Mostrando postagens com marcador cérebro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cérebro. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Como falar outras línguas mexe com nosso cérebro



CRÉDITO,GETTY IMAGES

Estou na fila da padaria que frequento em Paris, pedindo desculpas ao atendente. Ele está totalmente confuso. Acabou de perguntar quantas baguetes eu queria e, completamente sem querer, respondi em mandarim, em vez de francês.

Estou igualmente perplexa: minha língua principal é o inglês, e não uso o mandarim devidamente há anos. No entanto, aqui, neste cenário mais parisiense impossível, o mandarim resolveu se reafirmar.

Quem fala mais de uma língua geralmente domina os idiomas que conhece com facilidade. Mas, às vezes, podem ocorrer deslizes acidentais. E a ciência por trás de por que isso acontece está revelando perspectivas surpreendentes sobre como nossos cérebros funcionam.

As pesquisas sobre como as pessoas multilíngues fazem malabarismo com mais de um idioma em suas mentes são complexas, e às vezes, contraintuitivas.


O que acontece é que quando um indivíduo multilíngue quer falar, os idiomas que ele conhece podem estar ativos ao mesmo tempo, mesmo que apenas um seja usado.

Esses idiomas podem interferir uns com os outros, se intrometendo, por exemplo, na fala quando você não espera. E essas interferências podem se manifestar não apenas em lapsos de vocabulário, mas até mesmo na gramática ou no sotaque.


"Pelas pesquisas, sabemos que, sendo bilíngue ou multilíngue, sempre que você fala, todos os idiomas que você conhece são ativados", diz Mathieu Declerck, pesquisador da Universidade Livre de Bruxelas, na Bélgica.

"Por exemplo, quando você quer dizer 'dog' ("cachorro", em inglês) como um bilíngue de francês-inglês, não apenas a palavra 'dog' é ativada, como também sua tradução equivalente, 'chien' ("cachorro", em francês), também é ativada."

Dessa forma, a pessoa que está falando precisa ter algum tipo de processo de controle de linguagem. Se você pensar bem, a capacidade dos indivíduos bilíngues e multilíngues de separar os idiomas que aprenderam é notável.

A forma como fazem isso é normalmente explicada por meio do conceito da inibição — uma supressão das línguas não relevantes.

Quando você pede a um voluntário bilíngue para dizer o nome de uma cor que aparece em uma tela em determinado idioma, e depois o nome da cor seguinte em outro idioma, é possível medir picos de atividade elétrica em partes do cérebro responsáveis pela linguagem e atenção.

Mas quando esse sistema de controle falha, intrusões e lapsos podem ocorrer. Por exemplo, a inibição insuficiente de um idioma pode fazer com que ele "apareça" e se intrometa quando você deveria estar falando em uma língua diferente.



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Em vez de ativar e desativar diferentes idiomas, eles estão sempre ativos no nosso cérebro, e o idioma 'indesejado' é inibido

O próprio Declerck, que é belga, está acostumado a misturar idiomas acidentalmente. Seu repertório linguístico inclui holandês, inglês, alemão e francês.

Quando trabalhava na Alemanha, a viagem habitual de trem que fazia para voltar para casa na Bélgica passava por várias regiões com idiomas diferentes — um verdadeiro treino para suas habilidades de alternância de idioma.

"A primeira parte era em alemão, e eu entrava em um trem belga em que a segunda parte era em francês", diz ele.

"E depois, quando você passa por Bruxelas, eles mudam o idioma para holandês, que é minha língua nativa. Então, neste período de três horas, toda vez que o cobrador vinha, eu tinha que trocar de idioma."

"Eu sempre respondia no idioma errado, de alguma forma. Era simplesmente impossível acompanhar."

Na verdade, cenários de troca de idiomas — como esse do trem, mas em laboratório — são frequentemente usados ​​por pesquisadores para aprender mais sobre como pessoas multilíngues dominam os idiomas.

E os erros podem ser uma ótima maneira de compreender melhor como usamos e dominamos os idiomas que sabemos.

Tamar Gollan, professora de psiquiatria da Universidade da Califórnia em San Diego, nos EUA, estuda há anos o domínio da linguagem em indivíduos bilíngues. E sua pesquisa muitas vezes levou a descobertas contraintuitivas.

"Acho que talvez uma das coisas mais singulares que vimos em indivíduos bilíngues quando eles misturam idiomas é que, às vezes, parece que inibem tanto a língua dominante que, na verdade, acabam sendo mais lentos para falar em certos contextos", diz ela.

Em outras palavras, a língua dominante de uma pessoa multilíngue pode sofrer um impacto maior em certos cenários.

Por exemplo, na tarefa de nomear as cores, descrita anteriormente, pode levar mais tempo para um participante lembrar o nome de uma cor no seu primeiro idioma quando estava sintonizado no segundo idioma antes, em comparação com a situação inversa.

Em um de seus experimentos, Gollan analisou as habilidades de alternância de idioma de pessoas bilíngues em espanhol-inglês, fazendo-as ler em voz alta parágrafos que estavam apenas em inglês, apenas em espanhol, e parágrafos que misturavam aleatoriamente inglês e espanhol.

Os resultados foram surpreendentes. Mesmo que estivessem com os textos bem ali na frente deles, os participantes ainda cometeriam "erros de intrusão" ao ler em voz alta — dizendo acidentalmente, por exemplo, a palavra espanhola "pero" (que significa "mas"), em vez da palavra correspondente em inglês "but".

Esse tipo de erro acontecia quase exclusivamente quando estavam lendo em voz alta os parágrafos mistos, o que exigia alternar entre os idiomas.

O mais surpreendente foi que uma grande proporção desses erros de intrusão não eram palavras que os participantes haviam "pulado".

Por meio do uso da tecnologia de rastreamento ocular, Gollan e sua equipe descobriram que esses erros eram cometidos mesmo quando os participantes olhavam diretamente para a palavra em questão.

E embora o inglês fosse a língua principal da maioria dos participantes, eles cometeram mais erros de intrusão com palavras em inglês do que com as palavras que deviam dizer em espanhol, idioma que não dominavam tanto — algo que, segundo Gollan, é quase como uma inversão do domínio do idioma.

"Acho que a melhor analogia é imaginar que há uma condição na qual você de repente se torna melhor em escrever com sua mão não dominante", diz ela.

"Chamamos isso de dominância invertida, e estamos dando grande importância a isso, porque quanto mais penso sobre isso, mais percebo o quão único e louco isso é."

Isso pode acontecer, inclusive, quando estamos aprendendo uma segunda língua — quando os adultos estão imersos no novo idioma, podem achar mais difícil acessar as palavras na sua língua nativa.

De acordo com Gollan, os efeitos da dominância invertida podem ser particularmente evidentes quando os bilíngues alternam entre os idiomas em uma mesma conversa.

Ela explica que, ao misturar idiomas, os multilíngues fazem uma espécie de malabarismo, inibindo o idioma mais forte para equilibrar as coisas — e, às vezes, vão longe demais na direção errada.

"Os bilíngues tentam tornar as duas línguas igualmente acessíveis, inibindo a língua dominante para facilitar a alternância", diz ela. "Mas, às vezes, eles 'excedem' nessa inibição, e acabam falando mais devagar do que na língua que não é dominante."



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Na hora que precisamos alternar rapidamente entre os idiomas, é quando a maioria das 'interferências linguísticas' pode ocorrer, afetando não apenas as palavras, mas a pronúncia e a gramática

Os experimentos conduzidos por Gollan também se depararam com a dominância invertida em outra área surpreendente: a pronúncia.

Os participantes, às vezes, liam uma palavra no idioma certo, mas com o sotaque equivocado. E, novamente, isso acontecia mais com as palavras em inglês (idioma dominante) do que em espanhol.

"Às vezes, os bilíngues falam a palavra certa, mas com o sotaque errado, o que é uma dissociação realmente interessante que indica que o controle da linguagem está sendo aplicado em diferentes níveis de processamento", diz Gollan.

"E há uma separação entre a especificação do sotaque e a especificação de qual léxico você vai extrair as palavras."

Até mesmo o uso da gramática na nossa língua nativa pode ser afetado de maneiras surpreendentes, especialmente se você estiver muito imerso em um ambiente linguístico diferente.

"O cérebro é maleável e adaptável", explica Kristina Kasparian, escritora, tradutora e consultora que estudou neurolinguística na Universidade McGill de Montreal, no Canadá.

"Quando você está imerso em um segundo idioma, isso afeta a maneira como você percebe e processa seu idioma nativo."

Como parte de um projeto mais amplo feito para sua pesquisa de doutorado, Kasparian e seus colegas realizaram testes com pessoas cujo italiano era a língua nativa e que haviam migrado para o Canadá e aprendido inglês quando adultos.

Todos haviam declarado que seu italiano estava ficando enferrujado e que não o usavam muito no dia a dia.

Os pesquisadores mostraram aos participantes uma série de frases em italiano e pediram a eles para avaliar o quão aceitável eram gramaticalmente.

Ao mesmo tempo, a atividade cerebral deles também foi medida por meio de um método de eletroencefalografia (EEG). As respostas deles foram comparadas às de um grupo de italianos monolíngues que vivia na Itália.



CRÉDITO,GETTY IMAGES

"Havia quatro tipos diferentes de frases, e duas delas eram aceitáveis ​​tanto em italiano quanto em inglês, e duas delas eram aceitáveis ​​apenas em italiano", diz Kasparian.

Os migrantes italianos eram mais propensos a rejeitar frases corretas em italiano como não gramaticais, se não correspondessem à gramática correta do inglês.

E quanto maior a proficiência em inglês, quanto mais tempo moravam no Canadá, e quanto menos usavam o italiano, maior a probabilidade de acharem que as frases corretas em italiano estavam incorretas gramaticalmente.

Eles também apresentaram padrões diferentes de atividade cerebral em comparação com os italianos que viviam na Itália.

E os pesquisadores descobriram que, quando apresentados a frases que eram gramaticalmente aceitáveis ​​apenas em italiano (mas não em inglês), os italianos que moravam no Canadá apresentavam padrões de atividade cerebral diferentes dos que viviam na Itália.

Na verdade, sua atividade cerebral era mais consistente com o que seria esperado de falantes de inglês, diz Kasparian, sugerindo que seus cérebros estavam processando as frases de maneira diferente de seus homólogos monolíngues na Itália.

O inglês depende mais da ordem das palavras do que o italiano, explica Kasparian. E os migrantes confiavam mais nas pistas gramaticais do inglês, diz ela, embora estivessem lendo em italiano.

"Até o primeiro idioma pode mudar, mesmo que seja um idioma que você usou todos os dias durante a maior parte de sua vida", afirma.

É claro que a maioria das pessoas multilíngues é capaz de manter a gramática de sua língua nativa sem problema.

Mas o estudo de Kasparian, assim como outros feitos como parte de seu projeto de pesquisa mais amplo, mostram que nossas línguas não são estáticas ao longo da vida, mas mutáveis, competindo ativamente e interferindo umas com as outras.



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Ser multilíngue também pode ter vantagens, como ser capaz de realizar multitarefas melhor, de acordo com alguns estudos

Navegar por essas interferências talvez seja parte do que torna difícil para um adulto aprender um novo idioma, especialmente se ele cresceu monolíngue.

"Toda vez que você fala esse novo idioma, é como se o outro idioma dissesse: 'Ei, estou aqui, pronto'", explica Matt Goldrick, professor de linguística da Universidade Northwestern, em Illinois, nos EUA.

"Então o desafio é que você tem que suprimir essa coisa que é tão automática e tão fácil de fazer, em favor dessa coisa que é incrivelmente difícil de fazer quando você está aprendendo (um idioma) pela primeira vez."

"Você está tendo que aprender a puxar as rédeas de algo que você normalmente nunca tem que inibir, que apenas sai naturalmente, certo? Não há razão para conter. E acho que essa é uma habilidade muito difícil que alguém tem que desenvolver, e é parte do motivo pelo qual é tão difícil."

Uma coisa que pode ajudar? Ficar imerso no ambiente da língua estrangeira.

"Você está criando um contexto no qual está retendo fortemente essa outra língua e está praticando bastante, retendo essa outra coisa, de modo que dá espaço para a outra (nova) língua se tornar mais forte", diz Goldrick.

"E depois, quando você voltar dessa experiência de imersão, provavelmente estará em uma posição na qual será capaz de gerir melhor essa competição", acrescenta.

"Isso nunca vai acabar, essa competição nunca vai acabar, você só fica melhor em dominá-la."

Esse domínio é certamente algo em que os multilíngues tendem a ter muita prática.

Muitos pesquisadores argumentam que isso oferece a eles certas vantagens cognitivas — mas é importante observar que ainda não existe um consenso, já que outros afirmam que suas próprias pesquisas não mostram evidências confiáveis de uma vantagem cognitiva bilíngue.

Seja lá como for, o uso das línguas é sem dúvida uma das atividades mais complexas que os seres humanos aprendem a fazer. E ter que dominar vários idiomas tem sido associado a benefícios cognitivos em muitos estudos, dependendo da tarefa e da idade.

Alguns estudos mostraram que pessoas bilíngues apresentam um desempenho melhor em tarefas de controle executivo — por exemplo, em atividades em que os participantes precisam se concentrar em informações contraintuitivas.

Falar vários idiomas também tem sido associado a um retardo no aparecimento dos sintomas de demência.

E, claro, o multilinguismo oferece muitos benefícios óbvios que vão além do cérebro, inclusive o benefício social de poder falar com muita gente.

Mas, embora meu multilinguismo possa ter me oferecido algumas vantagens, não poupou meus rubores.

Um tanto envergonhada, ainda não voltei àquela padaria desde meu incidente linguístico.

Talvez mais idas à padaria sejam necessárias então — tudo em nome da prática do domínio do idioma, é claro.






Autor: Nicole Chang
Fonte: bbc
Sítio Online da Publicação: bbc
Data: 04/08/2022
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-62290636

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Qual o papel do cérebro e do humor em nossa resposta imune



CRÉDITO,GETTY IMAGES

"Passei os últimos 30 anos me preocupando sobre como o cérebro interage com o sistema imunológico e como o sistema imunológico interage com o cérebro", diz Daniel Anthony, professor de neuropatologia experimental da Universidade de Oxford, na Inglaterra, à BBC Mundo.


Jonathan Kipnis, professor de patologia e imunologia da Universidade de Washington em St. Louis, Estados Unidos, teve a mesma preocupação.

"Minha obsessão é entender como o cérebro e o sistema imunológico se comunicam na saúde e na doença."

No Oriente Médio, Asya Rolls, pesquisadora e professora do Technion-Israel Institute of Technology, também busca respostas há algum tempo.

"Intuitivamente estamos cientes de que o cérebro afeta a imunidade", diz o site do laboratório que ele lidera.

E é isso, diz ele à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC), "em geral, supõe-se que o cérebro está envolvido em tudo o que acontece no corpo porque é o regulador central de todas as reações".

Mas a verdade é que, segundo Kipnis, "só agora estamos aprendendo como os dois sistemas interagem".

"É muito emocionante, mas ainda estamos no começo", diz.


Cristina Koppel, neurologista do Kings College Hospital e professora do Imperial College London, na Inglaterra, acredita que "da mesma forma que estamos começando a entender as redes sociais e que o mundo está muito mais conectado, a mesma coisa acontece com a complexidade de uma rede de mensagens que o cérebro e o sistema imunológico transmitem um ao outro".


Com a ajuda desses especialistas, exploramos o que se sabe sobre o papel do cérebro na resposta imune.

O comportamento

A equipe da BBC News Brasil lê para você algumas de suas melhores reportagens


"No mundo clínico, no hospital, vemos muitos pacientes com problemas neuroimunológicos", disse Koppel à BBC Mundo.


"E, na academia, sabemos que ambos os sistemas se comunicam - os mesmos transmissores podem falar com células imunes e células neuronais, mas ainda temos muito a descobrir."


Anthony concorda que a relação entre o cérebro e o sistema imunológico é de mão dupla.


Se pegarmos gripe ou covid-19, muitos de nós vão se sentir mal e mudar os comportamentos, que são descritos em pesquisas como "estereotipados".


"Você interrompe seu sono e em seguida passa a não querer ver as pessoas ou socializar. Assim, começa a exibir toda uma série de comportamentos que são muito característicos de algo chamado 'comportamento de doença'."


"Você se torna anedônico, ou seja, deixa de fazer as coisas que gosta, as atividades hedonistas, como beber, comer doce, se divertir."


Do ponto de vista evolutivo, explica o especialista, isso traz dois benefícios:


"Talvez ajude você a se recuperar da infecção. Mas, além disso, também envia um sinal para as pessoas ao seu redor ."


E isso é algo que você vê entre os animais, nos mamíferos em particular: quando estamos doentes, o cérebro altera nosso comportamento e começamos a priorizar o que fazemos.


"Quando você está resfriado, não começa a resolver problemas matemáticos complexos porque está cansado", diz Kipnis.


"Um animal se retira porque não quer infectar o rebanho, você também se afasta, não quer infectar a Terra".

O estresse


Hans Selye foi o médico e fisiologista austro-húngaro que cunhou o termo estresse na década de 1940.



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

"Se estou estressado, ocorrem mudanças nos neurotransmissores do cérebro"


Ele mostrou que o estresse social e ambiental, além da infecção, também altera nossos comportamentos e afeta a maneira como o sistema imunológico funciona.


"É uma resposta cíclica na qual, se estou estressado, ocorrem mudanças nos neurotransmissores do cérebro, o que pode levar a um aumento do fluxo de informações para fora do cérebro e alterar a maneira como o sistema imunológico funciona", indica Anthony.

No Reino Unido, a cidade de Salisbury foi palco de uma série de experimentos no final dos anos 1980 e início dos anos 1990. Lá, um grupo de voluntários saudáveis ​​foi infectado com vírus do resfriado, com o objetivo de estudar a rapidez com que desenvolveram a doença e buscar tratamentos eficazes.

Os participantes receberam um questionário e uma das perguntas era: "Você está muito ou pouco estressado?"

Ao analisar as respostas e a taxa de infecção, os pesquisadores concluíram que as pessoas que sofreram muito estresse tinham 20% mais chances de pegar um resfriado.

"Fundamentalmente, o que estamos dizendo é que o nível de estresse, neste caso social e ambiental, altera a maneira como seu sistema imunológico se comporta e o torna mais suscetível a esses resfriados".

O elemento hormonal

Estudos semelhantes foram realizados ao longo dos anos e acredita-se que é a ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrena (HHA) que faz com que o sistema imunológico seja alterado pelo estresse.

Esse eixo cobre uma área do cérebro, o hipotálamo, e ativa parte do sistema neuroendócrino.

"É um processo de várias etapas: o cérebro envia sinais para as glândulas supra-renais, que produzem cortisol, e mais cortisol pode afetar a função das células imunológicas".



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

"O cérebro envia sinais para as glândulas supra-renais, que produzem cortisol, e mais cortisol pode afetar a função das células imunológicas"

"Essa é uma maneira pela qual o cérebro, por meio de hormônios, pode afetar o comportamento das células imunológicas: níveis muito altos de cortisol suprimem o sistema imunológico".

"Além disso, os neurônios que liberam neurotransmissores localmente no baço e na medula óssea podem alterar a maneira como as células imunológicas se comportam".

Qualquer incompatibilidade entre o sistema nervoso simpático (um dos ramos do sistema nervoso autônomo) e o eixo HPA pode levar esses sistemas às vezes a "trabalhar um contra o outro e torná-lo mais suscetível a infecções".

Uma das explicações para o estresse crônico ser ruim é porque ele faz com que seu sistema nervoso simpático não funcione corretamente, e entre "mais ativação" do eixo HPA, mais cortisol, o que o torna vulnerável à infecção.

A hipótese da memória

"Acho que, no corpo, o cérebro tem controle sobre o sistema imunológico", diz Kipnis, embora insista que eles estão apenas no começo da compreensão de como as duas partes interagem.

"Quando lidamos com um vírus ou uma infecção, o cérebro lembra como reagimos no passado. Por exemplo, ele diz ao sistema imunológico: já lidamos com isso antes e é isso que devemos fazer?".

"Esta é a pergunta de US$ 100 milhões", responde com um sorriso. "Não tenho uma resposta categórica para isso. Mas acho que o cérebro precisa se lembrar."

Ambos os sistemas trabalham com memórias: o cérebro nos ajuda a relembrar o passado e o sistema imunológico também se lembra, à sua maneira. Um exemplo disso são as imunizações.

"A vacina basicamente constrói uma memória imunológica artificial. Você diz ao sistema imunológico: se você vir esse patógeno, faça esse monte de anticorpos para poder neutralizá-lo." Assim, quando o sistema imunológico é exposto a esse patógeno pela segunda vez, ele reage.

Mas como é que o sistema imunológico de repente se torna tão eficiente e responde tão rapidamente?

"O que propomos é que talvez alguma memória imunológica também esteja sendo gravada em algum lugar do cérebro."

"E, quando o patógeno invade o corpo, o cérebro sabe porque é informado porque há uma quebra de barreiras através de nossa pele, nariz ou outra via de entrada que o patógeno toma, e ativa esse sistema imunológico específico".

No entanto, ele enfatiza:  isso é apenas uma hipótese . "Acho que ninguém provou isso."



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

"Os neurônios que liberam neurotransmissores localmente no baço e na medula óssea podem alterar a maneira como as células imunológicas se comportam"

O que essa ideia levanta é que, se o cérebro controla o sistema imunológico, "provavelmente algumas das memórias imunológicas estão sendo registradas no cérebro".

"Seremos capazes de encontrar aquela parte do cérebro que lembra as respostas imunes? Não sei, espero que sim, mas não tenho tanta certeza."

A dificuldade em chegar à conclusões

É difícil determinar isso, ,em grande parte, porque o cérebro é um órgão extremamente complexo.

Por exemplo, sabemos exatamente qual área do cérebro evoca memórias de infância?

"Não", responde Kipnis. "Em algum momento pensamos que era uma região do cérebro, mas agora sabemos que é uma coleção deles e que cobre muitas regiões."

As memórias da infância podem ser recuperadas por nós mesmos. "Mas a memória do vírus provavelmente não é", embora possamos lembrar como nos sentimos quando fomos infectados.

Os neurônios podem "falar e entender a linguagem " das células imunes e vice-versa, porque "os dois sistemas provavelmente se comunicam muito mais do que pensamos".

No entanto, há questões fundamentais, segundo o especialista: existe um tipo de controle mais consciente? Posso recuperar uma memória dessa gripe e, portanto, quando adoecer novamente, evocar minha memória imunológica (no cérebro) da gripe e ajudar meu sistema imunológico a combater melhor a infecção?

Será que ele tem uma memória de respostas imunes em algum lugar do cérebro e elas são desencadeadas por uma reinfecção?

"Eu acho que é provável, mas ninguém definitivamente mostrou isso ainda."

Existem vários grupos de pesquisa, além do que ele dirige, que estão trabalhando nessa área, um deles em Israel.

Experimentos com roedores

A neurocientista Asya Rolls busca entender como os processos mentais podem afetar as respostas imunológicas.

O laboratório que ela lidera aponta que, embora tenha sido alcançada uma compreensão significativa dos efeitos do estresse na imunidade, "nossa compreensão das redes neurais específicas que regulam o sistema imunológico e a maneira como essa atividade é transmitida a ele é limitada" .

Com sua equipe, ela realizou vários experimentos com camundongos.

Em um deles, a equipe notou que se ativassem diretamente a área do cérebro que está envolvida nas expectativas positivas, no sistema de recompensa do cérebro, havia uma estimulação do sistema imunológico, o que tornava as células imunes mais eficientes e poderoso para matar bactérias.

"A memória imunológica em termos de anticorpos e a reação imunológica que eles geraram foi quase quatro vezes mais forte", diz ele.

"Também vimos - em outro estudo com camundongos - que apenas ativando a área do sistema de recompensa do cérebro, o tamanho de um tumor era reduzido em 40%".

"O que estamos vendo é que o cérebro parece estar ainda mais envolvido na formação de algum tipo de memória imunológica de reações imunológicas anteriores".

Vestígios na memória



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

"Quando estou feliz, meu sistema imunológico fica mais forte? Talvez sim, talvez não, não sabemos, não há mecanismo que explique isso"

Além da memória imunológica clássica, que é armazenada pelo próprio sistema imunológico, Rolls também acredita que outra poderia existir.

"O que observamos (em um experimento com camundongos) é que pode haver uma forma diferente e adicional de memória, que é codificada pelos neurônios".

Segundo ela, não seria um tipo de memória cognitivamente acessível, da qual conseguiríamos nos lembrar, mas poderia haver "um traço nos neurônios que representa a condição inflamatória" que ocorreu quando contraímos uma infecção.

"Conseguimos testar esse traço de memória em um estudo com camundongos, mas também há evidências em humanos", diz a pesquisadora, citando um famoso experimento em que indivíduos alérgicos ao pólen foram expostos a uma flor, sem saber que era artificial, e desenvolveram uma reação alérgica.

"Então existe algum tipo de memória, alguma representação que conecta a flor com a alergia, e isso é algo que tem que acontecer no cérebro", diz.

Rolls também está intrigado com o efeito placebo, "um fenômeno psicológico muito complexo".

Apesar do entusiasmo com que fala sobre seus estudos, a cientista alerta que devemos ter muito cuidado em "nossa interpretação do que vemos em camundongos" em relação às pessoas.

"Esses estudos podem sugerir o potencial do sistema, mas ainda temos um longo caminho a percorrer até que possam se tornar alternativas de tratamento em humanos. Estamos trabalhando nisso".

E o humor?



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Existe um campo de pesquisa chamado psiconeuroimunologia que estuda a interação entre os processos psicológicos e os sistemas nervoso e imunológico

Dizem que quando nos sentimos tristes, deprimidos ou de mau humor é mais fácil pegar um resfriado. Poderíamos dizer que o cérebro está desempenhando um papel nessa circunstância?

"Sim. Quando experimentamos um estado emocional específico, por exemplo, quando não dormimos bem - que é um estado cerebral - é claro que você é mais suscetível a patógenos e a razão é porque seu sistema imunológico saudável precisa de seu cérebro", explica Kipnis.

"Os imunologistas clássicos provavelmente não estarão muito abertos a essa ideia de que o estado mental afeta o sistema imunológico, mas há algumas evidências".

De fato, existe um campo de pesquisa chamado psiconeuroimunologia que estuda a interação entre os processos psicológicos e os sistemas nervoso e imunológico.

Mas, embora existam algumas evidências, os cientistas estão tentando ir além de simplesmente reconhecer que o fenômeno existe.

"Quando você diz que ficar triste enfraquece seu sistema imunológico, eu gostaria de ver um mecanismo: o que é produzido no cérebro, qual molécula é liberada e como isso afeta o sistema imunológico para torná-lo menos funcional?"

No caso de estresse intenso, o mecanismo foi estudado.

"O estresse social aumenta a chance de desenvolver depressão e, nesse contexto, o humor deprimido é um problema porque está associado ao aumento do cortisol, que, por sua vez, está ligado à depressão", diz Anthony.

No entanto, adverte que dizer que "controlando a felicidade pessoal se pode controlar o sistema imunológico" contra infecções e doenças, é um circuito muito difícil de comprovar cientificamente.

Mais estudos são necessários para chegar a essa conclusão.

"Quando estou feliz, meu sistema imunológico fica mais forte? Talvez sim, talvez não, não sabemos, não há mecanismo que explique isso", diz Kipnis.

Por isso, especialistas como Koppel alertam que esse tipo de informação deve ser criteriosa.

" O perigo é sugerir que você pode modular seu sistema imunológico. Por que você está triste? Por que está deprimido? Você pode entrar em um ciclo vicioso e criar mais ansiedade e isso não ajuda, especialmente se estiver doente."

E insiste: "Ainda há muito o que entender sobre as conexões entre o cérebro e o sistema imunológico".

Se algo o preocupa com sua saúde e seu estado de espírito, procure a orientação de um médico ou outro profissional de saúde.






Autor: Margarita Rodríguez
Fonte: BBC News Mundo
Sítio Online da Publicação: BBC News
Data: 07/02/2022
Publicação Original: bbc.com/portuguese/geral-60236361

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Coração, cérebro, pulmão: como a covid-19 afeta nossos órgãos vitais

 


CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Principais alvos da covid-19 são o pulmão e as vias respiratórias, mas vírus tem surpreendido por seu variado ataque, do cérebro aos rins


Embora ainda haja muitas perguntas em aberto sobre o coronavírus que parou o mundo há quase um ano, cientistas conseguiram neste período correr contra o tempo e trazer muitas respostas sobre a nova doença — algumas delas surpreendentes.


Por exemplo, a de que a covid-19, descrita desde o início como uma doença respiratória, não ataca apenas os pulmões.


Conforme o coronavírus foi se espalhando pelo mundo e adoecendo mais pessoas — até aqui, infectando pelo menos 88 milhões no planeta —, médicos e pesquisadores começaram a constatar que órgãos tão diferentes como coração, cérebro e rins também podiam ser afetados, às vezes fatalmente, pelo coronavírus.


O patógeno também já causou problemas em dedo dos pés, foi detectado no testículo e ainda nas lágrimas de pacientes — mas é importante lembrar que ser encontrado em uma parte do corpo ou no ambiente não necessariamente significa adoecimento ou transmissibilidade.


Em relação aos chamados órgãos vitais, porém, a doença tem gerado incógnitas, pesquisas científicas e, em alguns casos, grande preocupação. Por isso, a BBC News Brasil procurou artigos científicos e pesquisadores brasileiros para responder o que se sabe até aqui sobre as consequências da covid-19 em cinco órgãos fundamentais para a nossa sobrevivência: pulmões, coração, rins, fígado e cérebro.

Vale lembrar que a definição de quais são os órgãos vitais é variada, mas de acordo com os entrevistados, estes cinco estão mais perto de um consenso de serem fundamentais para a continuidade da vida e insubstituíveis, considerando as intervenções médicas existentes.

1. Pulmões



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Falta de ar é sinal de que pulmão foi afetado, explica pesquisadora


Apesar de afetar outras partes do corpo, ainda são "as vias respiratórias e os pulmões" os principais alvos da covid-19, lembra a pesquisadora Marisa Dolhnikoff, professora associada da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e coordenadora dos Estudos em Autópsia da Covid-19 no Hospital das Clínicas da faculdade.


Tudo começa quando uma pessoa sadia entra em contato com gotículas do vírus, como através da tosse ou espirro de alguém infectado, ou ainda por meio do contato com uma superfície contaminada com essas partículas. A partir daí, o vírus começa a "hackear" as células das vias respiratórias (canais que conduzem o ar aos pulmões, como o nariz e a traqueia) e dos pulmões, transformando-as em fábricas de coronavírus que se espalham por mais células.


Tosse, coriza e espirros podem surgir por conta do ataque às vias respiratórias. Esses sintomas também podem ser reflexo do acometimento dos pulmões — mas, segundo Dolhnikoff, o sinal mais claro de que este órgão vital foi afetado é a falta de ar.


Um estudo publicado em junho na revista científica Lancet, com dados de 257 pacientes em Nova York (EUA), mostrou que a falta de ar foi o sintoma mais frequente na entrada no hospital, registrado em 74% dos infectados, seguido por febre (71%) e tosse (66%).


Ainda segundo a pesquisadora da USP, um outro sinal importante vem das tomografias — quando elas mostram mais de 50% da área dos pulmões acometida pelo coronavírus, este é um indicador de gravidade e de insuficiência respiratória, que demanda suporte como a ventilação mecânica. Ambos pulmões costumam ser afetados juntos.



CRÉDITO,COURTESY OF HAVELHOEHE COMMUNITY HOSPITAL/HANDOUT
Legenda da foto,

Raio X mostra pulmões de idosa de 84 anos, internada em hospital de Berlim, comprometidos pela covid-19


Tanto nas vias respiratórias quanto nos pulmões, o coronavírus encontra um facilitador — células contendo receptores da proteína ECA-2, uma espécie de chave que permite o início da infecção.


"Nos casos mais graves, há também infecção dos alvéolos, estruturas responsáveis pela troca gasosa nos pulmões — a captação de O2 do ar para o sangue, e liberação de CO2", explicou por e-mail à BBC News Brasil a pesquisadora.


É por isso que os pulmões são vitais — eles nos dão, literalmente, o ar que respiramos. O órgão absorve o oxigênio externo e o distribui para todo o corpo através do sangue e, na via contrária, recolhe o gás carbônico dispensado após vários processos dentro do corpo.


"Quando infectadas, as células dos alvéolos sofrem alterações importantes que levam à sua morte, desencadeando um processo de inflamação e edema pulmonar (excesso de líquido) que impedem as trocas gasosas, culminando com a insuficiência respiratória", completa Dolhnikoff, cuja equipe no Hospital das Clínicas está realizando desde o início da pandemia um método inovador de autópsias minimamente invasivas, de forma a evitar o contágio no contato com corpos, para fins de pesquisa.



CRÉDITO,GETTY IMAGES/RASI BHADRAMANI
Legenda da foto,

Trocas gasosas acontecem nos alvéolos — que podem ser infetados pelo coronavírus


Além da infecção das células das vias respiratórias e dos alvéolos, em uma segunda frente, os vasos sanguíneos também são atacados. Isso leva ao aumento da coagulação e à formação de trombos (conjunto de sangue coagulado), que dificultam a passagem de sangue nos alvéolos. Com isso, as trocas gasosas são mais uma vez comprometidas.


Ainda no início da pandemia, em abril, a equipe que está trabalhando com autópsias na USP publicou no periódico científico Journal of Thrombosis and Haemostasis os resultados destas análises em dez pacientes, demonstrando alvéolos amplamente danificados e pequenos trombos no pulmão — cuja formação devido à covid-19 era pouco conhecida naquele momento.


Quando o quadro pulmonar é muito grave, incluindo um conjunto de indicadores como a insuficiência respiratória e a inflamação sistêmica, ele pode configurar a síndrome do desconforto respiratório aguda (ARDS, na sigla em inglês).

2. Coração



CRÉDITO,GETTY IMAGES/OSAKAWAYNE STUDIOS
Legenda da foto,

Nos quadros mais graves, é frequente que o coração seja afetado — podendo levar a óbito


Se os pulmões realizam as trocas gasosas, é o coração que bombeia o sangue com oxigênio para o corpo e que volta para os pulmões com sangue repleto de gás carbônico.


E, nos quadros mais graves, este órgão muscular e vital é significativamente afetado — podendo levar a óbito.


Um estudo de referência, publicado em fevereiro de 2020 com dados de 138 pacientes hospitalizados em Wuhan, mostrou que 16,7% deles desenvolveram arritmia e 7,2% lesão cardíaca aguda — ou seja, dois problemas de saúde atingindo o coração. Aqueles que precisaram ir para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) apresentaram estes quadros com mais frequência.


"Na covid-19, o coração pode ser atingido em até 40% dos casos graves", aponta Marisa Dolhnikoff, acrescentando outras consequências da covid-19 no coração como a miocardite (inflamação no coração), tromboses arteriais e infarto do miocárdio.


"Pessoas com comorbidades — diabetes, hipertensão, obesidade e cardiopatias prévias — têm maior risco de manifestação cardíaca na covid-19."


Estudos de várias partes do mundo mostram problemas no coração como uma das comorbidades mais comuns entre pacientes graves infectados — um boletim do Ministério da Saúde de dezembro revelou que, no Brasil, as cardiopatias (doenças no coração) foram o fator de risco mais frequente entre pessoas que morreram por covid-19 no país, seguidas por diabetes.


Dolhnikoff explica que as células cardíacas também têm receptores da proteína ECA-2, ativadas no ataque direto do vírus ao órgão.


Mas o órgão pode ser afetado também pela inflamação sistêmica, reação exagerada do corpo que leva a diversas alterações prejudiciais como a baixa de oxigênio e à chamada tempestade de citocinas — substâncias agressivas que o sistema imunológico libera para atacar um invasor, mas que, em excesso, podem acabar atacando partes vitais para nossa sobrevivência, como o coração.


A partir da autópsia e de exames referentes ao caso de uma menina de 11 anos que perdeu a vida para a covid-19, Dolhnikoff e sua equipe conseguiram demonstrar o ataque do vírus a diversas células do coração, nas quais foram encontradas partículas do vírus. A resposta inflamatória agravou o problema, levando à falência cardíaca e morte.


O pulmão da criança também foi afetado, mas os cientistas identificaram o coração como o órgão mais comprometido pelo vírus.


Os resultados foram publicados no periódico internacional Lancet Child & Adolescent Health.

3. Rins



CRÉDITO,GETTY IMAGES/SCIEPRO
Legenda da foto,

Rins sofrem juntos e 'silenciosamente', explica nefrologista


Assim como acontece com o coração, quando os rins são afetados pela covid-19, o nível de alerta é aumentado.


"A lesão renal é incremental, compõe o quadro de um doente mais complexo. São doentes muito graves. Quando a doença é avassaladora, ela é avassaladora", resume o nefrologista José Suassuna, chefe do Setor de Nefrologia do Hospital Pedro Ernesto, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Hupe/Uerj).


Os rins são vitais por regularem a concentração de água no sangue e por eliminarem detritos tóxicos do corpo.


No artigo publicado no periódico Lancet envolvendo 257 pacientes em Nova York, 31% desenvolveram lesões agudas neste órgão e precisaram das chamadas terapias de substituição renal, que incluem intervenções como a hemodiálise — este procedimento, em linhas gerais, substitui o órgão no trabalho de filtrar o sangue.


Neste grupo nos Estados Unidos, 14% já tinham alguma doença crônica afetando os rins antes da covid-19.


"Grupos de risco como obesos, diabéticos, pessoas com doenças cardiovasculares e idosos muitas vezes já têm algum grau de comprometimento renal — então, quando infectados pelo coronavírus, não partem do 0. Eles já estão na metade do caminho e caminham mais rapidamente para a insuficiência renal aguda e para a necessidade de suporte", explica Suassuna, destacando porém que há casos em que o paciente não tem fatores de risco mas tem os rins comprometidos.



CRÉDITO,GETTY IMAGES/AKIROMARU
Legenda da foto,

Casos de lesão aguda nos rins comumente levam à necesidade de intervenções como a hemodiálise, que substitui o órgão na filtragem do sangue


De acordo com o nefrologista, os rins também têm receptores ECA-2, mas as evidências até agora indicam que possivelmente não é este ataque direto do vírus ao órgão o principal motivo de acometimento dos rins.


Mais uma vez, a inflamação exacerbada do corpo ao coronavírus parece ter um papel importante.


Uma evidência disso é a conexão entre os pulmões e o rins, a chamada cross talk entre os órgãos.


"É uma ligação cruzada, a situação em que o acometimento de um órgão determina o de outro. Na covid-19, isso tem se mostrando entre rins e pulmões, assim como pulmões e coração. O envolvimento pulmonar mais grave se associa a um risco muito maior para os rins. Há uma associação grande entre entubar e a insuficiência renal", aponta Suassuna, explicando que quando há esta insuficiência nos rins, o paciente deixa de urinar, precisando de suporte.


Além disso, outra explicação para o acometimento simultâneo de vários órgãos na fase mais avançada da infecção é a baixa oxigenação.


"A covid-19 nos deixa com uma oxigenação como se estivéssemos subindo o Himalaia, mesmo estando a nível do mar. Uma parte funcional do rim, que ajuda a produzir a urina, já vive como se estivesse no Everest — no que a gente chama de hipoxia, uma oxigenação muito baixa", diz o médico, também professor da UERJ.


"O rim é um órgão muito sensível às quedas de oxigenação prolongadas porque já vive na beira do precipício. E à piora da oxigenação se soma a tempestade de citocinas, um mecanismo importante da disseminação do dano da covid do pulmão para o resto do corpo."

Covid-19: o que muda (ou não) no combate à pandemia com a nova variante do coronavírus no Brasil
Mortes por covid-19 no Brasil estão 50% acima do que apontam dados oficiais, calculam especialistas


Apesar de seu adoecimento ser um indicador de gravidade, os rins também podem ser afetados em casos mais leves, explica Suassuna. Entretanto, talvez isso nunca se manifeste em sintomas, mas apenas exames específicos de urina e de alteração da função renal.


"Os rins, em qualquer doença, sofrem em silêncio — e covid-19 não é uma exceção", explica Suassuna, acrescentando que esse órgão é afetado bilateralmente, ou seja, adoece tanto do lado esquerdo quando direito.


"Não tem grande manifestação de sintomas, a maior parte dos sinais só aparece no laboratório. Temos pacientes iniciando diálise que não sentem nada, apenas quando já têm menos 10% da função renal. De repente, param de urinar."

4. Fígado



CRÉDITO,GETTY IMAGES/JONATHAN KNOWLES
Legenda da foto,

Fígado 'não é comumente nem intensamente comprometido, como ocorre com outros órgãos, como os pulmões, o coração e os rins', explica o hepatologista Edmundo Lopes


Exames também já detectaram, em alguns pacientes, alterações no fígado — que tem entre suas funções eliminar toxinas do corpo, regular o açúcar no sangue e ajudar na digestão de gorduras.


Entretanto, diferente de outros órgãos, tais alterações não necessariamente significam o adoecimento do órgão.


"As enzimas hepáticas (substâncias produzidas pelo órgão) estão elevadas em cerca de 15 a 60% dos casos de COVID-19, o que sugere acometimento do fígado. Porém, estas alterações das enzimas em geral não provocam sintomas", explica o hepatologista Edmundo Lopes, médico do Hospital das Clínicas e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).


"Apesar destes distintos mecanismos de agressão ao fígado durante a covid-19, ele não é comumente nem intensamente comprometido, como ocorre com outros órgãos, como os pulmões, o coração e os rins", diz. "As explicações para esta 'menor' agressão ao fígado ainda não estão bem elucidadas."


Os distintos mecanismos de agressão mencionados por Lopes passam, mais uma vez, pelos efeitos da inflamatória sistêmica no corpo e também, no caso desse órgão responsável por lidar com substâncias potencialmente tóxicas, por eventuais danos provocados pelos medicamentos usados contra a covid-19.


A ação direta do vírus sobre o órgão também é uma possibilidade, até porque as células hepáticas chamadas de colangiócitos têm receptores ECA-2. Entretanto, segundo o professor da UFPE, essa via direta "nunca foi muito bem demonstrada" na ciência.


"As evidências sugerem que o processo inflamatório (tempestade de citocinas) parece ter um papel relevante na agressão ao fígado, já que os pacientes mais graves e que apresentam maiores indícios de atividade inflamatória nos exames laboratoriais são os que apresentam mais frequentemente e mais intensamente alterações das enzimas hepática", escreveu o hepatologista por e-mail à BBC News Brasil.

5. Cérebro



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Covid-19 leve tem deixado efeitos neurológicos como maior ansiedade e cansaço e, nos casos graves, derrame e convulsões


Se tem um órgão que os entrevistados dizem estar rodeado de incógnitas sobre seu acometimento pela covid-19, é o cérebro.


Fato é que diversos estudos e relatos de casos já mostraram que ele pode ser afetado, dos quadros leves aos graves.


A pesquisadora Clarissa Yasuda, médica e professora do departamento de neurologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que o diga: ela mesma teve covid-19 em agosto e conta ainda sentir consequências relacionadas ao cérebro, como sono, fadiga e alterações na memória.


Ela e colegas publicaram em outubro um estudo em estágio pré-print (sem a chamada revisão dos pares, etapa padrão em que outros especialistas analisam um estudo e decidem se ele será publicado ou não em uma revista científica) com dados sobre 81 pessoas que tiveram covid-19 leve e se recuperaram.


Esses voluntários foram submetidos a exames de ressonância magnética, que detectaram alterações no córtex, a parte mais externa do cérebro e fundamental para processos envolvendo a memória, linguagem, entre outros.


Questionários e testes cognitivos também mostraram que, em média 60 dias após o diagnóstico da covid-19, os pacientes ainda apresentavam dor de cabeça (40%), fadiga (40%), alteração de memória (30%), ansiedade (28%), depressão (20%), perda de olfato (28%) e paladar (16%), entre outros.


Aliás, Yasuda lembra que a perda destes sentidos é considerada pelos especialistas um sintoma neurológico — precisamos do cérebro para sentir gostos e cheiros.


"Acho que não estava na conta de ninguém imaginar que pessoas que não foram internadas, que seriam quadros 'leves', pudessem ficar com uma gama de alterações neurológicas incapacitantes, como observamos não só aqui mas no mundo inteiro", diz a neurologista, fazendo a ressalva de que o grupo de voluntários estudados foi formado por pessoas que já estavam relatando sintomas neurológicos, então há uma inclinação de que estes sejam mais frequentemente registrados do que se o estudo envolvesse uma população mais ampla.


"Além desses casos leves (que estão mostrando consequências prolongadas), há o grupo de alterações neurológicas por covid-19 que surgem na fase aguda e que podem ser bem graves — como derrame, encefalite, convulsão e redução do nível de consciência. Em alguns casos, os derrames aumentam a chance de AVC (acidente vascular cerebral). Nâo sabemos se estes efeitos serão transitórios ou se deixarão sequelas."


Parte da equipe que está trabalhando com autópsias no Hospital das Clínicas da FMUSP, o médico Amaro Nunes Duarte Neto relata que uma alteração muito comum observada nos cérebros de pessoas que morreram após a infecção pelo coronavírus é a lesão dos neurônios.


"São lesões cerebrais decorrentes da hipóxia (oxigenação diminuída) pelo acometimento pulmonar grave na covid-19, não atribuídas diretamente ao vírus", explicou por e-mail o pesquisador.



CRÉDITO,GETTY IMAGES/MICHAL-ROJEK
Legenda da foto,

Distúrbios na circulação do sangue pelo corpo explicam em parte adoecimento por covid-19


Isto porque, como em outros órgãos, os efeitos da covid-19 não necessariamente ocorrem devido ao ataque direto do coronavírus, mas sim pelas consequências da resposta inflamatória do corpo e de alterações na circulação do sangue, entre outros.


Por exemplo, Duarte Neto relata também a observação, nas autópsias, de microsangramentos nos vasos que irrigam o órgão, além da hipertrofia dos astrócitos — células em torno dos vasos cerebrais e que dão suporte fundamental para os neurônios.


Na publicação em pré-print da qual Yasuda foi uma das autoras, a equipe demonstrou que os astrócitos foram o principal alvo do coronavírus no cérebro. Isto também a partir de 26 autópsias minimamente invasivas, realizadas por pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP.


Mesmo que nem todo efeito neurológico do coronavírus seja atribuído ao seu ataque direto, os pesquisadores entrevistados dizem que há sinais de que o patógeno chega até o cérebro através do nariz, pelo mesmo caminho que um aroma "faz" para chegar até lá.


Ainda assim, "o conhecimento sobre o mecanismo de lesão do vírus Sars-CoV-2 no sistema nervoso central ainda é pouco esclarecido", diz o pesquisador da USP.


A professora Clarissa Yasuda concorda.


"É muita coisa que a gente não sabe, muita coisa para ser estudada: o quanto desses quadros neurológicos tem um componente inflamatório, o quanto é autoimune, o quanto é um ataque direto do vírus. Ninguém tem uma resposta, mas acho que é uma combinação disso tudo."




Autor: Alvim - @marianaalvim Da BBC News Brasil em São Paulo
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 09/01/21
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-55596688

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Como nosso cérebro lida com situações extremas?



O córtex pré-frontal ventromedial parece ser a área do cérebro responsável por prever a capacidade de recuperação de situações estressantes — Foto: Getty Images via BBC



Como nosso cérebro responde a situações extremas que perduram ao longo do tempo? A violência, o terrorismo, a exclusão social, os maus tratos, o abuso infantil ou outras circunstâncias extremas podem ser enfrentadas dentro da normalidade?


A verdade é que, graças a dois conceitos inerentes a este tipo de situação, o estresse e a resiliência, sim.


O termo estresse geralmente está associado a um estado patológico. No entanto, se refere a uma reação do ser humano diante de situações ameaçadoras ou de excessiva demanda.


Na verdade, a biologia do estresse não é simplesmente um sistema de emergência. Está mais para um processo contínuo: o corpo e o cérebro se adaptam às experiências diárias, estressantes ou não.


O termo resiliência, por sua vez, é definido pelo Instituto Espanhol de Resiliência como a capacidade de enfrentar adversidades. A neurociência considera que as pessoas mais resilientes têm um equilíbrio emocional maior diante de situações de estresse.


Isso dá a elas uma sensação de controle sobre os acontecimentos e uma capacidade maior de enfrentá-los.




Como nosso cérebro funciona em situações estressantes?




A base do que as pessoas fazem, sentem e pensam está no cérebro. Ele percebe e reconhece o ambiente, influencia e responde a ele. É capaz de integrar passado e presente e, o que é fundamental, antecipar o futuro incerto.



O cérebro é o órgão central de percepção e resposta fisiológica, emocional-psicológica e comportamental aos fatores de estresse. É quem determina o que é ameaçador e potencialmente estressante. E as respostas fisiológicas e comportamentais que podem se adaptar ou causar danos.


São distintas as regiões cerebrais que respondem ao estresse crônico e agudo, passando por uma remodelação estrutural.



Uma equipe de cientistas da Universidade Yale, nos EUA, revelou que a atividade cerebral flexível em uma área específica do cérebro pode predizer a capacidade de recuperação diante de situações estressantes ou de risco.


Na psicologia, isso é conhecido como resiliência. Definido de forma mais global, é a capacidade de indivíduos, grupos e comunidades de enfrentar e se adaptar às adversidades.


O córtex pré-frontal ventromedial parece ser a área do cérebro responsável por predizer a capacidade de recuperação de situações de estresse.




A mediação do estresse em situações extremas




Situações extremas englobam contextos como a violência em todas as suas manifestações, a desigualdade, a miséria, a exclusão, os maus-tratos, o abuso infantil ou o terrorismo.


A resposta ao estresse em circunstâncias como essas ocorre como uma tentativa do organismo de restaurar o equilíbrio em contextos de exigência. Também para se adaptar a mudanças nas condições biológicas, psicológicas e/ou sociais.



Essa resposta pode ser modulada por meio de um conjunto de variáveis ​​cognitivas, sociais e pessoais. Do ponto de vista adaptativo, o estresse permite a mobilização imediata das reservas de energia do organismo.




A resiliência é uma qualidade inata, mas também é considerada um processo dinâmico — Foto: Getty Images via BBC


Além disso, possui um valor adaptativo elevado, ao gerar mudanças para facilitar o enfrentamento de uma ameaça. No entanto, também pode facilitar comportamentos desadaptativos diante dessas situações.




Resiliência como fator-chave




Como algumas pessoas fazem para se adaptar e superar situações extremas e traumas pessoais? Como mencionamos anteriormente, isso depende da capacidade que temos de nos recuperar de situações extremas.


Embora a resiliência seja uma qualidade inata, também é considerada um processo dinâmico. Portanto, pode ser desenvolvida como uma capacidade de adaptação a diferentes ambientes adversos sem gerar um nível de estresse negativo.


O conceito evoluiu desde a década de 1960. Seu estudo se concentrou tanto em fatores individuais, quanto familiares, comunitários e culturais. Assim, os pesquisadores do século 21 entendem a resiliência como um processo comunitário e cultural que responde a três modelos: compensatório, de proteção e de desafio.


Há muitos exemplos conhecidos de processos resilientes. É o caso de Viktor Frankl, pai da psicologia humanística e da logoterapia, que sobreviveu três anos em campos de concentração nazistas.



A logoterapia é uma psicoterapia que propõe a vontade de sentido como a motivação primária do ser humano: se a pessoa encontra essa vontade nas situações mais extremas, ela será capaz de se adaptar e superá-las melhor.


Outro exemplo pode ver observado em um dos pais da resiliência, o neurologista francês de origem judaica Boris Cyrulnik. Para se esconder durante a Segunda Guerra Mundial, ainda criança, foi levado sem os pais para uma pensão da qual teve que fugir pouco tempo depois.


Até o fim do conflito, Cyrulnik se escondeu em vários lugares. Seus pais não tiveram tanta sorte. Após serem deportados, ele não teve mais notícias deles.


Em virtude de suas vivências, Cyrulnik dedicou sua carreira profissional ao tratamento de crianças com traumas e outros problemas de comportamento e exclusão social. Aos 82 anos, continua exercendo a profissão como professor e pesquisador.


Em suma: nosso cérebro está configurado para sobreviver. Embora sua resposta a situações extremas varie em função de diversos fatores intrapessoais, ele pode chegar a aceitá-las como normais. Nesse processo, a resiliência será um fator determinante.


*Fátima Servián Franco é psicóloga geral de saúde e diretora do Centro de Psicologia RNCR e PDI na Universidade Internacional de Valência, na Espanha.


Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado aqui sob uma licença Creative Commons. Leia aqui a versão original (em espanhol).





Autor: Fátima Servián Franco, BBC
Fonte: BBC
Sítio Online da Publicação: BBC
Data: 08/01/21
Publicação Original: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2021/01/08/como-nosso-cerebro-lida-com-situacoes-extremas.ghtml

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Seu cérebro quer emoções, artigo de Montserrat Martins

cérebro

“Meu cérebro quer me destruir”, diz o menino Calvin depois de uma aventura impulsiva, numa das melhores histórias em quadrinhos desse personagem divertido. É verdade que o cérebro “gosta” de emoções, tanto que nossa memória só retém os fatos bons ou ruins, nunca os “neutros”, só lembramos do que nos causou prazer ou dor.

Seu cérebro adora emoções, mas o sistema imunológico detesta, tanto que estresse ou depressão inibem nossas defesas, então não é só nossa mente que é contraditória, nosso próprio organismo “não se entende”, umas partes querem uma coisa, outras querem outra.

Sabe porque as mídias estão cheias de notícias escandalosas, tristes ou revoltantes, negativas? Porque dá Ibope, sem audiência elas fecham. A culpa não é da mídia, é do nosso cérebro mesmo, tanto que as pessoas que protestam contra a mídia o fazem com a mesma negatividade que acusam a mídia de ter. Você já viu alguma crítica afetiva ou bem humorada? Bem raro, né? Tente montar um “jornal das boas notícias”, vai ser difícil conseguir audiência.

Raiva, medo, alegria, tristeza, excitação, tudo isso é motivador para o cérebro humano prestar atenção em algo, seja nos filmes ou na vida real.

Enquanto seu sistema imunológico só quer paz para trabalhar, pois sob intensas emoções o trabalho de dele pode ser prejudicado, já está provado que estresse e depressão afetam as nossas defesas. O sistema cardiovascular é outro que, apesar de se beneficiar com exercícios físicos – quando o sangue circula mais rápido e o corpo gasta energia – pode se prejudicar com estresse ou depressão, que são como “lutas internas” do corpo.

Você acha o mundo um lugar cheio de conflitos? Bem vindo ao seu organismo, seu próprio corpo é assim, parece ser da nossa natureza o contraditório. O desafio da sabedoria, então, é aprender a lidar com isso da melhor forma, conhecendo a nossa natureza, usá-la a nosso favor. Nosso cérebro pode ser “condicionado” a se comportar dentro de certos limites, como reza a sabedoria, para não afetar nosso equilíbrio corporal.

Uma estratégia antiga era o “jogo do contente” baseado numa história da personagem Poliana, que consistia em procurar “o lado bom” das coisas ruins, por piores que fossem. Essa estratégia ainda funciona parcialmente, dá pra ver pelo número de mensagens de whatsapp dizendo que “sairemos melhor” da crise do coronavírus. Mas para “funcionar” o jogo do contente você tem de acreditar nisso – e nem sempre parecem muito verdadeiras essas interpretações benignas, que parecem “forçar a barra” muitas vezes, algo utópico, irreal, fantasioso.

Outra tese antiga, mas mais realista, é que toda frustração é uma experiência, o que faz muitas pessoas dizerem que já tem “experiência demais”, só querem ser felizes. O verdadeiro sentido não é ter experiências, mas aprender com elas.

Só a experiência, afinal, pode “educar” o cérebro e seus impulsos primitivos.

Montserrat Martins, Médico e escritor

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 04/06/2020

Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 04/06/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/06/04/seu-cerebro-quer-emocoes-artigo-de-montserrat-martins/

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Pesquisa investiga cérebro e comportamento para tratamento da demência

Quem não conhece alguém com dificuldades para reconhecer seus erros ou que não consiga expressar seus sentimentos plenamente? Essas são características genéricas para diferentes quadros patológicos, mas bastante comuns em pessoas com demência, uma doença bastante específica e que atinge cerca de 2% da população mundial. A partir dos 65 anos a porcentagem dobra a cada cinco anos. Entender as especificidades da doença, aumentar a precisão de diagnóstico e investigar os comportamentos de quem foi diagnosticado estão entre os objetos de pesquisa do psicólogo Daniel Mograbi, professor do Departamento de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Em 2019, Mograbi ganhou o prêmio Early Career Award da International Neuropsychological Society, como reconhecimento de seus trabalhos na área como jovem pesquisador. Desde 2016 que ele conta com apoio da FAPERJ para a realização de suas pesquisas, tendo sido contemplado no programa Jovem Cientista do Nosso Estado. Em 2019, o apoio da Fundação, que tem duração de 3 anos nesse programa específico, foi renovado.

Apesar de ser mais comum com o avançar da idade, a doença não faz parte do envelhecimento normal. “Antigamente, achávamos que a demência que era uma consequência normal do envelhecimento. Hoje, sabemos com bastante clareza que não”, diz. Mograbi explica que o diagnóstico é bastante complexo e depende de exames de neuroimagem, consultas individuais, relatos da família e exclusão de quaisquer outras potenciais alterações. Uma das dificuldades do diagnóstico é precisamente a falta de consciência dos pacientes sobre seus problemas. Em 2012, Mograbi publicou um estudo com 897 participantes, da América Latina, China e Índia, identificando que a falta de consciência de problemas de memória atinge entre 60% e 80% dos pacientes.

Entre 2016 e 2019, com o mencionado financiamento da FAPERJ, seu desafio foi estudar experimentalmente reações de pessoas com demência, utilizando a metodologia da eletroencefalografia. “Nós tivemos duas tarefas diferentes. Uma parte do estudo era a de monitoramento de erros; outra, de respostas afetivas, incluindo em relação aos erros”, explica Mograbi. Os testes envolveram tarefas de tempo de reação e pediam uma estimativa de acertos, na maioria das vezes mais elevada do que de fato tinham ocorrido. Ao mesmo tempo, os pacientes tinham a atividade elétrica cerebral monitorada e, em comparação com idosos saudáveis, tiveram respostas elétricas aos erros atenuadas.


Mograbi: agraciado com prêmio da International Neuropsychological Society (Foto: Divulgação)


A pesquisa também envolveu a identificação do processamento emocional. “É comum que pessoas com demência tenham problemas em regular suas emoções. Isso vai desde as pessoas mais apáticas até pacientes mais agressivos e desinibidos”, explica o psicólogo. Para analisar a reatividade emocional, os pesquisadores também monitoraram o cérebro dos participantes e expressões faciais ao exibirem imagens neutras, como linha de base, imagens positivas e negativas. Novamente, as evidências sugeriram uma relativa preservação, mas diminuição em comparação com controles, da capacidade de reatividade emocional nos pacientes.

Agora Mograbi se prepara para uma nova etapa da pesquisa: a busca para tratamentos não invasivos que podem ajudar a estimular o cérebro e atenuar os sintomas de demência. Financiado pelo Fundo Newton e o Medical Research Council do Reino Unido, a Terapia de Estimulação Cognitiva (CST) será implementada no Brasil, Tanzânia e Índia. “A terapia é realizada em 14 sessões em grupo entre oito e 10 pessoas, com atividades bastante lúdicas, música e comida. O método foi desenvolvido pela pesquisadora Aimee Spector, de University College London. Nesse caso, a gente quer ver se a infraestrutura do país interfere da implementação dessa terapia”, conta, sobre o trabalho em parceria com Jerson Laks e Valeska Marinho, do Centro de Doença de Alzheimer da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Cleusa Ferri, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Para quem está interessado em postergar esse quadro, os cuidados são os mesmos que dizem respeito à manutenção geral da saúde. “Tudo que faz bem para o coração, faz bem para o cérebro. Dieta equilibrada, exercícios físicos, tarefas que demandam desafios cognitivos e uma vida social ativa abrangem todos esses aspectos”, finaliza.




Autor: Juliana Passos
Fonte: Faperj
Sítio Online da Publicação: Faperj
Data: 10/10/2019
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3850.2.4

quarta-feira, 27 de março de 2019

Estudo aponta que cérebro continua a ganhar novos neurônios ao longo da vida

O ser humano continua a produzir novas células cerebrais ao longo da vida, pelo menos até os 97 anos, de acordo com um novo estudo.


Esta ideia tem sido amplamente debatida, e costumava-se pensar que nascemos com todas as células cerebrais que teremos em toda a vida.


Os pesquisadores da Universidade de Madri, na Espanha, também demonstraram que o número de novas células cerebrais produzidas diminui com a idade e que isso cai drasticamente nos estágios iniciais da doença de Alzheimer - o que permite pensar em novas formas de tratamento para demência.


Estudos com outros mamíferos já haviam demonstrado que novas células cerebrais são formadas em estágios posteriores da vida, mas a extensão desta "neurogênese" no cérebro humano ainda é algo polêmico.



Como foi feito o estudo



O estudo, publicado na revista Nature Medicine, analisou os cérebros de 58 pessoas mortas quando tinham entre 43 e 97 anos de idade.


O foco estava no hipocampo - uma parte do cérebro envolvida com a memória e a emoção. É desta parte do cérebro que você precisa para se lembrar onde estacionou o carro, por exemplo.


A maioria dos nossos neurônios - células cerebrais que enviam sinais elétricos - de fato já existem quando nascemos. Mas estas células não emergem no cérebro totalmente formadas. Elas têm de passar por um processo de crescimento e maturação.


Os pesquisadores conseguiram identificar neurônios imaturos ou "novos" nos cérebros examinados. Nos cérebros saudáveis, ​​houve uma "ligeira diminuição" desta neurogênese com a idade.



Pesquisadores identificaram neurônios imaturos ou "novos" (em vermelho) nos cérebros estudados — Foto: MORENO-JIMÉNEZ/BBC


"Acredito que geramos novos neurônios conforme precisamos aprender coisas novas. E isso ocorre a cada segundo de nossas vidas", diz pesquisadora Maria Llorens-Martin à BBC News.


Mas a história foi diferente com o cérebro de pacientes com Alzheimer. O número de novos neurônios formados caiu de 30 mil por milímetro para 20 mil por milímetro em pessoas em um estágio inicial da doença, uma redução de mais de 30%.


"É muito surpreendente, porque é algo que ocorre muito cedo, mesmo antes do acúmulo no cérebro de placas da proteína beta-amiloide (uma característica chave de Alzheimer) e, provavelmente, antes do surgimento de sintomas", afirma Llorens-Martin.




Um novo caminho para um tratamento para Alzheimer?




Ainda não existe cura para a doença de Alzheimer, mas o foco principal das pesquisas tem sido este acúmulo de beta-amiloide no cérebro.


No entanto, estudos que usam esta abordagem para desenvolver formas de combater a doença falharam, e a nova pesquisa da Universidade de Madri sugere que pode haver algo ocorrendo ainda mais cedo no curso da doença.


Llorens-Martin diz que entender o motivo da diminuição da neurogênese pode levar a novos tratamentos tanto para os efeitos comuns do envelhecimento quanto para Alzheimer.


Ela afirma que o próximo estágio da pesquisa provavelmente exigirá que sejam analisados os cérebros de pessoas ainda em vida, para ver o que acontece com eles ao longo do tempo.


"Ao mesmo tempo em que passamos a perder células nervosas no início da idade adulta, essa pesquisa mostra que podemos continuar a produzir novas células até os 90 anos", diz Rosa Sancho, chefe de pesquisa da Alzheimer's Research UK, organização sem fins lucrativos dedicada à pesquisas sobre a doença.


Ela explica que o Alzheimer acelera bastante a taxa de perda de células nervosas, e avalia que esta nova pesquisa fornece evidências convincentes de que também limita a criação de novas células.


"Mais estudos serão necessários para confirmar estas conclusões e explorar se isso pode abrir caminho para um teste capaz de sinalizar precocemente se uma pessoa tem um risco maior de ter esta doença."




Autor: G1 Saúde
Fonte: G1 Saúde
Sítio Online da Publicação: G1 Saúde
Data: 26/03/2019
Publicação Original: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/03/26/estudo-aponta-que-cerebro-continua-a-ganhar-novos-neuronios-ao-longo-da-vida.ghtml

‘Celebrando o Cérebro’ tem nova edição na Fiocruz

Lógico-matemática, linguística, musical, corporal, espacial, naturalista, existencial, inter e intrapessoal: essa é a lista das múltiplas inteligências que nós, seres humanos, possuímos. Ao longo da história, para a promoção da saúde, temos articulado essas inteligências com diferentes tecnologias (que podem ser entendidas como extensões do nosso cérebro). Para explorar essas conexões, todos estão convidados a participar do Celebrando o Cérebro 2019, evento comemorativo da Semana do Cérebro no Museu da Vida, que acontece de 26 a 30 de março, com entrada gratuita.

Idealizada pela entidade norte-americana Dana Foundation, a Semana do Cérebro é uma iniciativa internacional, realizada anualmente, com o objetivo de divulgar e popularizar as neurociências. Este ano, o tema escolhido pelo Museu da Vida foi Inteligências, Tecnologias e Saúde.

Participando de uma programação divertida, com muitos jogos e oficinas variadas, os visitantes poderão conhecer e discutir a teoria das inteligências múltiplas do psicólogo norte-americano Howard Gardner. As atividades prometem instigar a curiosidade e propor desafios que estimulem e mobilizem diferentes inteligências. O objetivo é quebrar preconceitos sobre os limites da inteligência humana e motivar o público a reconhecer e valorizar as diversas formas humanas de construção do conhecimento, ampliando suas visões sobre a inteligência. Tudo isso com aplicações práticas e muita experimentação.

As atividades acontecerão em três espaços da Fiocruz: pirâmide, epidauro e castelo. Confira abaixo a programação:


Pirâmide

Experimente suas inteligências!
Faixa etária: acima de 10 anos
Dias: de 26 a 30 de março
Horários: de terça a sexta, às 9h, 10h30, 13h30 e 15h; sábado, das 10h às 16h
Separar palavras aleatórias por categorias e utilizá-las para formar um poema. Solucionar jogos de raciocínio lógico. Explorar os sons e identificar diferentes notas musicais de olhos vendados. Desvendar os avanços tecnológicos a partir dos conhecimentos da automação. Em quatro estações de atividades, o visitante será desafiado a utilizar suas diferentes inteligências e a refletir sobre a importância da integração entre elas para indivíduos e grupos.

No ritmo das inteligências
Faixa etária: livre
Dias: de 26 a 30 de março
Horários: de terça a sexta, às 9h, 10h30, 13h30 e 15h; sábado, das 10h às 16h
Você tem controle sobre os movimentos do seu corpo? Com o uso de um game, vamos dançar para estimular a coordenação motora e a orientação no espaço. Aqui você experimenta muitas inteligências ao mesmo tempo!

Batalha espacial: encontre os espaços do MV
Faixa etária: acima de 10 anos
Dias: de 26 a 30 de março
Horários: de terça a sexta, às 9h, 10h30, 13h30 e 15h; sábado, das 10h às 16h
Vamos encontrar os espaços do Museu da Vida? Num jogo parecido com batalha naval, os participantes têm que localizar os símbolos do Museu no campo do adversário, utilizando modelos mentais para deduzir as coordenadas verticais e horizontais.

De onde viemos e para onde vamos?
Faixa etária: acima de 10 anos
Dias: de 26 a 30 de março
Horários: de terça a sexta, às 9h, 10h30, 13h30 e 15h; sábado, das 10h às 16h
A atividade propõe reflexões e questionamentos sobre a origem da vida através de imagens, motivando reflexões sobre a nossa existência.

A inteligência nas ciências naturais
Faixa etária: acima de 8 anos
Dias: de 26 a 30 de março
Horários: de terça a sexta, às 9h, 10h30, 13h30 e 15h; sábado, das 10h às 16h
Como se organizam os padrões da natureza? Como se comunicam os insetos? O visitante vai conhecer o ciclo de vida dos mosquitos, identificando seus diferentes estágios de desenvolvimento. Vai conhecer também algumas características do corpo humano.

Animais são inteligentes?
Faixa etária: acima de 8 anos
Dias: de 26 a 30 de março
Horários: de terça a sexta, às 9h, 10h30, 13h30 e 15h; sábado, das 10h às 16h
Quem aí tem curiosidade sobre as inteligências no mundo animal? Nesse jogo de associações, o visitante vai conhecer processos de inteligência animal estudados por cientistas.


Epidauro

Oficina de robótica
Faixa etária: a partir de 12 anos
Dias: 26 e 27 de março
Horários: terça e quarta, às 15h
Venha conhecer um pouco sobre robótica e suas aplicações nas diversas áreas do conhecimento ao montar e programar um robô. O limite é sua imaginação!

Aventuras do cérebro
Faixa etária: a partir de 12 anos
Dias: 26 e 28 de março
Horários: terça, às 9h30, e quinta, às 9h30 e 15h
Venha descobrir o que acontece com seu cérebro ao comer um delicioso bolo de chocolate ou uma torta de limão.


Castelo

Evolução tecnológica na aplicação das vacinas
Faixa etária: livre
Dias: de 26 a 30 de março
Horários: de terça a sexta, às 9h, 10h30, 13h30 e 15h; sábado, às 10h10, 11h, 11h50, 12h40, 13h30, 14h20 e 15h10 (durante a visita ao Castelo)
Uma mostra de objetos antigos, que compõem o acervo museológico da Fiocruz, ajuda a contar a história da tecnologia das vacinas.

Termo... o quê?
Faixa etária: livre
Dias: de 26 a 30 de março
Horários: de terça a sexta, às 9h, 10h30, 13h30 e 15h; sábado, às 10h10, 11h, 11h50, 12h40, 13h30, 14h20 e 15h10 (durante a visita ao Castelo)
Venha desvendar os segredos de um antigo objeto do Castelo: o termocontrolador.


Autor: Museu da Vida/Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 27/03/2019
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/celebrando-o-cerebro-tem-nova-edicao-na-fiocruz

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Variação de atividades e estímulos protege cérebro do Alzheimer


Qualquer atividade que o indivíduo mantenha e que consiga ter uma alternância produzirá o aumento de proteínas, que são protetoras para o cérebro – Fotomontagem a partir dos subsídios gráficos com licença Creative Commons de atribuição Wikimedia Commons

.
Em recente estudo conduzido pela professora Tânia Viel, coordenadora do Grupo de Pesquisas em Neurofarmacologia do Envelhecimento (GPNFE) da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, foi constatado que o enriquecimento do ambiente pode proteger nosso cérebro do Alzheimer e melhorar a memória. A variação das atividades e estímulos inibe a formação de estruturas em nossos neurônios que prejudicam a comunicação entre essas células.

Por meio de testes em laboratório com camundongos, os pesquisadores observaram uma menor quantidade das chamadas “placas senis” em animais que conviviam em ambiente enriquecido, comparados aos que viviam em ambiente normal. Essas placas são aglomerados de peptídeos (conjuntos de aminoácidos) que agem de maneira danosa no cérebro, por meio da inflamação dos neurônios e, consequentemente, levam a sua destruição.

“Os benefícios foram constatados, inicialmente, pela melhora da memória espacial”, diz a professora Tânia. “Mas os melhores efeitos não foram evidenciados pelo comportamento, mas sim pela proteção do cérebro contra a agressão das placas senis.”

Foram usados nos testes dois conjuntos de camundongos, um controle, que habitava uma caixa apenas com comida e recebia como estímulo apenas a manipulação dos pesquisadores, e outra no chamado ambiente enriquecido. Esse segundo grupo recebia diferentes estímulos materiais e atividades, como novas decorações em seu ambiente e rodas de exercício.

A professora Tânia explica essa menor quantidade das placas senis como uma proteção do cérebro contra a doença de Alzheimer e que isso é de grande utilidade aos seres humanos. “O nosso ambiente enriquecido é justamente manter uma alternância entre trabalho e lazer.”


Segundo a pesquisadora, praticar atividade física, além de outras atividades do cotidiano como passear com o cachorro, manter uma vida cultural (teatro, cinema, shows, jogos), estudar ou sair para dançar, viajar, passear, fazem o ambiente ser mais enriquecido. “Qualquer atividade que o indivíduo mantenha e que consiga ter uma alternância produzirá o aumento de proteínas que são protetoras para o cérebro.”

Em estudo anterior, a professora já havia demonstrado que o enriquecimento ambiental traz benefícios à memória tanto no envelhecimento quanto já no estágio da velhice. A nova pesquisa comprovou que isso também procede em um modelo semelhante à doença de Alzheimer. “Qualquer pessoa, em qualquer fase da vida, pode começar a sua proteção cerebral; nunca é tarde.”

O artigo de autoria da professora Tânia foi publicado na revista Frontiers in Aging Neuroscience e pode ser lido no site da publicação.


Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 10/12/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-biologicas/variar-atividades-e-mudar-o-ambiente-protege-cerebro-do-alzheimer/

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Entenda como o ciclo menstrual afeta positivamente o cérebro das mulheres


Direito de imagem
GETTY IMAGES
Image caption

Algumas mulheres se sentem mais ansiosas no entorno do período menstrual - mas outros efeitos do ciclos são mais positivos

No começo, havia a "histeria". Dos médicos mágicos do Egito Antigo aos filósofos barbudos da Grécia Clássica, homens refletiram por milênios sobre essa condição. Os sinais reveladores eram extremamente amplos, incluindo ansiedade e fantasias eróticas, mas uma coisa era clara: só acontecia com as mulheres.

Platão acreditava que a histeria era causada pelo ventre de luto, que ficava triste quando não estava carregando um bebê. Seus contemporâneos disseram que isso surgia quando o órgão perambulava e, assim, acabava ficando preso em diferentes partes do corpo. Esta última crença persistiu até o século 19, quando o transtorno foi notoriamente tratado ao levar as mulheres ao orgasmo com os primeiros vibradores.

Até hoje, a noção de que a biologia feminina pode confundir seu cérebro é uma marca da cultura popular. Se a mulher está mal-humorada, perguntam-lhe se está na TPM; se está excitada sexualmente, dizem-lhe que deve estar ovulando.

Isso até tem fundamento - algumas mulheres realmente se sentem mais ansiosas e irritáveis durante o período menstrual, e é verdade que ficamos mais motivadas ao sexo quando o óvulo é liberado. (Mas claro, isso não quer dizer que os sintomas possam sempre, ou normalmente, ser explicados dessa maneira; é importante lembrar que a tendência de atribuir queixas de mulheres a condições como "histeria" pode ter consequências perigosas).
Impacto positivo

Mas o que não é muito conhecido é que o ciclo menstrual pode afetar o cérebro da mulher também de maneiras positivas.


Certas habilidades, como a noção espacial, melhoram logo depois da menstruação. Três semanas depois, elas estão significativamente melhores na comunicação - e, estranhamente, com mais capacidade de dizer aos outros que sentem medo. Por fim, durante parte do ciclo menstrual, o cérebro delas está inclusive maior. O que está acontecendo?

Em vez de úteros desgarrados, a principal fonte dessas mudanças são os ovários, que liberam estrogênio e progesterona em diferentes quantidades ao longo do mês. Os hormônios têm principalmente a função de engrossar a parede do útero e decidir quando liberar o óvulo. Eles também têm efeitos profundos no cérebro e no comportamento da mulher.


Direito de imagem
GETTY IMAGES
Image caption
Há variação hormonal sazonal no homem e mensal na mulher

Cientistas têm estudado o ciclo menstrual desde 1930. É um tema de pesquisa surpreendentemente popular. E agora sabemos que ele provoca vários efeitos peculiares, desde influenciar a capacidade de uma mulher de deixar de fumar até os tipos de sonhos que ela tem a cada noite.

Mas essa montanha de conhecimento não nasceu de um fascínio pela biologia feminina. Em vez disso, foi estimulado por um desejo de entender as formas nas quais homens e mulheres são diferentes - e os porquês.

Um exemplo dessa diferença está no cérebro. As diferenças físicas entre os sexos se estendem até esses órgãos enrugados, e cientistas suspeitaram por anos que isso ocorre por conta dos hormônios. "Nós basicamente saltamos sobre essas flutuações naturais de hormônios sexuais", diz Markus Hausmann, neurocientista da Universidade de Durham, no Reino Unido. "Essas variações podem surgir do ciclo menstrual nas mulheres, ou das flutuações sazonais nos níveis de testosterona nos homens. É uma experiência natural completa."
Habilidades sociais

Uma forma na qual mulheres diferem é que elas têm habilidades sociais mais desenvolvidas. Têm mais empatia e teoria da mente - a compreensão de que outros humanos devem ter perspectivas diferentes da nossa. Elas têm melhores habilidades de comunicação. Acredita-se que isso é parte da razão pela qual meninos têm quatro vezes mais chances de serem diagnosticados com autismo; as meninas são melhores em distinguir seus sintomas.

"As mulheres falam antes que os homens, elas são mais fluentes verbalmente, são até melhores em ortografia que homens", diz Pauline Maki, psicóloga da Universidade de Illinois, em Chicago.


Direito de imagem
GETTY IMAGES
Image caption

A mulher tem melhores habilidades verbais que homens, talvez um resultado evolutivo por precisar transmitir informações para seus filhos

Acredita-se que essa vantagem social evoluiu porque, há milhares de anos, mães articuladas eram melhores em transmitir informações vitais às crianças - tais como não comer certas plantas venenosas.

Mas há hormônios envolvidos? E se sim, quanto?
Equilíbrio hormonal

Em 2012, junto a colegas do Centro de Pesquisa de Gerontologia de Baltimore, Maki começou a investigar como a flutuação dos níveis de estrogênio afeta as habilidades das mulheres ao longo do ciclo menstrual. Cada participante foi avaliada duas vezes: uma logo após a menstruação, quando os níveis de estrogênio e progesterona estavam baixos, e outra uma semana após a ovulação, quando esses níveis estavam altos.

Era um estudo pequeno, envolvendo 16 mulheres que tiveram que completar uma séries de testes mentais. Mas os achados são impressionantes.

Durante os dias em que as participantes tinham mais hormônios femininos no organismo, elas ficavam piores em itens nos quais homens costumam ser bons (como senso espacial) e muito melhores em características que tendem ser mais pronunciadas em mulheres (como a habilidade de usar novas palavras). Quando os níveis de hormônios estavam baixos, o senso espacial era recuperado.


Direito de imagem
GETTY IMAGES
Image caption

Após a menstruação, mulheres melhoravam a noção de espaço - característica que homens tendem a performar melhor

Uma habilidade que melhorou quando a concentração de hormônios femininos era maior foi a "memória implícita", que Maki descreve como uma memória inconsciente e sem esforço. Ela dá um exemplo usando palavras com grafias e pronúncias similares em inglês: fare (tarifa) e fair (justo). Maki questiona: "se eu perguntasse qual foi sua última tarifa (fare) no Uber, foi menor ou maior que a tarifa do Lyft?" e depois perguntasse "como se soletra tarifa (fare)"? As pessoas provavelmente soletrariam tarifa (fare) em vez de justo (fair) porque em algum lugar no cérebro essa palavra foi codificada.

Essas memórias implícitas são importantes para o desenvolvimento das habilidades de comunicação. Elas são a razão por que usamos palavras desconhecidas ou expressões como "ele é tão obstinado", depois de ouvir alguém usá-las ou lê-las em algum artigo.


Direito de imagem
GETTY IMAGES
Image captionQuando as participantes tinham mais hormônios femininos, elas eram melhores em criar novas palavras

Como resultado, Maki pensa que essas mudanças mensais foram estimuladas principalmente pelo estrogênio.

O hormônio afeta duas regiões vizinhas do cérebro. A primeira é o hipocampo, responsável por guardar as memórias. Evidências vêm mostrando que essa região é vital para as habilidades sociais, já que lembrar suas próprias experiências pode ajudar a entender as motivações dos outros. A região fica maior a cada mês quando mais hormônios femininos estão fluindo.

A segunda é a amígdala, que ajuda a processar emoções, especialmente o medo e a decisão de "lutar ou correr". O que intriga é que a amígdala também é crucial para evitar deslizes sociais, porque entender por que a pessoa tem medo - e decidir se deveríamos tê-lo também - requer que olhemos o mundo a partir de sua perspectiva. Quando se tem essa habilidade, é possível usá-la em sua vantagem de outras formas, como fazendo julgamentos morais e contando mentiras.


Direito de imagem
GETTY IMAGES
Image caption

Independente do motivo de sua ocorrência, a transformação mensal do cérebro das mulheres poderia ser uma vantagem

A habilidade das mulheres de reconhecer medo aumenta juntamente aos níveis de estrogênio. Se o hormônio é responsável por essa percepção, ele também pode ajudar a explicar por que as mulheres tendem a ter melhores habilidades sociais em geral. A hipótese se apoia no fato de que mulheres com baixa produção de estrogênio não são boas em reconhecer o medo e tendem a ter poucas habilidades sociais.

Maki acha que a maior parte dos efeitos dos ciclos menstruais têm sobre nossas mentes são um simples acidente. Por anos, pesquisadores pensaram que mudanças mensais têm uma vantagem evolutiva, como as descobertas amplamente divulgadas de que mulheres preferem homens mais simétricos e masculinos quando estão em seu período mais fértil. Mas isso não é exatamente verdade - vários estudos de larga escala não conseguiram comprovar essa relação.
Poder do cérebro

Mas independente do motivo de sua ocorrência, a transformação mensal do cérebro das mulheres poderia ser uma vantagem.

A razão está em outra grande diferença entre cérebros masculino e feminino. O último tende a ser menos "lateralizado" - em vez de usar um lado do cérebro para completar uma tarefa, como resolver um problema de matemática, mulheres são mais propensas a usar ambos.

Essas divisões de direita-esquerda são relativamente estáveis. "Mais pessoas mostram um efeito lateralizado quando se trata das mãos", diz Hausmann. "Então, por exemplo, eu sou destro. Isso nos diz sobre onde a linguagem está localizada em meu cérebro. Mais destros têm a linguagem localizada no lado esquerdo do cérebro do que os canhotos". Essa especialização parece ser útil, já que a maioria das espécies - de peixes pulmonados (como uma enguia) a lagartos - têm cérebros desenvolvidos dessa forma.


Direito de imagem
GETTY IMAGES
Image caption

Mulheres são mais propensas a usar ambos os lados do cérebro, o que estimula a flexibilidade de pensamento

A razão pela qual os cérebros das mulheres são assim é um grande mistério. Mas isso também oscila. Em 2002, Hausmann descobriu que - assim como outros traços "femininos" - a tendência da mulher de usar ambos os lados do cérebro se torna mais evidente quando os níveis de estrogênio e progesterona aumentam a cada mês. Uma vantagem possível é que esses turnos permitem mais flexibilidade de pensamento.

"Quando pessoas têm um padrão diferente em seus cérebros ao longo do mês, com eles se tornando mais ou menos lateralizados, isso pode levar a diferentes estratégias de como resolver um problema específico", diz Hausmann. "Então as pessoas que dependem mais do lado esquerdo podem solucionar problemas de uma maneira mais lógica, e as pessoas que usam mais o hemisfério direito devem se apoiar mais em processos holísticos quando tentam resolver uma tarefa".

A próxima vez que alguém perguntar se você está na TPM, você pode dizer que sim - mas isso não é necessariamente uma coisa ruim.




Autor: BBC News Brasil
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 13/10/2018
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-45766720