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quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

A teoria serotoninérgica da depressão

Caminhando para finalizar o ano de 2022, vamos revisar alguns trabalhos e assuntos que mobilizaram o debate público em torno da saúde mental e da psiquiatria. O primeiro desses trabalhos foi a revisão sistemática guarda-chuva feita por Moncrieff et. al e publicada na Nature, sobre a teoria serotoninérgica da depressão. A publicação deste estudo levou a interpretações diversas, inclusive àquelas que visavam desacreditar o tratamento da depressão com medicações que têm em seu mecanismo de ação a inibição serotoninérgica.


A ideia de que a depressão é o resultado de alterações químicas cerebrais, particularmente da serotonina (5-HT), foi influente por décadas e forneceu uma justificativa importante para o uso de antidepressivos. Foi na década de 1990 que esta ideia se disseminou concomitantemente com o advento dos antidepressivos Inibidores Seletivos de Recaptação de Serotonina (ISRS).

Dificilmente encontraremos por aí profissionais bem formados que endossem a teoria serotoninérgica como o único mecanismo causal da depressão. Não obstante, apesar do relativo consenso na área sobre as limitações da teoria, a ideia de que a depressão é causada por um “desequilíbrio químico” tem muita penetrância na sociedade: 80% do público leigo acredita nela.


O objetivo do trabalho de Moncrieff et. al foi estabelecer se a evidência científica atual endossa o papel da serotonina na etiologia da depressão e, especificamente, se a depressão está associada a indicativos de diminuição de concentração ou atividade serotoninérgica.

Hipótese serotoninérgica

Para cobrir diferentes áreas e manejar o grande volume de pesquisas relacionadas ao sistema serotoninérgico, foi conduzida uma revisão do tipo “guarda-chuva”. Revisões “guarda-chuva” pesquisam as revisões sistemáticas e meta-análises existentes que são relevantes para a pergunta da pesquisa e representam um dos níveis mais elevados de síntese da evidência disponível.


Embora tradicionalmente elas sejam limitadas a revisões sistemáticas e meta-análises, os pesquisadores decidiram incluir outros estudos que consideraram a melhor evidência disponível, como grandes estudos com informações de estudos individuais, mas que não empregam técnicas de revisão sistemática, e um grande estudo genético.


As áreas de pesquisa atreladas à hipótese serotoninérgica foram separadas em seis grupos: 1) Se na depressão há baixos níveis de serotonina e seus metabólicos nos fluidos corporais; 2) Se os receptores de serotonina estão alterados em pessoas com depressão; 3) Se nas pessoas com depressão há maior quantidade de transportadores de serotonina (SERT) que removem a serotonina da fenda sináptica e, portanto, diminuem sua quantidade; 4) Se a diminuição do triptofano (precursor da serotonina) pode induzir depressão; 5) Se há maior quantidade de genes do SERT em pessoas com depressão; e 6) Se existe uma interação entre o gene do SERT e estresse na depressão.


70 estudos preencheram os critérios de inclusão do trabalho. Vamos, então, aos achados da pesquisa.


Serotonina e seu metabólito, o ácido 5-hidroxi-indolacético (5-HIAA): a serotonina pode ser medida no sangue, plasma, urina e líquor, mas ela é rapidamente metabolizada em 5-HIAA. O líquor é o fluido ideal para o estudo de biomarcadores relacionados a supostas doenças cerebrais, mas sua coleta é invasiva e envolve alguns riscos. Logo, estudos de larga escala que faça uso do líquor são raros. Estudos evidenciaram a ausência de relação entre as concentrações de serotonina e depressão.


Receptores: 40 receptores de serotonina foram identificados, mas suas relações com a depressão não estão bem estabelecidas, com os estudos focando no 5-HT1A, que inibe a liberação pré-sináptica de serotonina (logo, pessoas com depressão supostamente teriam atividade do 5-HT1A aumentada). A maioria dos resultados sugerem que não há diferença entre pessoas com depressão e controles com relação à atividade do receptor ou a uma atividade menor desses receptores nas pessoas com depressão (o que implicaria numa concentração maior de serotonina). Vale a ressalva de que a maior parte dos estudos incluíram pessoas que estavam tomando antidepressivos ou tinham tomado recentemente (entre uma e três semanas), o que poderia influenciar os achados.


Transportador de Serotonina (SERT): acredita-se que os ISRS atuam inibindo o SERT, aumentando, assim, a concentração extracelular da serotonina na fenda sináptica. Os resultados indicaram uma possível redução de SERT em algumas áreas cerebrais, embora as áreas indicadas nos estudos não fossem correspondentes. No entanto, os efeitos dos antidepressivos nos achados não podem ser descartados, uma vez que a maior parte dos estudos envolviam pessoas que tinham uma história de uso de antidepressivos ou outras medicações psiquiátricas. Se os achados forem independentes do uso de medicação, eles sugerem que a depressão é associada a maiores concentrações e atividade da serotonina.


Redução de Triptofano: a maior parte dos estudos mostra inexistência de relação. Um estudo pequeno, envolvendo pessoas com história familiar positiva para depressão, mostrou uma piora do humor nos pacientes em privação de triptofano. Estudos envolvendo pessoas diagnosticadas com depressão mostraram uma redução ligeiramente maior do humor após depleção de triptofano, mas o número de participantes era pequeno e eles estavam tomando antidepressivos. Estudos com voluntários sadios não mostraram diferença da depleção do triptofano no humor.


Gene SERT: uma relação entre depressão e a expressão reduzida do SERT tem sido proposta. Mais recentemente, tem circulado a tese de que os polimorfirmos na expressão do gene da SERT só poderiam dar origem a depressão na presença de eventos estressores. Os estudos maiores e mais recentes não encontraram correlação entre o gene da SERT e a depressão, nem entre o gene da SERT e o estresse na depressão.


Mensagem final

A conclusão dessa revisão abrangente sobre as principais linhas de pesquisa sobre a serotonina mostra que não há evidência convincente de que a depressão é associada com ou causada por concentração ou atividade reduzida da serotonina. Apesar disso, existe uma forte crença na opinião pública de que há evidências convincentes de que a depressão é o resultado de alterações na serotonina ou outras anormalidades químicas.


Essa crença modula como as pessoas compreendem seus humores e levam a expectativas negativas sobre as possibilidades de autorregulação do humor. A crença em um desequilíbrio químico também pode desencorajar as pessoas a descontinuar o uso da medicação, quando corretamente indicado. Logo, precisamos ser cautelosos nas informações que fornecemos ao público sobre os possíveis mecanismos causais da depressão.





Autor: Tayne Miranda
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 13/12/2022
Publicação Original: https://pebmed.com.br/a-teoria-serotoninergica-da-depressao/

sábado, 20 de agosto de 2022

Ketamina é opção de tratamento para depressão resistente e ideação suicida

 

Quetamina foi aprovada no Brasil em formato de spray nasal, para casos de depressão resistente.

Com o avanço da medicina e da tecnologia, novos tratamentos têm sido descobertos e aumentam as possibilidades para pacientes que não respondem às terapias convencionais. A depressão se enquadra nesse caso: estima-se que 1 a cada 3 pacientes diagnosticados não responde aos tratamentos disponíveis, além dos medicamentos demorarem para surtir efeitos. Uma alternativa que surgiu nos últimos anos vem de uma substância que já é utilizada na medicina como anestésico: a ketamina. A ketamina tem apresentado bons resultados para esses pacientes e seu uso tem sido mais disseminado nos Estados Unidos, à medida que a quantidade de dados clínicos e do mundo real aumenta.

No Brasil, ainda em menor escala, o uso do medicamento também tem se popularizado nos consultórios psiquiátricos. Isso se deve, principalmente, à aprovação pela Anvisa no Brasil, em 2020, da escetamina, uma terapia desenvolvida a partir da ketamina com aplicação intranasal. Ela é utilizada em casos de depressão resistente ao tratamento e de Transtorno de Depressão Maior com ideação suicida aguda. Além de atuar em uma área diferente do cérebro que os antidepressivos do mercado, a substância traz efeitos mais rápidos, o que pode contribuir com uma redução de casos graves da doença e na diminuição de suicídios.

Essa preocupação com a eficácia e velocidade se justifica: os antidepressivos convencionais demoram entre 4 e 6 semanas para surtir efeito, o que pode ser um período muito longo para casos onde há um risco iminente que o paciente possa tentar um suicídio, segundo Humberto Corrêa, psiquiatra e professor titular de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Para ele, “os pacientes precisam hoje de drogas que sejam efetivas em todos os quadros depressivos. 30% dos pacientes com depressão resistente ao tratamento é muita coisa. E nós precisamos de drogas que façam efeito mais rapidamente. Isso nos coloca em uma situação muito difícil. Ao paciente em primeiro lugar, mas a nós profissionais de saúde em uma situação muito difícil muitas vezes”.

Nesses casos, os profissionais podem indicar a ketamina, que é tida como uma grande revolução dos fármacos para o tratamento de depressão, mas que ainda é desconhecido por grande parte da população, especialmente aquela com depressão resistente ao tratamento.
Depressão carrega estigma

Dados da Pesquisa Vigitel de 2021 apontam que cerca de 11,3% da população relataram ter recebido um diagnóstico de depressão. No entanto, esse número deve ser bem maior, já que o estigma e a dificuldade de acesso fazem com que grande parte da população demore para buscar ajuda e tratamento.

De acordo com um levantamento do Instituto Ipsos, encomendado pela Janssen e divulgado em junho, o tempo médio que uma pessoa com depressão leva para buscar ajuda é de três anos e três meses. A pesquisa foi realizada com 800 pessoas, com e sem diagnóstico da doença. Dentre os principais motivos, 18% dos entrevistados afirmam que havia uma falta de consciência de se tratar de uma doença, 13% tinham resistência em buscar ajuda médica, e outros 13% tinham medo de julgamento ou vergonha.

O diagnóstico rápido é essencial para iniciar linhas de tratamentos, com os medicamentos convencionais e psicoterapia, evitando complicações e a piora do quadro de depressão, como afirmou Humberto Corrêa durante o evento de lançamento da pesquisa: “Sabemos que quanto mais tempo de sintomas, mais alterações no nosso cérebro vão acontecendo. Ela tem repercussões sistêmicas. O paciente deprimido vai ter alterações imunológicas e neuroendócrinas, o que vai explicar o fato dos pacientes terem uma série de outras doenças não-psiquiátricas a mais que a população geral, como as cardiovasculares, por exemplo”.

Depois do diagnóstico e início do tratamento, cerca de 30% dos casos os pacientes não respondem bem aos medicamentos utilizados, caracterizando a chamada depressão resistente. Humberto Corrêa pontua que um episódio de depressão dura em média 298 dias, enquanto o episódio de depressão resistente ao tratamento dura cerca de 896 dias, por volta de 3 anos.

Além das complicações, especialistas alertam para o risco de suicídio. Um dos principais estudos utilizados como referência pelos médicos, publicado em 2004, revisou 15 mil casos de suicídios ao redor do mundo. Os pesquisadores apontaram que em 98% dos casos, havia um histórico de diagnóstico para doenças mentais, sendo a depressão uma das principais causas.

Mesmo a tentativa de suicídio interfere diretamente na saúde da população. O psiquiatra explica que a expectativa de vida dos tentantes reduz expressivamente, por conta dos riscos de complicações físicas e o risco de um novo episódio: dentre os homens de até 20 anos a expectativa diminui 18 anos, enquanto nas mulheres da mesma faixa etária a expectativa diminui 11 anos.
Ketamina é considerada uma revolução

“Hoje nós temos comercializadas 55 moléculas de antidepressivos no mundo. Todas têm o mesmo mecanismo de ação central, que é o aumento da atividade cerebral do sistema monoaminérgico em três neurotransmissores que são a serotonina, a noradrenalina e a dopamina. Durante quase 70 anos só tivemos esse mecanismo de ação para tratar depressão”, explica Acioly Lacerda, psiquiatra, diretor do Instituto Sinapse, pesquisador e professor do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

A ketamina surge como uma nova fase dos medicamentos antidepressivos principalmente por ter outro mecanismo de ação. Ela é uma droga utilizada como anestésico em todo o mundo, produzida em laboratório e que foi sintetizada ainda nos anos 60, sendo sua segurança e efeitos colaterais bem estabelecidos.

Em 2017, pesquisadores confirmaram que essa substância tinha um impacto no tratamento de depressão, especialmente em casos graves. Isso porque ela atua contribuindo com a regulação do glutamato, um neurotransmissor que está ligado às alterações mentais. A ketamina reduz de forma expressiva os sintomas depressivos e contribui com um maior controle da condição.

Contudo, ela ainda não é a indicação primária de tratamento: “Não é um medicamento de primeira escolha. O paciente vai ao consultório e não deve no seu primeiro tratamento ser usado a ketamina. É para quando há falha dos antidepressivos convencionais. E quando o paciente faz o tratamento com ketamina, ele não vai usar só isso. Ele vai usar em adição como adjuvante a antidepressivos convencionais”, explica Acioly.

Diferente dos medicamentos convencionais, ela já demonstra efeitos em 24 horas após a aplicação. A longo prazo, é possível ver de forma expressiva a remissão da depressão resistente e menores taxas de recaídas. Em pacientes com ideação suicida, em cerca de 4 horas já foi possível observar uma melhora no quadro. Antes, a eletroconvulsoterapia era a principal alternativa para casos de depressão resistente ao tratamento, mas é um método invasivo e que possui muito estigma, por ser associada à tortura.
Limitações

Por ser uma droga com potencial de abuso e precisar de acompanhamento médico, para controlar possíveis efeitos colaterais a ketamina está autorizada no Brasil para uso em ambiente hospitalar, não sendo vendida em farmácias.

“Temos um estudo de 6 anos e realmente não houve nenhum fator de segurança que trouxesse preocupação no uso prolongado ou corriqueiro. Mas como é um tratamento de complexidade, o paciente sempre vai usar em uma clínica ou hospital, ele não pode usar em casa. É um tratamento mais caro e mais complexo. E a maioria dos pacientes, dois terços deles, vão responder a um tratamento mais barato, mais simples e menos invasivo. Em medicina, se a gente pode resolver uma gastrite com o uso de medicamentos, a gente não vai encaminhar esse paciente para uma cirurgia”, detalha Acioly.

Ela é vendida em formato de spray para aplicação intranasal com o nome comercial de Spravato e a dose de aplicação varia a cada caso. Possui duas indicações: tratamento de depressão resistente para uso concomitante a outro medicamento de primeira linha, e pacientes com Transtorno Depressivo Maior com comportamento ou ideação suicida aguda, sendo a única droga disponível para tais casos.

“A grande maioria dos ensaios clínicos realizados com antidepressivos no mundo exclui justamente os pacientes com risco de suicídio. É uma população muito difícil de ser estudada, e essa droga foi aprovada especificamente para ela”, aponta o professor da UFMG, Humberto Corrêa.

O suicídio é uma questão de saúde publica e a chegada desse medicamento pode contribuir com a redução no número de casos. Em 2019, 13.523 pessoas morreram vítimas de suicídio no Brasil, número 43% maior que os 9.454 casos registrados em 2010, de acordo com o último dado do Ministério da Saúde.

Por ser liberada como anestésico, a ketamina também é utilizada off-label em alguns casos, com aplicação por via endovenosa, o que reforça a necessidade de se estar em ambiente hospitalar e acompanhamento médico. “A grande maioria dos estudos são com a ketamina injetável. Há duas décadas temos. Por ser um medicamento sem patente, nenhuma indústria investiu em um estudo de aprovação de fase 3, que é caro, justamente porque se investir e aprovar, no outro dia tem um monte de gente vai simplesmente seguir e fazer o registro. A saída comercial foi a via de administração que pudesse fazer a patente do dispositivo”, explica Lacerda, professor de Psiquiatria da Unifesp.
Efeitos colaterais e contraindicações

O principal efeito colateral do uso da Ketamina como tratamento é a dissociação, uma desconexão do paciente com a realidade e seus pensamentos, distorcendo a noção de espaço e tempo. Esse efeito perdura por até duas horas, por isso é importante estar em um ambiente controlado com acompanhamento profissional. Outros efeitos ligados ao seu uso são: tontura, náuseas, sonolência, ansiedade e aumento da pressão arterial.

“Qualquer doença que o paciente corra algum risco de aumentar a pressão sanguínea ou cerebral, não deve receber o tratamento com ketamina. Ela pode aumentar a pressão sanguínea, a frequência cardíaca e a pressão intracraniana”, alerta Acioly. Da mesma forma, o medicamento não é indicado para crianças, adolescentes, gestantes e lactantes, pois esses grupos não foram incluídos na pesquisa.

Outro ponto que merece atenção é que a substância é utilizada como droga psicodélica por parte da população, e pode provocar dependência e danos à saúde se utilizada de forma incorreta e sem supervisão. A que é utilizada para esse fim é a ketamina para uso veterinário, geralmente prescrita para cavalos e que também passa por controle. No entanto, o psiquiatra Humberto Corrêa acredita que, possivelmente, não há o risco da ketamina humana acabar sendo utilizada dessa forma.

“A aprovação da Anvisa dada ao Spravato foi para uso em ambiente hospitalar. O paciente não tem acesso diretamente a droga. O médico prescreve, o paciente vai até o local, recebe o tratamento e volta para casa. Ele não tem nenhum acesso à substância”, defende Corrêa.
Outras possibilidades

Com a chegada do Spravato e a comprovação da eficácia no tratamento de depressão resistente e pacientes com ideação suicida aguda, novos estudos e pesquisas buscam encontrar outras possibilidades para o uso da ketamina.

A forma de administração é uma delas. De acordo com Acioly, da Unifesp, existem alguns trabalhos voltados para a produção de ketamina oral e para aplicação subcutânea, como as canetas de insulina utilizadas no controle do diabetes. A ideia é que os pacientes possam utilizar em domicílio, sem precisar de um ambiente hospitalar.

Os formatos podem contribuir com o acesso da população, mas requer uma maior vigilância farmacológica, já que além de aumentar o risco de que a substância venha a ser utilizada como droga psicodélica, os profissionais de saúde não estariam juntos para controlar possíveis efeitos adversos. Segundo Acioly, existe também uma preocupação da indústria em desenvolver comprimidos que sejam impossíveis de serem quebrados ou impossibilite isolar a cetamina de outros compostos do medicamento.

Além disso, a substância vem sendo estudada para outras patologias, principalmente da área das doenças mentais, mas os estudos estão em fases 1 e 2 e necessitam de financiamento e interesse da indústria para avançar.

“Grupos [de pesquisadores] demonstram a eficácia na depressão bipolar na fase depressiva. Tem estudos com a dependência de crack, quadros de ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo e estresse pós-traumático. Todas essas evidências preliminares são de estudos com número de pacientes infinitamente menor que na depressão resistente. Ainda não é consistente a ponto de indicar na clínica do dia a dia”, afirma o psiquiatra.







Autor: Rafael Machado
Fonte: futurodasaude
Sítio Online da Publicação: futurodasaude
Data: 17/08/2022
Publicação Original: https://futurodasaude.com.br/ketamina-tratamento-depressao/

quinta-feira, 12 de maio de 2022

Refluxo laringofaríngeo refratário pode estar relacionado a ansiedade e/ou depressão?

O refluxo laringofaríngeo caracteriza-se por retorno do conteúdo do estômago de volta para as áreas acima do esfíncter esofágico, incluindo cavidade nasal, boca, faringe, laringe, traqueia e/ou pulmões. A etiopatogênese deste refluxo ainda não está totalmente esclarecida, mas sugere-se que seja multifatorial.

É considerado refratário, o refluxo não controlado com tratamento com inibidor da bomba de prótons em dose plena, por dois meses. Nesta situação, sintomas como angustia, desconforto físico sem alterações patológicas orgânicas, ansiedade ou depressão podem ocorrer. É uma entidade patológica frequente, tanto nos consultórios de gastrenterologia, quanto nos de otorrinolaringologia. E a busca por melhora clínica pode ser desafiante, gerando muito sofrimento para médicos e pacientes.



Estudo

Huang e colaboradores em 2022 estudaram 28 pacientes com suspeita de refluxo laringofaríngeo, de ambos os sexos e com idades de 20 a 65 anos. Os pacientes foram diagnosticados com refluxo laringofaríngeo quando apresentaram manifestações típicas: de sensação de corpo estranho na faringe, pigarro persistente, combinado com escores da escala de classificação de sintomas de refluxo. O critério para ser considerado refratário foi que o paciente não apresentou alívio significativo dos sintomas com o tratamento com omeprazol 20 mg em dose plena.

Os critérios de exclusão foram: massa cervical/tumor maligno, história de cirurgia de pescoço e garganta, presença de doenças subjacentes graves e dificuldade em cooperar com o estudo clínico. Todos os pacientes foram classificados pelas escalas de ansiedade e depressão, a saber Self-rating Anxiety Scale (SAS) e Self-rating Depression Scale (SDS). Dos 28 pacientes estudados, os principais sintomas foram sensação de corpo estranho (21 pacientes – 75,0%), pigarro persistente (9 pacientes – 32,1%) e desconforto epigástrico com regurgitação e arrotos (10 pacientes – 35,7%). Ao exame local, os pacientes apresentaram principalmente, adesão de muco na laringe (28 pacientes – 100%) e eritema/hiperemia da mucosa aritenoide (27 pacientes – 96,4%).

Os sintomas e sinais de refluxo foram mais graves nos pacientes que apresentavam sintomas psiquiátricos de ansiedade e/ou depressão.

Os pacientes foram tratados com Deanxit (não disponível no Brasil) para ansiedade/depressão. Após um mês de tratamento, os pacientes foram reavaliados e houve melhora estatisticamente significativa das escalas de ansiedade e depressão. Após o tratamento com a medicação antidepressiva/ansiolítica, o estado mental dos pacientes melhorou, a disfunção do nervo autônomo gastrointestinal foi regulada e a hipersensibilidade visceral reduzida.

Segundo a literatura, fatores mentais podem alterar a secreção hormonal e a resposta no trato gastrointestinal através dos reflexos do eixo cérebro-intestino, do estresse, enquanto regulam as sensações esofágicas. Destaca-se que mesmos os pacientes que não tinham ansiedade ou depressão também melhoraram dos sintomas atípicos com o Deanxit.

Limitações sobre os resultados desde estudo foram o pequeno tamanho da amostra que pode influenciar os resultados do estudo. Os processos de diagnóstico e tratamento são demorados, o que faz com que alguns pacientes relutaram em cooperar ou completar os exames e o tratamento. Finalmente, não se sabia se os pacientes apresentavam ansiedade e depressão antes de serem tratados devido ao refluxo laringofaríngeo.


Conclusão

Conclui-se que pacientes com refluxo laringofaríngeo podem apresentar ansiedade e depressão; e que o tratamento destas condições pode melhorar os sintomas de refluxo. Estudos com maiores casuísticas contribuirão para reforçar esta correlação.






Autor: Vera Lucia Angelo Andrade
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 12/05/2022
Publicação Original: https://pebmed.com.br/refluxo-laringofaringeo-refratario-pode-estar-relacionado-a-ansiedade-e-ou-depressao/

segunda-feira, 2 de maio de 2022

Uso excessivo de telas por crianças pode causar depressão e transtornos psiquiátricos



Sociedade Brasileira de Pediatra pede cuidado com o tempo que crianças usam as telasFREEPIK

Seja para assistir a desenhos animados ou brincar com joguinhos, o hábito de entreter os pequenos com tablets e celulares tem começado cada vez mais cedo por incentivo dos pais.

Apesar de esses aparelhos eletrônicos se mostrarem aliados na correria do dia a dia pela distração que causam nas crianças, seu uso sem moderação pode levá-las a uma série de problemas de saúde, alguns com potencial de impactá-las ao longo de toda a vida.


O pediatra Nelson Douglas Ejzenbaum explica que mesmo a interação moderada não é considerada saudável para crianças com menos de 2 anos. Para a faixa etária até os 5 anos, o tempo de uso recomendado é de apenas uma hora por dia, e, entre os 6 e os 10, apenas duas horas, sempre com a fiscalização dos pais.

“O uso é tolerado para fins teóricos, para estudo, até para fins de diversão, mas não o consideramos saudável, porque tem aumentado os casos de miopia entre as crianças, aumentado o sedentarismo e diminuído a interação pessoal”, afirma o médico.

A SBP (Sociedade Brasileira de Pediatra) lista uma série de malefícios que o uso excessivo de telas pode causar às crianças: problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão; transtornos psiquiátricos, como déficit de atenção e hiperatividade; transtornos alimentares e do sono; sedentarismo; transtornos da imagem corporal; transtornos posturais e musculoesqueléticos; e problemas auditivos, entre outros.



Não é saudável o uso de telas durante as refeições FREEPIK

Durante os momentos de interação familiar e horários destinados às refeições, o pediatra explica que não é recomendado que as crianças usem as telas.

A falta do contato pessoal ou de atenção à alimentação pode acarretar no desenvolvimento de alguns dos transtornos listados pela SBP.

“Os pais não devem dar o celular aos filhos durante o jantar, vai distraí-los da atenção à comida, a criança pode comer demais ou comer menos do que precisa e isso vai causar obesidade infantil ou desnutrição. Fora os problemas de contato interpessoal, dificuldade em se comunicar com outras pessoas pessoalmente e não só no virtual”, destaca o médico.

A SBP também recomenda que as crianças interrompam o uso das telas pelo menos duas horas antes de dormir, para não impactar a qualidade do sono. Durante o dia, uma alternativa recomendada pela sociedade para reduzir o contato com os aparelhos eletrônicos é a prática de atividades esportivas, exercícios ao ar livre ou em contato direto com a natureza.

“Crianças que usam telas demais e não têm interação social podem desenvolver problemas de conectividade com outras pessoas. Eu diria que aos 5 anos de idade já é possível liberar o uso de tela para crianças desde que seja por um período específico”, destaca Ejzenbaum.





Autor: r7
Fonte: r7
Sítio Online da Publicação: r7
Data: 01/05/2022
Publicação Original: https://noticias.r7.com/saude/uso-excessivo-de-telas-por-criancas-pode-causar-depressao-e-transtornos-psiquiatricos-01052022

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Estratégias comportamentais no tratamento da insônia e prevenção da depressão em idosos

 Entre os pacientes com mais de 60 anos, duas condições se destacam na prática clínica: a insônia e a depressão. A insônia é muito prevalente e pode chegar a acometer quase metade dessa população. A depressão também torna-se mais frequente neste grupo do que na população geral, embora nem sempre seja diagnosticada. Contudo, a presença de depressão em maiores de 60 anos pode implicar riscos significativos, como a presença de outras comorbidades e declínio cognitivo. Dados da literatura corroboram que a insônia pode contribuir para o surgimento ou recorrência de depressão nesta faixa etária.

Neste sentido, há duas formas de abordar a insônia: o tratamento não-farmacológico e o farmacológico. O uso de medicamentos pode implicar em efeitos indesejáveis, como o comprometimento das funções quando desperto; contribuir para a polifarmácia ou causar dependência. Por isso, as abordagens comportamentais podem ser colocadas como uma alternativa factível para o problema. Este é o tema do estudo Prevention of Incident and Recurrent Major Depression in Older Adults With Insomnia – A Randomized Clinical Trial, publicado em novembro de 2021 no JAMA Psychiatry. 


O estudo

Neste trabalho, os pesquisadores fizeram um ensaio clínico randomizado com a intenção de comparar duas abordagens comportamentais para a insônia: a terapia de educação do sono (SET, em inglês) e a terapia cognitivo-comportamental para a insônia (TCCi). A SET foca nos fatores ambientais e comportamentos que influenciam o sono (características de um sono saudável, biologia do sono, higiene do sono e biologia do estresse e impacto sobre o sono), sendo aqui utilizada como um comparador. Já a TCCi mistura técnicas de terapia cognitiva com higiene do sono, relaxamento, controle de estímulos e restrição do sono. A TCCi é considerada como a primeira linha de tratamento não-farmacológico. O objetivo primário é avaliar se o tratamento do transtorno do sono em pacientes com insônia com estas técnicas também poderia prevenir a incidência ou recorrência de transtorno depressivo. Já o objetivo secundário é avaliar a remissão sustentada da insônia. 

Para isto, foram recrutados 291 participantes maiores de 60 anos e com diagnóstico de insônia, selecionados em um único local (amostra comunitária), sendo 156 alocados para a TTCi e 135 para SET (distribuição 1:1 por meio de um sistema de randomização em blocos com sequência aleatória gerada por computador e realizada por um pesquisador independente). O recrutamento aconteceu entre julho de 2012 e abril de 2015, tendo a seleção ocorrido através de uma base de dados com números de telefone e endereços de famílias que contivessem pelo menos um idoso em uma região próxima ao local do estudo (UCLA), nos EUA. Os indivíduos recrutados deveriam preencher os critérios diagnósticos para insônia, mas não para depressão nos últimos 12 meses. A princípio, o período de seguimento seria de 24 meses, mas foi ampliado para 36 a fim de se obter desfechos suficientes para a análise, tendo se encerrado em julho de 2018. A SET foi realizada por um educador treinado em saúde pública, enquanto a TCCi foi desenvolvida por um psicólogo treinado.

Ao longo de dois meses foram feitas sessões semanais com duas horas de duração. Já durante o seguimento, foram realizadas entrevistas estruturadas baseadas no DSM-5 com frequência semestral. Além disso, foi aplicado o questionário PHQ-9 para depressão de forma mensal por telefone e, caso houvesse uma pontuação expressiva (maior ou igual a 10), uma entrevista extra seria realizada. 

No geral, a TCCi revelou-se benéfica na prevenção da incidência ou recorrência de depressão em pacientes com insônia, além de também ter contribuído para uma melhora sustentada do transtorno do sono. Nos pacientes que foram submetidos à TCCi, as taxas de recorrência ou incidência de depressão se mostraram semelhantes à da população geral e cerca de metade daquela encontrada no grupo que se submeteu à SET. Além disso, o uso de medicações sedativas e hipnóticas diminuiu no grupo submetido à TCCi em relação aos expostos à SET. Por sinal, isso parece corroborar que entre os pacientes com insônia, haveria um maior risco (até 2 vezes maior) de depressão. Outros fatores, como adesão, aceitação e expectativas em relação ao tratamento também foram considerados, mantendo esses resultados. Também não houve diferença significativa no que diz respeito aos participantes que descontinuaram o estudo. 

Estes achados são relevantes na área da medicina clínica e geriátrica, dada a preocupação relacionada a esses dois transtornos e a repercussão que causam numa proporção importante dessa população. Especula-se que como a insônia pode estar associada a outros desfechos e/ou comorbidades – como declínio cognitivo e ideação suicida – sua abordagem comportamental possa também trazer benefícios ainda maiores com um perfil menor ou diferenciado de efeitos adversos. Embora a administração digital da técnica (TCCi digital) apresente algumas características que poderiam reduzir o seu efeito, esta ainda poderia ser mais uma opção para ampliar seu acesso. 

Considerações 

Claro que este estudo deve ser interpretado num contexto, uma vez que foi realizado nos EUA e a maior parte da população da amostra era composta por indivíduos que se descreveram como brancos. Há que se considerar também que o gênero feminino pode se colocar como um fator de risco para depressão. Contudo, trata-se de um trabalho relevante e que ressalta o valor das medidas não-farmacológicas na abordagem da insônia em pacientes maiores de 60 anos e sua relação com a incidência ou recorrência de transtorno depressivo maior. Neste caso, a TCCi conseguiu prevenir os casos de depressão em mais de 50% quando comparados à SET. Os autores chegam a ressaltar que medidas como essa podem ter valor preventivo. 





Autor: Paula Benevenuto Hartmann
Fonte: PEBMED
Sítio Online da Publicação: PEBMED
Data: 21/02/2022
Publicação Original: https://pebmed.com.br/estrategias-comportamentais-no-tratamento-da-insonia-e-prevencao-da-depressao-em-idosos/

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Ideação suicida entre médicos: burnout ou depressão?

O nono mês do ano é marcado por projetos destinados à conscientização e discussão saudável sobre o suicídio e suas implicações, o “setembro amarelo”. Desta vez, vamos discutir os principais pontos de um artigo publicado no JAMA em dezembro de 2020 e que procurou avaliar a relação entre ideação suicida e erros médicos com a síndrome de burnout e a depressão.

Alguns trabalhos mostram um risco aumentado de ideação suicida entre médicos, com taxas variando entre os anos de formação e de atividade profissional. Várias condições podem estar relacionadas a esse achado, como problemas nas relações interpessoais, uso de substâncias, sentimentos de culpa, tendência a comportamentos autodestrutivos, depressão e problemas ocupacionais. Este último ponto envolve um subgrupo de fatores que merecem destaque, como assédio no local de trabalho, a ausência de figuras de referência durante a formação pós-graduada, o grande volume de trabalho, a escolha por certas especialidades, etc. Não à toa os autores ressaltam que a síndrome de burnout vem alcançando níveis epidêmicos entre os médicos.

Contudo, há ainda uma discussão entre os estudiosos se a síndrome de burnout e a depressão fariam parte de um mesmo construto ou se seriam diagnósticos independentes. Neste trabalho, os autores citam uma metanálise e estudos psicométricos que sugerem tratar-se de entidades distintas, o que também foi encontrado por eles.



Estudo sobre burnout e depressão

Dessa forma, realizaram um estudo transversal entre novembro de 2018 e fevereiro de 2019 com médicos selecionados randomicamente nos registros da American Medical Association Physician Masterfile. De todos os médicos convidados a participar do estudo, apenas 11,4% o fizeram, sendo que 1.354 participantes foram incluídos nas análises. Foi oferecido um incentivo financeiro para que esses médicos preenchessem um inquérito eletrônico composto por: consentimento para a participação na pesquisa, três subescalas para avaliar burnout, uma escala para avaliar depressão, um instrumento com quatro itens para avaliar erros médicos e sua frequência e uma pergunta sobre a presença de pensamentos suicidas nos últimos 12 meses.

A amostra selecionada era composta majoritariamente por homens, indivíduos de etnia branca, com menos de 45 anos, que não trabalhavam nos cuidados de saúde primários e estavam atuando na prática clínica.

Resultados

Dos 1.354 avaliados, 5,5% informaram ter tido pensamentos suicidas nos 12 meses anteriores. Antes de se ajustar para o transtorno depressivo maior, havia sido encontrada uma correlação entre burnout e ideação suicida. Contudo, essa associação não se manteve após o ajuste para depressão. Isso, inclusive, é consistente com a descrição da Organização Mundial de Saúde (OMS) para a síndrome de burnout, na qual essa síndrome é entendida como ligada a questões ocupacionais; diferentemente dos transtornos mentais, que apresentam alterações em múltiplos domínios. Entretanto, foi encontrada uma correlação entre burnout e erros médicos relatados pelos próprios participantes. Essa associação com os erros médicos não ocorreu com a depressão.

A depressão propriamente dita correlacionou-se com a ideação suicida, mesmo após o ajuste para burnout. Isso se mostra consistente com o que é descrito pela literatura médica.

Dessa forma, é possível que associações anteriores entre burnout e ideação suicida sejam, na verdade, ou um fator de confundimento quando há depressão comórbida; ou fruto de uma associação indireta entre as duas condições; ou tenha ocorrido pela ausência de ajuste para depressão nas análises; ou os instrumentos usados nas pesquisas prévias não possuíam as características apropriadas.

É importante lembrar que a depressão é uma doença responsável por um grande impacto na vida dos pacientes, tornando necessária a avaliação médica e o tratamento correto – seja na forma de psicoterapia ou associada ao uso de psicofármacos e outras terapias biológicas. Já o burnout se relaciona às questões ocupacionais e, no caso dos médicos, pode afetar o atendimento dos pacientes ou, como sugerem os resultados deste trabalho, se relacionar a uma maior quantidade de erros médicos. A melhor forma de abordá-lo seria através de estratégias ocupacionais.

Considerações

Esses resultados devem ser interpretados à luz de limitações inerentes aos trabalhos científicos: estudos transversais não conseguem delimitar relações de causalidade; as questões referentes à seleção da amostra limitam a generalização dos resultados e a presença do viés de participação, uma vez que foram utilizadas escalas respondidas pelos mesmos.

Caso você ou alguém que você conhece tenha tido pensamentos que envolvam o conteúdo de suicídio, não deixe de procurar ajuda profissional.

Para mais informações sobre depressão e síndrome de burnout, acesse o Whitebook.


Autor:




Paula Benevenuto Hartmann


Médica pela Universidade Federal Fluminense (UFF) ⦁ Psiquiatra pelo Hospital Universitário Antônio Pedro/UFF ⦁ Mestranda em Psiquiatria e Saúde Mental pela Universidade do Porto, Portugal.

Referências bibliográficas:
Menon NK, Shanafelt TD, Sinsky CA, et al. Association of Physician Burnout With Suicidal Ideation and Medical Errors. JAMA Netw Open. 2020;3(12):e2028780. doi: 10.1001/jamanetworkopen.2020.28780






Autor: Paula Benevenuto Hartmann
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 02/09/2021
Publicação Original: https://pebmed.com.br/ideacao-suicida-entre-medicos-burnout-ou-depressao/

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Folha informativa - Depressão

Folha informativa atualizada em março de 2018

Principais informações 
 
A depressão é um transtorno mental frequente. Em todo o mundo, estima-se que mais de 300 milhões de pessoas, de todas as idades, sofram com esse transtorno.
A depressão é a principal causa de incapacidade em todo o mundo e contribui de forma importante para a carga global de doenças.
Mulheres são mais afetadas que homens.
No pior dos casos, a depressão pode levar ao suicídio.
Existem vários tratamentos medicamentosos e psicológicos eficazes para depressão.


A depressão é um transtorno comum em todo o mundo: estima-se que mais de 300 milhões de pessoas sofram com ele. A condição é diferente das flutuações usuais de humor e das respostas emocionais de curta duração aos desafios da vida cotidiana. Especialmente quando de longa duração e com intensidade moderada ou grave, a depressão pode se tornar uma crítica condição de saúde. Ela pode causar à pessoa afetada um grande sofrimento e disfunção no trabalho, na escola ou no meio familiar. Na pior das hipóteses, a depressão pode levar ao suicídio. Cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano - sendo essa a segunda principal causa de morte entre pessoas com idade entre 15 e 29 anos.

Embora existam tratamentos eficazes conhecidos para depressão, menos da metade das pessoas afetadas no mundo (em muitos países, menos de 10%) recebe tais tratamentos. Os obstáculos ao tratamento eficaz incluem a falta de recursos, a falta de profissionais treinados e o estigma social associado aos transtornos mentais. Outra barreira ao atendimento é a avaliação imprecisa. Em países de todos os níveis de renda, pessoas com depressão frequentemente não são diagnosticadas corretamente e outras que não têm o transtorno são muitas vezes diagnosticadas de forma inadequada, com intervenções desnecessárias.

A carga da depressão e de outras condições de saúde mental está em ascensão no mundo. Uma resolução da Assembleia Mundial da Saúde, aprovada em maio de 2013, exigiu uma resposta integral e coordenada aos transtornos mentais em nível nacional.

Tipos e sintomas

Um episódio depressivo pode ser categorizado como leve, moderado ou grave, a depender da intensidade dos sintomas. Um indivíduo com um episódio depressivo leve terá alguma dificuldade em continuar um trabalho simples e atividades sociais, mas sem grande prejuízo ao funcionamento global. Durante um episódio depressivo grave, é improvável que a pessoa afetada possa continuar com atividades sociais, de trabalho ou domésticas.

Uma distinção fundamental também é feita entre depressão em pessoas que têm ou não um histórico de episódios de mania. Ambos os tipos de depressão podem ser crônicos (isto é, acontecem durante um período prolongado de tempo), com recaídas, especialmente se não forem tratados.

Transtorno depressivo recorrente: esse distúrbio envolve repetidos episódios depressivos. Durante esses episódios, a pessoa experimenta um humor deprimido, perda de interesse e prazer e energia reduzida, levando a uma diminuição das atividades em geral por pelo menos duas semanas. Muitas pessoas com depressão também sofrem com sintomas como ansiedade, distúrbios do sono e de apetite e podem ter sentimentos de culpa ou baixa autoestima, falta de concentração e até mesmo aqueles que são clinicamente inexplicáveis.

Transtorno afetivo bipolar: esse tipo de depressão consiste tipicamente na alternância entre episódios de mania e de depressão, separados por períodos de humor normal. Episódios de mania envolvem humor exaltado ou irritado, excesso de atividades, pressão de fala, autoestima inflada e uma menor necessidade de sono, bem como a aceleração do pensamento.

Fatores que contribuem e prevenção

A depressão é resultado de uma complexa interação de fatores sociais, psicológicos e biológicos. Pessoas que passaram por eventos adversos durante a vida (desemprego, luto, trauma psicológico) são mais propensas a desenvolver depressão. A depressão pode, por sua vez, levar a mais estresse e disfunção e piorar a situação de vida da pessoa afetada e o transtorno em si.

Há relação entre a depressão e a saúde física; doenças cardiovasculares, por exemplo, podem levar à depressão e vice e versa.

Diagnóstico e tratamento

Existem tratamentos eficazes para depressão moderada e grave. Profissionais de saúde podem oferecer tratamentos psicológicos, como ativação comportamental, terapia cognitivo-comportamental e psicoterapia interpessoal ou medicamentos antidepressivos. Os provedores de saúde devem ter em mente a possibilidade de efeitos adversos associados aos antidepressivos, a possibilidade de oferecer um outro tipo de intervenção (por disponibilidade de conhecimentos técnicos ou do tratamento em questão) e preferências individuais. Entre os diferentes tratamentos psicológicos a serem considerados estão os individuais ou em grupo, realizados por profissionais ou terapeutas leigos supervisionados.



Os tratamentos psicossociais também são efetivos para depressão leve. Os antidepressivos podem ser eficazes no caso de depressão moderada-grave, mas não são a primeira linha de tratamento para os casos mais brandos. Esses medicamentos não devem ser usados para tratar depressão em crianças e não são, também, a primeira linha de tratamento para adolescentes. É preciso utilizá-los com cautela.

Resposta da OMS

A depressão é uma das condições prioritárias cobertas pelo Mental Health Gap Action Programme (mhGAP) da Organização Mundial da Saúde (OMS). O programa visa ajudar os países a aumentar os serviços prestados às pessoas com transtornos mentais, neurológicos e de uso de substâncias, por meio de cuidados providos por profissionais de saúde que não são especialistas em saúde mental. A iniciativa defende que, com cuidados adequados, assistência psicossocial e medicação, dezenas de milhões de pessoas com transtornos mentais, incluindo depressão, poderiam começar a levar uma vida normal - mesmo quando os recursos são escassos.

Conteúdo também disponível em inglês e espanhol.

Outros links:

Notícias sobre saúde mental

Depressão: o que você precisa saber

Vídeo: Eu tenho um cachorro preto e seu nome é depressão

Mental health action plan 2013 - 2020







Autor: Paho
Fonte: Paho
Sítio Online da Publicação: paho.org
Data: 03/2018
Publicação Original: https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5635:folha-informativa-depressao&Itemid=1095

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

O esquecido drama de quem vive com pessoas que sofrem de depressão



Depressão é doença de difícil diagnóstico. — Foto: Getty Images/via BBC

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 11 milhões de brasileiros sofrem com a depressão. Pelo mundo, são quase 300 milhões de pessoas, números que fizeram a OMS chamar a doença de "mal do século".

Tratamentos psiquiátricos e terapias diversas são apresentadas em textos e programas de TV. Famosos e até youtubers têm falado muito mais da doença, mas uma parte importante desta equação toda parece ficar de lado: o cuidador. Por ser um conjunto de sintomas que podem estar presentes em aspectos variáveis em cada pessoa, a depressão não é fácil de ser diagnosticada. E a pessoa que convive com o doente rotineiramente também pouco sabe o que fazer.

Segundo o Ministério da Saúde, um paciente com depressão pode apresentar tristeza profunda, falta de apetite, de ânimo, pessimismo, baixa auto-estima - que aparecem com frequência - e podem combinar-se entre si. De acordo com os especialistas, o crescimento do diagnóstico pode estar ocorrendo por conta de maiores cobranças sociais e pessoais de hoje. Mas também existe mais informação e aos poucos os preconceitos estão sendo combatidos e reduzidos, o que aumenta a quantidade de pedidos de ajuda e, consequentemente, os diagnósticos.

Parceiros

O psiquiatra Roni Cohen, diretor do Centro Brasileiro de Estimulação Magnética (CBREMT), aponta onde normalmente é o calcanhar de Aquiles do parceiro: "Realmente aqueles que cuidam ficam em segundo plano. Cuidar de uma pessoa com depressão requer uma sobrecarga emocional grande, principalmente porque, além de absorver o sentimento do outro, advém uma sensação de impotência quando se percebe que nem sempre a ajuda está sendo efetiva".


O arquiteto S. (que preferiu não se identificar), de 33 anos, conta como aprendeu a se frustrar com a noiva, a médica I.. Ele revela que a maior dificuldade disso é saber como lidar com ela em momentos críticos. "Você sempre quer que a pessoa que você ama se sinta bem, feliz, quer fazer coisas legais juntos e às vezes eu tinha que entender que não conseguiria isso, não importa o que fizesse.


É muito frustrante", explica. "E algo que agrava isso é o fato de que muitas vezes não havia nenhum motivo 'real' pra que ela se sentisse triste. Então não há um problema que você possa resolver e fazer tudo ficar bem". Um outro motivo para agravar o problema foi a negligência da família, algo muito comum no mundo dos depressivos.


"Eles (os familiares) tinham um certo preconceito com tratamento psiquiátrico e medicação. A depressão dela nunca me causou transtornos diretamente, mas sim à ela. Mas como vivemos juntos me atingem de alguma forma. Não procurei ajuda psicológica e tenho certeza que isso traria benefícios."



A perda de compromissos importantes era um dos maiores problemas. "Há dias que ela acaba dormindo o dia todo e perde compromissos".


As dificuldades também são relatadas pelo administrador de empresas Henrique Luiz, de 38 anos, que cuida do pai doente, de 74 anos, que preferiu não ser identificado. Além da depressão, o pai foi diagnosticado com transtorno bipolar.


"A maior dificuldade realmente é se aproximar em tempos de "mania", quando ele acha que está super bem e pode tudo. É neste momento que ele acaba pisando em cima de todos", relata Henrique. "Já colocamos remédios nos sucos e café para tentar conter ele, com orientação médica, até que a internação foi nossa última saída. Minha mãe, hoje falecida, sofria demais com isto, e hoje vejo que meu irmão sofre por morar com ele."


Henrique acabou tendo que fazer um tratamento psiquiátrico, onde foi diagnosticado com Depressão Pós Traumática e ficou um bom tempo com remédios e terapia. "Infelizmente, o meu irmão, apesar de demonstrar claramente desequilíbrio emocional devido a condição do meu pai, não procurou ajuda."



Taxa de suicídios é maior entre homens, diz OMS. — Foto: Pixabay

Um dos grupos mais antigos e atuantes de ajuda a pacientes e familiares é a Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (ABRATA), situada atualmente na Vila Clementino, em São Paulo. Os grandes centros universitários pelo país dispõem também de grupos semelhantes. Há os "Neuróticos Anônimos" e grupos de portadores de transtorno bipolar.


O psiquiatra Mauro Aranha, fala sobre a importância de se apoiar neste tipo de pilar: "Esses grupos ajudam portadores e familiares em prevenção e indicam rede de tratamento. Permitem também a expressão de um lugar de fala que dá um sentido mais concreto e compartilhado ao sofrimento e aponta caminhos possíveis de recuperação ou superação."


A psicóloga Melina Ferreira vai além. "O ideal seria que o cuidador tivesse muito claro o que é a depressão, qual seu papel na contribuição do tratamento, quando sair de cena e quando voltar, já que pode existir uma 'contaminação' dos sintomas depressivos, devido ao ambiente, preocupação, atenção demasiada, além de suas próprias frustrações. Os profissionais da saúde precisam estar atentos e abertos para dar este apoio aos cuidadores", afirma.


Há também que se separar um quadro de melancolia e tristeza com a depressão.


Taxa de mortalidade por suicídio aumentou 12% entre jovens e adolescentes negros de 2012 a 2016 — Foto: Pixabay


Isso faz toda a diferença para o doente. Saber diferenciar as patologias e emoções naturais são fundamentais para o tratamento e melhora da pessoa tratada, aponta Melina: "A questão problemática desta relação é que a depressão tem suas peculiaridades como doença e quem ajuda pode acabar cuidando como uma tristeza, frustração ou qualquer outra emoção ruim comum ao ser humano.


Isso gera conflitos e ambos sofrem com esta dinâmica: a pessoa com depressão se sente não entendida ou vista e o cuidador frustrado por não conseguir ajudar como gostaria. A depressão é uma doença muito autocentrada no paciente".


A atriz e professora D., 38 anos, acabou procurando ajuda psicológica justamente para não desistir do seu namorado B., de 45. "Vou a sessões individualizadas com os médicos e analistas do meu namorado. Pedi ajuda da família. O peso é muito grande e você precisa estar preparada para lidar com as frustrações, que são muitas. Ter um grupo de apoio é fundamental".


Já o arquiteto S. conta que leu bastante sobre o assunto e conversou com a psicóloga da noiva algumas vezes, sempre com ela presente, pra ficar claro que lidavam com aquilo juntos. E assim, com o tempo foi aprendendo, meio que na tentativa e erro, os tipos de conduta que poderia tomar quando ela não estava bem.


"Eu tento falar com ela de maneira muito lógica. Uma característica dela é ser extremamente pessimista, ela vê todas as possibilidades das coisas darem errado e vai desdobrando isso até chegar a consequências horríveis e fica extremamente ansiosa. Então eu cito fatos parecidos onde tudo deu certo, converso sobre como seria se algo ruim acontecesse, como iríamos resolver, sempre tentando ser muito claro, pra que apesar da depressão ela veja que está tudo bem. E isso sempre tem que ser feito com muita paciência e carinho, acho que pra ela, estar perto de uma pessoa tranquila ajuda muito".


Mauro Aranha pede atenção especial à depressão que agrega angústia e desinteresse por tudo e todos, isolamento social e desesperança. "São ingredientes que podem levar o enfermo ao suicídio. E não se deve temer perguntar, de maneira acolhedora, ao enfermo se ele deseja ou planeja matar-se. Isso pode salvar uma vida".


Para casos mais agudos, O CVV - Centro de Valorização da Vida - realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, e-mail, chat e 24 horas todos os dias. A ligação para o CVV em parceria com o SUS, por meio do número 188, são gratuitas a partir de qualquer linha telefônica fixa ou celular. Também é possível acessar www.cvv.org.br para chat, Skype, e-mail e mais informações sobre ligação gratuita.




Autor: G1 Saúde
Fonte: G1 Saúde
Sítio Online da Publicação: G1 Saúde
Data: 25/09/2019
Publicação Original: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/09/23/o-esquecido-drama-de-quem-vive-com-pessoas-que-sofrem-de-depressao.ghtml

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Lutando contra a depressão, artigo de Montserrat Martins


Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil – EBC


Campeã mundial de Muai Thay, a gaúcha Simoni dos Santos tem uma história inusitada: há apenas dois anos atrás, era uma dona de casa de 30 anos de idade, criando 4 filhos e uma sobrinha, pesando 100 quilos e com depressão, que “só queria chorar e ficar na cama”. Um amigo lhe emprestou um saco de areia para dar socos como uma forma de extravasar frustrações e, vendo que estava lhe fazendo bem tal “terapia”, em seguida lhe convidou para treinar Muai Thay.

A prática da arte marcial lhe ajudou a emagrecer e quando estava com 95 quilos ela já disputou seu primeiro torneio da categoria. Desde que começou, há dois anos, pegou gosto e não parou mais de praticar o esporte, até chegar ao improvável título mundial, conquistado em torneio na Tailândia, na categoria até 60 quilos.

Sua história merece ser contada, como exemplo do esporte como método de reação à depressão e ao mesmo tempo fonte de cuidados com o corpo e de autoestima. O caso dela não podia ser mais emblemático, pois contém todas as dificuldades das pessoas “normais”. Mesmo agora, campeã mundial, Simoni treina de manhã e de tarde, em horários alternados com as vendas que faz de docinhos que ela mesma produz, cerca de mil, que faz em casa à noite. O marido é mecânico e as filhas a ajudam nos docinhos.

A depressão é hoje o mais frequente transtorno psiquiátrico e os antidepressivos o segundo dentre os remédios mais vendidos no país (atrás apenas dos analgésicos), com mais de 60 mil unidades vendidas em 2016, segundo uma pesquisa que constatou 74% de crescimento das vendas em relação a seis anos antes.

Em Psiquiatria se estudam os fatores biológicos, psicológicos e sociais de cada transtorno e todos esses fatores são relevantes na depressão. Há pessoas com tendências familiares, há outras com evidentes conflitos emocionais desencadeantes e também há fatores sociais (por exemplo o bullying) que podem precipitar quadros depressivos.

Instalada a depressão, mesmo quando desencadeada por causas psicológicas, o organismo como um todo passa a ser afetado. Os antidepressivos são importantes principalmente no início, para ajudar a pessoa a reagir, pois a maioria das pessoas nesse estado não conseguiriam uma reação como a de Simoni, só com o esporte.

O esporte leva o nosso corpo a produzir endorfinas, que tem um efeito antidepressivo, conhecido como o “hormônio do bem estar”, que eleva o ânimo e a autoestima. E sabe aqueles chavões, como o de que “tudo passa pela educação” e que “esporte é vida”? São verdadeiros. Não existem panaceias, coisas que por si só resolvam tudo, mas o esporte é mesmo importante para a saúde física e mental.


Montserrat Martins, Colunista do EcoDebate, é Psiquiatra, autor de “Em busca da alma do Brasil”.




Autor: Montserrat Martins
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 115/04/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/04/15/lutando-contra-a-depressao-artigo-de-montserrat-martins/

terça-feira, 2 de abril de 2019

02 de abril é dia mundial de conscientização do autismo. Entenda o transtorno

A ONU (Organização das Nações Unidas) definiu o tema central do atual Dia Mundial de Conscientização do Autismo (no original, em inglês: World Autism Awareness Day), celebrado todo 2 de abril (desde 2008): “Tecnologias assistivas, participação ativa”.

Por Flávia Vargas Ghiurghi


Foto: EBC

A ONU argumenta que, para muitas pessoas no espectro do autismo, o acesso a tecnologias assistenciais a preços acessíveis é um pré-requisito para poder exercer seus direitos humanos básicos e reduzir ou eliminar as barreiras à sua participação em igualdade na sociedade.

Segundo o CDC (Center of Deseases Control and Prevention), órgão ligado ao governo dos Estados Unidos, uma criança a cada 100 nasce com o Transtorno do Espectro Autista (TEA). O aumento é grande: há alguns anos, a estimativa era de um caso para cada 500 crianças. Estima-se que 70 milhões de pessoas no mundo tenham autismo, sendo 2 milhões delas no Brasil.

Mas, afinal, o que é o autismo (TEA), e como lidar com essa doença que ainda gera tanto preconceito?

De acordo com o Prof. Dr. Mario Louzã, médico psiquiatra, doutor em Medicina pela Universidade de Würzburg, Alemanha, e Membro Filiado do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo; o diagnóstico começa pela observação do comportamento da criança (paciente). O TEA, na realidade, envolve um grupo de doenças do neurodesenvolvimento, de início precoce (antes dos 2-3 anos de idade), e que se caracteriza por dois aspectos principais: dificuldade de interação social e de comunicação.

Uma criança sadia começa a interagir com outras pessoas em torno dos 4-6 meses de idade. “Ela é capaz de sorrir quando vê alguém conhecido ou reagir com medo se um estranho, por exemplo, tenta pegá-la no colo”, explica Louzã. A medida que a criança cresce, o amadurecimento permite que a interação com outras pessoas se torne possível antes da aquisição da linguagem e da fala.

Estas evoluções ao longo dos primeiros anos de vida dão indicações do progressivo aumento da capacidade de interação social da criança. Já a autista, se mostra indiferente à interação social, e não expressa a reciprocidade no contato com outras pessoas. Tem grande dificuldade na comunicação verbal e não-verbal, e parece desligada do ambiente em torno de si. A linguagem corporal e o contato visual com outras pessoas se mostram prejudicados.

Numa idade maior, o desinteresse em brincar com outras crianças é ainda mais nítido. Normalmente, ela se isola e se fixa em uma única atividade, com ritualização de movimentos repetitivos. Outra característica é a dificuldade de seguir rotinas, além de apresentar hipo ou hiperatividade aos estímulos sensoriais.

Segundo o psiquiatra Mario Louzã, o autismo, propriamente dito, não é tratado com medicamentos. Estes são utilizados quando há outros sintomas associados ao autismo, como ansiedade, TDAH, depressão, transtorno obsessivo compulsivo, agitação, irritabilidade, distúrbios do sono, entre outros. Para cada situação, há uma medicação específica.

Sobre efeitos colaterais, depende do medicamento, da dose, da idade da criança e de outros fatores. Como são vários remédios de classes terapêuticas diferentes, fica difícil generalizar os efeitos colaterais. Também há indicação de psicofármacos para casos mais leves.

E como facilitar a integração do autista na sociedade? “Infelizmente, ainda há muito preconceito, principalmente por parte das crianças, que não têm o poder de compreensão de um adulto, e excluem o autista. Por incrível que pareça, há até mães e pais que evitam a amizade de seus filhos com as crianças portadoras do TEA, o que é uma triste ignorância”, afirma Mario Louzã.

Para quem tem filho autista, a melhor dica é motivá-lo a levar uma vida normal, na medida do possível. Incentive-o nas atividades, estimule-o a fazer tarefas em casa e, quando ele perceber suas próprias limitações, explique que as pessoas são diferentes, e que tem gente que consegue fazer certas coisas, e outras, não. Se for o caso, há escolas que têm maior preparo para integrar um autista em uma classe comum.

Mesmo quando ele já for maior e tiver ciência do seu autismo, nunca o deixe pensar que é incapaz ou inferior a outras pessoas. De acordo com o psiquiatra, o apoio da família é sempre o melhor tratamento para qualquer tipo de transtorno.


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 02/04/2019



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 02/04/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/04/02/02-de-abril-e-dia-mundial-de-conscientizacao-do-autismo-entenda-o-transtorno/

quinta-feira, 21 de março de 2019

Novo medicamento para depressão pós-parto é aprovado




A U.S. Food and Drugs Administration (FDA), agência americana para regulação de medicamentos, aprovou nesta terça (19) um novo fármaco para o tratamento da depressão pós-parto: o Zulresso (brexanolona) é indicado para uso intravenoso em mulheres adultas.
Brexanolona na depressão pós-parto

Estudos anteriores já haviam demonstrado a eficácia da brexanolona na depressão pós-parto. Para essa aprovação, a FDA analisou dois ensaios clínicos (um com depressão grave e outro com moderada) nos quais participantes receberam uma infusão intravenosa de 60 horas de brexanolona ou placebo. O follow-up foi de quatro semanas.

Em ambos estudos brexanolona demonstrou superioridade ao placebo na melhora dos sintomas depressivos no final da primeira infusão, também observada no final do período de 30 dias.

Disponibilização da brexanolona

Em um primeiro momento, o tratamento estará disponível apenas através de um programa restrito, que requer que o medicamento seja administrado por um profissional de saúde em uma unidade de saúde certificada. Entre os cuidados com a paciente está o monitoramento da sedação, perda súbita de consciência e oximetria de pulso.

Além disso, as pacientes sob tratamento devem ser aconselhadas a não dirigir, operar máquinas ou realizar outras atividades perigosas nas horas seguintes à infusão.

Reações adversas

As reações adversas mais frequentes incluem sonolência, boca seca e perda de consciência.
Depressão pós-parto

A depressão pós-parto é uma importante causa de morbidade materna, com grande relevância no âmbito da saúde pública. Além das consequências para a própria saúde, as síndromes depressivas que acometem mulheres nos primeiros meses após o parto podem afetar toda a família. A maioria das pessoas em risco são mães com história de depressão, eventos negativos de vida e ausência de apoio social.

Entre os sintomas mais comuns, estão:
Irritabilidade
Choro frequente
Sentimentos de desamparo e desesperança
Falta de energia e motivação
Desinteresse sexual
Alterações alimentares e do sono
Sensação de ser incapaz de lidar com novas situações
Queixas psicossomáticas
Cefaleia
Dores nas costas
Erupções vaginais
Dor abdominal

Depressão pós-parto: veja nova recomendação para prevenção da doença

Referências:
https://www.fda.gov/NewsEvents/Newsroom/PressAnnouncements/ucm633919.htm




Autor: Vanessa Thees
Fonte: PebMed
Sítio Online da Publicação: PebMed
Data: 21/03/2019
Publicação Original: https://pebmed.com.br/novo-medicamento-para-depressao-pos-parto-e-aprovado/

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Redes sociais elevam depressão entre meninas adolescentes, diz pesquisa

Uso excessivo de redes sociais pode causar depressão, conclui estudo divulgado em Londres

ABr





Meninas adolescentes são duas vezes mais propensas que os meninos a apresentar sintomas de depressão em conexão ao uso das redes sociais, segundo estudo do University College London (UCL) divulgado em Londres.

Ativistas pediram ao governo britânico que reconheça o risco de páginas como Facebook, Twitter e Instagram para a saúde mental dos jovens.

Uma em cada quatro meninas analisadas apresentou sinais clinicamente relevantes de depressão, enquanto o mesmo ocorreu com apenas 11% dos garotos, segundo o estudo. Os pesquisadores constaram que a taxa de depressão mais elevada é devido ao assédio online, ao sono precário e a baixa autoestima, acentuada pelo tempo nas mídias sociais.

Acesso internet celular

O estudo analisou dados de quase 11 mil jovens no Reino Unido. Os pesquisadores descobriram que garotas de 14 anos representam o agrupamento de usuários mais incisivos das mídias sociais – dois quintos delas as usam por mais de três horas diárias, em comparação com um quinto dos garotos.

Cerca de três quartos das garotas de 14 anos que sofrem de depressão também têm baixa autoestima, estão insatisfeitas com sua aparência e dormem sete horas ou menos por noite.

“Aparentemente, as meninas enfrentam mais obstáculos com esses aspectos de suas vidas do que os meninos, em alguns casos consideravelmente”, disse a professora do Instituto de Epidemiologia e Cuidados da Saúde do University College London, Yvonne Kelly, que liderou a equipe responsável pela pesquisa.

Depressão

O estudo também mostrou que 12% dos usuários considerados moderados e 38% dos que fazem uso intenso de mídias sociais (mais de cinco horas por dia) mostraram sinais de depressão mais grave.

Quando os pesquisadores analisaram os processos subjacentes que poderiam estar ligados ao uso de mídias sociais e depressão, eles descobriram que 40% das meninas e 25% dos meninos tinham experiência de assédio online ou cyberbullying.

Os resultados renovaram as preocupações com as evidências de que muito mais meninas e mulheres jovens apresentam uma série de problemas de saúde mental em comparação com meninos e homens jovens, e sobre os danos que os baixos índices de autoestima podem causar, incluindo autoflagelação e pensamentos suicidas.

Os pesquisadores pedem aos pais e responsáveis políticos que deem a devida importância aos resultados do estudo. “Essas descobertas são altamente relevantes para a política atual de desenvolvimento em diretrizes para o uso seguro das mídias sociais. A indústria tem que regular de forma mais rigorosa as horas de uso das mídias sociais para os jovens”, diz Kelly.

Uso excessivo das mídias sociais

A ministra adjunta para Saúde Mental e Cuidados Sociais, Barbara Keeley, afirmou que “esse novo relatório aumenta as evidências que mostram o efeito tóxico que o uso excessivo das mídias sociais tem na saúde mental de mulheres jovens e meninas […] e que as empresas devem assumir a responsabilidade pelo que ocorre em suas plataformas”.

Tom Madders, diretor de campanhas da instituição beneficente YoungMinds, diz que, embora sejam uma parte da vida cotidiana da maioria dos jovens e tragam benefícios, as redes sociais proporcionam uma “pressão maior” porque estão sempre disponíveis e fazem com que os jovens comparem “as vidas perfeitas de outros” com a sua própria.

*Com informações da Deutsche Welle (agência pública da Alemanha)



Por Agência Brasil*, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 07/01/2019





Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 07/01/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/01/07/redes-sociais-elevam-depressao-entre-meninas-adolescentes-diz-pesquisa/

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Neuromodulação ajusta desequilíbrios no cérebro para tratar de Parkinson a depressão



Em Medicina, a fama da eletricidade não é das melhores. A relação mais evocada entre ambas é a eletroconvulsoterapia, que ficou popularmente conhecida como “terapia de choque”. O nome carrega o estigma gerado pelo uso excessivo da terapia, ocorrido durante décadas em instituições psiquiátricas do mundo todo, para “tratar” indiscriminadamente os mais diversos transtornos mentais. Hoje já se sabe que a eletricidade tem recomendação específica para o tratamento de várias doenças.

O conhecimento humano sobre o uso terapêutico da eletricidade é antigo. Egípcios sabiam que o rio Nilo abrigava peixes peculiares que davam choque, e os utilizavam para tratar dores milhares de anos antes de Cristo. Conforme dominamos a eletricidade, seu uso foi sendo refinado e experimentado para tratamentos médicos. No início do século 20, a eletricidade foi aplicada de modo indistinto em hospitais psiquiátricos, mas no começo dos anos 1960, estudos mais aprofundados sobre o funcionamento do cérebro serviram para repensar seu emprego na Medicina.

Em muitos livros didáticos, é clássica a explicação sobre os conceitos básicos do sistema nervoso, utilizando a dor como exemplo mais simples: ao sofrermos um corte no dedo, nervos da região reconhecem o estímulo e enviam sinais que sobem pela medula espinhal até o cérebro, que por sua vez dispara a sensação de dor e envia sinais para que nos afastemos do objeto cortante. Segundo esse modelo, imaginamos um sinal que simplesmente vai e volta. Nossa capacidade de interferir nesse quadro, portanto, seria somente por meio da extirpação das fibras relacionadas à dor, o que a cessaria por completo, mas deturparia ou mesmo eliminaria a sensibilidade e a motricidade.



Um estudo que contribuiu muito para entender melhor o processamento da dor foi publicado em 1965, na revista “Science”. Chamada de “Teoria da Comporta”, a abordagem propunha que o caminho de transmissão da dor não seria uma via expressa, como o exemplo do corte no dedo faz parecer. Para começar, fibras nervosas diferentes captam estímulos diferentes. Algumas percebem dor e calor, por exemplo, enquanto outras registram sensações como toque ou vibração. Quando estímulos chegam à medula, encontram outros tipos de neurônios que teriam a capacidade de liberar ou não a passagem dos estímulos para o cérebro (daí o nome da teoria). Se dois estímulos de naturezas diferentes (como um de dor e outro de vibração, por exemplo) chegassem simultaneamente a esse “neurônio portão”, o acesso seria liberado somente para o estímulo da vibração, inibindo o de dor.

É claro que esse modelo ainda é muito simplificado e foi revisado várias vezes posteriormente, mas ele abriu a possibilidade de atuar na transmissão da dor sem ser pelo simples corte da fibra nervosa. É possível agir no sistema nervoso de forma a ajustar desequilíbrios, como os que fazem uma pessoa sentir dor em um membro amputado, ou pacientes com Parkinson apresentarem tremores involuntariamente. É possível modular o impulso nervoso.


CENTRO DE CONTROLE



Costumamos pensar no cérebro como um órgão apenas relacionado a atividades intelectuais, mas essa é uma percepção equivocada. Em última instância, está no cérebro a origem de praticamente todas as funções fisiológicas do ser humano. A técnica de neuromodulação parte desse princípio para tratar doenças tão diferentes como epilepsia e depressão. “O cérebro humano corresponde a 1,5% do nosso peso, mas gasta 20% do oxigênio inalado e 25% da glicose circulante. Ele é uma usina que precisa estar funcionando a todo vapor, mas de forma ordenada, pois tem que não só exercer suas funções, mas também realizá-las no tempo certo”, afirma o neurocirurgião Erich Fonoff, diretor-técnico do Parkinson Hoje e professor livre-docente e associado da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

O sinal que percorre os neurônios não é elétrico do início ao fim. Na maioria das vezes, a eletricidade precisa de contato para ser conduzida. Quando o sinal chega à ponta de um neurônio, ele precisa “saltar” para o próximo, pois existe um espaço entre cada célula. Nesse espaço, chamado de sinapse, a informação é transmitida não por eletricidade, mas por meio de substâncias químicas chamadas neurotransmissores. “Esses neuroquímicos são os que modulam de forma geral a função cerebral em todas as direções possíveis. Na alegria, na depressão, nos movimentos e nas informações que damos a nós mesmos internamente. Quando os rins precisam filtrar mais, por exemplo, há uma contração de artérias controlada por um impulso nervoso”, explica o dr. Antonio De Salles, neurocirurgião, chefe do HCor Neuro (Hospital do Coração de São Paulo) e professor emérito de neurocirurgia e radiação oncológica da Universidade da Califórnia (UCLA).


O cérebro humano corresponde a 1,5% do nosso peso, mas gasta 20% do oxigênio inalado e 25% da glicose circulante. Ele é uma usina que precisa estar funcionando a todo vapor, mas de forma ordenada, pois tem que não só exercer suas funções, mas também realizá-las no tempo certo.

A neuromodulação é um termo que abrange uma série de técnicas de atuação no sistema nervoso, e nem todas são cirúrgicas. É possível, por exemplo, aplicar pulsos magnéticos que atravessam o crânio e atingem o córtex cerebral. Contudo, nem sempre é necessário um estímulo elétrico, pode-se injetar um agente químico localmente ou na medula espinhal para modular uma função. “A vantagem é que eu posso ir ao local e modificar a química de uma região específica de forma a melhorar o sintoma de um paciente, em vez de ele tomar uma pílula que vai ter ação no organismo todo, com possíveis efeitos colaterais”, explica o dr. De Salles.

Ao estimular eletricamente uma determinada região do cérebro pode-se obter, por exemplo, maior ou menor produção de determinados neurotransmissores. Sabendo-se a que condições ou doenças essas substâncias químicas estão relacionadas, é possível corrigir exageros ou deficiências. É simples entendermos que um acidente vascular cerebral (AVC), ao atingir uma região que controla o movimento do braço esquerdo, pode deixar como sequela a perda do movimento daquele braço. Mas a paralisia ocorre porque o AVC é um evento descontrolado que provoca a morte do tecido cerebral. Se agirmos delicadamente na região, podemos, em princípio, ajustar somente determinada “desorganização” (no exemplo citado, a que provoca dor crônica no braço comprometido).

A atuação da neuromodulação, porém, é limitada pela necessidade de existência dos neurônios sobre os quais se irá trabalhar. “Imagine que você quer atravessar a avenida Paulista de uma ponta a outra, mas o asfalto está todo destruído e você não consegue passar. É como uma doença estrutural da via, como o efeito de um AVC, em alguns lugares não há via em que você possa atuar. Existem outros tipos de doenças que seriam como uma doença dos semáforos. O trânsito está horroroso porque os semáforos estão dessincronizados, mas a via está íntegra. Essas a gente consegue tratar”, esclarece o dr. Fonoff.

Embora em tese seja possível modular qualquer função cerebral, a neuromodulação ainda não consegue atuar em qualquer doença, mesmo quando as fibras nervosas estão íntegras. O exemplo do corte no dedo é usado para explicar o funcionamento básico do sistema nervoso justamente porque é dos processos mais primitivos que realizamos: há um estímulo de dor, o cérebro comanda o movimento para nos afastarmos. Da mesma forma, o movimento é fácil de explicar: queremos coçar a cabeça, o cérebro envia o sinal para contrairmos o cotovelo. Porque essas são funções mais simples, a neuromodulação inicialmente se concentrou em enfermidades relacionadas ao universo das dores crônicas e dos distúrbios do movimento, como a doença de Parkinson e o tremor essencial.


TRATAMENTO DA DOENÇA DE PARKINSON



Estima-se que haja cerca de 200 mil pessoas com Parkinson no Brasil. A doença causa uma série de sintomas, como lentificação e rigidez muscular, mas o mais associado à enfermidade são os tremores. Ela é mais incidente a partir dos 55 anos, mas pode surgir antes. O advogado Dilvio Martins tinha 40 anos quando começou a apresentar tremor no lado esquerdo do corpo. O sintoma era discreto, mas foi se intensificando no decorrer dos anos. “O diagnóstico é um tanto complexo porque o Parkinson pode ser confundido com outras doenças. Inicialmente, fui diagnosticado com tremor essencial, mas o quadro foi evoluindo até enfim eu ter o diagnóstico correto”, relata.


Em nossa experiência com estimulação de nervos periféricos para tratar depressão, conseguimos melhora em aproximadamente 95% dos pacientes. São pessoas que mudam a vida após a cirurgia.

A primeira linha de tratamento para Parkinson consiste em medicamentos, sendo a levodopa uma droga comumente usada. A medicação é eficaz e consegue retardar muito a progressão dos sintomas, mas não interrompê-los. Para alguém que começou a apresentar tremores cedo, como Dilvio, a perspectiva é que em algum momento os medicamentos não farão mais efeito. “Após dez anos tomando os medicamentos, eles praticamente deixaram de fazer efeito. Eu tomava a dose máxima para obter efeito mínimo. Não conseguia pegar minha filha no colo, dava passos curtos, não tinha força muscular. Eu tomava para atender um cliente, uma hora depois começava a passar o efeito. Aí você não pode deixar o cliente perceber, tinha contrações, câimbras, precisava ficar suportando a dor. Era um tormento, só quem tem pode imaginar”, recorda.

Ao chegar nesse ponto, Dilvio teve a indicação de fazer a cirurgia de neuromodulação. Recebeu sedação e anestesia local para que fosse fixado o arco metálico que garantiria que sua cabeça permanecesse imóvel, algo essencial para uma cirurgia tão precisa. Exames combinados geram imagens do cérebro do paciente, com coordenadas que mapeiam cada milímetro cúbico e permitem analisar o caminho que será percorrido pelos eletrodos. No caso de Dilvio, eram dois, um em cada hemisfério. “A abertura no crânio tem de seis a oito milímetros. Por ela passamos um eletrodo que capta a atividade cerebral, e por meio da leitura desse sinal nós conseguimos saber onde estamos no cérebro. É um controle fino. A parte de implantação dos eletrodos é a mais importante, dura cerca de 2h30”, afirma o dr. Fonoff.

Na última etapa, que leva de 40 minutos a uma hora, é implantado o marca-passo, dispositivo que emite os pulsos elétricos e permite o ajuste de acordo com as necessidades do paciente. Nessa fase é usada anestesia geral, pois o aparelho – e os fios que o conectam aos eletrodos – é implantado sob a pele no tórax, logo abaixo da altura da clavícula. Existe uma série de parâmetros que definem como serão o pulso elétricos, mas não é preciso tentativa e erro para encontrar o melhor ajuste em cada caso. “Frequência, largura do pulso, intensidade, combinação entre os contatos. Multiplicando tudo, a probabilidade de acertar seria quase a de ganhar na Mega Sena. Existem protocolos bem conhecidos sobre o quanto se precisa modular de acordo com o quadro do paciente”, diz o dr. Fonoff.

Cirurgias no cérebro sempre causam certo temor, mas uma operação desse tipo é considerada bastante segura. “Se havia um risco de sangramento de 2% a 3% nos anos 1960, hoje esse risco caiu para 0,4% ou 0,3%. Porque conseguimos fazer a trajetória do eletrodo de forma precisa, sem passar por nenhum vaso. O outro risco é de infecção, mas esse também hoje é de cerca de 2% a 3%. É bem mais segura que uma cirurgia aberta de abdômen, por exemplo”, afirma o dr. De Salles.

“Você acorda praticamente curado. Acordei já pedindo para a enfermeira deixar eu ir para o quarto”, lembra o advogado, hoje com 55 anos. “A cada três ou quatro meses eu retorno só para checar o ajuste do aparelho, mas é coisa simples”, completa. Além dos retornos de rotina, são necessários cuidados com a bateria do aparelho. Existem modelos não recarregáveis que duram por volta de cinco anos. Os recarregáveis podem durar mais, até 25 anos, mas precisam de recargas semanais utilizando um aparelho externo que é carregado na tomada e colocado sobre a pele, próximo do marca-passo. A escolha é feita juntamente com o médico.

Os índices de melhora são bastante altos. Cerca de 95% dos parkinsonianos têm melhora significativa da qualidade de vida. Para portadores de epilepsia, há de 60% a 70% de melhora no número de crises. “Em nossa experiência com estimulação de nervos periféricos para tratar depressão, conseguimos melhora em aproximadamente 95% dos pacientes. São pessoas que mudam a vida após a cirurgia”, afirma o dr. De Salles.


LIMITAÇÕES



Por mais que a neuromodulação seja capaz de minimizar ou até fazer os sintomas desaparecerem, ela não constitui uma cura. “Essa técnica permite a modulação de um cérebro que sofre com uma doença de base. Essa doença pode ter contribuição de fatores genéticos e de outras naturezas que em conjunto provocam os sintomas. Não é uma panaceia que cura tudo com estímulo. É preciso um tratamento contínuo”, esclarece o médico do HCor.

Embora seja extremamente eficaz, a cirurgia só é indicada mediante alguns critérios. Geralmente, seus resultados são melhores após cinco anos do diagnóstico, quando os medicamentos também podem passar a não dar conta de controlar os sintomas. Má tolerância aos efeitos colaterais da medicação, que incluem principalmente náuseas e sonolência, também pode sinalizar encaminhamento para a cirurgia de neuromodulação. Porém, mesmo em casos como esses ainda há uma série de desafios para ampliar a oferta do procedimento.

No Brasil, a cirurgia é usada mais frequentemente para tratar Parkinson, que seguido do tremor essencial. Somente os aparelhos para tais operações custam cerca de 100 mil reais. Tudo o que envolve a cirurgia pode sair por cerca de 150 mil. No SUS, há uma cota limitada de dispositivos, mas essa não é a principal limitação. Mesmo para os tratamentos melhor estabelecidos, como os de Parkinson, tremor essencial e dores crônicas, é necessário um médico que está entre os que exigem maior tempo de formação e treinamento. Um neurocirurgião habilitado para realizar uma cirurgia de neuromodulação pode demorar de 15 a 20 anos para ser formado.

Além do custo e da especialização dos profissionais, a neuromodulação enfrenta seus próprios desafios. Expandir a técnica para outras doenças esbarra na complexidade de enfermidades que vão além dos distúrbios de movimento ou de desequilíbrios químicos mais simples, como é o caso da depressão. Ainda assim, a área caminha para ultrapassar essas barreiras. “Estamos aumentando conhecimento para a atuar cada vez mais em zumbido, anorexia nervosa, TOC e controle do apetite”, afirma o dr. Fonoff.

Entre os novos campos de estudo, o da obesidade é um dos que mais vem recebendo atenção. A primeira dificuldade é a multiplicidade de causas possíveis. Ela pode ser fruto de um problema endócrino, caso em que a neuroestimulação pode ajudar bastante. Contudo, há casos em que também há um componente comportamental, e aí a forma de atuação fica mais complexa. “Em um estudo, conseguimos pegar um paciente com 160 kg e fazê-lo chegar a 100 kg. Porém, outros pacientes não apresentaram a mesma resposta justamente porque tinham um fator emocional. Então, se você aumenta o metabolismo deles para gastar mais energia, eles podem comer mais e compensar. Esse fator constitui um sistema extremamente complexo, mas cada vez mais aprendemos onde atuar no cérebro para tratar também esse tipo de problema”, afirma De Salles.

Os estudos na área avançam para ampliar o leque de distúrbios que possam se beneficiar da técnica. Resta saber quantas pessoas terão acesso a ela.


O site Parkinson Hoje disponibiliza uma série de cartilhas úteis e gratuitas para pacientes com Parkinson ou tremor essencial. Uma delas é específica sobre a cirurgia descrita nesta matéria. Consulte clicando aqui.


Sobre o autor: Luiz Fujita Jr
Jornalista, editor do Portal Drauzio Varella e criador do podcast Entrementes, sobre saúde mental. @luizfujitajr




Autor: Luiz Fujita Jr
Fonte: Drauzio Varella
Sítio Online da Publicação: Drauzio Varella
Data: 21/08/2018
Publicação Original: https://drauziovarella.uol.com.br/reportagens/neuromodulacao-ajusta-desequilibrios-no-cerebro-para-tratar-de-parkinson-a-depressao/

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Como a depressão na gravidez afeta a saúde e o comportamento dos bebês, segundo pesquisa inédita


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Segundo pesquisa do King's College London, bebês de mulheres que tiveram depressão durante a gravidez são mais sensíveis ao estresse

A gravidez costuma ser associada, no imaginário social, a um período de felicidade. O mar de fotos da "doce espera" que costuma inundar as redes sociais reforça essa ideia. Mas a cobrança pelo estado de alegria pode acabar silenciando mulheres que, na verdade, estão lutando contra a depressão. E o sofrimento durante a gestação afeta tanto as mães quanto os bebês, fazendo com que nasçam mais sensíveis ao estresse.

É o que mostra uma pesquisa inédita a que a BBC News Brasil teve acesso, do Instituto de Psiquiatria e Neurociência do King's College London, no Reino Unido. O estudo completo foi publicado nesta sexta (20) na revista científica Psychoneuroendocrinology.

Os pesquisadores acompanharam 106 mulheres grávidas a partir da 25ª semana de gestação, sendo que 49 delas foram diagnosticadas com depressão e não tomaram medicamento para tratar a doença.

Elas tiveram amostras de sangue e saliva coletadas, para verificar se apresentavam sintomas clínicos da doença, como inflamações e maior produção de cortisol - hormônio associado à resposta ao estresse.

Após os partos, os cientistas monitoraram tanto o comportamento dos bebês quanto a liberação de cortisol. Os testes foram feitos aos seis dias de vida, aos oito meses e aos 12 meses.
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A primeira descoberta foi que o período de gestação das mulheres com depressão é mais curto. Do grupo observado, as grávidas com depressão tiveram os filhos, em média, oito dias antes das que não tinham a doença.

Mas o que mais impressionou foi o efeito do sofrimento neonatal nos bebês.
Bebês mais sensíveis

Os bebês de mães que tiveram depressão durante a gravidez se mostraram mais hiperativos, chorosos e produziram cortisol em circunstâncias que as demais crianças encararam com normalidade.

Essa diferença no comportamento foi verificada até em bebês com menos de uma semana de vida.

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Os bebês de mães que tiveram depressão durante a gravidez se mostraram mais hiperativos, chorosos e produziram cortisol em circunstâncias que as demais crianças encararam com normalidade

"Em termos de comportamento, no sexto dia após o nascimento, os bebês com mães que tinham depressão eram mais hiperativos e reativos a som, luz e frio. E era mais difícil consolá-los e acalmá-los", disse à BBC News Brasil o professor do King's College London Carmine Pariante, um dos autores da pesquisa.

Aos dois meses, os bebês tiveram as salivas coletadas para medir o nível de cortisol. Quando eles completaram um ano e tomaram a primeira vacina, pesquisadores novamente coletaram saliva, para comparar com a amostra anterior.

Descobriram que as crianças de mulheres que tiveram depressão neonatal liberaram muito mais cortisol que as demais após a vacina. Ou seja, esses bebês se estressaram muito mais que os outros diante da experiência da primeira injeção.

"Bebês nascidos de mães saudáveis não revelavam mudança no cortisol quando recebiam a injeção. Não era estressante para eles. Mas os bebês nascidos de mães com depressão produziam cortisol ao tomar a injeção, o que demonstra que aquela situação era estressante para eles e não para os outros", diz Pariante.

O cortisol é um hormônio liberado em situações percebidas pelo corpo como de ameaça ou grande desconforto.

"A liberação do cortisol em si não é ruim, porque ele é uma resposta do corpo ao estresse. Ele dá energia aos músculos e eleva a concentração do cérebro", explica o professor.

"Mas o resultado da pesquisa mostra que os bebês de mães que tiveram depressão na gravidez são particularmente sensíveis ao estresse. Uma situação que seria normal para outros bebês pode ser difícil para esses bebês, e eles reagem ativando a resposta ao estresse."

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Um dos testes avaliou que os bebês de mães que tiveram depressão neonatal apresentavam reação mais negativa a alterações na luz e som
Risco de desenvolver problemas psicológicos

Segundo o professor, os sinais de estresse presentes no sangue da gestante, como a liberação de cortisol, cruzam a placenta e passam para o sangue do bebê, influenciando no sistema de resposta da criança a situações desconfortáveis.

"O bebê identifica o ambiente de vida da mãe como estressante e organiza a sua própria resposta ao estresse com base nisso", afirma o pesquisador.

O que preocupa na sensibilidade maior ao estresse é o risco de essas crianças desenvolverem problemas psicológicos ou depressão no futuro, ao lidarem com problemas cotidianos ou situações de sofrimento, como perda de familiares, bullying, e frustrações acadêmicas e profissionais.

"Se você imagina a situação daqui a 10 anos, esses bebês, quando forem crianças ou adolescentes, podem ser mais sensíveis ao ambiente externo", avalia Pariante.

"E, se alguma circunstância trágica ocorrer ou se eles se tornarem alvo de bullying, pode ser que sejam mais sensíveis a essas mudanças no ambiente e desenvolvam um problema de saúde."
Tratamento

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Pesquisadores afirmam que é importante que gestantes com depressão procurem tratamento

De acordo com o professor de psiquiatria, pelo menos uma em 10 mulheres grávidas sofrem de depressão. Ele afirma que a principal mensagem da pesquisa do King's College London, financiada pelo NIHR Maudsley Biomedical Research Centre, é que é importante que as gestantes busquem tratamento.

Para o pesquisador, os tabus sobre depressão e a romantização da gravidez dificultam a procura por ajuda.

"Existe uma pressão da sociedade de que a gravidez deve ser um momento de felicidade. Mas a verdade é que muitas gestantes estão deprimidas e acabam não buscando ajuda", diz.

"Esse artigo mostra que a depressão deve ser reconhecida e tratada, não apenas pelo bem da mãe, mas também pela saúde do bebê, para que se torne uma criança e adulto mais saudável."

O pesquisador reconhece, porém, que faltam estudos que apontem com maior segurança qual o melhor tratamento contra a depressão durante a gestação. Algumas pesquisas indicam que antidepressivos podem alterar o comportamento dos bebês, mas Pariante ressalva que é difícil saber ao certo se o efeito é decorrente do remédio ou da depressão em si.

"Muitas das consequências inicialmente associadas aos antidepressivos são hoje explicados pela depressão em si ou pelo fato de que as algumas mulheres deprimidas não fazem o pré-natal corretamente, podem estar bebendo, fumando, ou tomando mais medicamentos vendidos em farmácia sem prescrição médica", afirma.

Ele destaca que tratamentos não medicamentosos também podem, dependendo do caso, ajudar no combate à depressão durante a gestação.

"Para casos mais graves, antidepressivos são indicados. Mas há tratamentos psicológicos e intervenções nutricionais que podem trazer benefícios, como suplemento de Ômega 3 para mulheres com depressão", menciona.

"A decisão sobre o tratamento tem que ser bem informada, para que mãe e médico cheguem à alternativa considerada mais adequada."




Autor: Nathalia Passarinho
Fonte: BBC News Brasil em Londres
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data de Publicação: 19/07/2018
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-44879698