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sexta-feira, 2 de julho de 2021

Câncer de placenta: nova pesquisa impacta tratamento


A recusa por parte de pacientes em se submeter a tratamentos mais agressivos foi um dos motivos para a realizaçao do estudo retrospectivo dos procedimentos adotados (Foto: Fernando Zhiminaicela/Pixabay)

Artigo publicado na revista Lancet Oncology confirma a eficácia do tratamento menos agressivo contra o câncer na placenta. O estudo foi liderado pelo pesquisador Antonio Rodrigues Braga Neto, que coordena estudos sobre a doença trofoblástica gestacional (DTG) na Maternidade Escola da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e no Hospital Universitário da Universidade Federal Fluminense (UFF). O trabalho, produzido em parceria com o Imperial College of London e a Harvard Medical School, foi publicado na última sexta-feira, 25 de junho.

"A partir de relatos de mulheres que se recusaram a realizar o tratamento mais agressivo, passamos a investigar alternativas para o tratamento do câncer da placenta e, por meio desse estudo, confirmamos que é possível utilizar apenas um medicamento para as sessões de quimioterapia em casos de escore de risco da Figo [Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia] 5 e 6", explica Braga. De acordo com o pesquisador, isso significa uma diminuição dos efeitos colaterais como enjôos e quedas de cabelo e até mesmo o desenvolvimento de tumores na vida futura dessas pacientes. O tocoginecologista acrescenta que a DTG é plenamente curável, mesmo nos casos mais graves, desde que seja feito o diagnóstico precoce e o tratamento ocorra em Centros de Referência.

A DTG é uma doença rara. A cada ano surgem 20 mil novos casos ao redor do globo e, por esse motivo, torna-se difícil realizar estudos randomizados de pesquisa clínica. O trabalho recém publicado consistiu em um estudo retrospectivo que incluiu pacientes atendidas nos três centros de referência entre 1964 a 2018: os hospitais escola do Imperial College of London (Charing Cross Hospital); da Harvard Medical School (Brigham and Women’s Hospital) e da UFRJ (Maternidade Escola).

O pesquisador explica que a gestação nesses casos não passa de 12 semanas e, em grande parte dos casos, a remoção do feto em formação é suficiente para eliminar a doença. As demais pacientes precisarão de quimioterapia. E apenas nos casos de metástase, coriocarcinoma, e níveis elevados de gonadotrofina coriônica humana (hCG - marcador tumoral dessa doença) fica configurado casos de tumores mais agressivos, em que a quimioterapia com mais de um medicamento pode ser necessária.



Braga Neto: 'O câncer na placenta é uma doença plenamente curável quando é feito diagnóstico precoce' (Foto: Arquivo pessoal)


Em uma primeira etapa foram coletados 5025 registros de pacientes com o câncer da placenta e a partir daí verificou-se a gravidade da doença em uma escala que vai de 0-6, com as atualizações necessárias da classificação, modificada ao longo das últimas décadas. Do total, apenas 431 dos casos eram de maior gravidade (escore da FIGO 5 ou 6). Entre estas pacientes, que tinham entre 26 e 40 anos, 80 foram submetidas ao tratamento mais agressivo, com mais de um medicamento. Neste grupo, houve uma morte. Enquanto entre as 351 que foram atendidas com apenas um medicamento, houve duas mortes.

O próximo passo dos pesquisadores será enviar cartas às sociedades médicas da área para confirmar a efetividade do tratamento menos agressivo, procedimentos que já estão sendo adotados nas maternidades-escola da UFRJ e no Hospital Universitário da UFF. Ao longo dos anos, a FAPERJ tem apoiado as pesquisas do Núcleo de Estudos em Doenças Trofoblásticas, coordenado pelo professor Braga, que, para essa pesquisa, contou também com a Bolsa de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), órgão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.





Autor: Juliana Passos
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 01/07/2021
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4254.2.0

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Exposição ao ar poluído antes ou durante a gravidez altera a estrutura da placenta

A exposição de gestantes à poluição do ar durante a gravidez influencia o desenvolvimento do feto. A criança pode apresentar baixo peso ao nascer, além de ter aumentada a possibilidade de apresentar determinadas doenças na vida adulta, de acordo com estudos realizados no Brasil e no exterior. Os mecanismos moleculares por trás desses impactos da poluição na gestação, contudo, ainda não estavam completamente elucidados.


Alterações causadas pela poluição atmosférica podem limitar a nutrição e o crescimento do feto, aponta estudo feito por pesquisadores da USP (foto: Phelipe Janning / Agência FAPESP)


Um grupo de pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) constatou agora que a exposição a poluentes atmosféricos, antes ou durante a gravidez, altera algumas características da placenta, além de causar distúrbios em um sistema hormonal relacionado ao fluxo sanguíneo uteroplacentário e diminuir os níveis de fatores envolvidos no processo de formação placentária.

Os resultados do estudo, realizado no âmbito de um Projeto Temático e do doutorado de Sônia de Fátima Soto, feito com Bolsa da FAPESP, foram publicados na revista PLOS ONE.

“Observamos que a exposição a poluentes antes e/ou durante a gravidez desencadeia alguns fenômenos inflamatórios ao longo do desenvolvimento da placenta que comprometem seu crescimento. Isso possivelmente interfere na transferência de nutrientes e de oxigênio da mãe para o feto”, disse Joel Claudio Heimann, professor da FMUSP e orientador de Soto, à Agência FAPESP.

Os pesquisadores realizaram um experimento em que expuseram ratas Wistar – linhagem albina da espécie Rattus norvegicus –, antes de acasalarem e ficarem prenhes, tanto ao ar filtrado como ao ar poluído com concentração de material particulado fino (menor que 2,5 micrômetros) de 600 microgramas (μg) por metro cúbico (m3), utilizando para isso um equipamento chamado concentrador de partículas finas ambientais de Harvard (CPFAH). O tamanho de partícula foi determinado com base nas exposições ambientais reais na Região Metropolitana de São Paulo.

Os animais foram divididos em quatro grupos. O primeiro foi exposto ao ar filtrado antes e durante a gravidez, o segundo foi colocado em contato com ar filtrado antes da gravidez e com ar poluído durante a gravidez, um terceiro grupo foi submetido ao ar poluído antes da gravidez e ao ar filtrado durante a gravidez, e o quarto, ao ar poluído antes e durante a gravidez.

Para simular as condições reais de exposição de mulheres à poluição do ar antes e durante a gravidez em cidades como São Paulo, antes da gravidez os animais foram colocados em contato com ar poluído durante uma hora cinco vezes por semana por três semanas seguidas. A partir do sexto dia de prenhez, o número de exposições foi de sete vezes por semana.

As placentas dos animais foram coletadas no 19º dia de gravidez, dissecadas e pesadas de modo a avaliar os efeitos dos poluentes em sua estrutura e no sistema hormonal renina-angiotensina (RAS) uteroplacentário.

Os resultados das análises indicaram que a exposição ao ar poluído antes e/ou durante a gravidez diminuiu a massa, o tamanho e a área superficial da placenta e causou alterações no sistema RAS.

Estudos anteriores apontaram que distúrbios nesse sistema podem levar a uma redução do fluxo sanguíneo uteroplacentário. Além disso, a angiotensina II (AngII) – um peptídeo que faz parte desse sistema – é um potente regulador da migração e invasão de trofoblasto – camada de células epiteliais que forma a parede externa da blástula dos mamíferos (blastocisto) e atua na implantação e nutrição do embrião – no início da gravidez.

A invasão da vasculatura materna pelo trofoblasto é um pré-requisito para o estabelecimento de uma placenta normal e a continuação da gravidez, explicaram os pesquisadores.

“Constatamos que a exposição das ratas prenhes à poluição antes e/ou durante a gravidez causou alterações no sistema renina-angiotensina dos animais. Mas são necessários novos estudos para elucidarmos mecanismos moleculares adicionais”, disse Heimann.

Interferência na formação da placenta

Os pesquisadores também avaliaram os efeitos da exposição ao ar poluído em fatores que influenciam o processo de formação da placenta, como o fator de crescimento de transformação beta 1 (TGFβ1) e o fator de crescimento endotelial vascular (VEGF-A).

Diversos estudos sugeriram que o TGFβ1 tem um papel na invasão da mucosa que recobre a face interna do útero (endométrio). E, nos mamíferos, o TGFβ1 pode regular uma variedade de funções celulares, incluindo proliferação, diferenciação, morte programada (apoptose) e invasão de células placentárias.

O VEGF-A também desempenha um papel na formação da placenta ao modular a angiogênese, ligando-se a seus dois receptores: tirosina quinase 1 relacionada a fms (Flk-1) e tirosina quinase 1 hepática fetal (Flt-1). As análises moleculares indicaram que a exposição ao ar poluído diminuiu o conteúdo de TGFβ1 e Flk-1 na placenta dos animais.

A porção materna da placenta das ratas expostas a ar poluído antes da gravidez e a ar filtrado durante a gravidez, comparada com a daquelas colocadas em contato com ar poluído antes e durante a gravidez, apresentou diminuição nos níveis de angiotensina II (AngII) e seus receptores AT1 (AT1R) e AT2 (AT2R).

Na porção fetal da placenta das ratas expostas a ar filtrado antes da gravidez e a ar poluído durante a gravidez, a ar poluído antes da gravidez e a ar filtrado durante a gravidez e a ar poluído antes e durante a gravidez, os níveis de AngII também diminuíram. Contudo, a AT1R aumentou no grupo de animais expostos a ar filtrado antes da gravidez e a ar poluído durante a gravidez.

A expressão do gene VEGF-A foi menor no grupo de ratas expostas a ar poluído antes e durante a gravidez em comparação com os animais colocados em contato com ar filtrado antes e durante a gravidez.

Essas alterações indicam um possível comprometimento da invasão de trofoblasto e na angiogênese (formação de novos vasos sanguíneos) da placenta, explicou Heimann.

“Isso pode ter consequências para a interação entre mãe e feto, como também limitar a nutrição e o crescimento fetal”, afirmou.


O artigo Exposure to fine particulate matter in the air alters placental structure and the renin-angiotensin system (doi: 10.1371/journal.pone.0183314), de Sônia de Fátima Soto, Juliana Oliveira de Melo, Guilherme D’Aprile Marchesi, Karen Lucasechi Lopes, Mariana Matera Veras, Ivone Braga de Oliveira, Regiane Machado de Souza, Isac de Castro, Luzia Naôko Shinohara Furukawa, Paulo Hilário Nascimento Saldiva e Joel C. Heimann, pode ser lido em http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0183314.


Autora: Agência FAPESP
Fonte: Elton Alisson
Sítio Online da Publicação: Agência FAPESP
Data de Publicação: 30/10/2017
Publicação Original: http://agencia.fapesp.br/exposicao_ao_ar_poluido_antes_ou_durante_a_gravidez_altera_a_estrutura_da_placenta/26523/