúde pública para outros Estados por meio da disseminação internacional de doenças e potencialmente exige uma resposta internacional coordenada".

Ela é decretada a partir de uma recomendação feita por um comitê de especialistas ao diretor-geral da agência.

Este grupo já havia se reunido no final da semana passada, por dois dias seguidos. Na ocasião, a OMS concluiu que ainda era cedo para considerar o surto era uma situação de emergência internacional e que mais informações eram necessárias para tomar essa decisão.

A situação era, naquele momento, bem diferente de agora. Havia pouco menos de 600 casos confirmados na China e outros sete países, e menos de 20 mortes causadas pelo 2019-nCov, como é chamado oficialmente o novo coronavírus.


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REUTERS
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Novo coronavírus foi descoberto em dezembro na China

Também não havia sido registrada a transmissão do vírus fora da China. Desde então, eventos deste tipo foram notificados por Alemanha, Japão e Vietnã.

Ao mesmo tempo, já há mais de 7 mil casos confirmados em um total de 16 países e 170 mortes, todas na China.

Por estes motivos, infectologistas ouvidos pela BBC News Brasil consideram provável que seja decretada uma situação de emergência pela OMS ao fim da nova reunião de seu comitê.
Decisão permitiria mobilizar mais recursos para conter surto

Rivaldo Venâncio, coordenador de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), destaca que, na semana passada, a agência já havia informado que a decisão de não decretar uma situação de emergência não havia sido unânime. Isso indica que alguns membros do comitê já haviam identificado que esta medida seria necessária.

E, na segunda-feira passada, a OMS admitiu ter ocorrido um "erro de redação" na divulgação da avaliação de risco global da epidemia, até então identificado como "moderado" em seus relatórios e que passou a ser descrito como "elevado".

No entanto, a agência disse que a avaliação da situação permanece a mesma desde 22 de janeiro, com um risco "muito alto" na China, e "alto" regionalmente e no restante do mundo.

"Mesmo que eles não decretem uma situação de emergência, devem elevar o nível de alerta quanto ao surto e apontar que o problema pode ser mais grave do que imaginavam, porque houve em uma semana uma evolução razoável do surto e dia após dia quase dobrou o número de casos registrados", diz Venâncio.

"Isso abre caminho para tomar uma série de medidas como liberar mais rapidamente o teste de medicamentos e vacinas e pedir que sejam publicadas informações de observações clínicas e laboratoriais de casos do vírus."
'Situação é preocupante, mas não há motivo para pânico'

Kleber Luz, professor do Instituto de Medicina Tropical da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, avalia ser provável que a OMS decrete uma situação de emergência por causa da rápida evolução do surto e porque isso facilita o combate ao vírus.

"Se isso ocorrer, vai haver uma maior mobilização dos organismos de saúde de todos os países, tenham sido eles afetados ou não, e há como obter um volume maior de recursos financeiros e de pessoal e permitir que uma vacina seja desenvolvida mais rapidamente", diz Luz.

"Decretar uma emergência não bloqueia a doença, mas facilita seu enfrentamento."

Benedito da Fonseca, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, explica que os casos de transmissão fora da China são preocupantes, porque, a partir deles, é possível que ocorram outros contágios que deem origem a surtos locais.

"Emergência é uma palavra forte. O número de casos vem crescendo rapidamente, mas, ainda que este coronavírus pareça ser mais transmissível que outros que causaram surtos no passado, ele aparentemente é menos letal", diz Fonseca.

"Então, é de fato uma situação com a qual devemos ficar muito preocupados, mas não pode haver pânico."





Autor: Rafael Barifouse
Fonte: BBC News Brasil em São Paulo
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 29/01/2020
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51289892

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Brasileiros consomem quase o dobro de sal sugerido pela OMS



Brasileiros consomem, em média, 9,34 gramas de sal por dia — quase o dobro do recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que é de 5 gramas. Esta é uma das principais conclusões de um levantamento inédito no país: a análise de sangue e de urina de cerca de 9 mil brasileiros, realizada pela Pesquisa Nacional de Saúde (PNS). A Fiocruz foi responsável pela coordenação técnica do estudo. Essa foi a primeira vez que um inquérito com representatividade nacional coletou nos domicílios amostras biológicas para realização de exames complementares, viabilizando que se estabeleçam parâmetros nacionais para valores de referência laboratoriais. Um importante avanço para o conhecimento de características e condições de saúde da população brasileira, o que pode aprimorar a vigilância e o acompanhamento das doenças crônicas não transmissíveis no país.

O estudo faz parte do mais amplo inquérito em saúde já feito no Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde. Realizada em 2013 e 2014, foi conduzida pelo Ministério da Saúde em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e a Fiocruz, por meio de seu Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict). Contou ainda com a colaboração de várias instituições de ensino e pesquisa. O levantamento visitou 69.954 domicílios e entrevistou 60.202 adultos. Desse conjunto, foi selecionada uma subamostra para a coleta de material biológico nos domicílios nos anos de 2014 e 2015. A análise dos exames de laboratório possibilitou traçar o perfil bioquímico de condições clínicas e pré-clínicas da população brasileira.

Os valores de referência podem ser influenciados por fatores populacionais e ecológicos, como idade, sexo, raça, nível socioeconômico, exposição a agentes químicos, físicos e biológicos. Por isso, devem ser diferentes entre as populações. “O Brasil é marcado pela miscigenação, com uma grande diversidade de raças, etnias, povos, segmentos sociais e econômicos. A análise dos exames de sangue e urina oferece, pela primeira vez, uma amostra representativa do país, que permitiu a obtenção de valores hematológicos de referência por sexo, grupos etários e raça/cor. “E o conhecimento de parâmetros nacionais de referência é fundamental para o estabelecimento de critérios de diagnóstico, tratamento e controle de doenças”, observou a pesquisadora da Fiocruz Célia Landmann Szwarcwald, coordenadora técnica da pesquisa.

Os resultados desses exames de laboratório possibilitam monitorar os indicadores globais da Organização Mundial de Saúde e da Organização das Nações Unidas, dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, agenda 2030, e do Plano de Enfrentamento das Doenças Crônicas no Brasil, compondo linha de base para o monitoramento de indicadores globais e do alcance de metas, tais como deter o crescimento do diabetes e das doenças cardiovasculares, reduzir o consumo de sal e diminuir a mortalidade prematura por doenças crônicas não transmissíveis.

Além de dados sobre o consumo de sal, a pesquisa traz resultados inéditos, comprovados cientificamente pela primeira vez no país, sobre diabetes, doença renal e anemias, por exemplo. Em relação aos problemas renais, o resultado é surpreendente: as estimativas de número de casos foram até quatro vezes maiores se comparadas com outras pesquisas já realizadas no país. Isso porque os estudos anteriores são em geral baseados nos relatos dos próprios doentes. Dessa forma, o levantamento sugere que há um sub diagnóstico da doença renal no país.

Consumo de sal

A pesquisa possibilitou que o consumo de sal na sociedade brasileira fosse avaliado por meio da análise de urina — o que nunca havia sido feito antes em abrangência nacional. Os dados apontam que praticamente três quartos dos brasileiros têm consumo alto de sal (mais de 8 gramas por dia), sendo maior em homens e nos mais jovens.

O estudo indica consumo elevado de forma generalizada na população brasileira, em todas as faixas etárias e níveis de escolaridade. E, por isso, lança um alerta: programas de redução de consumo devem ser desenvolvidos para atingir todas essas subcategorias, e não somente grupos específicos, como portadores de hipertensão ou doenças renais.

Dados da PNS também constataram que a percepção sobre o consumo elevado de sal é baixa entre os brasileiros: apenas 14,2% dos adultos se referiram a seu consumo como alto. O excesso de sal na alimentação está associado à hipertensão (doença que está presente em 28% dos adultos brasileiros) e às doenças cardiovasculares, destaca a pesquisadora

“O consumo excessivo de sal é um dos indicadores mais preocupantes. A redução no consumo de sal é considerada, hoje, uma das intervenções de melhor custo-efetividade para reduzir as doenças crônicas não transmissíveis, sobretudo pela possibilidade de diminuição da pressão arterial média da população. A hipertensão arterial é causa direta e indireta de várias doenças crônicas, como as cardiovasculares e a renal. A redução do sal na alimentação tem potencial para diminuir uma grande fração de mortes prematuras e aumentar, consideravelmente, a expectativa de vida saudável na população brasileira”, resume Szwarcwald.

Apenas 2,39% da amostra da pesquisa apresentaram consumo inferior a 5 gramas por dia, que é a faixa recomendada pela OMS. A ingestão de sal nesta faixa foi maior em mulheres e nos indivíduos de maior idade. A utilização muito elevada (mais de 12 gramas por dia) foi mais frequente em homens (15,7%) do que em mulheres (10,8%). No grupo com escolaridade mais alta, foi encontrada proporção menor de indivíduos com consumo superior a 12 gramas por dia (11,35%).

Dados inéditos sobre diabetes e doença renal

Segundo o levantamento, o diabetes foi identificado em 6,6% dos adultos, enquanto em 76,5% não foi encontrada qualquer alteração. Mas, considerando-se critérios simultâneos — incluindo as pessoas que referiram ter diagnóstico de diabetes e/ou fazem uso de medicamentos — a prevalência do diabetes é de 8,4%, porque esta proporção inclui as pessoas que estão com a doença controlada. Há alta prevalência do diabetes na população obesa, alcançando nível de 17%.

A pesquisa é ainda o primeiro estudo nacional a apresentar avaliação de função renal da população adulta brasileira por meio de critérios laboratoriais. Para isso, fez a dosagem de creatinina sérica e estimou a taxa de filtração glomerular (TFG), segundo variáveis sócio demográficas: índices usados para detectar doenças renais. "Os exames laboratoriais se mostram de muita relevância para identificar precocemente a doença e prevenir a progressão da lesão renal e a mortalidade prematura”, destacou Szwarcwald.

Desigualdades na saúde bucal e paradoxos na alimentação

Os resultados dos exames laboratoriais da PNS foram esmiuçados no suplemento temático da Revista Brasileira de Epidemiologia, que será lançado em 26 de novembro, na Fiocruz. O suplemento contém ainda outras análises inéditas da PNS, que lançam luz ao quanto as desigualdades incidem na saúde da população.

Grandes desigualdades foram encontradas, por exemplo, na saúde bucal dos brasileiros. A perda de dentes na população com mais de 60 anos afeta mais do que o dobro as pessoas com renda per capita inferior a meio salário mínimo, em comparação às pessoas da mesma faixa etária que têm renda superior a três salários mínimos — a prevalência da doença varia de 44%, no primeiro grupo, para 20% no segundo.

A análise no perfil de alimentação dos brasileiros mostrou, por sua vez, resultados contraditórios. Quanto aos alimentos saudáveis, verificou-se melhor perfil alimentar entre brancos, pessoas com maior renda e maior grau de escolaridade, com consumo mais frequente de frutas, legumes e vegetais. Mas, paradoxalmente, os segmentos de melhor condição social foram os que apresentaram maiores prevalências quanto ao consumo de alimentos doces e substituição de refeições por sanduíches, salgados ou pizzas.

A prevalência de anemia entre adultos e idosos foi de 9,9%. Não é um número que pareça alarmante, se comparado à prevalência mundial: estima-se que 27% das populações tenham anemia. Ocorre, porém, que o estudo não usou amostras de crianças, segmento que manifesta grande risco de apresentar o problema. Os resultados dos exames, por outro lado, chamam atenção para o quanto a prevalência da anemia, em nosso país, está relacionada às iniquidades: os maiores índices e os casos mais graves ocorrem entre mulheres, idosos, pessoas de baixa escolaridade e negros. “Em relação à população idosa, as maiores prevalências de anemia nas camadas de menor nível socioeconômico são dignas de nota, indicando a necessidade de intensificar ações para prevenir e tratar a anemia entre os idosos desfavorecidos socialmente”, ressalta Szwarcwald.

Parcerias para a coleta

A coleta de material biológico (sangue e urina) nos domicílios em uma subamostra de participantes da PNS contou com a parceria do Hospital Sírio Libanês, e foi realizada em todo o país por meio do financiamento do Programa de Desenvolvimento para o Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), em 2014 e 2015. Os exames laboratoriais realizados com as amostras de sangue foram: hemoglobina glicada; colesterol total e frações; sorologia para dengue; hemograma série vermelha (eritograma) e série branca (leucograma); cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC) para diagnóstico de hemoglobinopatias; creatinina. E, com as amostras casuais de urina, estimativas de excreção de potássio, sódio e creatinina.

A PNS foi aprovada pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) do Conselho Nacional de Saúde (CNS), vinculado ao Ministério da Saúde. A participação do adulto na pesquisa foi voluntária e a confidencialidade das informações foi garantida. Os participantes da pesquisa assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e autorizaram a coleta de exames laboratoriais.



Autor: Juliana Krapp (Icict/Fiocruz)
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 27/11/2019
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/brasileiros-consomem-quase-o-dobro-de-sal-sugerido-pela-oms

terça-feira, 11 de junho de 2019

Por que a OMS diz que grandes surtos de ebola são o 'novo normal'


Direito de imagemGETTY IMAGESImage captionFamiliares colocam plantas sobre o túmulo de um parente que morreu vítima de ebola em Butembo, no Congo

O mundo está entrando em "uma nova fase", em que grandes surtos de doenças mortais como ebola são o "novo normal", adverte a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Historicamente, as ocorrências de ebola afetaram um número relativamente pequeno de pessoas.

Mas, agora, a República Democrática do Congo está enfrentando o segundo maior surto da doença de que se tem notícia, apenas três anos após o maior surto mundial ter terminado.

E a OMS afirma que os países precisam se preparar para novas epidemias mortais.

Já foram registrados 2.025 casos de ebola e 1.357 mortes em decorrência do vírus no atual surto na República Democrática do Congo.

Há pouco tempo atrás, o maior surto de que se tem notícia, que aconteceu na África Ocidental de 2014 a 2016, atingiu 28.616 pessoas, principalmente na Guiné, Libéria e Serra Leoa. Foram contabilizadas 11.310 mortes.

Em comparação, os 12 surtos registrados entre 2000 e 2010 resultaram em menos de 100 casos em média.

Mas por que os surtos mais recentes são muito maiores?

"Estamos entrando em uma fase muito nova de epidemias de alto impacto, e não apenas de ebola", diz Michael Ryan, diretor-executivo do programa de emergências em saúde da OMS.

Segundo ele, o mundo está "vendo uma convergência de riscos muito preocupante", que faz aumentar a ameaça de doenças como ebola, cólera e febre amarela.

Ele afirma que a mudança climática, a exploração de florestas tropicais, a mobilidade populacional, a fragilidade dos governos e os conflitos estão tornando os surtos cada vez mais prováveis ​​de ocorrer e mais propensos a aumentar de tamanho.


Direito de imagemGETTY IMAGESImage captionSoldados das forças armadas do Congo se preparam para escoltar profissionais de saúde
O que é o ebola?

- O ebola é um vírus que inicialmente causa febre súbita, fraqueza intensa, dor muscular e dor de garganta.

- Os sintomas evoluem para vômito e diarreia, além de hemorragia interna e externa.

- As pessoas são infectadas quando têm contato direto com sangue, vômito, fezes ou fluidos corporais de alguém com ebola.

- Os pacientes costumam morrer de desidratação e falência múltipla de órgãos.
Aprender a lidar

De acordo com Ryan, a OMS está monitorando 160 manifestações de doenças em todo o mundo, sendo que nove eram emergências de terceiro grau (o nível de emergência mais alto da OMS).

"Acho que nunca estivemos em uma situação em que respondemos a tantas emergências ao mesmo tempo. Este é o novo normal, e não acredito que a frequência desses eventos será reduzida."

Como resultado, ele argumenta que os países e outros órgãos precisavam "se familiarizar com a prontidão e estar preparados para essas epidemias".

O surto na República Democrática do Congo continua preocupando as autoridades de saúde.

Demorou 224 dias para o número de casos chegar a 1 mil, mas apenas 71 dias para chegar a 2 mil.

O combate à doença foi dificultado pelos constantes conflitos na região - entre janeiro e maio, houve mais de 40 ataques a instalações de saúde.

Outro problema é a desconfiança em relação aos profissionais de saúde, que leva algumas pessoas a evitar a busca de tratamento, aumentando o risco de espalhar a doença para parentes e vizinhos.

Josie Golding, líder de combate a epidemias na fundação Wellcome Trust, diz que o mundo precisa se preparar melhor para surtos como esse.

"No caso do ebola na África Ocidental, (a propagação da doença foi facilitada pela) mobilidade da população e as fronteiras porosas - que não vai mudar, é agora o mundo em que vivemos", avalia.

Segundo ela, a mudança climática poderia levar a mais surtos, como o de cólera registrado em Moçambique após a passagem do ciclone Idai, em março deste ano. Mas ela espera que doenças resultantes de crises humanitárias não sejam um "novo normal".

"A preparação precisa ser melhor; podemos ver os movimentos demográficos e a mudança climática, e precisamos de mais recursos para planejar e nos preparar."




Autor: James Gallagher
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 07/06/2019
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-48553617

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Casos de demência vão triplicar e chegar a 152 milhões de pessoas até 2050, diz OMS



A demência engloba uma série de doenças progressivas que afetam as capacidades de atenção, memória e outras habilidades cognitivas e comportamentos — Foto: Cristian Newman/Unsplash



Com o acelerado envelhecimento da população mundial, o alto índice de crescimento de casos de demência tornou-se um dos principais desafios de saúde pública da atualidade. A fim de reduzir o impacto global da doença, as principais recomendações anunciadas nesta terça-feira (14) pela Organização Mundial de Saúde (OMS) incluem a prática regular de exercícios aeróbicos e a adoção da dieta mediterrânea - baseada na alta ingestão de cereais integrais, frutas, peixes, vegetais e azeite de oliva.



Mais de 50 milhões de pessoas em todo o mundo vivem com demência, e a cada ano são registrados quase dez milhões de novos casos. A estimativa da Organização Mundial de Saúde é de que 152 milhões de pessoas serão afetadas até 2050.




Embora não exista cura para a demência, muito pode ser feito para inibir o surgimento ou a progressão da doença. Além de uma dieta saudável e da prática regular de exercícios, as primeiras diretrizes globais da OMS para reduzir o risco de declínio cognitivo e demência recomendam ainda a adoção de políticas públicas para combater o fumo, a obesidade, a hipertensão, o diabetes e o consumo de álcool.




As diretrizes serão apresentadas em detalhe por representantes da OMS na abertura do simpósio "Dementia Forum X", que reunirá na quarta-feira líderes e especialistas internacionais em demência no Palácio Real de Estocolmo, sob a iniciativa da Rainha Silvia da Suécia.


A demência engloba uma série de doenças progressivas que afetam as capacidades de atenção, memória e outras habilidades cognitivas e comportamentos. Há mais de 100 formas de demência – a mais comum é a doença de Alzheimer, que contabiliza de 60% a 70% de todos os casos. As mulheres são mais frequentemente afetadas do que os homens.




Recomendações




A Organização Mundial de Saúde destaca que a atividade física está associada à saúde cerebral, e diversos estudos apontam que pessoas com uma vida mais ativa apresentam menor risco de desenvolver demências. Segundo as recomendações do relatório da OMS, adultos a partir de 65 anos de idade devem praticar pelo menos 150 minutos de atividades aeróbicas de intensidade moderada por semana.



Pessoas com uma vida mais ativa apresentam menor risco de desenvolver demências — Foto: Alex Boyd/Unsplash


A alternativa é fazer pelo menos 75 minutos de exercícios aeróbicos vigorosos durante a semana, ou uma combinação equivalente de atividades de intensidade moderada a alta. Cada atividade aeróbica deve ter pelo menos dez minutos de duração.


Para obter benefícios adicionais, a OMS recomenda a prática de 300 minutos de exercícios aeróbicos moderados por semana, ou 150 minutos de atividades de alta intensidade - ou ainda uma combinação entre práticas aeróbicas de intensidade moderada e alta. Exercícios de musculação devem ser feitos duas ou mais vezes por semana.



Uma dieta saudável e equilibrada também tem papel importante na prevenção de doenças que aumentam o risco de demência, como o diabetes.




De acordo com a OMS, vários estudos indicam que a adoção da dieta mediterrânea está associada a uma menor probabilidade de desenvolver demências. Baseada no consumo de alimentos frescos e naturais, a dieta mediterrânea é normalmente relacionada à melhora das funções cardiovasculares e a uma maior longevidade de seus adeptos, além de reduzir riscos de desenvolvimento de câncer e outras doenças degenerativas.


As recomedações gerais da OMS para uma dieta balanceada incluem pelo menos 400 gramas (cinco porções) de frutas e legumes por dia, além de nozes e grãos integrais. Deve-se dar preferência ao consumo de gorduras insaturadas (encontradas em alimentos como peixes, abacate, óleo de canola e azeite de oliva), e reduzir a ingestão de gorduras saturadas - presentes por exemplo em carnes vermelhas, manteigas, queijos e óleo de côco - a menos de 10% das calorias ingeridas por dia.


A OMS recomenda ainda a ingestão de menos de cinco gramas de sal (cerca de uma colher de chá) por dia, e o uso de sal iodado.


Brasil



Em todo o mundo, os custos de apoio e tratamento de demências crescem de forma alarmante: em 2018, os gastos globais foram da ordem de um trilhão de dólares, e as projeções são de que este total irá dobrar até 2030.


No Brasil, segundo dados da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, são registrados 55 mil novos casos de demências todos os anos, a maioria decorrentes do mal de Alzheimer. Atualmente, 1,4 milhão de brasileiros vivem com demência - e o número de casos deverá saltar para mais de seis milhões em 2050.


No Brasil, segundo dados da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, são registrados 55 mil novos casos de demências todos os anos, a maioria decorrentes do mal de Alzheimer. — Foto: Pixabay


A população brasileira também envelhece de forma acelerada: segundo estatísticas do IBGE, em 2018 o Brasil contabilizava 28 milhões de pessoas acima dos 60 anos. Até 2060, este número deverá aumentar para 73 milhões de pessoas.



“O subgrupo da população que mais crescerá até 2065 é o de pessoas acima de 60 anos, e, dentro deste grupo, o de pessoas com mais de 80 anos de idade. Grosso modo, 40% daqueles que atingem esta idade apresentam declínio cognitivo importante, e o risco aumenta progressivamente”, alerta o médico carioca Alexandre Kalache, um dos convidados do Dementia Forum X de Estocolmo.




Referência no Brasil para questões relacionadas ao envelhecimento, Kalache diz ver com preocupação a forma como o país tem respondido ao que ele chama de “revolução da longevidade”:


“O que mais importa é treinar a equipe de atenção primária à saúde, para que os problemas decorrentes do número crescente de casos de Alzheimer possam ser minorados. No entanto, o SUS parece estar sendo desmantelado. Centros de saúde estão mal financiados, muitos deles estão fechando, e as condições de trabalho são altamente inadequadas”, destaca o especialista.


Presidente do Centro Internacional de Longevidade (ILC) do Brasil, Kalache ressalta que o país ainda não tem uma política nacional para lidar especificamente com demências – ao contrário de inúmeros outros países, inclusive na América Latina.


“A Política Nacional de Saúde (PNS) para fazer face ao envelhecimento não só é insuficiente em relação ao desafio, como deficitária quanto à sua aplicação. Assim como na Constituição, a PNS atribui à família a responsabilidade de cuidar de pacientes com Alzheimer. No entanto, além da “insuficiência familiar” - com famílias mais fragmentadas, menor número de filhos e fatores como moradias precárias -, o que mais falta é uma política de apoio à família para que ela possa exercer este papel adequadamente”, diz o especialista, que também atua como embaixador global da organização HelpAge International.




Uma doença desigual




Apesar de o mal de Alzheimer afetar pessoas de diferentes classes sociais, a baixa escolaridade é um dos fatores de risco para o surgimento de demências após os 60 anos.


Segundo a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, isto ocorre porque o ensino formal contribui para a criação de redes neurais mais complexas, e estimula o cérebro a elaborar uma reserva funcional maior que será gasta ao longo da vida. Pessoas com maior nível de escolaridade geralmente executam atividades intelectuais mais complexas, que oferecem uma maior quantidade de estímulos cerebrais.


Segundo estatísticas do IBGE, em 2018 o Brasil contabilizava 28 milhões de pessoas acima dos 60 anos — Foto: Pixabay


Ou seja, um indivíduo que frequentou o ensino superior possui menos chances de adquirir de forma precoce o mal de Alzheimer ou outra doença neurodegenerativa do que o indivíduo que concluiu apenas o ciclo básico de educação. Portanto, aumentar o nível de escolarização pode ser eficiente para prevenir casos de demência.


Os especialistas destacam: manter o cérebro constantemente ativo e estimulado pode retardar e até inibir a manifestação da doença. Outros fatores de proteção contra a demência são o controle da hipertensão, do diabetes e da depressão, aliado a hábitos saudáveis como não fumar e praticar exercícios físicos.


“Não sabemos com nenhum grau de certeza como prevenir a demência. Mas muito pode ser feito para prevenir a segunda mais frequente forma de demência – a demência vascular, sobretudo através da prevenção e tratamento adequado da hipertensão arterial. Aqui vale a noção dos três terços. Um terço dos casos de hipertensão no Brasil não tem a doença diagnosticada, outro terço a tem diagnosticada, mas não é tratada. E do terço final, muitos iniciam o tratamento com pouca aderência ou falta de acesso aos medicamentos mais indicados”, diz o médico Alexandre Kalache.



“Sabemos que atividade física, nível educacional adequado, dieta saudável e estímulos cognitivos ao longo da vida podem ter um efeito positivo em relação à demência – se não para preveni-la, pelo menos para adiá-la. E se o conseguimos por oito ou dez anos, já estaremos no lucro” - Alexandre Kalache.




Segundo a Associação Brasileira de Alzheimer, a doença é uma enfermidade incurável que se agrava ao longo do tempo, mas que pode e deve ser tratada. Os avanços da medicina têm permitido que os pacientes tenham uma sobrevida maior e uma qualidade de vida melhor, mesmo na fase grave da doença. Também há evidências científicas de que atividades de estimulação cognitiva, social e física favorecem a funcionalidade e a manutenção de habilidades dos pacientes.


Quando a doença é diagnosticada em sua fase inicial, é possível retardar o seu avanço e ter mais controle sobre os sintomas, garantindo melhor qualidade de vida ao paciente e à família.


Em Estocolmo, a anfitriã do terceiro Dementia Forum X será a Rainha Silvia da Suécia, que tem envolvimento pessoal com o tema: sua mãe, a brasileira Alice Sommerlath, sofreu de demência em seus últimos anos de vida. Em consequência da dolorosa experiência com a mãe, em 1996 a Rainha criou a fundação Silviahemmet, um inovador centro de excelência que se dedica a auxiliar e capacitar pessoas envolvidas no cuidado de pacientes com demência.


Na capital paulista, a Sociedade Beneficente Alemã é a primeira instituição da América Latina a seguir as recomendações e a filosofia de cuidados da fundação Silviahemmet.


“Há modelos que podem ser adaptados ao nosso contexto – daí a importância dos estudos e pacotes de treinamento desenvolvidos pela fundação da Rainha Silvia. Mas vale lembrar que os países desenvolvidos primeiro enriqueceram para depois envelhecerem. Nós estamos envelhecendo muito mais rapidamente, em um contexto de muita pobreza e de imensas desigualdades sociais”, observa Alexandre Kalache.




Autor: RFI
Fonte: G1 Saúde
Sítio Online da Publicação: G1 Saúde
Data: 14/05/2019
Publicação Original: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/05/14/casos-de-demencia-vao-triplicar-e-chegar-a-152-milhoes-de-pessoas-ate-2050-diz-oms.ghtml

terça-feira, 23 de abril de 2019

OMS anuncia primeiro teste em grande escala de vacina contra malária

Mosquito Anopheles stephensi é vetor da malária. — Foto: Jim Gathany/CDC/Reuters

Mosquito Anopheles stephensi é vetor da malária. — Foto: Jim Gathany/CDC/Reuters


A Organização Mundial de Saúde (OMS) anunciou nesta terça-feira (23) que iniciará a implementação da primeira vacina contra a malária. A vacina, desenvolvida ao longo de 30 anos, tem proteção parcial contra a doença em crianças pequenas.


O primeiro país a receber doses da vacina será o Malaui. Nas próximas semanas, Gana e Quênia receberão doses também.


Segundo comunicado da OMS, a vacina RTS, S é a primeira e, até hoje, a única vacina que mostra um efeito protetor contra a malária em crianças pequenas e entrará para o calendário de vacinação destes países.


Nos testes, além da proteção parcial, a vacina também conseguiu reduzir a necessidade de transfusões de sangue em 29%. As transfusões são necessárias contra a anemia severa causada pela doença.


A eficácia da vacina foi estabelecida em teste anteriores envolvendo mais de 15 mil crianças da África subsaariana. Ficou comprovado que crianças que receberam 4 doses da vacina tiveram um risco significativamente menor de desenvolver malária.


Segundo a OMS, a malária mata 435 mil pessoas por ano, a maioria delas crianças menores de cinco anos.


“Temos visto ganhos tremendos de mosquiteiros e outras medidas para controlar a malária nos últimos 15 anos, mas o progresso estagnou e até reverteu em algumas áreas. Precisamos de novas soluções para recuperar a resposta da malária, e essa vacina nos oferece uma ferramenta promissora para chegar lá ”, disse o diretor-geral da OMS, Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus.



"A vacina contra a malária tem o potencial de salvar dezenas de milhares de vidas de crianças"-Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.




A doença infecciosa é causada por protozoários transmitidos pela fêmea infectada do mosquito Anopheles. Os sintomas podem incluir febre alta, dor de cabeça, tremores e calafrios.




Quem pode tomar a vacina?




Cerca de 360 mil crianças por ano nos três países escolhidos devem receber as doses da vacina.


São necessárias 4 doses, sendo a primeira dose dada após os cinco meses de idade, seguida das doses 2 e 3 em intervalos mensais e a quarta dose perto dos dois anos de idade.


Segundo a OMS, os efeitos colaterais conhecidos incluem dor e inchaço no local da injeção e febre, efeitos semelhantes às reações de outras vacinas infantis.


Outro efeito relatado foi de convulsões ocasionais em crianças com febre. De acordo com a organização, as crianças que tiveram convulsões após a vacinação se recuperaram completamente e não houve consequências duradouras.




Países selecionados




A OMS explicou como selecionou os três países para o programa de vacinação contra malária. Em dezembro de 2015, a organização pediu que ministérios africanos da saúde interessados em colaborar no programa de implementação da vacina se apresentassem.


Dos dez países que se apresentaram, três foram selecionados para o programa com base em critérios como desejo de participação e programas de malária e imunização que funcionassem bem.


Outros critérios usados foram:



bom controle da malária e de vacinações infantis
transmissão de malária de moderada a alta, apesar da boa implementação de intervenções contra a doença
um número suficiente de crianças pequenas que vivem nas áreas de transmissão da doença onde a vacina será introduzida
forte pesquisa de implementação ou experiência de avaliação no país
capacidade de avaliar os resultados de segurança




O programa de vacinação nestes países durará até 2022 e pesquisadores avaliarão seus resultados para uma possível implementação em larga escala.


A farmacêutica GSK é a responsável pelo desenvolvimento e fabricação da vacina e doou 10 milhões de doses de vacina para este teste inicial.






Autor: G1 Saúde
Fonte: G1 Saúde
Sítio Online da Publicação: G1 Saúde
Data: 23/04/2019
Publicação Original: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/04/23/oms-anuncia-primeiro-teste-em-grande-escala-de-vacina-contra-malaria.ghtml

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Sarampo volta a ameaçar com onda de 'hesitação' em relação à vacina, alerta OMS

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Complicações relacionadas ao sarampo podem causar cegueira, pneumonia e infecção e inchaço do cérebro

O mundo está vendo um ressurgimento do sarampo, com muitos países experimentando um "severo e prolongado" surto no ano passado, segundo um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS). Os dados mostram um aumento de incidência em praticamente todas as regiões do mundo, com 30% mais casos em 2017 do que em 2016.

Por trás desse aumento, segundo os especialistas, estão o colapso dos sistemas de saúde e o aumento de notícias falsas sobre a vacina - que pode salvar milhões de vidas.

O sarampo é uma doença altamente contagiosa que, quando em casos graves, pode levar a complicações como cegueira, pneumonia e infecção e inchaço do cérebro.

O relatório, publicado pela OMS e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (agência do departamento de saúde dos Estados Unidos), avaliou os números de sarampo nos últimos 17 anos.

De acordo com o texto, 2017 foi o primeiro ano nesse intervalo em que houve um aumento substancial no total de casos, com 110 mil mortes relacionadas ao sarampo. A preocupação é que a tendência de alta se mantenha em 2018, já que houve um número muito grande de casos no verão europeu.

Américas, Europa e os países do Mediterrâneo Oriental foram as regiões com maior aumento. O Pacífico Ocidental foi a única região que viu um declínio no volume de casos.

Um grande número de infecções foi visto na Venezuela, onde o sistema de saúde colapsou após crises políticas e econômicas. Anteriormente, o país havia erradicado a doença.

Há uma preocupação de que, à medida que mais pessoas se movimentam entre países nessa região, a doença continue a se espalhar.

No Reino Unido, que havia sido declarado como zona livre de sarampo pela OMS no ano passado, também viu o surgimento de pequenos surtos em 2018. Isso levou a médica Sally Davies, a principal conselheira em assuntos relacionados à saúde do governo britânico - com o cargo de Chief Medical Officer - a declarar que aqueles que acreditam nos "mitos" espalhados pelos movimentos anti-vacina estariam "completamente errados".

A especialista recomendou que os pais ignorassem as informações falsas que circulavam nas redes sociais e imunizassem os filhos.

Martin Friede, médico da OMS, falou à BBC que era preocupante que, em muitos países europeus, os pais não estivessem vacinando seus filhos. "Na Europa, talvez nós estejamos vendo uma hesitação em relação à vacinação se tornar um problema mais sério que em outros lugares".
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Em 2017 houve um aumento de 30% no número de casos de sarampo

"Em alguns grupos, isso é motivado por crenças religiosas. Mas, em outros, é fruto da difusão de uma preocupação sem sentido com a segurança das vacinas."

Segundo Friede, as redes sociais têm uma parcela de culpa pela disseminação de informações falsas - assim, acrescenta, seria preciso encontrar formas de conter o avanço das notícias inverídicas para atacar o problema.

"Os países industrializados não podem ser complacentes e esquecer que a doença pode ressurgir como uma tempestade. Não é preciso haver muitas crianças não vacinadas para que isso ocorra. E, se ocorrer, não se trata apenas de erupções na pele. Pode causar cegueira e problemas no cérebro."

O relatório estima que, desde 2000, a vacina contra sarampo que é dada em crianças pode ter salvo mais de 21 milhões de vidas.

"Sem esforços urgentes para aumentar a cobertura da vacinação e identificar populações com níveis inaceitáveis de crianças não imunizadas ou pouco imunizadas, nós podemos perder décadas de progresso na proteção de crianças e comunidades contra uma doença devastadora, mas que pode facilmente ser prevenida", diz a médica Soumya Swaminathan, da OMS.

No Brasil, a imunização contra a doença faz parte do Calendário Nacional de Vacinação, sendo oferecida gratuitamente nos postos de saúde. De acordo com o calendário, a criança deve tomar a primeira vacina aos 12 meses (tríplice viral, que previne contra sarampo, caxumba e rubéola) e uma segunda dose aos 15 meses (tetraviral, que previne contra sarampo, rubéola, caxumba e catapora).




Autor: Smitha Mundasad
Fonte: BBC BRASIL NEWS
Sítio Online da Publicação: BBC BRASIL NEWS
Data: 30/11/2018
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-46394112