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sábado, 20 de agosto de 2022

Sono: empresas investem em tecnologia para tratar apneia e insônia (Parte 2)


Na primeira parte da reportagem especial sobre mercado ligado ao sono, Futuro da Saúde abordou o contexto do segmento e o impacto dos problemas na economia. Nesta segunda parte, a matéria trará soluções inovadoras que utilizam tecnologia para resolver tanto diagnóstico quanto acompanhamento de tratamento – além do uso da melatonina, liberada recentemente no Brasil como suplemento.

Dentre os principais problemas a serem enfrentados está a apneia, caracterizada por pausas respiratórias recorrentes durante a noite, que fazem com que o sono se fragmente e não cumpra seu papel de restauração. É uma doença crônica que é muito comum, mas subnotificada – acomete 33% de toda a população adulta, dos quais 90% permanecem sem diagnóstico.

Segundo revisão do The Lancet, realizada em 2019, estima-se que quase 1 bilhão de pessoas têm apneia no mundo – no Brasil, o número pode chegar a 40 milhões.

“É uma epidemia que passa despercebida. Não existe uma urgência, porque não se morre em um mês, mas o problema se prolonga por anos. E o diagnóstico é complexo, caro e inacessível para a maioria da população”, avalia Talita Salles, head de vendas e marketing da Biologix.

A startup apresenta uma plataforma online que permite que profissionais de saúde ofereçam um exame de apneia do sono simplificado e de baixo custo aos seus pacientes no esquema B2B2C – ela negocia com os profissionais, que oferecem o dispositivo para os pacientes. Hoje, por mês, a Biologix realiza cerca de 5,5 mil exames.

Ao contrário da polissonografia tradicional, o exame oferecido pela Biologix pode ser feito em casa e permite que o paciente não durma envolto a fios, o que pode garantir mais conforto. Ele também pode ser repetido por várias noites seguidas, possibilitando uma análise mais real da rotina do paciente.

Por meio de um oxímetro de alta resolução, desenvolvido e patenteado para isso, é possível monitorar saturação, movimentação, ronco e frequência cardíaca. Como a apneia pode acontecer muitas vezes durante a noite, inclusive em um mesmo minuto, a sensibilidade do aparelho precisava ser maior do que a do oxímetro encontrado nas farmácias.

O equipamento repassa as informações ao aplicativo da empresa no próprio smartphone via bluetooth. Depois que o exame é finalizado, elas são repassadas para uma nuvem, onde o médico terá acesso ao laudo para análise.

A média do preço cobrado pelos parceiros vai de R$ 200 a R$ 400, com possibilidade de parcelamento. Particular, o exame tradicional pode passar de R$ 1,5 mil. O objetivo da empresa é democratizar o diagnóstico e, consequentemente, o tratamento da apneia do sono no mundo. Democratizar porque é uma solução mais barata e acessível. Muitas vezes o paciente não vai, não tem quem leve, não tem dinheiro, tem convênio, mas não tem carro. Então ficava muito restrito aos grandes centros”, finaliza Talita.

A Biologix está incubada na Eretz.bio, do Einstein, desde janeiro de 2020 e se apresentou em congresso internacional e nacional.
Culpa não é só do celular

Outro dos principais problemas relacionados ao sono é a insônia, um distúrbio que está diretamente associado a dificuldades para dormir e/ou manter o sono. Ela pode ser aguda, quando é transitória e circunstancial, como às vésperas de um compromisso importante, ou crônica, que é quando dura mais de três meses e está relacionada com traços da personalidade de cada indivíduo.

Os fatores causadores são diversos e podem ser emocionais, cognitivos, fisiológicos e comportamentais, e impactam a rotina como um todo. Pessoas que sofrem com o distúrbio costumam ter alterações de humor, prejuízos na memória, concentração, cansaço e piora nos quadros de ansiedade e depressão.

Um dos principais tratamentos para ela é a Terapia Cognitiva Comportamental para insônia, também conhecida como TCCi. Em geral, ela é recomendada antes mesmo das intervenções medicamentosas por ser uma intervenção “padrão ouro”.

A abordagem psicoterapêutica é focada nas causas da insônia e conduz a uma mudança de comportamento e pensamentos disfuncionais relacionados ao sono. A TCCi é prática e consiste em que a pessoa aplique determinadas técnicas no cotidiano para combater o estado de alerta na cama, ajustar os horários de dormir, entre outras questões.

Na startup Vigilantes do Sono, o programa de tratamento da insônia é baseado no método TCCi e acontece dentro de um aplicativo, com acompanhamento de uma inteligência artificial, a chatbot Sônia. A ideia com ela é que uma pessoa tenha a experiência de um terapeuta no bolso, disponível todos os dias e horários.

“Acreditamos que o grande mérito da Sônia é que ela consegue criar uma conexão muito significativa com as pessoas, e ajuda elas a se manterem engajadas num tratamento que não é fácil, até a pessoa conseguir ver uma melhora no sono”, explica Lucas Baraças, CEO e fundador da startup.

Para ele, a tecnologia permite que duas grandes barreiras sejam quebradas no combate à insônia: o alto custo do tratamento na terapia convencional, que pode passar de R$ 2 mil, e um gap de especialistas em TCCi no Brasil. “E existe a questão do estigma. Fazer terapia é um tabu ainda para muitas pessoas e o programa digital nos permite romper esta barreira também.”

Hoje, mais de 45 mil pessoas já passaram pelo programa e mais de mil profissionais da saúde usam o Vigilantes do Sono para acompanhar os pacientes. A startup ainda tem parceria com grandes empresas, também está incubada na Eretz.bio e já foi apresentada em congressos nacionais e internacionais.
Telemedicina e wearables na prevenção da insônia

Quem trabalha no mesmo nicho de insônia é a SleepUp, startup que utiliza protocolos clínicos para auxiliar no tratamento e prevenção da insônia de forma acessível, natural e eficaz com a utilização de protocolos clínicos como a TCCi e mindfulness. A plataforma disponibiliza, no aplicativo, diversos recursos ao usuário como diários do sono, questionários clínicos, metas, módulos especiais e orientações personalizadas – além de acesso a conteúdo educativo e de relaxamento para ajudar a dormir melhor.

O processo também é acompanhado pela Dra. Luna, uma assistente virtual criada para que o usuário possa ter auxílio imediato em sua jornada dentro do app. Ela consegue conduzir a experiência do usuário de maneira interativa e humanizada, sendo muitas vezes o primeiro contato do usuário com alguém da equipe, mesmo ela sendo um chatbot.

A startup possui integração com tecnologias vestíveis, através do Samsung Health e Google Fit, para captação de sinais biométricos usados para a personalização da jornada terapêutica. E não para por aí, segundo Renata Bonaldi, CEO da SleepUp: “Estamos desenvolvendo uma faixa de cabeça com sensores de eletroencefalograma para captação de sinais cerebrais sobre o sono, a fim de integrar com a terapia digital e oferecer uma solução remota, caseira e clinicamente validada para monitoramento caseiro do sono”.

A empresa já passou por diversas incubadoras e aceleradoras, como Founder Institute, Eretz.bio, Distrito InovaHC, Supera Park, Vibee Unimed, Inovativa e Biominas, e recebeu premiações científicas e internacionais na área da saúde.
Hormônio do sono

A melatonina é um hormônio produzido principalmente na glândula pineal e que atua no ciclo circadiano como um mensageiro cronobiótico, levando a mensagem do tempo biológico para todas as células. Ou seja, ela avisa o corpo de que é hora de dormir.

“O sono tem um componente automático relacionado ao relógio biológico no meio do cérebro, o hipotálamo. A cada 24h, esse relógio prepara o nosso corpo para dormir. Esse ‘aviso’ acontece através de um hormônio que age no corpo inteiro, que é a melatonina”, explica o neurofisiologista Leonardo Ierardi.

Popularmente, ela ficou conhecida como “hormônio do sono” e era comercializada em farmácias de manipulação, apenas mediante receita médica, para pessoas que tinham dificuldade para dormir.

Em outubro de 2021, a Anvisa aprovou o uso da melatonina no Brasil como suplemento. Com isso, ficou permitido o uso do hormônio, mesmo que sem receita e em suplementos alimentares, a doses diárias de até 0,21mg para maiores de 19 anos.

A Hypera Pharma, um dos maiores conglomerados farmacêuticos do Brasil, foi uma das primeiras empresas a se anteciparem e incluírem o suplemento em seu portfólio. “Antes, praticamente só quem viajava para o exterior conseguia adquirir versões desse produto. Agora, a suplementação deixou de ser um privilégio e está disponível em massa no país”, avalia Breno Oliveira, CEO da empresa.

Para ele, a nova regulamentação sobre a melatonina é considerada um marco porque permitiu a criação de uma nova categoria no mercado. Sob seus rótulos, a Hypera Pharma comercializa três opções da melatonina pela Mantecorp, Vitasay e Neo Química.

A neurologista Andrea Bacelar também vê a regularização como positiva, mas avisa que o consumo deve ser feito com cautela. “A gente precisava da melatonina no Brasil. Talvez não nessa dose porque, dependendo do diagnóstico, precisamos de doses até mais elevadas. Mas ela é prescrita quando é necessário”, explica.

Para a médica, o indivíduo precisa observar a rotina e fazer associações. “Será que a irritação, cansaço, glicemia alterada, ganho de peso não podem ter relação com um sono de má qualidade? As pessoas precisam fazer essas perguntas para avaliar o quanto uma consulta especializada pode ajudar. Se não, é secar gelo”, completa Andrea Bacelar.
Futuro do setor

Os problemas relacionados ao sono parecem distantes de acabar e a tecnologia acaba sendo uma grande aliada no que diz respeito aos tratamentos – seja para ajudar no diagnóstico ou nas terapias. Mesmo que vista como “vilã do descanso”, especialistas garantem que, quando utilizada da forma correta, ela ajuda mais do que atrapalha.

Talita Salles, da Biologix, vê no sono um dos grandes pilares da saúde. “Se você não dorme bem, não tem regeneração hormonal. E a nossa sociedade 24/7 detona o tipo de trabalhador com horário matutino, por exemplo. Nosso dia se estende muito à rotina social”, explica. Ela vê nos números da empresa que o setor está crescendo.

“A gente começou a atuar comercialmente no começo de 2019. Quando foi em 2020, veio a pandemia. Então não tínhamos nenhum histórico. Tivemos um crescimento durante a pandemia, mês a mês. Mas, de janeiro para cá, com as coisas voltando ao normal, foi um grande boom. Terminamos dezembro fazendo 2,8 mil exames por mês. Em cinco meses, esse número mais do que dobrou.”

Já Lucas Baraças, da Vigilantes do Sono, enxerga no cenário internacional o potencial de crescimento do setor. “A maior prova disso é que alguns países mais desenvolvidos têm tido iniciativas para tentar promover cada vez mais estas terapias digitais. Na Alemanha criou-se uma lei que exige que os planos de saúde reembolsem estes tipos de terapia”, destaca.

“Mais recentemente no Reino Unido um programa digital de TCCi recebeu o aval para ser recomendado por médicos no sistema nacional de saúde como uma alternativa ao uso de medicamentos”, finaliza Baraças. Para ele, cada vez mais as pessoas têm dado importância ao sono por questões de bem-estar e saúde populacional.

Uma pesquisa realizada pela SleepUp no ano passado mostrou que 10% da população estava utilizando remédios para dormir todos os dias. Outro levantamento, mais recente, indicou que 30% das pessoas da geração Y e Z já monitoram o sono com alguma tecnologia.

“Desde o início da pandemia as relações diárias das pessoas mudaram. Após esse momento, viu-se uma necessidade muito grande de se entender e pensar mais sobre a saúde mental, e consequentemente, a saúde do sono, já que a busca por insônia aumentou muito nos sites de busca devido a esse momento que passamos”, pondera Renata Bonaldi, da SleepUp.

“Ainda existem reflexos da pandemia em nossa saúde mental e emocional, e isso também reflete na busca pela solução dessa dor criada. Por isso, hoje, o mercado está buscando formas de suprir essa dor, com a inovação e tecnologia atrelada à saúde”, finaliza.







Autor: Giulia Leal
Fonte: futurodasaude
Sítio Online da Publicação: futurodasaude
Data: 17/08/2022
Publicação Original: https://futurodasaude.com.br/especial-sono-parte-2/

terça-feira, 16 de agosto de 2022

Sono: mundo dorme cada vez menos e isso afeta até a economia (Parte 1)

O sono faz parte da vida. É uma necessidade fisiológica, assim como beber água, se alimentar, ir ao banheiro, respirar. Ele é fundamental para a nossa existência. E o impacto de noites mal dormidas, quando viram rotina e não se busca ajuda, gera distúrbios e desequilíbrios capazes de afetar todos os órgãos e sistemas do corpo humano.

Com a correria do dia a dia, o sono pode ser visto como algo trivial – e muitos encontram na privação do sono voluntária uma oportunidade de produzir mais ou ter uma vida social mais ativa sem medir as consequências. Na outra ponta, de forma não proposital, não é incomum que famílias tenham essa rotina do sono modificada pela maternidade, por exemplo.

No Brasil, 65% dos brasileiros afirmam ter baixa qualidade de sono e apenas 7% procuram ajuda médica para isso. E ainda que 34% dos entrevistados afirmem ter insônia, apenas 21% desses possuem o diagnóstico médico da doença. Os dados são de uma pesquisa realizada pelo Ibope, encomendada por uma farmacêutica, em 2020.

O problema não é exclusivo daqui: a Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que 4 em cada 10 pessoas no mundo não têm sono de boa qualidade. De acordo com os especialistas, esse conceito varia de pessoa para pessoa e depende da faixa etária – e não se trata apenas da quantidade de horas dormidas, mas também da qualidade delas.

“O sono ideal é aquele que te restabelece, refaz e restaura para o dia seguinte. Por isso, despertar e ter um bem estar físico e mental é o que se espera, como referência, de um indivíduo que tem um bom sono”, afirma Andrea Bacelar, neurologista e diretora médica da Clínica Bacelar e membra da diretoria da Associação Brasileira do Sono (ABS).

Leonardo Ierardi Goulart, neurofisiologista especialista em medicina do sono e integrante do Departamento de Neurofisiologia Clínica do Hospital Israelita Albert Einstein., completa: “O que pode influenciar [uma boa noite de sono] é o estilo de vida, rotinas, aspecto social, atividade física, alimentação, aspecto emocional e doenças clínicas, mentais e do próprio sono”.
Impacto na saúde e economia

Diversos fatores chamaram a atenção do mercado nos últimos anos no que diz respeito à má qualidade do sono no mundo. Um levantamento da PS Market Research projetou para 2023 um faturamento de US$ 101 bilhões entre as empresas que trabalham com o objetivo de melhorar o sono. Em 2017, a receita foi de US$ 69,5 bilhões; em 2020, US$ 80 bilhões.

Entre as healthtechs que têm o sono – ou as doenças ligadas a ele – como foco, os aportes mais do que duplicaram nos últimos três anos: foram US$ 302 milhões em 2018, US$ 369 milhões em 2019 e US$ 611 milhões em 2020. Os dados são da plataforma Crunchbase.

No exterior, a conta às custas de noites mal dormidas já chegou – e é cara. Juntos, Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Japão e Canadá já perdiam, em 2016, entre US$ 480 bilhões e US$ 680 bilhões por ano com o “mau sono” de seus trabalhadores.

A relação sono-economia pode causar estranhamento, mas é mais óbvia do que parece: pessoas cansadas são menos produtivas e podem ficar mais doentes, levando-as a faltarem ao trabalho com mais frequência do que quem tem um sono ideal.

Afinal, o dano também é físico: os que dormem menos de 6 horas por noite têm risco de mortalidade 13% maior do que os que dormem, em média, de 7 a 9 horas. Combinado ao tabagismo, consumo de álcool, altos níveis de stress e ausência de atividade física, a falta de uma boa noite de sono pode ativar uma bomba-relógio no corpo humano.

No Brasil, dados da ABS mostram que a população brasileira está dormindo menos: de 6,6 horas por dia em 2018, diminuiu para 6,4 horas por dia em 2019. Um estudo recente do Episono, do Instituto do Sono, mostra que, durante a pandemia, os brasileiros passaram a se deitar 64 minutos mais tarde. E 59,4% dos entrevistados acordam mais vezes durante a noite.
Não é apenas “contar carneirinhos”

Dormir pode parecer uma tarefa simples: deitar a cabeça no travesseiro e fechar os olhos. Mas o nosso corpo não para – muito menos o nosso cérebro. Tudo começa ainda na fase da vigília, que é quando estamos acordados. Ao pegar no sono, passamos para o Estágio I – responsável por 5% do ciclo do sono. O Estágio II é o famoso “sono leve”, em que ficamos 50% do tempo daquele ciclo. Já o Estágio III, do “sono profundo”, fica presente entre 20% e 25% do tempo.

Por fim, no sono REM, o corpo fica paralisado por meio da atonia muscular e o cérebro continua em funcionamento semelhante ao momento em que estamos acordados. O movimento ocular acelera e, por fim, a atividade onírica acontece.

As porcentagens dessas fases variam porque acaba-se tendo mais sono no Estágio III na primeira metade da noite e mais sono REM na segunda metade. Todo esse ciclo do sono se repete de 4 a 6 vezes em uma mesma noite – essa é a arquitetura esperada dos seres humanos que adotam o sono na fase escura das 24h.

“Quem dorme fora do horário habitual fisiológico de sono, ele nunca será restaurador – mesmo que o tempo total do sono seja o mesmo. Haverá hormônios que são produzidos na fase clara independente dele estar dormindo ou acordado”, explica a neurologista Andrea Bacelar.
Problemas no sono

Todos estão passíveis de serem acometidos por problemas ligados ao sono em algum momento da vida. E apesar de existirem alguns distúrbios mais conhecidos, como a insônia e a apneia, elas são apenas a ponta de um iceberg muito maior.

Ao todo são mais de 100, divididos em: respiração, como apnéia e ronca, ciclo circadiano, como jetlag e má-adaptação ao trabalho em turno, movimento, como síndrome das pernas inquietas e bruxismo, insônias, classificadas entre aguda e crônica, parassonias, como terror noturno e sonambulismo, ou hipersonias, que podem ser primárias, como narcolepsia, ou secundárias, causadas por fatores externos.

“O [problema do sono] mais prevalente e comum talvez seja a síndrome do sono insuficiente, que é quando a pessoa dorme menos do que o esperado para a faixa etária dela e isso causa sintomas diurnos”, explica o neurofisiologista Leonardo Ierardi Goulart, do Einstein. Ela é causa de grande parte das hipersonias hoje.

Ele explica que a síndrome é diferente da insônia, que é quando a pessoa tem sensação que dorme pouco devido ao excesso de alerta cerebral noturno, mas ela tem oportunidade para dormir. “Na síndrome do sono insuficiente, ela dorme menos do que precisa porque não tem oportunidade, tempo ou local adequado para isso”, completa.

De acordo com a neurologista Andrea Bacelar, assim como para o diagnóstico em outras especialidades, o médico se atém às queixas do paciente, faz perguntas em um processo conhecido como anamnese, e pode solicitar exames. Um deles é a polissonografia, exame que monitora as variações biofisiológicas que acontecem no corpo humano durante o sono. Ele pode tanto excluir quanto confirmar diagnósticos e auxiliar o médico a traçar as condutas de tratamento do paciente.

Na segunda parte desta reportagem especial, Futuro da Saúde trará soluções inovadoras para este problema e uma visão de futuro para o segmento.






Autor: Giulia Leal
Fonte: futurodasaude
Sítio Online da Publicação: futurodasaude
Data: 10/08/2022
Publicação Original: https://futurodasaude.com.br/sono-mundo-dorme-cada-vez-menos-e-isso-afeta-ate-a-economia-parte-1/

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Por que sono dos adolescentes é importante para a saúde mental



CRÉDITO,WESTEND61/ZEROCREATIVES/GETTY IMAGES
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Garantir que os adolescentes durmam o suficiente pode ter efeitos positivos na vida adulta, apontam especialistas


A manhã já está terminando e os adolescentes da casa ainda estão dormindo profundamente, muito tempo depois de você ter se levantado. Será que você deveria correr até o quarto deles e tirá-los da cama?


Pode ser tentador, mas a resposta possivelmente é não.


Há cada vez mais evidências de que o sono na adolescência é importante para a saúde mental não só atual, mas também futura dos jovens.

Assim, não é de se admirar que a insônia grave, ou distúrbios sérios de sono, estejam entre os sintomas mais comuns de depressão entre adolescentes.


Afinal, por mais cansado que você possa se sentir, é difícil pegar no sono se estiver cheio de dúvidas ou preocupações. Isso também vale para os adultos: 92% das pessoas com depressão reclamam de dificuldade para dormir.


O que talvez seja menos claro é que, para alguns, os distúrbios do sono podem começar antes da depressão, o que aumenta o risco de problemas de saúde mental no futuro.


Isso significa que o sono dos adolescentes deve ser levado mais a sério? E que pode diminuir o risco de depressão mais tarde?


Em um estudo publicado em 2020, Faith Orchard, psicóloga da Universidade de Sussex, no Reino Unido, analisou dados de um grupo grande de adolescentes que foram acompanhados dos 15 aos 24 anos.



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Distúrbios persistentes de sono em adolescentes devem ser diagnosticados o mais cedo possível


Aqueles que relataram dormir mal aos 15 anos, mas não tinham depressão ou ansiedade na época, eram mais propensos do que seus colegas a sentir ansiedade ou depressão aos 17, 21 ou 24 anos.


No caso dos adultos, problemas de sono também podem ser um indicador de depressão futura.


Uma análise de 34 estudos, que acompanharam no total 150 mil pessoas por um período de três meses a 34 anos, mostrou que, se as pessoas tivessem problemas de sono, o risco relativo de sofrer depressão no decorrer da vida dobrava.


Claro, isso não significa que todo mundo com insônia vai desenvolver depressão mais adiante. A maioria das pessoas não vai. E é bom lembrar que a última coisa que as pessoas com insônia precisam, sem dúvida, é se preocupar com o que pode acontecer com elas no futuro.


Mas a ciência mostra por que, em alguns casos, a falta de sono é capaz de contribuir para uma saúde mental debilitada.


O déficit de sono tem efeitos negativos bem conhecidos sobre nós, incluindo uma tendência a se afastar de amigos e familiares, falta de motivação e aumento da irritabilidade — tudo que pode afetar a qualidade dos relacionamentos de uma pessoa, colocando-a em maior risco de depressão.


Além disso, devemos considerar os fatores biológicos. A falta de sono pode levar ao aumento da inflamação no corpo, o que tem sido relacionado com problemas de saúde mental.


Pesquisadores estão analisando agora a relação entre os distúrbios do sono e outras condições de saúde mental.


O neurocientista Russell Foster, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, descobriu que essa ligação não ocorre apenas na depressão.


A interrupção dos ritmos circadianos — o ciclo natural de sono-vigília do nosso corpo — não é incomum entre pessoas com transtorno bipolar ou esquizofrenia.



CRÉDITO,MILOS KRECKOVIC/GETTY IMAGES
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O déficit de sono tem efeitos negativos bem conhecidos, incluindo a tendência a se afastar de amigos e familiares


Em alguns casos, o relógio biológico pode ficar tão fora de sincronia que as pessoas ficam acordadas a noite toda e dormem durante o dia.


Colega de Foster, o psicólogo clínico Daniel Freeman fez um apelo para que os distúrbios do sono tenham uma prioridade maior nos serviços de atendimento à saúde mental.


Por serem comuns em diferentes diagnósticos, eles não tendem a ser vistos como centrais para uma condição específica. E Freeman sente que às vezes são negligenciados, quando poderiam ser combatidos.


Mesmo quando os problemas de saúde mental precedem os distúrbios no sono, a falta de sono pode agravar as dificuldades de uma pessoa. Afinal, uma única noite de privação de sono tem um impacto negativo bem conhecido no humor e no raciocínio.


A complexa relação entre o sono e a saúde mental é reforçada ainda mais pela descoberta de que, se você trata a depressão, os problemas para dormir não desaparecem totalmente.


É fácil entender como os tratamentos psicológicos que ajudam as pessoas a reduzir a ruminação de pensamentos negativos também podem fazer com que elas adormeçam com mais facilidade.


Mas, em 2020, Shirley Reynolds, psicóloga clínica da Universidade de Reading, no Reino Unido, e sua equipe testaram três tratamentos psicológicos diferentes para a depressão.


Eles funcionaram igualmente bem na redução da depressão, mas só resolveram os problemas de sono de metade dos participantes.


Para a outra metade, a insônia persistia, sugerindo que era independente da depressão e precisava ser tratada separadamente.

Assim, os distúrbios de sono e os problemas de saúde mental podem derivar das mesmas causas. Eventos traumáticos ou negativos, por exemplo. Ou ruminação mental excessiva, além de vários fatores genéticos.


Os genes envolvidos nos caminhos da serotonina e no funcionamento da dopamina mostraram ser fatores relacionados tanto à falta de sono quanto à depressão, assim como os genes que influenciam o ritmo circadiano de uma pessoa.


E, como já vimos, é provável que a insônia e os problemas de saúde mental se agravem mutuamente, tornando as duas condições ainda piores.


Você está angustiado e não consegue dormir; você não consegue dormir, então fica mais angustiado — e assim por diante, como uma bola de neve.


Também é possível que a falta de sono não seja tanto uma causa da depressão posterior, mas mais um sinal de alerta precoce.


A preocupação que impede uma pessoa de pegar no sono pode, em alguns casos, ser o primeiro sintoma de problemas de saúde mental mais sérios que estão por vir.


Foster está convencido de que, sob uma perspectiva biológica, a melhor maneira de desvendar essa intrincada rede de correlação e causalidade é estudando o impacto que a interrupção dos ritmos circadianos pode ter no cérebro.


Ele diz que precisamos analisar as complexas interações entre vários genes, regiões do cérebro e neurotransmissores para entender o que está acontecendo.



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Problemas de insônia e saúde mental podem se agravar mutuamente


Portanto, talvez os problemas persistentes de sono precisem ser levados mais a sério em adolescentes e adultos. E os tratamentos para distúrbios no sono são simples e, em muitos casos, bem-sucedidos.


O que já está claro, a partir de uma análise de 49 estudos, é que combater a falta de sono entre aqueles com insônia, que já apresentam sintomas de depressão, não apenas os ajuda a dormir melhor, como também reduz a depressão.


O amplo estudo Oasis, liderado por Daniel Freeman em 26 universidades no Reino Unido, descobriu que a terapia comportamental cognitiva digital para estudantes com insônia não apenas os ajudou a dormir, como reduziu a ocorrência de alucinações e paranoia, que são sintomas de psicose.


A pergunta de um milhão de dólares é se as terapias para o sono poderiam até mesmo prevenir problemas de saúde mental no futuro.


Para responder, seriam necessários testes em larga escala e de longo prazo.


Uma vantagem das intervenções precoces para impedir a falta de sono — tanto para o distúrbio em si, quanto para reduzir potencialmente problemas de saúde mental mais amplos — é que há menos estigma em torno da insônia, então pode ser mais fácil convencer as pessoas a procurarem tratamento.


Entretanto, qualquer pessoa que tenha problemas para dormir pode testar as técnicas que se revelaram mais eficazes:


- Garantir que obtenha luz suficiente durante o dia (de manhã para a maioria das pessoas);


- Não cochilar por mais de 20 minutos;


- Não comer, fazer exercícios ou tomar café tarde da noite;


- Evitar ler e-mails ou discutir temas estressantes na cama;


- Manter o quarto fresco, silencioso e escuro;


- Tentar levantar e ir para a cama no mesmo horário todos os dias.


É claro que dormir melhor não vai resolver por si só a crise de saúde mental. Mas poderia fazer diferença no longo prazo? Mesmo que não faça, como os adolescentes sonolentos sabem, não há nada melhor que uma boa noite de sono.






Autor: Sara Rigby
Fonte: BBC Science Focus
Sítio Online da Publicação: BBBC News
Data: 05/04/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-56639392

terça-feira, 28 de maio de 2019

O distúrbio que pode levar pacientes a fazer coisas absurdas durante o sono


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Kelly Knipes agora dorme com uma máscara de oxigênio para respirar melhor à noite

Ela se queimou com o isqueiro que o marido usa para fumar, mas nem percebeu.

Gastou quase US$ 4 mil em compras pela internet e tomou uma overdose de medicamentos.

Grávida de seis meses, ela colocava em risco sua vida e a do bebê com esses comportamentos, que não eram conscientes.

Mãe de três filhos, Kelly Knipes, que vive no Reino Unido, sofre de um distúrbio do sono que faz parte do grupo das parassonias, transtornos caracterizados por comportamentos anormais durante o sono.

Dependendo da fase do sono em que ocorrem, podem se manifestar como sonambulismo, pesadelos ou despertar confuso.


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Kelly Knipes sofre de uma parassonia, transtorno comportamental durante o sono

No caso de Knipes, ela acordava sonâmbula no meio da noite e realizava todo tipo de atividade.

Na manhã seguinte, não se lembrava de nada.

Os médicos descobriram que ela parava de respirar várias vezes durante a noite, forçando seu cérebro a despertar parcialmente, o que provocava o sonambulismo.

"Eles acreditam que meu cérebro estava me acordando para respirar, porque eu tinha parado de respirar. Basicamente, nesse período em que meu cérebro estava tentando me acordar, eu estava fazendo minhas atividades."

Ou seja, era a forma que o corpo dela tinha de dizer que algo não estava bem.
Compras bizarras

As compras pela internet incluíam centenas de dólares em doces e latas de tinta.

"Eram coisas completamente aleatórias", explica Knipes à BBC.

Os estudos sobre sonambulismo mostram que as partes do cérebro que controlam a visão, o movimento e a emoção parecem estar despertas.

No entanto, áreas do cérebro envolvidas na memória, tomada de decisão e pensamento racional aparentam permanecer em sono profundo.


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Um cérebro que está em sono profundo se parece com a imagem à direita, mas no caso dos sonâmbulos, se assemelha à figura da esquerda, quando está acordado

São breves episódios em que a pessoa pode realizar atividades simples ou complexas, como sair da cama, ir ao banheiro, caminhar ou sair de casa, enquanto permanece inconsciente.

"Na maioria dos casos, o paciente é assintomático e não tem consciência de nada", diz Elena Urrestarazu Bolumburu, especialista do serviço de neurofisiologia da clínica da Universidade de Navarra, na Espanha.

"Muitas vezes o sono da família é mais afetado que o do próprio paciente", acrescenta.

Esses episódios deixaram Knipes exausta. Mas agora ela usa uma máscara de oxigênio à noite, para garantir que vai respirar enquanto dorme.

"Estava cansada o tempo todo, me sentia fisicamente exausta. E agora não, me sinto como uma pessoa completamente diferente."


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O sono tem um grande impacto no bem estar físico e mental, porque é restaurador

As parassonias são mais comuns na infância e na adolescência - é muito raro que continuem na idade adulta.
Devemos acordar um sonâmbulo?

Os especialistas do Instituto do Sono, com sedes em Madri, Panamá e Santiago do Chile, recomendam não despertar os sonâmbulos, apenas acompanhá-los gentilmente até a cama para que não se machuquem.

Esses episódios geralmente terminam espontaneamente, quando o paciente retorna ao leito e, portanto, ao sono normal.

Se eles acordam repentinamente, vão ficar confusos.
Existe um tratamento para o sonambulismo?

Para os especialistas da Universidade de Navarra, o tratamento se baseia principalmente em medidas preventivas.

É aconselhável instalar dispositivos de segurança no quarto, dormir em uma cama no nível do chão, de preferência no andar térreo, fechar as janelas e cobrir objetos de vidro.

Além disso, alguns remédios psiquiátricos, como diazepam ou alprazolam, ansiolíticos com efeito calmante, demonstraram ser eficazes quando tomados sob prescrição médica.




Autor: BBC News Brasil
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 28/05/2019
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-48424663

terça-feira, 3 de julho de 2018

Por que quanto menos você dorme, mais curta será sua vida


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Para chegar à velhice de maneira saudável, dizem cientistas, é preciso investir em boas noites de sono

Você provavelmente está farto de ouvir líderes políticos e empresários falarem o tempo todo que dormem muito pouco. O problema é que isso não é uma característica admirável: a falta de sono é muito prejudicial para nossos corpos e cérebro.

Matthew Walker, professor de neurociência e psicologia da Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, explica por que você deveria parar de admirar pessoas que dormem pouco. Walker é autor de Por Que Dormimos, um livro com o potencial de mudar (e estender) sua vida.

Aqui, ele explica tudo o que você deve saber sobre o sono e como desenvolver hábitos de vida mais saudáveis.
Por que dormir é importante

As descobertas da ciência até agora apontam que quanto menos tempo de sono, mais curta será a sua vida. Então, se você quer chegar à velhice de maneira saudável, deve investir em uma boa noite de sono.

De fato, dormir é tão benéfico que Walker começou a pressionar os médicos a prescreverem isso a seus pacientes.

No entanto, essa indução ao sono tem de acontecer naturalmente. Muitos estudos relacionam remédios para dormir a um aumento do risco de câncer, infecção e mortalidade.

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Nosso corpo e nossa mente não funcionam direito se a noite foi mal dormida
O que acontece com nosso corpo e nossa mente se não dormimos?

Muitas das doenças de que sofremos têm uma ligação significativa com a falta de sono - por exemplo, o mal de Alzheimer, câncer, doenças cardiovasculares, obesidade, diabetes, depressão, ansiedade e até mesmo tendências ao suicídio.

É que, durante o sono, ocorre uma espécie de "revisão" de todos os sistemas fisiológicos importantes do nosso corpo e de cada rede ou operação da mente. Se você não dorme o suficiente, essa revisão é prejudicada e seu corpo será afetado.

Após 50 anos de pesquisa científica, a questão na cabeça dos cientistas não é mais "o que o sono faz pela gente?" e sim "o que não faz o sono pela gente?".


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A vida moderna nos faz usar mais do tempo durante o dia para atividades e compensar com menos horas dormidas

Quantas horas devemos dormir para nos sentir bem?

Você deve dormir pelo menos de sete a nove horas por dia. Se dormir menos de sete horas, seu sistema imunológico e seu desempenho cognitivo começarão a ser afetados.

Depois de estar acordado 20 horas seguidas, você se sentirá tão incapacitado quanto se estivesse bêbado - tanto que um dos problemas com a privação de sono é que você não percebe de imediato o dano que ela causa.

É como um motorista bêbado em um bar que pega as chaves do carro e diz: "Estou bem, posso dirigir". Mas todo mundo ao redor sabe que ele está incapacitado para assumir a direção de um veículo.

Cada vez dormimos menos. Por quê?

Se analisamos os dados das nações industrializadas, notamos uma tendência clara: nos últimos cem anos, o tempo que dormimos diminuiu.

Se dormimos menos, é mais difícil entrar na fase REM (movimento rápido dos olhos, na sigla em inglês), o ciclo em que sonhamos. E qualquer interferência na fase REM é muito prejudicial, pois ela é crucial para a nossa criatividade e saúde mental.


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Há um estigma sobre quem dorme 8 horas ou mais, mas não com bebês, porque sabe-se que o sono é importante para eles

Existem várias razões pelas quais as pessoas dormem cada vez menos, segundo Walker:

1 - Falta de conhecimento: A comunidade científica sabe como é crucial dormir bem, mas, até agora, não foi capaz de comunicar efetivamente isso para o público em geral. A maioria das pessoas não entende por que o sono é importante.

2 - Ritmo de vida: Em geral, estamos trabalhando mais horas e passamos mais tempo indo e vindo do trabalho. Saímos de casa muito cedo e voltamos para casa tarde da noite e, naturalmente, não queremos deixar de passar tempo com a família e com os amigos. Estar com a família, sair com os amigos, assistir TV... no final, sacrificamos horas de sono.

3 - Atitudes e crenças: O sono não é bem visto pela sociedade. Se você disser a alguém que dorme nove horas, pensarão que você é preguiçoso. Então, estigmatizamos o sono, e muitas pessoas se gabam de quão pouco dormem todas as noites. Isso nem sempre foi assim. Ninguém vai chamar de preguiçoso um bebê dormindo, porque sabemos que o sono é essencial para seu desenvolvimento. Mas essa noção muda quando atingimos a idade adulta. Não apenas abandonamos a ideia de que o sono é necessário, mas também punimos as pessoas por dormir quando precisam.

4 - Falta de luz natural: Não gostamos de ficar sem luz quando escurece. Mas a escuridão é necessária para liberar um hormônio essencial que nos ajuda a dormir, chamado melatonina. Infelizmente, um dos efeitos colaterais da modernidade e seus avanços tecnológicos é que estamos constantemente sob luz artificial. Isso piorou com a chegada das telas de LED, que projetam uma poderosa luz azul que bloqueia a produção da melatonina.

5 - Temperatura: Outro efeito colateral inesperado da modernidade é não mais experimentarmos o fluxo natural de frio e calor durante o período de 24 horas. Todos queremos lares quentes, mas também precisamos de um pouco de ar fresco para dormir bem. Nosso cérebro e nosso corpo precisam reduzir essa temperatura central, aproximadamente 1°C mais baixa, para que possamos relaxar de maneira natural. A maioria de nós coloca o aquecimento em nível muito alto: se você quiser dormir bem, programe seu termostato a 18ºC à noite.


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A maior exposição das pessoas a fontes de luz artificial, como telas, atrapalham a produção do hormônio do sono

Por que não recuperamos as horas de sono perdidas

Identificados os erros, mas será que o dano pode ser revertido?

Uma das grandes mentiras é que, se você não dormiu bem, pode "recuperar o sono". Não pode. O sono não é como um banco, em que você pode acumular uma dívida e depois pagá-la.

Mas é o que muitas pessoas fazem: dormem pouco durante a semana e querem se recuperar durante o final de semana. Isso é chamado de jet lag social ou até mesmo bulimia do sono. O que você pode fazer, na verdade, é mudar seus hábitos.

Estudos mostram que pessoas que antes dormiam mal, mas mudam sua rotina e começam a dormir mais, evitam a deterioração degenerativa e o mal de Alzheimer por mais de dez anos, em comparação com pessoas que mantiveram um padrão de sono insuficiente.
Por que não podemos armazenar o sono?

Imagine quão maravilhoso seria se pudéssemos armazenar horas de sono e usá-las como gostaríamos.

Há um precedente na biologia chamado de célula adiposa. A evolução nos deu essa célula, graças à qual podemos armazenar energia em tempos de abundância que nos permite sobreviver em tempos de fome.

Então, por que não desenvolvemos um sistema semelhante para armazenar o sono?

Porque somos a única espécie que, deliberadamente, se priva do sono sem motivo aparente.
É por isso que mesmo uma única noite de sono ruim pode afetar nosso corpo e nosso cérebro.



Autor: Eva Ontiveros
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data de Publicação: 02/07/2018
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-44641057