Esse impacto se daria em decorrência tanto das reações psicológicas de um indivíduo diante dessa doença como também da fenomenologia neuropsiquiátrica associada às síndromes demenciais. A relação entre o diagnóstico de demência e risco de suicídio, contudo, não era — até então — bem esclarecido na literatura.
A JAMA Neurology publicou, neste ano, estudo que se propôs a analisar essa associação. Os autores dessa pesquisa consideraram como hipótese que o risco de suicídio após um diagnóstico de demência era maior entre os indivíduos com quadros de demência de início precoce, em período imediato após o diagnóstico de demência e entre indivíduos com comorbidades psiquiátricas.
Métodos
Trata-se de um estudo de caso controle que ocorreu na Inglaterra entre janeiro de 2001 e dezembro de 2019 a partir do uso de registros eletrônicos provenientes de três centros: Clinical Practice Research Datalink (CPRD), Hospital Episode Statistics (HES) e Office for National Statistics (ONS).
A exposição de interesse foi diagnóstico de demência em pacientes acima de 45 anos. Pacientes que receberam prescrição de inibidores de acetilcolinesterase (galantamina, rivastigmina, donepezila) e memantina — mesmo que não apresentassem documento de diagnóstico de demência em CPRDF e HES — foram também inclusos.
Os casos foram selecionados a partir de pacientes com óbito por suicídio. Para serem inclusos no estudo, os participantes deveriam apresentar pelo menos 15 anos de idade na data do óbito e possuir pelo menos um ano de dados completos no CRPD antes da morte. Para cada caso de paciente com óbito por suicídio, 40 controles vivos foram selecionados de acordo com os critérios de elegibilidade a fim de maximizar o poder estatístico do estudo. Os controles também deveriam possuir pelo menos 15 anos de idade e pelo menos um ano de dados completos no CRPD antes da morte.
A avaliação de risco de suicídio em pacientes com demência a partir da idade e do tempo do diagnóstico foi também examinado. A análise do risco de suicídio foi estratificada em < 65 anos ou > 65 anos.
Para estimar o odds ratio entre os grupos caso e controle, a análise estatística ocorreu a partir de regressão logística condicional. O nível de significância estatística nesse estudo foi considerado como 5%.
Resultados
Entre os 70.065.533 pacientes com registros disponíveis no CRPD, 23.333.028 pacientes (33%) apresentavam elegibilidade para inclusão no estudo.
Desses 70.065.533 pacientes, 14.515 pacientes (2,4%) apresentaram suicídio com mediana de idade em torno de 47,4 anos sendo 74,8% homens. Foram selecionados 580.159 controles em que mediana de idade da morte era 81,6 anos sendo 50% homens. Entre os 14.515 pacientes com relato de suicídio analisados no estudo, 14.240 casos apresentaram 40 controles pareados cada e 275 casos com nove a 39 controles pareados cada.
De toda a amostra do estudo, 4.940 pacientes foram identificados com diagnóstico de demência nos quais 95 pacientes (1,9% dos indivíduos com demência) pertenciam ao grupo caso (óbito por suicídio). Esses pacientes apresentavam mediana de idade de morte em torno de 79,5 anos — que foi em uma idade mais jovem comparada à idade de morte do grupo controle que possuía pacientes com demência que morreram por outras causas (mediana de 87,9 anos). Além disso, os pacientes com demência e óbito por suicídio apresentaram diagnóstico de demência em idade mais jovem (mediana de 76,1 anos) comparada aos controles (mediana de 80,5 anos).
Em pacientes com diagnóstico de demência precoce (< 65 anos), o risco de suicídio foi maior três meses (OR 6,69) após o diagnóstico e permaneceu aumentado mesmo após um ano (OR 2,45) comparado com pessoas sem diagnóstico de demência. Em pacientes com demência acima de 65 anos, risco de suicídio também estava aumentado nos primeiros 3 meses do diagnóstico (OR 2,25). Vale constar, contudo, que esse risco apresentou redução após um ano (OR 0,66).
Comentários
Os resultados dessa publicação vão ao encontro de achados presentes em estudos de coorte prévios que sugerem que o diagnóstico de demência em idade mais jovem e o diagnóstico recente de demência são fatores preditores para aumento no risco de suicídio. Uma justificativa para esse resultado seria a dificuldade na aceitação desse diagnóstico e os ajustes intrínsecos a essa condição serem maiores nessa faixa etária.
Na análise desse presente estudo, não houve como demonstrar conclusões se distúrbios psiquiátricos poderiam atuar predominantemente como fator de risco para demência e para suicídio ou se eles atuariam como um mediador dessas morbidades.
Mensagem final
O período após o diagnóstico de demência deve ser acompanhado também por um acesso a risco de suicídio, principalmente naqueles com demência de início precoce. Logo, esse período é crítico para abordagem e prevenção de suicídio.
Autor: Danielle Calil
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 28/11/2022
Publicação Original: https://pebmed.com.br/associacao-entre-risco-de-suicidio-apos-diagnostico-de-demencia-de-inicio-precoce/
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quinta-feira, 1 de dezembro de 2022
quarta-feira, 30 de janeiro de 2019
A relação entre pais e adolescentes com pensamentos suicidas

O suicídio é um problema grave que vem traz preocupações e ganha grande destaque. Por isso, mais uma vez vamos abordar este assunto tão importante, desta vez com foco no público adolescente e a relação com os pais. O artigo de base foi publicado neste mês de janeiro de 2019 na American Academy of Pediatrics.
Nos EUA, o suicídio é segunda maior causa de mortes entre jovens de 10 e 24 anos e, infelizmente, esse número vem aumentando ao longo do tempo. Pesquisas americanas chegam a revelar que 18% dos jovens no ensino médio consideraram seriamente se matar no último ano. Nesse contexto, vale destacar que a intenção suicida é um importante fator de risco para se passar ao ato, sendo a identificação desse sintoma um passo importante para trabalhar a prevenção.
Um dos empecilhos para isso é que até 2/3 dessa população não procura ou tem acesso aos serviços de saúde mental. Uma das razões para isso é o desconhecimento dos pais sobre o que se passa com seus filhos. Dessa forma, o foco deste artigo é avaliar essa relação como uma forma de proteção e prevenção.
Método
A base do estudo foi uma Coorte de Neurodesenvolvimento da Filadélfia (CNF), uma amostra baseada na comunidade. Nela foi avaliada a população que não procurava atendimento psiquiátrico. Ela envolveu 9.498 participantes entre oito e 21 anos, recrutados na rede de atendimento pediátrico, mas foram excluídos os pacientes que não eram fluentes na língua do estudo (inglês); que possuíam algum atraso do desenvolvimento ou outras alterações físicas ou cognitivas que pudessem interferir com o estudo. Para fazer este trabalho, a amostra acabou delimitada a pacientes entre 11 e 17 anos. A coleta de dados sobre pensamento suicida foi realizada tanto entre os adolescentes, como em seus acompanhantes, sendo 97,2% destes os pais ou cuidadores. Foi dado a eles formulários com esclarecimentos e que pedem consentimento para a pesquisa.
O método de avaliação dos sintomas foi feito a partir de uma entrevista clínica estruturada e computadorizada chamada GOASSESS. Os avaliadores que aplicaram a pesquisa eram treinados para tal e visavam avaliar as principais áreas da psicopatologia. Dentro das questões, foram perguntados aos jovens sobre ideação suicida ao longo da vida e pensamentos sobre morte, as mesmas perguntas foram feitas aos acompanhantes. Aos pais também foi perguntado, por meio de questionário, sobre a história familiar de tentativa de suicídio e o histórico médico e psiquiátrico dos adolescentes, juntamente com os dados demográficos. Houve também um questionamento sobre a exposição a eventos traumáticos ou relacionados ao transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
Após a coleta de dados, foi feita uma comparação entre a resposta dos responsáveis e a dos jovens. Os casos de discordância entre as respostas foram divididos dois grupos: os pais que desconheciam o pensamento suicida dos filhos ou os pais que conheciam, mas os adolescentes negaram tais pensamentos na entrevista.
Resultados e discussão
A sensibilidade e especificidade estimadas indicam importante desconhecimento dos pais sobre a presença de pensamento suicida nos adolescentes. Cerca de 49,9% dos pais não tinham ideia sobre a presença de pensamentos suicidas nos filhos e até 75,6% desconheciam que os filhos pensassem sobre morte. Também houve casos em que os pais relataram esses pensamentos em seus filhos, mas os filhos negaram durante a entrevista (48,4% negaram ideação suicida e 67,5% negaram pensamentos de morte).
Os dados também sugerem que o desconhecimento dos pais é maior quando se trata de adolescentes do sexo feminino com menor faixa etária, mas que isso tende a melhorar conforme ficam mais velhas. O inverso ocorre no sexo masculino: o desconhecimento dos pais sobre tais pensamentos aumenta conforme a idade avança. A negação dos filhos ou a ignorância dos cuidadores sobre o que eles pensam também foi maior entre minorias étnicas. Finalmente, o desconhecimento era maior entre pais do que mães. Contudo, quando os jovens tinham história prévia de tratamento psiquiátrico (incluindo internação), psicológico ou história familiar de suicídio os responsáveis eram mais conscientes sobre o que se passava. Condições psicopatológicas mais graves entre os jovens também diminuíram as chances de negação pelos adolescentes.
Esses dados revelam que há importantes discrepâncias na avaliação da ideação suicida, o que significa um grande número de jovens cujo risco não foi detectado. Estudos anteriores já demonstravam uma taxa de concordância de baixa a moderada.
No que diz respeito à concordância, a idade foi um fator importante. De modo geral, quanto maior a idade, menor a discordância ou desconhecimento entre pais e filhos. Ou seja, os mais novos estão sob maior risco. Contudo, é possível que a população mais jovem também possa ter maior dificuldade de interpretação sobre as questões propostas, o que pode aumentar a discordância e servir de alerta para os ambientes clínicos e de pesquisa com relação a essa faixa etária. A discordância também varia com o gênero, pois é menor em meninas mais velhas ou meninos mais novos.
Essa divergência pode refletir a diferente história de interação entre os sexos no que diz respeito aos sintomas depressivos. Estes achados podem ser úteis na hora de criar estratégias mais específicas para facilitar a relação com os pais e profissionais na área de saúde e medidas de prevenção. A discordância também foi maior entre minorias étnicas, especialmente quando de origem africana ou asiática. Esse dado é especialmente importante, pois esta é uma parte da população que menos usa o serviço de saúde antes de uma tentativa de suicídio.
Do ponto de vista do cuidador ou responsável, os pais desconheciam mais a condição dos seus filhos do que as mães.
No geral, quando os adolescentes tinham história de tratamento psiquiátrico (inclusive internação e uso de psicotrópicos), os pais eram mais alertas e conscientes sobre a presença de ideação suicida. História familiar de tentativas de suicídio ou de suicídio realizado também fazia com que os pais ficassem mais alertas e reconhecessem ideação suicida nos filhos.
Já a negação dos jovens foi aparentemente menor quando a sintomatologia psicopatológica era mais grave. Por exemplo, jovens com história de transtornos externalizantes tinham menores chances de negar ideação suicida. Uma ressalva é o grupo de adolescentes com história de maus-tratos, agressão ou isolamento social. Nesses, as chances de negar a ideação suicida foram maiores.
A discrepância dos achados também pode estar relacionada a diferenças nas características da amostra e da avaliação. Acredita-se que jovens com questões psico-comportamentais já tenham sido submetidos a tratamentos de saúde anteriormente e, portanto, podem se sentir mais à vontade durante uma avaliação para responder sobre ideação suicida.
Limitações
O estudo é limitado geograficamente, é incerto se pode ser generalizado para o resto da população.
A avaliação foi breve para conseguir abranger a grande quantidade de pacientes envolvidos.
Há também a possibilidade de viés uma vez que uma das perguntas era sobre pensamento suicida (conta com o relato do paciente).
A prevalência de ideação suicida neste estudo (8%) foi inferior à de estudos nacionais nos EUA (18%), o que pode ter ocorrido pela inclusão de adolescentes mais jovens (a partir de 11 anos), enquanto a amostra nacional envolvia apenas alunos do ensino médio.
A forma de avaliação (interpessoal) também pode ter afetado o relato dos jovens. Pesquisas indicam que as taxas de ideação suicida são maiores quando o estudo é feito por autoquestionários.
Os pensamentos sobre morte podem na verdade encobrir uma série de outros pensamentos e dúvidas nos jovens, o que não necessariamente indica risco de suicídio.
Finalmente, este estudo focou na relação entre pais ou cuidadores e os adolescentes, mas muitos jovens podem se sentir mais à vontade ao discutir esse tipo de assunto com outras pessoas que não os pais. Logo, seria interessante que outras pessoas próximas também fossem incluídas nas próximas pesquisas.
Conclusão
As implicações deste achado são importantes no contexto pediátrico. Dado o desconhecimento dos pais ou cuidadores e a negação de alguns jovens no que diz respeito à ideação suicida e pensamentos de morte, é importante tentar incluir este tema na rotina pediátrica e nas avaliações clínicas desta população. Por isso, é necessário fazer este alerta aos profissionais de saúde que lidam com esta faixa etária para que fiquem atentos e incluam esse questionamento em sua avaliação rotineira. A identificação e o tratamento precoces auxiliam na avaliação de risco de suicídio.
Autor: Roberto Caligari
Fonte: PEBMED
Sítio Online da Publicação: PEBMED
Data: 29/01/2019
Publicação Original: https://pebmed.com.br/a-relacao-entre-pais-e-adolescentes-com-pensamentos-suicidas/
segunda-feira, 26 de novembro de 2018
A sombra do suicídio entre os jovens, artigo de Ivo Carraro
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que o suicídio é a segunda causa de morte entre os jovens no mundo.

Julio Jacobo Waiselfisz, sociólogo e coordenador do Mapa da Violência no Brasil, endossou esses dados ao apresentar em um de seus estudos que o número de suicídios aumentou em 65% na faixa etária dos 10 aos 14 anos, e em 45% dos 15 aos 19 anos, no período entre os anos 2000 e 2015. Os números são alarmantes e a situação exige atenção da sociedade.
Os motivos desse aumento de suicídios são multifatoriais: um cérebro adolescente em formação, com as incertezas próprias desta idade, aliado a uma criação super protetora. Soma-se a isso a obrigatoriedade de ser feliz a qualquer custo em um mundo onde a mesma tecnologia que une também afasta as pessoas. Difícil administrar, certo?
Diante de tantas incertezas, a ansiedade e a depressão podem bater à porta e, para muitos deles, o suicídio é a saída na ânsia de exterminar o sofrimento e o desespero. Diante dessa situação, cabe aos pais lembrar da importância de transmitir segurança aos filhos durante a vida. Felizes deles também se puderem contar com o limite, com o modelo dos pais diante das ameaças do mundo.
O suicídio entre os jovens é uma forma de fugir do mundo, resultado da ausência de objetivos. A vida perde o sentido e eles deixam de acreditar. Se um adolescente se suicida por desesperança, a sociedade na qual ele vive certamente também está adoecida.
Caso a depressão já esteja instalada, torna-se indispensável procurar um profissional para o tratamento de transtorno da personalidade instalada no psiquismo desse adolescente. Aos educadores, cabe a contribuição de fazer com que os alunos desviem temporariamente o olhar da tela do celular, contemplem a natureza e entusiasmem-se por ela, criando assim uma visão sistêmica da vida que apresenta desafios, mas que também traz oportunidades de crescimento.
Acima de tudo é necessário desenvolver a consciência de que todo desejo pede realização, mas que nem todo desejo poderá ser realizado. Pois é neste ponto que surge a frustração.
E não para por aí. É preciso ensinar os princípios da Inteligência Emocional, para adiar a necessidade de satisfação e aumentar a tolerância quando as frustrações surgirem.
E neste âmbito, dois instintos devem ser levados em consideração: de vida (Eros) e o de morte (Thanatos). Quando o instinto de morte prevalece a vida corre perigo. Devemos cuidar dos nossos jovens para não lhes faltar o principal: amor. Suicídio é a falência do amor.
*Ivo Carraro é psicólogo e professor do Centro Universitário Internacional Uninter.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 26/11/2018
Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 26/11/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/11/26/a-sombra-do-suicidio-entre-os-jovens-artigo-de-ivo-carraro/

Julio Jacobo Waiselfisz, sociólogo e coordenador do Mapa da Violência no Brasil, endossou esses dados ao apresentar em um de seus estudos que o número de suicídios aumentou em 65% na faixa etária dos 10 aos 14 anos, e em 45% dos 15 aos 19 anos, no período entre os anos 2000 e 2015. Os números são alarmantes e a situação exige atenção da sociedade.
Os motivos desse aumento de suicídios são multifatoriais: um cérebro adolescente em formação, com as incertezas próprias desta idade, aliado a uma criação super protetora. Soma-se a isso a obrigatoriedade de ser feliz a qualquer custo em um mundo onde a mesma tecnologia que une também afasta as pessoas. Difícil administrar, certo?
Diante de tantas incertezas, a ansiedade e a depressão podem bater à porta e, para muitos deles, o suicídio é a saída na ânsia de exterminar o sofrimento e o desespero. Diante dessa situação, cabe aos pais lembrar da importância de transmitir segurança aos filhos durante a vida. Felizes deles também se puderem contar com o limite, com o modelo dos pais diante das ameaças do mundo.
O suicídio entre os jovens é uma forma de fugir do mundo, resultado da ausência de objetivos. A vida perde o sentido e eles deixam de acreditar. Se um adolescente se suicida por desesperança, a sociedade na qual ele vive certamente também está adoecida.
Caso a depressão já esteja instalada, torna-se indispensável procurar um profissional para o tratamento de transtorno da personalidade instalada no psiquismo desse adolescente. Aos educadores, cabe a contribuição de fazer com que os alunos desviem temporariamente o olhar da tela do celular, contemplem a natureza e entusiasmem-se por ela, criando assim uma visão sistêmica da vida que apresenta desafios, mas que também traz oportunidades de crescimento.
Acima de tudo é necessário desenvolver a consciência de que todo desejo pede realização, mas que nem todo desejo poderá ser realizado. Pois é neste ponto que surge a frustração.
E não para por aí. É preciso ensinar os princípios da Inteligência Emocional, para adiar a necessidade de satisfação e aumentar a tolerância quando as frustrações surgirem.
E neste âmbito, dois instintos devem ser levados em consideração: de vida (Eros) e o de morte (Thanatos). Quando o instinto de morte prevalece a vida corre perigo. Devemos cuidar dos nossos jovens para não lhes faltar o principal: amor. Suicídio é a falência do amor.
*Ivo Carraro é psicólogo e professor do Centro Universitário Internacional Uninter.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 26/11/2018
Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 26/11/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/11/26/a-sombra-do-suicidio-entre-os-jovens-artigo-de-ivo-carraro/
sexta-feira, 9 de novembro de 2018
Técnica que usa luz para induzir célula doente ao suicídio é aperfeiçoada

Terapia fotodinâmica (PDT), usada para tratar doenças que envolvam proliferação celular descontrolada, emprega luz e compostos que absorvem luz (fotossensibilizadores) para gerar reações que causem danos irreversíveis às células doentes – Foto: John Crawford/Domínio Público via Wikimedia Commons

Pesquisa detalha ação benéfica da carnosina em músculo humano

Pesquisa detalha ação benéfica da carnosina em músculo humano
No Instituto de Química (IQ) da USP, pesquisa buscou controlar o destino de células doentes ativando mecanismos de morte celular regulada. Os cientistas utilizaram luz e compostos que absorvem luz (fotossensibilizadores), os quais atuam em locais específicos nas células (mitocôndrias e lisossomos), levando à sua total destruição a partir de pequenos danos iniciais. A descoberta poderá aperfeiçoar a terapia fotodinâmica (PDT), utilizada no tratamento do câncer e de infecções. O estudo foi realizado no Centro de Pesquisa de Processos Redox em Biomedicina (Cepid Redoxoma), sediado no IQ.
Em geral, os compostos fotossensibilizadores absorvem luz e transferem energia para formar substâncias com grande reatividade química, as quais causam danos irreversíveis às células. “Eles podem levar a célula a morrer de forma descontrolada, no caso de dano muito severo, também chamada de necrose”, conta o professor Maurício Baptista, coordenador da pesquisa. “Podem ainda induzirem a ativação de mecanismos de morte programada ou de reparos que acabam por levar a célula a morrer também, mas de forma menos drástica que na necrose.”
A PDT pode induzir à morte celular de várias formas. “Isso depende de diversos fatores, como o tipo de célula tumoral, a estrutura dos compostos fotossensibilizantes, a dose de luz e a concentração do próprio composto”, afirma Baptista. “Hoje se alcança praticamente qualquer tecido com luz e consequentemente qualquer doença que envolva proliferação celular descontrolada pode ser tratada pela PDT, mas principalmente câncer e lesões pré-cancerígenas, infecções por microorganismos e vírus e degenerescência da mácula ligada a idade, doença que afeta a retina e pode levar à perda da visão.”
De acordo com o professor, as pesquisas procuram aprimorar a eficiência dos fotossensibilizadores. “Os estudos identificam as maneiras que esses compostos matam células tumorais ou agentes infecciosos da forma mais elegante, sem causar danos nos tecidos vizinhos e com a menor quantidade possível de luz e do próprio fotossensibilizador”, destaca.
Autofagia
A autofagia é um mecanismo de sobrevivência celular, baseado na degradação e reciclagem de organelas no seu interior, mantendo a célula estabilizada frente ao estresse nutritivo ou mesmo oxidativo. “Células com mecanismo autofágico funcional têm uma sobrevida maior do que células com autofagia defeituosa, que tendem a envelhecer rapidamente e a morrer com maior facilidade”, explica Baptista. “Células tumorais necessitam de forma mais contundente da autofagia para sobreviver, pois seus mecanismos celulares não são tão bem controlados. Consequentemente, atualmente busca-se novas drogas antitumorais identificando moléculas que afetam a autofagia.”

Pequenos danos induzidos pela luz, em locais específicos da célula (que regulam os mecanismos de morte celular), levam à sua destruição de forma contundente – Foto: John Crawford/Domínio Público via .

Ácido úrico prejudica células do corpo que combatem infecções
A mitocôndria é a organela responsável pela manutenção dos níveis de energia da célula e também tem papel central nos mecanismos de sinalização que definem se ela pode continuar viva ou se deve morrer (mecanismos regulados de morte celular). “Ela necessita de processamento e reciclagem constante, então tem um mecanismo de ativação da autofagia (mitofagia) pronto para agir quando há algum problema”, descreve o professor. “O lisossomo é a organela que executa a digestão de mitocôndrias danificadas.”
A pesquisa demonstrou que danos específicos nas membranas da mitocôndria ativam a mitofagia. “Paralelamente, danos nas membranas dos lisossomos inibem a execução da autofagia”, aponta Baptista. “Esses dois processos combinados conduzem a célula à morte de forma contundente, e em decorrência de danos iniciais muito pequenos, mas bem localizados.” As conclusões são apresentadas em artigo publicado na revista Autophagy.
O estudo foi realizado inicialmente como projeto de mestrado de Nayra Fernandes Santos, e desenvolvido em parceria com Waleska Martins, também pesquisadora do Cepid Redoxoma, que foi pós-doutoranda no laboratório e atualmente é professora da Universidade Anhanguera de São Paulo. O trabalho teve também a participação do professor Luis Gustavo Dias, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, nos cálculos teóricos. O Redoxoma é um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid), apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 06/11/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-biologicas/tecnica-que-usa-luz-para-induzir-celulas-doentes-ao-suicidio-e-aperfeicoada/
sexta-feira, 5 de outubro de 2018
Reciis: sob o impacto de setembro

Este terceiro número da Reciis – Revista Eletrônica de Comunicação, Informação & Inovação em Saúde, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), é dedicado à campanha brasileira pela prevenção ao suicídio, o Setembro Amarelo. A pesquisadora Mariana Bteshe reflete sobre a complexidade e a multicausalidade da questão, nos mostrando que não basta falar sobre o assunto. Com foco na perspectiva do cuidado em saúde mental, a autora discute aspectos fundamentais para a compreensão dos processos comunicacionais, psíquicos e sociais que envolvem o fenômeno.
Para Bteshe, não será por meio da racionalidade ou da responsabilização das vítimas que reduziremos os índices de suicídios e tentativas. "Ao contrário, nossa melhor chance é um olhar atento e compassivo para o sofrimento profundo vivenciado por quem procurou alívio nesse gesto extremo e também por seus familiares e amigos. É preciso investir na criação e manutenção de espaços de acolhimento, sobretudo, no Sistema Único de Saúde (SUS)".
A edição foi lançada ainda sob o impacto do incêndio que no dia 2 de setembro destruiu grande parte do acervo do Museu Nacional no Rio de Janeiro. Num dos editoriais, Rosany Bochner, editora científica da Reciis, relaciona a nossa curta memória brasileira com as cinzas do nosso patrimônio ao listar uma série de incêndios que vêm queimando nossa cultura. "A verba que faltava para a preservação aparece em grandes somas para a reconstrução do que foi destruído. Uma conta que nunca vai fechar e só nos deixa mais pobres no sentido mais humano possível".
Este número traz também quatro artigos originais que têm em comum abordagens produzidas a partir das práticas de saúde que envolvem o uso de tecnologias de informação e comunicação. Além de uma análise acerca do papel da mídia na construção da agenda governamental para o SUS, outro destaque é o estudo comparativo entre o estado nutricional de crianças que frequentam três creches no município de Carapicuíba (SP) com o estado nutricional de seus pais, a partir de dados referentes ao consumo alimentar, à classe econômica e à escolaridade.
Já o ensaio intitulado A (in)formação científica e humanizada dos profissionais da área de saúde: a literatura nas humanidades médicas nos oferece uma reflexão sobre o diálogo entre literatura e ciência. O relato de experiência nos apresenta um interessante projeto que propõe o envolvimento de alunos de três escolas públicas estaduais em Belo Horizonte na construção de questões relacionadas à saúde.
Conheça a edição.
Autor: Roberta Carvalho
Fonte: Icict/Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 04/10/2018
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/reciis-sob-o-impacto-de-setembro
sexta-feira, 14 de setembro de 2018
Setembro Amarelo: vamos falar sobre suicídio

Várias campanhas ligadas as patologias são identificadas por cores, como o Outubro Rosa, que fala sobre o câncer de mama e o Novembro Azul, que aborda o câncer de próstata. Setembro vem com a cor amarela e se coloca como uma oportunidade de intensificar o debate sobre o suicídio.
O objetivo da campanha Setembro Amarelo é alertar a população sobre o problema e mostrar que vários casos poderiam ser evitados.
O suicídio pode ser definido como um ato deliberado executado pelo próprio indivíduo, cuja intenção seja a morte de forma consciente e intencional. Esta autodestruição é um fenômeno presente ao longo de toda a história, em todas as culturas. É considerado pelo Ministério da Saúde como um problema de saúde pública.
Como identificar
Ainda não há como prever. Mas, há como identificar. São dois os fatores principais de risco:
Tentativa prévia - Pacientes que tentaram suicídio tem de cinco a seis vezes mais chances de tentar novamente e, 50% dos pacientes que se suicidaram já haviam tentado antes;
Transtorno mental - A maioria dos suicidas possuíam transtornos mentais não tratados ou maltratados, os principais são: depressão, transtorno bipolar, alcoolismo e abuso/dependência de outras drogas, transtornos de personalidade e esquizofrenia. Pacientes com múltiplas comorbidades psiquiátricas tem risco aumentado.
Desmistifique o mito
Existem vários mitos sobre o comportamento suicida que precisam ser derrubados. Exemplos:
• Quem diz que vai se matar não se mata;
• Após uma tentativa de suicídio ou melhora de um quadro depressivo o risco diminui;
• O suicídio é sempre impulsivo;
• Os suicidas querem mesmo morrer e estão decididos, nada muda isso;
• Falar sobre suicídio incita-o.
Não é bem assim. Ao suspeitar que uma pessoa possa estar com pensamentos suicidas, demonstre compreensão e amor. Procure saber o que está acontecendo e quais sentimentos estão relacionados. Não tenha medo de perguntar se ela está pensando em suicídio. Isso é fundamental. Depois, procure a ajude de um profissional qualificado (psicólogo ou psiquiatra). É importante mostrar para a pessoa que há outras saídas que não seja o suicídio.
Uma boa opção de ajuda é ligar para o número 188, onde pode-se conversar com um voluntário do Centro de Valorização da Vida (CVV). O atendimento é 24h. A cartilha Falando Abertamente sobre Suicídio elaborada pelo CVV traz informações interessantes sobre o assunto e vale a pena ser conferida.
Autor: Maritiza Neves
Fonte: Farmanguinhos/Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 13/09/2018
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/setembro-amarelo-vamos-falar-sobre-suicidio
O objetivo da campanha Setembro Amarelo é alertar a população sobre o problema e mostrar que vários casos poderiam ser evitados.
O suicídio pode ser definido como um ato deliberado executado pelo próprio indivíduo, cuja intenção seja a morte de forma consciente e intencional. Esta autodestruição é um fenômeno presente ao longo de toda a história, em todas as culturas. É considerado pelo Ministério da Saúde como um problema de saúde pública.
Como identificar
Ainda não há como prever. Mas, há como identificar. São dois os fatores principais de risco:
Tentativa prévia - Pacientes que tentaram suicídio tem de cinco a seis vezes mais chances de tentar novamente e, 50% dos pacientes que se suicidaram já haviam tentado antes;
Transtorno mental - A maioria dos suicidas possuíam transtornos mentais não tratados ou maltratados, os principais são: depressão, transtorno bipolar, alcoolismo e abuso/dependência de outras drogas, transtornos de personalidade e esquizofrenia. Pacientes com múltiplas comorbidades psiquiátricas tem risco aumentado.
Desmistifique o mito
Existem vários mitos sobre o comportamento suicida que precisam ser derrubados. Exemplos:
• Quem diz que vai se matar não se mata;
• Após uma tentativa de suicídio ou melhora de um quadro depressivo o risco diminui;
• O suicídio é sempre impulsivo;
• Os suicidas querem mesmo morrer e estão decididos, nada muda isso;
• Falar sobre suicídio incita-o.
Não é bem assim. Ao suspeitar que uma pessoa possa estar com pensamentos suicidas, demonstre compreensão e amor. Procure saber o que está acontecendo e quais sentimentos estão relacionados. Não tenha medo de perguntar se ela está pensando em suicídio. Isso é fundamental. Depois, procure a ajude de um profissional qualificado (psicólogo ou psiquiatra). É importante mostrar para a pessoa que há outras saídas que não seja o suicídio.
Uma boa opção de ajuda é ligar para o número 188, onde pode-se conversar com um voluntário do Centro de Valorização da Vida (CVV). O atendimento é 24h. A cartilha Falando Abertamente sobre Suicídio elaborada pelo CVV traz informações interessantes sobre o assunto e vale a pena ser conferida.
Autor: Maritiza Neves
Fonte: Farmanguinhos/Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 13/09/2018
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/setembro-amarelo-vamos-falar-sobre-suicidio
quinta-feira, 9 de agosto de 2018
O impacto da série '13 Reasons Why' na visão de jovens brasileiros sobre suicídio e bullying, segundo estudo

Direito de imagem
BETH DUBBER/NETFLIX
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Protagonista da série deixa fitas explicando a colegas por que cometeu suicídio - motivos incluem bullying, assédio e estupro
Imediatamente após ser lançada pelo serviço de streaming, em março de 2017, a série 13 Reasons Why provocou debates na imprensa e na área médica sobre os possíveis efeitos de uma representação ficcional do suicídio em uma audiência predominantemente jovem.
Na série, a protagonista Hannah Baker grava fitas de áudio para seus antigos colegas explicando as razões para ter tirado a própria vida - indicando, principalmente, o bullying que havia sofrido.
Desde então, especialistas em saúde mental têm apontado para os prováveis riscos de a personagem principal ser imitada pelos jovens que viessem a assistir ao seriado, por conta de uma glamourização excessiva do ato.
Imediatamente após ser lançada pelo serviço de streaming, em março de 2017, a série 13 Reasons Why provocou debates na imprensa e na área médica sobre os possíveis efeitos de uma representação ficcional do suicídio em uma audiência predominantemente jovem.
Na série, a protagonista Hannah Baker grava fitas de áudio para seus antigos colegas explicando as razões para ter tirado a própria vida - indicando, principalmente, o bullying que havia sofrido.
Desde então, especialistas em saúde mental têm apontado para os prováveis riscos de a personagem principal ser imitada pelos jovens que viessem a assistir ao seriado, por conta de uma glamourização excessiva do ato.
A possível imitação causada pela série da Netflix foi analisada pela primeira vez no Brasil no estudo recém-publicado por pesquisadores da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) no Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, um dos mais importantes do campo.
Os efeitos da série no Brasil
"O impacto social das obras de ficção ou do suicídio de celebridades sempre foi um debate na área, mas há poucos estudos recentes que tenham avaliado objetivamente a questão", explica o psiquiatra e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Christian Kieling, líder do estudo.
O fenômeno de reprodução suicida é conhecido pelos médicos como "efeito Werther", e tem suas origens no século 18: o nome faz referência à obra Os sofrimentos do jovem Werther, do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe, que teria provocado um aumento nos suicídios após sua publicação.
Segundo relatos da época, os jovens eram encontrados sem vida vestindo roupas semelhantes às do personagem ou, ainda, com um exemplar do livro em mãos.
No caso da preocupação levantada por 13 Reasons Why, comenta Kieling, somam-se ainda questões atuais. Nas últimas décadas, o suicídio tem se firmado como uma das principais causas de morte entre adolescentes no Brasil, atrás apenas do trânsito e da violência interpessoal, categoria ampla que inclui assassinatos, agressão, brigas, bullying, violência entre parceiros sexuais e abuso emocional.

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BETH DUBBER/NETFLIX
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Suicídio é uma das principais causas de morte de adolescentes no Brasil
No estudo feito por pesquisadores do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, foram analisadas as respostas de 21.062 adolescentes para entender até que ponto a série pode ter influenciado o pensamento e o comportamento dos consultados.
Após a polêmica que se seguiu à primeira temporada, a própria Netflix havia financiado um estudo sobre 13 Reasons Why nos Estados Unidos, mas a pesquisa não abordou se a série aumentava ou não os pensamentos suicidas.
No levantamento feito pelos pesquisadores da UFRGS, adolescentes do Brasil e dos Estados Unidos, na faixa etária entre 12 e 19 anos, foram questionados sobre ideação suicida antes e depois de assistir aos episódios - e também sobre a forma como passaram a encarar o bullying após acompanhar a história de Hannah Baker.
Entre os adolescentes sem sintomas de depressão ou pensamentos suicidas antes de ver a série, 4,7% responderam ter passado a pensar mais em tirar a própria vida, um número considerado "preocupante" pelos autores do estudo.
Naqueles mais vulneráveis – sofrendo com depressão e tendo cogitado o suicídio anteriormente – o aumento foi ainda mais expressivo: 21,6% tiveram mais ideação suicida após 13 Reasons Why. Por outro lado, nesse mesmo grupo, 49,5% disseram ter passado a conviver com menos pensamentos suicidas após ver a série.
Outro resultado que chamou atenção dos pesquisadores foi o impacto sobre o bullying. Dos mais de 21 mil adolescentes, 41,3% disseram já haver praticado bullying. Mas depois de ver 13 Reasons Why, 90,1% deles afirmaram ter passado a fazer menos bullying.
"O estudo indicou que os efeitos da série são múltiplos, o que demonstra a complexidade do fenômeno", admite Kieling. "O efeito foi predominantemente positivo, especialmente na questão do bullying. Mas os 4,7% das pessoas que não tinham histórico de depressão e que passaram a pensar em suicídio nos preocupou, pois é um número significativo dentro da maioria de crianças e adolescentes que não têm o transtorno".
Cuidados ao representar o suicídio
Para Alexandre Paim Diaz, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e um dos coordenadores da campanha Setembro Amarelo de prevenção ao suicídio, o estudo feito pelos pesquisadores da UFRGS reforça a necessidade de cuidados ao abordar a temática na mídia.
No estudo feito por pesquisadores do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, foram analisadas as respostas de 21.062 adolescentes para entender até que ponto a série pode ter influenciado o pensamento e o comportamento dos consultados.
Após a polêmica que se seguiu à primeira temporada, a própria Netflix havia financiado um estudo sobre 13 Reasons Why nos Estados Unidos, mas a pesquisa não abordou se a série aumentava ou não os pensamentos suicidas.
No levantamento feito pelos pesquisadores da UFRGS, adolescentes do Brasil e dos Estados Unidos, na faixa etária entre 12 e 19 anos, foram questionados sobre ideação suicida antes e depois de assistir aos episódios - e também sobre a forma como passaram a encarar o bullying após acompanhar a história de Hannah Baker.
Entre os adolescentes sem sintomas de depressão ou pensamentos suicidas antes de ver a série, 4,7% responderam ter passado a pensar mais em tirar a própria vida, um número considerado "preocupante" pelos autores do estudo.
Naqueles mais vulneráveis – sofrendo com depressão e tendo cogitado o suicídio anteriormente – o aumento foi ainda mais expressivo: 21,6% tiveram mais ideação suicida após 13 Reasons Why. Por outro lado, nesse mesmo grupo, 49,5% disseram ter passado a conviver com menos pensamentos suicidas após ver a série.
Outro resultado que chamou atenção dos pesquisadores foi o impacto sobre o bullying. Dos mais de 21 mil adolescentes, 41,3% disseram já haver praticado bullying. Mas depois de ver 13 Reasons Why, 90,1% deles afirmaram ter passado a fazer menos bullying.
"O estudo indicou que os efeitos da série são múltiplos, o que demonstra a complexidade do fenômeno", admite Kieling. "O efeito foi predominantemente positivo, especialmente na questão do bullying. Mas os 4,7% das pessoas que não tinham histórico de depressão e que passaram a pensar em suicídio nos preocupou, pois é um número significativo dentro da maioria de crianças e adolescentes que não têm o transtorno".
Cuidados ao representar o suicídio
Para Alexandre Paim Diaz, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e um dos coordenadores da campanha Setembro Amarelo de prevenção ao suicídio, o estudo feito pelos pesquisadores da UFRGS reforça a necessidade de cuidados ao abordar a temática na mídia.

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Estudo diz que mídia deve ter mais cuidado ao abordar suicídio de adolescentes e ressalta que série tem efeitos múltiplos
"Há estudos europeus e coreanos, que mostram um aumento do suicídio após se noticiar a morte de atrizes e pessoas mais célebres", destaca Diaz.
"É claro que não se pode afirmar com certeza a existência de uma causa-efeito, mas os resultados sugerem uma associação, e levantam a questão para o cuidado com a maneira como se noticia o suicídio".
O psiquiatra, ligado à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), destaca que o suicídio também é uma das principais causas de morte da população jovem em nível mundial: a segunda na faixa etária entre 15 a 34 anos.
"É importante que as pessoas que produzem um conteúdo artístico tenham consciência de que a maneira como elas representam um tema tem impacto na sociedade", argumenta.
"Nada impede que se produza aquele conteúdo, mas com orientação, estimulando discussão com profissionais, pais e professores sobre fatores de risco, prevenção, sinais de alerta".
No caso de 13 Reasons Why, entende Diaz, os dados levantados pela pesquisa brasileira são significativos. "Quando pensamos que é 4,7% de milhares de jovens que não tinham um sintoma de depressão ou ideação suicida e aumentaram esse nível, é um número muito considerável. E o aumento é ainda mais importante quando se trata de um grupo já vulnerável", diz.
"Quem produz esses conteúdos tem que ter clareza de que eles podem ser nocivos a uma parcela da população."
De acordo com Christian Kieling, é importante que os pais monitorem o que os filhos assistem. "Censurar não parece ser o caminho mais eficaz, mas é preciso que eles abordem o assunto com os filhos", indica o especialista.
E também aponta onde 13 Reasons Why poderia ter feito melhor: "A série não mostra claramente que existem formas de buscar ajuda e, além disso, detalha como a menina se matou, o que não é recomendado", avalia.
"Devemos falar sobre suicídio. Escondê-lo não vai fazer o problema desaparecer. Mas temos de ter cuidado ao retratá-lo, sem mostrar os meios", conclui.
Procurada para comentar os resultados do estudo brasileiro, a Netflix não havia se manifestado até a conclusão desta reportagem.
Em junho, quando o serviço de streaming confirmou a terceira temporada de 13 Reasons Why em meio a controvérsias, o CEO Reed Hastings disse que ninguém era obrigado a assistir.
"É controverso, mas ninguém é obrigado a assistir. Somos um serviço sob demanda e estamos felizes sobre a possibilidade da terceira temporada e ansiosos para dar apoio ao time da série", afirmou, na ocasião.
Recentemente, a Netflix lançou um PIN que permite aos pais controlar o acesso a determinados conteúdos.
Além disso, incluiu um vídeo antes de cada episódio da segunda temporada de 13 Reasons, no qual os próprios atores fazem alertas de como procurar ajuda para os telespectadores que se sentiram abalados pelo drama de Hannah e de outros personagens.
A página da série também é voltada para dar apoio a telespectadores. Traz telefones úteis de centros de apoio emocional e prevenção de suicídio ao redor do mundo e vídeos extras que discutem as várias formas de bullying e violência sexual nas escolas.
Na descrição, ao pé da página, emite mais um alerta: "Esta série é recomendada para maiores de 16 anos e aborda problemas como depressão, violência sexual e suicídio. Se você estiver passando por um momento difícil, ela pode não ser apropriada para você ou talvez seja melhor assistir na companhia de um adulto."
*O Centro de Valorização da Vida (CVV) dá apoio emocional e preventivo ao suicídio. Se você está em busca de ajuda, ligue para 188 (número gratuito) ou acesse www.cvv.org.br.
Autor: Maurício Brum e Sílvia Lisboa
Fonte: Porto Alegre (RS) para a BBC Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data de Publicação: 07/08/2018
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45064888
"Há estudos europeus e coreanos, que mostram um aumento do suicídio após se noticiar a morte de atrizes e pessoas mais célebres", destaca Diaz.
"É claro que não se pode afirmar com certeza a existência de uma causa-efeito, mas os resultados sugerem uma associação, e levantam a questão para o cuidado com a maneira como se noticia o suicídio".
O psiquiatra, ligado à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), destaca que o suicídio também é uma das principais causas de morte da população jovem em nível mundial: a segunda na faixa etária entre 15 a 34 anos.
"É importante que as pessoas que produzem um conteúdo artístico tenham consciência de que a maneira como elas representam um tema tem impacto na sociedade", argumenta.
"Nada impede que se produza aquele conteúdo, mas com orientação, estimulando discussão com profissionais, pais e professores sobre fatores de risco, prevenção, sinais de alerta".
No caso de 13 Reasons Why, entende Diaz, os dados levantados pela pesquisa brasileira são significativos. "Quando pensamos que é 4,7% de milhares de jovens que não tinham um sintoma de depressão ou ideação suicida e aumentaram esse nível, é um número muito considerável. E o aumento é ainda mais importante quando se trata de um grupo já vulnerável", diz.
"Quem produz esses conteúdos tem que ter clareza de que eles podem ser nocivos a uma parcela da população."
De acordo com Christian Kieling, é importante que os pais monitorem o que os filhos assistem. "Censurar não parece ser o caminho mais eficaz, mas é preciso que eles abordem o assunto com os filhos", indica o especialista.
E também aponta onde 13 Reasons Why poderia ter feito melhor: "A série não mostra claramente que existem formas de buscar ajuda e, além disso, detalha como a menina se matou, o que não é recomendado", avalia.
"Devemos falar sobre suicídio. Escondê-lo não vai fazer o problema desaparecer. Mas temos de ter cuidado ao retratá-lo, sem mostrar os meios", conclui.
Procurada para comentar os resultados do estudo brasileiro, a Netflix não havia se manifestado até a conclusão desta reportagem.
Em junho, quando o serviço de streaming confirmou a terceira temporada de 13 Reasons Why em meio a controvérsias, o CEO Reed Hastings disse que ninguém era obrigado a assistir.
"É controverso, mas ninguém é obrigado a assistir. Somos um serviço sob demanda e estamos felizes sobre a possibilidade da terceira temporada e ansiosos para dar apoio ao time da série", afirmou, na ocasião.
Recentemente, a Netflix lançou um PIN que permite aos pais controlar o acesso a determinados conteúdos.
Além disso, incluiu um vídeo antes de cada episódio da segunda temporada de 13 Reasons, no qual os próprios atores fazem alertas de como procurar ajuda para os telespectadores que se sentiram abalados pelo drama de Hannah e de outros personagens.
A página da série também é voltada para dar apoio a telespectadores. Traz telefones úteis de centros de apoio emocional e prevenção de suicídio ao redor do mundo e vídeos extras que discutem as várias formas de bullying e violência sexual nas escolas.
Na descrição, ao pé da página, emite mais um alerta: "Esta série é recomendada para maiores de 16 anos e aborda problemas como depressão, violência sexual e suicídio. Se você estiver passando por um momento difícil, ela pode não ser apropriada para você ou talvez seja melhor assistir na companhia de um adulto."
*O Centro de Valorização da Vida (CVV) dá apoio emocional e preventivo ao suicídio. Se você está em busca de ajuda, ligue para 188 (número gratuito) ou acesse www.cvv.org.br.
Autor: Maurício Brum e Sílvia Lisboa
Fonte: Porto Alegre (RS) para a BBC Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data de Publicação: 07/08/2018
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45064888
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