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quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Apenas nove estados brasileiros monitoram a qualidade do ar

Qualidade do Ar – “Abaixa cobertura de estações de monitoramento significa que na maior parte do país a população não sabe o ar que está respirando”

Por Isis R. Nóbile Diniz



Dos 27 estados do Brasil, apenas nove realizam o monitoramento da qualidade do ar. São eles Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Goiás e Distrito Federal.

Embora o estado com melhor cobertura do monitoramento seja São Paulo, em geral, a cobertura da rede é insuficiente no país, sendo mais crítica nas regiões Nordeste e Centro-Oeste; e no Norte, onde não há nenhum monitoramento. Atualmente sete poluentes são regulados no Brasil por seus reconhecidos danos à saúde: partículas totais em suspensão (PTS), partículas inaláveis (MP10), fumaça, dióxido de enxofre (SO2), dióxido de nitrogênio (NO2), monóxido de carbono (CO) e ozônio (O3). Sendo que o material particulado fino (MP2,5) e o ozônio são os poluentes cujo o controle das concentrações é mais desafiador. Esses poluentes são pouco acompanhados, apesar de seus impactos à saúde, o MP2,5 é monitorado em apenas quatro estados e o ozônio, em sete.

Esses e outros dados sobre a poluição do ar no Brasil estão compilados na nova versão da Plataforma Nacional de Qualidade do Ar (http://qualidadedoar.org.br/) desenvolvida e lançada dia 14 de novembro pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (http://www.energiaeambiente.org.br/), organização sem fins lucrativos que produz dados técnicos para influenciar políticas públicas. A ferramenta online é a única no país a reunir dados de concentração de poluentes e a indicar as ultrapassagens dos padrões nacionais e das recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), o que pode auxiliar especialistas e gestores na avaliação dos efeitos da poluição do ar na saúde.

“A baixa cobertura de estações de monitoramento significa que na maior parte do país a população não sabe o ar que está respirando”, diz a meteorologista Beatriz Oyama, analista de qualidade do ar do IEMA. “O monitoramento de qualidade do ar é uma ferramenta importante para a gestão pública.” Com monitoramento adequado nas cidades, é possível saber quando o ar está inadequado e tomar medidas para reduzir as emissões de poluentes, como restringir algumas atividades industriais e o uso de automóveis e incentivar o uso do transporte público. No limite, é possível recomendar que os cidadãos e os profissionais de saúde fiquem mais alertas nos dias mais críticos.

O monitoramento pode ajudar a identificar as fontes poluentes, como indústrias específicas ou locais com trânsito intenso de veículos, e agir para reduzir essas emissões. Medir a qualidade do ar é também um dos instrumentos relevantes para verificar a eficácia do programa de controle veicular (Proconve), que regulamenta a tecnologia dos motores e a qualidade dos combustíveis. Também é uma informação necessária para o poder público autorizar a instalação de novas indústrias em áreas sensíveis para a saúde da população.

Referência para a OMS desde 2016, a nova versão da Plataforma do IEMA disponibiliza informação detalhada sobre a distribuição das estações de monitoramento e sobre as variações das concentrações de poluentes monitorados. Ela também está mais interativa e prática de consultar, mas a maior novidade são os dados de concentração por hora do dia. Eles permitem saber, por exemplo, quais são os horários do dia com picos de um tipo específico de poluente, os meses do ano em que se observam maiores concentrações.

Uma vez que cada estado tem sua metodologia para calcular concentrações de poluentes, após estudar essas diferentes metodologias adotadas, a plataforma do IEMA empregou o método utilizado pela maior parte dos estados para padronizar os cálculos tornando dados de diferentes estados comparáveis.

Entre os poluentes atualmente medidos no Brasil, os únicos que não apresentam uma tendência clara de queda são o material particulado fino e o ozônio. Assim, esses são os poluentes que mais preocupam por representarem altos riscos para a saúde quando em concentrações elevadas.

O material particulado mais fino (MP2,5) é um dos maiores responsáveis por doenças respiratórias e cardiovasculares no mundo. Ele é emitido pela queima de combustíveis nas indústrias e nos veículos, essa segunda fonte se torna ainda mais relevantes nos centros mais urbanizados. Também é formado na atmosfera a partir de reações químicas com outros gases e poluentes. Embora o MP2,5 tenha seus danos à saúde cientificamente comprovados, somente quatro estados fazem o monitoramento desse poluente: Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, e Espírito Santo, sendo que somente nesses dois últimos o MP2,5 é regulado. Na Plataforma de Qualidade do Ar, é possível verificar como a concentração de material particulado evoluiu em vários pontos do país. Na estação do bairro de Cerqueira César, na região da Avenida Paulista, da cidade de São Paulo, a concentração média anual de material particulado teve uma queda de 24 para 16 microgramas por metro cúbico entre os anos 2000 e 2009. Depois começou a oscilar sem queda aparente. Sempre acima da concentração de 10 microgramas por metro cúbico, recomendada pela OMS.

O ozônio é outro poluente que tem apresentado concentrações bem acima dos valores recomendados pela OMS. Quem se expõe a ele regularmente, corre risco de desenvolver asma e outras doenças cardiovasculares e de ter sua capacidade pulmonar reduzida. Como não é emitido diretamente por nenhuma fonte poluente, o controle do ozônio é um grande desafio. Ele é formado durante o dia, a partir da reação entre poluentes originados de processos incompletos de queima (combustíveis, queimadas).

A Plataforma de Qualidade do Ar também permite verificar as concentrações de ozônio em várias cidades. A máxima média de 8 horas de ozônio, no Parque do Ibirapuera em São Paulo, variou entre cerca de 200 e 160 microgramas por metro cúbico entre os anos de 2013 e 2016. Ou seja, ainda acima das recomendações da OMS, de 100 microgramas por metro cúbico.

A plataforma mostra como os poluentes mais críticos hoje são o MP2,5 e O3, além dos demais poluentes regulados. Por outro lado, a boa notícia da plataforma é que outros poluentes apresentam queda. É o caso de material particulado (MP10), o dióxido de enxofre (SO2), monóxido de carbono (CO) e dióxido de nitrogênio (NO2). Todos esses poluentes têm apresentado uma tendência de redução das concentrações ao longo dos anos e, na maioria das estações, têm atendido as recomendações da OMS.

Link para a Plataforma de Qualidade do Ar do IEMA

http://qualidadedoar.org.br/



Colaboração de Isis R. Nóbile Diniz, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/11/2018




Autor: Isis R. Nóbile Diniz
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 21/11/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/11/21/apenas-nove-estados-brasileiros-monitoram-a-qualidade-do-ar/

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Poluição do ar e poeira fina são responsáveis por mais de quatro milhões de mortes a cada ano

Poluição do ar leva a doenças cardiovasculares

Universität Mainz*


Poeira fina da indústria, tráfego rodoviário e aéreo e agricultura polui o ar e leva a doenças cardiovasculares. Foto / ©: Peter Pulkowski, Centro Médico da Universidade de Mainz

Quase 60 por cento das mortes ocorrem como resultado de doenças cardiovasculares. Cientistas ao redor do professor Thomas Münzel, diretor de cardiologia I do Departamento de Cardiologia do Centro Médico de Johannes Gutenberg University Mainz (JGU), revisaram os mecanismos responsáveis pelos danos vasculares causados pela poluição do ar junto com cientistas do Reino Unido e dos Estados Unidos. Suas descobertas foram publicadas na última edição do European Heart Journal, o periódico de cardiologia mais reconhecido do mundo.

A grande porcentagem de mortes por doenças cardiovasculares levou um grupo internacional de especialistas da Alemanha, Inglaterra e EUA a analisar os efeitos negativos da poluição do ar na função vascular em um artigo de revisão. Questões-chave de pesquisa concentraram-se em componentes da poluição do ar (material particulado, ozônio, dióxido de nitrogênio, monóxido de carbono e dióxido de enxofre) que são particularmente prejudiciais ao sistema cardiovascular e aos mecanismos que danificam os vasos.

“Este relatório na última edição do European Heart Journal é outra importante contribuição do nosso Grupo de Trabalho sobre Meio Ambiente e Doenças Cardiovasculares. Em resumo, pode-se dizer que, em relação ao efeito danoso vascular da poluição do ar, o material particulado desempenha um papel proeminente “, comentou o professor Thomas Münzel.

” Estamos especialmente preocupados com a poeira ultrafina. Essas partículas têm o tamanho de um vírus. Quando a matéria ultrafina é inalada, ela entra imediatamente na corrente sanguínea através dos pulmões, é absorvida pelos vasos e causa inflamação local. Em última análise, isso causa mais aterosclerose (calcificação vascular) e, portanto, leva a mais doenças cardiovasculares, como infarto do miocárdio, infarto agudo do miocárdio, insuficiência cardíaca e arritmias cardíacas. De particular interesse é o fato de que, com relação às emissões de diesel”

Outros participantes do grupo de especialistas incluem o mundialmente renomado pesquisador de partículas Professor Sanjay Rajagopalan do Centro Médico UH Cleveland, o pesquisador vascular e cardiologista Professor John Deanfield do Instituto de Ciências Cardiovasculares da University College London, Professor Andreas Daiber, Chefe de Molecular Cardiologia no Centro Médico da Universidade de Mainz e Professor Jos Lelieveld do Instituto Max Planck de Química (MPIC) em Mainz.

“As partículas finas de poeira são quimicamente formadas principalmente na atmosfera pelas emissões do tráfego, indústria e agricultura. Para alcançar concentrações baixas e inofensivas, as emissões de todas essas fontes precisam ser reduzidas”, comentou o professor Jos Lelieveld.

“No futuro, trabalharemos intensivamente com o Instituto Max Planck de Química para investigar as causas das doenças cardiovasculares causadas pela poluição do ar, especialmente em combinação com o ruído (de vôo)”, acrescentou o professor Thomas Münzel.

Referência:

T. Münzel et al., Effects of gaseous and solid constituents of air pollution on endothelial function, European Heart Journal, 14 August 2018,
DOI:10.1093/eurheartj/ehy481 https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehy481



* Tradução e edição de Henrrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/08/2018




Autor: Henrrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 27/08/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/08/27/poluicao-do-ar-e-poeira-fina-sao-responsaveis-por-mais-de-quatro-milhoes-de-mortes-a-cada-ano/

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Dispositivo portátil identifica presença de mercúrio no ar

Pesquisadores da Unicamp, em parceria com a Universidade de Victoria (Canadá) e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), desenvolveram um amostrador capaz de medir a quantidade de mercúrio presente no ar e, assim, verificar se uma determinada área está contaminada com o metal. Enriquecido com nanopartículas de ouro em vidro poroso, o dispositivo tem o tamanho de um botão e, em contato com o mercúrio, tem sua coloração modificada.

A tecnologia pode auxiliar no controle da saúde da população que reside no entorno de regiões onde há mineração de ouro. A ideia é que os trabalhadores do setor de mineração passem a utilizar o dispositivo acoplado a suas roupas. A pesquisa foi divulgada, no último dia 28 de novembro, pelo periódico científico Scientific Reports, publicação do grupo Nature.

Embora o foco da tecnologia seja a contaminação presente no ar, ela poderia ser utilizada, por exemplo, para avaliar a exposição ao mercúrio de populações que vivem ao redor do Rio Xingu, na região Amazônica. Uma pesquisa conduzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e pelo Instituto Socioambiental (ISA) constatou que algumas aldeias indígenas chegam a ter 92% de sua população contaminada por mercúrio. Neste caso, boa parte da contaminação se dá pela água, por meio da presença do metal em peixes consumidos pelos indígenas. Contudo, os pesquisadores lembram que o mercúrio presente no ar também é um agravante para a situação.

“Eles não estão explorando o ouro, mas estão em uma área próxima da exploração e o mercúrio acaba chegando lá”, contextualiza o professor Ítalo Odone Mazali, do Instituto de Química (IQ) da Unicamp, e um dos responsáveis pelos estudos. “A população mais exposta ao mercúrio gasoso são os garimpeiros. Mas esse mercúrio lançado no ar vai ser depositado à curta, média ou longa distância (milhares de km). Quando o mercúrio é depositado na água, ele acaba sendo incorporado à cadeia alimentar”, conta a professora Anne Hélène Fostier, também do IQ e com participação de destaque no estudo.


Da esq. para a dir., os pesquisadores Ítalo Odone Mazali, Elias de Barros Santos e Anne Hélène Fostier

Após a exposição, o dispositivo é fotografado e, com a ajuda da câmera de um celular, as imagens são avaliadas por meio do sistema RGB (Red Green Blue), para quantificar o metal a que o amostrador – e, consequentemente, o trabalhador – foi exposto. “A gente associou a intensidade de cor com a quantidade de mercúrio. Quanto maior a contaminação, mais intensa ficará a cor do amostrador”, explica o professor Mazali.

Colocado à prova, o sensor já foi testado por trabalhadores da mineração em Burkina Faso, na África, e mostrou ser bastante eficiente. Os testes comprovaram que a exposição ao mercúrio gasoso era superior à quantidade estabelecida pela OSHA (Occupational Safety and Health Administration). De acordo com o órgão, o limite máximo de exposição permitida para o vapor de mercúrio é de 0,1 mg/m3 de ar. Em campo, a pesquisa constatou a presença de 30 a 555 nanogramas de mercúrio, número bem superior ao estipulado pela OSHA.

Com participação do professor Elias de Barros Santos, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), durante seu projeto de pós-dourado pela Universidade de Victoria, os testes foram realizados em uma mina de Burkina Faso, na África. “Ele foi aplicado em um ambiente bem contaminado, em uma mina de extração na África. Durante a extração artesanal de ouro, os mineiros usam mercúrio como amalgamador (utilizado na separação de ligas metálicas). Depois disso, para separar o ouro da amálgama, é preciso que essa mistura seja aquecida a 400 graus Celsius. Esse aquecimento faz com que o mercúrio evapore e seja inalado pelos trabalhadores”, conta Santos.

Os docentes salientam que a situação precária e insalubre a que os profissionais da mineração são expostos, sem nenhum tipo de preparo para lidar com a exposição ao mercúrio, é um problema mundial. “A estimativa é que existam 20 milhões de pessoas, espalhadas pela América Latina, África e Ásia, trabalhando nessas condições. O ambiente é bem inóspito. Além disso, tem famílias com crianças que vivem nesses garimpos e que estão expostas a esse ambiente”, alerta Santos.


Monitoramento de contaminação de mineradores em Burkina Faso, onde parte da pesquisa foi desenvolvida | Foto: Divulgação

“Atualmente, boa parte dos trabalhadores sabe que o mercúrio é perigoso, mas não tem outra alternativa. É importante que eles possam ser monitorados para ver a quais níveis estão sendo expostos. A tecnologia pode ser utilizada também por profissionais das usinas de reciclagem de lâmpadas fluoerescentes, que também tem risco de exposição ao gás”, ressalta a professora Anne Hélène. Dentre os problemas de saúde ocasionados pela contaminação por mercúrio, estão o nervosismo, ansiedade, irritabilidade, mudanças de humor, agressividade, confusão mental, insônia, lapsos de memória, enxaqueca, alucinações, tendência a cometer suicídio, tontura e labirintite.

Vale salientar que, hoje em dia, não há tecnologia semelhante no mercado. “Os sistemas que medem o mercúrio na atmosfera, hoje, são muito mais sofisticados, mais caros e que precisam de uma fonte de energia fixa e de gases especiais para funcionar, permitindo uma única medida naquele momento”, completa Anne. Além de ser um amostrador portátil e que permite obter resultados em poucos minutos, a tecnologia tem como diferencial o fato de ser barata e reutilizável. Os responsáveis pelos estudos estimam o custo para obtenção do dispositivo em menos de 2 dólares. “O sensoriamento é fácil, sendo necessário apenas um celular e um programa que faça convolução em RGB, permitindo acompanhar o nível de exposição total”, defende Mazali.

Autor: CAROLINA OCTAVIANO 
Fonte: Unicamp
Sítio Online da Publicação: Unicamp
Data de Publicação: 20/12/2017
Publicação Original: https://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2017/12/20/dispositivo-portatil-identifica-presenca-de-mercurio-no-ar

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Poluição do ar diminuiu nos últimos 30 anos, mas os níveis de alguns compostos ainda são superiores ao aceitável

Pesquisadores que estudaram a qualidade do ar na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) ao longo das últimas três décadas afirmam que a concentração total de poluentes emitidos por carros, caminhões e indústrias diminuiu e o paulistano respira hoje um ar mais limpo do que nos anos 1980. A qualidade melhorou porque baixaram as concentrações dos principais componentes da poluição, tanto os gases como as partículas microscópicas. A má notícia é que, apesar das reduções, os níveis de alguns dos poluentes ainda são quase duas vezes mais altos que os aceitos pela Organização Mundial da Saúde, a OMS (ver gráfico).



Os níveis de poluentes lançados na atmosfera caíram em consequência da implementação de políticas públicas de controle da poluição por veículos automotores, que levou ao desenvolvimento de motores mais eficientes e menos poluentes (verPesquisa FAPESP nº 224). Parte dessa queda também se deveu ao efeito combinado da adição do etanol à gasolina e do aumento do número de carros flex, que já compõem mais da metade da frota de veículos leves da Região Metropolitana de São Paulo. O etanol emite menos monóxido de carbono (CO), hidrocarbonetos (HC) e óxidos de nitrogênio (NOx) do que a gasolina e, desde 1993, é adicionado ao derivado de petróleo em proporções crescentes – hoje cada litro de gasolina contém 27% de etanol. Contribuíram ainda para melhorar a qualidade do ar do paulistano a adoção de processos de produção mais limpos pela indústria, como a substituição de caldeiras a óleo por caldeiras a eletricidade, e a mudança nos anos 1980 e 1990 de muitas fábricas para outras cidades.

De 1988 a 2015, os carros que circulam por São Paulo passaram a emitir 20 vezes menos CO, NOx e material particulado e 40 vezes menos HC. Já as emissões dos mesmos poluentes por veículos pesados (caminhões e ônibus), para os quais a regulamentação surgiu mais tarde, caíram três vezes, segundo análises feitas por pesquisadores do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), apresentadas em três artigos publicados este ano nas revistas Atmospheric Environment, Atmospheric Chemistry and Physics e Journal of Transport & Health. Dados da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), que monitora a qualidade do ar na RMSP, mostram, no entanto, que, apesar do aprimoramento dos motores e do uso de etanol puro ou associado à gasolina, os veículos leves (carros e motos) e os pesados continuam sendo as principais fontes poluidoras da atmosfera na metrópole.

A principal razão de a qualidade do ar não ter melhorado ainda mais nos últimos anos foi o aumento substancial no número de veículos na região, que saltou de 1 milhão, em 2000, para quase 7 milhões, em 2014. “Apesar de os veículos estarem mais eficientes e poluírem menos, a frota cresceu muito”, lembra a física Maria de Fátima Andrade, do IAG-USP, coordenadora dos três estudos. Com mais carros nas ruas, o volume de combustível consumido cresceu 25% em menos de uma década: passou de 5,5 bilhões de litros por ano, em 2007, para quase 7 bilhões, em 2014, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo.


Dos principais poluentes avaliados pelo grupo do IAG-USP, só um não diminuiu de modo consistente: o ozônio, um poluente secundário, resultado de reações de compostos produzidos pelos motores com substâncias da atmosfera e a radiação solar. As concentrações desse gás, que causa irritação nas vias respiratórias e aumenta o risco de infecções, baixaram até meados da década passada, mas, em seguida, voltaram a subir, embora não tenham atingido níveis tão elevados quanto os da metade dos anos 1990. Além dos gases lançados ao ar pelo escapamento dos veículos, vapores de combustível liberados durante o abastecimento parecem contribuir de modo relevante para a formação de ozônio e outros poluentes secundários. É que, a cada litro despejado nos tanques, alguns mililitros sobem na forma de vapor para a atmosfera. Parece pouco, mas, segundo a pesquisadora do IAG, o impacto final pode ser importante – superior ao dos gases liberados pelo escapamento de carros e caminhões –, dado o volume total de combustível abastecido na RMSP. “Os processos evaporativos não são dimensionados adequadamente”, afirma Maria de Fátima. “É possível que o impacto desses vapores esteja sendo subestimado.”

Hoje o componente da poluição que mais preocupa os especialistas, por representar um maior risco para a saúde humana, é o chamado material particulado ou MP: uma mistura de partículas sólidas ou líquidas muito pequenas. Elas são produzidas diretamente pelos motores durante a queima do combustível ou formadas na atmosfera a partir de certos gases. Seu tamanho é inversamente proporcional à capacidade de causar problemas à saúde: quanto menores suas dimensões, mais tempo elas permanecem em suspensão no ar e maiores os potenciais efeitos danosos. Por serem tão pequenas, elas penetram facilmente no trato respiratório e ali se acumulam, podendo provocar inflamações pulmonares, agravar doenças como a asma e até causar problemas em outros órgãos.

Na RMSP, a Cetesb monitora tanto a concentração das maiores, as partículas inaláveis com até 10 micrômetros de diâmetro (MP10), como a das partículas inaláveis finas, de até 2,5 micrômetros (MP2,5). Os níveis de ambas vêm diminuindo, embora continuem superiores aos recomendados pela OMS. Mas a Cetesb não mede os níveis de partículas ainda menores – as chamadas ultrafinas, com diâmetro da ordem de nanômetros –, produzidas em maior quantidade por veículos movidos a gasolina do que a álcool.

Um estudo realizado com a colaboração de pesquisadores do Instituto de Física (IF) da USP e publicado em julho deste ano na revista Nature Communications relatou um aumento de 30% na concentração de partículas ultrafinas (menos de 50 nanômetros de diâmetro) na cidade de São Paulo entre janeiro e maio de 2011. Nesse período, houve alta considerável no preço do etanol e os motoristas de carros bicombustível passaram a consumir mais gasolina do que álcool. Os dados de poluição foram coletados na estação do Instituto de Física e usados para alimentar modelos estatísticos que consideraram o tráfego, as informações meteorológicas e o comportamento do consumidor. “A modelagem indicou que, quando os preços do etanol voltaram a cair, o consumo de gasolina baixou e a concentração dessas partículas medida na atmosfera também diminuiu”, conta o físico Paulo Artaxo, professor do IF-USP e um dos autores do estudo.


© LÉO RAMOS CHAVES



Marginal do rio Pinheiros, uma das vias mais movimentadas da cidade de São Paulo

Da gestação à velhice
Para o patologista Paulo Saldiva, da Faculdade de Medicina (FM) da USP, diminuir a concentração de partículas finas e ultrafinas de poluição no ar é, literalmente, uma questão de vida ou morte. “Existem vários níveis de vulnerabilidade das pessoas à poluição do ar e uma parte delas morre por conta dos problemas de saúde causados pela poluição, especialmente dos provocados por partículas tão pequenas”, conta Saldiva, coordenador de um estudo que estimou que a cada ano cerca de 3,5 mil pessoas morrem na cidade de São Paulo por causa da poluição (ver Pesquisa FAPESP nº 129). “Elas se depositam nos alvéolos pulmonares e, de lá, chegam facilmente ao sistema nervoso central e a outras partes do organismo”, conta Saldiva, líder na FM-USP de uma equipe que atualmente investiga se há uma conexão entre a exposição prolongada à poluição e o desenvolvimento da doença de Alzheimer em seres humanos. Tempos atrás seu grupo havia observado que filhotes de roedoras expostas à poluição ambiental da cidade nasciam com baixo peso, por problemas na placenta que dificultariam a passagem de nutrientes. Os pesquisadores também obtiveram indícios de que a exposição prolongada aos poluentes – em especial às partículas finas e ultrafinas – prejudica o desenvolvimento dos pulmões.

Para Saldiva, é urgente que se adotem iniciativas para melhorar o transporte público, como o uso de combustíveis mais limpos e a aplicação de novas tecnologias para reduzir o tempo de viagem, a fim de que baixem os níveis de poluentes para os valores recomendados pela OMS. “A exposição prolongada à poluição nos inflige um risco difícil de evitar, porque ela reproduz no organismo o que o cigarro faz a um fumante”, afirma. “Eu decido se fumo ou não, mas não tenho como fazer esse tipo de escolha ao respirar o ar de São Paulo.”

Projetos
1. Narrowing the uncertainties on aerosol and climate changes in São Paulo State: NUANCES-SPS (nº 08/58104-8); Modalidade Projeto Temático; Programa Mudanças Climáticas (PFPMCG); Pesquisadora responsável Maria de Fátima Andrade (USP); Investimento R$ 3.297.909,37.
2. GoAmazon: Interação da pluma urbana de Manaus com emissões biogênicas da Floresta Amazônica (nº 13/05014-0); Modalidade Projeto Temático; ProgramaMudanças Climáticas (PFPMCG); Pesquisador responsável Paulo Eduardo Artaxo Neto (USP); Investimento R$ 4.290.930,31.

Artigos científicos
ANDRADE, M. F. et al. Air quality in the megacity of São Paulo: Evolution over the last 30 years and future perspectives. Atmospheric Environment. v. 159, p. 66-82. jun. 2017.
PACHECO, M. T. et al. A review of emissions and concentrations of particulate matter in the three major metropolitan areas of Brazil. Journal of Transport & Health. v. 4, p. 53-72. mar. 2017.
VARA-VELA, A. et al. Impact of vehicular emissions on the formation of fine particles in the Sao Paulo Metropolitan Area: A numerical study with the WRF-Chem model. Atmospheric Chemistry and Physics. v. 16 (2), p. 777-97. jan. 2017.
SALVO, A. et al. Reduced ultrafine particle levels in São Paulo’s atmosphere during shifts from gasoline to ethanol use. Nature Communications. jul. 2017.




Autor: DIEGO FREIRE | ED. 259 |
Fonte: fapesp
Sítio Online da Publicação: fapesp
Data de Publicação: SETEMBRO 2017
Publicação Original: http://revistapesquisa.fapesp.br/2017/09/22/perigo-no-ceu-de-sao-paulo/?cat=ciencia

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Exposição ao ar poluído antes ou durante a gravidez altera a estrutura da placenta

A exposição de gestantes à poluição do ar durante a gravidez influencia o desenvolvimento do feto. A criança pode apresentar baixo peso ao nascer, além de ter aumentada a possibilidade de apresentar determinadas doenças na vida adulta, de acordo com estudos realizados no Brasil e no exterior. Os mecanismos moleculares por trás desses impactos da poluição na gestação, contudo, ainda não estavam completamente elucidados.


Alterações causadas pela poluição atmosférica podem limitar a nutrição e o crescimento do feto, aponta estudo feito por pesquisadores da USP (foto: Phelipe Janning / Agência FAPESP)


Um grupo de pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) constatou agora que a exposição a poluentes atmosféricos, antes ou durante a gravidez, altera algumas características da placenta, além de causar distúrbios em um sistema hormonal relacionado ao fluxo sanguíneo uteroplacentário e diminuir os níveis de fatores envolvidos no processo de formação placentária.

Os resultados do estudo, realizado no âmbito de um Projeto Temático e do doutorado de Sônia de Fátima Soto, feito com Bolsa da FAPESP, foram publicados na revista PLOS ONE.

“Observamos que a exposição a poluentes antes e/ou durante a gravidez desencadeia alguns fenômenos inflamatórios ao longo do desenvolvimento da placenta que comprometem seu crescimento. Isso possivelmente interfere na transferência de nutrientes e de oxigênio da mãe para o feto”, disse Joel Claudio Heimann, professor da FMUSP e orientador de Soto, à Agência FAPESP.

Os pesquisadores realizaram um experimento em que expuseram ratas Wistar – linhagem albina da espécie Rattus norvegicus –, antes de acasalarem e ficarem prenhes, tanto ao ar filtrado como ao ar poluído com concentração de material particulado fino (menor que 2,5 micrômetros) de 600 microgramas (μg) por metro cúbico (m3), utilizando para isso um equipamento chamado concentrador de partículas finas ambientais de Harvard (CPFAH). O tamanho de partícula foi determinado com base nas exposições ambientais reais na Região Metropolitana de São Paulo.

Os animais foram divididos em quatro grupos. O primeiro foi exposto ao ar filtrado antes e durante a gravidez, o segundo foi colocado em contato com ar filtrado antes da gravidez e com ar poluído durante a gravidez, um terceiro grupo foi submetido ao ar poluído antes da gravidez e ao ar filtrado durante a gravidez, e o quarto, ao ar poluído antes e durante a gravidez.

Para simular as condições reais de exposição de mulheres à poluição do ar antes e durante a gravidez em cidades como São Paulo, antes da gravidez os animais foram colocados em contato com ar poluído durante uma hora cinco vezes por semana por três semanas seguidas. A partir do sexto dia de prenhez, o número de exposições foi de sete vezes por semana.

As placentas dos animais foram coletadas no 19º dia de gravidez, dissecadas e pesadas de modo a avaliar os efeitos dos poluentes em sua estrutura e no sistema hormonal renina-angiotensina (RAS) uteroplacentário.

Os resultados das análises indicaram que a exposição ao ar poluído antes e/ou durante a gravidez diminuiu a massa, o tamanho e a área superficial da placenta e causou alterações no sistema RAS.

Estudos anteriores apontaram que distúrbios nesse sistema podem levar a uma redução do fluxo sanguíneo uteroplacentário. Além disso, a angiotensina II (AngII) – um peptídeo que faz parte desse sistema – é um potente regulador da migração e invasão de trofoblasto – camada de células epiteliais que forma a parede externa da blástula dos mamíferos (blastocisto) e atua na implantação e nutrição do embrião – no início da gravidez.

A invasão da vasculatura materna pelo trofoblasto é um pré-requisito para o estabelecimento de uma placenta normal e a continuação da gravidez, explicaram os pesquisadores.

“Constatamos que a exposição das ratas prenhes à poluição antes e/ou durante a gravidez causou alterações no sistema renina-angiotensina dos animais. Mas são necessários novos estudos para elucidarmos mecanismos moleculares adicionais”, disse Heimann.

Interferência na formação da placenta

Os pesquisadores também avaliaram os efeitos da exposição ao ar poluído em fatores que influenciam o processo de formação da placenta, como o fator de crescimento de transformação beta 1 (TGFβ1) e o fator de crescimento endotelial vascular (VEGF-A).

Diversos estudos sugeriram que o TGFβ1 tem um papel na invasão da mucosa que recobre a face interna do útero (endométrio). E, nos mamíferos, o TGFβ1 pode regular uma variedade de funções celulares, incluindo proliferação, diferenciação, morte programada (apoptose) e invasão de células placentárias.

O VEGF-A também desempenha um papel na formação da placenta ao modular a angiogênese, ligando-se a seus dois receptores: tirosina quinase 1 relacionada a fms (Flk-1) e tirosina quinase 1 hepática fetal (Flt-1). As análises moleculares indicaram que a exposição ao ar poluído diminuiu o conteúdo de TGFβ1 e Flk-1 na placenta dos animais.

A porção materna da placenta das ratas expostas a ar poluído antes da gravidez e a ar filtrado durante a gravidez, comparada com a daquelas colocadas em contato com ar poluído antes e durante a gravidez, apresentou diminuição nos níveis de angiotensina II (AngII) e seus receptores AT1 (AT1R) e AT2 (AT2R).

Na porção fetal da placenta das ratas expostas a ar filtrado antes da gravidez e a ar poluído durante a gravidez, a ar poluído antes da gravidez e a ar filtrado durante a gravidez e a ar poluído antes e durante a gravidez, os níveis de AngII também diminuíram. Contudo, a AT1R aumentou no grupo de animais expostos a ar filtrado antes da gravidez e a ar poluído durante a gravidez.

A expressão do gene VEGF-A foi menor no grupo de ratas expostas a ar poluído antes e durante a gravidez em comparação com os animais colocados em contato com ar filtrado antes e durante a gravidez.

Essas alterações indicam um possível comprometimento da invasão de trofoblasto e na angiogênese (formação de novos vasos sanguíneos) da placenta, explicou Heimann.

“Isso pode ter consequências para a interação entre mãe e feto, como também limitar a nutrição e o crescimento fetal”, afirmou.


O artigo Exposure to fine particulate matter in the air alters placental structure and the renin-angiotensin system (doi: 10.1371/journal.pone.0183314), de Sônia de Fátima Soto, Juliana Oliveira de Melo, Guilherme D’Aprile Marchesi, Karen Lucasechi Lopes, Mariana Matera Veras, Ivone Braga de Oliveira, Regiane Machado de Souza, Isac de Castro, Luzia Naôko Shinohara Furukawa, Paulo Hilário Nascimento Saldiva e Joel C. Heimann, pode ser lido em http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0183314.


Autora: Agência FAPESP
Fonte: Elton Alisson
Sítio Online da Publicação: Agência FAPESP
Data de Publicação: 30/10/2017
Publicação Original: http://agencia.fapesp.br/exposicao_ao_ar_poluido_antes_ou_durante_a_gravidez_altera_a_estrutura_da_placenta/26523/