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quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

'Pode beber?': os perigos de misturar remédios e álcool



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Pode ser uma taça de champanhe para brindar, uma cerveja gelada na praia ou uma caipirinha com amigos no bar.

Mas se você estiver tomando certos medicamentos ao mesmo tempo, seu corpo pode ser afetado de várias maneiras.

Misturar determinados remédios com álcool significa que eles podem não funcionar tão bem. Com outros, você corre o risco de ter uma overdose potencialmente fatal.

A seguir, compartilhamos o que você precisa saber se estiver tomando algum tipo de remédio e pretende beber.

Por que é importante?

Depois que você toma um medicamento por via oral, ele vai para o estômago. De lá, é transportado para o fígado, onde é metabolizado e decomposto antes de entrar na corrente sanguínea.

Cada remédio que você toma é fornecido em uma dose que leva em consideração a quantidade de metabolismo que acontece no fígado.

Quando você ingere bebida alcoólica, o álcool também é decomposto no fígado, e isso pode afetar o quanto do medicamento é metabolizado.

Alguns remédios são mais metabolizados, o que pode significar que não chega à corrente sanguínea uma quantidade suficiente para serem eficazes.

Outros medicamentos são menos metabolizados. Ou seja, você recebe uma dose muito maior do que a prevista, podendo levar a uma overdose.



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Os efeitos do álcool (como a sonolência) podem se somar aos efeitos similares que um medicamento pode ter.


Se você vai ter ou não uma interação medicamentosa, e qual interação você vai ter, depende de vários fatores. Isso inclui o medicamento que você está tomando, a dose, a quantidade de álcool que você consumiu, sua idade, genética, sexo e estado geral de saúde.


Mulheres, idosos e pessoas com problemas hepáticos são mais propensas a terem uma interação medicamentosa com álcool.

Que medicamentos não se dão bem com álcool?


Muitos medicamentos interagem com o álcool —independentemente de serem vendidos com ou sem receita médica, como os remédios à base de plantas.



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1. Medicamentos + álcool = sonolência, coma, morte


Consumir bebida alcoólica e tomar um medicamento que deprima o sistema nervoso central para reduzir a agitação e a estimulação pode ter efeitos cumulativos.


Juntos, eles podem te deixar mais sonolento, diminuir sua respiração e batimentos cardíacos — e, em casos extremos, levar a um estado de coma e à morte. Esses efeitos são mais prováveis ​​se você usar mais de um medicamento desse tipo.


Os medicamentos a serem observados incluem aqueles para depressão, ansiedade, esquizofrenia, dor (exceto paracetamol), distúrbios do sono (como insônia), alergias, resfriados e gripes.


É melhor não tomar álcool com esses medicamentos ou reduzir ao mínimo a ingestão de álcool.

2. Medicamentos + álcool = mais efeitos


Misturar álcool com alguns medicamentos aumenta o efeito desses medicamentos.


Um exemplo é o comprimido para dormir zolpidem, que não deve ser tomado com álcool.


Efeitos colaterais raros, mas graves, incluem comportamentos estranhos durante o sono, como comer, dirigir ou caminhar enquanto se está dormindo, que são mais prováveis ​​com o consumo de álcool.



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3. Medicamentos + cerveja artesanal ou caseira = pressão alta


Alguns tipos de medicamentos só interagem com alguns tipos de álcool.


Entre eles, estão alguns medicamentos para depressão, como fenelzina, tranilcipromina e moclobemida, o antibiótico linezolida, a droga contra o Parkinson selegilina e o medicamento contra o câncer procarbazina.


Esses chamados inibidores da monoamina oxidase interagem apenas com alguns tipos de cervejas artesanais, cervejas com sedimentos visíveis, cervejas belgas, coreanas, europeias e africanas, e cervejas e vinhos caseiros.


Esses tipos de bebidas alcoólicas contêm altos níveis de tiramina, uma substância natural geralmente decomposta pelo corpo que normalmente não causa nenhum dano.


No entanto, os inibidores da monoamina oxidase impedem que o corpo decomponha a tiramina.


Isso aumenta os níveis no seu corpo e pode fazer com que sua pressão arterial suba a níveis perigosos.



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4. Medicamentos + álcool = efeitos mesmo depois de parar de tomar


Outros medicamentos geram interação porque afetam a maneira como o corpo decompõe o álcool.


Se você consumir bebida alcoólica enquanto estiver tomando estes medicamentos, pode sentir náuseas, vomitar, apresentar rubor na face e pescoço, sentir falta de ar ou tonturas, o seu coração pode bater mais rápido do que o habitual, ou a sua pressão arterial pode cair.


Isso pode acontecer mesmo depois quando você interrompe o tratamento, mas ingere álcool na sequência.


Por exemplo, se estiver tomando metronidazol, você deve evitar consumir álcool não só durante o uso do medicamento, como também por pelo menos 24 horas após parar de tomá-lo.


Um exemplo de como o álcool altera a quantidade do medicamento ou de substâncias relacionadas no corpo é a acitretina. Este medicamento é usado para tratar doenças de pele, como psoríase grave, e para prevenir o câncer de pele em pessoas submetidas a transplante de órgão.


Quando você toma acitretina, ela se transforma em outra substância — etretinato —, antes de ser eliminada do seu corpo.


O álcool aumenta a quantidade de etretinato no corpo. Isso é particularmente importante, uma vez que o etretinato pode causar defeitos congênitos.


Para evitar isso, se você é uma mulher em idade fértil, deve evitar consumir álcool enquanto estiver usando o medicamento — e por dois meses depois de parar de tomá-lo.

Mitos sobre álcool e medicamentos



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Legenda da foto,

A pílula anticoncepcional tem uma eficácia acima de 99%, se tomada corretamente

Álcool e controle de natalidade


Um dos mitos mais comuns sobre medicamentos e álcool é que você não pode beber enquanto toma pílula anticoncepcional.


Em geral, é seguro consumir bebida alcoólica com a pílula, pois não afeta diretamente o funcionamento do controle de natalidade.


Mas a pílula é mais eficaz quando tomada à mesma hora todos os dias. Se você beber muito, é mais provável que se esqueça de fazer isso no dia seguinte.


O álcool também pode causar náusea e vômito em algumas pessoas. Se você vomitar até três horas depois de tomar a pílula, ela não vai funcionar. Isso aumenta o risco de gravidez.


As pílulas anticoncepcionais também podem afetar sua resposta ao álcool, uma vez que os hormônios que contêm podem alterar a maneira como seu corpo elimina o álcool.


Isso significa que você pode ficar bêbada mais rápido, e ficar bêbada por mais tempo do que o normal.



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Álcool e antibióticos


Depois, há o mito de não misturar álcool com nenhum tipo de antibiótico. Isso se aplica apenas ao metronidazol e à linezolida.


Mas é melhor evitar a ingestão de álcool enquanto estiver tomando quaisquer antibióticos.


Os antibióticos e o álcool possuem efeitos colaterais semelhantes, como dor de estômago, tontura e sonolência.


Usar os dois juntos significa que é mais provável que você apresente esses efeitos colaterais.


O álcool também pode reduzir sua energia e aumentar o tempo que leva para você se recuperar.

Onde posso buscar orientação?


Se você pretende consumir bebida alcoólica e está preocupado com qualquer interação com seus medicamentos, não deixe de tomá-los.


O seu médico pode dizer se é seguro beber com base nos remédios que você está tomando — e, se não for, orientar sobre alternativas.


* Nial Wheate é professor associado da Escola de Farmácia de Sydney, da Universidade de Sydney, na Austrália.


Jessica Pace é professora associada da Universidade de Sydney.


Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado aqui sob uma licença Creative Commons. Leia aqui a versão original (em inglês).




Autor: Nial Wheate e Jessica Pace
Fonte: bbc
Sítio Online da Publicação: bbc
Data: 11/01/2023
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-64208680

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Semana de Combate ao Alcoolismo e Álcool: Cocaína e coração

Por conta do Dia Nacional de Combate ao Alcoolismo e Drogas, traremos uma série de artigos sobre o tema. Abordaremos agora a cocaína e suas complicações cardiológicas.


No verão de 1884, parecia que uma nova era começava na medicina: com a aplicação de cocaína dissolvida em pó na córnea de um sapo, o nascimento da anestesia local foi declarado. Na mesma década, foi lançada o xarope de coca e cola, que se tornou símbolo da cultura dos EUA no século XX. Seu uso foi publicamente defendido de forma rotineira por diversos médicos, inclusive Dr Freud. O resultado é visto até os dias atuais: em 2006 havia mais de dois milhões de usuários de cocaína nos EUA, e, em 2020, de acordo com dados do CDC americano, de 90 mil mortes por overdose, 19447 foram por overdose de cocaína.


Alterações cardíacas

A cocaína causa diversos sintomas agudos, sendo o principal a angina, que ocorre em 57% dos casos que procuram o hospital. Também são comuns palpitação, hipertensão e arritmias e podem ocorrer danos cardíacos estruturais irreversíveis, como progressão de aterosclerose, aneurisma e dissecção de aorta, endocardite, doenças valvares, infarto do miocárdio e até insuficiência cardíaca (IC). Em estudo com 94 usuários de longa data, 71% tiveram alterações na ressonância cardíaca: aumento de volume diastólico final, redução da fração de ejeção do ventrículo esquerdo (VE) e direito e 30% apresentavam realce miocárdico tardio.

Sua ação predominante é a simpaticomimética, que bloqueia a ligação de norepinefrina e dopamina na pré sinapse de terminais adrenérgicos, possibilitando acúmulo de catecolaminas no receptor pós-sináptico. Logo, há estímulo simpático associado ao aumento de catecolaminas com consequentes aumento da frequência e contratilidade cardíacas, da pressão arterial e vasoconstrição, agregação plaquetária, formação de trombos e espasmo coronário, cuja ação combinada leva a redução da oferta de oxigênio.

Essa queda na oferta associada ao aumento de demanda gera isquemia e infarto do miocárdio. A cocaína estimula a liberação do potente vasoconstritor endotelina 1, além de inibir a síntese de óxido nítrico (que promoveria vasodilatação e efeitos opostos aos descritos previamente), gerando mais desbalanço e remodelamento vascular. Estudos mostram que usuários de cocaína tem risco sete vezes maior de infarto comparado a não usuários e o estudo CHOCHPA mostrou que 6% dos casos de angina em emergência eram resultantes do uso de cocaína. Além disso também parece haver relação com aneurismas de coronária, encontrados em 30,4% vs 7,6% em não usuários.

O efeito arrítmico parece estar relacionado ao bloqueio do transporte de sódio, com prolongamento do intervalo Qt e do QRS e disfunção sistólica. Já as alterações estruturais são ocasionadas por uso prolongado da droga e resultantes da hipertensão crônica e aumento da reatividade periférica, que ocasiona aumento compensatório da massa do VE. Em uma meta análise, o uso crônico de cocaína foi associado ao aumento de peso do coração e um estudo randomizado que comparou 20 usuários crônicos com indivíduos saudáveis mostrou aumento significativo da massa ventricular esquerda (18% com p=0.01). A cocaína pode ainda estar associada a redução do volume diastólico final do VE, por dano miocárdico direto ou disfunção de microcirculação.

Uso de beta-bloqueadores

Como já citado, a manifestação cardiovascular mais frequente é a angina, com possível ocorrência de infarto agudo do miocárdio, que é o que o emergencista mais vai encontrar em seu dia a dia. O tratamento destes pacientes tem algumas particularidades, principalmente em relação ao uso de beta bloqueadores.

Apesar de seu uso ser evitado pela maioria dos emergencistas, existe surpreendentemente pouquíssima evidência neste sentido. Esse cuidados vem de um estudo pequeno, com dez pacientes, que demonstrou vasoespasmo de coronária esquerda após 15 minutos de uso de cocaína intranasal e propranolol intracoronário. Esse foi o estudo que norteou a maioria das recomendações referentes a uso de beta-bloqueadores em intoxicações agudas e não há estudos grandes randomizados sobre o tema.

Um outro estudo pequeno de 2010, com 90 pacientes com síndrome coronária aguda que tinham exame de urina positivo para cocaína, comparou uso de labetalol ou diltiazem. Ambos os grupos tiveram redução dos níveis de pressão arterial em 48h, e após esse período os pacientes do grupo labetalol tiveram melhores parâmetros hemodinâmicos, mostrando que seu uso é seguro em quem fez uso de cocaína.

Metanálise de cinco estudos publicada em 2019 não mostrou diferença em relação ao risco de infarto (risco relativo {RR} 1.08, 95% intervalo de confiança {CI} 0.61-1.91) ou mortalidade geral (RR 0.75, 95% CI, 0.46-1.24) em pacientes com angina induzida por cocaína que usaram ou não betabloqueadores. Logo, betabloqueadores não foram associados com desfechos negativos em pacientes com dor torácica por cocaína.

Um estudo observacional com 2578 pacientes com IC, 503 tinham uso de cocaína como possível causa e carvedilol foi associado com melhores desfechos cardiovasculares e menor taxa de re-admissão por IC em 30 dias (34% vs 58% dos que não fizeram uso, com p=0.02). Logo, há benefício do carvedilol em pacientes com FE menor que 40%, mesmo que sejam usuários de cocaína.


Apesar desses novos estudos e de beta-bloqueadores terem benefício claro no tratamento de pacientes com infarto e IC, a American Heart Association e a American College of Cardiology recomendam contra o uso de betabloqueadores em intoxicações agudas devido ao risco de espasmo coronário, sendo preferível os bloqueadores de canal de cálcio com propriedades cronotrópicas e inotrópicas negativas (como verapamil e diltiazem).





Autor: Luiz Fernando Fonseca Vieira
Fonte: PEBMED
Sítio Online da Publicação: PEBMED
Data: 24/02/2022
Publicação Original: https://pebmed.com.br/semana-de-combate-ao-alcoolismo-e-alcool-cocaina-e-coracao/

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Semana de Combate ao Alcoolismo e Álcool: quando pensar em hepatite alcoólica?

Por conta do Dia Nacional de Combate ao Alcoolismo e Drogas, traremos uma série de artigos sobre o tema. Abordaremos agora a hepatite alcoólica.

O álcool é uma substância psicoativa muito utilizada, sendo causa importante de mortalidade precoce e hepatopatia crônica. O dano hepático pelo etanol pode ser de forma direta, através de seus metabólitos tóxicos, e de forma imunomediada, pelo recrutamento de células inflamatórias e liberação de citocinas.

A história natural da doença hepática alcoólica compreende esteatose, esteatohepatite, cirrose hepática e carcinoma hepatocelular. Pacientes com esteatohepatite apresentam-se clinicamente com hepatite alcoólica (HA), entidade com amplo espectro clínico, que varia de formas oligo sintomáticas até insuficiência hepática.


O diagnóstico de confirmação é feito através de suspeita clínica e comprovação histopatológica. Contudo, na maioria das vezes, utilizamos os critérios de diagnóstico clínico de HA, devido aos riscos da biópsia hepática percutânea em pacientes ictéricos, com alargamento de TAP e, em muitas vezes, com ascite.

Trata-se de uma condição associada a gravidade e por vezes negligenciada. Vamos aqui discutir tópicos sobre diagnóstico, avaliação prognóstica e conduta nesses pacientes, com enfoque na prática clínica.

Prática clínica em caso de hepática alcoólica

Encontrei um alcoolista ictérico no plantão. O que é importante na história e exame físico?

Há quanto tempo esse paciente consome álcool? Qual a quantidade? Está abstinente? Houve intensificação do consumo recentemente?

Quando iniciou a icterícia? Existem sintomas associados (colúria, acolia, prurido, febre, dor abdominal?)

O paciente fez uso de drogas ou chás hepatotóxicos?

Há estigmas de hepatopatia crônica ao exame físico (telangiectasias, eritema palmar, circulação colateral…)?

Quais exames devo solicitar inicialmente?

Hemograma – pode apresentar com leucocitose importante, incluindo reação leucemoide;

Albumina, TAP e BT à BT > 3 é um dos critérios diagnósticos;

AST, ALT, FA, GGT à Atenção com relação AST/ALT >1,5

Ureia, creatinina, Na, K e Mg à Disfunção renal é a disfunção extra-hepática mais encontrada nos casos graves; O álcool depleta os estoques de magnésio.

Sorologias de Hepatites Virais

US de abdome à avaliar icterícia obstrutiva

Como fazer um diagnóstico clínico de hepatite alcoólica?

O paciente deve preencher os seguintes critérios:

Ingestão de álcool crônica ( > 40g/dia/mulheres e > 60 g/dia/homens), com última ingestão até 60 dias do início da icterícia;

Início de icterícia nas últimas 08 semanas;

AST > 50 U/L, AST/ALT >1,5 e ambos <400 U/L;

BT maior do que 3 mg/dl;

Ausência de fatores confundidores (icterícia obstrutiva; fatores de risco para hepatite isquêmica como HDA volumosa e hipotensão; uso de drogas ou ervas hepatotóxicas; hepatites virais agudas ou outras causas prováveis de hepatopatia);

Feito o diagnóstico – qual paciente se beneficia de internação e tratamento medicamentoso?

Através de escores prognósticos:

Índice de Função Discriminante de Maddrey (IFD):

Utiliza bilirribuna total e tempo de protrombina.

É o escore prognóstico mais clássico, adotado nos ensaios clínicos para corticoterapia.

Ponto de corte: valor maior ou igual a 32 indica gravidade e torna o paciente elegível a corticoterapia

Crítica: não leva em conta a Creatinina; superestima gravidade.

MELD/ MELD – NA:

Escore já utilizado na cirrose hepática, utiliza bilirrubina, INR, creatinina ± sódio.

Não foi adotado nos principais ensaios clínicos de tratamento.

Diferentes pontos de corte sugeridos na literatura: o mais utilizado é 21.

Um estudo multicêntrico recentemente publicado mostrou melhor acurácia em predizer mortalidade em 28 dias que o IFD.

Como tratar?

A base do tratamento deve ser oferecida a todos os casos, independente dos escores prognósticos e consiste em abstinência alcoólica e suporte nutricional (pelo menos 21,5 kcal/kg/dia) associado a prescrição de tiamina e complexo B.

Equipe multidisciplinar, suporte familiar e seguimento ambulatorial especializado são imprescindíveis.

Devemos nos atentar para síndrome de realimentação, pois muitos são desnutridos – Solicitar íons, incluindo fósforo.

Prednisolona 40 mg durante 28 dias é o corticoide de escolha em casos graves, porém a prednisona pode ser utilizada.

Deve ser utilizado em pacientes com IFD ≥ 32, na ausência de contraindicações (HDA, infecção não controlada, lesão renal aguda com creatinina ≥ 2,5). Quando possível, associar o escore MELD/MELD-NA para evitar futilidade no tratamento.

Na literatura, o tempo médio para início de corticoide é de 5 dias do diagnóstico, a fim de realizar adequado rastreio infeccioso, profilaxia de estrongiloidíase disseminada e observar a evolução clínica desse paciente.

A corticoterapia tem impacto na mortalidade em 28 dias.

Como estimar resposta ao tratamento diante dos riscos de uma terapia prolongada com corticoide?

Através do Lille Score no 7º dia, que utiliza idade, bilirrubina total, TAP, creatinina e albumina da admissão e bilirrubina total no D7. Valores ≥ 0,45 indicam suspensão do tratamento;

Estudos recentes mostram que o Lille Score de 4º dia tem boa correlação com o de 7º dia, mas ainda requer validação?

Meu paciente falhou ao corticoide, o que fazer?

A última diretriz da AASLD recomenda associação de acetilcisteína venosa, devido ao seu efeito antioxidante. Contudo, trata-se de droga pouco disponível;

Existem estudos em andamento com outras drogas, já em fase 3 com fatores estimuladores de colônia de granulócitos;

O STOPAH foi um trial que comparou a prednisona e pentoxifilina, concluindo que a última não teve benefício na HA.

Na ausência de disponibilidade de outras drogas, lembre-se que a abstinência alcoólica e a terapia de suporte são os principais pilares na evolução desses casos.

Mensagem prática sobre hepatite alcoolica

Assim como o alcoolismo, a hepatite alcoólica acaba por ser negligenciada. É necessário ter atenção na história, exame físico e investigação inicial para achados que sugiram alcoolismo crônico, como elevação de GGT, aumento de VCM e predomínio de AST sobre ALT.

Feito o diagnóstico, é necessário estratificar esse doente, para saber quais casos se beneficiam de corticoterapia. Contudo, não devemos esquecer de que a base do tratamento consiste na abstinência etílica.






Autor: Fernanda Costa Azevedo
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 21/02/2022
Publicação Original: https://pebmed.com.br/semana-de-combate-ao-alcoolismo-e-alcool-quando-pensar-em-hepatite-alcoolica/

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Crianças tomam mais álcool do que leite em São Tomé e Príncipe, diz pesquisadora



Pobreza e fome em São Tomé levam crianças a substituir comida por álcool — Foto: Ruth McDowall / AFP


A pesquisadora Isabel de Santiago, do Instituto de Medicina Preventiva e Saúde Pública da Universidade de Lisboa (FMUL), realizou um amplo estudo sobre o consumo de álcool e drogas pelos jovens do país. As conclusões serão publicadas em junho de 2020, na revista Acta Médica Portuguesa.


A especialista em saúde pública entrevistou mais de 16 mil alunos do ensino público e o estudo se baseou em uma mostra de 12%. A conclusão é que cerca de 58% dos meninos e 43% das meninas em idade escolar consomem álcool.



“Como viajo muito para o país, um dia decidi percorrer todas as comunidades para tirar fotos e investigar essa informação, de que os jovens de São Tomé e Príncipe bebiam muito”, contou ao repórter Marco Martins, da redação portuguesa da RFI.



As imagens se transformaram em uma exposição em Portugal, com renda revertida para a Casa dos Pequeninos, instituição que atende menores vítimas de alcoolismo em São Tomé e Princípe. “Muitas mães bebem durante a gravidez e as crianças nascem com síndrome de abstinência”, revela.


“Isso pode gerar graves problemas de saúde no futuro, como a cirrose hepática precoce”, diz. Essa triste realidade levou a portuguesa, em julho de 2003, a buscar mais informações sobre o tema e a ouvir diretamente os jovens.


“Os resultados foram alarmantes”, diz a pesquisadora, que analisou o conteúdo dos questionários 2003 a 2014. Eles foram publicados em uma conferência mundial que aconteceu na cidade de Curitiba (PR) e no CDC ("Centers for Disease Control and Prevention"), em Atlanta, nos EUA.



Álcool para matar lombriga



Uma das constatações de Isabel Santiago é a inexistência de uma política de comunicação e educação em saúde, de estudos sobre o consumo de álcool e drogas pelos jovens e uma pobreza extrema. Além disso, ressalta, o acesso às bebidas alcoólicas gera indiretamente um aumento do número de casos de abusos sexuais.


“Com essas informações busquei determinar a frequência do uso do álcool na população escolar e identificar a principal característica associada ao consumo deste tipo de bebida e discutir medidas de prevenção”, lembra a pesquisadora, que destaca o fato de que as bebidas consumidas na maior parte dos casos não passaram por nenhum tipo de controle industrial ou sanitário.



“Para nós capacitarmos as crianças, temos que ser divertidos no momento de passar a informação”, diz. “As pessoas não têm informação sobre os efeitos do álcool.




"Os homens pensam que é uma questão de virilidade e as mães, por ignorância, dão bebida às crianças de seis ou sete anos em jejum para matar as lombrigas”, conta a pesquisadora. “Além disso há a pobreza. As pessoas não têm dinheiro para comprar comida e preferem se alimentar de álcool, que é mais barato”, exemplifica.




Alcoolismo: como saber se você é dependente do álcool?


Soluções


Para a pesquisadora, uma das soluções para amenizar o problema é oferecer, por exemplo, atividades esportivas para as crianças, além, claro de criar hábitos de vida saudáveis e informar sobre os efeitos nocivos do álcool. Além, obviamente, de buscar soluções para fome.


Para isso, da ajuda da comunidade internacional é fundamental para intervir junto às comunidades. Esse trabalho deve ser feito, ressalta, com os líderes comunitários.


É importante também, ressalta, garantir a nutrição das crianças produzindo leite localmente, já que importar o produto é muito caro. A segunda medida é o controle e prevenção, diz. “Só consome álcool importado quem tem dinheiro.


Os pobres bebem os outros álcools, que não são controlados em termos de saúde pública pelas outras autoridades e não podem ser vendidos de maneira livre”, lembra.




Autor: G1 Globo Saúde
Fonte: G1 Globo Saúde
Sítio Online da Publicação: G1 Globo Saúde
Data: 03/01/2020
Publicação Original: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/viva-voce/noticia/2020/01/02/criancas-tomam-mais-alcool-do-que-leite-em-sao-tome-e-principe-diz-pesquisadora.ghtml

terça-feira, 7 de maio de 2019

Por que beber álcool aumenta a chance de ser picado por mosquitos



Insetos podem ser resistentes aos efeitos do álcool — Foto: Pixabay/Divulgação


Há alguns anos, participei como fotógrafo de um rali de carros antigos na Dinamarca. O objetivo da competição não era premiar quem fosse mais rápido, mas quem se vestisse de forma mais extravagante. O evento terminou em um acampamento na ilha de Møn, com todo mundo dançando, bebendo e comendo. Algumas horas - e drinques - mais tarde, decidi que era uma boa ideia dormir numa espreguiçadeira sob o sereno dinamarquês.


Foi quando fiz três importantes descobertas: 1) a Dinamarca possui uma população feroz de mosquitos durante o verão; 2) os mosquitos são perfeitamente capazes de picar através da espreguiçadeira e da sua roupa; e 3) beber álcool é um imã para esses insetos insuportáveis. Acordei com minhas costas parecendo um plástico-bolha. Não era a memória que eu queria ter levado de volta para casa.


Como o periódico científico Journal of the American Mosquito Control Association descobriu em 2002, a probabilidade de sermos picados por um mosquito aumenta drasticamente quando ingerimos álcool. O estudo, que envolveu um grupo pequeno, de apenas 13 pessoas, mostrou que aquelas que beberam uma garrafa de cerveja tinham maior probabilidade de serem devoradas por esses insetos.


Exatamente por que os mosquitos parecem mais atraídos pelos beberrões, ninguém sabe ao certo. Sabemos, por outro lado, que esses insetos nos picam graças a duas substâncias químicas que exalamos quando respiramos: dióxido de carbono e octanol. O octanol, um álcool secundário criado a partir da quebra do ácido linoleico, também é comumente conhecido como "álcool de cogumelo" porque é o composto que ajuda a dar sabor aos cogumelos.


Mas isso leva a outra pergunta: os mosquitos que se alimentam de humanos embriagados também se embriagam? Apesar do grande número de mosquitos que se alimentou de sangue de seres humanos bêbados ao longo de milênios, há relativamente pouca pesquisa sobre o assunto.


A entomologista Tanya Dapkey, da Universidade da Pensilvânia, no Estado americano da Filadélfia, diz à BBC Future: "Suspeito que a resposta seja não, porque o nível de álcool no sangue é muito baixo (para embriagá-lo)".


Mas basta uma rápida pesquisa para encontrar estudos que mostram a associação entre mosquitos e álcool.


Em um artigo recente na revista científica Popular Science, o entomologista Coby Schal, da Universidade Estadual da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, mostrou que um ser humano que tenha tomado 12 drinques pode ter um nível de álcool no sangue de 0,2%. Porém, se um mosquito beber o sangue dessa pessoa, os efeitos em seu organismo seriam insignificantes - afinal, ele suga quantidades tão pequenas que o álcool acaba diluído a 1/25 de sua composição original.



Etanol que excretamos quando bebemos álcool pode ajudar a atrair mosquitos, sugere pesquisa — Foto: Unsplash



Evolução



A evolução também pode ter dado uma ajuda extra aos mosquitos. Qualquer outro líquido que não seja sangue é desviado primeiro para uma bolsa digestiva separada, na qual é quebrado por enzimas. Portanto, é provável que o álcool seja neutralizado antes de atingir o sistema nervoso do inseto.


"Muitos dos insetos adultos têm uma espécie de papo (dilatação no esôfago) que armazena todos esses líquidos que eles sugam. Posteriormente, essas substâncias são liberadas gradualmente", diz Erica McAlister, curadora sênior de insetos do Museu de História Natural de Londres. "Enzimas quebram tudo que é prejudicial - como álcool e bactérias"


McAlister, que escreveu o livro The Secret Life of Flies (A Vida Secreta das Moscas, em tradução livre), já pesquisou os efeitos do álcool nas moscas-das-frutas, incluindo a mosca-da-fruta-comum, também conhecida como "mosca-do-vinagre". Esses insetos minúsculos são atraídos por frutas podres repletas de álcool.


"Não sei se os mosquitos ficam bêbados, mas observamos isso com moscas-das-frutas", diz McAlister. "Elas se embriagam, mas têm uma tolerância muito alta. Em doses menores, elas ficam muito hiperativas - e galanteadoras. E são menos exigentes com seus parceiros também", acrescenta.


"Mas basta uma dose maior para elas desmaiarem."


Os mosquitos também acabam atraídos por frutas podres, pois a frutose se transforma em álcool. Apenas as fêmeas se alimentam de sangue para obter a proteína necessária para gerar óvulos. Machos e fêmeas também se alimentam de néctar produzido por flores - os mosquitos são polinizadores-chave - e usam o açúcar contido ali para obter a energia necessária para sobreviverem. Esse néctar também pode se transformar em pequenas quantidades de álcool.



Características genéticas podem tornar algumas pessoas mais propensas a serem picadas — Foto: Pixabay/Divulgação



Genes



Além disso, alguns de nós têm uma composição genética que atrai mais os mosquitos. Acredita-se que uma em cada cinco pessoas no mundo tenha características que as tornam mais suscetíveis a picadas. Uma deles é o tipo sanguíneo; um estudo mostrou que aqueles com sangue tipo O tinham duas vezes mais probabilidade de ser picados do que os com sangue tipo A. Outros fatores de risco são temperatura corporal alta, gravidez (possivelmente por conta do aumento da temperatura corporal), suor (devido à liberação de mais dióxido de carbono) e massa corporal.


Os mosquitos também são bastante meticulosos sobre o local em que nos picam, dependendo da espécie. Alguns preferem as pernas e os pés, enquanto outros são mais propensos a gravitar em torno do pescoço e do rosto, possivelmente porque estão se concentrando nas emissões de dióxido de carbono da boca e do nariz.


"Fui para a Costa Rica e fui picado por mosquitos na sola dos meus pés", lembra Dapkey, indignado. "Como isso é possível?"


Mas o etanol que emitimos em nosso suor quando bebemos pode ser a mensagem química por trás dos resultados do estudo de 2002. Um projeto semelhante, dessa vez com 18 pessoas em Burkina Faso, na África, em 2010, também descobriu que os mosquitos acabavam mais atraídos por aqueles que tinham bebido. O etanol no álcool que bebemos - e que excretamos em pequenas quantidades através do suor - pode ser uma espécie de 'aviso' para os insetos de que há uma refeição por perto.


"O nível de dióxido de carbono exalado e a temperatura corporal não afetaram a atratividade humana para os mosquitos. Apesar da variação voluntária individual, o consumo de cerveja aumentou consistentemente a atratividade para os mosquitos", indicaram os resultados da pesquisa.


"Se você estiver com fome e estiver andando por aí", diz Dapkey, "provavelmente vai caminhar na direção da comida: aquele cheiro forte de cachorro-quente, por exemplo. Você pode até não comer o cachorro-quente, mas sabe que tem comida ali".


O álcool pode ser o aviso de que "a comida está na mesa", mas McAlister ressalta que os principais fatores que atraem os mosquitos provavelmente se devem à nossa constituição genética. Simplesmente dizer não a uma cerveja gelada não vai evitar que você seja picado. E, olhando pelo lado positivo, após um ou dois drinques, talvez você não sinta muita coceira. Eu pessoalmente já comprovei essa teoria.





Autor: Stephen Dowling
Fonte: BBC
Sítio Online da Publicação: G1 Saúde
Data: 07/05/2019
Publicação Original: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/05/07/por-que-beber-alcool-aumenta-a-chance-de-ser-picado-por-mosquitos.ghtml

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Em estudo, 55% das vítimas de morte violenta usou álcool ou outra droga


Consumo de álcool ou de pelo menos um tipo de droga esteve associado a mais da metade das mortes violentas ocorridas na cidade de São Paulo no período analisado – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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Um grupo da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) publicou os resultados de uma pesquisa a respeito da associação entre o consumo de álcool e drogas com a ocorrência de mortes violentas. O trabalho coloca em números os dados dessa relação, no caso, na cidade de São Paulo. A descoberta é que o consumo de álcool ou de pelo menos um tipo de droga guarda associação com mais da metade (55%) das mortes violentas ocorridas na capital paulista entre 2014 e 2015.

O trabalho é resultado do pós-doutorado do epidemiologista Gabriel Andreuccetti, com a supervisão do professor Heráclito Barbosa de Carvalho, do Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP, e em colaboração com o Departamento de Medicina Legal da mesma universidade, com a University of California, Berkeley, e apoio do Instituto Médico Legal (IML) de São Paulo. O artigo foi publicado no periódico Injury e contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Para obter dados para o levantamento, Andreuccetti empregou um método de amostragem probabilística usando a cidade de São Paulo como população-alvo.

“Os casos amostrados eram vítimas adultas, feridas fatalmente, que tiveram causa de morte súbita, inesperada, violenta ou de outra forma não natural, e que deram entrada nas principais instalações médicas forenses que atendem toda a cidade e seus 96 distritos”, disse à Agência Fapesp.

Segundo a legislação, as vítimas de morte súbita, inesperada ou violenta devem obrigatoriamente ser submetidas a um procedimento de autópsia pelas equipes de perícias médico-legais (EPML). Anualmente, ocorrem em São Paulo cerca de sete mil mortes que se enquadram nessa classificação. A maioria é composta por homicídios (26%), seguida pelos óbitos relacionados ao trânsito (20%) e por suicídios (10%).

O trabalho de levantamento de casos de mortes violentas ocorreu entre junho de 2014 e dezembro de 2015. Para obter uma amostra representativa da cidade, Andreuccetti coletou amostras de sangue de cadáveres durante autópsias pelas diversas EPML da cidade, em diferentes dias e horários da semana, ao longo de 19 meses.

Vítimas que receberam seis ou mais horas de tratamento médico devido ao evento de lesão ou que sobreviveram pelo mesmo período antes da morte foram excluídas da amostra.


Foto: stevepb/Pixabay

“Há um grande número de casos de pessoas que deram entrada no hospital e vão parar no Instituto Médico Legal (IML). Em muitos destes casos, a lesão fatal ocorreu de forma violenta ou súbita, sendo que a vítima pode ter estado sob efeito de drogas no momento do acidente, crime ou suicídio. Mas, devido à internação por mais de seis horas, os vestígios de álcool e drogas no sangue podem sofrer influência após o evento traumático. Esses casos foram excluídos do levantamento”, disse Andreuccetti.

O resultado final do levantamento chegou a uma amostra com 365 mortes, todas violentas, súbitas ou inesperadas, que deram entrada no IML. A amostra reuniu 104 homicídios (28,5% do total), 56 vítimas de acidentes de trânsito (ou 15,3%), 44 suicídios (12,1%), 26 quedas (7,1%) e 21 casos de envenenamento ou intoxicação (5,8%). Em 114 casos (31,2%), a morte súbita ou violenta ocorreu de formas que não as anteriores.

“Devido a diversas ações governamentais no começo da década (2010), a mortalidade no trânsito paulistano caiu consideravelmente, junto com a mortalidade por homicídios que vem caindo desde a década passada. Hoje a taxa de mortes por homicídios é maior do que no trânsito. Mas São Paulo é um caso atípico. No Brasil como um todo, essas flutuações foram bem menores, e continua-se morrendo muito por essas duas causas”, disse Andreuccetti.
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Homens e jovens

Uma vez estabelecidas as situações onde ocorreram as mortes, o passo seguinte foi identificar quais apresentavam vestígios de álcool ou de drogas no sangue. Para tanto, amostras de sangue de todas as vítimas foram submetidas a uma triagem abrangente dos casos positivos para uma variedade de medicamentos, drogas ilícitas e álcool.

Foram verificadas a concentração de álcool no sangue (via cromatografia gasosa), bem como a presença de outras drogas, incluindo anfetaminas, sedativos (calmantes) e ansiolíticos (barbitúricos e benzodiazepínicos), maconha, cocaína, opioides (metadona, morfina, heroína) e pó de anjo (fenciclidina). A presença de drogas no sangue foi detectada por meio do ensaio de imunoabsorção enzimática (Elisa), posteriormente confirmada por espectrometria de massa.

Das 365 vítimas, 202 (55,3%) haviam ingerido álcool antes de morrer, ou estavam sob efeito de drogas no momento do falecimento, sendo que 63 só ingeriram álcool, 92 só usaram drogas e 47 fizeram as duas coisas.

“De cada duas vítimas, uma apresentava resquícios de álcool e/ou drogas no sangue. Isso significa que mais da metade das vítimas fez uso de álcool ou drogas imediatamente antes de morrer”, disse Andreuccetti.

O álcool foi a substância mais prevalente entre as vítimas que fizeram uso de qualquer tipo de substância psicoativa, seguido pela cocaína, maconha e os calmantes e ansiolíticos. Mais especificamente, entre as 202 vítimas positivas para álcool e/ou drogas, 30,1% ingeriram álcool, 21,9% cocaína, 14% maconha e 11,5% benzodiazepínicos. 16,2% usaram álcool e qualquer uma dessas drogas.

“Não esperávamos prevalência tão elevada de drogas na amostragem. De cada cinco vítimas que usaram drogas, quatro usaram cocaína ou maconha. É um dado preocupante”, disse Andreuccetti.

No caso das vítimas de acidentes de trânsito, quase metade (42,9%) tinha traços de álcool no sangue e uma em cinco (21,4%) estava sob efeito de uma ou mais substâncias. “Isso mostra que as drogas influenciam mais a violência interpessoal e o álcool os acidentes de trânsito”, disse Andreuccetti.

Com relação aos homicídios, em nada menos que 59,6% das mortes foi acusada a presença de alguma substância psicoativa ou álcool no sangue, sendo que 16,3% usaram álcool e cocaína juntos.

No que tange aos casos de suicídio, o álcool teve a menor representação de toda a amostragem. Apenas 9,1% do suicidas haviam ingerido álcool. Por outro lado, foi nesse grupo que o uso de benzodiazepínicos se revelou um dos mais prevalentes. Um em cada cinco estava sob efeito desses medicamentos (18,2%).

Do total de 202 mortes positivas para o uso de álcool ou drogas, havia nove homens para cada mulher. E cerca de uma em cada três vítimas tinha menos de 30 anos. “É nessa faixa que se concentra o maior número de vítimas de homicídio no Brasil. E foi nessa faixa etária que se verificou uma maior prevalência do uso de outras drogas, em combinação ou não com o álcool”, disse Andreuccetti.

A participação étnica se mostrou similar: metade dos mortos era branco (50,3%) e a outra metade composta por indivíduos de outra etnia (pardos, negros, etc.) (49,7%). 60,5% das mortes ocorreram no período das 6 da tarde às 6 da manhã. Morre-se de forma violenta mais à noite do que de dia na cidade de São Paulo.
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Histórico criminal

Um dado revelador é que, das 365 mortes, 15,9% das vítimas tinham algum histórico criminal. Entre esses, o uso de outras drogas além do álcool e o uso múltiplo de substâncias foram maiores do que entre as vítimas que não possuíam histórico criminal.

Sempre que possível, Andreuccetti tentou quantificar as vítimas segundo o local de ocorrência da lesão fatal. Isso foi feito verificando-se a região da cidade onde o evento da lesão ocorreu. Assim sendo, inferiu-se que a maioria das mortes por violência quando sob a influência de drogas ocorre no centro e na periferia, ou seja, onde se concentram os maiores centros de comércio e a população de baixa renda, respectivamente.

“Isso sugere que há um componente socioeconômico, mas para sabermos mais seria necessário realizar um estudo específico. Por outro lado, o uso de álcool associado a essas mortes parece estar mais disseminado por toda a cidade de São Paulo”, disse Andreuccetti.

De acordo com o epidemiologista, conhecer essas estatísticas é um passo importante para tentar começar a reduzir os números de mortes violentas relacionadas ao consumo de álcool e drogas na cidade de São Paulo e em outras grandes cidades do país.

“Todas essas mortes causam um prejuízo enorme à sociedade em termos de serviços hospitalares e socorro de emergência, sem falar na dor para os familiares e no significado da perda pela violência de uma pessoa que poderia continuar trabalhando, estudando e produzindo”, disse.

O artigo Alcohol in combination with illicit drugs among fatal injuries in Sao Paulo, Brazil: An epidemiological study on the association between acute substance use and injury, de G. Andreuccetti, C.J. Cherpitel, H.B. Carvalho, V. Leyton, I.D. Miziara, D.R. Munoz, A.L. Reingold e N.P. Lemos, está disponível no International Journal of the Care of the Injured.

Peter Moon / Agência Fapesp




Autor: Peter Moon
Fonte: Agência Fapesp
Sítio Online da Publicação: Agência Fapesp
Data: 17/10/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-da-saude/em-estudo-55-das-vitimas-de-morte-violenta-usou-alcool-ou-outra-droga/

terça-feira, 10 de abril de 2018

Chip sob a pele vigia uso de álcool e envia dados para smartwatches, dizem pesquisadores



Chip de monitoramento de álcool é pequeno o suficiente para ser implantando sob a pele (Foto: David Baillot/UC San Diego Jacobs School of Engineering)


Pesquisadores da Universidade de San Diego, na Califórnia, afirmaram ter desenvolvido um chip em miniatura que pode ser implantado sob a pele e usado para o monitoramento de álcool no organismo a longo prazo. O trabalho foi apresentado nesta terça-feira (10) durante a Conferência de Circuitos Integrados em San Diego.


Pacientes que frequentam programas de tratamento de abuso de substâncias costumam ser monitorados rotineiramente e nem sempre têm à sua disposição ferramentas práticas e fáceis de monitoramento. Atualmente os bafômetros são os acessórios mais comuns para a medição de nível de álcool no sangue, mas nem sempre são os mais eficientes.


O exame de sangue é o método mais preciso, mas precisa ser feito por uma pessoa treinada. Os sensores que funcionam como tatuagens na pele são uma nova alternativa promissora, mas podem ser facilmente removidos e usados apenas uma vez.


"O principal objetivo deste trabalho é desenvolver um dispositivo de rotina e discreto para monitorar álcool e drogas em pacientes em tratamento contra o abuso de substâncias. Um pequeno sensor injetável - que pode ser colocado em uma clínica sem cirurgia - pode facilitar que pacientes sigam um monitoramento prescrito por mais tempo", disse Drew Hall, professor de engenharia elétrica na Universidade de San Diego que comandou o projeto, em nota.



O minichip



O chip tem 1 mm³ e pode ser injetado sob a pele no fluido intersticial - o fluido que envolve as células do corpo. Contém um sensor revestido com oxidase, uma enzima que interage seletivamente com o álcool para gerar um subproduto que pode ser detectado eletroquimicamente. Os sinais elétricos são transmitidos sem fio para um dispositivo conectado vestível, como um smartwatch ou pulseira, que também servem para carregar o chip.


O minichip foi desenvolvido para consumir pouquíssima energia: cerca de 970 nanowatts no total, o que equivale a um milhão a menos de energia do que um smartphone consome quando faz uma ligação.



"Não queremos que o chip tenha um impacto grande na bateria do dispositivo vestível. E já que vamos implantar isso, não queremos muito calor sendo gerado localmente dentro do corpo ou uma bateria que possa ser potencialmente tóxica", disse Hall em nota.


O minichip opera com tão pouca bateria porque transmite dados usando a rádio frequência do dispositivo vestível conectado a ele. Uma vez que os sinais chegam ao chip, ele os modifica com os dados novos e reflete de volta para o acessório.



Teste em animais vivos



Por enquanto, o chip foi testado in vitro imitando o ambiente do implante. Para isso, eles usaram misturas de etanol em soro humano diluído sob camadas de pele de porco. No futuro, os pesquisadores planejam testar o chip em animais vivos. Eles também já trabalham para desenvolver uma versão deste chip que possa monitorar outras moléculas e drogas no organismo.



"Mostramos que o chip pode funcionar com álcool, mas queremos criar outros que possam detectar diferentes substâncias e injetar um coquetel customizado deles em um paciente para fornecer acompanhamento médico personalizado a longo prazo" - Drew Hall.



O grupo de pesquisadores trabalha com a empresa CARI Therapeutics, uma starup baseada no Instituto Qualcomm de Espaço de Inovacação na Universidade de San Diego. A Qualcomm é a líder mundial em fabricação de chips para celulares.



Autor: G1 Globo
Fonte: G1 Globo
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 10/04/2018
Publicação Original: https://g1.globo.com/bemestar/noticia/chip-sob-a-pele-vigia-uso-de-alcool-e-envia-dados-para-smartwatches-dizem-pesquisadores.ghtml

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Atenção dos pais pode reduzir risco de abuso de drogas na adolescência

Pais que exigem o cumprimento de regras e que monitoram constantemente as atividades dos filhos – buscando saber onde estão, com quem e o que fazem – correm menor risco de enfrentar problemas relacionados ao abuso de álcool e de outras drogas quando as crianças entram na adolescência.



A probabilidade torna-se ainda menor quando, além de monitorar e cobrar, os pais também abrem espaço para o diálogo, explicam o motivo das regras e se mostram presentes no dia a dia dos filhos, dispostos a acolher suas dificuldades – característica parental que especialistas chamam de “responsividade”.

A conclusão é de uma pesquisa realizada na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com 6.381 jovens de seis cidades brasileiras. Os resultados acabam de ser publicados na revista Drug and Alcohol Dependence.

“A principal conclusão do estudo é que o estilo parental, ou seja, o modo como os pais educam seus filhos, pode ser um fator de proteção ou de risco para o consumo de álcool e outras drogas na adolescência. Isso significa que os programas escolares de prevenção devem, além de conscientizar as crianças, também se preocupar em treinar habilidades parentais”, disse Zila Sanchez, professora da Escola Paulista de Medicina (EPM-Unifesp) e coordenadora da pesquisa apoiada pela FAPESP.

Os dados foram coletados em 62 escolas públicas das cidades de Tubarão (SC), Florianópolis (SC), São Paulo (SP), São Bernardo do Campo (SP), Fortaleza (CE) e Brasília (DF). Participaram do levantamento estudantes de 7º e 8º anos do ensino fundamental. A idade média dos entrevistados foi de 12,5 anos.

“Optamos por trabalhar com jovens que haviam acabado de entrar na adolescência para avaliar se, nessa fase, o estilo parental já estava influenciando o consumo de substâncias. Entretanto, como ainda são muito jovens, a prevalência de consumo ainda é baixa. Por esse motivo, consideramos no questionário quem havia feito uso ao menos uma vez no último ano”, explicou Sanchez.

Os questionários foram preenchidos pelos próprios adolescentes, sem a presença do professor, e depositados anonimamente em envelopes pardos – de modo a evitar inibição e constrangimento. Além de perguntas sobre o uso de drogas, também foram incluídas questões sobre o estilo parental (como os jovens percebiam os pais), condições socioeconômicas, comportamento sexual e violência escolar, entre outras.

A análise das respostas foi feita durante o doutorado de Juliana Valente, com Bolsa da FAPESP e orientação de Sanchez.

Por meio de um modelo estatístico conhecido como análise de classes latentes, foi possível dividir os entrevistados em três grupos de uso de drogas. A mais prevalente, com 81,54%, foi a classe dos “abstinentes/usuários leves”. Em seguida, com 16,65%, vieram aqueles considerados “usuários de álcool/bebedores pesados”. Por último, com 1,8%, os “poliusuários”, ou seja, aqueles que, além de álcool, usaram no último ano substâncias como tabaco, maconha, cocaína, crack ou inalantes (benzina e cola de sapateiro, por exemplo).

“O passo seguinte foi avaliar se os estilos parentais estavam associados a algum desses três perfis de consumo. Para isso, os pais também foram classificados em quatro tipos diferentes – segundo a avaliação dos adolescentes e critérios estabelecidos na literatura científica”, explicou Sanchez.

Com base em uma escala de avaliação consagrada em estudos internacionais e validada no Brasil, os perfis parentais foram classificados de acordo com dois domínios principais: “exigência” – o quanto os pais monitoram as atividades dos filhos e demandam o cumprimento de regras – e “responsividade” – o quanto são sensíveis às demandas dos filhos e abertos ao diálogo.

Pais com escore alto nos dois domínios foram classificados como “autoritativos”. Aqueles com escore alto apenas no domínio da exigência foram classificados como “autoritários”. Pais responsivos, mas que não monitoram as atividades dos filhos ou não se apegam a regras foram considerados “indulgentes”. Por último, aqueles com escore baixo nos dois domínios foram classificados como “negligentes”.

De modo semelhante ao observado em estudos internacionais, o estilo “autoritativo” foi o mais protetor, seguido pelo “autoritário” e, na sequência, pelo “indulgente”. Como ressaltaram os pesquisadores no artigo, os pais “negligentes” são os que colocam os adolescentes em maior risco de pertencer às duas classes de usuários de drogas encontradas no estudo: usuários de álcool/bebedores pesados e poliusuários.

“O fato de o ‘autoritativo’ ser o mais protetor e o ‘negligente’ o de maior risco já era esperado. Porém, ainda havia na literatura científica uma discussão em relação aos estilos ‘autoritário’ e ‘indulgente’. Não estava claro qual deles seria melhor. Os achados deste estudo reforçam a função protetora que a dimensão da exigência, composta por monitoramento parental e estímulo ao cumprimento de regra, desempenha na prevenção do consumo de drogas na adolescência”, disse Valente.

Ricos bebem mais

Um dado que chamou a atenção do grupo da Unifesp foi que, quanto mais alta era a classe social do entrevistado, maior era a probabilidade de pertencer aos grupos de bebedores pesados ou poliusuários. De acordo com Sanchez, o achado contraria dados de estudos norte-americanos e europeus, onde a pobreza é considerada um fator de risco para o uso de álcool e drogas na adolescência. Porém, vai ao encontro de dados brasileiros anteriores para a mesma faixa etária.

“Esse dado é bem curioso e mostra que não podemos simplesmente importar dados relacionados a fatores de risco e proteção para programas de prevenção de uso de drogas, sem considerar diferenças culturais”, disse Sanchez.

Segundo Valente, as análises estatísticas não permitiram associar os diferentes modelos de educação a uma classe social específica, ou seja, houve uma distribuição homogênea dos estilos parentais entre as diferentes faixas de renda.

A coleta dos dados ocorreu no fim de 2014, no âmbito de um projeto financiado pelo Ministério da Saúde. A equipe da Unifesp foi escalada pelo órgão governamental para avaliar nas 62 escolas selecionadas a efetividade de um programa de prevenção ao uso de drogas intitulado #Tamojunto.

“Esse programa foi trazido da Europa, onde apresentou bons resultados, e adaptado pelo Ministério da Saúde. Além de passar conhecimentos sobre as drogas para os jovens, buscava trabalhar o desenvolvimento de habilidades pessoais e interpessoais. Porém, aqui no Brasil, não observamos efetividade para as mesmas medidas europeias”, contou Valente.

Como explicou Sanchez, os dados analisados durante o doutorado de Valente, que embasam o artigo agora publicado, foram coletados antes da aplicação do programa #Tamojunto e não têm relação com seus resultados.

O artigo Gradient of association between parenting styles and patterns of drug use in adolescence: A latent class analysis, de Juliana Y.Valente, Hugo Cogo-Moreira e Zila M. Sanchez, pode ser lido emwww.sciencedirect.com/science/article/pii/S0376871617304465?via%3Dihub.




Autora: Karina Toledo
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data de Publicação: 07/11/2017
Publicação Original: http://agencia.fapesp.br/atencao_dos_pais_pode_reduzir_risco_de_abuso_de_drogas_na_adolescencia/26569/