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quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

A relação entre pais e adolescentes com pensamentos suicidas

suicídio

O suicídio é um problema grave que vem traz preocupações e ganha grande destaque. Por isso, mais uma vez vamos abordar este assunto tão importante, desta vez com foco no público adolescente e a relação com os pais. O artigo de base foi publicado neste mês de janeiro de 2019 na American Academy of Pediatrics.

Nos EUA, o suicídio é segunda maior causa de mortes entre jovens de 10 e 24 anos e, infelizmente, esse número vem aumentando ao longo do tempo. Pesquisas americanas chegam a revelar que 18% dos jovens no ensino médio consideraram seriamente se matar no último ano. Nesse contexto, vale destacar que a intenção suicida é um importante fator de risco para se passar ao ato, sendo a identificação desse sintoma um passo importante para trabalhar a prevenção.

Um dos empecilhos para isso é que até 2/3 dessa população não procura ou tem acesso aos serviços de saúde mental. Uma das razões para isso é o desconhecimento dos pais sobre o que se passa com seus filhos. Dessa forma, o foco deste artigo é avaliar essa relação como uma forma de proteção e prevenção.
Método

A base do estudo foi uma Coorte de Neurodesenvolvimento da Filadélfia (CNF), uma amostra baseada na comunidade. Nela foi avaliada a população que não procurava atendimento psiquiátrico. Ela envolveu 9.498 participantes entre oito e 21 anos, recrutados na rede de atendimento pediátrico, mas foram excluídos os pacientes que não eram fluentes na língua do estudo (inglês); que possuíam algum atraso do desenvolvimento ou outras alterações físicas ou cognitivas que pudessem interferir com o estudo. Para fazer este trabalho, a amostra acabou delimitada a pacientes entre 11 e 17 anos. A coleta de dados sobre pensamento suicida foi realizada tanto entre os adolescentes, como em seus acompanhantes, sendo 97,2% destes os pais ou cuidadores. Foi dado a eles formulários com esclarecimentos e que pedem consentimento para a pesquisa.

O método de avaliação dos sintomas foi feito a partir de uma entrevista clínica estruturada e computadorizada chamada GOASSESS. Os avaliadores que aplicaram a pesquisa eram treinados para tal e visavam avaliar as principais áreas da psicopatologia. Dentro das questões, foram perguntados aos jovens sobre ideação suicida ao longo da vida e pensamentos sobre morte, as mesmas perguntas foram feitas aos acompanhantes. Aos pais também foi perguntado, por meio de questionário, sobre a história familiar de tentativa de suicídio e o histórico médico e psiquiátrico dos adolescentes, juntamente com os dados demográficos. Houve também um questionamento sobre a exposição a eventos traumáticos ou relacionados ao transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

Após a coleta de dados, foi feita uma comparação entre a resposta dos responsáveis e a dos jovens. Os casos de discordância entre as respostas foram divididos dois grupos: os pais que desconheciam o pensamento suicida dos filhos ou os pais que conheciam, mas os adolescentes negaram tais pensamentos na entrevista.
Resultados e discussão

A sensibilidade e especificidade estimadas indicam importante desconhecimento dos pais sobre a presença de pensamento suicida nos adolescentes. Cerca de 49,9% dos pais não tinham ideia sobre a presença de pensamentos suicidas nos filhos e até 75,6% desconheciam que os filhos pensassem sobre morte. Também houve casos em que os pais relataram esses pensamentos em seus filhos, mas os filhos negaram durante a entrevista (48,4% negaram ideação suicida e 67,5% negaram pensamentos de morte).

Os dados também sugerem que o desconhecimento dos pais é maior quando se trata de adolescentes do sexo feminino com menor faixa etária, mas que isso tende a melhorar conforme ficam mais velhas. O inverso ocorre no sexo masculino: o desconhecimento dos pais sobre tais pensamentos aumenta conforme a idade avança. A negação dos filhos ou a ignorância dos cuidadores sobre o que eles pensam também foi maior entre minorias étnicas. Finalmente, o desconhecimento era maior entre pais do que mães. Contudo, quando os jovens tinham história prévia de tratamento psiquiátrico (incluindo internação), psicológico ou história familiar de suicídio os responsáveis eram mais conscientes sobre o que se passava. Condições psicopatológicas mais graves entre os jovens também diminuíram as chances de negação pelos adolescentes.

Esses dados revelam que há importantes discrepâncias na avaliação da ideação suicida, o que significa um grande número de jovens cujo risco não foi detectado. Estudos anteriores já demonstravam uma taxa de concordância de baixa a moderada.

No que diz respeito à concordância, a idade foi um fator importante. De modo geral, quanto maior a idade, menor a discordância ou desconhecimento entre pais e filhos. Ou seja, os mais novos estão sob maior risco. Contudo, é possível que a população mais jovem também possa ter maior dificuldade de interpretação sobre as questões propostas, o que pode aumentar a discordância e servir de alerta para os ambientes clínicos e de pesquisa com relação a essa faixa etária. A discordância também varia com o gênero, pois é menor em meninas mais velhas ou meninos mais novos.

Essa divergência pode refletir a diferente história de interação entre os sexos no que diz respeito aos sintomas depressivos. Estes achados podem ser úteis na hora de criar estratégias mais específicas para facilitar a relação com os pais e profissionais na área de saúde e medidas de prevenção. A discordância também foi maior entre minorias étnicas, especialmente quando de origem africana ou asiática. Esse dado é especialmente importante, pois esta é uma parte da população que menos usa o serviço de saúde antes de uma tentativa de suicídio.

Do ponto de vista do cuidador ou responsável, os pais desconheciam mais a condição dos seus filhos do que as mães.

No geral, quando os adolescentes tinham história de tratamento psiquiátrico (inclusive internação e uso de psicotrópicos), os pais eram mais alertas e conscientes sobre a presença de ideação suicida. História familiar de tentativas de suicídio ou de suicídio realizado também fazia com que os pais ficassem mais alertas e reconhecessem ideação suicida nos filhos.

Já a negação dos jovens foi aparentemente menor quando a sintomatologia psicopatológica era mais grave. Por exemplo, jovens com história de transtornos externalizantes tinham menores chances de negar ideação suicida. Uma ressalva é o grupo de adolescentes com história de maus-tratos, agressão ou isolamento social. Nesses, as chances de negar a ideação suicida foram maiores.

A discrepância dos achados também pode estar relacionada a diferenças nas características da amostra e da avaliação. Acredita-se que jovens com questões psico-comportamentais já tenham sido submetidos a tratamentos de saúde anteriormente e, portanto, podem se sentir mais à vontade durante uma avaliação para responder sobre ideação suicida.
Limitações
O estudo é limitado geograficamente, é incerto se pode ser generalizado para o resto da população.
A avaliação foi breve para conseguir abranger a grande quantidade de pacientes envolvidos.
Há também a possibilidade de viés uma vez que uma das perguntas era sobre pensamento suicida (conta com o relato do paciente).
A prevalência de ideação suicida neste estudo (8%) foi inferior à de estudos nacionais nos EUA (18%), o que pode ter ocorrido pela inclusão de adolescentes mais jovens (a partir de 11 anos), enquanto a amostra nacional envolvia apenas alunos do ensino médio.
A forma de avaliação (interpessoal) também pode ter afetado o relato dos jovens. Pesquisas indicam que as taxas de ideação suicida são maiores quando o estudo é feito por autoquestionários.
Os pensamentos sobre morte podem na verdade encobrir uma série de outros pensamentos e dúvidas nos jovens, o que não necessariamente indica risco de suicídio.
Finalmente, este estudo focou na relação entre pais ou cuidadores e os adolescentes, mas muitos jovens podem se sentir mais à vontade ao discutir esse tipo de assunto com outras pessoas que não os pais. Logo, seria interessante que outras pessoas próximas também fossem incluídas nas próximas pesquisas.
Conclusão

As implicações deste achado são importantes no contexto pediátrico. Dado o desconhecimento dos pais ou cuidadores e a negação de alguns jovens no que diz respeito à ideação suicida e pensamentos de morte, é importante tentar incluir este tema na rotina pediátrica e nas avaliações clínicas desta população. Por isso, é necessário fazer este alerta aos profissionais de saúde que lidam com esta faixa etária para que fiquem atentos e incluam esse questionamento em sua avaliação rotineira. A identificação e o tratamento precoces auxiliam na avaliação de risco de suicídio.




Autor: Roberto Caligari
Fonte: PEBMED
Sítio Online da Publicação: PEBMED
Data: 29/01/2019
Publicação Original: https://pebmed.com.br/a-relacao-entre-pais-e-adolescentes-com-pensamentos-suicidas/

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Atenção dos pais pode reduzir risco de abuso de drogas na adolescência

Pais que exigem o cumprimento de regras e que monitoram constantemente as atividades dos filhos – buscando saber onde estão, com quem e o que fazem – correm menor risco de enfrentar problemas relacionados ao abuso de álcool e de outras drogas quando as crianças entram na adolescência.



A probabilidade torna-se ainda menor quando, além de monitorar e cobrar, os pais também abrem espaço para o diálogo, explicam o motivo das regras e se mostram presentes no dia a dia dos filhos, dispostos a acolher suas dificuldades – característica parental que especialistas chamam de “responsividade”.

A conclusão é de uma pesquisa realizada na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com 6.381 jovens de seis cidades brasileiras. Os resultados acabam de ser publicados na revista Drug and Alcohol Dependence.

“A principal conclusão do estudo é que o estilo parental, ou seja, o modo como os pais educam seus filhos, pode ser um fator de proteção ou de risco para o consumo de álcool e outras drogas na adolescência. Isso significa que os programas escolares de prevenção devem, além de conscientizar as crianças, também se preocupar em treinar habilidades parentais”, disse Zila Sanchez, professora da Escola Paulista de Medicina (EPM-Unifesp) e coordenadora da pesquisa apoiada pela FAPESP.

Os dados foram coletados em 62 escolas públicas das cidades de Tubarão (SC), Florianópolis (SC), São Paulo (SP), São Bernardo do Campo (SP), Fortaleza (CE) e Brasília (DF). Participaram do levantamento estudantes de 7º e 8º anos do ensino fundamental. A idade média dos entrevistados foi de 12,5 anos.

“Optamos por trabalhar com jovens que haviam acabado de entrar na adolescência para avaliar se, nessa fase, o estilo parental já estava influenciando o consumo de substâncias. Entretanto, como ainda são muito jovens, a prevalência de consumo ainda é baixa. Por esse motivo, consideramos no questionário quem havia feito uso ao menos uma vez no último ano”, explicou Sanchez.

Os questionários foram preenchidos pelos próprios adolescentes, sem a presença do professor, e depositados anonimamente em envelopes pardos – de modo a evitar inibição e constrangimento. Além de perguntas sobre o uso de drogas, também foram incluídas questões sobre o estilo parental (como os jovens percebiam os pais), condições socioeconômicas, comportamento sexual e violência escolar, entre outras.

A análise das respostas foi feita durante o doutorado de Juliana Valente, com Bolsa da FAPESP e orientação de Sanchez.

Por meio de um modelo estatístico conhecido como análise de classes latentes, foi possível dividir os entrevistados em três grupos de uso de drogas. A mais prevalente, com 81,54%, foi a classe dos “abstinentes/usuários leves”. Em seguida, com 16,65%, vieram aqueles considerados “usuários de álcool/bebedores pesados”. Por último, com 1,8%, os “poliusuários”, ou seja, aqueles que, além de álcool, usaram no último ano substâncias como tabaco, maconha, cocaína, crack ou inalantes (benzina e cola de sapateiro, por exemplo).

“O passo seguinte foi avaliar se os estilos parentais estavam associados a algum desses três perfis de consumo. Para isso, os pais também foram classificados em quatro tipos diferentes – segundo a avaliação dos adolescentes e critérios estabelecidos na literatura científica”, explicou Sanchez.

Com base em uma escala de avaliação consagrada em estudos internacionais e validada no Brasil, os perfis parentais foram classificados de acordo com dois domínios principais: “exigência” – o quanto os pais monitoram as atividades dos filhos e demandam o cumprimento de regras – e “responsividade” – o quanto são sensíveis às demandas dos filhos e abertos ao diálogo.

Pais com escore alto nos dois domínios foram classificados como “autoritativos”. Aqueles com escore alto apenas no domínio da exigência foram classificados como “autoritários”. Pais responsivos, mas que não monitoram as atividades dos filhos ou não se apegam a regras foram considerados “indulgentes”. Por último, aqueles com escore baixo nos dois domínios foram classificados como “negligentes”.

De modo semelhante ao observado em estudos internacionais, o estilo “autoritativo” foi o mais protetor, seguido pelo “autoritário” e, na sequência, pelo “indulgente”. Como ressaltaram os pesquisadores no artigo, os pais “negligentes” são os que colocam os adolescentes em maior risco de pertencer às duas classes de usuários de drogas encontradas no estudo: usuários de álcool/bebedores pesados e poliusuários.

“O fato de o ‘autoritativo’ ser o mais protetor e o ‘negligente’ o de maior risco já era esperado. Porém, ainda havia na literatura científica uma discussão em relação aos estilos ‘autoritário’ e ‘indulgente’. Não estava claro qual deles seria melhor. Os achados deste estudo reforçam a função protetora que a dimensão da exigência, composta por monitoramento parental e estímulo ao cumprimento de regra, desempenha na prevenção do consumo de drogas na adolescência”, disse Valente.

Ricos bebem mais

Um dado que chamou a atenção do grupo da Unifesp foi que, quanto mais alta era a classe social do entrevistado, maior era a probabilidade de pertencer aos grupos de bebedores pesados ou poliusuários. De acordo com Sanchez, o achado contraria dados de estudos norte-americanos e europeus, onde a pobreza é considerada um fator de risco para o uso de álcool e drogas na adolescência. Porém, vai ao encontro de dados brasileiros anteriores para a mesma faixa etária.

“Esse dado é bem curioso e mostra que não podemos simplesmente importar dados relacionados a fatores de risco e proteção para programas de prevenção de uso de drogas, sem considerar diferenças culturais”, disse Sanchez.

Segundo Valente, as análises estatísticas não permitiram associar os diferentes modelos de educação a uma classe social específica, ou seja, houve uma distribuição homogênea dos estilos parentais entre as diferentes faixas de renda.

A coleta dos dados ocorreu no fim de 2014, no âmbito de um projeto financiado pelo Ministério da Saúde. A equipe da Unifesp foi escalada pelo órgão governamental para avaliar nas 62 escolas selecionadas a efetividade de um programa de prevenção ao uso de drogas intitulado #Tamojunto.

“Esse programa foi trazido da Europa, onde apresentou bons resultados, e adaptado pelo Ministério da Saúde. Além de passar conhecimentos sobre as drogas para os jovens, buscava trabalhar o desenvolvimento de habilidades pessoais e interpessoais. Porém, aqui no Brasil, não observamos efetividade para as mesmas medidas europeias”, contou Valente.

Como explicou Sanchez, os dados analisados durante o doutorado de Valente, que embasam o artigo agora publicado, foram coletados antes da aplicação do programa #Tamojunto e não têm relação com seus resultados.

O artigo Gradient of association between parenting styles and patterns of drug use in adolescence: A latent class analysis, de Juliana Y.Valente, Hugo Cogo-Moreira e Zila M. Sanchez, pode ser lido emwww.sciencedirect.com/science/article/pii/S0376871617304465?via%3Dihub.




Autora: Karina Toledo
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data de Publicação: 07/11/2017
Publicação Original: http://agencia.fapesp.br/atencao_dos_pais_pode_reduzir_risco_de_abuso_de_drogas_na_adolescencia/26569/