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quarta-feira, 29 de maio de 2019

A rã que pode ser usada como teste de gravidez


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Esta rã era usada para testes de gravidez entre as décadas de 1930 e 1970

A rã-de-unhas-africana (Xenopus laevis) teve uma vida tranquila nas águas da África Subsaariana por milhões de anos. Até que, nos anos 1930, um cientista britânico decidiu injetar urina nela.

Lancelot Hogben era um zoólogo que costumava injetar várias substâncias em animais, principalmente hormônios, para ver como eles reagiam.

Após um desses experimentos, ele descobriu acidentalmente que a injeção de hormônios da gravidez nesses animais os estimulava a botar ovos.


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Os exames ficaram tão eficientes que por duas décadas dezenas de milhares de rãs foram inoculadas com urina humana

Maureen Symons se lembra de receber os resultados de um exame de gravidez feito com uma rã Xenopus nos anos 1960.

"Tenho uma imagem na minha cabeça de, pelo meno menos duas vezes, um médico de avental branco chegar e dizer, satisfeito, 'Você está grávida - as rãs puseram ovos'", diz ela à BBC.


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O exame era simples: após a injeção de urina na pele de uma Xenopus fêmea, deveria-se esperar entre 5 e 12 horas para ver se ela botaria ovos

Os exames Xenopus não estavam disponíveis para o público geral. Eles eram usados em casos médicos urgentes - para distinguir, por exemplo, o desenvolvimento de um feto do crescimento de um tumor.

Maureen teve dois abortos, e só as rãs lhe deram um diagnóstico eficaz.

"Hoje percebo que fui bastante privilegiada por fazer todos esses exames", ela diz.


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No auge de sua popularidade, o exame Xenopus era realizado em laboratórios especiais
Ponto de vista

O historiador da medicina Jesse Olszynko-Gryn, da Universidade de Strathclyde, na Escócia, diz que embora a ideia soe estranha para nossos ouvidos modernos, o princípio do teste é idêntico ao de um exame caseiro. A diferença é a forma como conversamos sobre gravidez.

Ele diz que, nos anos 1930, o termo gravidez era raramente mencionado nos jornais, por ser considerado "muito biológico e um pouco rude".

Para o historiador, o teste da rã deu visibilidade à gravidez.


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Exames de gravidez modernos só se popularizaram nos anos 1990

"Fazer exames de gravidez é parte da criação dessa nova cultura em que vivemos hoje que realmente tornou a gravidez, o parto e a reprodução tão visíveis publicamente."

As rãs acabaram ficando em paz quando os primeiros exames caseiros começaram a ser desenvolvidos, nos anos 1970.




Autor: BBC News Brasil
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 29/05/2019
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-48428055

quinta-feira, 14 de março de 2019

Síndrome Alcoólica Fetal: os males causados nos filhos pelo consumo de bebidas na gravidez



El hecho de que sus madres biológicas bebieran durante el embarazo provocó síntomas físicos y mentales en Andy y Rachel. — Foto: BBC


Rachel, de 16 anos, parou de crescer há seis anos. Andy tem problemas graves de memória. Ambos sofrem com o transtorno conhecido como Síndrome Alcoólica Fetal, provocado pelo consumo de grandes quantidades de álcool pelas mães durante a gestação.


Andy e Rachel foram adotados pelo casal Sharon e Paul, que também criam outros três filhos adotivos.


Quando pequeno, Andy tinha ataques de pânico em lugares com muita gente. Enfrentava dificuldade para executar atividades cotidianas simples como escovar os dentes.


Tinha problemas para se concentrar. Médicos haviam diagnosticado Andy com síndrome do espectro alcoólico fetal, mas os serviços de assistência social, segundo a mãe adotiva, nunca deram muita importância.


Andy também sofre com problemas físicos provocados pelo consumo de álcool da mãe biológica. A mandíbula inferior se desenvolveu corretamente, mas a superior, não. Aos 17 anos, ele precisou passar por uma cirurgia.


Diagnóstico difícil


Rachel também tem problemas físicos, como dificuldades para movimentar as articulações e percorrer grandes distâncias a pé. A síndrome foi diagnosticada quando ela tinha seis anos. Ela sofre, ainda, com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade.


Não há dados oficiais sobre quantas crianças sofrem com esse tipo de síndrome, porque ela é considerada de difícil diagnóstico. Estudo do Centro de Dependência e Saúde Mental do Canadá estima que 119 mil crianças com Síndrome Alcoólica Fetal nasçam a cada ano no mundo.


Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, estudos apontam que de cada 1 mil nascidos vivos, de dois a sete bebês apresentam sinais do problema.


Entre os sintomas, há danos cerebrais, problemas físicos e no sistema nervoso central, entre outros. As manifestações da síndrome, em sua maioria, não têm cura.


Ainda conforme a Sociedade Brasileira de Pediatria, entre os sintomas mais comuns da Síndrome Alcoólica Fetal estão:


alterações faciais;
atraso no crescimento;
desordens de comportamento e de aprendizado;
comprometimento em diferentes órgãos, aparelhos e sistemas, principalmente no nervoso central.


Há também três alterações faciais relacionadas à Síndrome Alcoólica Fetal, de acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria. São elas: pálpebras estreitas e pequenas, ausência de filtro nasal e borda vermelha do lábio superior fina. Além disso, também podem ocorrer microcefalia, problemas no fígado, rins, coração, além de déficit de audição e visão.


Abstinência antes e durante gravidez


A prevenção, segundo especialistas, está baseada na abstinência total de consumo de álcool pela mulher grávida e também pela mulher que deseja engravidar.


"É preciso diagnosticar todas as crianças que sofrem [com a síndrome] e ajudá-las para evitar que padeçam de transtornos derivados, como problemas de saúde mental. A Síndrome Alcoólica Fetal causa um dano cerebral permanente, mas também não é uma sentença perpétua. Com ajuda, dá para viver uma vida plena", explica Sharon, a mãe adotiva de Rachel e Andy.


Os dois filhos adotivos de Sharon compartilham sentimentos similares em relações às mães biológicas.


"Eu tenho de lutar todos os dias com alguns sintomas sabendo que eles eram totalmente evitáveis. É muito difícil, mas não sei qual era a situação da minha mãe ou quais eram as circunstâncias da vida dela", diz Andy.



Rachel, por sua vez, reconhece que ter sentimentos controversos em relação à mãe. "Me sinto frustrada e triste, mas tento ser compreensiva porque talvez minha mão biológica não soubesse as consequências do que estava fazendo. De toda forma, tenho de viver cada dia sabendo que sou diferente porque uma pessoa cometeu um erro", afirma.




Autor: BBC
Fonte: BBC
Sítio Online da Publicação: G1
Data: 14/03/2019
Publicação Original: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/03/14/sindrome-alcoolica-fetal-os-males-causados-nos-filhos-pelo-consumo-de-bebidas-na-gravidez.ghtml

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Como a depressão na gravidez afeta a saúde e o comportamento dos bebês, segundo pesquisa inédita


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Segundo pesquisa do King's College London, bebês de mulheres que tiveram depressão durante a gravidez são mais sensíveis ao estresse

A gravidez costuma ser associada, no imaginário social, a um período de felicidade. O mar de fotos da "doce espera" que costuma inundar as redes sociais reforça essa ideia. Mas a cobrança pelo estado de alegria pode acabar silenciando mulheres que, na verdade, estão lutando contra a depressão. E o sofrimento durante a gestação afeta tanto as mães quanto os bebês, fazendo com que nasçam mais sensíveis ao estresse.

É o que mostra uma pesquisa inédita a que a BBC News Brasil teve acesso, do Instituto de Psiquiatria e Neurociência do King's College London, no Reino Unido. O estudo completo foi publicado nesta sexta (20) na revista científica Psychoneuroendocrinology.

Os pesquisadores acompanharam 106 mulheres grávidas a partir da 25ª semana de gestação, sendo que 49 delas foram diagnosticadas com depressão e não tomaram medicamento para tratar a doença.

Elas tiveram amostras de sangue e saliva coletadas, para verificar se apresentavam sintomas clínicos da doença, como inflamações e maior produção de cortisol - hormônio associado à resposta ao estresse.

Após os partos, os cientistas monitoraram tanto o comportamento dos bebês quanto a liberação de cortisol. Os testes foram feitos aos seis dias de vida, aos oito meses e aos 12 meses.
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A primeira descoberta foi que o período de gestação das mulheres com depressão é mais curto. Do grupo observado, as grávidas com depressão tiveram os filhos, em média, oito dias antes das que não tinham a doença.

Mas o que mais impressionou foi o efeito do sofrimento neonatal nos bebês.
Bebês mais sensíveis

Os bebês de mães que tiveram depressão durante a gravidez se mostraram mais hiperativos, chorosos e produziram cortisol em circunstâncias que as demais crianças encararam com normalidade.

Essa diferença no comportamento foi verificada até em bebês com menos de uma semana de vida.

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Os bebês de mães que tiveram depressão durante a gravidez se mostraram mais hiperativos, chorosos e produziram cortisol em circunstâncias que as demais crianças encararam com normalidade

"Em termos de comportamento, no sexto dia após o nascimento, os bebês com mães que tinham depressão eram mais hiperativos e reativos a som, luz e frio. E era mais difícil consolá-los e acalmá-los", disse à BBC News Brasil o professor do King's College London Carmine Pariante, um dos autores da pesquisa.

Aos dois meses, os bebês tiveram as salivas coletadas para medir o nível de cortisol. Quando eles completaram um ano e tomaram a primeira vacina, pesquisadores novamente coletaram saliva, para comparar com a amostra anterior.

Descobriram que as crianças de mulheres que tiveram depressão neonatal liberaram muito mais cortisol que as demais após a vacina. Ou seja, esses bebês se estressaram muito mais que os outros diante da experiência da primeira injeção.

"Bebês nascidos de mães saudáveis não revelavam mudança no cortisol quando recebiam a injeção. Não era estressante para eles. Mas os bebês nascidos de mães com depressão produziam cortisol ao tomar a injeção, o que demonstra que aquela situação era estressante para eles e não para os outros", diz Pariante.

O cortisol é um hormônio liberado em situações percebidas pelo corpo como de ameaça ou grande desconforto.

"A liberação do cortisol em si não é ruim, porque ele é uma resposta do corpo ao estresse. Ele dá energia aos músculos e eleva a concentração do cérebro", explica o professor.

"Mas o resultado da pesquisa mostra que os bebês de mães que tiveram depressão na gravidez são particularmente sensíveis ao estresse. Uma situação que seria normal para outros bebês pode ser difícil para esses bebês, e eles reagem ativando a resposta ao estresse."

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Um dos testes avaliou que os bebês de mães que tiveram depressão neonatal apresentavam reação mais negativa a alterações na luz e som
Risco de desenvolver problemas psicológicos

Segundo o professor, os sinais de estresse presentes no sangue da gestante, como a liberação de cortisol, cruzam a placenta e passam para o sangue do bebê, influenciando no sistema de resposta da criança a situações desconfortáveis.

"O bebê identifica o ambiente de vida da mãe como estressante e organiza a sua própria resposta ao estresse com base nisso", afirma o pesquisador.

O que preocupa na sensibilidade maior ao estresse é o risco de essas crianças desenvolverem problemas psicológicos ou depressão no futuro, ao lidarem com problemas cotidianos ou situações de sofrimento, como perda de familiares, bullying, e frustrações acadêmicas e profissionais.

"Se você imagina a situação daqui a 10 anos, esses bebês, quando forem crianças ou adolescentes, podem ser mais sensíveis ao ambiente externo", avalia Pariante.

"E, se alguma circunstância trágica ocorrer ou se eles se tornarem alvo de bullying, pode ser que sejam mais sensíveis a essas mudanças no ambiente e desenvolvam um problema de saúde."
Tratamento

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Pesquisadores afirmam que é importante que gestantes com depressão procurem tratamento

De acordo com o professor de psiquiatria, pelo menos uma em 10 mulheres grávidas sofrem de depressão. Ele afirma que a principal mensagem da pesquisa do King's College London, financiada pelo NIHR Maudsley Biomedical Research Centre, é que é importante que as gestantes busquem tratamento.

Para o pesquisador, os tabus sobre depressão e a romantização da gravidez dificultam a procura por ajuda.

"Existe uma pressão da sociedade de que a gravidez deve ser um momento de felicidade. Mas a verdade é que muitas gestantes estão deprimidas e acabam não buscando ajuda", diz.

"Esse artigo mostra que a depressão deve ser reconhecida e tratada, não apenas pelo bem da mãe, mas também pela saúde do bebê, para que se torne uma criança e adulto mais saudável."

O pesquisador reconhece, porém, que faltam estudos que apontem com maior segurança qual o melhor tratamento contra a depressão durante a gestação. Algumas pesquisas indicam que antidepressivos podem alterar o comportamento dos bebês, mas Pariante ressalva que é difícil saber ao certo se o efeito é decorrente do remédio ou da depressão em si.

"Muitas das consequências inicialmente associadas aos antidepressivos são hoje explicados pela depressão em si ou pelo fato de que as algumas mulheres deprimidas não fazem o pré-natal corretamente, podem estar bebendo, fumando, ou tomando mais medicamentos vendidos em farmácia sem prescrição médica", afirma.

Ele destaca que tratamentos não medicamentosos também podem, dependendo do caso, ajudar no combate à depressão durante a gestação.

"Para casos mais graves, antidepressivos são indicados. Mas há tratamentos psicológicos e intervenções nutricionais que podem trazer benefícios, como suplemento de Ômega 3 para mulheres com depressão", menciona.

"A decisão sobre o tratamento tem que ser bem informada, para que mãe e médico cheguem à alternativa considerada mais adequada."




Autor: Nathalia Passarinho
Fonte: BBC News Brasil em Londres
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data de Publicação: 19/07/2018
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-44879698

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Inflamação durante a gravidez está associada ao desenvolvimento do cérebro do bebê, diz estudo



Inflamação durante a gravidez está associada ao desenvolvimento do cérebro do bebê (Foto: Reprodução/TV Fronteira)


Um novo estudo realizado na Universade de Saúde e Ciência do Oregon, nos EUA, estabeleceu a ligação entre inflamações durante a gravidez e a maneira que o cérebro do recém-nascido é organizado. A pesquisa foi publicada nesta segunda-feira (9) na "Nature Neuroscience".


Os resultados desta pesquisa podem ajudar no desenvolvimento de novos tratamento que ajudem a impedir os impactos negativos no funcionamento do cérebro de bebês.


Inflamações são uma resposta natural do corpo à infecções. Em mulheres grávidas, inflamações mais graves podem aumentar os riscos de transtornos mentais ou de problemas no desenvolvimento do cérebro de bebês e crianças. Como, por exemplo, as infecções causadas pelo vírus da Zika, que pode causar a microcefalia.


O estudo foi feito com 84 grávidas e foram coletadas amostras de sangue de todas durante cada um dos trimestres da gravidez. As amostras foram analisadas para níveis de citonina interleucina-6, ou IL-6, um indicador de inflamação conhecido por estar presente na formação do cérebro do feto.


Quatro semanas após o nascimento, os pesquisadores analisaram imagens do cérebro dos bebês feitas através de ressonância magnética para avaliar as conexões cerebrais. Aos dois anos, as crianças também foram testadas para avaliar como estavam suas memórias, uma habilidade importante e que é frequentemente comprometida em casos de transtornos mentais.


Os resultadores de mães e filhos indicaram que diferentes níveis de inflamação durante a gravidez estavam diretamente associados com diferenças na comunicação do cérebro do recém-nascido, e mais tarde no desenvolvimento da memória aos 2 anos. Níveis mais altos de inflamação durante a gravidez tendiam a mostrar menos capacidade da criança de trabalhar a memória.


"Isso não significa que toda exposição a alguma inflamação vai resultar em um impacto negativo na criança. No entanto, estes resultados abrem novos caminhos para pesquisas e podem ajudar médicos e cientistas a pensar em como e quando uma inflamação pode afetar o desenvolvimento da aprendizagem e a saúde mental de uma criança a longo prazo", disse Alice Graham, especialista em neurociência comportamental da Universidade, em nota.


Ainda segundo a pesquisadora, durante o estudo foi possível desenvolver um modelo que pode afirmar com precisão a inflamação da mãe durante a gravidez baseado apenas na atividade cerebral do recém-nascido. Criado usando inteligência artificial, o modelo é baseado nos marcadores identificados no estudo e pode ser aplicado em casos além do grupo de pesquisa inicial.


"Este conhecimento os dá informações sobre o futuro do funcionamento da memória da criança aproximadamente dois anos depois, criando potencial para pesquisas que envolvam o tratamento mais cedo, se necessário", disse Graham em nota.


No futuro, os pesquisadores acreditam que os estudo devem focar em como fatores antes e após o nascimento- como o ambiente social em que a família está inserida- impactam no funcionamento do cérebro de recém-nascidos.


"Aumento do nível de estresse e má alimentação são considerados normais pelos padrões de hoje, mas impactam muito nos níveis de inflamação em todas as pessoas, não apenas grávidas", disse Damien Fair, líder do estudo feito pela universidade no Oregon, em nota. "Tão importante quanto entender como o sistema imunológico e as inflamações afetam o desenvolvimento do cérebro, também precisa ser entender que fatores comuns contribuem para a maiores níves de inflamação para que possamos focar em terapias que ajudem a reduzir estes impactos".



Autor: G1 SP
Fonte: G1 Globo
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 09/04/2018
Publicação Original: https://g1.globo.com/bemestar/noticia/inflamacao-durante-a-gravidez-esta-associada-ao-desenvolvimento-do-cerebro-do-bebe-diz-estudo.ghtml

segunda-feira, 12 de março de 2018

Exposição à poluição do ar na gravidez está associada a alterações no cérebro em meninos e meninas



Foto: EBC


Pesquisa indica que a poluição do ar está relacionada às mudanças no desenvolvimento do cérebro e ao funcionamento cognitivo em crianças. Os limites atuais da UE para a poluição do ar podem não ser suficientemente baixos.

Barcelona Institute for Global Health, ISGlobal*

Um novo estudo realizado pelo Centro de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal) promovido pela Fundação Bancária “la Caixa” – e o Erasmus Medical Center de Rotterdam, associa exposição residencial à poluição do ar durante a gravidez com anormalidades cerebrais, que podem contribuir para a redução da capacidade cognitiva das crianças em idade escolar. O estudo, publicado em Biological Psychiatry , mostra que os níveis de poluição associados a alterações cerebrais estavam dentro dos valores considerados seguros .

A pesquisa mostrou, pela primeira vez, uma relação entre a exposição à poluição do ar e as dificuldades na inibição do controle – a capacidade de regular o autocontrole e o comportamento impulsivo – que está associada a problemas de saúde mental, como o comportamento aditivo e a desordem para déficit de atenção e hiperatividade. A exposição a partículas finas durante a vida fetal foi associada a um córtex mais fino – a camada externa do cérebro – em várias regiões de ambos os hemisférios, que é um dos fatores que explicariam as deficiências observadas no controle inibitório.

A equipe de pesquisa usou uma coorte de população na Holanda para estudar mulheres grávidas e seus filhos. Determinaram os níveis de poluição atmosférica residencial durante a vida fetal de 783 meninos e meninas. Os dados foram obtidos das campanhas de monitoramento do ar e incluíram níveis de dióxido de nitrogênio e partículas grossas e finas. A morfologia do cérebro foi avaliada a partir de ressonância magnética realizada quando as crianças tinham entre 6 e 10 anos de idade.

Observou-se a relação entre a exposição a partículas finas, as alterações estruturais no cérebro e controle inibitório, embora os níveis de partículas finas residenciais não excedam os limites definidos pela União Europeia -apenas 0,5% de mulheres grávidas foram expostas a níveis considerados inseguros. Em média, os níveis residenciais de dióxido de nitrogênio estavam apenas no limite de segurança.

Esses achados complementam estudos anteriores que associam níveis “aceitáveis” de poluição do ar com outras complicações, incluindo declínio cognitivo e crescimento fetal. “Portanto, não podemos garantir que os níveis atuais de poluição em nossas cidades sejam seguros ” , diz Mònica Guxens , coordenadora de estudo e pesquisadora da ISGlobal e do Centro Médico da Universidade Erasmus.

O cérebro do feto é particularmente vulnerável, já que ainda não desenvolveu os mecanismos para se proteger de toxinas ambientais ou eliminá-las. “Embora as conseqüências clínicas desses achados ao nível individual não possam ser quantificadas, outros estudos existentes sugerem que os atrasos cognitivos em uma idade precoce podem ter consideráveis conseqüências a longo prazo, incluindo um risco aumentado de transtornos mentais e menor desempenho acadêmico, dado a ubiquidade da exposição “, diz Guxens.




Referência:

Guxens M., Lubczyska M.J., Muetzel R., Dalmau-Bueno A., Jaddoe V.W., Hoek G., Van der Lugt A., Verhulst F.C., White T., Brunekreef B., Tiemeier H., El Marroun H. Air pollution exposure during fetal life, brain morphology, and cognitive function in school-age children. Biological Psychiatry, 2018 https://doi.org/10.1016/j.biopsych.2018.01.016



* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/03/2018




Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 12/03/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/03/12/exposicao-a-poluicao-do-ar-na-gravidez-esta-associada-a-alteracoes-no-cerebro-em-meninos-e-meninas/

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Alta taxa de açúcar na gravidez aumenta risco de doença cardíaca em bebês, diz estudo





Níveis altos de açúcar no começo da gravidez podem deflagrar problemas cardíacos em bebês (Foto: Reprodução/TV Fronteira)



Altos níveis de açúcar no sangue no início da gravidez aumentam risco de problema cardíaco em bebês, aponta estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Stanford (EUA). A pesquisa foi publicada nesta sexta-feira (15) no "Journal of Pediatrics".


O estudo analisou os efeitos do açúcar na primeira fase da gestação, quando o coração está se formando. A relação encontrada independe da mãe ter diabetes: a cada aumento de 10 miligramas da glicose na fase inicial da gravidez, o risco de um problema congênito no órgão tem um incremento de 8%.


Para chegar aos resultados, a equipe analisou prontuários médicos de 19.107 mães que tiveram bebês entre 2009 e 2015. Os registros continham detalhes do atendimento pré-natal, incluindo resultados de exame de sangue.


Dessa análise, pesquisadores encontraram 811 bebês diagnosticados com doença cardíaca congênita; também foram selecionadas as mães que tiveram a glicose testada no início da gravidez e excluidas aquelas com diabetes já diagnosticada.


O próximo passo da pesquisa será seguir um grupo de mulheres na gestação para ver se os resultados se confirmam. Se se confirmarem, a pesquisa pode ser vir de base para protocolos que exortem médicos a pedirem o exame obrigatoriamente na fase inicial da gravidez.




Autor: G1 Globo
Fonte: G1 Globo
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 15/12/2017
Publicação Original: https://g1.globo.com/bemestar/noticia/alta-taxa-de-acucar-na-gravidez-aumenta-risco-de-doenca-cardiaca-em-bebes-diz-estudo.ghtml

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Exposição ao ar poluído antes ou durante a gravidez altera a estrutura da placenta

A exposição de gestantes à poluição do ar durante a gravidez influencia o desenvolvimento do feto. A criança pode apresentar baixo peso ao nascer, além de ter aumentada a possibilidade de apresentar determinadas doenças na vida adulta, de acordo com estudos realizados no Brasil e no exterior. Os mecanismos moleculares por trás desses impactos da poluição na gestação, contudo, ainda não estavam completamente elucidados.


Alterações causadas pela poluição atmosférica podem limitar a nutrição e o crescimento do feto, aponta estudo feito por pesquisadores da USP (foto: Phelipe Janning / Agência FAPESP)


Um grupo de pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) constatou agora que a exposição a poluentes atmosféricos, antes ou durante a gravidez, altera algumas características da placenta, além de causar distúrbios em um sistema hormonal relacionado ao fluxo sanguíneo uteroplacentário e diminuir os níveis de fatores envolvidos no processo de formação placentária.

Os resultados do estudo, realizado no âmbito de um Projeto Temático e do doutorado de Sônia de Fátima Soto, feito com Bolsa da FAPESP, foram publicados na revista PLOS ONE.

“Observamos que a exposição a poluentes antes e/ou durante a gravidez desencadeia alguns fenômenos inflamatórios ao longo do desenvolvimento da placenta que comprometem seu crescimento. Isso possivelmente interfere na transferência de nutrientes e de oxigênio da mãe para o feto”, disse Joel Claudio Heimann, professor da FMUSP e orientador de Soto, à Agência FAPESP.

Os pesquisadores realizaram um experimento em que expuseram ratas Wistar – linhagem albina da espécie Rattus norvegicus –, antes de acasalarem e ficarem prenhes, tanto ao ar filtrado como ao ar poluído com concentração de material particulado fino (menor que 2,5 micrômetros) de 600 microgramas (μg) por metro cúbico (m3), utilizando para isso um equipamento chamado concentrador de partículas finas ambientais de Harvard (CPFAH). O tamanho de partícula foi determinado com base nas exposições ambientais reais na Região Metropolitana de São Paulo.

Os animais foram divididos em quatro grupos. O primeiro foi exposto ao ar filtrado antes e durante a gravidez, o segundo foi colocado em contato com ar filtrado antes da gravidez e com ar poluído durante a gravidez, um terceiro grupo foi submetido ao ar poluído antes da gravidez e ao ar filtrado durante a gravidez, e o quarto, ao ar poluído antes e durante a gravidez.

Para simular as condições reais de exposição de mulheres à poluição do ar antes e durante a gravidez em cidades como São Paulo, antes da gravidez os animais foram colocados em contato com ar poluído durante uma hora cinco vezes por semana por três semanas seguidas. A partir do sexto dia de prenhez, o número de exposições foi de sete vezes por semana.

As placentas dos animais foram coletadas no 19º dia de gravidez, dissecadas e pesadas de modo a avaliar os efeitos dos poluentes em sua estrutura e no sistema hormonal renina-angiotensina (RAS) uteroplacentário.

Os resultados das análises indicaram que a exposição ao ar poluído antes e/ou durante a gravidez diminuiu a massa, o tamanho e a área superficial da placenta e causou alterações no sistema RAS.

Estudos anteriores apontaram que distúrbios nesse sistema podem levar a uma redução do fluxo sanguíneo uteroplacentário. Além disso, a angiotensina II (AngII) – um peptídeo que faz parte desse sistema – é um potente regulador da migração e invasão de trofoblasto – camada de células epiteliais que forma a parede externa da blástula dos mamíferos (blastocisto) e atua na implantação e nutrição do embrião – no início da gravidez.

A invasão da vasculatura materna pelo trofoblasto é um pré-requisito para o estabelecimento de uma placenta normal e a continuação da gravidez, explicaram os pesquisadores.

“Constatamos que a exposição das ratas prenhes à poluição antes e/ou durante a gravidez causou alterações no sistema renina-angiotensina dos animais. Mas são necessários novos estudos para elucidarmos mecanismos moleculares adicionais”, disse Heimann.

Interferência na formação da placenta

Os pesquisadores também avaliaram os efeitos da exposição ao ar poluído em fatores que influenciam o processo de formação da placenta, como o fator de crescimento de transformação beta 1 (TGFβ1) e o fator de crescimento endotelial vascular (VEGF-A).

Diversos estudos sugeriram que o TGFβ1 tem um papel na invasão da mucosa que recobre a face interna do útero (endométrio). E, nos mamíferos, o TGFβ1 pode regular uma variedade de funções celulares, incluindo proliferação, diferenciação, morte programada (apoptose) e invasão de células placentárias.

O VEGF-A também desempenha um papel na formação da placenta ao modular a angiogênese, ligando-se a seus dois receptores: tirosina quinase 1 relacionada a fms (Flk-1) e tirosina quinase 1 hepática fetal (Flt-1). As análises moleculares indicaram que a exposição ao ar poluído diminuiu o conteúdo de TGFβ1 e Flk-1 na placenta dos animais.

A porção materna da placenta das ratas expostas a ar poluído antes da gravidez e a ar filtrado durante a gravidez, comparada com a daquelas colocadas em contato com ar poluído antes e durante a gravidez, apresentou diminuição nos níveis de angiotensina II (AngII) e seus receptores AT1 (AT1R) e AT2 (AT2R).

Na porção fetal da placenta das ratas expostas a ar filtrado antes da gravidez e a ar poluído durante a gravidez, a ar poluído antes da gravidez e a ar filtrado durante a gravidez e a ar poluído antes e durante a gravidez, os níveis de AngII também diminuíram. Contudo, a AT1R aumentou no grupo de animais expostos a ar filtrado antes da gravidez e a ar poluído durante a gravidez.

A expressão do gene VEGF-A foi menor no grupo de ratas expostas a ar poluído antes e durante a gravidez em comparação com os animais colocados em contato com ar filtrado antes e durante a gravidez.

Essas alterações indicam um possível comprometimento da invasão de trofoblasto e na angiogênese (formação de novos vasos sanguíneos) da placenta, explicou Heimann.

“Isso pode ter consequências para a interação entre mãe e feto, como também limitar a nutrição e o crescimento fetal”, afirmou.


O artigo Exposure to fine particulate matter in the air alters placental structure and the renin-angiotensin system (doi: 10.1371/journal.pone.0183314), de Sônia de Fátima Soto, Juliana Oliveira de Melo, Guilherme D’Aprile Marchesi, Karen Lucasechi Lopes, Mariana Matera Veras, Ivone Braga de Oliveira, Regiane Machado de Souza, Isac de Castro, Luzia Naôko Shinohara Furukawa, Paulo Hilário Nascimento Saldiva e Joel C. Heimann, pode ser lido em http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0183314.


Autora: Agência FAPESP
Fonte: Elton Alisson
Sítio Online da Publicação: Agência FAPESP
Data de Publicação: 30/10/2017
Publicação Original: http://agencia.fapesp.br/exposicao_ao_ar_poluido_antes_ou_durante_a_gravidez_altera_a_estrutura_da_placenta/26523/