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segunda-feira, 5 de abril de 2021

Por que sono dos adolescentes é importante para a saúde mental



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Garantir que os adolescentes durmam o suficiente pode ter efeitos positivos na vida adulta, apontam especialistas


A manhã já está terminando e os adolescentes da casa ainda estão dormindo profundamente, muito tempo depois de você ter se levantado. Será que você deveria correr até o quarto deles e tirá-los da cama?


Pode ser tentador, mas a resposta possivelmente é não.


Há cada vez mais evidências de que o sono na adolescência é importante para a saúde mental não só atual, mas também futura dos jovens.

Assim, não é de se admirar que a insônia grave, ou distúrbios sérios de sono, estejam entre os sintomas mais comuns de depressão entre adolescentes.


Afinal, por mais cansado que você possa se sentir, é difícil pegar no sono se estiver cheio de dúvidas ou preocupações. Isso também vale para os adultos: 92% das pessoas com depressão reclamam de dificuldade para dormir.


O que talvez seja menos claro é que, para alguns, os distúrbios do sono podem começar antes da depressão, o que aumenta o risco de problemas de saúde mental no futuro.


Isso significa que o sono dos adolescentes deve ser levado mais a sério? E que pode diminuir o risco de depressão mais tarde?


Em um estudo publicado em 2020, Faith Orchard, psicóloga da Universidade de Sussex, no Reino Unido, analisou dados de um grupo grande de adolescentes que foram acompanhados dos 15 aos 24 anos.



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Distúrbios persistentes de sono em adolescentes devem ser diagnosticados o mais cedo possível


Aqueles que relataram dormir mal aos 15 anos, mas não tinham depressão ou ansiedade na época, eram mais propensos do que seus colegas a sentir ansiedade ou depressão aos 17, 21 ou 24 anos.


No caso dos adultos, problemas de sono também podem ser um indicador de depressão futura.


Uma análise de 34 estudos, que acompanharam no total 150 mil pessoas por um período de três meses a 34 anos, mostrou que, se as pessoas tivessem problemas de sono, o risco relativo de sofrer depressão no decorrer da vida dobrava.


Claro, isso não significa que todo mundo com insônia vai desenvolver depressão mais adiante. A maioria das pessoas não vai. E é bom lembrar que a última coisa que as pessoas com insônia precisam, sem dúvida, é se preocupar com o que pode acontecer com elas no futuro.


Mas a ciência mostra por que, em alguns casos, a falta de sono é capaz de contribuir para uma saúde mental debilitada.


O déficit de sono tem efeitos negativos bem conhecidos sobre nós, incluindo uma tendência a se afastar de amigos e familiares, falta de motivação e aumento da irritabilidade — tudo que pode afetar a qualidade dos relacionamentos de uma pessoa, colocando-a em maior risco de depressão.


Além disso, devemos considerar os fatores biológicos. A falta de sono pode levar ao aumento da inflamação no corpo, o que tem sido relacionado com problemas de saúde mental.


Pesquisadores estão analisando agora a relação entre os distúrbios do sono e outras condições de saúde mental.


O neurocientista Russell Foster, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, descobriu que essa ligação não ocorre apenas na depressão.


A interrupção dos ritmos circadianos — o ciclo natural de sono-vigília do nosso corpo — não é incomum entre pessoas com transtorno bipolar ou esquizofrenia.



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O déficit de sono tem efeitos negativos bem conhecidos, incluindo a tendência a se afastar de amigos e familiares


Em alguns casos, o relógio biológico pode ficar tão fora de sincronia que as pessoas ficam acordadas a noite toda e dormem durante o dia.


Colega de Foster, o psicólogo clínico Daniel Freeman fez um apelo para que os distúrbios do sono tenham uma prioridade maior nos serviços de atendimento à saúde mental.


Por serem comuns em diferentes diagnósticos, eles não tendem a ser vistos como centrais para uma condição específica. E Freeman sente que às vezes são negligenciados, quando poderiam ser combatidos.


Mesmo quando os problemas de saúde mental precedem os distúrbios no sono, a falta de sono pode agravar as dificuldades de uma pessoa. Afinal, uma única noite de privação de sono tem um impacto negativo bem conhecido no humor e no raciocínio.


A complexa relação entre o sono e a saúde mental é reforçada ainda mais pela descoberta de que, se você trata a depressão, os problemas para dormir não desaparecem totalmente.


É fácil entender como os tratamentos psicológicos que ajudam as pessoas a reduzir a ruminação de pensamentos negativos também podem fazer com que elas adormeçam com mais facilidade.


Mas, em 2020, Shirley Reynolds, psicóloga clínica da Universidade de Reading, no Reino Unido, e sua equipe testaram três tratamentos psicológicos diferentes para a depressão.


Eles funcionaram igualmente bem na redução da depressão, mas só resolveram os problemas de sono de metade dos participantes.


Para a outra metade, a insônia persistia, sugerindo que era independente da depressão e precisava ser tratada separadamente.

Assim, os distúrbios de sono e os problemas de saúde mental podem derivar das mesmas causas. Eventos traumáticos ou negativos, por exemplo. Ou ruminação mental excessiva, além de vários fatores genéticos.


Os genes envolvidos nos caminhos da serotonina e no funcionamento da dopamina mostraram ser fatores relacionados tanto à falta de sono quanto à depressão, assim como os genes que influenciam o ritmo circadiano de uma pessoa.


E, como já vimos, é provável que a insônia e os problemas de saúde mental se agravem mutuamente, tornando as duas condições ainda piores.


Você está angustiado e não consegue dormir; você não consegue dormir, então fica mais angustiado — e assim por diante, como uma bola de neve.


Também é possível que a falta de sono não seja tanto uma causa da depressão posterior, mas mais um sinal de alerta precoce.


A preocupação que impede uma pessoa de pegar no sono pode, em alguns casos, ser o primeiro sintoma de problemas de saúde mental mais sérios que estão por vir.


Foster está convencido de que, sob uma perspectiva biológica, a melhor maneira de desvendar essa intrincada rede de correlação e causalidade é estudando o impacto que a interrupção dos ritmos circadianos pode ter no cérebro.


Ele diz que precisamos analisar as complexas interações entre vários genes, regiões do cérebro e neurotransmissores para entender o que está acontecendo.



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Problemas de insônia e saúde mental podem se agravar mutuamente


Portanto, talvez os problemas persistentes de sono precisem ser levados mais a sério em adolescentes e adultos. E os tratamentos para distúrbios no sono são simples e, em muitos casos, bem-sucedidos.


O que já está claro, a partir de uma análise de 49 estudos, é que combater a falta de sono entre aqueles com insônia, que já apresentam sintomas de depressão, não apenas os ajuda a dormir melhor, como também reduz a depressão.


O amplo estudo Oasis, liderado por Daniel Freeman em 26 universidades no Reino Unido, descobriu que a terapia comportamental cognitiva digital para estudantes com insônia não apenas os ajudou a dormir, como reduziu a ocorrência de alucinações e paranoia, que são sintomas de psicose.


A pergunta de um milhão de dólares é se as terapias para o sono poderiam até mesmo prevenir problemas de saúde mental no futuro.


Para responder, seriam necessários testes em larga escala e de longo prazo.


Uma vantagem das intervenções precoces para impedir a falta de sono — tanto para o distúrbio em si, quanto para reduzir potencialmente problemas de saúde mental mais amplos — é que há menos estigma em torno da insônia, então pode ser mais fácil convencer as pessoas a procurarem tratamento.


Entretanto, qualquer pessoa que tenha problemas para dormir pode testar as técnicas que se revelaram mais eficazes:


- Garantir que obtenha luz suficiente durante o dia (de manhã para a maioria das pessoas);


- Não cochilar por mais de 20 minutos;


- Não comer, fazer exercícios ou tomar café tarde da noite;


- Evitar ler e-mails ou discutir temas estressantes na cama;


- Manter o quarto fresco, silencioso e escuro;


- Tentar levantar e ir para a cama no mesmo horário todos os dias.


É claro que dormir melhor não vai resolver por si só a crise de saúde mental. Mas poderia fazer diferença no longo prazo? Mesmo que não faça, como os adolescentes sonolentos sabem, não há nada melhor que uma boa noite de sono.






Autor: Sara Rigby
Fonte: BBC Science Focus
Sítio Online da Publicação: BBBC News
Data: 05/04/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-56639392

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

A relação entre pais e adolescentes com pensamentos suicidas

suicídio

O suicídio é um problema grave que vem traz preocupações e ganha grande destaque. Por isso, mais uma vez vamos abordar este assunto tão importante, desta vez com foco no público adolescente e a relação com os pais. O artigo de base foi publicado neste mês de janeiro de 2019 na American Academy of Pediatrics.

Nos EUA, o suicídio é segunda maior causa de mortes entre jovens de 10 e 24 anos e, infelizmente, esse número vem aumentando ao longo do tempo. Pesquisas americanas chegam a revelar que 18% dos jovens no ensino médio consideraram seriamente se matar no último ano. Nesse contexto, vale destacar que a intenção suicida é um importante fator de risco para se passar ao ato, sendo a identificação desse sintoma um passo importante para trabalhar a prevenção.

Um dos empecilhos para isso é que até 2/3 dessa população não procura ou tem acesso aos serviços de saúde mental. Uma das razões para isso é o desconhecimento dos pais sobre o que se passa com seus filhos. Dessa forma, o foco deste artigo é avaliar essa relação como uma forma de proteção e prevenção.
Método

A base do estudo foi uma Coorte de Neurodesenvolvimento da Filadélfia (CNF), uma amostra baseada na comunidade. Nela foi avaliada a população que não procurava atendimento psiquiátrico. Ela envolveu 9.498 participantes entre oito e 21 anos, recrutados na rede de atendimento pediátrico, mas foram excluídos os pacientes que não eram fluentes na língua do estudo (inglês); que possuíam algum atraso do desenvolvimento ou outras alterações físicas ou cognitivas que pudessem interferir com o estudo. Para fazer este trabalho, a amostra acabou delimitada a pacientes entre 11 e 17 anos. A coleta de dados sobre pensamento suicida foi realizada tanto entre os adolescentes, como em seus acompanhantes, sendo 97,2% destes os pais ou cuidadores. Foi dado a eles formulários com esclarecimentos e que pedem consentimento para a pesquisa.

O método de avaliação dos sintomas foi feito a partir de uma entrevista clínica estruturada e computadorizada chamada GOASSESS. Os avaliadores que aplicaram a pesquisa eram treinados para tal e visavam avaliar as principais áreas da psicopatologia. Dentro das questões, foram perguntados aos jovens sobre ideação suicida ao longo da vida e pensamentos sobre morte, as mesmas perguntas foram feitas aos acompanhantes. Aos pais também foi perguntado, por meio de questionário, sobre a história familiar de tentativa de suicídio e o histórico médico e psiquiátrico dos adolescentes, juntamente com os dados demográficos. Houve também um questionamento sobre a exposição a eventos traumáticos ou relacionados ao transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

Após a coleta de dados, foi feita uma comparação entre a resposta dos responsáveis e a dos jovens. Os casos de discordância entre as respostas foram divididos dois grupos: os pais que desconheciam o pensamento suicida dos filhos ou os pais que conheciam, mas os adolescentes negaram tais pensamentos na entrevista.
Resultados e discussão

A sensibilidade e especificidade estimadas indicam importante desconhecimento dos pais sobre a presença de pensamento suicida nos adolescentes. Cerca de 49,9% dos pais não tinham ideia sobre a presença de pensamentos suicidas nos filhos e até 75,6% desconheciam que os filhos pensassem sobre morte. Também houve casos em que os pais relataram esses pensamentos em seus filhos, mas os filhos negaram durante a entrevista (48,4% negaram ideação suicida e 67,5% negaram pensamentos de morte).

Os dados também sugerem que o desconhecimento dos pais é maior quando se trata de adolescentes do sexo feminino com menor faixa etária, mas que isso tende a melhorar conforme ficam mais velhas. O inverso ocorre no sexo masculino: o desconhecimento dos pais sobre tais pensamentos aumenta conforme a idade avança. A negação dos filhos ou a ignorância dos cuidadores sobre o que eles pensam também foi maior entre minorias étnicas. Finalmente, o desconhecimento era maior entre pais do que mães. Contudo, quando os jovens tinham história prévia de tratamento psiquiátrico (incluindo internação), psicológico ou história familiar de suicídio os responsáveis eram mais conscientes sobre o que se passava. Condições psicopatológicas mais graves entre os jovens também diminuíram as chances de negação pelos adolescentes.

Esses dados revelam que há importantes discrepâncias na avaliação da ideação suicida, o que significa um grande número de jovens cujo risco não foi detectado. Estudos anteriores já demonstravam uma taxa de concordância de baixa a moderada.

No que diz respeito à concordância, a idade foi um fator importante. De modo geral, quanto maior a idade, menor a discordância ou desconhecimento entre pais e filhos. Ou seja, os mais novos estão sob maior risco. Contudo, é possível que a população mais jovem também possa ter maior dificuldade de interpretação sobre as questões propostas, o que pode aumentar a discordância e servir de alerta para os ambientes clínicos e de pesquisa com relação a essa faixa etária. A discordância também varia com o gênero, pois é menor em meninas mais velhas ou meninos mais novos.

Essa divergência pode refletir a diferente história de interação entre os sexos no que diz respeito aos sintomas depressivos. Estes achados podem ser úteis na hora de criar estratégias mais específicas para facilitar a relação com os pais e profissionais na área de saúde e medidas de prevenção. A discordância também foi maior entre minorias étnicas, especialmente quando de origem africana ou asiática. Esse dado é especialmente importante, pois esta é uma parte da população que menos usa o serviço de saúde antes de uma tentativa de suicídio.

Do ponto de vista do cuidador ou responsável, os pais desconheciam mais a condição dos seus filhos do que as mães.

No geral, quando os adolescentes tinham história de tratamento psiquiátrico (inclusive internação e uso de psicotrópicos), os pais eram mais alertas e conscientes sobre a presença de ideação suicida. História familiar de tentativas de suicídio ou de suicídio realizado também fazia com que os pais ficassem mais alertas e reconhecessem ideação suicida nos filhos.

Já a negação dos jovens foi aparentemente menor quando a sintomatologia psicopatológica era mais grave. Por exemplo, jovens com história de transtornos externalizantes tinham menores chances de negar ideação suicida. Uma ressalva é o grupo de adolescentes com história de maus-tratos, agressão ou isolamento social. Nesses, as chances de negar a ideação suicida foram maiores.

A discrepância dos achados também pode estar relacionada a diferenças nas características da amostra e da avaliação. Acredita-se que jovens com questões psico-comportamentais já tenham sido submetidos a tratamentos de saúde anteriormente e, portanto, podem se sentir mais à vontade durante uma avaliação para responder sobre ideação suicida.
Limitações
O estudo é limitado geograficamente, é incerto se pode ser generalizado para o resto da população.
A avaliação foi breve para conseguir abranger a grande quantidade de pacientes envolvidos.
Há também a possibilidade de viés uma vez que uma das perguntas era sobre pensamento suicida (conta com o relato do paciente).
A prevalência de ideação suicida neste estudo (8%) foi inferior à de estudos nacionais nos EUA (18%), o que pode ter ocorrido pela inclusão de adolescentes mais jovens (a partir de 11 anos), enquanto a amostra nacional envolvia apenas alunos do ensino médio.
A forma de avaliação (interpessoal) também pode ter afetado o relato dos jovens. Pesquisas indicam que as taxas de ideação suicida são maiores quando o estudo é feito por autoquestionários.
Os pensamentos sobre morte podem na verdade encobrir uma série de outros pensamentos e dúvidas nos jovens, o que não necessariamente indica risco de suicídio.
Finalmente, este estudo focou na relação entre pais ou cuidadores e os adolescentes, mas muitos jovens podem se sentir mais à vontade ao discutir esse tipo de assunto com outras pessoas que não os pais. Logo, seria interessante que outras pessoas próximas também fossem incluídas nas próximas pesquisas.
Conclusão

As implicações deste achado são importantes no contexto pediátrico. Dado o desconhecimento dos pais ou cuidadores e a negação de alguns jovens no que diz respeito à ideação suicida e pensamentos de morte, é importante tentar incluir este tema na rotina pediátrica e nas avaliações clínicas desta população. Por isso, é necessário fazer este alerta aos profissionais de saúde que lidam com esta faixa etária para que fiquem atentos e incluam esse questionamento em sua avaliação rotineira. A identificação e o tratamento precoces auxiliam na avaliação de risco de suicídio.




Autor: Roberto Caligari
Fonte: PEBMED
Sítio Online da Publicação: PEBMED
Data: 29/01/2019
Publicação Original: https://pebmed.com.br/a-relacao-entre-pais-e-adolescentes-com-pensamentos-suicidas/

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Adolescentes que têm mais horas de sono possuem melhor desempenho escolar



Uma queixa bastante comum dos pais de adolescentes é de que o filho não dorme. Mas será que esse comportamento é apenas um sinal de rebeldia juvenil? Um estudo recente publicado na revista Science Advance em dezembro de 2018 abordou uma questão bastante relevante: a maioria dos adolescentes apresenta privação crônica do sono.

Segundo o artigo, os adolescentes geralmente preferem permanecer ativos até o final da noite e acordar somente no final da manhã. Esta rotina diária não é apenas uma consequência de uma mudança na vida social e do uso de dispositivos eletrônicos, que mantêm os adolescentes acordados durante a noite, mas também é resultado de mudanças na homeostase e no ciclo circadiano. Durante a puberdade, o ciclo circadiano adolescente atrasa naturalmente o início do sono.

Uma razão para isso é um aparente prolongamento do período circadiano durante a adolescência, o que tipicamente leva para um início tardio do período noturno. Além disso, existem evidências de que o relógio biológico adolescente é menos sensível à luz durante o período da manhã. Por outro lado, a regulação homeostática do sono, que proporciona aumento do sono de acordo com as horas de vigília, também é modificada em adolescentes mais velhos. Isso permite que eles acordados por mais tempo, em relação aos mais jovens, devido a diminuição do sono durante os períodos de vigília.

Com base nestas mudanças mensuráveis ​​na regulação do sono, os adolescentes se encontram entre duas situações importantes: sua regulação circadiana e homeostática do sono, que atrasa o sono, e suas obrigações sociais, o que impõe compensações precoces do sono, resultando em uma redução diária. A maioria dos adolescentes dorme menos que o tempo diário recomendado nesta idade (que seria de 8 a 10 horas) e uma intervenção que tem sido proposta pela Academia Americana de Pediatria é a de postergar os horários de início das aulas. Aumentar a duração diária do sono em adolescentes não é necessário apenas devido aos resultados adversos óbvios de saúde física e mental associada à privação crônica do sono, mas também devido ao papel que o sono normal desempenha na aprendizagem e na consolidação da memória.

Qualquer ação que resulte em uma duração mais longa de sono em adolescentes também pode resultar em melhor desempenho acadêmico. Existem evidências de que os adolescentes, na maioria das sociedades industrializadas, não atingem as horas diárias de sono recomendadas durante o período escolar, o que é consistente com estimativas de que, nos últimos 100 anos, o sono encurtou em cerca de uma hora em adolescentes. No entanto, a associação entre o aumento do sono e um melhor desempenho escolar em adolescentes e se um atraso no início das aulas ​do ensino médio resulta em melhor desempenho têm sido difíceis de estabelecer.

O estudo de Dunster et al. foi possível graças a uma alteração no horário de início das aulas: o Distrito Escolar de Seattle, no Estado de Washington, Estados Unidos, decidiu atrasar o horário de início das escolas de nível médio, de 07h50 para 08h45. Esta mudança foi implementada para o ano letivo de 2017 e permitiu que os autores realizassem um estudo pré/pós mudança dos horários das aulas (2016 e 2017). As populações do estudo incluíram alunos do segundo ano de duas escolas públicas de ensino médio em Seattle. Em cada ano, na mesma época, uma amostra independente de alunos fazendo a mesma aula era estudada em cada escola. O estudo foi implementado como uma prática de laboratório de ciências em que os alunos poderiam testar previsões sobre seus próprios padrões de sono.

No estudo de Dunster et al., dados de atividade diária, exposição à luz e sono foram coletados usando monitores de atividade de pulso Actiwatch Spectrum®. Os relógios foram programados para coletar dados em períodos de 15 segundos durante 14 dias e os alunos foram instruídos para pressionar um botão marcador no relógio cada vez que eles iam dormir e quando acordavam. Os alunos também completaram um diário online retrospectivo, que incluiu perguntas sobre o início do sono, como eles foram despertados, se tiraram alguma soneca e se removeram o relógio e incluiu também um espaço para comentários.

Informações demográficas dos alunos, incluindo sexo, data de nascimento, tempo de deslocamento para a escola e meio de transporte foram coletados através de um formulário de pesquisa demográfica distribuído em sala de aula. Os alunos também tinham a oportunidade de revelar quaisquer distúrbios do sono e/ou responsabilidades (trabalho, cuidados infantis, etc.) que poderiam afetar a coleta de dados. Os dados foram coletados ao longo de seis semanas, durante as primaveras de 2016 e 2017, em rodadas deduas semanas. Os alunos de cada rodada receberam as mesmas instruções. As notas do segundo semestre dos alunos incluídos no estudo foram fornecidas pelos professores.

O estudo demonstrou que um atraso nos horários de início das aulas do ensino médio, das 7h50 para às 8h45, teve vários benefícios mensuráveis para os alunos adolescentes. A mudança levou a um prolongamento significativo do sono diário de mais de meia hora: de 6 horas e 50 minutos para 7 horas e 24 minutos, restaurando os valores históricos de sono apresentados várias décadas antes das noites em ambientes bem iluminados e com acesso a telas emissoras de luz.

Estes resultados demonstram que atrasar o horário de início das aulas do ensino médio pode aproximar os alunos do nível de sono recomendado e reverte a tendência de perda gradual do sono do último século. Os autores também demonstraram que o horário de início da escola foi associado a um melhor alinhamento do tempo de sono com o sistema circadiano (redução do jet lag social), redução da sonolência e aumento do desempenho acadêmico: os estudantes que estavam melhor descansados ​​e mais alertas exibiram melhor desempenho acadêmico.



Autor: Roberta Esteves Vieira de Castro
Fonte: PEBMED
Sítio Online da Publicação: PEBMED
Data: 21/01/2019
Publicação Original: https://pebmed.com.br/adolescentes-que-tem-mais-horas-de-sono-possuem-melhor-desempenho-escolar/

sexta-feira, 23 de março de 2018

Violência sexual contra crianças e adolescentes no campo da saúde e a intersetorialidade no sistema de garantias de direitos

A violência sexual contra crianças e adolescentes é uma das formas históricas de violência contra esses segmentos no Brasil. Relaciona-se com o patriarcado e o machismo e com as relações desiguais de poder estabelecidas no processo de formação econômica, social e política brasileira. 

Como um fenômeno que se constitui atual na sociedade moderna capitalista, ele possui interlocução com os estudos sobre as expressões da “questão social” que afetam a sociedade e necessitam de intervenção do Estado e das políticas sociais no campo dos direitos e na construção de um patamar civilizatório que proteja com prioridade as crianças e adolescentes no país. As políticas sociais, compreendidas como mediações na relação entre Estado e Sociedade no capitalismo, assumem o atendimento das expressões da “questão social” e das diferentes formas de desigualdade social, que ultrapassam as questões meramente econômicas, como é o caso da violência sexual contra crianças e adolescentes (IAMAMOTO, 2012; QUAGLIA et al, 2011).

Para Quaglia et al. (2011) a violência sexual é uma das violações de direitos humanos fundamentais e dá visibilidade a uma violência estrutural da sociedade brasileira, que permeia as relações sociais em suas mais variadas esferas. Entende-se que pela complexidade das questões que envolvem as diferentes formas de violência, esse não é um problema especifico da área da saúde e deve ser incluído na pauta de várias políticas sociais, porém, a violência coloca em risco o processo vital humano, visto que ameaça a vida, altera a saúde, produz enfermidade e resulta muitas vezes na morte das vítimas (MINAYO, 1994). 

Para Minayo (1994), a área da saúde tem como foco atender os efeitos da violência, como os traumas e as lesões físicas, nos serviços de emergência, na atenção especializada, nos processos de reabilitação, nos aspectos médicolegais e nos registros de informações. Nota-se a dimensão do problema da violência contra crianças e adolescentes para a saúde no Brasil a partir dos dados apresentados pelo Sistema de Vigilância de Violências e Acidentes (VIVA)2 . No ano de 2013 foram registradas 29.784 notificações de violências contra crianças na idade de 0 a 9 anos. Entre essas, 13.867 eram meninos, enquanto 15.917 eram meninas. Ao analisar o tipo de violências nota-se que a violência sexual foi a terceira causa mais notificada (28,4%). Em primeiro lugar está a negligência (50,1%) e em segundo, a violência física (28,6%). 

Em relação ao segmento com idade entre 10 a 19 anos foram registradas 50.634 notificações. Sendo 17.886 do sexo masculino e 32.748 do sexo feminino. A violência sexual aparece como a segunda causa de notificações (23,9%), em primeiro lugar está a agressão física (63,3%) e em terceiro, a violência psicológica/moral (23,0%).


Autor: Taiane Damasceno da Hora, Ariane Rego de Paiva
Fonte: Revista Sustinere
Sítio Online da Publicação: Revista Sustinere
Data de Publicação: 09/11/2017
Publicação Original: http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/sustinere/article/view/30004/23155