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segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Coração, cérebro, pulmão: como a covid-19 afeta nossos órgãos vitais

 


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Principais alvos da covid-19 são o pulmão e as vias respiratórias, mas vírus tem surpreendido por seu variado ataque, do cérebro aos rins


Embora ainda haja muitas perguntas em aberto sobre o coronavírus que parou o mundo há quase um ano, cientistas conseguiram neste período correr contra o tempo e trazer muitas respostas sobre a nova doença — algumas delas surpreendentes.


Por exemplo, a de que a covid-19, descrita desde o início como uma doença respiratória, não ataca apenas os pulmões.


Conforme o coronavírus foi se espalhando pelo mundo e adoecendo mais pessoas — até aqui, infectando pelo menos 88 milhões no planeta —, médicos e pesquisadores começaram a constatar que órgãos tão diferentes como coração, cérebro e rins também podiam ser afetados, às vezes fatalmente, pelo coronavírus.


O patógeno também já causou problemas em dedo dos pés, foi detectado no testículo e ainda nas lágrimas de pacientes — mas é importante lembrar que ser encontrado em uma parte do corpo ou no ambiente não necessariamente significa adoecimento ou transmissibilidade.


Em relação aos chamados órgãos vitais, porém, a doença tem gerado incógnitas, pesquisas científicas e, em alguns casos, grande preocupação. Por isso, a BBC News Brasil procurou artigos científicos e pesquisadores brasileiros para responder o que se sabe até aqui sobre as consequências da covid-19 em cinco órgãos fundamentais para a nossa sobrevivência: pulmões, coração, rins, fígado e cérebro.

Vale lembrar que a definição de quais são os órgãos vitais é variada, mas de acordo com os entrevistados, estes cinco estão mais perto de um consenso de serem fundamentais para a continuidade da vida e insubstituíveis, considerando as intervenções médicas existentes.

1. Pulmões



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Falta de ar é sinal de que pulmão foi afetado, explica pesquisadora


Apesar de afetar outras partes do corpo, ainda são "as vias respiratórias e os pulmões" os principais alvos da covid-19, lembra a pesquisadora Marisa Dolhnikoff, professora associada da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e coordenadora dos Estudos em Autópsia da Covid-19 no Hospital das Clínicas da faculdade.


Tudo começa quando uma pessoa sadia entra em contato com gotículas do vírus, como através da tosse ou espirro de alguém infectado, ou ainda por meio do contato com uma superfície contaminada com essas partículas. A partir daí, o vírus começa a "hackear" as células das vias respiratórias (canais que conduzem o ar aos pulmões, como o nariz e a traqueia) e dos pulmões, transformando-as em fábricas de coronavírus que se espalham por mais células.


Tosse, coriza e espirros podem surgir por conta do ataque às vias respiratórias. Esses sintomas também podem ser reflexo do acometimento dos pulmões — mas, segundo Dolhnikoff, o sinal mais claro de que este órgão vital foi afetado é a falta de ar.


Um estudo publicado em junho na revista científica Lancet, com dados de 257 pacientes em Nova York (EUA), mostrou que a falta de ar foi o sintoma mais frequente na entrada no hospital, registrado em 74% dos infectados, seguido por febre (71%) e tosse (66%).


Ainda segundo a pesquisadora da USP, um outro sinal importante vem das tomografias — quando elas mostram mais de 50% da área dos pulmões acometida pelo coronavírus, este é um indicador de gravidade e de insuficiência respiratória, que demanda suporte como a ventilação mecânica. Ambos pulmões costumam ser afetados juntos.



CRÉDITO,COURTESY OF HAVELHOEHE COMMUNITY HOSPITAL/HANDOUT
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Raio X mostra pulmões de idosa de 84 anos, internada em hospital de Berlim, comprometidos pela covid-19


Tanto nas vias respiratórias quanto nos pulmões, o coronavírus encontra um facilitador — células contendo receptores da proteína ECA-2, uma espécie de chave que permite o início da infecção.


"Nos casos mais graves, há também infecção dos alvéolos, estruturas responsáveis pela troca gasosa nos pulmões — a captação de O2 do ar para o sangue, e liberação de CO2", explicou por e-mail à BBC News Brasil a pesquisadora.


É por isso que os pulmões são vitais — eles nos dão, literalmente, o ar que respiramos. O órgão absorve o oxigênio externo e o distribui para todo o corpo através do sangue e, na via contrária, recolhe o gás carbônico dispensado após vários processos dentro do corpo.


"Quando infectadas, as células dos alvéolos sofrem alterações importantes que levam à sua morte, desencadeando um processo de inflamação e edema pulmonar (excesso de líquido) que impedem as trocas gasosas, culminando com a insuficiência respiratória", completa Dolhnikoff, cuja equipe no Hospital das Clínicas está realizando desde o início da pandemia um método inovador de autópsias minimamente invasivas, de forma a evitar o contágio no contato com corpos, para fins de pesquisa.



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Trocas gasosas acontecem nos alvéolos — que podem ser infetados pelo coronavírus


Além da infecção das células das vias respiratórias e dos alvéolos, em uma segunda frente, os vasos sanguíneos também são atacados. Isso leva ao aumento da coagulação e à formação de trombos (conjunto de sangue coagulado), que dificultam a passagem de sangue nos alvéolos. Com isso, as trocas gasosas são mais uma vez comprometidas.


Ainda no início da pandemia, em abril, a equipe que está trabalhando com autópsias na USP publicou no periódico científico Journal of Thrombosis and Haemostasis os resultados destas análises em dez pacientes, demonstrando alvéolos amplamente danificados e pequenos trombos no pulmão — cuja formação devido à covid-19 era pouco conhecida naquele momento.


Quando o quadro pulmonar é muito grave, incluindo um conjunto de indicadores como a insuficiência respiratória e a inflamação sistêmica, ele pode configurar a síndrome do desconforto respiratório aguda (ARDS, na sigla em inglês).

2. Coração



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Nos quadros mais graves, é frequente que o coração seja afetado — podendo levar a óbito


Se os pulmões realizam as trocas gasosas, é o coração que bombeia o sangue com oxigênio para o corpo e que volta para os pulmões com sangue repleto de gás carbônico.


E, nos quadros mais graves, este órgão muscular e vital é significativamente afetado — podendo levar a óbito.


Um estudo de referência, publicado em fevereiro de 2020 com dados de 138 pacientes hospitalizados em Wuhan, mostrou que 16,7% deles desenvolveram arritmia e 7,2% lesão cardíaca aguda — ou seja, dois problemas de saúde atingindo o coração. Aqueles que precisaram ir para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) apresentaram estes quadros com mais frequência.


"Na covid-19, o coração pode ser atingido em até 40% dos casos graves", aponta Marisa Dolhnikoff, acrescentando outras consequências da covid-19 no coração como a miocardite (inflamação no coração), tromboses arteriais e infarto do miocárdio.


"Pessoas com comorbidades — diabetes, hipertensão, obesidade e cardiopatias prévias — têm maior risco de manifestação cardíaca na covid-19."


Estudos de várias partes do mundo mostram problemas no coração como uma das comorbidades mais comuns entre pacientes graves infectados — um boletim do Ministério da Saúde de dezembro revelou que, no Brasil, as cardiopatias (doenças no coração) foram o fator de risco mais frequente entre pessoas que morreram por covid-19 no país, seguidas por diabetes.


Dolhnikoff explica que as células cardíacas também têm receptores da proteína ECA-2, ativadas no ataque direto do vírus ao órgão.


Mas o órgão pode ser afetado também pela inflamação sistêmica, reação exagerada do corpo que leva a diversas alterações prejudiciais como a baixa de oxigênio e à chamada tempestade de citocinas — substâncias agressivas que o sistema imunológico libera para atacar um invasor, mas que, em excesso, podem acabar atacando partes vitais para nossa sobrevivência, como o coração.


A partir da autópsia e de exames referentes ao caso de uma menina de 11 anos que perdeu a vida para a covid-19, Dolhnikoff e sua equipe conseguiram demonstrar o ataque do vírus a diversas células do coração, nas quais foram encontradas partículas do vírus. A resposta inflamatória agravou o problema, levando à falência cardíaca e morte.


O pulmão da criança também foi afetado, mas os cientistas identificaram o coração como o órgão mais comprometido pelo vírus.


Os resultados foram publicados no periódico internacional Lancet Child & Adolescent Health.

3. Rins



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Rins sofrem juntos e 'silenciosamente', explica nefrologista


Assim como acontece com o coração, quando os rins são afetados pela covid-19, o nível de alerta é aumentado.


"A lesão renal é incremental, compõe o quadro de um doente mais complexo. São doentes muito graves. Quando a doença é avassaladora, ela é avassaladora", resume o nefrologista José Suassuna, chefe do Setor de Nefrologia do Hospital Pedro Ernesto, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Hupe/Uerj).


Os rins são vitais por regularem a concentração de água no sangue e por eliminarem detritos tóxicos do corpo.


No artigo publicado no periódico Lancet envolvendo 257 pacientes em Nova York, 31% desenvolveram lesões agudas neste órgão e precisaram das chamadas terapias de substituição renal, que incluem intervenções como a hemodiálise — este procedimento, em linhas gerais, substitui o órgão no trabalho de filtrar o sangue.


Neste grupo nos Estados Unidos, 14% já tinham alguma doença crônica afetando os rins antes da covid-19.


"Grupos de risco como obesos, diabéticos, pessoas com doenças cardiovasculares e idosos muitas vezes já têm algum grau de comprometimento renal — então, quando infectados pelo coronavírus, não partem do 0. Eles já estão na metade do caminho e caminham mais rapidamente para a insuficiência renal aguda e para a necessidade de suporte", explica Suassuna, destacando porém que há casos em que o paciente não tem fatores de risco mas tem os rins comprometidos.



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Casos de lesão aguda nos rins comumente levam à necesidade de intervenções como a hemodiálise, que substitui o órgão na filtragem do sangue


De acordo com o nefrologista, os rins também têm receptores ECA-2, mas as evidências até agora indicam que possivelmente não é este ataque direto do vírus ao órgão o principal motivo de acometimento dos rins.


Mais uma vez, a inflamação exacerbada do corpo ao coronavírus parece ter um papel importante.


Uma evidência disso é a conexão entre os pulmões e o rins, a chamada cross talk entre os órgãos.


"É uma ligação cruzada, a situação em que o acometimento de um órgão determina o de outro. Na covid-19, isso tem se mostrando entre rins e pulmões, assim como pulmões e coração. O envolvimento pulmonar mais grave se associa a um risco muito maior para os rins. Há uma associação grande entre entubar e a insuficiência renal", aponta Suassuna, explicando que quando há esta insuficiência nos rins, o paciente deixa de urinar, precisando de suporte.


Além disso, outra explicação para o acometimento simultâneo de vários órgãos na fase mais avançada da infecção é a baixa oxigenação.


"A covid-19 nos deixa com uma oxigenação como se estivéssemos subindo o Himalaia, mesmo estando a nível do mar. Uma parte funcional do rim, que ajuda a produzir a urina, já vive como se estivesse no Everest — no que a gente chama de hipoxia, uma oxigenação muito baixa", diz o médico, também professor da UERJ.


"O rim é um órgão muito sensível às quedas de oxigenação prolongadas porque já vive na beira do precipício. E à piora da oxigenação se soma a tempestade de citocinas, um mecanismo importante da disseminação do dano da covid do pulmão para o resto do corpo."

Covid-19: o que muda (ou não) no combate à pandemia com a nova variante do coronavírus no Brasil
Mortes por covid-19 no Brasil estão 50% acima do que apontam dados oficiais, calculam especialistas


Apesar de seu adoecimento ser um indicador de gravidade, os rins também podem ser afetados em casos mais leves, explica Suassuna. Entretanto, talvez isso nunca se manifeste em sintomas, mas apenas exames específicos de urina e de alteração da função renal.


"Os rins, em qualquer doença, sofrem em silêncio — e covid-19 não é uma exceção", explica Suassuna, acrescentando que esse órgão é afetado bilateralmente, ou seja, adoece tanto do lado esquerdo quando direito.


"Não tem grande manifestação de sintomas, a maior parte dos sinais só aparece no laboratório. Temos pacientes iniciando diálise que não sentem nada, apenas quando já têm menos 10% da função renal. De repente, param de urinar."

4. Fígado



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Fígado 'não é comumente nem intensamente comprometido, como ocorre com outros órgãos, como os pulmões, o coração e os rins', explica o hepatologista Edmundo Lopes


Exames também já detectaram, em alguns pacientes, alterações no fígado — que tem entre suas funções eliminar toxinas do corpo, regular o açúcar no sangue e ajudar na digestão de gorduras.


Entretanto, diferente de outros órgãos, tais alterações não necessariamente significam o adoecimento do órgão.


"As enzimas hepáticas (substâncias produzidas pelo órgão) estão elevadas em cerca de 15 a 60% dos casos de COVID-19, o que sugere acometimento do fígado. Porém, estas alterações das enzimas em geral não provocam sintomas", explica o hepatologista Edmundo Lopes, médico do Hospital das Clínicas e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).


"Apesar destes distintos mecanismos de agressão ao fígado durante a covid-19, ele não é comumente nem intensamente comprometido, como ocorre com outros órgãos, como os pulmões, o coração e os rins", diz. "As explicações para esta 'menor' agressão ao fígado ainda não estão bem elucidadas."


Os distintos mecanismos de agressão mencionados por Lopes passam, mais uma vez, pelos efeitos da inflamatória sistêmica no corpo e também, no caso desse órgão responsável por lidar com substâncias potencialmente tóxicas, por eventuais danos provocados pelos medicamentos usados contra a covid-19.


A ação direta do vírus sobre o órgão também é uma possibilidade, até porque as células hepáticas chamadas de colangiócitos têm receptores ECA-2. Entretanto, segundo o professor da UFPE, essa via direta "nunca foi muito bem demonstrada" na ciência.


"As evidências sugerem que o processo inflamatório (tempestade de citocinas) parece ter um papel relevante na agressão ao fígado, já que os pacientes mais graves e que apresentam maiores indícios de atividade inflamatória nos exames laboratoriais são os que apresentam mais frequentemente e mais intensamente alterações das enzimas hepática", escreveu o hepatologista por e-mail à BBC News Brasil.

5. Cérebro



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Covid-19 leve tem deixado efeitos neurológicos como maior ansiedade e cansaço e, nos casos graves, derrame e convulsões


Se tem um órgão que os entrevistados dizem estar rodeado de incógnitas sobre seu acometimento pela covid-19, é o cérebro.


Fato é que diversos estudos e relatos de casos já mostraram que ele pode ser afetado, dos quadros leves aos graves.


A pesquisadora Clarissa Yasuda, médica e professora do departamento de neurologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que o diga: ela mesma teve covid-19 em agosto e conta ainda sentir consequências relacionadas ao cérebro, como sono, fadiga e alterações na memória.


Ela e colegas publicaram em outubro um estudo em estágio pré-print (sem a chamada revisão dos pares, etapa padrão em que outros especialistas analisam um estudo e decidem se ele será publicado ou não em uma revista científica) com dados sobre 81 pessoas que tiveram covid-19 leve e se recuperaram.


Esses voluntários foram submetidos a exames de ressonância magnética, que detectaram alterações no córtex, a parte mais externa do cérebro e fundamental para processos envolvendo a memória, linguagem, entre outros.


Questionários e testes cognitivos também mostraram que, em média 60 dias após o diagnóstico da covid-19, os pacientes ainda apresentavam dor de cabeça (40%), fadiga (40%), alteração de memória (30%), ansiedade (28%), depressão (20%), perda de olfato (28%) e paladar (16%), entre outros.


Aliás, Yasuda lembra que a perda destes sentidos é considerada pelos especialistas um sintoma neurológico — precisamos do cérebro para sentir gostos e cheiros.


"Acho que não estava na conta de ninguém imaginar que pessoas que não foram internadas, que seriam quadros 'leves', pudessem ficar com uma gama de alterações neurológicas incapacitantes, como observamos não só aqui mas no mundo inteiro", diz a neurologista, fazendo a ressalva de que o grupo de voluntários estudados foi formado por pessoas que já estavam relatando sintomas neurológicos, então há uma inclinação de que estes sejam mais frequentemente registrados do que se o estudo envolvesse uma população mais ampla.


"Além desses casos leves (que estão mostrando consequências prolongadas), há o grupo de alterações neurológicas por covid-19 que surgem na fase aguda e que podem ser bem graves — como derrame, encefalite, convulsão e redução do nível de consciência. Em alguns casos, os derrames aumentam a chance de AVC (acidente vascular cerebral). Nâo sabemos se estes efeitos serão transitórios ou se deixarão sequelas."


Parte da equipe que está trabalhando com autópsias no Hospital das Clínicas da FMUSP, o médico Amaro Nunes Duarte Neto relata que uma alteração muito comum observada nos cérebros de pessoas que morreram após a infecção pelo coronavírus é a lesão dos neurônios.


"São lesões cerebrais decorrentes da hipóxia (oxigenação diminuída) pelo acometimento pulmonar grave na covid-19, não atribuídas diretamente ao vírus", explicou por e-mail o pesquisador.



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Distúrbios na circulação do sangue pelo corpo explicam em parte adoecimento por covid-19


Isto porque, como em outros órgãos, os efeitos da covid-19 não necessariamente ocorrem devido ao ataque direto do coronavírus, mas sim pelas consequências da resposta inflamatória do corpo e de alterações na circulação do sangue, entre outros.


Por exemplo, Duarte Neto relata também a observação, nas autópsias, de microsangramentos nos vasos que irrigam o órgão, além da hipertrofia dos astrócitos — células em torno dos vasos cerebrais e que dão suporte fundamental para os neurônios.


Na publicação em pré-print da qual Yasuda foi uma das autoras, a equipe demonstrou que os astrócitos foram o principal alvo do coronavírus no cérebro. Isto também a partir de 26 autópsias minimamente invasivas, realizadas por pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP.


Mesmo que nem todo efeito neurológico do coronavírus seja atribuído ao seu ataque direto, os pesquisadores entrevistados dizem que há sinais de que o patógeno chega até o cérebro através do nariz, pelo mesmo caminho que um aroma "faz" para chegar até lá.


Ainda assim, "o conhecimento sobre o mecanismo de lesão do vírus Sars-CoV-2 no sistema nervoso central ainda é pouco esclarecido", diz o pesquisador da USP.


A professora Clarissa Yasuda concorda.


"É muita coisa que a gente não sabe, muita coisa para ser estudada: o quanto desses quadros neurológicos tem um componente inflamatório, o quanto é autoimune, o quanto é um ataque direto do vírus. Ninguém tem uma resposta, mas acho que é uma combinação disso tudo."




Autor: Alvim - @marianaalvim Da BBC News Brasil em São Paulo
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 09/01/21
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-55596688

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Do nariz para o pulmão: pesquisa esclarece mecanismos associados à pneumonia


Streptococcus pneumoniae, conhecido como pneumococo, uma das bactérias causadoras de pneumonia – Imagem: Wikimedia Commons

Um grupo de cientistas integrado por profissionais da USP e de centros de pesquisa do Reino Unido e da Holanda deu um importante passo para entender uma doença que mata 1,6 milhão de pessoas por ano no mundo: a pneumonia. Estudo publicado no periódico Nature Immunology elucida processo envolvido na proliferação e no transporte do pneumococo (uma das bactérias que causam a doença) do nariz para o pulmão do paciente. Além disso, o trabalho mostra que a inflamação causada pela gripe prejudica os mecanismos de defesa contra o pneumococo.

Segundo a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, três em cada dez casos de pneumonia são fruto da ação dessa bactéria. Estima-se que 40% a 95% das crianças e 10% a 25% dos adultos sejam colonizados naturalmente pelo pneumococo, que se aloja na nasofaringe, região do sistema respiratório localizada atrás do nariz e acima do palato mole (parte de trás do céu da boca).

Grande parte dos casos de pneumonia ocorre após uma gripe, principalmente entre idosos e crianças, que têm uma imunidade menor em relação às outras pessoas. “Muita gente morre não por causa da gripe em si, mas da pneumonia que vem depois. Se a imunidade já está comprometida e ocorre uma gripe, ela diminui ainda mais e essa colonização pelo pneumococo se transforma em pneumonia, o que acaba matando o indivíduo”, explica um dos autores do estudo, Helder Nakaya. Ele é docente da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP e pesquisador do Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (Cepid CRID), sediado em Ribeirão Preto.
Pesquisa clínica

Estudos epidemiológicos e experimentos em animais já indicavam um papel importante do vírus da gripe na vulnerabilidade à pneumonia, mas ainda não havia um estudo detalhado feito em humanos, pois esse tipo de infecção é bastante rápido. Por isso, os pesquisadores recrutaram 117 voluntários no Royal Liverpool University Hospital e criaram um modelo novo para estudo.

Para que o sistema imunológico dos voluntários pudesse desenvolver os efeitos de uma gripe, eles receberam a vacina feita com vírus atenuado, que, mesmo estando vivo, não consegue causar a doença. O ensaio clínico foi feito utilizando-se a metodologia duplo-cego, quando nem os médicos que o aplicam e nem os voluntários sabem se a substância que estão usando é a vacina ou um placebo. “O vírus é atenuado porque só consegue se reproduzir bem em temperaturas baixas, o que está associado com a mucosa nasal. Portanto, ele não consegue se espalhar pelo corpo, ficando restrito ao nariz”, diz Nakaya.

Após três dias, todos os voluntários foram infectados com pneumococos. Porém, segundo Nakaya, apesar de receberem a bactéria, apenas uma parte deles desenvolvia a colonização. Ao final, os voluntários foram divididos nos seguintes grupos: vacinados, não vacinados, colonizados e não colonizados. Nos quatro grupos, os pesquisadores coletaram o líquido resultante da lavagem do nariz com soro fisiológico. Dessas amostras, foram extraídas células, citocinas (moléculas marcadoras de inflamação) e RNA para análise.

“Embora as evidências epidemiológicas já mostrassem que a gripe interfere no desenvolvimento da pneumonia, faltava saber os genes afetados, as vias, as citocinas e os tipos de células envolvidos na infecção de gripe que vem antes da infecção pela bactéria. Como tínhamos um modelo em que sabíamos exatamente quando a pessoa foi infectada pelo vírus e pela bactéria, foi possível estudar tudo de uma forma simétrica”, conta o pesquisador.
Bioinformática

As análises geraram uma quantidade muito grande de dados, por isso a bioinformática teve um papel fundamental no estudo. Por meio de uma ferramenta inédita desenvolvida pela equipe de Nakaya chamada CEMiTool, ou, em português, Ferramenta de Identificação de Módulos de Co-expressão, os pesquisadores observaram, por exemplo, a atividade da citocina CXCL10, também conhecida como IP10, que pode ser um marcador para identificar alta suscetibilidade ao pneumococo e até mesmo um alvo terapêutico para infecções bacterianas associadas a infecções virais. Em estudos anteriores do grupo, crianças com pneumonia e coinfecções virais ou bacterianas (predominantemente pneumocócicas) apresentaram altas concentrações de CXCL10 quando comparadas a crianças apenas com pneumonia bacteriana ou viral.

“Ela é uma peça-chave na promoção da infecção viral e está relacionada até mesmo com os níveis de pneumococos na cavidade nasal. A partir da observação dessa citocina, descrevemos várias vias envolvidas na infecção e na colonização. Entender o comportamento dos genes responsáveis pela expressão dessa citocina ajuda a entender melhor o que está acontecendo e a complexidade da resposta imune”, explica.

De acordo com o pesquisador, os resultados obtidos neste trabalho serão importantes para desenvolver terapias específicas e assim evitar que a pneumonia leve à morte. “O que acontece é que geralmente o tratamento é feito quando a pneumonia já está acontecendo. Este trabalho está olhando para um momento anterior, para entender por que isso se torna uma pneumonia. Saber as citocinas e os tipos celulares envolvidos na infecção secundária por pneumococos vai ajudar a pensar novas opções de terapêuticas e até de vacinação”, diz Nakaya.

O artigo Inflammation induced by influenza virus impairs human innate immune control of pneumococcus tem autoria de Simon P. Jochems, Fernando Marcon, Beatriz F. Carniel, Mark Holloway, Elena Mitsi, Emma Smith, Jenna F. Gritzfeld, Carla Solórzano, Jesús Reiné, Sherin Pojar, Elissavet Nikolaou, Esther L. German, Angie Hyder-Wright, Helen Hill, Caz Hales, Wouter A.A de Steenhuijsen Piters, Debby Bogaert, Hugh Adler, Seher Zaidi, Victoria Connor, Jamie Rylance, Helder I. Nakaya e Daniela M. Ferreira.





Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 30/10/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-da-saude/do-nariz-para-o-pulmao-pesquisa-esclarece-mecanismos-associados-a-pneumonia/

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Pulmão em um chip é nova esperança contra fibrose pulmonar


O chip pulmonar usa vários conjuntos de sacos alveolares cultivados em laboratório que permitem acompanhar os efeitos da fibrose.

[Imagem: Mohammadnabi Asmani et al. - 10.1038/s41467-018-04336-z]


Pulmão em um chip

O desenvolvimento de novos medicamentos para o tratamento da fibrose pulmonar, uma das formas mais comuns e mais graves de doença pulmonar, não é fácil.

Um dos motivos é que é difícil imitar como a doença danifica e cicatriza o tecido pulmonar ao longo do tempo, muitas vezes forçando os cientistas a empregar uma miscelânea de técnicas demoradas e caras para avaliar a eficácia de possíveis tratamentos.

Agora, a equipe do professor Ruogang Zhao, da Universidade de Buffalo (EUA), está viabilizando uma alternativa: A tecnologia do pulmão em um chip, que cria um micropulmão artificial usando a mesma técnica usada para fabricar os chips eletrônicos - essa tecnologia é chamada microfluídica.

A diferença em relação aos chips eletrônicos é que, em vez de usar apenas materiais semicondutores, os pesquisadores recobrem os microcanais das pastilhas de óxido de silício com camadas finas e flexíveis de células pulmonares cultivadas em laboratório. O ar é bombeado pelos canais, simulando a inspiração e a expiração.

"Obviamente não é um pulmão inteiro, mas a tecnologia pode imitar os efeitos prejudiciais da fibrose pulmonar. Em última análise, pode mudar a forma como testamos novos medicamentos, tornando o processo mais rápido e mais barato," disse Zhao.

Remédios para fibrose pulmonar

Até o momento, existem apenas dois medicamentos - pirfenidona e nintedanibe - aprovados para a fibrose pulmonar pela autoridade de saúde dos EUA (FDA). No Brasil, a Anvisa aprovou o nintedanibe apenas em 2015.

E esses medicamentos ajudam apenas a retardar o progresso de um dos tipos de fibrose pulmonar: a fibrose pulmonar idiopática. Existem mais de 200 tipos de fibrose pulmonar, e a fibrose também pode afetar outros órgãos vitais, como coração, fígado e rim.

Os pesquisadores testaram a eficácia do sistema tanto com a pirfenidona quanto com o nintedanibe. Embora cada droga funcione de maneira diferente, o chip pulmonar revelou resultados positivos para ambas, sugerindo que a tecnologia microfluídica pode ser usada para testar uma variedade de tratamentos potenciais para a fibrose pulmonar.


A expectativa é que a ferramenta seja rapidamente usada pelos pesquisadores que trabalham com o desenvolvimento de novos tratamentos para essas condições.






Autor: Diário de Saúde
Fonte: Diário de Saúde
Sítio Online da Publicação: Diário de Saúde
Data de Publicação: 06/06/2018
Publicação Original: http://www.diariodasaude.com.br/news.php?article=pulmao-chip-nova-esperanca-contra-fibrose-pulmonar&id=12823&nl=nlds

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Medicamento para o câncer de pulmão duplica sobrevida de pacientes, diz estudo



Droga usa estratégia de ensinar anticorpos a combater o tumor; expectativa de vida foi em média 4 meses superior (Foto: Eric D. Smith, Dana-Farber Cancer Institute/Divulgação)


Um medicamento que utiliza o próprio sistema imunológico para combater o câncer, o pembrolizumabe, dobrou a expectativa de vida de pacientes com um tipo específico de câncer de pulmão: o NSNSCLC. Esse tipo de tumor não apresenta alterações genéticas no gene EGFR ou ALK e responde por cerca de 55% dos cânceres de pulmão.


A nova droga foi combinada com quimioterapia e o estudo com os resultados foi publicado nesta segunda-feira (16) no "New England Journal of Medicine". A pesquisa foi coordenada por Leena Gandhi, diretora do programa de oncologia torácica da New York School of Medicine, e patrocinado pela indústria farmacêutica Merck.


Para chegar aos resultados do estudo, pesquisadores distribuíram aleatoriamente 616 pacientes com NSNSCLC. Eles não haviam recebido tratamento anterior. Parte dos participantes (405) recebeu quimioterapia + pembrolizumabe; a outra parte (202) recebeu quimioterapia + placebo.


Eventualmente, como o medicamento passou a apresentar benefícios, participantes do grupo placebo que tiveram avanço da doença passaram a receber o medicamento.


De modo geral, as taxas de sobrevida foram superiores nos pacientes tratados com pembrolizumabe. Esses pacientes também tiveram mais tempo de sobrevida em que ficou constatado que a doença não avançou.


Ainda, dos pacientes tratados com pembrolizumabe + quimioterapia, o risco de morte foi reduzido em 51%, em comparação com aqueles tratados apenas com a quimio. Também entre os pacientes tratados com a terapia combinada, a chance de progressão em 48%.


Em relação aos meses vividos, pacientes do tratamento viveram em média quatro meses a mais que os pacientes do grupo placebo. Foram 8.8 meses, contra 4.4.



"Em outras palavras, a chance de sobrevida global dobrou", disse nota sobre o estudo.



"Os dados mostram que o tratamento com pembrolizumabe e quimioterapia é mais eficaz do que a quimioterapia sozinha", diz Gandhi, em nota.




Risco de lesão nos rins



Os cientistas observaram, no entanto, que o risco de lesão renal aguda foi levemente aumentado em pacientes que estavam recebendo a droga e quimioterapia (5,2% contra 0,5%).


De modo geral, os efeitos colaterais mais comuns experimentados por ambos os grupos foram náusea, anemia e fadiga.

O medicamento já é aprovado nos EUA para o tratamento do câncer de pulmão, com base em estudo anterior, de fase II, feito com menos pacientes. Pesquisadores apontam que a nova terapia se consolida como um novo padrão de tratamento nesses pacientes que não apresentam as alterações genéticas EGFR ou ALK.



Autor: G1 Globo
Fonte: G1 Globo
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 16/04/2018
Publicação Original: https://g1.globo.com/bemestar/noticia/medicamento-para-o-cancer-de-pulmao-duplica-sobrevida-dos-pacientes-diz-estudo.ghtml

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Droga usada no câncer de pulmão mostra bons resultados em tumores da mama



Imagem mostra células do câncer de mama antes do tratamento com a droga-alvo no câncer de pulmão. As estruturas em vermelho indicam células do câncer criadas por um defeito na enzima E-Cadherin (Foto: ICR/Reprodução)

Um tipo de câncer de mama causado especificamente por um defeito genético pode ser tratado com medicamento do câncer de pulmão, mostra estudo financiado pelo sistema de saúde pública do Reino Unido e publicado no "Cancer Discovery" nesta segunda-feira (2).

A estratégia de usar medicamentos já aprovados é particularmente interessante porque assim é possível acelerar a aprovação da droga para a nova condição.

O medicamento já usado para o câncer de pulmão é o crizotinibe, que atua em pacientes que apresentam a alteração genética ALK. Nessa alteração, o gene ALK se funde com o gene EML4 e produz uma enzima que favorece o crescimento de células cancerosas.

O crizotinibe impede a produção dessa enzima que provoca o câncer. A droga foi aprovada no Brasil para o câncer de pulmão em 2016.

Já no câncer de mama, o que pesquisadores britânicos identificaram que o crizotinibe pode inibir alguns tipos de câncer de mama lobulares -- tumor que começa nas glândulas produtoras de leite.

Alguns desses cânceres apresentam um defeito numa proteína, a E-cadherin. Normalmente, essa substância ajuda as células a se manterem juntas. Quando há um defeito nessa enzima, no entanto, as células passam a crescer desordenadamente.

A literatura médica aponta que esse defeito atinge aproximadamente 13% dos cânceres de mama e 90% dos cânceres do tipo lobular. Pesquisadores estimam que, no Reino Unido, 7.150 mulheres são dianosticadas com esse tipo de alteração anualmente.



Imagem mostra células do câncer de mama depois do tratamento com a droga-alvo no câncer de pulmão. As estruturas em vermelho, que indicam as células defeituosas, diminuíram (Foto: ICR/Reprodução)


Pesquisadores testaram outras 80 substâncias


Na busca de uma droga capaz de inibir esse câncer, pesquisadores testaram outras 80 moléculas. O objetivo dos cientistas era controlar dois genes chaves usados pelas células cancerosas precisam para sobreviver.

No fim, eles observaram que o crizotinibe foi a substância que mais ajudou a controlar esses genes - principalmente o responsável pelo defeito na E-cadherin. O crizotinibe matou as células cancerosas criadas pela enzima e manteve as células saudáveis praticamente intactas.

Os cientistas também acreditam que a droga pode ajudar no tratamento de cânceres de mama resistentes à terapia hormonal. Depois da resistência ao tratamento com hormônios, um dos únicos tratamentos disponíveis para o câncer é a quimioterapia.

Depois da descoberta, a substância será testada em pacientes com estágio avançado do câncer de mama lobular. No total, a pesquisa receberá o financiamento de 750 mil libras.


Autor: G1 Globo
Fonte: G1 Globo
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 02/04/2018
Publicação Original: https://g1.globo.com/bemestar/noticia/droga-usada-no-cancer-de-pulmao-mostra-bons-resultados-em-tumores-da-mama.ghtml

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Presença de árvores reduz casos de câncer de pulmão em



Árvores diminuem a quantidade de material particulado no ar pois agem como filtros de captação e absorção – Foto: Marcos Santos/USP Imagens


Pesquisas feitas no exterior já têm mostrado como as árvores urbanas afetam a qualidade do ar. Um estudo da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, por exemplo, concluiu que prédios cobertos por plantas poderiam diminuir em até 30% a poluição de uma cidade.

Agora a bióloga Bruna Lara de Arantes mostra, em seu mestrado, defendido na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, a relação entre arborização, material particulado e casos de câncer de pulmão em idosos na cidade de São Paulo.

O estudo aponta que a presença de árvores diminui a quantidade de material particulado no ar. Em consequência disso, foi observada também uma redução nos casos de doenças respiratórias.

Para chegar a esse resultado, a pesquisadora cruzou dados da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) e da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), através de um convênio firmado com a professora Thaís Mauad e a médica Tiana Lopes.




Regiões mais centrais da cidade são mais ocupadas por construções, enquanto que regiões mais afastadas têm mais árvores – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

“Basicamente nós escolhemos as estações de monitoramento do ar da Cetesb que estavam medindo material particulado em 2010”, explica Bruna. “O material particulado é um dos poluentes que mais afetam a respiração humana e também um dos mais absorvidos pelas plantas. Isso acontece porque ele tem um tamanho microscópico, de 10 microgramas por centímetro cúbico (µg/cm³), o que permite que ele passe pela nossa respiração sem ser filtrado.”

Além dos dados coletados pela Cetesb, Bruna passou a analisar como o entorno das estações de monitoramento é ocupado. Verificou se havia mais asfalto, construções, árvores ou gramado, identificando as espécies de plantas que habitam um raio de 100 metros da estação.

Em seguida, Bruna usou programas estatísticos para observar como as mortes por câncer de pulmão em idosos estavam distribuídas pela cidade e se tinham alguma relação com os dados atmosféricos encontrados pela Cetesb.
Mortes pela poluição

“Os dados apontam que a forma como você ocupa o solo na cidade influencia em 17% os casos de morte por câncer de pulmão em idosos”, afirma Bruna. Outros fatores de risco que devem ser considerados são a genética e o estilo de vida dos idosos.

O estudo também encontrou uma relação entre a ocupação da cidade por relvado ou asfalto e a região no município. Regiões mais centrais são mais ocupadas por construções, enquanto que regiões mais afastadas têm mais árvores. “Esse padrão já era observado na literatura da área, mas não havia dados quantitativos como os desta pesquisa”, ressalta.



O material particulado é um dos poluentes que mais afetam a respiração humana e também um dos mais absorvidos pelas plantas – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Com os dados, foi possível concluir também que quanto mais afastado do centro da cidade e quanto maior for a quantidade de plantas no local, menos casos de câncer de pulmão são encontrados. “A saúde dessa população é favorecida”, pontua Bruna.

Ainda sim, a pesquisadora lembra que, pelo caráter exploratório da pesquisa, são necessários novos estudos sobre o assunto para afirmações mais concretas.

Segundo uma pesquisa publicada pela revista The Lancet, a poluição do ar foi responsável por mais de 70 mil mortes no Brasil.
Soluções

Além da importância acadêmica, o estudo também é de interesse da gestão pública. “Esses dados nos trazem evidências que, ao aumentar as áreas urbanas de gramados e árvores, há uma diminuição significativa da poluição do ar por material particulado”, defende a pesquisadora.



O estudo encontrou uma relação entre a ocupação da cidade por relvado ou asfalto e a região no município – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Segundo o estudo, o aumento de 1% de gramado na cidade é capaz de diminuir 0.45 μg/cm³ de material particulado. Já o aumento de um metro quadrado de copa de árvore reduz 0.29 μg/cm³.

“A ação dos gramados está relacionada à possibilidade de maior circulação do ar, levando em conta que essas partículas são muito leves e facilmente dispersas”, explica. “Já as árvores agem como filtros de captação e absorção.”

A bióloga ainda destaca que regiões com muitas construções verticais ou bosques fechados podem ter pouca ventilação. Nesse caso, é interessante a substituição de prédios inutilizados pela construção de áreas de gramado, como parques, jardins e canteiros.




Autora: Jornal USP
Fonte: Jornal USP
Sítio Online da Publicação: Jornal USP
Data de Publicação: 27/11/2017
Publicação Original: http://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-ambientais/presenca-de-arvores-reduz-casos-de-cancer-de-pulmao-em-idosos/