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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Semana de Combate ao Alcoolismo e Álcool: Cocaína e coração

Por conta do Dia Nacional de Combate ao Alcoolismo e Drogas, traremos uma série de artigos sobre o tema. Abordaremos agora a cocaína e suas complicações cardiológicas.


No verão de 1884, parecia que uma nova era começava na medicina: com a aplicação de cocaína dissolvida em pó na córnea de um sapo, o nascimento da anestesia local foi declarado. Na mesma década, foi lançada o xarope de coca e cola, que se tornou símbolo da cultura dos EUA no século XX. Seu uso foi publicamente defendido de forma rotineira por diversos médicos, inclusive Dr Freud. O resultado é visto até os dias atuais: em 2006 havia mais de dois milhões de usuários de cocaína nos EUA, e, em 2020, de acordo com dados do CDC americano, de 90 mil mortes por overdose, 19447 foram por overdose de cocaína.


Alterações cardíacas

A cocaína causa diversos sintomas agudos, sendo o principal a angina, que ocorre em 57% dos casos que procuram o hospital. Também são comuns palpitação, hipertensão e arritmias e podem ocorrer danos cardíacos estruturais irreversíveis, como progressão de aterosclerose, aneurisma e dissecção de aorta, endocardite, doenças valvares, infarto do miocárdio e até insuficiência cardíaca (IC). Em estudo com 94 usuários de longa data, 71% tiveram alterações na ressonância cardíaca: aumento de volume diastólico final, redução da fração de ejeção do ventrículo esquerdo (VE) e direito e 30% apresentavam realce miocárdico tardio.

Sua ação predominante é a simpaticomimética, que bloqueia a ligação de norepinefrina e dopamina na pré sinapse de terminais adrenérgicos, possibilitando acúmulo de catecolaminas no receptor pós-sináptico. Logo, há estímulo simpático associado ao aumento de catecolaminas com consequentes aumento da frequência e contratilidade cardíacas, da pressão arterial e vasoconstrição, agregação plaquetária, formação de trombos e espasmo coronário, cuja ação combinada leva a redução da oferta de oxigênio.

Essa queda na oferta associada ao aumento de demanda gera isquemia e infarto do miocárdio. A cocaína estimula a liberação do potente vasoconstritor endotelina 1, além de inibir a síntese de óxido nítrico (que promoveria vasodilatação e efeitos opostos aos descritos previamente), gerando mais desbalanço e remodelamento vascular. Estudos mostram que usuários de cocaína tem risco sete vezes maior de infarto comparado a não usuários e o estudo CHOCHPA mostrou que 6% dos casos de angina em emergência eram resultantes do uso de cocaína. Além disso também parece haver relação com aneurismas de coronária, encontrados em 30,4% vs 7,6% em não usuários.

O efeito arrítmico parece estar relacionado ao bloqueio do transporte de sódio, com prolongamento do intervalo Qt e do QRS e disfunção sistólica. Já as alterações estruturais são ocasionadas por uso prolongado da droga e resultantes da hipertensão crônica e aumento da reatividade periférica, que ocasiona aumento compensatório da massa do VE. Em uma meta análise, o uso crônico de cocaína foi associado ao aumento de peso do coração e um estudo randomizado que comparou 20 usuários crônicos com indivíduos saudáveis mostrou aumento significativo da massa ventricular esquerda (18% com p=0.01). A cocaína pode ainda estar associada a redução do volume diastólico final do VE, por dano miocárdico direto ou disfunção de microcirculação.

Uso de beta-bloqueadores

Como já citado, a manifestação cardiovascular mais frequente é a angina, com possível ocorrência de infarto agudo do miocárdio, que é o que o emergencista mais vai encontrar em seu dia a dia. O tratamento destes pacientes tem algumas particularidades, principalmente em relação ao uso de beta bloqueadores.

Apesar de seu uso ser evitado pela maioria dos emergencistas, existe surpreendentemente pouquíssima evidência neste sentido. Esse cuidados vem de um estudo pequeno, com dez pacientes, que demonstrou vasoespasmo de coronária esquerda após 15 minutos de uso de cocaína intranasal e propranolol intracoronário. Esse foi o estudo que norteou a maioria das recomendações referentes a uso de beta-bloqueadores em intoxicações agudas e não há estudos grandes randomizados sobre o tema.

Um outro estudo pequeno de 2010, com 90 pacientes com síndrome coronária aguda que tinham exame de urina positivo para cocaína, comparou uso de labetalol ou diltiazem. Ambos os grupos tiveram redução dos níveis de pressão arterial em 48h, e após esse período os pacientes do grupo labetalol tiveram melhores parâmetros hemodinâmicos, mostrando que seu uso é seguro em quem fez uso de cocaína.

Metanálise de cinco estudos publicada em 2019 não mostrou diferença em relação ao risco de infarto (risco relativo {RR} 1.08, 95% intervalo de confiança {CI} 0.61-1.91) ou mortalidade geral (RR 0.75, 95% CI, 0.46-1.24) em pacientes com angina induzida por cocaína que usaram ou não betabloqueadores. Logo, betabloqueadores não foram associados com desfechos negativos em pacientes com dor torácica por cocaína.

Um estudo observacional com 2578 pacientes com IC, 503 tinham uso de cocaína como possível causa e carvedilol foi associado com melhores desfechos cardiovasculares e menor taxa de re-admissão por IC em 30 dias (34% vs 58% dos que não fizeram uso, com p=0.02). Logo, há benefício do carvedilol em pacientes com FE menor que 40%, mesmo que sejam usuários de cocaína.


Apesar desses novos estudos e de beta-bloqueadores terem benefício claro no tratamento de pacientes com infarto e IC, a American Heart Association e a American College of Cardiology recomendam contra o uso de betabloqueadores em intoxicações agudas devido ao risco de espasmo coronário, sendo preferível os bloqueadores de canal de cálcio com propriedades cronotrópicas e inotrópicas negativas (como verapamil e diltiazem).





Autor: Luiz Fernando Fonseca Vieira
Fonte: PEBMED
Sítio Online da Publicação: PEBMED
Data: 24/02/2022
Publicação Original: https://pebmed.com.br/semana-de-combate-ao-alcoolismo-e-alcool-cocaina-e-coracao/

segunda-feira, 1 de março de 2021

10 passos para reduzir as chances de doenças no coração




10 passos para reduzir as chances de doenças no coraçãoFoto: Getty Images / Sport Life

O sedentarismo e uma dieta ruim são as principais causas de doenças no coração. No entanto, começar uma rotina mais saudável é fácil e separamos 10 passos para te guiar nesse caminho contra os problemas cardíacos. Confira!


1. Acrescente fibras à sua dieta

Quanto mais fibras se come, menor a chance de sofrer um ataque cardíaco. Se ingeridas regularmente, as fibras conseguem baixar mais os níveis do colesterol ruim do que uma dieta pobre em gorduras trans e saturadas. Comer fibras também aumenta a sensação de saciedade, portanto elas são uma excelente aliada de quem quer perder peso. Invista nos chamados alimentos integrais, ricos no nutriente, como a aveia, o arroz e o pão integral, ao invés do branco.

2. Caminhe 20 minutos por dia


Duas horas e meia de exercício por semana, ou seja, pouco mais de 20 minutos por dia, já reduzem em 30% o risco de infarto. Atividade física regular baixa a pressão, aumenta os níveis do bom colesterol (HDL), controla os níveis de açúcar no sangue e, o melhor, reduz o estresse.

3. Comece o dia alongando-se

Alongar-se pode ser a chave para um coração saudável. Pesquisas revelaram que pessoas acima dos 40 anos com boa flexibilidade apresentaram 30% menos chance de ter as artérias endurecidas. Constatou-se que os vasos sanguíneos são afetados pela elasticidade dos músculos e dos tecidos que os circundam. Portanto, quanto mais você investir no alongamento, mais flexíveis as suas artérias ficarão e menores as chances de você ter alguma complicação cardíaca. Bastam entre 10 e 15 minutos por dia, apontam os estudos.

4. Vá para a cama uma hora mais cedo

Dormir pouco acarreta sérias consequências para a saúde do coração. A falta de descanso noturno promove o aumento dos níveis de cálcio nas artérias cardíacas, levando ao aparecimento de placas que podem entupir os vasos e provocar um derrame ou um infarto. Basta uma hora de sono a menos por noite para que o risco de calcificação aumente em 16%. A falta de sono também faz o corpo liberar hormônios do estresse, que comprimem as artérias e causam inflamação.

5. Leia o rótulo dos alimentos

Pessoas que leem o rótulo dos alimentos conseguem cortar duas vezes mais calorias do que aquelas que não dão importância a isso. Não deixe a gordura exceder 30% do total de calorias consumida por dia. A maior parte das gorduras ingeridas deve fazer parte do grupo das monoinsaturadas (azeite, abacate) e poli-insaturadas (salmão, linhaça). Limite as gorduras saturadas a 7% do seu consumo de calorias por dia.

6. Beba moderadamente

Beber moderadamente corresponde a duas doses por dia para homens e uma para mulheres. E uma dose equivale a 355 mL de cerveja, a 148 mL de vinho ou a 44 mL de destilados. O vinho também contém resveratrol, substância que ajuda a prevenir os danos causados aos vasos sanguíneos e a reduzir o colesterol ruim no sangue.

7. Fuja da fumaça do cigarro

Se você fuma, é hora de procurar um médico que o ajude a parar. Se já largou o vício ou não fuma, precisa evitar a fumaça do cigarro. O fumo passivo faz tão mal ao coração quanto o cigarro, provocando danos que são tão extensos e profundos quanto aqueles causados pela poluição do ar. Mesmo uma pequena exposição à fumaça causa um impacto tremendo à saúde. O fumo passivo aumenta as chances de doenças do coração em cerca de 30%, portanto, evite ficar em lugares fechados ao lado de fumantes.

8. Corte o açúcar

Comer muito açúcar não apenas faz com que você fique gordinho. Também aumenta as suas chances de ter algum problema cardíaco. Uma dieta rica em açúcar aumenta os níveis de triglicérides e de colesterol - dois fatores de risco para doenças cardíacas - na mesma proporção que uma dieta rica em gordura. E mais: o consumo exagerado de açúcar é um dos principais responsáveis pelo aparecimento do diabetes e da pressão alta, outros fatores de risco para a saúde do coração.

9. Escove os dentes e passe fio dental

Uma higiene oral inadequada é fator de risco para doenças cardíacas. Qualquer inflamação no corpo, inclusive na boca e na gengiva, pode resultar na obstrução das artérias, o que pode levar a um infarto. Pessoas que não escovam os dentes ao menos duas vezes ao dia têm 70% mais chances de passar por alguma complicação.

10. Procure outras maneiras de manter-se ativo

O importante, dizem os especialistas, é se mexer. Mas ainda mais importante é encontrar algo de que se que goste e não desistir. Constância, nesse caso, é fundamental. Encontre outras formas de manter-se ativo. Pode ser uma aula de dança ou até dançar em casa mesmo, uma partida de futebol com os amigos ou brincar com os sobrinhos. Pesquisas mostraram que pessoas fisicamente ativas de mais de uma maneira são mais saudáveis que aquelas que fazem uma hora de ginástica e depois passam o resto do dia sentadas na frente do computador ou do sofá.




Autor: Eduardo Nunes
Fonte: Terra
Sítio Online da Publicação: Terra
Data: 01/03/2021
Publicação Original: https://www.terra.com.br/vida-e-estilo/saude/bem-estar/10-passos-para-reduzir-as-chances-de-doencas-no-coracao,3bc0aaf8c7c81f753754a7d6082db681gwdlw0c8.html

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Coração, cérebro, pulmão: como a covid-19 afeta nossos órgãos vitais

 


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Principais alvos da covid-19 são o pulmão e as vias respiratórias, mas vírus tem surpreendido por seu variado ataque, do cérebro aos rins


Embora ainda haja muitas perguntas em aberto sobre o coronavírus que parou o mundo há quase um ano, cientistas conseguiram neste período correr contra o tempo e trazer muitas respostas sobre a nova doença — algumas delas surpreendentes.


Por exemplo, a de que a covid-19, descrita desde o início como uma doença respiratória, não ataca apenas os pulmões.


Conforme o coronavírus foi se espalhando pelo mundo e adoecendo mais pessoas — até aqui, infectando pelo menos 88 milhões no planeta —, médicos e pesquisadores começaram a constatar que órgãos tão diferentes como coração, cérebro e rins também podiam ser afetados, às vezes fatalmente, pelo coronavírus.


O patógeno também já causou problemas em dedo dos pés, foi detectado no testículo e ainda nas lágrimas de pacientes — mas é importante lembrar que ser encontrado em uma parte do corpo ou no ambiente não necessariamente significa adoecimento ou transmissibilidade.


Em relação aos chamados órgãos vitais, porém, a doença tem gerado incógnitas, pesquisas científicas e, em alguns casos, grande preocupação. Por isso, a BBC News Brasil procurou artigos científicos e pesquisadores brasileiros para responder o que se sabe até aqui sobre as consequências da covid-19 em cinco órgãos fundamentais para a nossa sobrevivência: pulmões, coração, rins, fígado e cérebro.

Vale lembrar que a definição de quais são os órgãos vitais é variada, mas de acordo com os entrevistados, estes cinco estão mais perto de um consenso de serem fundamentais para a continuidade da vida e insubstituíveis, considerando as intervenções médicas existentes.

1. Pulmões



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Falta de ar é sinal de que pulmão foi afetado, explica pesquisadora


Apesar de afetar outras partes do corpo, ainda são "as vias respiratórias e os pulmões" os principais alvos da covid-19, lembra a pesquisadora Marisa Dolhnikoff, professora associada da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e coordenadora dos Estudos em Autópsia da Covid-19 no Hospital das Clínicas da faculdade.


Tudo começa quando uma pessoa sadia entra em contato com gotículas do vírus, como através da tosse ou espirro de alguém infectado, ou ainda por meio do contato com uma superfície contaminada com essas partículas. A partir daí, o vírus começa a "hackear" as células das vias respiratórias (canais que conduzem o ar aos pulmões, como o nariz e a traqueia) e dos pulmões, transformando-as em fábricas de coronavírus que se espalham por mais células.


Tosse, coriza e espirros podem surgir por conta do ataque às vias respiratórias. Esses sintomas também podem ser reflexo do acometimento dos pulmões — mas, segundo Dolhnikoff, o sinal mais claro de que este órgão vital foi afetado é a falta de ar.


Um estudo publicado em junho na revista científica Lancet, com dados de 257 pacientes em Nova York (EUA), mostrou que a falta de ar foi o sintoma mais frequente na entrada no hospital, registrado em 74% dos infectados, seguido por febre (71%) e tosse (66%).


Ainda segundo a pesquisadora da USP, um outro sinal importante vem das tomografias — quando elas mostram mais de 50% da área dos pulmões acometida pelo coronavírus, este é um indicador de gravidade e de insuficiência respiratória, que demanda suporte como a ventilação mecânica. Ambos pulmões costumam ser afetados juntos.



CRÉDITO,COURTESY OF HAVELHOEHE COMMUNITY HOSPITAL/HANDOUT
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Raio X mostra pulmões de idosa de 84 anos, internada em hospital de Berlim, comprometidos pela covid-19


Tanto nas vias respiratórias quanto nos pulmões, o coronavírus encontra um facilitador — células contendo receptores da proteína ECA-2, uma espécie de chave que permite o início da infecção.


"Nos casos mais graves, há também infecção dos alvéolos, estruturas responsáveis pela troca gasosa nos pulmões — a captação de O2 do ar para o sangue, e liberação de CO2", explicou por e-mail à BBC News Brasil a pesquisadora.


É por isso que os pulmões são vitais — eles nos dão, literalmente, o ar que respiramos. O órgão absorve o oxigênio externo e o distribui para todo o corpo através do sangue e, na via contrária, recolhe o gás carbônico dispensado após vários processos dentro do corpo.


"Quando infectadas, as células dos alvéolos sofrem alterações importantes que levam à sua morte, desencadeando um processo de inflamação e edema pulmonar (excesso de líquido) que impedem as trocas gasosas, culminando com a insuficiência respiratória", completa Dolhnikoff, cuja equipe no Hospital das Clínicas está realizando desde o início da pandemia um método inovador de autópsias minimamente invasivas, de forma a evitar o contágio no contato com corpos, para fins de pesquisa.



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Trocas gasosas acontecem nos alvéolos — que podem ser infetados pelo coronavírus


Além da infecção das células das vias respiratórias e dos alvéolos, em uma segunda frente, os vasos sanguíneos também são atacados. Isso leva ao aumento da coagulação e à formação de trombos (conjunto de sangue coagulado), que dificultam a passagem de sangue nos alvéolos. Com isso, as trocas gasosas são mais uma vez comprometidas.


Ainda no início da pandemia, em abril, a equipe que está trabalhando com autópsias na USP publicou no periódico científico Journal of Thrombosis and Haemostasis os resultados destas análises em dez pacientes, demonstrando alvéolos amplamente danificados e pequenos trombos no pulmão — cuja formação devido à covid-19 era pouco conhecida naquele momento.


Quando o quadro pulmonar é muito grave, incluindo um conjunto de indicadores como a insuficiência respiratória e a inflamação sistêmica, ele pode configurar a síndrome do desconforto respiratório aguda (ARDS, na sigla em inglês).

2. Coração



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Nos quadros mais graves, é frequente que o coração seja afetado — podendo levar a óbito


Se os pulmões realizam as trocas gasosas, é o coração que bombeia o sangue com oxigênio para o corpo e que volta para os pulmões com sangue repleto de gás carbônico.


E, nos quadros mais graves, este órgão muscular e vital é significativamente afetado — podendo levar a óbito.


Um estudo de referência, publicado em fevereiro de 2020 com dados de 138 pacientes hospitalizados em Wuhan, mostrou que 16,7% deles desenvolveram arritmia e 7,2% lesão cardíaca aguda — ou seja, dois problemas de saúde atingindo o coração. Aqueles que precisaram ir para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) apresentaram estes quadros com mais frequência.


"Na covid-19, o coração pode ser atingido em até 40% dos casos graves", aponta Marisa Dolhnikoff, acrescentando outras consequências da covid-19 no coração como a miocardite (inflamação no coração), tromboses arteriais e infarto do miocárdio.


"Pessoas com comorbidades — diabetes, hipertensão, obesidade e cardiopatias prévias — têm maior risco de manifestação cardíaca na covid-19."


Estudos de várias partes do mundo mostram problemas no coração como uma das comorbidades mais comuns entre pacientes graves infectados — um boletim do Ministério da Saúde de dezembro revelou que, no Brasil, as cardiopatias (doenças no coração) foram o fator de risco mais frequente entre pessoas que morreram por covid-19 no país, seguidas por diabetes.


Dolhnikoff explica que as células cardíacas também têm receptores da proteína ECA-2, ativadas no ataque direto do vírus ao órgão.


Mas o órgão pode ser afetado também pela inflamação sistêmica, reação exagerada do corpo que leva a diversas alterações prejudiciais como a baixa de oxigênio e à chamada tempestade de citocinas — substâncias agressivas que o sistema imunológico libera para atacar um invasor, mas que, em excesso, podem acabar atacando partes vitais para nossa sobrevivência, como o coração.


A partir da autópsia e de exames referentes ao caso de uma menina de 11 anos que perdeu a vida para a covid-19, Dolhnikoff e sua equipe conseguiram demonstrar o ataque do vírus a diversas células do coração, nas quais foram encontradas partículas do vírus. A resposta inflamatória agravou o problema, levando à falência cardíaca e morte.


O pulmão da criança também foi afetado, mas os cientistas identificaram o coração como o órgão mais comprometido pelo vírus.


Os resultados foram publicados no periódico internacional Lancet Child & Adolescent Health.

3. Rins



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Rins sofrem juntos e 'silenciosamente', explica nefrologista


Assim como acontece com o coração, quando os rins são afetados pela covid-19, o nível de alerta é aumentado.


"A lesão renal é incremental, compõe o quadro de um doente mais complexo. São doentes muito graves. Quando a doença é avassaladora, ela é avassaladora", resume o nefrologista José Suassuna, chefe do Setor de Nefrologia do Hospital Pedro Ernesto, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Hupe/Uerj).


Os rins são vitais por regularem a concentração de água no sangue e por eliminarem detritos tóxicos do corpo.


No artigo publicado no periódico Lancet envolvendo 257 pacientes em Nova York, 31% desenvolveram lesões agudas neste órgão e precisaram das chamadas terapias de substituição renal, que incluem intervenções como a hemodiálise — este procedimento, em linhas gerais, substitui o órgão no trabalho de filtrar o sangue.


Neste grupo nos Estados Unidos, 14% já tinham alguma doença crônica afetando os rins antes da covid-19.


"Grupos de risco como obesos, diabéticos, pessoas com doenças cardiovasculares e idosos muitas vezes já têm algum grau de comprometimento renal — então, quando infectados pelo coronavírus, não partem do 0. Eles já estão na metade do caminho e caminham mais rapidamente para a insuficiência renal aguda e para a necessidade de suporte", explica Suassuna, destacando porém que há casos em que o paciente não tem fatores de risco mas tem os rins comprometidos.



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Casos de lesão aguda nos rins comumente levam à necesidade de intervenções como a hemodiálise, que substitui o órgão na filtragem do sangue


De acordo com o nefrologista, os rins também têm receptores ECA-2, mas as evidências até agora indicam que possivelmente não é este ataque direto do vírus ao órgão o principal motivo de acometimento dos rins.


Mais uma vez, a inflamação exacerbada do corpo ao coronavírus parece ter um papel importante.


Uma evidência disso é a conexão entre os pulmões e o rins, a chamada cross talk entre os órgãos.


"É uma ligação cruzada, a situação em que o acometimento de um órgão determina o de outro. Na covid-19, isso tem se mostrando entre rins e pulmões, assim como pulmões e coração. O envolvimento pulmonar mais grave se associa a um risco muito maior para os rins. Há uma associação grande entre entubar e a insuficiência renal", aponta Suassuna, explicando que quando há esta insuficiência nos rins, o paciente deixa de urinar, precisando de suporte.


Além disso, outra explicação para o acometimento simultâneo de vários órgãos na fase mais avançada da infecção é a baixa oxigenação.


"A covid-19 nos deixa com uma oxigenação como se estivéssemos subindo o Himalaia, mesmo estando a nível do mar. Uma parte funcional do rim, que ajuda a produzir a urina, já vive como se estivesse no Everest — no que a gente chama de hipoxia, uma oxigenação muito baixa", diz o médico, também professor da UERJ.


"O rim é um órgão muito sensível às quedas de oxigenação prolongadas porque já vive na beira do precipício. E à piora da oxigenação se soma a tempestade de citocinas, um mecanismo importante da disseminação do dano da covid do pulmão para o resto do corpo."

Covid-19: o que muda (ou não) no combate à pandemia com a nova variante do coronavírus no Brasil
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Apesar de seu adoecimento ser um indicador de gravidade, os rins também podem ser afetados em casos mais leves, explica Suassuna. Entretanto, talvez isso nunca se manifeste em sintomas, mas apenas exames específicos de urina e de alteração da função renal.


"Os rins, em qualquer doença, sofrem em silêncio — e covid-19 não é uma exceção", explica Suassuna, acrescentando que esse órgão é afetado bilateralmente, ou seja, adoece tanto do lado esquerdo quando direito.


"Não tem grande manifestação de sintomas, a maior parte dos sinais só aparece no laboratório. Temos pacientes iniciando diálise que não sentem nada, apenas quando já têm menos 10% da função renal. De repente, param de urinar."

4. Fígado



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Fígado 'não é comumente nem intensamente comprometido, como ocorre com outros órgãos, como os pulmões, o coração e os rins', explica o hepatologista Edmundo Lopes


Exames também já detectaram, em alguns pacientes, alterações no fígado — que tem entre suas funções eliminar toxinas do corpo, regular o açúcar no sangue e ajudar na digestão de gorduras.


Entretanto, diferente de outros órgãos, tais alterações não necessariamente significam o adoecimento do órgão.


"As enzimas hepáticas (substâncias produzidas pelo órgão) estão elevadas em cerca de 15 a 60% dos casos de COVID-19, o que sugere acometimento do fígado. Porém, estas alterações das enzimas em geral não provocam sintomas", explica o hepatologista Edmundo Lopes, médico do Hospital das Clínicas e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).


"Apesar destes distintos mecanismos de agressão ao fígado durante a covid-19, ele não é comumente nem intensamente comprometido, como ocorre com outros órgãos, como os pulmões, o coração e os rins", diz. "As explicações para esta 'menor' agressão ao fígado ainda não estão bem elucidadas."


Os distintos mecanismos de agressão mencionados por Lopes passam, mais uma vez, pelos efeitos da inflamatória sistêmica no corpo e também, no caso desse órgão responsável por lidar com substâncias potencialmente tóxicas, por eventuais danos provocados pelos medicamentos usados contra a covid-19.


A ação direta do vírus sobre o órgão também é uma possibilidade, até porque as células hepáticas chamadas de colangiócitos têm receptores ECA-2. Entretanto, segundo o professor da UFPE, essa via direta "nunca foi muito bem demonstrada" na ciência.


"As evidências sugerem que o processo inflamatório (tempestade de citocinas) parece ter um papel relevante na agressão ao fígado, já que os pacientes mais graves e que apresentam maiores indícios de atividade inflamatória nos exames laboratoriais são os que apresentam mais frequentemente e mais intensamente alterações das enzimas hepática", escreveu o hepatologista por e-mail à BBC News Brasil.

5. Cérebro



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Covid-19 leve tem deixado efeitos neurológicos como maior ansiedade e cansaço e, nos casos graves, derrame e convulsões


Se tem um órgão que os entrevistados dizem estar rodeado de incógnitas sobre seu acometimento pela covid-19, é o cérebro.


Fato é que diversos estudos e relatos de casos já mostraram que ele pode ser afetado, dos quadros leves aos graves.


A pesquisadora Clarissa Yasuda, médica e professora do departamento de neurologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que o diga: ela mesma teve covid-19 em agosto e conta ainda sentir consequências relacionadas ao cérebro, como sono, fadiga e alterações na memória.


Ela e colegas publicaram em outubro um estudo em estágio pré-print (sem a chamada revisão dos pares, etapa padrão em que outros especialistas analisam um estudo e decidem se ele será publicado ou não em uma revista científica) com dados sobre 81 pessoas que tiveram covid-19 leve e se recuperaram.


Esses voluntários foram submetidos a exames de ressonância magnética, que detectaram alterações no córtex, a parte mais externa do cérebro e fundamental para processos envolvendo a memória, linguagem, entre outros.


Questionários e testes cognitivos também mostraram que, em média 60 dias após o diagnóstico da covid-19, os pacientes ainda apresentavam dor de cabeça (40%), fadiga (40%), alteração de memória (30%), ansiedade (28%), depressão (20%), perda de olfato (28%) e paladar (16%), entre outros.


Aliás, Yasuda lembra que a perda destes sentidos é considerada pelos especialistas um sintoma neurológico — precisamos do cérebro para sentir gostos e cheiros.


"Acho que não estava na conta de ninguém imaginar que pessoas que não foram internadas, que seriam quadros 'leves', pudessem ficar com uma gama de alterações neurológicas incapacitantes, como observamos não só aqui mas no mundo inteiro", diz a neurologista, fazendo a ressalva de que o grupo de voluntários estudados foi formado por pessoas que já estavam relatando sintomas neurológicos, então há uma inclinação de que estes sejam mais frequentemente registrados do que se o estudo envolvesse uma população mais ampla.


"Além desses casos leves (que estão mostrando consequências prolongadas), há o grupo de alterações neurológicas por covid-19 que surgem na fase aguda e que podem ser bem graves — como derrame, encefalite, convulsão e redução do nível de consciência. Em alguns casos, os derrames aumentam a chance de AVC (acidente vascular cerebral). Nâo sabemos se estes efeitos serão transitórios ou se deixarão sequelas."


Parte da equipe que está trabalhando com autópsias no Hospital das Clínicas da FMUSP, o médico Amaro Nunes Duarte Neto relata que uma alteração muito comum observada nos cérebros de pessoas que morreram após a infecção pelo coronavírus é a lesão dos neurônios.


"São lesões cerebrais decorrentes da hipóxia (oxigenação diminuída) pelo acometimento pulmonar grave na covid-19, não atribuídas diretamente ao vírus", explicou por e-mail o pesquisador.



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Distúrbios na circulação do sangue pelo corpo explicam em parte adoecimento por covid-19


Isto porque, como em outros órgãos, os efeitos da covid-19 não necessariamente ocorrem devido ao ataque direto do coronavírus, mas sim pelas consequências da resposta inflamatória do corpo e de alterações na circulação do sangue, entre outros.


Por exemplo, Duarte Neto relata também a observação, nas autópsias, de microsangramentos nos vasos que irrigam o órgão, além da hipertrofia dos astrócitos — células em torno dos vasos cerebrais e que dão suporte fundamental para os neurônios.


Na publicação em pré-print da qual Yasuda foi uma das autoras, a equipe demonstrou que os astrócitos foram o principal alvo do coronavírus no cérebro. Isto também a partir de 26 autópsias minimamente invasivas, realizadas por pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP.


Mesmo que nem todo efeito neurológico do coronavírus seja atribuído ao seu ataque direto, os pesquisadores entrevistados dizem que há sinais de que o patógeno chega até o cérebro através do nariz, pelo mesmo caminho que um aroma "faz" para chegar até lá.


Ainda assim, "o conhecimento sobre o mecanismo de lesão do vírus Sars-CoV-2 no sistema nervoso central ainda é pouco esclarecido", diz o pesquisador da USP.


A professora Clarissa Yasuda concorda.


"É muita coisa que a gente não sabe, muita coisa para ser estudada: o quanto desses quadros neurológicos tem um componente inflamatório, o quanto é autoimune, o quanto é um ataque direto do vírus. Ninguém tem uma resposta, mas acho que é uma combinação disso tudo."




Autor: Alvim - @marianaalvim Da BBC News Brasil em São Paulo
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 09/01/21
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-55596688

terça-feira, 25 de junho de 2019

Como exercício em excesso pode afetar coração, fígado e músculos

Direito de imagemGETTY IMAGESImage captionExercícios intensos são altamente recomendados, mas precisam vir acompanhandos de recuperação adequada, alerta especialista

Já se sabe que treinar demais e descansar de menos causa problemas como insônia, enfraquecimento da imunidade e dores.

Um grupo de pesquisadores brasileiros tem sido pioneiro em ir além - na verdade, para dentro do corpo: eles buscam os efeitos do exercício físico excessivo em órgãos vitais como o coração e o fígado.

Os cientistas, das universidades estaduais de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto e de Campinas (Unicamp) em Limeira, já estudam há uma década o impacto deste excesso no organismo - e reuniram suas principais descobertas em um artigo recém-publicado no periódico internacional Cytokine. As pesquisas receberam apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Coração, fígado, músculos e sistema nervoso mostraram, em experimentos com camundongos conduzidos pelos pesquisadores, alterações - algumas prejudiciais - após treinos muito intensos. Os testes incluíram corridas no plano, na subida e na descida por oito semanas.

A prática é nociva para o organismo, alertam os autores, caso não haja um período adequado de descanso e recuperação.

Fígado entra em cena para ajudar o músculo

Nos músculos, as células demonstraram mais dificuldade em captar a glicose no sangue - substância que é fonte de energia para as células, como o combustível do nosso corpo. Na modalidade de descida, os animais apresentaram ainda sinais de atrofia e má formação de proteínas no interior das células.

Mas, se nas células musculares, houve maior dificuldade de captar glicose, como o organismo supriu esta falta? Novos testes mostraram que o fígado teve um papel nisso, já que o órgão é um dos mais importantes no controle do açúcar no organismo.


Direito de imagemGETTY IMAGESImage captionCientistas brasileiros propõem analisar o impacto do exercício intenso em diferentes órgãos

O órgão pode "estocar" glicose - para situações como a percebida pelos pesquisadores, em que o treino intenso levou a uma dificuldade dos músculos absorverem glicose. Cobaias, no experimento, mostraram aumento deste estoque.

Mas, como efeito negativo do excesso de esforço físico, os cientistas constataram também maior acúmulo de gordura no fígado e sinais de inflamação. Isto pode estar relacionado à atuação compensatória do fígado na administração do estoque de glicose, mas ainda não foi confirmado pelos estudiosos.

"O aumento da gordura no fígado é muito ruim, pois tem relação com uma série de doenças, como obesidade e diabetes. Mas é importante destacar que, nos experimentos, não constatamos estas doenças, apenas o acúmulo de gordura", destaca Adelino Sanchez Ramos da Silva, coordenador da pesquisa e professor da USP.

Até mesmo o coração incrementou sua participação na captação da glicose, com maior acúmulo da substância em seus tecidos.

Mas, como efeito negativo no coração, após as oito semanas de treino excessivo, foi observado também sinais de fibrose (endurecimento do tecido) no ventrículo esquerdo - alteração presente em condições patológicas como a insuficiência cardíaca.

Tanto neste órgão, quanto no fígado, sangue e músculos, foram detectados ainda substâncias que indicam ter ocorrido inflamações.

A importância do descanso


Direito de imagemGETTY IMAGESImage captionPesquisa mostrou alterações nos músculos, sangue e órgãos após exercícios intensos

O coodernador da pesquisa destaca ainda que o problema não está no exercício intenso em si - "ele é necessário, inclusive" -, mas quando ele não é combinado com um período de recuperação adequado.

Um repouso de duas semanas, por exemplo, foi suficiente nos experimentos para que camundongos recuperassem seu peso e apetite, duas alterações clássicas no estudo dos exercícios de intensidade.

Na rotina de exercícios de atletas ou amadores, diz Silva, o tempo de descanso recomendado varia. Para os primeiros, costuma-se indicar redução do tempo e da carga dos treinos e um possível aumento no período de recuperação; para os amadores, o intervalo recomendado depende da pessoa e dos exercícios realizados, mas tende a ir de 24 a 48 horas.

"A prática de exercício físico de maneira regular, moderada e supervisionada por um profissional de educação física é extremamente benéfica, uma vez que pode servir como estratégia não-farmacológica de prevenção e tratamento de uma série de doenças", aponta.

"No entanto, caso ocorra um desequilíbrio entre o excesso de exercício físico e os períodos de recuperação, o efeito do exercício pode se tornar prejudicial à saúde".
O papel das citocinas

Uma outra inovação proposta pelos pesquisadores diz respeito ao papel das citocinas, proteínas produzidas por células de defesa e que têm papel importante nas inflamações.

Uma explicação bem aceita na literatura científica até agora é a de que as citocinas seriam liberadas com o exercício excessivo, levando a várias mudanças no organismo e à queda na performance.

Mas a equipe liderada por Silva vem demonstrando que, mesmo quando as citocinas já estão em níveis normais após uma alta, a performance pode continuar prejudicada.

Assim, os cientistas brasileiros defendem que as citocinas não são a única explicação para a queda na performance - agora, a busca por outras justificativas continua.



Autor: Mariana Alvim
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 25/06/2019
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-48713729

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Uma única sessão de exercício pode proteger o coração por até 5 dias, aponta estudo




Benefícios imediatos do exercício durariam por até cinco dias, afirmam pesquisadores (Foto: Reprodução/Rede Amazônica Acre)



Quanto tempo de exercício é preciso fazer para começar a colher os benefícios para a saúde? Alguns dias? Semanas? Meses?


Um novo estudo publicado no periódico da Associação Médica Americana aponta que uma única sessão de atividade física gera efeitos imediatos, protegendo o coração.


A equipe liderada por Dick Thijssen, professor de Fisiologia Cardiovascular e Exercícios da Universidade Liverpool John Moores, no Reino Unido, analisou uma série de pesquisas com roedores.


Ataques cardíacos foram induzidos nos animais, bloqueando uma artéria do coração. Depois, analisou-se a gravidade do infarto, ou seja, quanto tecido do órgão foi afetado.


Foram comparadas cobaias que haviam acabado de se exercitar com outras que nunca praticavam atividade física.



"Todos os estudos apontaram que uma única sessão de exercício levou a um ataque cardíaco menos grave, e esse efeito perdura por dias", escreveu Thijssen em um artigo para o site The Conversation.




A explicação dos cientistas é que fazer atividade física libera uma substância que reduz a gravidade do infarto.


O especialista explica que, "por razões óbvias", esses experimentos não podem ser realizados em humanos. Logo, estudos para confirmar esse benefício em pessoas exigiriam outros métodos.




Exercício x descanso




Em um dos estudos, amostras de sangue foram coletadas em humanos após um período de descanso e depois de fazer exercício.


As amostras foram introduzidas na corrente sanguínea de coelhos vivos. Depois, uma artéria no coração dos animais foi bloqueada, imitando um ataque cardíaco.


O grupo de coelhos que recebeu o sangue humano coletado após o exercício teve infartos menos graves do que aqueles que receberam a amostra obtida após o período de descanso.


Assim como no teste com os roedores, isso indicaria que uma sessão de atividade física reduziria a gravidade do infarto.



"Esses benefícios ocorrem mesmo na ausência de mudanças em outros fatores de risco cardiovascular, como a pressão sanguínea, colesterol e o peso", disse Thijssen. "Os efeitos duram por quatro a cinco dias."





A maioria dos estudos submeteu suas cobaias a sessões de exercício de intensidade moderada a alta por cerca de uma hora.


Os pesquisadores dizem não saber se outros tipos de atividade física, com duração diversa, trariam diferentes graus de benefícios, algo que Thijssen recomenda que seja analisado em novos estudos.




Autor: G1 Globo
Fonte: BBC
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 26/12/2017
Publicação Original: https://g1.globo.com/bemestar/noticia/uma-unica-sessao-de-exercicio-pode-proteger-o-coracao-por-ate-5-dias-aponta-estudo.ghtml

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Urologista fala sobre prevenção e tratamento do câncer de próstata





No Dia Mundial de Prevenção ao Câncer de Próstata, celebrado em 17 de novembro, lembramos que o combate a esta doença tem que ser diário e ter como objetivos principais a busca pelo diagnóstico precoce e o esclarecimento de mitos com relação ao exame masculino. Participando da campanha Novembro Azul de conscientização a respeito do câncer de próstata, o Instituto Nacional de Infectologia (INI/Fiocruz) promoveu a palestra Saúde do homem: prevenção do câncer de próstata e outras orientações com o médico urologista do Hospital Central da Polícia Militar, Renato dos Santos Faria. A atividade foi organizada pelo Laboratório de Pesquisa em Epidemiologia e Determinação Social da Saúde (LAP-EPIDSS) em parceria com a Associação Lutando para Viver Amigos do INI.

“A próstata é o coração da urologia, mas temos que entender que o urologista vai além do tratamento dessa glândula que só o homem possui e que se localiza na parte baixa do abdômen”, destacou Renato Faria, ao iniciar sua exposição, lembrando que essa especialidade não é exclusiva ao homem, uma vez que tratamentos para infecções urinárias ou de cálculo renal, por exemplo, também são feitos pelas mulheres.
Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer, no Brasil um homem morre a cada 38 minutos devido ao câncer de próstata, sendo o segundo mais comum em nosso país, ficando atrás somente dos tumores de pele/melanoma. Apenas em 2016, cerca de 70 mil brasileiros foram diagnosticados com a doença. Nos Estados Unidos, um homem recebe este diagnóstico a cada três minutos e outro morre a cada 15 minutos. É uma doença silenciosa e muitos homens preferem fugir do assunto, não sendo possível preveni-la. “Entretanto, quando mais precoce for a detecção, maior a chance de cura do paciente, podendo chegar a quase 100%.

Existe toda uma dificuldade de aproximação em levar um homem ao consultório médico ou diversas brincadeiras com relação ao câncer de próstata, principalmente quando se fala do exame de toque retal. Temos que desmistificar isso”, destacou Renato.

O risco ao câncer de próstata aumenta com o avançar da idade. No Brasil, a cada dez homens diagnosticados com câncer de próstata, nove são maiores de 55 anos. É possível justificar o crescimento nas taxas de incidência no país por conta da evolução dos métodos de diagnósticos (exames), a melhoria na qualidade dos sistemas de informação em saúde e o aumento da expectativa de vida da população. “Existe uma possibilidade de diminuir a taxa de mortalidade da doença a partir desse diagnóstico mais precoce. Entretanto, cerca de 20 a 30% dos pacientes já são diagnosticados na fase de metástase, ou seja, quando a doença já está espalhada pelo corpo e não mais confinada a próstata”, explicou o urologista.

Fatores de risco

O câncer de próstata apresenta um crescimento lento, podendo chegar a 15 anos de evolução até ser descoberto. Ou seja, o paciente que foi diagnosticado aos 70 anos com a doença já possuía alguma alteração celular a partir dos 55 anos. Além da faixa etária, outro fator de risco para o câncer de próstata é o histórico familiar, como pai, irmãos ou tios que tiveram a doença antes dos 60 anos. Além disso, estudo recentes mostram que há um aumento no risco do câncer de próstata em homens com peso corporal elevado.

O estilo de vida e a dieta adotada podem influenciar no desenvolvimento da doença. “Não existem orientações efetivas para que um homem saia do risco de ter câncer de próstata. Sabemos que a mudança no estilo de vida contribui para minimizar os riscos. A doença é mais agressiva em obesos, então a perda de peso é um componente importante nessa luta. A ingestão diária de legumes, verduras e frutas, principalmente as de coloração verde e amarelo, por questões de vitaminas específicas, é algo que influencia de maneira positiva. A questão do consumo de tomate e de seus derivados para combater esse tipo de câncer se tornou uma propaganda interessante atualmente. Entretanto, para que a gente possa fazer uma proteção objetiva com o tomate, deve se comer, em média, 3kg do fruto in natura por dia, ou seja, impossível. A prática de atividade física de maneira regular, parar de fumar e de ingerir bebidas alcoólicas são formas objetivas de prevenção ao risco”, destacou Renato.

Prevenção e diagnóstico

O grande desafio na prevenção doença está mesmo no diagnóstico. Por ser uma assintomática e silenciosa, o homem não procura o médico. Nesse sentido, a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) recomenda que todo homem acima dos 45 anos visite o urologista. Já o Ministério da Saúde (MS) orienta que a consulta após os 50 anos. Para a SBU, pacientes que têm histórico familiar positivo e/ou são da raça negra devem visitar periodicamente o urologista a partir dos 40 anos. Nesses casos, o MS faz essa recomendação para os homens maiores de 45 anos.

Sintomas

Dificuldade de urinar, demora em começar ou terminar de urinar e diminuição do jato de urina são alguns dos sintomas que podem aparecer na fase inicial. Além disso é preciso estar atento a doenças benignas da próstata porque podem preceder o desenvolvimento desse tipo de câncer. Entre elas as principais são: a Hiperplasia Prostática Benigna, que é o aumento natural da próstata que acontece em homens com idade superior aos 50 anos, e a Prostatite, que é a inflamação da próstata, geralmente causada por bactérias.

Para a confirmação da doença, dois exames são realizados pelo médico: o toque retal e o Antígeno Prostático Específico (PSA). “Por que o toque retal é importante? Porque tocamos o acesso externo e periférico da glândula onde se desenvolvem 95% dos cânceres de próstata. Com o toque retal temos uma informação sobre o contorno, o tamanho, o endurecimento e a presença de nódulos no local. Associado a isso, temos a solicitação do exame de PSA. Se fizemos exclusivamente o toque retal, podemos ter uma falha para descobrir o câncer de próstata em 35% dos casos. Se temos só o PSA, essa falha pode ser de 20%. Com a associação desses dois exames, diminuímos o risco relacionado à doença de passar desapercebida e começar assim o tratamento do paciente”, afirmou Renato.

Ainda segundo o urologista, o câncer de próstata em quase 100% dos casos desde que diagnosticado precocemente. Após a detecção da doença, existem três tipos de tratamento: a cirurgia (retirada da próstata); radioterapia (aparelhos modernos provocam menos efeitos colaterais) e Braquiterapia (radioterapia em que se coloca uma fonte de radiação dentro ou junto à área que necessita tratamento).

“A grande maioria dos homens afirma ter conhecimento do exame do toque, mas apenas 30% confirma ter feito o procedimento. Outros têm mais informações sobre PSA, o exame que é feito com mais frequência na atualidade. Há um grande preconceito com relação ao exame de toque retal. Mais de 50% dos homens recusam fazer esse tipo exame. As desculpas são as mais diversas para não realizá-lo e não procurar um urologista, como preguiça, falta de tempo e falta de sintomas. Isso só prejudica o paciente uma vez que o afasta de um diagnóstico precoce. Nesse ponto, nosso principal desafio é a conscientização da população masculina sobre a importância de procurar um médico periodicamente”, encerrou Renato. Após sua exposição, o urologista respondeu perguntas do público presente e de integrantes da Associação Lutando para Viver Amigos do INI.

Durante a palestra de Renato dos Santos Faria, a equipe do Laboratório de Pesquisa em Epidemiologia e Determinação Social da Saúde (LAP-EPIDSS) distribuiu um folder explicativo sobre o câncer de próstata, com dicas de prevenção da doença. O folder pode ser acessado no site do INI.

*Edição: Juana Portugal

Autora: Antonio Fuchs
Fonte: INI/Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data de Publicação: 21/11/2017
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/pt-br/content/urologista-fala-sobre-prevencao-e-tratamento-do-cancer-de-prostata

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Pós-doutorado em cardiologia com Bolsa da FAPESP

O Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) oferece uma oportunidade de pós-doutorado em cardiologia com Bolsa da FAPESP. O prazo de inscrição termina no dia 6 de novembro de 2017.


Oportunidade está vinculada a Projeto Temático no Instituto do Coração, em São Paulo. Inscrição até dia 6 de novembro (imagem: Wikimedia)

A oportunidade está vinculada ao Projeto Temático “Agregação e Antiagregação Plaquetária em Pacientes com Doença Arterial Coronária”, com coordenação do professor José Carlos Nicolau.

O bolsista selecionado estará envolvido em diversos projetos, nos quais estão sendo analisados mecanismos de agregação e de antiagregação plaquetária em diferentes cenários e populações portadoras de doença coronária aterosclerótica: aterosclerose subclínica, doença coronária estável e síndromes coronárias agudas.

O candidato deve demonstrar experiência prévia em: Biologia, Fisiologia e Fisiopatologia da plaqueta; vias de ativação plaquetária; diferentes métodos de avaliação da função plaquetária, principalmente tecnologias point of care por bioimpedância elétrica e agregometria óptica; metodologia de dosagem de adenosina e de sua recaptação eritrocitária em laboratório de análises clínicas.

Além disso, é desejável que o candidato tenha noções sobre função endotelial, atividade inflamatória, atividade do sistema nervoso autônomo, método de tonometria arterial periférica para avaliação da função endotelial.

A seleção será por meio de análise de currículo e entrevista, que poderá ser realizada por teleconferência. Os candidatos interessados deverão enviar e-mail para talia.dalcoquio@hc.fm.usp.br, com curriculum vitae atualizado, carta de recomendação e carta de apresentação indicando a razão de interesse no grupo e com breve relato de sua experiência.

Mais informações sobre a vaga estão disponíveis em www.fapesp.br/oportunidades/1636.

A oportunidade está aberta a brasileiros e estrangeiros. O selecionado receberá Bolsa de Pós-Doutorado da FAPESP no valor de R$ 7.174,80 mensais e Reserva Técnica. A Reserva Técnica de Bolsa de PD equivale a 15% do valor anual da bolsa e tem o objetivo de atender a despesas imprevistas e diretamente relacionadas à atividade de pesquisa.

Caso o bolsista de PD resida em domicílio diferente e precise se mudar para a cidade onde se localiza a instituição-sede da pesquisa, poderá ter direito a um Auxílio-Instalação. Mais informações sobre a Bolsa de Pós-Doutorado da FAPESP estão disponíveis em fapesp.br/bolsas/pd.

Outras vagas de bolsas, em diversas áreas do conhecimento, estão no site FAPESP-Oportunidades, em fapesp.br/oportunidades.


Autora: Agência FAPESP
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: Agência FAPESP
Data de Publicação: 31/10/2017
Publicação Original: http://agencia.fapesp.br/posdoutorado_em_cardiologia_com_bolsa_da_fapesp/26533/