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terça-feira, 4 de abril de 2023

Unicamp: 15 cursos online gratuitos para começar agora

A Escola de Extensão (Extecamp) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em parceria com a plataforma Coursera, oferece 15 cursos para estudantes de todo o Brasil. Para ter acesso ao programa de capacitação livre, basta o interessado criar uma conta no site.

Os cursos oferecidos pela Unicamp têm conteúdos criados por docentes da universidade e abrangem diferentes áreas, como tecnologia, administração e música, passando por saúde e até beleza.


Créditos: Divulgação
Conteúdo dos cursos online gratuitos foi criado por docentes da própria Unicamp

Para receber o certificado de conclusão é necessário pagar uma taxa, devido à verificação de identidade, além do cumprimento da carga horária mínima. No entanto, o estudante que não tenha condições financeiras de arcar com o custo pode requerer auxílio para a emissão.

Se o auxílio financeiro ou bolsa de estudos estiver disponível para a seleção do seu programa de aprendizado, você encontrará um link para se inscrever na página de descrição do curso.

A inscrição, a realização do curso, a emissão e o pagamento do certificado são feitos diretamente na plataforma Coursera.
Cursos online gratuitos da Unicamp em destaque

Parte dos cursos online gratuitos da Unicamp são na modalidade MOOCs (Cursos Massivos Abertos Online, em português) e são oferecidos pela plataforma Coursera. Confira abaixo:

Alfabetização midiática informacional e diálogo intercultural – Unesco e Unicamp (*)
A complexidade sensível: Um paralelo entre videogames e arte
Conceitos básicos de logística e supply chain (*)
Cosmetologia: Prática de Manipulação de Cosméticos
Cosmetologia em prol do envelhecimento com saúde e beleza
Escola 4.0: Educação e cultura maker no contexto da nova BNCC – Base Nacional Comum Curricular (*)
Fundamentos para indicação racional dos principais exames de radiologia e diagnóstico por imagem relacionados à saúde da mulher
Introdução à Economia do Trabalho: Teorias e Políticas
Introdução ao desenvolvimentos de aplicativos para dispositivos Android (*)
Plano de aula: Uma revisão sobre números racionais para o ensino médio
Pensamento Crítico, Lógica e Argumentação
Pluralidade em português brasileiro: Explorando a compreensão oral e escrita em nivél intermediário (*)
Processamento digital de sinais – amostragem (*)
Revisão Sistemática e Meta-análise
Saúde Baseada em Evidências





Autor: catracalivre
Fonte: catracalivre
Sítio Online da Publicação: catracalivre
Data: 02/04/2023
Publicação Original: https://catracalivre.com.br/educacao/unicamp-cursos-online-gratuitos/

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Decrescimento. Uma perspectiva de esquerda sobre as crises socioambientais, parte 1/6; análise de Luiz Marques (IFCH/Unicamp)

Resumo:

Trata-se do primeiro de uma série de seis artigos sobre as crises socioambientais contemporâneas e suas possíveis soluções ou mitigações numa perspectiva de decrescimento administrado.

Este primeiro artigo introduz e assenta as premissas desta perspectiva.

Um dado interessante, que apenas confirma o que sabemos, mas não deixa de ser alarmante, é o resultado do Global Risk Report 2018. Na última reunião da cúpula empresarial do planeta em Davos foi realizado um survey com mais de 14 mil grandes empresários e dirigentes de empresas que mostra de modo chocante o desinteresse das corporações pelas crises ambientais, malgrado o recorrente blá-blá-blá da “sustentabilidade”.

Os próximos cinco artigos tratarão das seguintes questões:

1. As mudanças climáticas (aquecimento global, ondas de calor, secas, aridez crescente dos solos, incêndios florestais, acidificação oceânica, elevação do nível do mar).

2. A aniquilação da biodiversidade, com remoção e degradação das florestas e consequente defaunação, impulsionadas pela expansão do agronegócio global e por um sistema alimentar baseado no carnivorismo.

3. A crescente escassez de água doce, limpa e acessível.

4. A intoxicação dos organismos pela poluição industrial do ar, do solo e da água.

5. A desigualdade social extrema e a concentração nas mãos de algumas centenas de corporações, e de indivíduos que as controlam, de um poder econômico exorbitante e tentacular, incompatível com as formas tradicionais de representatividade política.

Essa quinta crise é, ao mesmo tempo, a principal causa das quatro precedentes e o principal obstáculo a toda ação política concertada susceptível de desviar as sociedades contemporâneas de sua atual trajetória.

JORNAL DA UNICAMP
TEXTO LUIZ MARQUES
FOTOS ANTONIO SCARPINETTI
EDIÇÃO DE IMAGEM LUIS PAULO SILVA

Este é o primeiro de uma série de seis artigos sobre as crises socioambientais contemporâneas e suas possíveis soluções ou mitigações numa perspectiva de decrescimento administrado. Essa perspectiva afigura-se hoje como a mais consequente, talvez a única efetiva para uma sociedade viável. Eis suas premissas básicas:

– Por maiores e mais rápidos que sejam o avanço tecnológico e o aumento da eficiência econômica, só é possível reduzir em prazos hábeis o impacto humano sobre o meio ambiente com abandono do consumo de combustíveis fósseis. Embora seja obviamente impossível nos libertarmos imediatamente de nossa histórica dependência desses combustíveis, abandoná-los ao ritmo de uma economia de guerra deve ser entendido como a principal prioridade energética das sociedades contemporâneas.

– A segunda condição de possibilidade para reduzir em prazos hábeis o impacto humano sobre o meio ambiente é o abandono do consumo de carne. Abandonar esse consumo, ou ao menos reduzi-lo drasticamente, é algo que pode e deve ser iniciado imediatamente. Há várias razões para tanto. A cadeia industrial da carne impõe um sofrimento atroz, moralmente inaceitável, aos animais, além de perigos tangíveis à saúde humana. Segundo a Organização Mundial da Saúde, há evidência limitada de que carne vermelha é cancerígena (grupo 2A) e evidência suficiente (grupo 1) de que carne processada o seja [I]. Além disso, ao ocupar 80% da área das fazendas (farmland) em escala global [II], o aumento imenso dos rebanhos a partir da segunda metade do século XX e sua concentração em grandes propriedades destrói as florestas, ameaça os modos de vida de seus povos tradicionais, avança sobre as pequenas propriedades agrícolas, verdadeiros fornecedores de alimentos, e dizima por supressão de seu habitat as populações dos demais vertebrados. Segundo o Estado das Florestas do Mundo 2016, da FAO, a pecuária é o principal problema ambiental da América Latina e em especial do Brasil: entre 1990 e 2005, 71% do desmatamento na Argentina, Colômbia, Bolívia, Paraguai, Peru, Venezuela e Brasil deveu-se à expansão dos pastos. No Brasil, essa expansão foi responsável no período por mais de 80% do desmatamento da Amazônia brasileira [III]. A atividade entérica, os resíduos dos rebanhos e todo o sistema de produção e distribuição da carne constituem a maior fonte de emissões antropogênicas de metano. Juntos, desmatamento e emissões entéricas de metano constituem a principal fonte de emissões antropogênicas de gases de efeito estufa (GEE) no Brasil, e a segunda fonte dessas emissões planetárias após a queima de combustíveis fósseis.

– A terceira condição de possibilidade para diminuir o impacto da atividade econômica sobre o meio ambiente é através da extinção do apartheid social que fere de morte a sociedade brasileira. E vice-versa: a única forma de promover uma política socialmente inclusiva no Brasil é através da diminuição do impacto ambiental da atividade econômica. Não há divergência, mas sim um círculo virtuoso e uma sinergia entre o social e o ambiental. Como bem afirma o Instituto Socioambiental (ISA), essas duas palavras se escrevem juntas. Uma perspectiva de esquerda para o Brasil e para o mundo é necessariamente socioambiental. O decrescimento administrado nega, portanto, o crescimento do PIB como um fim em si e como um critério de bom desempenho econômico. Mas entende promover uma vigorosa agenda de investimentos de caráter social, não apenas porque esses são os objetivos que definem um programa de esquerda, mas também porque esses investimentos são os únicos que permitem minimização da interferência antrópica sobre o meio ambiente: generalização da infraestrutura hídrica e sanitária, abandono do uso de lenha, construção de uma infraestrutura e de uma cultura do transporte coletivo elétrico e de qualidade de pessoas e mercadorias em detrimento do transporte privado, fomento da atividade agrícola para a alimentação local e sem agrotóxicos, e, em geral, otimização da relação custo ambiental / benefício social.

– O decrescimento não é uma opção, é uma tendência inexorável da economia global. A degradação ambiental produzida pela atividade econômica está próxima de atingir pontos de ruptura na biosfera e no clima inadministráveis pela atual farmacopeia das políticas econômicas. Um decrescimento administrado é a única forma de evitar o caos socioeconômico do decrescimento forçado que essas rupturas ambientais em breve imporão à humanidade. O esgotamento das possibilidades de crescimento já se deixa pressentir. Na última década, as taxas de crescimento econômico têm sido claramente inferiores em relação ao período pós-guerra, quando a economia global, mesmo após as crises do petróleo, ainda crescia entre 3% e 5% ao ano. No período 2008-2011 o crescimento global foi de cerca de 1,5%, com um momento de crescimento negativo pela primeira vez desde 1945. Entre 2011 e 2017, portanto mesmo após a crise de 2008, as 37 economias da OCDE cresceram em média apenas 1,9% ao ano [IV]. Os poucos países que ainda apresentam taxas elevadas de crescimento, como a China e a Índia, são vítimas de poluição letal, ondas de calor extremo igualmente letais, escassez energética e hídrica crescentes, em síntese, estrangulamentos ambientais que imporão em breve também estrangulamentos econômicos.

– As crises socioambientais são transnacionais e só podem ser enfrentadas eficientemente a partir de uma governança global. O decrescimento administrado requer o fim do princípio da soberania nacional absoluta em prol de uma globalização democrática da governança política. Mas propugna, por outro lado, uma radical descentralização administrativa e uma desglobalização econômica, já que a globalização atual baseia-se no controle da economia por oligopólios corporativos e no transporte de longas distâncias, com intenso consumo de petróleo. Isso significa reconstruir as culturas alimentares locais, baseadas nas economias cooperativas, solidárias e comunitárias.

– Essa redefinição qualitativa dos objetivos do crescimento econômico é impossível numa sociedade na qual investimentos e financiamentos estratégicos em setores fundamentais como energia, alimentação, transporte e em toda a linha de produtos com forte potencial de poluição (fertilizantes industriais, agrotóxicos, polímeros, retardantes de chamas, produtos qualificados como perturbadores endócrinos etc) são decididos por agentes econômicos privados, sem levar em conta a urgência e os interesses vitais da sociedade em combater as atuais crises socioambientais. A perspectiva de um decrescimento administrado é, portanto, essencialmente anticorporativa e, em última instância, anticapitalista.

Introdução. As cinco crises maiores que ameaçam a humanidade

Kevin Anderson, vice-diretor do Tyndall Centre for Climate Change Research, assim resume a situação do planeta: “Estamos conscientemente enveredando em direção a um futuro fracassado” [V]. O quadro presente e futuro da humanidade é, de fato, sombrio. Pesam sobre ela ameaças mais graves e iminentes que quaisquer outras em todo o arco de sua história e pré-história. Cinco crises tomam de assalto seu presente e se avolumam em seu futuro imediato:

1. As mudanças climáticas;

2. A aniquilação da biodiversidade, com remoção e degradação das florestas e consequente defaunação, impulsionadas pela expansão do agronegócio global e por um sistema alimentar baseado no carnivorismo;

3. A crescente escassez de água doce, limpa e acessível;

4. A intoxicação dos organismos pela poluição industrial do ar, do solo e da água;

5. A desigualdade social extrema e a concentração nas mãos de algumas centenas de corporações, e de indivíduos que as controlam, de um poder econômico exorbitante e tentacular, incompatível com as formas tradicionais de representatividade política.

Essa quinta crise é, ao mesmo tempo, a principal causa das quatro precedentes e o principal obstáculo a toda ação política concertada susceptível de desviar as sociedades contemporâneas de sua atual trajetória.

Cada uma dessas crises, isoladamente, é potencialmente catastrófica para a humanidade e para a biosfera. Mas nosso futuro imediato mostra-se tanto mais sombrio porque essas crises agem em sinergia, vale dizer, interagem, reforçam-se e aceleram-se reciprocamente, aumentando assim exponencialmente a probabilidade em prazos cada vez mais próximos de um colapso socioambiental global, capaz de inviabilizar a sobrevivência de qualquer sociedade organizada e mesmo, no limite, de nossa espécie.

Da zona de risco crescente à zona de irreversibilidade

No que se refere às quatro crises propriamente ambientais, elas foram de há muito diagnosticadas pela ciência, que, de há muito também, alerta sobre seu perigo crescente e aponta as vias para ao menos mitigá-las. Por certo, esses alertas suscitaram sobressaltos e é claro que a consciência do perigo vem-se traduzindo em iniciativas diplomáticas e em um fervilhar de ações positivas da sociedade civil, sobretudo em âmbito local. Deve-se, antes de mais nada, reconhecer esses esforços e valorizar seus resultados. É forçoso admitir, entretanto, que essas ações, não tendo atingido escala e nem sequer arranhado o poder da rede corporativa, não diminuíram significativamente, no último quarto de século, o ímpeto de nenhum dos cinco processos de degradação ambiental em pauta.

Em 1992, por ocasião da ECO-92, a Union of Concerned Scientists do MIT lançou sua “Advertência dos Cientistas do Mundo à Humanidade”, redigido por Henry W. Kendall e assinado por 1700 cientistas, incluindo a maioria dos laureados com o Prêmio Nobel em diversos campos das ciências. Esse manifesto afirmava [VI]:

“Os seres humanos e o mundo natural estão em rota de colisão. As atividades humanas infligem danos, frequentemente irreversíveis, ao meio ambiente e a recursos naturais críticos. Se não forem revistas, muitas das nossas práticas atuais colocam em sério risco o futuro que desejamos para a sociedade humana e para os reinos das plantas e dos animais, e pode alterar de tal modo a biosfera (the living world) que esta se tornará incapaz de sustentar a vida nos moldes em que a conhecemos”.

Em 2017, fazendo o balanço dos 25 anos transcorridos desde a ECO-92 e desde o lançamento desse manifesto, William J. Ripple, Christopher Wolf, Mauro Galetti, Thomas M Newsome, Mohammed Alamgir, Eileen Crist, Mahmoud I. Mahmoud e William F. Laurance lançaram um manifesto, co-assinado por 15.364 cientistas e intelectuais de 184 países, intitulado “Advertência dos Cientistas do Mundo à Humanidade. Um Segundo Aviso”. Esse “Segundo Aviso”, publicado em dezembro de 2017 na revista BioScience, adverte mais uma vez [VII]:

“Desde 1992, com exceção da estabilização da camada de ozônio estratosférico, a humanidade fracassou em fazer progressos suficientes na resolução geral desses desafios ambientais anunciados, sendo que a maioria deles está piorando de forma alarmante. Especialmente perturbadora é a trajetória atual das mudanças climáticas potencialmente catastróficas, devidas ao aumento dos gases de efeito estufa (GEE) emitidos pela queima de combustíveis fósseis, desmatamento e produção agropecuária – particularmente do gado ruminante para consumo de carne. Além disso, desencadeamos um evento de extinção em massa, o sexto em cerca de 540 milhões de anos, no âmbito do qual muitas formas de vida atuais podem ser aniquiladas ou, ao menos, condenadas à extinção até o final deste século”.

A Figura 1 mostra os nove gráficos apresentados por esse “Segundo Aviso” que quantificam essa piora generalizada.Figura 1. Tendências ambientais identificadas na advertência dos cientistas para a humanidade de 1992, identificadas ao longo do tempo. Os anos antes e depois desse alerta de 1992 são mostrados como linhas cinza e preta, respectivamente. A Figura 1a mostra as emissões de gases fonte de halogênios, que causam depleção do ozônio estratosférico, pressupondo-se uma taxa de emissão natural constante de 0,11 Mt CFC-11-equivalente por ano. No painel (c), as capturas marinhas têm caído desde meados da década de 1990, mas, ao mesmo tempo, o esforço de pesca vem subindo. O índice de abundância de vertebrados em (f) foi ajustado por viés taxonômico e geográfico, mas incorpora relativamente poucos dados de países em desenvolvimento, onde há o menor número de estudos; entre 1970 e 2012, os vertebrados diminuíram 58%, com declínio das populações de água doce, marinha e terrestre de 81%, 36% e 35%, respectivamente. Em (h) mostram-se médias de cinco anos. Em (i), o gado ruminante refere-se à criação de gado bovino, ovino, caprino e bufalino. Observe-se que os eixos y não começam em zero, e é importante atentar para o intervalo entre os dados ao interpretar cada gráfico. A variação percentual, desde 1992, para as variáveis ​​em cada painel, inclui (a) -68,1%, (b) -26,1%, (c) -6,4%, (d) +75,3%, (e) -2,8%, (f ) -28,9%, (g) +62,1%, (h) +167,6%, (i) humanos: +35,5%; gado ruminante +20,5%. Fonte: William J. Ripple et al., “World Scientists’ Warning to Humanity: A Second Notice”. BioScience, 67, 12, 13/XI/2017, pp. 1026-1028.


Como se vê, os Acordos internacionais e as ações mitigatórias nesses 25 anos (1992 – 2017) não foram capazes de atingir praticamente nenhum dos objetivos ambientais propostos: reduzir as concentrações atmosféricas de gases de efeito estufa (GEE), diminuir o desmatamento, reverter o declínio da biodiversidade, aliviar a escassez dos recursos hídricos e amenizar a poluição. Isso se explica pelo fato de que essas ações locais e esses Acordos internacionais não foram e não são de natureza a atacar as causas, a envergadura e a dinâmica dessas crises globais. A realidade é que todos os índices fundamentais planetários de mensuração das quatro crises ambientais acima elencadas continuam a evoluir em sentido negativo. Pior: num ritmo cada vez mais rápido. Tão mais rápido, que um número crescente de análises situam a ultrapassagem de pontos críticos nos equilíbrios do clima, das florestas tropicais e da disponibilidade hídrica já no próximo decênio. Essas ultrapassagens colocarão nosso país e outras muitas regiões do planeta não já numa zona de risco crescente, como afirma o Stockholm Resilience Centre [VIII], mas numa zona de irreversibilidade na trajetória em curso de colapso socioambiental.

Antropoceno: negacionismo vs ciência

Muitos – de fato, a maioria esmagadora – ainda duvidam que essas crises representem um perigo mortal para nossas sociedades e talvez para nossa espécie. Entre eles há, obviamente, os representantes das corporações que não se importam com essas crises ou mesmo fomentam a dúvida e o descrédito da ciência porque seus lucros dependem da manutenção do status quo [IX]. Em 2017, o Global Risk Report 2018 de Davos entrevistou 14.375 executivos de 148 economias e reteve 12.775 respostas de 133 economias. Esse survey, intitulado “Os riscos globais mais preocupantes para os negócios” (Global Risk of Highest Concern for Doing Business [X]) classifica os riscos em cinco categorias: a. econômico (8 riscos); b. geopolítico (5 riscos); c. ambiental (5 riscos); d. social (6 riscos); e. tecnológico (5 riscos). Entre os 29 riscos propostos, pertencentes a essas cinco categorias, os entrevistados de Davos deviam selecionar os cinco riscos globais mais preocupantes para os negócios em seu país nos próximos 10 anos. Os resultados mostram claramente o descaso desses líderes corporativos pelas crises ambientais. O primeiro risco ambiental selecionado por eles (eventos meteorológicos extremos) aparece apenas em 18º lugar, já que somente 12,9% deles incluíram-no entre os cinco mais preocupantes. O risco mudanças climáticas aparece em 21º lugar, já que apenas 11,4% dos dirigentes de empresas o incluíram entre os cinco riscos mais preocupantes, e o risco de um colapso da biodiversidade aparece em 26º lugar, apontado por apenas 6,6% dos entrevistados entre os cinco riscos mais preocupantes. Os dados são claros: para os que controlam as alavancas da economia mundial, as crises ambientais permanecem entre as últimas de suas preocupações, malgrado sua verborragia sobre a “sustentabilidade”. A Figura 2 oferece uma visão circunstanciada desse desinteresse corporativo pelas crises ambientais.

Figura 2 – 29 Riscos globais mais preocupantes para os negócios e porcentagem dos entrevistados que incluem cada um desses 29 itens entre os cinco riscos mais preocupantes Fonte: Executive Opinion Survey 2017. World Economic Forum, Davos

Esses resultados, espero, liquidam definitivamente a ilusão, ainda nutrida por muitos, de que a rede corporativa venha a ser parte das soluções exigidas pelas crises ambientais de nosso tempo. Nela reside o problema, não a solução.


Ocorre que a maioria das pessoas negam a ciência ou dela duvidam, digamos, “em boa fé”, ou seja, não por defenderem interesses econômicos. Essa maioria duvida apenas porque tem dificuldade de entender, após milênios de relativa estabilidade climática, que a nova época histórico-geológica iniciada em meados do século XX, o Antropoceno, nos introduz numa zona de desestabilização climática, já provavelmente irreversível, do sistema Terra. Como bem afirma Owen Gaffney, do Stockholm Resilience Centre, “as sociedades industriais receberam da enganosa estabilidade do Holoceno, os últimos 11.700 anos, um falso senso de segurança. Agora, ejetamos a Terra de seu envelope interglacial e estamos adentrando território não mapeado” [XI]. Com efeito, como mostra a Figura 3, o último degelo com o qual se abre a época do Holoceno (11.700 AP – 1950 circa), não apenas elevou a temperatura média superficial do planeta entre 3,5 oC e 4 oC até meados do século XX, mas a manteve numa faixa de variação bastante estreita: 0,5 oC para baixo e para cima em relação à média do período. Essa relativa estabilidade climática criou a chamada zona de segurança climática que permitiu a agricultura e o florescimento de toda civilização.


Figura 3 – Evolução da temperatura média superficial do planeta após a deglaciação da última Idade do Gelo (curva verde, 20.000 – 12.000 AP) com variação negativa e positiva máxima de 0,5 oC durante o Holoceno (curva azul, 11.700 AP – 1950 circa). A curva azul é sucedida por uma reta em vermelho que mostra a trajetória de aquecimento global do Antropoceno, com expectativa, mantidas as condições presentes, de um aquecimento catastrófico superior a 3 oC em relação ao período pré-industrial no decorrer do século XXI. Fonte: Shaun A. Marcott et al. “A Reconstruction of Regional and Global Temperature for the Past 11,300 Years”. Science, 339, 8/III/2013.

Hoje já ultrapassamos 1,1 oC em relação ao período pré-industrial e sabemos ser, doravante, uma impossibilidade sociofísica[xii] manter o aquecimento global abaixo do perigoso limiar de mais 2 oC. O maior desafio político de nossos dias é não ultrapassar o nível catastrófico de um aquecimento médio global superior a 3 oC.

Mas esse desafio não inquieta sobremaneira outra “família” de negacionistas da ciência. É a família dos que não negam o perigo, mas, igualmente iludidos por esse “falso senso de segurança” de que fala Owen Gaffney, escolhem acreditar que ele não é iminente e que é, portanto, possível superá-lo, regulando habilmente o mercado com boas políticas econômicas, tais como fim dos subsídios aos combustíveis fósseis, impostos sobre as emissões de carbono (carbon tax), recompensas às empresas ambientalmente “virtuosas” etc. Em seu entender não seria necessário, nem benéfico e nem mesmo possível (dado não haver, para eles, alternativa ao capitalismo global), operar mudanças estruturais na economia global, a começar pelo abandono dos princípios básicos que regem o comportamento dos “mercados”: a acumulação de capital, a globalização da economia e o crescimento constante do consumo de energia e de bens (apropriados sobretudo pelos 10% mais ricos da humanidade). Acreditam eles que, corrigidas suas “distorções”, mercados bem geridos por economistas ambientalistas se tornariam capazes: a. de promover saltos sucessivos de eficiência energética, com simultânea diminuição da pressão humana sobre o meio ambiente (decoupling) e b. uma rápida transição da matriz fóssil para energias renováveis e de baixo carbono, condição primeira de possibilidade de qualquer afrontamento das ameaças em pauta.

Essas e outras tentativas de negar ou relativizar a gravidade extrema e o perigo iminente das crises ambientais atuais são frontalmente contraditas pela simples observação desarmada dos fatos, pelos números e pelos enunciados básicos do consenso científico internacional. Basta um exame rápido das evidências disponíveis sobre a evolução histórica e as projeções para os próximos decênios das crises acima evocadas para percebermos o infundado dessas tentativas. Diante da inadiável necessidade de mudanças estruturais na economia global, toda tentativa de protelar uma reação política à altura do que a gravidade extrema de nossa situação impõe constitui-se imediatamente como parte do problema.

Próximo artigo da série: 1. Mudanças climáticas


[I] Cf. Q&A on the carcinogenicity of the consumption of red meat and processed meat”. OMS, outubro de 2015..

[II] Cf. J. Poore, T. Nemecek, “Reducing food’s environmental impacts through producers and consumers”. Science, 1/VI/2018.

[III] Cf. “Pecuária é responsável por mais de 80% do desmatamento no Brasil”. Amazônia. Notícia e Informação, 6/IX/2016.

[IV] Veja-se OECD. Stat https://stats.oecd.org/index.aspx?queryid=60703.

[V] “We are knowingly meandering into a failed future”. Citado por Terry Macalister, “Complacency threatens climate change action”. Climate News Network, 6/IV/2017.

[VI] Cf. <http://www.ucsusa.org/about/1992-world-scientists.html>.

[VII] Veja-se a respeito, L. Marques, “Por uma Universidade implicada na agenda de nosso tempo”. Jornal da Unicamp, 14/VIII/2017.

[VIII] Cf. W. Steffen et al., “Planetary boundaries: Guiding human development on a changing planet”. Science, 15/I/2015.

[IX] Veja-se a respeito Erik M. Conway & Naomi Oreskes, Merchants of doubt. How a Handful of Scientists Obscured the Truth on Issues from Tobacco Smoke to Global Warming. Nova York, 2010.

[X] http://reports.weforum.org/global-risks-2018/global-risks-of-highest-concern-for-doing-business-2018/.

[XI] Cf. O. Gaffney, “Anthropocene now”. New Scientist, 22/IV/2017, pp. 24-25.

[XII] Cf. L. Marques, “Tarde demais para 3 oC?” Jornal da Unicamp, 21/XI/2017.



Luiz Marques é professor livre-docente do Departamento de História do IFCH /Unicamp. Pela editora da Unicamp, publicou Giorgio Vasari, Vida de Michelangelo (1568), 2011 e Capitalismo e Colapso ambiental, 2015, 2aedição, 2016. Coordena a coleção Palavra da Arte, dedicada às fontes da historiografia artística, e participa com outros colegas do coletivo Crisálida, Crises SocioAmbientais Labor Interdisciplinar Debate & Atualização(crisalida.eco.br).


Do Jornal da UNICAMP, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/06/2018




Autor: Jornal da UNICAMP
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 13/06/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/06/13/decrescimento-uma-perspectiva-de-esquerda-sobre-as-crises-socioambientais-parte-16-analise-de-luiz-marques-ifchunicamp/

sexta-feira, 6 de abril de 2018

A IPBES e o declínio da biodiversidade; análise de Luiz Marques (IFCH/Unicamp)

“Estamos decepcionando nossos jovens, sem dúvida alguma. Certamente o mundo natural não é hoje tão rico quanto quando eu era menino” [I]. Essa é a ideia geral que Sir David Attenborough exprime em seu artigo publicado num fascículo da revista New Scientist do mês passado. Neste mesmo mês de março, uma coalizão de ONGs dos EUA publicou um relatório, intitulado Reversing America’s Wildlife Crisis, no qual afirma [II]: “Uma avaliação dos mais conhecidos grupos de plantas e animais indica que um terço das espécies dos EUA está vulnerável, com uma em cinco espécies considerada em perigo e em alto risco de extinção. Preocupações sobre declínio e perda de espécies não são hipotéticas: mais de 150 espécies dos EUA já se extinguiram, enquanto outras 500 estão “desaparecidas” e podem também estar extintas”. Collin O’Mara, diretora executiva da National Wildlife Federation, retoma a mensagem de Attenborough: “A vida selvagem nos EUA está em crise. Peixes, aves, mamíferos, répteis e invertebrados estão, todos, declinando. Devemos a nossos filhos e netos evitar que essas espécies desapareçam da Terra”.

Outras notícias do mês de março

No dia 20, o CNRS e o Muséum d’histoire naturelle, em Paris, anunciaram num comunicado comum que “os pássaros das zonas rurais da França desaparecem a uma velocidade vertiginosa”. Trata-se de um “desaparecimento em massa, próximo da catástrofe ecológica”, já que, “em média, suas populações reduziram-se em um terço em quinze anos”. Esse declínio, mais pronunciado a partir de 2008, é atribuído a um modelo agrícola insustentável e, nomeadamente, ao uso generalizado dos neonicotinoides, uma classe de pesticidas neurotóxicos e muito persistentes, culpado também pelo declínio das abelhas e da rarefação dos insetos em geral [III]. Também no dia 20 noticiou-se a morte de Sudan, o último macho da subespécie Rinoceronte-branco do norte (Ceratotherium simum cottoni), a respeito da qual Zacharia Mutai, guarda florestal no Quênia, declarou: “Tão triste! Acabamos por perder tais subespécies por causa do fracasso humano” [IV]. Sempre em março, os jornais trouxeram a notícia de que, em menos de cinco meses, desde novembro de 2017, cinco navios japoneses, verdadeiros “matadouros flutuantes”, como bem os qualifica a ONG Sea Shepherd, mataram 333 baleias na Antártida. Malgrado a moratória da caça à baleia de 1986 e a condenação do Japão pela Corte Internacional de Justiça em 2014, esse país continua a exterminá-las sob o absurdo e cínico pretexto de “pesquisa científica” [V]. Seguindo o exemplo japonês, a Noruega acaba de aumentar em 28% a cota de caça desses magníficos animais, fixando-a doravante em 1.278 espécimes [VI].

Outras notícias sobre o declínio vertiginoso da biodiversidade no mundo todo foram dadas a público neste mês de março de 2018. A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) reportou que 43% das espécies de água doce avaliadas em Madagascar e nas ilhas do Oceano Índico estão ameaçadas de extinção [VII]. Alertou também que 18% dos besouros saproxílicos (que se alimentam de madeira em decomposição) europeus estão em risco de extinção justamente por causa da escassez crescente de velhas árvores nesse continente [VIII]. Por outro lado, o saldo mortífero provisório do derramamento de 550 barris de petróleo na Colômbia, ocorrido em início de março, é de 2.400 peixes, aves e répteis [IX], mas, como é de regra nesse tipo de catástrofe, é provável que o impacto final seja muito maior. Enfim, em 3 de março último, Edward O. Wilson voltou a defender a proposta de manter metade da superfície terrestre e metade dos oceanos ao abrigo da atividade humana (o chamado Half-Earth Project). Essa proposta, tão imprescindível quanto improvável, a prevalecer a máquina trituradora do capitalismo, seria a única capaz de deter a sexta extinção em massa das espécies atualmente em curso, que Wilson assim quantifica: “A extinção de espécies pela atividade humana continua a se acelerar, e deve eliminar mais da metade de todas as espécies ao final deste século” [X].

Plenária da IPBES ocorrida na Colômbia: referência na avaliação do declínio da biodiversidade

Seria possível fornecer muitos outros exemplos de declínio da biodiversidade reportados nos últimos 30 dias, mas o que se leu até aqui basta para dar uma ideia do contexto preciso em que se inserem dois relatórios que a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) divulgou em março último, após aprová-los em sua 6ª Plenária, realizada em Medellín, na Colômbia. São eles:

(1) Land Degradation and Restoration Assessment (Avaliação da Degradação e Restauração dos Solos), cujo comunicado de imprensa afirma em seu título: “A degradação dos solos em piora no mundo todo atingiu agora um estado ‘crítico’, minando o bem-estar de 3,2 bilhões de pessoas” (Worsening Worldwide Land Degradation Now ‘Critical’, Undermining Well-Being of 3.2 Billion People).

(2) Quatro avaliações regionais sobre a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos, cobrindo a África, as Américas, a Europa & Ásia Central e a região Ásia-Pacífico. A avaliação das Américas foi coordenada por Jake Rice (Canadá), por María Elena Zaccagnini (Argentina) e por Cristiana Simão Seixas, do NEPAM/Unicamp. Essa equipe de coordenadores trabalhou sob a orientação do Multidisciplinary Expert Panel do IPBES, do qual faz parte Carlos A. Joly, também da Unicamp. Esses quatro relatórios regionais devem ser incorporados a uma Avaliação Global sobre a Biodiversidade a ser publicada até 2019.

O que é a IPBES?

Por ser muito mais jovem que o IPCC, que conta em seus 30 anos de existência cinco relatórios de avaliação das mudanças climáticas, a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, por Intergovernmental science-policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services) é menos conhecida do grande público. Ela foi oficialmente estabelecidaapenas em 2012 por demanda dos governos e posta sob os auspícios de quatro organismos da ONU [XI]. Mas em sua breve história de seis anos, a IPBES impôs-se como uma referência central na avaliação do declínio da biodiversidade, aspecto central das crises socioambientais em que as sociedades contemporâneas vão naufragando. Das Plenárias anuais dessa Plataforma, seu órgão deliberativo máximo, participam hoje 129 países como membros plenos e demais participantes com estatuto de observadores, entre os quais 68 países ainda não membros, a Convenção sobre a Diversidade Biológica (CBD) e outras Convenções internacionais igualmente relacionadas com a biodiversidade, além de agências e ONGs credenciadas. Eis como a IPBES, que tem por lema “Ciência e Política para a Natureza e para as Pessoas”, define sua razão de ser e seus objetivos [XII]:

A IPBES “fornece aos governos avaliações científicas objetivas sobre o estado do conhecimento relativo à biodiversidade do planeta, aos ecossistemas e aos benefícios que eles proporcionam às pessoas. Fornece aos governos também os instrumentos e os métodos para proteger e usar sustentavelmente esses ativos naturais vitais. Nossa missão é fortalecer os fundamentos do conhecimento para uma melhor governança informada pela ciência, para a conservação e o uso sustentável da biodiversidade, o bem-estar humano a longo prazo e o desenvolvimento sustentável. Em certa medida, o IPBES faz para o biodiversidade o que o IPCC faz para as mudanças climáticas”.

Avaliação da Degradação e Restauração dos Solos

Eis o que afirma in nuce essa avaliação [XIII]: a degradação dos solos em constante piora causada pelas atividades humanas “está levando espécies à extinção e intensificando as mudanças climáticas. Ela é também um fator maior das migrações humanas em massa e da intensificação dos conflitos”. O relatório identifica claramente a causa maior desse processo:

“A rápida expansão e a gestão insustentável das culturas agrícolas e das pastagens são o motor global mais extenso da degradação dos solos, causando perda significativa da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos: segurança alimentar, purificação da água, fornecimento de energia e outras contribuições da natureza essenciais às pessoas. Esse processo atingiu níveis ‘críticos’ em muitas partes do mundo. (…) Até 2014, mais de 1,5 bilhão de hectares tinham sido convertidos em terrenos de cultura agrícola. Menos de 25% da superfície terrestre do planeta escapou de impactos substanciais da atividade humana, e até 2050 essa porcentagem terá caído para menos de 10%. Áreas agrícolas e pastagens cobrem agora mais de um terço da superfície terrestre do planeta, sendo que as devastações recentes de habitats nativos – florestas, savanas e pântanos – vêm se concentrando em alguns dos ecossistemas mais ricos em espécies do planeta”.

O relatório projeta que o uso de fertilizantes e agrotóxicos deve dobrar até 2050 e recomenda transitarmos para dietas baseadas em plantas e com menor participação de proteínas animais, já que há uma relação direta entre desmatamento e avanço da pecuária, especialmente no caso brasileiro.

Quatro avaliações regionais da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos

Ao longo de três anos, um coletivo de cientistas especializados nas várias áreas da biodiversidade compilou e reviu milhares de trabalhos científicos, de modo a elaborar essas quatro avaliações regionais. Elas levam em consideração os resultados da Lista Vermelha das espécies ameaçadas de extinção da IUCN, trazem elementos novos e/ou atribuem a força de um mais amplo consenso científico aos estudos sobre o declínio da biodiversidade global, tal como, por exemplo, o Living Planet Index, subscrito por Johan Rockström e Marco Lambertini, diretores do Stockholm Resilience Centre e do WWF, respectivamente [XIV]. Embora a apreciação conjunta dessas quatro avaliações regionais seja essencial para se fazer uma ideia do estado da questão, o espaço aqui disponível só consente uma pequena seleção de três parágrafos, a meu ver entre os mais significativos, dos resultados da avaliação das Américas [XV].

(1) “A biodiversidade e as condições dos ecossistemas em muitas partes das Américas estão declinando, o que resulta em redução das contribuições da natureza à qualidade de vida das pessoas. Nas Américas, 65% das contribuições da natureza estão declinando em todas as unidades de análise, com 21% delas declinando fortemente. (…) Perto de um quarto das 14 mil espécies em seus grupos taxonômicos abrangentemente avaliadas nas Américas pela IUCN são consideradas em alto risco de extinção. O risco de populações ou espécies ameaçadas com perda ou extinção está crescendo nos habitats terrestres, costeiros, marinhos e de água doce. Dos grupos de espécies endêmicas avaliadas, estão em alto risco de extinção mais da metade das espécies do Caribe, mais de 40% na América Central e cerca de um quarto na América do Norte e do Sul”. (p. 4)

(2) “De 2014 a 2015, cerca de 1,5 milhão de hectares das Grandes Planícies [dos EUA] foram perdidos por conversão ou reconversão [à agropecuária]. Entre 2003 e 2013, a fronteira agrícola do NE do Brasil mais que duplicou, de 1,2 a 2,5 milhões de hectares, com 74% das novas áreas agrícolas tomadas do Cerrado ainda intacto nesta específica região. E as terras secas da América do Norte perderam 15% a 60% de seus habitats entre 2000 e 2009. Mesmo habitats relativamente bem conservados situados em maiores altitudes foram degradados” (p. 17).

(3) “Estima-se que cerca de 30% da abundância média das espécies nas Américas foi perdida nas Américas desde o início da colonização europeia até 2010. A despeito de reduções reportadas na taxa de degradação em algumas unidades de análise, o resultado integrado de uma sequência de modelos é que a perda deve continuar até 2050 e após, sendo o avanço da agropecuária (land use change) e as mudanças climáticas os motores dominantes desse processo, comparados com outros fatores como a extração de madeira e a urbanização” (p. 20).

O declínio pronunciado da biodiversidade nessa região do globo é, como se vê, bem estabelecido e os principais fatores do declínio são, como sempre, o desmatamento e o avanço da fronteira agropecuária.

O relatório de 2016 sobre os polinizadores

Não se pode passar em silêncio o fato de que já em 2016, provavelmente sob o impacto do atual Distúrbio do colapso das colônias de abelhas, a IPBES publicou sua primeira grande avaliação sobre a crise dos polinizadores [XVI]. Entre os resultados essenciais dessa primeira avaliação estão:

(1) Entre 94% (nas zonas tropicais) e 78% (nas zonas temperadas) das espécies selvagens de plantas com florações (aproximadamente 308.000 espécies) dependem, ao menos em parte, da transferência de pólens por animais para a sua reprodução. Essas plantas são essenciais para o funcionamento dos ecossistemas.

(2) Dos 107 principais tipos de culturas agrícolas globais destinadas à alimentação, 91 (frutas, sementes e oleaginosas) dependem em certa medida de polinização animal para sua produtividade e/ou qualidade.

(3) A polinização animal é diretamente responsável por 5% a 8% da produção agrícola global por volume. Essas porcentagens, que seriam perdidas sem polinizadores, incluem produtos contendo micronutrientes fundamentais da dieta humana, como vitamina A, ferro e ácido fólico, essencial, por exemplo, para a formação do sistema nervoso do feto.

(4) Polinizadores silvestres declinaram em ocorrência e diversidade (e abundância para certas espécies) no NO da Europa e na América do Norte. Não há dados gerais para a América Latina, África, Ásia e Oceania, mas foram registrados declínios locais nessas regiões.

(5) A Lista Vermelha das espécies ameaçadas de extinção da IUCN indica que 16% dos polinizadores vertebrados estão ameaçados de extinção global e 30% das espécies encontradas em ilhas, com tendência a mais extinções. Avaliações nacionais e regionais indicam altos níveis de ameaça para abelhas e borboletas. Na Europa, 9% das espécies de abelhas e de borboletas estão ameaçadas. As populações de 37% das espécies de abelhas e de 31% das borboletas estão declinando. Onde há dados disponíveis, há indicações de que, frequentemente, mais de 40% das espécies de abelhas podem estar ameaçadas de extinção.

(6) A abundância, diversidade e a saúde dos polinizadores estão ameaçadas por desmatamento, agricultura intensiva, mudanças climáticas e pesticidas, incluindo inseticidas neonicotinoides, que ameaçam os polinizadores em todo o mundo. O relatório alerta que, “ultrapassado o limiar [de resiliência] de um sistema, as populações de polinizadores podem colapsar simultaneamente” (p. 245).

O denominador comum desses três relatórios científicos

Esses três relatórios dão maior profundidade e infundem maior peso científico à percepção de que estamos em trajetória de colapso da abundância e da variedade das formas de vida da natureza. Eles detectam também o principal responsável pela aceleração desse processo: a espiral expansiva da atividade econômica e, em especial, o agronegócio global, motor direto da degradação dos solos, do declínio abrupto dos polinizadores e do declínio em curso da biodiversidade, bem como dos recursos hídricos. Os três relatórios desmentem categoricamente o autorretrato positivo que o agronegócio global, e em particular no Brasil, tenta vender à sociedade. Bem ao contrário de ser uma atividade imprescindível para a segurança alimentar e para a saúde da humanidade, o agronegócio é – juntamente com a indústria de combustíveis fósseis, a mineração e a pesca industrial – a causa maior, não apenas da insegurança alimentar que, segundo a FAO, retoma agora sua linha ascendente [XVII], mas do declínio cada vez mais perigoso da biodiversidade. Os fazendeiros brasileiros que intoxicam com fertilizantes e pesticidas os solos, a atmosfera, a água e os alimentos – após desmatar e matar os que lhes resistem [XVIII] – são uma peça na engrenagem da rede de megacorporações que controlam o sistema de produção e negociação especulativa de soft commodities, das sementes ao consumo final, passando pelo financiamento, os fertilizantes, os agrotóxicos, a maquinaria e o transporte, que rasga e fragmenta o que resta da manta florestal. Segundo Sir Robert Watson, diretor do IPBES: “a degradação dos solos, a perda da biodiversidade e as mudanças climáticas são três diferentes faces do mesmo desafio central: o impacto crescentemente perigoso de nossas escolhas em relação à saúde de nosso meio ambiente. Não podemos nos permitir atacar apenas uma dessas ameaças isoladamente. Cada uma delas merece a mais alta prioridade política e deve ser avaliada em conjunto”.

Mantidas essas escolhas suicidas apontadas pelo diretor do IPBES, mantido em suma o modelo econômico capitalista – global, carnívoro, poluente, excludente, antidemocrático e devastador da natureza – quanto restará de esperança para o que resta da biodiversidade? Há que se apostar na incerteza de que ainda não cruzamos o ponto de não retorno do declínio em curso da biodiversidade, de modo que há motivos para nutrir esperanças, se agirmos politicamente já para deter essa espiral destrutiva. Disto, em todo o caso, podemos estar certos: não há colapso da biodiversidade sem correlativo colapso de nossas sociedades como um todo. Essa é a mensagem política – convergente, inequívoca e incontornável – desses três fundamentais relatórios científicos da IPBES.

[I] Cf. David Attenborough, “It’s time we humans came to our senses”. New Scientist, 29/III/2018: “We are letting down our young people, there is no doubt about that. Certainly the natural world is not as rich as it was when I was a boy”.

[II] Cf. B. A. Stein, N. Edelson, L. Anderson, J. Kanter & J. Stemler, Reversing America’s Wildlife Crisis: Securing the Future of Our Fish and Wildlife. Washington, DC: National Wildlife Federation, Março de 2018: “An assessment of the best-known groups of U.S. plants and animals indicates that as many as one-third of America’s species are vulnerable, with one in five imperiled and at high risk of extinction. Concerns about species decline and loss are not hypothetical: more than 150 U.S. species already have gone extinct, while another 500 are “missing in action” and may also be extinct”.

[III] Cf. Stéphane Foucart, “Les oiseaux disparaissent des campagnes françaises à une ‘vitesse vertigineuse’. Le Monde, 20/III/2018.

[IV] Cf. Rachel Nuwer, “Sudan, the Last Male Northern White Rhino, Dies in Kenya”. The New York Times, 20/III/2018.

[V] Chasse à la baleine: le Japon tue 333 cétacés dans l’Antartique. Le Monde, 31/III/2018.

[VI] Chasse à la baleine: la Norvège augmente ses quotas pour relancer l’activité. Le Monde, 7/III/2018.

[VII] Cf. L. Máiz-Tomé, C. Sayer & W. Darwall (editores), The status and distribution of freshwater biodiversity in Madagascar and the Indian Ocean islands hotspot. Gland, IUCN, 2018, 128pp.

[VIII] Cf. “Loss of old trees threatens survival of wood-dependent beetles”. IUCN Red List, 5/III/2018.

[IX] Cf. Lorraine Chow, “More Than 2,400 Animals Killed by Oil Spill in Colombia”. EcoWatch, 27/III/2017.

[X] Cf. Edward O. Wilson, “The 8 Million Species We Don’t Know”. The New York Times, 3/III/2018.

[XI] A IPBES é posta sob os auspícios da UNESCO, FAO, PNUD e PNUMA, que a administra.

[XII] “It provides policymakers with objective scientific assessments about the state of knowledge regarding the planet’s biodiversity, ecosystems and the benefits they provide to people, as well as the tools and methods to protect and sustainably use these vital natural assets. Our mission is to strengthen knowledge foundations for better policy through science, for the conservation and sustainable use of biodiversity, long-term human well-being and sustainable development. To some extent IPBES does for biodiversity what the IPCC does for climate change”. Veja-se https://www.ipbes.net/about.

[XIII] Veja-se: https://www.ipbes.net/news/media-release-worsening-worldwide-land-degradation-now-%E2%80%98critical%E2%80%99-undermining-well-being-32.

[XIV] Cf. WWF, Living Planet Index 2016. Risk and resilience in a new era

[XV] Cf. J. Rice, C.S. Seixas, M.E. Zaccagnini, M. Bedoya-Gaitán, N. Valderrama, C.B. Anderson, M.T.K. Arroyo, M. Bustamante, J. Cavender-Bares, A. Diaz-de-Leon, S. Fennessy, J. R. García Marquez, K. Garcia, E.H. Helmer, B. Herrera, B. Klatt, J.P. Ometo, V. Rodriguez Osuna, F.R. Scarano, S. Schill and J. S. Farinaci (eds.), Summary for policymakers of the regional assessment report on biodiversity and ecosystem services for the Americas of the In tergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services. IPBES, Bonn, 2018, 36 páginas.

[XVI] Cf. IPBES, The assessment report on pollinators, pollination and food production. Simon G. Potts, Vera L. Imperatriz-Fonseca & Hien T. Ngo, (editores), Bonn, 2016, 552 páginas.

[XVII] Cf. FAO, IFAD, UNICEF, WFP and WHO, The State of Food Security and Nutrition in the World 2017. Building resilience for peace and food security. Roma, FAO, 2017. Eis duas mensagens fundamentais desse relatório: (1) “Após um prolongado declínio, a fome em escala mundial voltou a crescer. Estima-se que o número de pessoas subnutridas aumentou para 815 milhões em 2016, de 777 milhões em 2015”; (2) “Quase um terço (33%) das mulheres em idade reprodutiva sofrem de anemia, o que também coloca em risco a nutrição e a saúde de muitas crianças”.

[XVIII] Ou tentar matar, como é o caso recente de Raoni Valle. Cf. “Attack on Brazilian Raoni Valle”, The International Society for Ecological Economics, 26/III/2018: em 9 de março último, esse premiado documentarista, arqueólogo, ativista e Professor da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) escapou por um triz de uma tentativa de assassinato por armas de fogo em sua casa, em Alter do Chão, no Pará. O atentado deve-se, ao que tudo indica, à sua atuação em defesa dos índios Mundukuru e dos extrativistas.


Do Jornal da Unicamp, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 06/04/2018



Autor: Jornal da Unicamp
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 06/04/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/04/06/a-ipbes-e-o-declinio-da-biodiversidade-analise-de-luiz-marques-ifchunicamp/

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Dispositivo portátil identifica presença de mercúrio no ar

Pesquisadores da Unicamp, em parceria com a Universidade de Victoria (Canadá) e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), desenvolveram um amostrador capaz de medir a quantidade de mercúrio presente no ar e, assim, verificar se uma determinada área está contaminada com o metal. Enriquecido com nanopartículas de ouro em vidro poroso, o dispositivo tem o tamanho de um botão e, em contato com o mercúrio, tem sua coloração modificada.

A tecnologia pode auxiliar no controle da saúde da população que reside no entorno de regiões onde há mineração de ouro. A ideia é que os trabalhadores do setor de mineração passem a utilizar o dispositivo acoplado a suas roupas. A pesquisa foi divulgada, no último dia 28 de novembro, pelo periódico científico Scientific Reports, publicação do grupo Nature.

Embora o foco da tecnologia seja a contaminação presente no ar, ela poderia ser utilizada, por exemplo, para avaliar a exposição ao mercúrio de populações que vivem ao redor do Rio Xingu, na região Amazônica. Uma pesquisa conduzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e pelo Instituto Socioambiental (ISA) constatou que algumas aldeias indígenas chegam a ter 92% de sua população contaminada por mercúrio. Neste caso, boa parte da contaminação se dá pela água, por meio da presença do metal em peixes consumidos pelos indígenas. Contudo, os pesquisadores lembram que o mercúrio presente no ar também é um agravante para a situação.

“Eles não estão explorando o ouro, mas estão em uma área próxima da exploração e o mercúrio acaba chegando lá”, contextualiza o professor Ítalo Odone Mazali, do Instituto de Química (IQ) da Unicamp, e um dos responsáveis pelos estudos. “A população mais exposta ao mercúrio gasoso são os garimpeiros. Mas esse mercúrio lançado no ar vai ser depositado à curta, média ou longa distância (milhares de km). Quando o mercúrio é depositado na água, ele acaba sendo incorporado à cadeia alimentar”, conta a professora Anne Hélène Fostier, também do IQ e com participação de destaque no estudo.


Da esq. para a dir., os pesquisadores Ítalo Odone Mazali, Elias de Barros Santos e Anne Hélène Fostier

Após a exposição, o dispositivo é fotografado e, com a ajuda da câmera de um celular, as imagens são avaliadas por meio do sistema RGB (Red Green Blue), para quantificar o metal a que o amostrador – e, consequentemente, o trabalhador – foi exposto. “A gente associou a intensidade de cor com a quantidade de mercúrio. Quanto maior a contaminação, mais intensa ficará a cor do amostrador”, explica o professor Mazali.

Colocado à prova, o sensor já foi testado por trabalhadores da mineração em Burkina Faso, na África, e mostrou ser bastante eficiente. Os testes comprovaram que a exposição ao mercúrio gasoso era superior à quantidade estabelecida pela OSHA (Occupational Safety and Health Administration). De acordo com o órgão, o limite máximo de exposição permitida para o vapor de mercúrio é de 0,1 mg/m3 de ar. Em campo, a pesquisa constatou a presença de 30 a 555 nanogramas de mercúrio, número bem superior ao estipulado pela OSHA.

Com participação do professor Elias de Barros Santos, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), durante seu projeto de pós-dourado pela Universidade de Victoria, os testes foram realizados em uma mina de Burkina Faso, na África. “Ele foi aplicado em um ambiente bem contaminado, em uma mina de extração na África. Durante a extração artesanal de ouro, os mineiros usam mercúrio como amalgamador (utilizado na separação de ligas metálicas). Depois disso, para separar o ouro da amálgama, é preciso que essa mistura seja aquecida a 400 graus Celsius. Esse aquecimento faz com que o mercúrio evapore e seja inalado pelos trabalhadores”, conta Santos.

Os docentes salientam que a situação precária e insalubre a que os profissionais da mineração são expostos, sem nenhum tipo de preparo para lidar com a exposição ao mercúrio, é um problema mundial. “A estimativa é que existam 20 milhões de pessoas, espalhadas pela América Latina, África e Ásia, trabalhando nessas condições. O ambiente é bem inóspito. Além disso, tem famílias com crianças que vivem nesses garimpos e que estão expostas a esse ambiente”, alerta Santos.


Monitoramento de contaminação de mineradores em Burkina Faso, onde parte da pesquisa foi desenvolvida | Foto: Divulgação

“Atualmente, boa parte dos trabalhadores sabe que o mercúrio é perigoso, mas não tem outra alternativa. É importante que eles possam ser monitorados para ver a quais níveis estão sendo expostos. A tecnologia pode ser utilizada também por profissionais das usinas de reciclagem de lâmpadas fluoerescentes, que também tem risco de exposição ao gás”, ressalta a professora Anne Hélène. Dentre os problemas de saúde ocasionados pela contaminação por mercúrio, estão o nervosismo, ansiedade, irritabilidade, mudanças de humor, agressividade, confusão mental, insônia, lapsos de memória, enxaqueca, alucinações, tendência a cometer suicídio, tontura e labirintite.

Vale salientar que, hoje em dia, não há tecnologia semelhante no mercado. “Os sistemas que medem o mercúrio na atmosfera, hoje, são muito mais sofisticados, mais caros e que precisam de uma fonte de energia fixa e de gases especiais para funcionar, permitindo uma única medida naquele momento”, completa Anne. Além de ser um amostrador portátil e que permite obter resultados em poucos minutos, a tecnologia tem como diferencial o fato de ser barata e reutilizável. Os responsáveis pelos estudos estimam o custo para obtenção do dispositivo em menos de 2 dólares. “O sensoriamento é fácil, sendo necessário apenas um celular e um programa que faça convolução em RGB, permitindo acompanhar o nível de exposição total”, defende Mazali.

Autor: CAROLINA OCTAVIANO 
Fonte: Unicamp
Sítio Online da Publicação: Unicamp
Data de Publicação: 20/12/2017
Publicação Original: https://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2017/12/20/dispositivo-portatil-identifica-presenca-de-mercurio-no-ar

Uma nova tentativa para deter o câncer de pâncreas



Wagner José Fávaro, orientador do estudo: buscando associações terapêuticas para tumores

O câncer de pâncreas, um dos mais agressivos, é responsável por cerca de 5% das mortes por tumores em todo o mundo. Dependendo do tipo e do tempo decorrido para o diagnóstico, a sobrevida do paciente é baixíssima e as alternativas terapêuticas escassas, devido a metástases e ao comprometimento funcional de outros órgãos, particularmente do fígado. Inquietado pela agressividade desse tumor, o professor Wagner José Fávaro, do Departamento de Biologia Estrutural e Funcional do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, orientou pesquisa visando caracterizar a histopatologia e a progressão da doença, bem como comparar os efeitos da imunoterapia associada à quimioterapia sobre ela.

O estudo verificando o papel da imunoterapia, que utiliza o sistema imunológico do indivíduo no combate à doença, e a ação da quimioterapia na distribuição das células tumorais, foi realizado em 50 animais de laboratório. Os resultados mostraram que a associação de imunoterapia e quimioterapia para o tratamento do câncer do pâncreas levou à redução de 80% do tumor nesses animais, podendo contribuir para o desenvolvimento de uma nova modalidade terapêutica para esta doença. O trabalho culminou na dissertação de mestrado de Mariana Martins dos Santos (bolsa Capes), que contou com a colaboração em nível de iniciação cientifica de Maísa Massafera (bolsa Fapesp) e a coorientação do professor Patrick Vianna Garcia, também do IB.

Wagner Fávaro explica que nos casos de câncer de pâncreas em que a intervenção cirúrgica não é possível, resta apenas a quimioterapia, que não encontra resposta para 40% a 60% dos pacientes, ou exigem a aplicação de uma associação de quimioterápicos. Entretanto, como esse tumor tem a capacidade de se propagar rapidamente para outros órgãos, e sendo o fígado seu primeiro alvo, o comprometimento hepático restringe muito a utilização de tais medicamentos.

Por isso, a preocupação nessa pesquisa de verificar primeiramente a possibilidade de combater o tumor ativando o sistema imunológico do individuo. Foi utilizado um fármaco que ativa os receptores do sistema imune e cria condições potenciais de ataque ao tumor. Tal terapêutica, que já se revela eficaz para outros tumores, ainda não havia sido estudada para o câncer de pâncreas. Acrescente-se que, apesar dos muitos fármacos desenvolvidos para atuar sobre cânceres, poucos são efetivos para este órgão.

O trabalho

Diante desse quadro, Fávaro se colocou algumas questões: a ativação do sistema imunológico determinaria o ataque às células tumorais pancreáticas de forma a levar à melhora do paciente?; a associação da imunoterapia e da quimioterapia poderia determinar resultados mais efetivos no ataque a esse tipo de tumor?; ou, ainda, essa associação poderia viabilizar, quanto necessário, a redução da dose do quimioterápico, minimizando seu efeito tóxico, que se manifesta na destruição inclusive das células sadias?.

Procurando responder a esses questionamentos, foram utilizados o imunomodulador P-MAPA (sigla em inglês para agregado polimérico de fosfolinoleato-palmitoleato de magnésio e amônio proteico), produto proveniente do fungo Aspergillus oryzae, substância ainda não comercializada, e o quimioterápico gemcitabina, já bastante conhecido. “A nossa surpresa foi que os tumores de pâncreas são sensíveis à ativação local do sistema imune e essa resposta se mostra até um pouco superior e mais efetiva que a quimioterapia, mas não suficiente. Mas quando associada à quimioterapia, leva à redução de 80% dos tumores induzidos nos animais estudados”.

A explicação, acrescenta o pesquisador, é que o imunomodulador, ao alcançar o tecido tumoral, desencadeia uma resposta inflamatória mais exacerbada contra as células tumorais, mecanismo natural do organismo no ataque a corpos que lhe são estranhos. Além de ativar o sistema imune do tecido capaz de atacar o tumor, o imunomodulador reduz os vasos sanguíneos que o nutrem. Paralelamente, a quimioterapia, que possui outro mecanismo, destrói as células doentes e interrompe a produção de novas células tumorais. Essa associação terapêutica mostrou-se muito efetiva, reduzindo e detendo o câncer. Para ele, o trabalho abre perspectiva para aplicação dessa associação terapêutica em humanos, possibilitando prolongar e melhorar a qualidade de vida do paciente.

Segundo o docente do IB, o próximo passo previsto envolve o teste de sobrevida, ainda em animais, a fim de determinar o tempo que o tumor leva para voltar a se manifestar depois de interrompida a medicação, o que servirá inclusive para estabelecer o período em que ela precisa ser aplicada. Há ainda necessidade de testar a terapêutica em outros animais com características semelhantes.


Pesquisadores trabalham no Departamento de Biologia Estrutural e Funcional do IB

Contexto multidisciplinar

O anatomista Wagner José Fávaro lidera o Laboratório de Carcinogênese Urogenital e Imunoterapia do IB, que começou a trabalhar com tumores da próstata e bexiga urinária e depois expandiu os estudos para cânceres de ovário, mama, colorretal e pâncreas. Ele credita essa evolução e amplitude a parcerias que deram às pesquisas dimensões multidisciplinares. Entre elas, o professor menciona os trabalhos conjuntos com os setores de urooncologia e cirurgia do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp. Sua atuação docente se estende também à Faculdade de Ciências Médicas (FCM), ministrando aulas no curso de graduação e orientando alunos do Programa de Pós-graduação em Ciências da Cirurgia – onde efetivamente se desenvolveu essa dissertação sobre o câncer de pâncreas.

Outra contribuição que o pesquisador considera fundamental advém da parceria com o Laboratório de Química do Estado Sólido (LQES) e com o Laboratório de Química Biológica (LQB) coordenados, respectivamente, pelos professores Oswaldo Luiz Alves e Nelson Durán, ambos do Instituto de Química (IQ) da Unicamp. A partir de 2013 esses laboratórios se fundiram no Laboratório de Síntese de Nanoestruturas e Interação com Biossistemas (NanoBioss). Surgia, assim, um laboratório associado de referência do Sistema Nacional de Laboratórios em Nanotecnologias (SisNano), financiado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que reúne os maiores especialistas desta área no país.

A parceria com os profissionais do IQ tem levado ao desenvolvimento, para aplicação biológica, de novos fármacos, suas sínteses e caracterizações, o que vem possibilitando o emprego de novas associações terapêuticas para tumores. O pesquisador faz questão de enfatizar que “essas parcerias estão sempre voltadas para as necessidades da sociedade, retribuindo na forma de conhecimento o que o país gasta com suas universidades”.

Autor: CARMO GALLO NETTO
Fonte: Unicamp
Sítio Online da Publicação: Unicamp
Data de Publicação: 24/01/2018
Publicação Original: https://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2018/01/23/uma-nova-tentativa-para-deter-o-cancer-de-pancreas

Quando cientistas não bastam para fazer ciência

Foto: Antoninho PerriPeter Schulz foi professor do Institut














O de Física "Gleb Wataghin" (IFGW) da Unicamp durante 20 anos. Atualmente é professor titular da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, em Limeira. Além de artigos em periódicos especializados em Física e Cienciometria, dedica-se à divulgação científica e ao estudo de aspectos da interdisciplinaridade. Publicou o livro “A encruzilhada da nanotecnologia – inovação, tecnologia e riscos” (Vieira & Lent, 2009) e foi curador da exposição “Tão longe, tão perto – as telecomunicações e a sociedade”, no Museu de Arte Brasileira – FAAP, São Paulo (2010).

Na minha formação como físico, da graduação ao doutorado, nunca me deparei com uma disciplina sobre metodologia científica, tema que é mais presente nas grades curriculares em outras áreas do conhecimento, como vim a descobrir bem mais tarde. Interessava-me, juntos com alguns outros colegas naquele longínquo século XX, por filosofia e história das ciências, mas passamos ao largo de qualquer manual de metodologia científica. Assim se alguém perguntasse naquela época o que era ciência, não teria uma resposta pronta (como ainda não tenho), mas poderia enunciar um conjunto de crenças, regras e práticas próprias daquilo que estava aprendendo e fazendo e que uma comunidade reconhecia como ciência, afinal meus artigos estavam sendo aceitos em revistas internacionais. E como isso que fazíamos (e continuamos a fazer) diferencia-se do que não era chamado de ciência? A demarcação da ciência frente a outras formas do conhecimento ocupou (e ocupa) um respeitável time de filósofos da ciência, entre eles, por exemplo, Imre Lakatos (1922-1974), que ainda aparecerá em uma nota nessa coluna. Mas não é esse, pelo menos diretamente, o assunto desta coluna. No entanto, preciso mencionar que nos manuais de metodologia científica existe sim a preocupação de delimitar o conhecimento científico dos outros tipos de conhecimento: popular, religioso e filosófico; como descrito no capítulo três dos “Fundamentos de metodologia científica” de Marina de Andrade Marconi e Eva Maria Lakatos. Breves definições sobre esses tipos de conhecimento podem ser lidos aí, portanto não vou me estender na descrição dessas caixas separadas, mas no que sempre me despertou maior curiosidade: a comunicação entre elas.

Os contatos entre ciência e religião vão, dependendo do representante de cada campo, da hostilidade declarada e beligerante ao diálogo respeitoso, que reconhece os dois territórios do conhecimento. Como exemplo desse último tipo de contato, temos o debate epistolar entre o semiólogo (entre outras coisas) Umberto Eco e o cardeal Carlo Maria Mantini, que ficou conhecido como “Em que creem os que não creem?”. O diálogo é sobre Ética, mas Eco aborda diretamente a ciência em perguntas ao final de uma das suas cartas: “Qual é o estado atual do debate teológico a respeito, agora que a teologia não se mede já com a física aristotélica, a não ser, com as certezas (e as incertezas!) da ciência experimental moderna? Como bem sabe você, sob tais questões não subjaz, unicamente, uma reflexão sobre o problema do aborto, mas também, uma dramática série de problemas novíssimos, como a engenharia genética, por exemplo, ou a bioética, sobre a que hoje todos discutem, sejam crentes ou não. Qual é hoje a atitude do teólogo frente ao criacionismo clássico?” Mantini na carta resposta não aludiu diretamente a essas questões, mas começou a carta reafirmando: “Com toda razão recorda você, ao princípio de sua carta, o objetivo desta conversa epistolar. Trata-se de estabelecer um terreno de discussão comum entre laicos e católicos, confrontando também aqueles pontos nos quais não há consenso”.

Por outro lado, entre conhecimentos filosófico e científico o trânsito é bem mais intenso, ainda que um tanto assimétrico: o meu convívio acadêmico levou-me à percepção de que, em geral, os filósofos se interessam mais pela ciência do que os cientistas pela filosofia, o que é uma pena para estes últimos.

Não é, no entanto, as relações entre ciência e filosofia ou religião a questão central aqui, e sim a relação do conhecimento científico com o conhecimento popular, em particular os saberes tradicionais ou indígenas (indigenous knowledge). São muitas vezes saberes que correm risco de extinção junto com as línguas nas quais (ainda) são transmitidos, mas que, embora sejam “conhecimento não produzidos por meio de métodos de pesquisa tradicionais, podem ter valor científico”. Para não cair na armadilha da mera abstração, seguem três breves exemplos.

O primeiro eu aprendi lendo o artigo citado logo acima, que menciona como algumas tribos na Indonésia escaparam do Tsunami de 2004 (incluindo aí alguns grupos de turistas ocidentais), graças aos conhecimentos tradicionais passados oralmente de geração em geração. Não foi um caso isolado, como o relatório “Indigenous Knowledge for Disaster Risk Reduction” mostra em seus 18 estudos de caso. Esses exemplos, se por um lado reconhecem a importância do conhecimento tradicional, por outro lado tem um quê de objeto de estudo da ciência, ou seja, ainda uma assimetria, como nas outras relações.

O segundo exemplo é o dos parabotânicos na Amazônia, identificadores da biodiversidade da floresta, profissional cuja formação parte do conhecimento tradicional e que está em extinção. Nesse caso o conhecimento tradicional não só é reconhecido, mas é estratégico para viabilizar a pesquisa em si e até para que esta tenha credibilidade na comunidade científica internacional.

O último exemplo eu costumo apresentar nas aulas de Física sobre ondas, é uma pesquisa sobre a navegação através da “leitura do formato das ondas” em torno das ilhas Marshall no oceano Pacífico. Na primeira década deste século, as autoridades locais, preocupadas em promover o turismo, buscaram um meio de fazê-lo a partir do conhecimento tradicional de navegação com mapas de treliças de madeira, indicando as ondas e seus formatos, e conchas, identificando as ilhas, que refletem e refratam essas ondas. O sistema é eficiente, pois permite a navegação precisa por centenas de quilômetros, mas esse conhecimento tradicional estava se perdendo, pois poucos nativos ainda o detinham e sem nenhum estímulo para preservá-lo. Como resgatá-lo? Através de pesquisa conjunta entre portadores desse conhecimento tradicional, antropólogos para traduzir esse conhecimento e oceanógrafos com seus modelos computacionais da dinâmica marítima para comparar as ondas do conhecimento tradicional com as ondas da ciência. Resultado duplo: preservação através da ciência ocidental de um conhecimento tradicional, que ajuda a melhorar os modelos computacionais dos oceanógrafos. O artigo “Wave Navigation in the Marshall Islands – Comparing Indigenous and Western Knowledge of the Ocean” é também assinado por Korent Joel, um dos últimos navegadores tradicionais dessas ilhas da Micronésia. Uma rota mais simétrica entre diferentes tipos de conhecimento.

Autor: Unicamp
Fonte: Unicamp
Sítio Online da Publicação: Unicamp
Data de Publicação: 16/01/2018
Publicação Original: https://www.unicamp.br/unicamp/index.php/ju/artigos/peter-schulz/quando-cientistas-nao-bastam-para-fazer-ciencia

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Seminário discute políticas municipais de cultura




Com o intuito de promover um debate sobre ações e perspectivas da gestão em arte, o GEPETO (Grupo de Pesquisa Topologias do espetáculo: arte e identidade contemporâneas), o CNPq e o Instituto de Artes da Unicamp promovem o seminário “Pensando políticas municipais de cultura” no dia 30 de novembro, a partir das 9h, no Ciclo Básico II.

O encontro terá mini-palestras, debates, mesas-redondas com depoimentos e apresentação de cases de gestão em arte. Com ênfase nas artes da cena, o foco do evento serão as políticas municipais de cultura.

O seminário contará com a presença de Isaíra de Oliveira (SP), Rosangela Camolese (Piracicaba), Valquíria Vieira (SP), André de Araújo (Campinas), Arnaldo Siqueira (Recife), Douglas Novais (SP), Henrique Rochelle (SP), João Manoel Costa Neto (São Caetano do Sul), José Luiz de França Penna (SP), Fernando Hashimoto (Pró-Reitor/UNICAMP, Campinas) e Ney Carrasco(Campinas), além da participação de Cássia Navas e Aldo Valentim, ambos na coordenação técnica do evento.

Confira a programação completa abaixo.

MANHÃ (9h-12h30) Compartilhar experiências: pensar cultura, artes da cena e municípios
9h - 9h15

Abertura - Cássia Navas e Aldo Valentim

9h45 - 10h45
Cássia Navas (IA/UNICAMP) - Por que observar o modelo francês?
Arnaldo Siqueira (UFPE+ GEPETO) - O modelo de festivais de dança e teatro no Nordeste, o caso do Cumplicidades (Olinda + Recife)

11h - 12h
Público: da formação à fruição, existe políticas públicas sem cidadão ou arte sem público? - Isaíra de Oliveira (SENAC SP e Centro Paula Souza SP)
Recepção em artes da cena - Henrique Rochelle (GEPETO e site CRITICATIVIDADE)

12 - 12h30
Modelos de financiamento à cultura com foco no município - Aldo Valentim (SEC, SP + SENAC SP+ GEPETO)

TARDE (14h -18h) Painéis de políticas públicas, inspiração para o gestor municipal
14h - 15h30
Tenho praça, coreto, teatro: o que fazer com os meus equipamentos culturais, o exercício da programação
João Manoel Costa Neto (Secretário de Cultura de São Caetano do Sul)
Rosangela Camolese (Secretária- SEMAC, Secretaria Municipal de Ação Cultural, Piracicaba)

15h45 – 17h
Políticas três em 1: formação, qualificação e circulação. O exemplo do Programa de Qualificação em Artes (Ademar Guerra e Qualificação Dança)
Valquíria Vieira (GEPETO + Programa de Qualificação em Artes/Dança), Douglas Novais e André de Araújo (Programa de Qualificação em Artes/Ademar Guerra)


17 – 18h

Encerramento + relatos de trabalho do seminário
Fernando Hashimoto, Pró-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários, UNICAMP
Ney Carrasco - Secretário Municipal de Cultura, Campinas
José Luiz de França Penna - Secretário de Estado da Cultura, São Paulo



Mais informações estão disponíveis na página do evento.




Autora: unicamp
Fonte: unicamp
Sítio Online da Publicação: unicamp
Data de Publicação: 30/11/2017
Publicação Original: http://www.unicamp.br/unicamp/eventos/2017/11/07/seminario-discute-politicas-municipais-de-cultura

VI edição do Seminário Inovações em Atividades Curriculares começa no dia 30



A VI edição do Seminário Inovações em Atividades Curriculares ocorrerá do dia 30 de novembro ao dia 2 de dezembro no Centro de Convenções da Unicamp, a partir das 8h30. O objetivo do evento é discutir as várias facetas da inovação curricular como atividade pedagógica articulada.

Os temas discutidos serão: desenvolvimento profissional docente no ensino superior, condições para desenvolvimento de propostas inovadoras de ensino-aprendizagem e trocas de experiências em inovações curriculares desenvolvidas nas diferentes áreas de conhecimento. O evento contará com diversas atividades, incluindo workshops, conferências (sendo uma internacional), mesas-redondas, sessões de pôsteres, sessões de comunicação oral, feira de livros e produtos inovadores ligados ao ensino, além de atividades culturais.

A programação do evento foi elaborada por pesquisadores da Unicamp e inclui convidados de reconhecida inserção acadêmica nas suas respectivas áreas de estudo e formação, destacando seu protagonismo em inovações curriculares e pedagogia universitária.

O seminário será oferecido de forma gratuita, com estimativa de 800 participantes, estando aberto a professores, pesquisadores, estudantes de pós-graduação e de graduação, de dentro e fora da Unicamp. Espera-se que o evento promova um debate atualizado e ampliado visando ao fortalecimento do compromisso institucional e docente com a formação do estudante universitário em suas diversas dimensões e com o enfrentamento qualificado dos desafios atuais da educação superior por meio da implantação e avaliação de ações formativas inovadoras.

Os trabalhos dos participantes, que podem ser apresentados tanto como pôster como comunicação oral, deverão ser submetidos nos seguintes eixos temáticos de inovação: estratégias educacionais, projetos pedagógicos de curso, estágios curriculares, avaliação, relação professor-aluno, acesso e desenvolvimento acadêmico, formação do docente de ensino superior.

Mais informações sobre a submissão de trabalhos e a programação completa podem ser encontradas na página do evento.




Autora: unicamp
Fonte: unicamp
Sítio Online da Publicação: unicamp
Data de Publicação: 30/11/2017
Publicação Original: http://www.unicamp.br/unicamp/eventos/2017/11/29/vi-edicao-do-seminario-inovacoes-em-atividades-curriculares-comeca-no-dia-30

Editora da Unicamp realiza primeira Jornada sobre e-Book



             




A Editora da Unicamp realiza a primeira Jornada sobre e-Book, com palestras e debates sobre a produção e o mercado de livros digitais no Brasil, no dia 29 de novembro, a partir das 10 horas, no Auditório 1 do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). O evento é gratuito e aberto a todos os interessados. Para participar, é preciso se inscrever através de um formulário online.

A Jornada contará com a participação de profissionais da área que abordarão temas como os desafios e possibilidades de livros acadêmicos na era digital e experiências e práticas do mercado de livros digitais. Na abertura, a professora Marisa Lajolo, curadora do prêmio Jabuti, fará a palestra “Tem um e-Book no meio do caminho”.

Também haverá o lançamento do e-Book "Da senzala ao palco: canções escravas e racismo nas Américas, 1870-1930", de Martha Abreu, terceiro volume da coleção Históri@ Ilustrada. A coleção, publicada pela Editora da Unicamp e vinculada ao Centro de Pesquisa em História Social da Cultura (Cecult) da Unicamp, divulga pesquisas na área de História Social e da Cultura com a união de documentos textuais, iconográficos e sonoros.

Confira a programação:

10h: “Tem um e-Book no meio do caminho”, por Marisa Lajolo
14h: “Livros acadêmicos na era digital: desafios e possibilidades”, por Silvia Lara e Maria Clementina Pereira Cunha
15h: “O mercado de e-Books: uma experiência prática”, por Jean-Frédéric Pluvinage
16h: “Senzala, palcos e músicas em e-Books”, por Martha Abreu
17h: Lançamento do e-Book "Da senzala ao palco", de Martha Abreu




Autora: unicamp
Fonte: unicamp
Sítio Online da Publicação: unicamp
Data de Publicação: 29/11/2017
Publicação Original: http://www.unicamp.br/unicamp/index.php/eventos/2017/11/29/editora-da-unicamp-realiza-primeira-jornada-sobre-e-book

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Mudanças Climáticas: ‘Tostados, assados e grelhados’; análise de Luiz Marques (IFCH/Unicamp)

“Como disse antes, se não fizermos nada a respeito da mudança climática, seremos tostados, assados e grelhados num horizonte de tempo de 50 anos. (…) Se não encararmos essas duas questões – mudança climática e desigualdade crescente – avançaremos a partir de agora em direção a sombrios 50 anos”. Quem fala é Christine Lagarde, diretora do Fundo Monetário Internacional, durante um painel da Future Investment Initiative, ocorrido em 25 de outubro em Riad, na Arábia Saudita.



É positivo que o FMI funcione como uma caixa de ressonância da ciência e que junte sua voz ao coro dos alertas sobre a situação-limite em que a humanidade e a biosfera se encontram. Mas o FMI é o primogênito e um dos principais gendarmes da ordem econômica internacional que está condenando os homens e a biosfera a serem “tostados, assados e grelhados num horizonte de tempo de 50 anos”. Não tem, portanto, autoridade moral para emitir alertas desse gênero. “Como disse antes”, afirma acima Lagarde… De fato, já em 2012, às vésperas da Rio+20, ela havia declarado num encontro do Center for Global Development, em Washington, que “a mudança climática é claramente um dos grandes desafios de nosso tempo, um dos grandes testes de nossa geração. Para os mais pobres e mais vulneráveis do mundo, a mudança climática não é uma possibilidade distante. É uma realidade presente” [II]. E anunciava então que o FMI desenvolveria pesquisas e daria suporte analítico aos países com políticas de redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE), em particular através de instrumentos fiscais, como precificação do carbono e eliminação dos subsídios. Passados cinco anos, eis o que aconteceu:

1. Os subsídios à indústria de combustíveis fósseis continuam a crescer. Em 2013, eles montavam a US$ 4,9 trilhões e em 2015 atingiram US$ 5,3 trilhões, ou 6,5% do PIB mundial, segundo um estudo recente. “A eliminação desses subsídios”, afirmam seus autores, “teria reduzido as emissões de carbono, em 2013, em 21%, e em 55%, as mortes por poluição causada pela queima de combustíveis fósseis, ao mesmo tempo em que teria elevado a renda em 4% do PIB global e o bem-estar social em 2,2%” [III]. Se entendidos stricto sensu, ou seja, como privilégio fiscal ou transferência de recursos estatais para essa indústria, os subsídios dos governos do G20 – os mesmos que prometeram seu fim em 2009 – montavam em 2015 a US$ 444 bilhões [IV].

2. Imposto sobre a emissão de carbono (carbon tax). A segunda medida apoiada por Lagarde era a precificação adequada do carbono: “corrigir seus preços significa usar uma política fiscal capaz de garantir que o malefício que causamos reflita-se nos preços que pagamos” [V]. Tal imposto foi sugerido já em 1973 por David Gordon Wilson [VI], do MIT, e reproposto agora, pela enésima vez, por 13 economistas, no âmbito de uma iniciativa presidida por Joseph Stiglitz e Sir Nicholas Stern [VII]. O estudo sugere que este seja em 2020 de 40 a 80 dólares por tonelada de CO2 emitido e, em 2030, de 50 a 100 dólares. Não se sabe em quanto esse imposto, se adotado, contribuiria para a redução das emissões de GEE. Mas se sabe que o FMI em nada tem contribuído para viabilizá-lo. De resto, em março último, Trump descartou-o e sem o apoio dos EUA, um dos maiores produtores mundiais de petróleo, ele parece hoje mais irrealista que nunca.

Leonardo Martinez-Diaz, do World Resources Institute, percebe bem a hipocrisia do FMI: “Uma das funções centrais do FMI é a vigilância macroeconômica. (…) O Fundo deveria colocar o risco climático no diálogo com os Estados, como um item formal de suas consultas”. E, sobretudo, “considerar as despesas em resiliência como investimentos dos Estados devedores” [VIII]. Mas isso Christine Lagarde não fez, e não fará, porque prejudicaria os interesses dos credores.



Voluntários posam nus, na geleira de Aletsch, nos Alpes suíços, durante campanha ambiental sobre o aquecimento global, em 2007 | Foto: Reprodução | Greenpeace

Quatro décadas de alertas científicos

Se é nula a credibilidade do FMI no que se refere à sua contribuição para mitigar essa situação extremamente grave, isso não altera o fato de que o diagnóstico de Lagarde baseia-se no mais consolidado consenso científico. Há décadas a ciência adverte que o aquecimento continuado da atmosfera e dos oceanos – causado sobretudo pela queima de combustíveis fósseis, pelo desmatamento e pelo surto global de carnivorismo – lançaria o século XXI num série de crescentes desastres sociais e ambientais. Quase quatro décadas atrás, em 1981, quando o aquecimento global era ainda de apenas 0,4o C acima dos anos 1880, James Hansen e colegas afirmavam num trabalho da Science [IX]:

“Efeitos potenciais sobre o clima no século XXI incluem a criação de zonas propensas a secas na América do Norte e Ásia Central como parte de uma mudança nas zonas climáticas, erosão das camadas de gelo da Antártica com consequente elevação global do nível do mar e a abertura da famosa passagem do Noroeste [no Ártico]. (…) O aquecimento global projetado para o próximo século é de uma magnitude quase sem precedentes. Baseados nos cálculos de nosso modelo, estimamos que ele será de ~2,5o C para um cenário com lento crescimento de energia e um misto de combustíveis fósseis e não fósseis. Esse aquecimento excederia a temperatura durante o período antitermal (6.000 anos atrás) e o período interglacial anterior (Eemiano) e se aproximaria da temperatura do Mesozoico, a idade dos dinossauros”.

Entre 1984 e 1988, James Hansen depôs três vezes no Senado dos Estados Unidos. Na última vez, diante de 15 câmaras de televisão, projetou cenários de aquecimento global de até 1,5o C em 2019 em relação à média do período 1951-1980, como mostra a Figura 1, reproduzida a partir desse histórico documento de 1988.
Figura 1 – Projeção de aquecimento médio superficial global até 2019, segundo três cenários

O Cenário A supõe uma taxa de aumento das emissões de CO2 típica dos 20 anos anteriores a 1987, isto é, um crescimento a uma taxa de 1,5% ao ano. O Cenário B assume taxas de emissão que estacionam aproximadamente no nível de 1988. O Cenário C é de drástica redução dessas emissões atmosféricas no período 1990 – 2000. A linha contínua descreve o aquecimento observado até 1987. A faixa cinza recobre o nível pico de aquecimento durante os períodos Antitermal (6.000 anos AP) e Eemiano (120.000 anos AP). O ponto zero das observações é a média do período 1951-1980.

Fonte: “The Greenhouse Effect: Impacts on Current Global Temperature and Regional Heat Waves”, figura 3. Documento apresentado ao Senado por James Hansen em 1988. Veja-se:https://climatechange.procon.org/sourcefiles/1988_Hansen_Senate_Testimony.pdf

As projeções de Hansen são uma das mais espetaculares demonstrações de inteligência do sistema Terra na história recente da ciência, que só hoje podemos aquilatar em sua real dimensão. Seus Cenários A e B anteciparam a uma distância de 30 anos um aquecimento médio global entre ~1,1o C e 1,5o C. Foi exatamente o que aconteceu, como mostra a Figura 2



Figura 2 – Temperaturas superficiais globais em relação ao período de base 1880-1920 | Fonte: Earth Institute. Columbia University

Como se vê, desde 1970 as temperaturas médias globais têm se elevado 0,18o C por década e em 2016 elas atingiram +1,24o C em relação a 1880-1920. Mantida a aceleração do aquecimento médio global observada no triênio 2015-2017 (~0,2o C), deveremos atingir ou estar muito próximos, em 2019, do nível de aquecimento previsto no pior cenário assumido por James Hansen e colegas.

Energias fósseis x energias renováveis e de baixo carbono

Naturalmente, quem está no controle do mundo não se interessa por acurácia científica, quando esta interfere em seus planos de negócios. Os alertas de toda uma legião de cientistas no mundo todo continuam a se espatifar contra o muro inexpugnável das corporações, que impuseram e continuam a impor à humanidade e à biosfera o “Cenário A” previsto por James Hansen. Os números, melhor que quaisquer argumentos, revelam a extensão do crime: desde 1988, data do testimony de Hansen no Senado dos EUA, mais CO2 foi lançado na atmosfera do que entre 1750 e 1987, como mostra a Figura 3
Figura 3 – Emissões industriais de CO2 entre 1751 e 2014. De 1751 a 1987 foram emitidas 737 Gt (bilhões de toneladas). Entre 1988 e 2014 foram emitidas 743 Gt. | Fonte: T. J. Blasing, “Recent Greenhouse Gas Concentrations”. Carbon Dioxide Information Analysis Center (CDIAC), Abril, 2016, baseado em Le Quéré et al. (2014) e Boden, Marland e Andres (2013).

Em 2017 teremos já ultrapassado 800 Gt de CO2 emitidos na atmosfera em quarenta anos. As corporações que lucram com essas emissões e com a destruição das florestas – em especial os xifópagos Big Oil & Big Food – venceram e continuam vencendo. Em Riad, na semana passada, Christine Lagarde acrescentou que “as decisões devem ser imediatas, o que provavelmente significará que nos próximos 50 anos o petróleo se tornará uma commodity secundária”. Foi contradita por Amin Nasser, presidente da estatal Saudi Arabian Oil Company (Aramco): “Alternativas, carros elétricos e renováveis estão definitivamente ganhando participação no mercado e estamos vendo isso. Mas décadas serão ainda necessárias antes que assumam uma participação maior na oferta de energia global” [X].

Mantido o paradigma expansivo do capitalismo (obviamente dependente das reservas restantes de petróleo, algo incerto), o prognóstico de Amin Nasser afigura-se mais credível que o de Christine Lagarde. Ele ecoa a convicção de seus pares de que a hegemonia dos combustíveis fósseis não será sequer ameaçada, quanto menos superada, por energias de baixo carbono pelos próximos dois ou três decênios. Barry K. Worthington, diretor da toda poderosa United States Energy Association, afirma, e é fato, que “nenhuma projeção credível” mostra uma participação menor que 40% dos combustíveis fósseis em 2050 [XI]. Mesmo o carvão, cujo declínio iniciado nos dois últimos anos parecia a muitos ser irreversível, resiste. Nos EUA, sua produção em 2017 será 8% maior que em 2016 [XII]. No mundo todo havia, em outubro de 2017, 154 unidades termelétricas movidas a carvão em construção e 113 em expansão, um número ainda superior ao das unidades que estão sendo desativadas [XIII].

Um argumento em favor da ideia de uma ainda longa hegemonia futura dos combustíveis fósseis provém de um trabalho de três pesquisadores da Universidade de Bergen, na Noruega [XIV]. Os autores partem da constatação de que em 2015 o consumo energético global foi de 17 Terawatts (TW), dos quais apenas 3,9% (0,663 TW) provieram de energias eólica (0,433 TW) e fotovoltaica (0,230 TW). Assumem em seguida a projeção de que esse consumo quase dobre em 2050, atingindo 30 TW. Detectam então indícios de que a taxa de crescimento das energias eólica e fotovoltaica comece a declinar já ao longo da próxima década, saturando sua capacidade instalada não acima de 1,8 TW em 2030, o que as levaria a assumir a forma da curva de uma função logística ou sigmóide (em “S”), como mostra a Figura 4.

Figura 4 – Capacidade instalada global total de energia eólica e fotovoltaica (pontos verdes)
A linha contínua é a do modelo logístico (curva sigmóide), semelhante à evolução das energias hidrelétrica e nuclear. As linhas pontilhadas indicam um intervalo de confiança de 95%. O ponto vermelho indica os prognósticos das associoções de acionistas. O quadro inserido mostra o declínio previsto das taxas de crescimento dessas energias. | Fonte: J.P. Hansen, P.A. Narbel, D.L. Aksnes, “Limits to growth in the renewable energy sector”. Renewable and Sustainable Energy Reviews, 70, IV/2017, pp. 769-774.

A COP 23 e a “catastrófica brecha climática”

Como se sabe, abre-se hoje, 6 de novembro de 2017, em Bonn, mais uma reunião anual da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (UNFCCC), a 23ª Conferência das Partes (COP23). Sua agenda central será fazer avançar as diretrizes (rule-book) de implementação do Acordo de Paris, preparadas por um grupo de trabalho – o Ad-hoc Working Group on the Paris Agreement (APA) –, coordenado pela Nova Zelândia e pela… Arábia Saudita. Por improvável que seja a projeção de Christine Lagarde de que “nos próximos 50 anos o petróleo se tornará uma commodity secundária”, suas declarações na capital mundial do petróleo têm o mérito de reforçar o senso de urgência requerido para mais essa rodada de negociações. Esse senso de urgência é mais que nunca necessário, pois o contexto político e ambiental em que se abre a COP23 não poderia ser mais adverso, como bem indica o quadro atual de bloqueio do Acordo, em contraste com a angustiante aceleração da degradação ambiental nos últimos meses:

1. Quase dois anos após sua assinatura, o Acordo de Paris não foi ainda ratificado (i.e., não está em vigor) por 13 países produtores e detentores das maiores reservas mundiais de petróleo, conforme mostra a tabela abaixo
Fontes: Paris Agreement – Status of Ratification U.S. | EIA Production of Crude Oil including Lease Condensate 2016

A esses 13 países que não ratificaram o Acordo, acrescentam-se os EUA, em vias de deixá-lo. De modo que mais de um terço da produção mundial de petróleo encontra-se em nações que não reconhecem oficialmente o Acordo de Paris, e não o reconhecem, declaradamente ou não, porque não têm intenção de diminuir sua produção.

(2) Em julho, reunido na China, o G20 deu uma demonstração de fraqueza ou de oportunismo ao ceder às pressões dos EUA e da Arábia Saudita para eliminar de sua declaração conjunta final qualquer menção à necessidade de financiar a adaptação dos países pobres às mudanças climáticas, condição de possibilidade do Acordo de Paris [XV].

(3) Em 18 de outubro passado, o Global Forest Watch revelou que em 2016 foram destruídos globalmente 297 mil km2 de florestas pelo avanço da agropecuária, da mineração, da indústria madeireira e de incêndios mais devastadores, criminosos e/ou exacerbados pelas mudanças climáticas [XVI]. Trata-se de um recorde absoluto em área destruída e de um recorde no salto de 51% em relação a 2015, como mostra a Figura 5.
Figura 5 – Perdas de cobertura florestal global de 2011 a 2016 | Fonte: Global Forest Watch

(4) Em 30 de outubro, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) reconheceu um avanço de 3,3 ppm (partes por milhão) nas concentrações atmosféricas de CO2 no intervalo de apenas 12 meses. Essas concentrações “deram em 2016 um salto, numa velocidade recorde, atingindo seu mais alto nível em 800 mil anos”. Desde 1990, afirma o boletim da OMM, houve um aumento de 40% na forçante radiativa total (o balanço entre a energia incidente e a energia refletida de volta para o espaço pelo sistema climático da Terra) causada pelas emissões de GEE, e um aumento de 2,5% apenas em 2016 em relação a 2015 [XVII].

(5) Enfim, o oitavo Emissions Gap Report, de 2017, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), adverte que as reduções de emissões de GEE acordadas em Paris estão muito aquém do requerido para conter o aquecimento médio global abaixo de 2o C ao longo deste século. Como faz notar Erik Solheim, diretor do (PNUMA), “as promessas atuais dos Estados cobrem não mais que um terço das reduções necessárias. (…) Os governos, o setor privado e a sociedade civil devem superar essa catastrófica brecha climática” [XVIII]. E reafirma que, se os compromissos nacionais (NDCs) forem implementados, chegaremos ao final deste século com um aquecimento médio global de cerca de 3,2o C (2,9o C a 3,4o C). Mas os governos estão descumprindo até mesmo esse terço por eles prometido em 2015. Segundo Jean Jouzel, ex-vice-presidente do IPCC, “os primeiros balanços das políticas nacionais mostram que, globalmente, estamos abaixo dos engajamentos assumidos em Paris. E sem os EUA, será muito difícil pedir aos outros países que aumentem suas ambições. (…) Para manter alguma chance de permanecer abaixo dos 2o C é necessário que o pico das emissões seja atingido no mais tardar em 2020” [XIX].

Não há que se preocupar. Faltam ainda mais de dois anos…

Autora: Jornal da UNICAMP
Fonte: Jornal da UNICAMP
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 07/11/2017
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2017/11/07/mudancas-climaticas-tostados-assados-e-grelhados-analise-de-luiz-marques-ifchunicamp/