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quarta-feira, 24 de julho de 2019

Cientistas rebatem decisões do governo tomadas sem sustentação factual ou científica

Em meio a ataques, Coalizão Ciência e Sociedade usa ciência para contrapor visão socioambiental do governo

Por Ivanir Ferreira, Jornal da USP

m um movimento crescente de união da comunidade científica brasileira, em meio aos ataques recebidos, pesquisadores constituíram o grupo Coalizão Ciência e Sociedade. O objetivo é oferecer informações e subsidiar políticas com embasamento científico, a fim de permitir discussões sobre tomadas de decisões e rebater colocações de gestores do governo que consideram ditas em tom evasivo, sem profundidade e desprovidas de sustentação factual ou científica. O grupo, que inclui pesquisadores da USP, também irá contrapor posicionamentos, leis e medidas socioambientais sem fundamentação científica. Os pesquisadores atuam por meio da divulgação de documentos e textos subscritos pelos membros na mídia especializada e de massa. Também participam de comissões e eventos no Congresso Nacional e mantêm interlocuções com deputados de variados espectros políticos.


Alexandre Turra – Foto: Divulgação IEA

Em entrevista ao Jornal da USP, alguns dos membros falam sobre sua participação no grupo Coalizão Ciência e Sociedade e dão mais detalhes sobre as manifestações e o que estão denunciando.

Alexander Turra, pesquisador do Instituto Oceanográfico (IO) da USP e responsável pela Cátedra Unesco para Sustentabilidade dos Oceanos, tem sua atuação voltada para a integração entre o conhecimento científico e a tomada de decisão de temas relacionados à ecologia marinha, lixo no mar e mudanças climáticas. Turra afirma que o grupo trabalha em diversas frentes e lembra que, no momento, estão discutindo uma ação estratégica para contrapor um evento que será promovido pelo Senado Federal no segundo semestre, convocando cientistas brasileiros e do exterior que contestem o aquecimento global. “É o Senado dando legitimidade a pessoas que se autointitulam como cientistas.” Uma das possibilidades aventadas pelo grupo seria fazer outro evento paralelo no mesmo dia e horário na Academia Brasileira de Ciências (ABC), diz.
Ciência e educação como ponto em comum

Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física (IF) da USP e membro permanente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), já há vários anos tem sua atuação voltada para as questões da mudanças climáticas e da política ambiental.


Paulo Artaxo, um dos indicados ao prêmio – Foto: Francisco Emolo/USP Imagens

Ele diz que o grupo, composto de 50 pesquisadores, tem uma grande diversidade de temas de trabalho e congrega os cientistas mais ativos nas várias áreas do conhecimento. Há, porém, uma preocupação que os une: a luta em prol da ciência e da educação pública.

O pesquisador considera importante “que as pessoas se mobilizem e reajam aos desmandos que estão ocorrendo no governo” e acredita que o debate deva chegar às ruas. Uma voz crítica aos cortes orçamentários da educação e da ciência, Artaxo diz que o grupo Coalizão Ciência e Sociedade vem se articulando para combater o desmonte da estrutura socioambiental.

A professora Mercedes Maria da Cunha Bustamante, da Universidade de Brasília (UnB), é a atual coordenadora do grupo, embora diga que está nessa condição para operacionalizar as demandas, já que o espaço “é aberto para o debate de todos”. Até porque, devido à repercussão das ações da rede, tem havido interesse de participação de cientistas de outras regiões.

O movimento, que começou a atuar no início de 2019, ainda não teve sua criação oficializada. “A ideia é divulgar informações científicas de forma clara, em linguagem acessível, bem fundamentada e desvinculada de interesse particular e dogmático, para promover diálogos mais aprofundados”, afirma a professora Gabriela M. di Giúlio, da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP. Segundo a pesquisadora, há iniciativas semelhantes em outros países.

A rede de cientistas é quase que um observatório do que vem sendo discutido, proposto e manifestado sobre questões socioambientais, diz Gabriela. Na medida em que se percebe que há retrocessos no que está sendo colocado, que há inverdades sendo divulgadas ou que há um movimento de não consideração ou de desconstrução do conhecimento técnico-científico que existe, essa rede de pesquisadores se mobiliza rapidamente e tenta produzir artigos para emplacar em diferentes mídias para sinalizar publicamente os agravos, consequências e impactos negativos se determinada discussão ou decisão for adiante.

A interação do grupo acontece via internet, por meio de troca de e-mails, a partir da repercussão de medidas governamentais. Em seguida, eles analisam o que foi anunciado e os impactos sociais do que foi proposto. Se consideram importante, redigem em produção coletiva uma resposta e procuram meios para divulgar o material nos mais diversos canais de comunicação: jornais, sites e revistas de grande circulação e em mídias de órgãos acadêmicos. Alguns assuntos também chegam a eles por meio do monitoramento da mídia, explica Marcia Cristina Mendes Marques, pesquisadora da Universidade Federal do Paraná.

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Mercedes Bustamante – Foto: Divulgação/UnB

Segundo a professora Mercedes, o grupo dialoga também com as Comissões de Meio Ambiente do Senado e da Câmara Federal e participa de audiências públicas. De lá, saiu outra manifestação contra a Medida Provisória 867/2018 sobre mudanças climáticas e do código florestal do poder Executivo, que dispõe sobre a extensão do prazo de adesão ao Programa de Regulamentação Ambiental (PRA).

Para Alexander Turra, do Instituto Oceanográfico, as posições do grupo têm sido respeitadas porque, embora defendam argumentos contrários aos apresentados pelo governo, as manifestações do Coalização Ciência e Sociedade “são isentas, equilibradas e sem influência político-partidária”. Ele acredita que o grupo tenha potencial de gerar mudanças sociais.
Desmatamento e ataques ao Inpe


Desmatamento na região da Amazônia – Mapa: Reprodução INPE

Pelo monitoramento das mídias, um dos assuntos que foram altamente debatidos foi o desmatamento da Amazônia. Em entrevista à BBC News, em 3 de julho deste ano, o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, do Gabinete de Segurança Institucional, questionou dados sobre o desmatamento da Amazônia dizendo que as informações existentes eram manipuladas. Contestando a declaração do general, o Coalização Ciência e Sociedade escreveu uma declaração sob o título O governo e o desmatamento: a negação como mecanismo de defesa, publicada no site da Academia Brasileira de Ciências (ABC). No texto, o grupo diz que a psicanálise define a negação como um mecanismo de defesa que se manifesta pela recusa em reconhecer que um evento tenha ocorrido. Refuta o descrédito do governo em relação à comunidade científica brasileira e destaca trabalhos desenvolvidos nesta área, produzidos por institutos de pesquisa e universidades públicas. Finaliza dizendo que o mundo todo é capaz, por meio de uma constelação ampla de satélites com alta resolução e frequência de imageamento, de avaliar o desmatamento da Amazônia e dos demais biomas brasileiros. Por fim, afirma não entender como dirigentes negam dados reais e fundamentados cientificamente.

Poucos dias após a publicação da declaração o tema voltou à mídia, com o ataque ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), seu trabalho e direção, feito em entrevista do presidente da República Jair Messias Bolsonaro à imprensa internacional . O ataque foi respondido por diversos membros da comunidade científica, e o Conselho da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) deliberou por unanimidade manifestar seu apoio integral ao Inpe e seu diretor, Ricardo Galvão, face às críticas.

Também a ABC novamente se manifestou “em defesa da excelência do trabalho científico e tecnológico realizado pelo Inpe”. Em nota, o presidente da ABC e membro da Academia Mundial de Ciências Luiz Davidovich afirma que o Inpe “é orgulho do País, realiza trabalho de excelência e os ataques a sua credibilidade científica atacam também toda a comunidade de pesquisadores do Brasil e a soberania nacional”.

Segundo o Inpe, que observa e monitora por meio de imagens a derrubada da floresta, o desmatamento na Amazônia cresceu, em junho deste ano, quase 60% em relação ao mesmo mês de 2018. Saiu de 488,4 quilômetros quadrados (km²) para 762,3 km² de mata nativa.
Coalizão Ciência e Sociedade
(em ordem alfabética)

Adalberto Luis Val (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia)

Alexandre Turra (Universidade de São Paulo)

Blandina Felipe Viana (Universidade Federal da Bahia)

Carlos Afonso Nobre (Instituto de Estudos Avançados – Universidade de São Paulo)

Carlos Alfredo Joly (Universidade Estadual de Campinas)

Catia Nunes da Cunha (Universidade Federal de Mato Grosso)

Cristiana Simão Seixas (Universidade Estadual de Campinas)

Cristina Adams (Universidade de São Paulo)

Daniele Vila Nova (Painel Mar)

Eduardo José Viola (Universidade de Brasília)

Enrico Bernard (Universidade Federal de Pernambuco)

Erich Arnold Fischer (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul)

Fabio Rubio Scarano (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

Francisca Soares de Araujo-(Universidade Federal do Ceará)

Gabriela Marques di Giulio (Universidade de São Paulo)

Geraldo Wilson Fernandes (Universidade Federal de Minas Gerais)

Gerd Sparovek (Universidade de São Paulo)

Gerhard Ernst Overbeck (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

Gislene Maria da Silva Ganade (Universidade Federal do Rio Grande do Norte)

Gustavo Romero (Universidade Estadual de Campinas)

Helder Lima de Queiroz (Instituto Mamirauá)

Helena de Godoy Bergallo (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

Ima Célia Guimarães Vieira (Museu Paraense Emilio Goeldi)

Jean Paul Walter Metzger (Universidade de São Paulo)

Jean Pierre Ometto (Centro de Ciência do Sistema Terrestre/Inpe)

Joice Nunes Ferreira (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária)

José Alexandre Felizola Diniz Filho (Universidade Federal de Goiás)

José Antonio Marengo Orsini (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais)

José Sabino (Universidade Anhanguera – Uniderp, MS)

Leandra Gonçalves (Universidade de São Paulo)

Leonor Costa Maia (Universidade Federal de Pernambuco)

Leopoldo Cavaleri Gerhardinger (Associação de Estudos Costeiros e Marinhos dos Abrolhos – Ecomar)

Leticia Couto Garcia (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul)

Ludmilla Moura de Souza Aguiar (Universidade de Brasília)

Luiz Antonio Martinelli (Universidade de São Paulo)

Marcelo Tabarelli (Universidade Federal de Pernambuco)

Marcia Cristina Mendes Marques (Universidade Federal do Paraná)

Margareth da Silva Copertino (Universidade Federal do Rio Grande)

Maria Alice dos Santos Alves (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

Maria Manuela Ligeti Carneiro da Cunha (Uni Chicago)

Maria Teresa Fernandez Piedade (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia)

Mercedes Maria da Cunha Bustamante (Universidade de Brasília)

Michele Dechoum (Universidade Federal de Santa Catarina)

Paulo Eduardo Artaxo Netto (Universidade de São Paulo)

Pedro Luís Bernardo da Rocha (Universidade Federal da Bahia)

Rafael Dias Loyola (Universidade Federal de Goiás e Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável)

Renato Sérgio Balão Cordeiro (Instituto Osvaldo Cruz)

Ricardo Bomfim Machado (Universidade de Brasília)

Ricardo Ribeiro Rodrigues (Universidade de São Paulo)

Rômulo Simões Cezar Menezes (Universidade Federal de Pernambuco)

Ronaldo Bastos Francini Filho (Universidade Federal da Paraíba)

Sergio Ricardo Floeter (Universidade Federal de Santa Catarina)

Sidinei Magela Thomaz (Universidade Estadual de Maringá)

Tatiana Maria Cecy Gadda (Universidade Federal Tecnológica do Paraná)

Thomas Michael Lewinsohn (Universidade Estadual de Campinas)

Valério De Patta Pillar (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

Reportagem: Caio Santana e Ivanir Ferreira



Do Jornal da USP, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 24/07/2019




Autor: Jornal da USP
Fonte: Ecodebate
Sítio Online da Publicação: Ecodebate
Data: 24/07/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/07/24/cientistas-rebatem-decisoes-do-governo-tomadas-sem-sustentacao-factual-ou-cientifica/

terça-feira, 16 de abril de 2019

Cientistas de Brasil e Holanda empregam algas unicelulares do gênero Chlorella na gestão de resíduos gerados no tratamento de esgoto

Algas são usadas para despoluir esgoto e produzir adubo

Uma parceria entre pesquisadores brasileiros e holandeses está mostrando que é possível transformar a chamada água negra – fração mais “pesada” do esgoto doméstico, composta basicamente de uma mistura pouco diluída de fezes e urina que vem do vaso sanitário – em uma espécie de fazenda de algas.

Jornal da USP

Ao crescer com a ajuda dos nutrientes desse efluente, as algas unicelulares do gênero Chlorella ajudam a despoluir o líquido e, ao mesmo tempo, produzem quantidades apreciáveis de biomassa, que poderia ser usada in natura ou processada como adubo.

Os resultados do trabalho até agora foram apresentados no início de setembro, durante workshop realizado na Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP, com a presença de pesquisadores dos dois lados do Atlântico. Do lado brasileiro, a parceria recebe financiamento da Fapesp, enquanto a contrapartida europeia do fomento vem da Organização Holandesa para Pesquisa Científica (NWO). Com duração de quatro anos, o projeto colaborativo está programado para terminar em janeiro de 2018.

Segundo Luiz Antonio Daniel, professor do Departamento de Hidráulica e Saneamento da EESC e um dos coordenadores da parceria, o objetivo é resolver o problema de gestão de resíduos que hoje é gerado pelo próprio processo de tratamento de esgoto.

Ele explica que as fezes e a urina despejadas pelas descargas dos vasos sanitários têm entre seus principais componentes o carbono da matéria orgânica, nitrogênio e fósforo. Se forem lançados nos mananciais em grande quantidade, tanto o nitrogênio quanto o fósforo podem provocar eutrofização, ou seja, o crescimento excessivo de microrganismos aquáticos (em especial algas), levando a desequilíbrios potencialmente sérios da comunidade de seres vivos na água – além de carregar, é claro, possíveis organismos causadores de doenças.

“No processo de tratamento de esgoto mais comum hoje, é necessário usar produtos químicos para remover o fósforo da água, e o que sobra é um lodo que tem pouca aplicabilidade – de acordo com a legislação em alguns Estados brasileiros, não se pode usá-lo como fertilizante na agricultura, por exemplo”, explica Daniel. “O lodo, então, acaba indo para aterros sanitários, ou seja, é preciso um gasto considerável apenas para se livrar dele.”
De volta ao ciclo fechado

Nem sempre foi assim, porém. Em sua apresentação durante o workshop, a holandesa Grietje Zeeman, Professora Emérita da Universidade de Wageningen, mostrou fotos do sistema de coleta de dejetos humanos em barris, que vigorou em seu país nos séculos 19 e 20 (e que só foi desativado totalmente no começo dos anos 1980).

Fezes e urina recolhidas em contextos domiciliares ajudavam a adubar as plantações da Holanda daquela época. “Com o nosso sistema de hoje, que pode ser chamado de flush and forget [algo como ‘dar descarga e esquecer’], esse ciclo de reaproveitamento de nutrientes foi rompido. A nossa ideia é fechar o ciclo novamente”, explica Zeeman.

Para alcançar essa meta, o primeiro passo é descentralizar consideravelmente a coleta de esgoto, de modo a evitar que ocorra uma grande diluição da água negra – e dos nutrientes carregados pelas fezes e urina.
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Algas são usadas para despoluir esgoto e produzir adubo – Foto: CC0 Creative Commons

“Não seria necessário descentralizar excessivamente, com um sistema de tratamento de esgoto para cada residência ou prédio – podemos pensar em unidades que sirvam a alguns milhares de habitantes, até cerca de 10 mil”, estima Daniel.

“Como cerca de 50% dos municípios brasileiros têm menos de 10 mil habitantes, e apenas um quarto deles possui sistemas de tratamento de esgoto, seria possível preparar muitos locais para adotar esse conceito desde o início.”

Nos reatores testados pela equipe, as algas Chlorella se valem do nitrogênio e do fósforo da água negra, bem como dos micronutrientes presentes nos dejetos humanos, para se multiplicar. O passo seguinte – recolher as camadas de micróbios que cresceram no líquido – pode ser feito de duas maneiras, conta o pesquisador da USP.

“Na Holanda, eles usam muito a sedimentação, na qual um polímero faz as algas sedimentarem e elas podem ser coletadas do fundo do reator. Aqui, temos trabalhado com a flotação: injetamos ar comprimido no líquido, formam-se bolhas na superfície contendo as algas que sobem para a superfície, e o braço de um raspador mecanizado vai recolhendo essa biomassa e a leva para uma canaleta”, disse Daniel.

Justamente por terem absorvido o nitrogênio e o fósforo da água negra, as algas são ricas nesses elementos, que são essenciais para a adubação em escala industrial aplicada hoje. Para aproveitar esse potencial, também é preciso trabalhar em métodos eficientes de secagem da biomassa, explica Daniel – se forem armazenadas na forma úmida, as células das algas podem acabar se rompendo, “derramando” justamente os nutrientes que deveriam ser aproveitados no fim do processo.

A parceria com a equipe da Holanda, segundo o pesquisador brasileiro, tem sido muito útil do ponto de vista comparativo. Levando em conta as diferentes condições climáticas de cada país, é possível pensar em maneiras de otimizar a produção de algas dependendo do contexto.

“Lá, por exemplo, eles não têm sol o ano inteiro, como temos por aqui, nem o calor intenso do Brasil, que às vezes até atrapalha o crescimento das algas”, exemplifica Daniel. “Por isso mesmo, o modelo de reator holandês que nós testamos na USP acaba esquentando demais. Para chegar a uma escala maior, devemos fazer vários ajustes.”

Otimizar todo o processo para que ele funcione em escala industrial é o próximo passo dos estudos. Testes de campo devem ser realizados na Estação de Tratamento de Esgoto do Monjolinho, em São Carlos.

Uma vantagem do uso das Chlorella no processo é que as algas já estão presentes na natureza e não necessitam de modificações genéticas para cumprir seu papel. Portanto, não deve haver problemas relacionados à liberação do esgoto tratado em rios e lagos.

“Se você deixar uma amostra de esgoto ao ar livre, naturalmente ela vai ser colonizada – vai ficar verde”, explica Daniel. Para ele, é importante passar a encarar a água negra e outros eflúvios como potenciais recursos.

Mais informações sobre o workshop Recovering nutrients and carbon from concentrated black water – a sustainable decentralized approach for wastewater treatment, que marcou as mais recentes discussões do projeto, podem ser acessadas no site da EESC.

Reinaldo José Lopes / Agência Fapesp, com edição do Jornal da USP

Do Jornal da USP, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/04/2019




Autor: Jornal da USP
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 16/04/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/04/16/cientistas-de-brasil-e-holanda-empregam-algas-unicelulares-do-genero-chlorella-na-gestao-de-residuos-gerados-no-tratamento-de-esgoto/

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Tese descreve ação da molécula que permite a fecundação das plantas


Flores reúnem tanto parte feminina quanto masculina do sistema reprodutivo das plantas. Fertilização começa quando o grão de pólen encontra a parte feminina e germina – Foto: Marie-Lan Nguyen / Wikimedia Commons / CC-BY 2.5


Assim como os animais, as plantas também dependem de hormônios para crescerem e se reproduzirem. Um grupo desses hormônios era conhecido dos pesquisadores do Laboratório de Bioquímica de Proteínas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, por suas funções nas raízes das plantas quando a bióloga Tabata Bergonci topou a tarefa de explicar o que eles faziam também nos tecidos do sistema reprodutivo. Os resultados foram a descrição inédita da atividade de quatro peptídeos – pequenas cadeias de aminoácidos, menores do que uma proteína – nesses tecidos e a descoberta de que um deles é fundamental para permitir a fecundação das plantas.


A pesquisadora Tabata Bergonci fez parte do doutorado nos EUA – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

A tese de Tabata, intitulada “Peptídeos RALF em tecido reprodutivo: caracterização e efeito dos AtRALF 4, 25, 26 e 34”, foi contemplada com o prêmio Tese Destaque USP 2018 e rendeu um artigo publicado na revista Science, em dezembro do ano passado. O artigo combinou os resultados apresentados na tese de Tabata com o trabalho de pesquisadores de China, Estados Unidos, México e Alemanha.

Na maioria das plantas, as flores reúnem tanto a parte reprodutiva feminina quanto a masculina. A parte feminina se encontra no centro da flor e a masculina é identificada pelos estiletes com pólen na ponta. A reprodução começa quando o grão de pólen – masculino – encontra o “órgão” reprodutor feminino. A partir desse encontro, o grão de pólen germina e se alonga para o interior do órgão feminino, formando uma estrutura chamada tubo polínico, até encontrar o óvulo. O professor Daniel Scherer Moura, que orientou Tabata no doutorado do Programa de Pós-Graduação em Genética e Melhoramento de Plantas da Esalq, conta que a história da pesquisa começou quando um aluno da graduação observou, em seu trabalho de iniciação científica, a presença de grande quantidade de peptídeos RALF (Fator de Alcalinização Rápida, na sigla em inglês) nas estruturas reprodutivas das flores.

O problema era que, até então, sabia-se apenas que os peptídeos desse grupo atuavam como inibidores da expansão celular nas raízes da planta. “A pergunta que eu passei para minha aluna responder foi justamente esta: em primeiro lugar, por que em tecidos reprodutivos nós temos inúmeros desses peptídeos e por que eles são produzidos em tamanha quantidade num tecido que, teoricamente, quer crescer? Ele não precisa ser inibido na sua expansão, ele quer justamente o contrário”, diz Moura. “O que nos chamou a atenção é que metade dos RALFs da planta estavam nos tecidos reprodutivos e eram muito expressos, quando comparávamos com outros (tecidos)”, conta Tabata.







































O “camundongo” das plantasArabidopsis thaliana tem ciclo de vida curto e genoma sequenciado – Foto: Million Moments/Wikimedia Commons

Para responder à questão, a bióloga trabalhou no Laboratório de Bioquímica de Proteínas com plantas da espécie Arabidopsis thaliana como modelo. Considerada “o camundongo das plantas”, a Arabidopsis é uma das espécies botânicas que os cientistas melhor conhecem. O genoma da planta já foi totalmente sequenciado e seu ciclo de vida curto, que costuma durar de 30 a 45 dias, permite aos pesquisadores realizar e repetir muitos experimentos em pouco tempo. Por outro lado, o tamanho da planta dificulta o estudo do sistema reprodutivo: ela cresce até 20 ou 25 centímetros de comprimento e as flores têm menos de um centímetro.

Os peptídeos RALF são produzidos a partir das instruções contidas em genes específicos das plantas. Tabata clonou os genes dos peptídeos de interesse em bactérias E. colipara poder isolar as moléculas que estava estudando. “É o que a gente chama de produção heteróloga, porque é em outro sistema. Em vez de produzir o RALF na planta e isolar da planta, eu faço a bactéria produzir para mim. E ela produz em grandes quantidades, porque eu clono exatamente num lugar (do DNA) da bactéria que é para produzir grandes quantidades (de proteínas)”, explica a pesquisadora.

Na sequência, ela utilizou os peptídeos isolados em soluções com diferentes concentrações em placas nas quais cultivou tubos polínicos em um meio de cultura. Os experimentos in vitro realizados em Piracicaba, porém, traziam muitos resultados negativos. “Tínhamos poucas técnicas para crescer pólen. A gente tinha resultados bonitos (com microscópio) confocal, mas isso é só bonito visualmente, você não publica nada sem explicar o que o RALF está fazendo lá. A gente tinha que entender e eu passei dois anos sem saber”, conta a autora da tese.

A situação mudou depois que a professora Alice Cheung, da Universidade de Massachusetts (UMass) em Amherst, nos Estados Unidos, enviou um convite para o laboratório. Tabata Bergonci conseguiu uma bolsa do programa Ciência Sem Fronteiras para fazer parte do doutorado no exterior e arrumou as malas para passar um ano em Amherst. Lá, ela ensinou aos novos colegas como produzir peptídeos em grande quantidade a partir de uma bactéria e aprendeu com Cheung uma técnica semi in vivo para experimentos com sistema reprodutivo de plantas. A técnica consiste, basicamente, em fazer um corte na flor para que o pólen germine na estrutura natural da planta, mas se alongue para dentro de um meio de cultura.



Pesquisadores descobrem detalhe que permite a fecundação das plantas

Nos experimentos com a técnica de Cheung, Tabata conseguiu observar que os peptídeos RALF 4, 25 e 26 limitavam um pouco o crescimento dos tubos polínicos, cumprindo uma função de manutenção da integridade da estrutura. A grande surpresa veio com o RALF 34. Ainda em Massachusetts, ela pingou uma gota desse peptídeo no tubo polínico e o viu romper. “Eu apliquei uma concentração muito alta. Então, eu diminuí a concentração até a condição fisiológica, que seria a concentração que ocorre na planta realmente, e vi que (o rompimento) continuava acontecendo”, conta a pesquisadora.



Como o RALF 34 é um peptídeo da parte reprodutiva feminina da planta, a descoberta permitiu concluir que ele é a molécula responsável pela fecundação. Assim, os peptídeos RALF 4, 25 e 26 mantém a integridade do tubo polínico até atingir o ovário, onde o RALF 34 entra em ação. Desta forma, o DNA dos núcleos espermáticos é preservado até o encontro com o óvulo. “A gente sabia que existia toda uma sinalização na ponta do tubo polínico quando chega ao óvulo, que faz ele romper. Ele precisa romper para liberar as células espermáticas e essa fecundação acontecer. Mas a gente não sabia qual era o sinal, ninguém sabia. Descobrir qual é a molécula que faz essa fecundação poder acontecer em todas as plantas é com certeza a melhor descoberta”, afirma a bióloga.

O artigo publicado na Science incluiu os resultados da pesquisa com os RALF 4 e 34 e dá um passo além da pesquisa de doutorado de Tabata. É uma história posterior à defesa da tese na Esalq, que aconteceu em agosto de 2016. Segundo Moura, a história começou a se fechar graças à descoberta da atividade biológica descrita pela pesquisadora.




Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 07/12/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-agrarias/tese-descreve-acao-da-molecula-que-permite-a-fecundacao-das-plantas/

Variação de atividades e estímulos protege cérebro do Alzheimer


Qualquer atividade que o indivíduo mantenha e que consiga ter uma alternância produzirá o aumento de proteínas, que são protetoras para o cérebro – Fotomontagem a partir dos subsídios gráficos com licença Creative Commons de atribuição Wikimedia Commons

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Em recente estudo conduzido pela professora Tânia Viel, coordenadora do Grupo de Pesquisas em Neurofarmacologia do Envelhecimento (GPNFE) da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, foi constatado que o enriquecimento do ambiente pode proteger nosso cérebro do Alzheimer e melhorar a memória. A variação das atividades e estímulos inibe a formação de estruturas em nossos neurônios que prejudicam a comunicação entre essas células.

Por meio de testes em laboratório com camundongos, os pesquisadores observaram uma menor quantidade das chamadas “placas senis” em animais que conviviam em ambiente enriquecido, comparados aos que viviam em ambiente normal. Essas placas são aglomerados de peptídeos (conjuntos de aminoácidos) que agem de maneira danosa no cérebro, por meio da inflamação dos neurônios e, consequentemente, levam a sua destruição.

“Os benefícios foram constatados, inicialmente, pela melhora da memória espacial”, diz a professora Tânia. “Mas os melhores efeitos não foram evidenciados pelo comportamento, mas sim pela proteção do cérebro contra a agressão das placas senis.”

Foram usados nos testes dois conjuntos de camundongos, um controle, que habitava uma caixa apenas com comida e recebia como estímulo apenas a manipulação dos pesquisadores, e outra no chamado ambiente enriquecido. Esse segundo grupo recebia diferentes estímulos materiais e atividades, como novas decorações em seu ambiente e rodas de exercício.

A professora Tânia explica essa menor quantidade das placas senis como uma proteção do cérebro contra a doença de Alzheimer e que isso é de grande utilidade aos seres humanos. “O nosso ambiente enriquecido é justamente manter uma alternância entre trabalho e lazer.”


Segundo a pesquisadora, praticar atividade física, além de outras atividades do cotidiano como passear com o cachorro, manter uma vida cultural (teatro, cinema, shows, jogos), estudar ou sair para dançar, viajar, passear, fazem o ambiente ser mais enriquecido. “Qualquer atividade que o indivíduo mantenha e que consiga ter uma alternância produzirá o aumento de proteínas que são protetoras para o cérebro.”

Em estudo anterior, a professora já havia demonstrado que o enriquecimento ambiental traz benefícios à memória tanto no envelhecimento quanto já no estágio da velhice. A nova pesquisa comprovou que isso também procede em um modelo semelhante à doença de Alzheimer. “Qualquer pessoa, em qualquer fase da vida, pode começar a sua proteção cerebral; nunca é tarde.”

O artigo de autoria da professora Tânia foi publicado na revista Frontiers in Aging Neuroscience e pode ser lido no site da publicação.


Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 10/12/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-biologicas/variar-atividades-e-mudar-o-ambiente-protege-cerebro-do-alzheimer/

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Cafeína reduz sensação de fadiga e melhora desempenho de ciclistas


A cafeína foi administrada em cápsulas e os ciclistas ingeriram uma dosagem referente à massa corporal de cada um, sendo que foi administrado individualmente 5 mg/kg – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Estudo realizado na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP indica que a cafeína é capaz de atenuar e reverter a sensação de fadiga mental e ainda melhorar o desempenho de atletas de ciclismo. Atualmente o cansaço mental não está presente apenas na vida de pessoas com rotina agitada por diversas atividades, mas também faz parte do dia a dia de atletas.

Segundo a pesquisa de Paulo Estevão Franco Alvarenga, os atletas com fadiga mental acabam perdendo desempenho e possuem aumento na percepção de esforço para a mesma intensidade de exercício, sem nenhuma alteração fisiológica na musculatura. Dessa forma, surgiu o interesse de estudar possíveis manipulações que revertam os efeitos da fadiga mental sobre o desempenho de ciclistas.

Iniciado em 2016, o projeto de mestrado Efeitos da ingestão de cafeína sobre o desempenho de ciclistas mentalmente fadigados durante um teste de ciclismo contrarrelógio de 20 km mostrou que “a cafeína é um recurso ergogênico com efeito potencial para reverter os efeitos da fadiga mental sobre o desempenho”, afirma Paulo Estevão, que teve orientação do professor Flávio Pires, coordenador do Grupo de Estudos em Psicofisiologia do Exercício (GEPsE) da EACH.

Previamente selecionados, os ciclistas foram ao Laboratório de Ciências da Atividade Física por quatros vezes e se submeteram ao teste de contrarrelógio de 20 km, análise cortical e muscular. Havia uma amostra de ciclistas livres de qualquer manipulação, outra amostra sob o efeito de fadiga mental e nas seguintes os indivíduos mentalmente fadigados faziam a ingestão de cafeína ou placebo.



De acordo com o estudo, os ciclistas mentalmente fadigados apresentaram uma redução de 4,8% na ativação do córtex pré-frontal e consequentemente aumentaram o tempo para concluir o contrarrelógio em aproximadamente 1%. No entanto, ao ingerir cafeína, mesmo após a indução da fadiga mental, houve um aumento na ativação do córtex pré-frontal em aproximadamente 8% e redução no tempo de conclusão do teste em 1,8%. “Portanto, os sujeitos ao ingerir cafeína perceberam menos esforço comparados com as demais condições. Além disso, com a ingestão de cafeína, eles apresentaram uma maior eficiência neuromuscular”, destaca Paulo.

O estudante ressalta que, mesmo já sendo consumida em nosso cotidiano quando nos sentimos mentalmente cansados, por meio de ingestão de café, por exemplo, a cafeína deve ser utilizada para atletas sob orientação de um nutricionista, respeitando as características de dosagem e tempo de efeito da substância.

O projeto de mestrado contou também com a colaboração da professora Florentina Hettinga, da University of Essex, Inglaterra; de pesquisadores pós-doc e alunos de mestrado da EACH e de alunos de graduação da Faculdade de Ensino Superior de Bragança, em Bragança Paulista (SP).

Natália Dourado/Assessoria de Comunicação da EACH




Autor: Natália Dourado
Fonte: Assessoria de Comunicação da EACH
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 25/10/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-da-saude/cafeina-reduz-sensacao-de-fadiga-e-melhora-desempenho-de-ciclistas/

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Rio Pinheiros ganhará teste com nanobolhas para combater poluição


Teste na zona sul de São Paulo não terá uso de produto químico nem geração de resíduos – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

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Uma pesquisa da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP irá analisar a eficiência da aplicação da tecnologia de nanobolhas para a melhoria da qualidade da água do Rio Pinheiros, em São Paulo. Os testes serão realizados em dois canais da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae) localizados junto à Usina Elevatória de Traição e devem começar em cerca de dois meses, quando a montagem do equipamento estará completa.

“As nanobolhas já vêm sendo utilizadas em outros países com muito sucesso na despoluição de águas superficiais”, diz a engenheira Paula Vilela, citando o caso do lago El Cascajo, em Chancay, no Peru. “Ela (a tecnologia) pode ser utilizada em qualquer sistema de aeração artificial de meios aquáticos”, completa.


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Paula realiza a pesquisa no pós-doutorado junto ao Departamento de Saúde Ambiental da FSP, sob orientação do professor Pedro Caetano Mancuso. Ela utilizará um gerador que produz nanobolhas em dimensões inferiores a 50 nanômetros – o que equivale a 0,00005 milímetros. Além do tamanho diminuto, as nanobolhas se comportam de maneira diferente das bolhas visíveis a olho nu. Elas não flutuam em direção à superfície nem se rompem rapidamente. Podem durar por várias horas ou até alguns meses. Deslocam-se com menor velocidade e são mais estáveis do que as bolhas maiores.


Para realização dos testes, o gerador de nanobolhas será integrado a uma bomba centrífuga, uma cápsula geradora de ozônio e um painel de comandos elétricos. “Não existe uso de produto químico nem geração de resíduos”, afirma Paula. As nanobolhas produzidas por esse tipo de sistema costumam ser feitas de ar, gás oxigênio ou ozônio. A engenheira espera observar a depuração dos contaminantes como próprio resultado do movimento das nanobolhas.

Antes de ligar o gerador de nanobolhas, os pesquisadores irão coletar a água do rio para fazer novas análises laboratoriais. Uma vez que o equipamento estiver em funcionamento, essas análises serão feitas semanalmente nos canais, para monitorar mudanças nas condições da água. Paula também quer verificar detalhadamente o efeito da tecnologia sobre as máquinas do sistema de bombeamento da usina, que são prejudicadas pelo lodo e os materiais sólidos. A ideia é verificar se o uso das nanobolhas é capaz de melhorar as condições de operação das máquinas.

Segundo a engenheira, testes preliminares realizados em abril de 2017 superaram as expectativas dos pesquisadores. Após o uso do gerador de nanobolhas, a água antes carregada de poluição ficou sem odor e sem cor. As análises laboratoriais revelaram, ainda, outros resultados positivos, com significativa redução de contaminantes.




Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 24/10/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-da-saude/rio-pinheiros-ganhara-teste-com-nanobolhas-para-combater-poluic/

Livro faz críticas às práticas midiáticas em contexto de desigualdade social

Foi lançado em setembro o livro Emergências periféricas em práticas midiáticas, organizado por Rosana de Lima Soares, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, e Gislene Silva, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).


O e-book é resultado de um trabalho de estudos em Cultura Midiática – Metacrítica de pesquisadores da USP, Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais e da UFSC. Os treze artigos propõem o pensar das emergências periféricas – como urgência e como insurgência – em múltiplas práticas midiáticas e contextos de desigualdades. Em suas “ausências e emergências”, busca-se responder a esses desafios e agregar a potência crítica das práticas midiáticas, seja para ressaltar as narrativas comumente ausentes nas mídias corporativas, seja para consolidar as alternativas que a ela se colocam em ações emergentes cada vez mais visibilizadas e ouvidas.

O livro, publicado pelo selo Kritikos, do grupo de pesquisa MidiAto, da ECA, está disponível para download gratuito no site da MidiAto.




Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 24/10/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-humanas/livro-faz-criticas-as-praticas-midiaticas-em-contexto-de-desigualdade-social/

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Estudo descobre defeito genético que provoca puberdade precoce

jorusp
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Um estudo pioneiro sobre as causas da puberdade precoce familiar descobriu um novo fator inibidor ligado ao desenvolvimento sexual prematuro. A responsável pela descoberta, professora Ana Claudia Latronico, da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e chefe do Serviço de Endocrinologia e Metabologia do Instituto Central do Hospital das Clínicas, foi uma das vencedoras do Prêmio Laureate da Sociedade de Endocrinologia Americana. A especialista conversou com o Jornal da USP no Ar sobre essa condição.

A puberdade precoce, segundo Ana Claudia, acomete 20 vezes mais as meninas. A diferença dos números pode ser explicada pela maior notabilidade do fenômeno no sexo feminino, pois com ele acontece a primeira menstruação e o desenvolvimento das mamas antes da idade adequada. Já nos meninos, os sintomas são menos evidentes, como: o aumento de pelos faciais e mudança de tons de voz. A puberdade precoce começa a se manifestar antes dos oito anos no sexo feminino e antes dos nove no masculino. O estudo realizado pela médica permitiu que se encontrasse uma causa genética para a condição, que consiste no defeito em um gene do cromossomo cinco do DNA, transmitido apenas pelo pai.


Imagem: cindylen – Flickr CC

Como consequência, as crianças sofrem com a perda de estatura de até 20 centímetros, pois o crescimento é acelerado pela puberdade precoce, o que gera uma maturação e fechamento ósseo prematuro, explica Ana Claudia. Porém, o tratamento é efetivo e seguro, feito a partir de um hormônio que bloqueia o processo puberal. A especialista comenta que as crianças que são submetidas ao tratamento têm sua estrutura preservada e não sofrem complicações. Por isso, ele deve ser iniciado o mais rápido possível, já que puberdade precoce não tratada pode provocar complicações futuras, como a obesidade, diabete e tumores, principalmente o câncer de mama.

Outra possibilidade que causa a puberdade precoce está ligada à exposição de hormônios responsáveis pelo desenvolvimento puberal. A médica esclarece que, quando os pais ou parentes próximos tomam esses hormônios, como a testosterona, para ganhar musculatura, pode acontecer a contaminação das crianças pelo contato.

A professora explica que a Faculdade de Medicina, especificamente a partir do Laboratório de Hormônios e Genética Molecular do Hospital das Clínicas, investiga métodos capazes de identificar as causas ligadas ao comportamento genético que podem desencadear doenças endócrinas. Ainda conta que são mais de 25 anos de estudos na área e ressalta a importância da pesquisa. O laboratório também trabalha em outras investigações, como outro estudo mencionado por Ana Claudia, que analisa os fatores epigenéticos, pois acredita-se que mais de um gene esteja relacionado com o crescimento puberal.

Jornal da USP no Ar, uma parceria do Instituto de Estudos Avançados, Faculdade de Medicina e Rádio USP, busca aprofundar temas nacionais e internacionais de maior repercussão e é veiculado de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 9h30, com apresentação de Roxane Ré.

Você pode sintonizar a Rádio USP em São Paulo FM 93,7, em Ribeirão Preto FM 107,9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo no celular. Você pode ouvir a entrevista completa no player acima.



Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 11/09/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/estudo-descobre-defeito-genetico-que-provoca-puberdade-precoce/

Métodos propõem mudança no cálculo do seguro agrícola


Comparação com metologias atuais sugere que seguros de produtividade e faturamento superfaturam taxas cobradas dos segurados, o que pode desestimular as vendas – Foto: José Gomercindo/ SECS

Métodos alternativos para determinar o valor dos seguros de produtividade e faturamento agrícola são apresentados em pesquisa da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba. No estudo, a comparação com as metodologias atuais sugere que os seguros de produtividade e faturamento superfaturam as taxas cobradas dos segurados, o que desestimula as vendas. No caso do seguro de faturamento, que não leva em conta a influência da cotação do dólar, as taxas são subestimadas, ignorando os riscos, o que pode dar prejuízo às seguradoras.

O trabalho da pesquisadora Gislaine Vieira Duarte utilizou dados sobre a produtividade de soja nos municípios de Cascavel, Castro, Guarapuava, Palmeira e Toledo (Paraná). Para estabelecer o valor do seguro de produtividade, foram utilizadas distribuições de parâmetros que capturam a simetria, a assimetria e a bimodalidade dos dados sobre produtividade de soja no Brasil. “Essas distribuições permitem identificar características geralmente encontradas em cultivos brasileiros e que devem ser levadas em consideração para obter um prêmio justo e mais preciso do seguro”, ressalta.


Dados sobre produtividade de soja permitem identificar características dos cultivos brasileiros essenciais para o cálculo dos prêmios dos seguros – Foto: Coloradogoias/Wikimedia Commons

Para a precificação do seguro de faturamento é necessário encontrar a distribuição entre variáveis como a produtividade de soja e preço de mercado da cultura, feita com um método estatístico que calcula função de distribuição conjunta e a estrutura de dependência entre elas. “A análise foi realizada sob dois enfoques: o bidimensional, que leva em consideração as variáveis produtividade de soja e preços futuros da soja negociado em reais”, relata a pesquisadora, “e o tridimensional, que leva em consideração a produtividade de soja, preços futuros (em dólares) e a cotação do dólar”. Além disso, em ambas as abordagens são realizados o cálculo e a estimação das taxas do prêmio de seguro de faturamento e sua comparação com as taxas aplicadas pelo mercado segurador brasileiro.
Taxas

No caso do seguro de produtividade e faturamento (tridimensional), os resultados sugerem que as taxas cobradas pelas seguradoras estão superfaturadas quando comparadas com a metodologia apresentada. “A superestimação da taxa dificulta a expressiva venda de seguros no Brasil, além de atrair agricultores com maiores riscos, fortalecendo o problema de seleção adversa”, destaca Gislaine.


Gislaine Vieira Duarte: precificação tradicional do seguro de faturamento não considera influência do câmbio – Foto: Acervo Pessoal

No caso do seguro de faturamento (bidimensional), em que a precificação tradicional não leva em consideração a influência do câmbio (dólar) na modelagem, as conclusões do estudo indicam que as seguradoras subestimam os valores das taxas do seguro. “Isto pode levar a uma perda grande para a seguradora, pois esta pode estar considerando um risco muito menor do que deveria ser levado em consideração”, aponta a pesquisadora.

O estudo é descrito na tese de doutorado de Gislaine, orientada pelo professor Vitor Augusto Ozaki, do Departamento de Economia, Administração e Sociologia, e defendida no último dia 15 de agosto. A pesquisa foi realizada no Programa de Pós-Graduação em Estatística e Experimentação Agronômica da Esalq.

Com informações de Caio Albuquerque, da Assessoria de Comunicação da Esalq

Mais informações: e-mail gislainevduarte@gmail.com, com Gislaine Vieira Duarte





Autor: Júlio Bernardes
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 12/09/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/metodos-propoem-mudanca-no-calculo-do-seguro-agricola/