Mostrando postagens com marcador Ciência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ciência. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Fiocruz será coanfitriã de conferência internacional sobre ciência, tecnologia e inovação

A Fiocruz vai sediar, de 13 a 15 de fevereiro, no Rio de Janeiro, a reunião anual da Comunidade Global de Tecnologia Sustentável e Inovação (G-Stic), que pela primeira vez será realizada nas Américas. Nomes como os do diretor-geral da Organização Mundial de Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, do diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), Qu Dongyu (ambos online), e da ministra da Saúde, Nísia Trindade Lima (presencialmente), vão se reunir na ExpoMag para discutir o tema Por um futuro equitativo e sustentável: soluções tecnológicas inovadoras para uma melhor recuperação pós-pandemia. E como a Fundação é a principal coanfitriã, a saúde ganhará um grande destaque na G-Stic Rio.



“A Fiocruz, como principal organizadora desta edição, reforça sua participação em âmbito global na discussão de tecnologias e inovações sustentáveis, com uma visão de destaque para a saúde”, explicou o presidente interino da Fundação, Mario Moreira. Para ele, a realização da conferência no continente confere uma ênfase especial à questão das desigualdades globais e regionais em ciência, tecnologia e inovação (CT&I). “Essa tem se revelado uma das fragilidades da capacidade internacional de articulação de resposta e preparação para emergências sanitárias. Equidade e sustentabilidade apresentam-se, nesse aspecto, como outros elementos definidores dessa capacidade”, acrescentou.

A lista de participantes reúne outros nomes de peso, como Macharia Kamau, diplomata queniano que foi o enviado especial da ONU para Implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) a serem alcançados até 2030; Amandeep Singh Gill, enviado especial do secretário-geral da ONU para Tecnologia; e Maria Van Kerkhove, líder técnica da OMS para Covid-19. A lista segue com a ativista indígena Samela Sateré Mawé e a princesa belga Marie-Esmeralda, presidente do Fundo Leopoldo III para a Conservação da Natureza, entre outros. A Fiocruz participa ainda com integrantes como o próprio Moreira; o vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde, Marco Krieger; e o diretor do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz), Mauricio Zuma.

“O mundo está diante de um grande desafio: a reconstrução pós-pandemia em bases sustentáveis, respeitando a equidade e a inclusão. E para fazer frente a esse processo, o grande referencial é a Agenda 2030, com os ODS”, explicou o coordenador da Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030 (EFA 2030) e à frente da organização da G-Stic Rio, Paulo Gadelha. A conferência lida justamente com essa questão: pensar em como garantir tecnologias eficazes e sustentáveis visando os ODS. Gadelha lembrou que, apesar da proximidade de 2030, a grande maioria desses objetivos está longe de ser cumprida. “O desafio que temos é como CT&I podem modificar esse cenário, quebrar assimetrias, garantir o acesso às tecnologias, em processos inclusivos. A pandemia nos deu exemplos disso, como nas vacinas contra Covid-19, que foram produzidas rapidamente, mas que ficaram inacessíveis à maioria da população”.

Inicialmente capitaneado pelo instituto de tecnologia belga Vito, que mantém peso significativo no evento, a G-Stic reúne um conjunto de instituições com representações em todas as regiões do mundo. A entrada do Brasil em 2018, por meio da Fiocruz, deu uma relevância ainda maior para o tema da saúde, o que fica claro na programação de fevereiro.

“Um dos ativos únicos da G-STIC é sua perspectiva multissetorial e orientada para o futuro em CT&I. A G-Stic analisa clusters de tecnologia e identifica soluções que contribuem substancialmente para alcançar os princípios da Agenda 2030 e os ODS. Ela reúne partes interessadas de organizações multilaterais, governos, indústria, atores privados, sociedade civil e academia”, disse Dirk Fransaer, diretor-geral da VITO. “Em sintonia com essa abordagem, a G-Stic Rio reconhece os princípios de solidariedade e ‘trabalho conjunto’ do relatório do secretário-geral da ONU Nossa Agenda Comum como fundamentais para acelerar a implementação dos ODS. A CT&I têm o potencial de catalisar o envolvimento da comunidade nesse processo. A próxima edição do G-STIC no Rio de Janeiro trará esse conceito de integração, solidariedade e multilateralismo entre setores, partes interessadas e países em um interesse comum”, acrescentou.

Sessão especial sobre vacinas

As sessões do evento se dividem em seis temas: Saúde, Educação, Água, Energia, Clima e Oceanos. Em Saúde, Bio-Manguinhos está organizando mesas sobre vacinas e imunização. O painel Desafios e Perspectivas para a produção local, nos dias 14 e 15, será dividido em quatro sessões que trarão especialistas como James Fitzgerald, diretor do Departamento de Sistemas e Serviços de Saúde da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas); Lieve Fransen, consultora sênior do Centro Europeu de Políticas em Saúde; Carla Vizzotti, ministra da Saúde da Argentina; e Tiago Rocca, vice-presidente do Conselho de Membros de Fabricantes de Vacinas para Países em Desenvolvimento (DCVMN); além de representantes de instituições internacionais de renome na área como Wellcome, CEPI e Medicines Patent Pool, OXFAM e MSF, entre outros.

Essa agenda tem como objetivo discutir fatores críticos de sucesso para produção local de vacinas em países em desenvolvimento, endereçando os desafios e perspectivas em relação a demanda e fornecimento, financiamento e perspectiva global em relação à propriedade intelectual e acesso. As discussões envolverão os desafios sistemáticos de pesquisa & desenvolvimento e produção local de vacinas, abrangendo: desafios de saúde tendo em conta o cenário epidemiológico, doenças emergentes e reemergentes, experiências de financiamento da inovação e prontidão para respostas a emergências, os desafios de desenvolvimento de capacidades e financiamento da produção local, e equidade e acesso para assegurar a vacina e a vacinação para todos.

Também participarão do evento de Bio-Manguinhos Ethel Maciel, secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA) do Ministério da Saúde; Hugo Gomes da Silva, líder médico Global para Vacinas da Astrazeneca; Júlia Spinardi, diretora sênior da Pfizer para Assuntos Médicos e Científicos; e Cristiano Pereira, de Desenvolvimentos de Negócios do Butantan; além de integrantes da Fiocruz, como o assessor sênior científico Akira Homma, Mario Moreira, Mauricio Zuma, Rosane Cuber e Sotiris Missailidis.

A conferência

Esta é a sexta edição da G-Stic. Considerada a maior conferência global de ciência, tecnologia e inovação para aceleração da Agenda 2030, ela ocorria na Bélgica desde seu início, em 2017. Para aumentar a sua capilaridade, passou a ser realizada em outros países, acontecendo em 2022 durante a Expo Dubai. A Fiocruz, que participa como coanfitriã desde 2018, sugeriu então que a edição de 2023 ocorresse no Brasil.

A G-Stic é organizada em conjunto pela Vito (organização belga de pesquisa, tecnologia e desenvolvimento sustentável) e sete outros institutos de pesquisa sem fins lucrativos: Fiocruz, CSIR (Conselho de Pesquisa Científica e Industrial, África do Sul), Giec (Instituto de Conversão de Energia de Guangzhou, China), Gist (Instituto de Ciência e Tecnologia de Gwangju, Coreia do Sul), Nacetem (Centro Nacional de Gestão de Tecnologia, Nigéria), Teri (Instituto de Energia e Recursos, Índia) e SDSN (Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas).

No Brasil a G-Stic Rio conta com o patrocínio master da Petrobras, Pfizer e Fiotec e com o patrocínio das empresas Aegea, IBMP, Instituto Helda Gerdau, Klabin, Sanofi, GSK, Enel, Engie, The Rockefeller Foundation, RaiaDrogasil e Firjan, além do apoio do Instituto Clima e Sociedade.

Credenciamento

O evento ocorrerá de 13 a 15 de fevereiro no Expo MAG (Rua Beatriz Larragoiti Lucas - Cidade Nova, Rio de Janeiro), em quatro auditórios e também será transmitido online. Jornalistas podem se credenciar online.

A área destinada a cinegrafistas e fotógrafos ficará a uma distância de 25 metros do palco do auditório principal (Auditório Manguinhos). A programação pode ser conferida no site da G-Stic Rio. Mais informações podem ser obtidas pelo email ccs@fiocruz.br.






Autor: Cristina Azevedo
Fonte: Agência Fiocruz de Notícias
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 07/02/2023
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/fiocruz-sera-coanfitria-de-conferencia-internacional-sobre-ct-i

sábado, 13 de março de 2021

Livro apresenta o olhar da juventude brasileira sobre a Ciência

A nova geração, que cresceu conectada à Internet, tem uma forte relação com as novas tecnologias e é bombardeada com um universo de informações rápidas e, muitas vezes, superficiais e pouco confiáveis. Para entender qual a percepção da juventude no Brasil sobre temas relacionados à Ciência e Tecnologia (C&T) e às carreiras científicas, uma pesquisa realizada pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT) ouviu, por meio de questionários estruturados, 2.206 brasileiros e brasileiras entre 15 e 24 anos, em situação urbana, residentes em 79 cidades de todas as regiões do País. Os resultados do estudo, inédito pela temática e abrangência nacional, estão reunidos no livro O que os jovens brasileiros pensam da ciência e da tecnologia, que pode ser acessado aqui (https://www.inct-cpct.ufpa.br/index/2021/02/19/livro-jovens-brasileiros-ciencia/).

Escrito sob a coordenação da pesquisadora Luisa Massarani, líder do INCT-CPCT – rede de grupos de pesquisa nacionais e internacionais sediada na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) –, o livro aborda questões como o interesse da juventude pela Ciência, a valorização da carreira de cientista, as controvérsias nos debates em voga sobre aceitar ou não evidências científicas, a influência das trajetórias de vida e do posicionamento moral e político sobre as atitudes relacionadas à C&T e as reações a um ambiente informacional marcado pela circulação de conteúdos falsos (fake news). “Nossos dados sugerem que os jovens possuem interesse e respeito pelos cientistas, que são considerados muito confiáveis. Mas também sugerem que muitos jovens pensam que fazer Ciência não é para eles, seja por ser muito difícil ou porque cientistas são pessoas diferentes de uma pessoa normal”, disse Luisa. Também coordenam a pesquisa Yurij Castelfranchi, Vanessa Fagundes e Ildeu Moreira, vice-coordenador do INCT-CPCT.

Luisa conta que, mesmo antes da existência do INCT, o grupo já vinha realizando estudos sobre o que os brasileiros e as brasileiras pensam da C&T, sendo que o primeiro estudo foi realizado em 2005, analisando a população brasileira a partir dos 16 anos. “Mas tínhamos o sonho de fazer um estudo específico com jovens. Tal estudo foi possível com a criação do INCT-CPCT, que reuniu a expertise acumulada de estudos anteriores e os recursos financeiros”, contextualizou. O projeto foi contemplado na chamada de apoio aos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT), que envolveu o repasse de recursos pela FAPERJ, pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Além da aplicação dos questionários, realizada em 2019, com a metodologia quantitativa conhecida tecnicamente como survey, a pesquisa também contou com etapas cognitiva e qualitativa, esta última formada por grupos de discussão com jovens entre 18 e 24 anos, residentes nas cidades do Rio de Janeiro e Belém. “Uma dessas etapas foi para testar as perguntas que fizemos, ou seja, conversamos com 70 jovens para ver se nossas perguntas faziam sentido, se eram entendidas da mesma forma como pretendíamos. Além disso, fizemos grupos focais com cerca de 40 jovens, para aprofundar alguns temas, como as fake news”, explicou a comunicadora, que é referência na área de Divulgação Científica.

Um dos aspectos destacados na obra é a redução, em diversos países do mundo, do interesse dos jovens pelas carreiras científicas. Esse dado expõe a necessidade de políticas públicas mais assertivas com o objetivo de atrair e reter a juventude nas áreas de C&T. “No Brasil, um aspecto importante é aumentar as oportunidades de inserção profissional para os jovens cientistas. Até poucos anos era diferente, mas no presente momento há poucas oportunidades de trabalho para os diversos jovens que passam anos se capacitando. Temos excelentes jovens cientistas. Mas muitos deles estão desistindo e buscando alternativas em outros países”, ponderou.


Luisa Massarani destaca a importância da Divulgação Científica e de políticas públicas voltadas para a
inserção dos jovens cientistas no mercado de trabalho


De acordo com o levantamento, apesar de majoritariamente demonstrarem confiança nos cientistas e interesse por temas científicos, a maioria dos jovens que participaram do estudo, incluindo os de curso superior, não consegue citar o nome de uma instituição nacional de pesquisa nem de algum cientista brasileiro. “Ambos os dados (alto interesse declarado pela ciência e não saber mencionar o nome de uma instituição científica ou pesquisador brasileiros) estão em consonância com os dados nacionais com a população adulta também, ou seja, não é um problema apenas entre jovens”, ressaltou Luisa. Uma questão que chama a atenção é que muitos jovens estão na universidade ou poderiam estar. Ainda assim, não identificam as universidades brasileiras como local em que se faz pesquisa – embora 95% da produção científica brasileira sejam feitas em universidades. “Isto sinaliza que é fundamental que as universidades sejam mais ativas em divulgar a Ciência que fazem. Em outras palavras, o ‘problema’ não necessariamente se localiza apenas nos brasileiros e brasileiras, mas também no fato de que é necessária uma Divulgação Científica mais ativa”, acrescentou.

No estudo, os jovens declararam ter dificuldade em verificar se uma notícia de C&T é falsa ou não. Segundo eles, Whatsapp e Facebook estão entre os principais difusores de notícias falsas. “Os jovens estão muito conscientes da existência e da periculosidade das fake news. Sabem que estão expostos às fake news: por exemplo, o Whatsapp é uma das fontes mais importantes para eles de temas de ciência, mas também é considerado por eles como uma das principais fontes de fake news. No entanto, eles sentem que não conseguem identificar quando uma notícia é falsa e se sentem muito vulneráveis”, detalhou. Os entrevistados confirmaram a importância das redes sociais como fontes de informação. Segundo a pesquisa, os principais meios pelos quais os jovens acessam informações sobre C&T são o Google, o YouTube, o Whatsapp e o Facebook.

Diversos pontos interessantes citados na publicação elucidam o que a juventude brasileira pensa sobre a C&T. Curiosamente, no país do futebol, o interesse declarado pelos jovens por temas de Meio Ambiente e Medicina (80% e 74%, respectivamente) é maior do que o interesse nos Esportes (62%) por religião (67%). Eles, em sua maioria, percebem a importância social da C&T. Acreditam que a Ciência e a Tecnologia são importantes para o País e que os benefícios do desenvolvimento técnico-científico são elevados – e, em geral, maiores que os riscos. Para os jovens, os cientistas estão entre as fontes mais confiáveis de informação. Eles têm uma imagem majoritariamente positiva da figura do (a) cientista. Grande parte dos jovens acredita que a profissão de cientista é atraente, mas difícil de se alcançar, e que homens e mulheres têm a mesma capacidade para ser cientistas e que devem ter as mesmas oportunidades. Mesmo neste momento de crise econômica, política e de confiança nas instituições, a esmagadora maioria dos jovens afirma que o investimento brasileiro em C&T deveria ser aumentado ou mantido, não diminuído. Poucos jovens visitam museus de ciência e outros espaços de difusão do conhecimento ou culturais, como parques ambientais, jardins botânicos, museus de arte etc. E, ainda, 60% dos jovens brasileiros não sabem que antibióticos não combatem vírus e 75% discordam, inteiramente ou em parte, da afirmação de que vacinar as crianças pode ser perigoso.

A pesquisa aponta questões importantes para o desenho de políticas públicas e iniciativas de Divulgação Científica destinadas aos jovens. Luisa destaca que saber divulgar a Ciência é importante para mostrar como ela pode ter um papel fundamental no desenvolvimento social e econômico de um país. “Durante a pandemia, a Divulgação Científica ganhou muita evidência mostrando que a Ciência é uma das principais estratégias para o enfrentamento do vírus. Permite desenvolver vacinas, medicamentos e tratamentos – e isto tem sido feito em uma velocidade extremamente rápida. Permite entender questões básicas como o funcionamento do vírus, como ele se propaga, em que condições infecta. Permite entender, com evidências científicas, porque o uso de máscaras e o isolamento social são importantes para o controle da doença”, ponderou. Nesse sentido, a obra preenche uma lacuna, tornando-se um acréscimo importante à bibliografia disponível sobre o tema. “Até onde sabemos, é o primeiro estudo de caráter nacional com este objetivo realizado com jovens”, concluiu.

Constituído em 2016, o INCT-CPCT reúne grupos de pesquisa com o objetivo de realizar estudos de alto impacto e gerar novos conhecimentos na área de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia. Contando com a atuação de mais de 100 pesquisadores, oriundos de 25 universidades e instituições científicas brasileiras e internacionais, o Instituto investiga, desenvolve, aplica e testa um conjunto de metodologias, instrumentos e ações, relacionadas com a divulgação científica, que contribuam para a melhoria das atividades de popularização de C&T e de educação científica, fornecendo subsídios para o aprimoramento de políticas públicas no setor e promovendo a formação e qualificação de pessoas capacitadas para atuar em pesquisa e atividades da área. Mais informações: www.inct-cpct.ufpa.br




Autor: Débora Motta
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 04/03/2021
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4171.2.0

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Saúde, ciência e tecnologia como áreas estratégicas do país


Foto: EBC
Saúde, ciência e tecnologia como áreas estratégicas do país

Artigo de Benisio Ferreira da Silva Filho e Alessandro Castanha

A pandemia da Covid-19 evidenciou alguns fatos importantes em nosso país, como o baixo investimento em saúde e ciência. Atualmente, a renda per capita em saúde anual é de apenas R$ 555,00, o que mostra uma queda do montante aplicado em outros anos. Isso tem resultado catastrófico, pois, como apresenta o próprio governo, é um prejuízo de mais de 400 milhões ao longo de 20 anos de congelamento. Tal situação tem se mostrado na quantidade de mortes causada pelo coronavírus, números que passam de 100 mil desde março deste ano.

Não é alarde sensacionalista, mas é certo e a comunidade científica sabe que em breve teremos outra pandemia. Quando? Não sabemos. Sabemos apenas que existem outros patógenos (vírus, bactérias e fungos) que podem começar a infectar humanos. Quando isso ocorrerá? Não sabemos.

Sendo esta uma verdade, nosso país deve enxergar o setor de saúde e ciência como parte estratégica para o desenvolvimento, e a partir de hoje fazer parte dos planos de defesa do país. O Coronavírus SARS-CoV-2, além das mortes que causou, provocou um abalo econômico no mundo. Os países independentes cientificamente são os que menos sofreram com o impacto. Países como o Brasil que dependem de outros para ter equipamentos, reagentes laboratoriais e material para proteção dos profissionais, teve seu problema potencializado pela inexistência de recursos próprios, mesmo possuindo excelentes profissionais em todas as áreas.

Torna-se obvio que os recursos empregados na área são insuficientes perante os processos pandêmicos, que valores como os que são fornecidos por pessoa são irrisórios de acordo com a necessidade. É um grave problema de saúde pública, pois deixa-se de pensar em prevenção e passa-se a pensar em remediação do problema. A medicina preventiva sempre foi e sempre será a medida mais econômica para os sistemas de saúde, pois é fato comprovado pela própria história que temos a capacidade de erradicar doenças do nosso meio, reduzir comorbidades e gerar prognósticos melhores para a saúde da população.

Da mesma forma que temos a saúde desprovida de recursos, não podemos deixar de analisar a ciência, tecnologia e inovação em nosso país. Estas, tanto quanto, a área de saúde vem ano após ano sofrendo com a decadência de investimento. Atualmente no Brasil, a aplicação de recursos gira em torno de 1,8% do PIB segundo o Ipea (Institude de Pesquisa Econômica Aplicada), enquanto países como EUA, Inglaterra e Alemanha investem 4%, 11% e 12%, respectivamente, em ciência e tecnologia.

Temos conhecimento e mão de obra especializada para produzir todos os equipamentos necessários. Temos conhecimento também para produzir reagentes, insumos laboratoriais, vacinas e fármacos. No entanto, sofremos com o não conhecimento dos números reais de pessoas infectadas, só contabilizamos infelizmente os mortos, não fizemos desde o início a testagem da população do jeito que deveria ser porque não tínhamos testes suficientes. Ficamos em pânico com a ideia da superlotação dos hospitais pois não há equipamentos para tantas pessoas, tivemos que comprar de outros países. Máscaras? Importamos milhares.

De fato, a falta de incentivo, fomento e políticas eficientes para áreas de saúde, pesquisa e desenvolvimento, acaba limitando muito o desenvolvimento tecnológico e inovações na linha de frente do combate de pandemias. A capacidade das instituições de pesquisa em superar as dificuldades de investimento ficou evidenciada na atual situação, foram inúmeros esforços na produção de respiradores de baixo custo para suprir a necessidade das UTIs para melhorar a sobrevida de pacientes com a Covid-19.

O fato de empregarmos parcos recursos é preocupante, pois enquanto países como EUA aplicam US$ 6 bilhões de dólares na ampliação do desenvolvimento de pesquisa em saúde e despontando na frente da descoberta de medicamentos e vacinas, nós brasileiros, não participamos diretamente como desenvolvedores ou parceiros em esforço conjunto internacional para tal e assim ficamos cada vez mais para trás, o que nos coloca numa posição final quando estes recursos tornarem-se disponíveis.

Sabendo que iremos enfrentar isso no futuro, acreditamos que a área de saúde, ciência e tecnologia deve a partir deste ano, fazer parte do programa de defesa do país, caso contrário estaremos de joelhos na próxima grande pandemia. Se continuarmos com os pequenos recursos investidos em saúde, ciência, pesquisa e desenvolvimento enfrentaremos os mesmos problemas sempre. Será que 2020 não é suficiente para mostrar que isso deve mudar?

Autores:

Benisio Ferreira da Silva Filho é biomédico, doutor em Biotecnologia e coordenador do curso de Biomedicina do Centro Universitário Internacional Uninter.

Alessandro Castanha é biólogo, especialista em Microbiologia clínica e professor do Centro Universitário Internacional Uninter.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/08/2020




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 28/08/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/08/28/saude-ciencia-e-tecnologia-como-areas-estrategicas-do-pais/

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Seminário debate as relações entre ciência e sociedade




Qual o valor da ciência hoje em nossa sociedade? Esta é a pergunta-chave que orientará as discussões do seminário Debates Contemporâneos sobre a Ciência, no dia 17 de junho, no Salão de Conferências do Centro de Documentação e História da Saúde (CDHS), em Manguinhos (RJ). O encontro reunirá especialistas convidados e da Fundação Oswaldo Cruz para debater as relações entre as ciências e a sociedade, a importância da ciência básica, os desafios contemporâneos das Humanidades e da História e a confiança social na ciência. O evento terá transmissão online.

Coordenada pelo chefe do Departamento de Pesquisa em História das Ciências e da Saúde (Depes), Luiz Otávio Ferreira (COC/Fiocruz), a primeira mesa discutirá O valor da ciência, com a participação dos especialistas Belita Koiller (UFRJ/ABC), Sidney Chalhoub (Harvard University e Unicamp), Luiz Felipe de Alencastro (EESP-FGV e Paris-Sorbonne) e Carlos Gadelha (Fiocruz).

Com a mediação da coordenadora do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde (PPGHCS) Gisele Sanglard, a segunda mesa debaterá Os negacionismos e o anticientificismo no Brasil e no mundo, com a participação de Mary Junqueira (USP), Simone Kropf (COC/Fiocruz), Arthur Lima de Avila (UFRGS) e Thiago Nicodemo (Uerj/Unicamp).

O evento é promovido pela Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), por meio do Programa de Pós-graduação em História das Ciências e da Saúde (PPGHCS), Departamento de Pesquisa em História das Ciências e da Saúde (Depes) e Observatório História e Saúde e tem o apoio da Sociedade Brasileira de História da Ciência (SBHC) e da Associação Nacional de História - Seção Rio de Janeiro (Anpuh-Rio).

Confira a programação:

9h - Mesa 1: O Valor da Ciência
Coordenação: Luiz Otávio Ferreira (COC/Fiocruz)
Pesquisa básica: a raiz da ciência
Belita Koiller (UFRJ/ABC)
O conhecimento como valor
Sidney Chalhoub (Harvard University e Unicamp)
As Humanidades e a sociedade
Luiz Felipe de Alencastro (EESP-FGV e Paris-Sorbonne)
Transformações globais, desafios nacionais e papel social da ciência
Carlos Gadelha (Fiocruz)

13h30 – Mesa 2: Os negacionismos e o anticientificismo no Brasil e no mundo
Coordenação: Gisele Sanglard (COC/Fiocruz)
O historiador frente aos negacionismos e anticientificismos contemporâneos
Mary Junqueira (USP)
Os estudos sociais da ciência e os negacionismos: desafios e agendas
Simone Kropf (Fiocruz)
Os negacionismos contemporâneos e pluralismo historiográfico
Arthur Lima de Avila (UFRGS)
Por uma crítica algorítmica: desigualdade social, democracia e os impasses da universidade na era da Inteligência Artificial
Thiago Nicodemo (Uerj/Unicamp)

Seminário "Debates Contemporâneos sobre a Ciência"
Data: 17/06
Horário: 9h às 17h
Local: Salão de Conferência – Prédio CDHS
Endereço: Av. Brasil, 4365 – Manguinhos (Rio de Janeiro-RJ)
Informações: (21) 3865-2286; (21) 3865-2287; (21) 3865-2288
http://www.ppghcs.coc.fiocruz.br/index.php/br/
Com transmissão online




Autor: COC/Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 06/06/2019
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/seminario-debate-relacoes-entre-ciencia-e-sociedade

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Ciência e diversão nas férias: conheça a programação do Museu da Vida



Fonte: Museu da Vida


Chegou aquela época do ano tão aguardada: férias! Se você está em busca de atividades que combinem lazer, arte, natureza, cultura, ciência e saúde, seu lugar é o Museu da Vida. Preparamos uma programação especial que tem tudo isso e muito mais. A partir de janeiro, a cada dia da semana, de terça a sexta, um tema em destaque, com oficinas e outras atrações para mexer com a curiosidade, divertir e entreter públicos de todas as idades: Segredos do Castelo, Ciência e Arte, Experimentações e De Olho na Natureza. Detalhes importantes: todas as atividades são gratuitas e não é necessário agendar. Aos sábados também estaremos em funcionamento.

Ao chegar ao campus Manguinhos da Fiocruz, é só se dirigir ao Centro de Recepção do Museu da Vida, mais conhecido como Estação do Trenzinho. É lá que tem início a visita, onde você recebe todas as orientações necessárias para aproveitar ao máximo o passeio.

Conheça os horários:

De terça a sexta, das 9h às 16h30, com atividades de férias começando às 9h, 10h, 11h, 13h30, 14h30 e 15h30.

Aos sábados, visite nossos espaços das 10h às 16h (as visitas ao Castelo iniciam a cada 50 minutos até as 15h10).

Endereço: Av. Brasil, nº 4.365, Manguinhos, Rio de Janeiro/RJ.

O Museu da Vida conta com estacionamento (gratuito) e não dispõe de guarda-volumes. Não esqueça de trazer um documento com foto para apresentar na portaria da Fiocruz.

Clique nos links abaixo para conhecer as atividades especiais de cada dia da semana:

Terça-feira é dia de... "Segredos do Castelo"

Quarta-feira é dia de... “Ciência e Arte”

Quinta-feira é dia de... “Experimentações”

Sexta-feira é dia... “De Olho na Natureza”

Sábado também é dia de... “Museu da Vida”

Se preferir, acesse a programação completa.





Autor: Museu da Vida
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 03/01/2019
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/ciencia-e-diversao-nas-ferias-conheca-programacao-do-museu-da-vida

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

USP Lecture homenageia mulheres na ciência


Laboratório de Análises Clínicas do ICB-5, cidade de Monte Negro – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

.
Acontece, no dia 3 de dezembro, o próximo evento da série USP Lecture, com o tema Mulheres na Ciência: Grandes destaques 2018. O objetivo é homenagear as mulheres cientistas e suas contribuições para a sociedade. O evento, promovido pela Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP) da USP, acontecerá na Sala do Conselho Universitário, Rua da Reitoria, 374, às 14 horas.

As palestrantes serão Susana Inés C. de Torresi, professora do Instituto de Química (IQ) da USP, ganhadora do 1º Prêmio para Mulheres Brasileiras em Química e Ciências Relacionadas; Sabrina Francesca S. Lisboa, biomédica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, ganhadora do Prêmio L’óreal para Mulheres na Ciência 2018; e Elaine Del-Bel, professora de Fisiologia da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (Forp) da USP, ganhadora do Bernice Grafstein Award for Outstanding Accomplishments in Mentoring. A entrada é gratuita, não requer inscrição prévia e será oferecido certificado aos presentes.




Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 30/11/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/usp-lecture-homenageia-mulheres-na-ciencia/

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Bolsonaro anuncia astronauta Marcos Pontes como ministro da Ciência e Tecnologia

O presidente eleito Jair Bolsonaro anunciou no Twitter nesta quarta-feira (31) que o astronauta Marcos Pontes será o ministro da Ciência e Tecnologia em seu governo.


"Comunico que o Tenente-Coronel e Astronauta Marcos Pontes, engenheiro formado no ITA, será indicado para o Ministério da Ciência e Tecnologia. É o quarto Ministro confirmado!", escreveu.


Além de Pontes, Bolsonaro já havia anunciado o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) para a Casa Civil; Paulo Guedes, para o futuro Ministério da Economia; e o general Augusto Heleno, para o Ministério da Defesa.


Na segunda-feira (29), Pontes já havia se manifestado sobre o convite de Bolsonaro. Em um vídeo publicado no Facebook, ele disse que está "muito feliz" pela "oportunidade de participar deste novo governo em uma área que tem sido a minha vida por 41 anos".


Jair Bolsonaro confirma Marcos Pontes como ministro da Ciência e Tecnologia
Jornal Hoje




Jair Bolsonaro confirma Marcos Pontes como ministro da Ciência e Tecnologia


Ele também afirmou que as áreas de ciência e tecnologia devem buscar inovações específicas para a realidade brasileira.


"Como sempre digo, educação para formar cidadãos qualificados; ciência, para desenvolver ideias e soluções específicas para o Brasil; tecnologia, para transformar essas ideias em inovações, que vão se transformar em novos produtos. Estes vão se transformar em novas empresas, que vão gerar novos empregos. Esse ciclo virtuoso é o que a gente quer criar aqui no Brasil", disse.



Astronauta Marcos Pontes fala sobre convite para ser ministro da Ciência e Tecnologia
TEM Notícias 1ª Edição – Bauru/Marília





Astronauta Marcos Pontes fala sobre convite para ser ministro da Ciência e Tecnologia

Carreira

Marcos Pontes ficou conhecido no Brasil e no mundo como o primeiro e único astronauta brasileiro a ir para o espaço. Durante 40 anos de carreira, Pontes foi aviador, piloto de caça e seguiu carreira militar, chegando ao posto de tenente-coronel.


Às 23h30 do dia 29 de março de 2006 (no horário de Brasília), Pontes entrou para a história como o primeiro brasileiro a voar para o espaço. Acompanhado do russo Pavel Vinogradov e do norte-americano Jeffrey Williams, ele decolou da base de Baikonur, no Cazaquistão, a bordo da nave russa Soyuz-TMA 8, com destino à Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês).



Astronautas (Marcos Pontes à esquerda) que participaram da Missão Centenário, em 2006 — Foto: NASA/Divulgação
Atualmente, é Embaixador da Boa Vontade na Organização das Nações Unidas (ONU), dá palestras e trabalha na Nasa, a agência espacial norte-americana.

Segundo o perfil publicado no site de Pontes, ele é engenheiro aeronáutico formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e mestre em Engenharia de Sistemas pela Naval Postgraduate School, Califórnia, EUA.

Pontes entrou na Força Aérea Brasileira em 1981 e foi instrutor, líder de esquadrilha de caça e piloto de testes, com mais de 2 mil horas de voo em 25 tipos de aeronave.

O currículo do futuro ministro registra que suas funções militares se encerraram em 1998, quando ele foi selecionado por concurso público da Agência Espacial Brasileira para representar o Brasil na NASA na função de astronauta, uma carreira civil.




Autor: Guilherme Mazui, G1
Fonte: G1
Sítio Online da Publicação: G1
Data: 31/10/2018
Publicação Original: https://g1.globo.com/politica/noticia/2018/10/31/bolsonaro-anuncia-astronauta-marcos-pontes-como-ministro-da-ciencia-e-tecnologia.ghtml

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Pesquisa sobre asma recebe prêmio L’Oréal –Unesco-ABC “Para Mulheres na Ciência”


Dedicação recompensada: para Fernanda Cruz, prêmio traz reconhecimento e estímulo financeiro para continuar as pesquisas (Foto: Divulgação/L'Oréal Brasil)



A busca de terapias mais efetivas para o tratamento de problemas respiratórios crônicos rendeu à médica Fernanda Ferreira Cruz, de 32 anos, o Prêmio L’Oréal –Unesco-ABC “Para Mulheres na Ciência”. Especialista em Medicina Regenerativa, ela é uma das sete vencedoras da edição 2018 e receberá bolsa de R$ 50 mil para impulsionar suas pesquisas na busca de soluções menos invasivas para a asma grave e para a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). A lista das vencedoras foi divulgada na primeira quinzena de agosto e a cerimônia de premiação será realizada no dia 4 de outubro, na sede da L’Oréal, no Rio de Janeiro.

Além do reconhecimento de uma carreira integralmente dedicada à pesquisa, Fernanda Cruz também comemora a oportuna ajuda financeira, num momento de contingência no orçamento das entidades científicas e acadêmicas. “A conquista do prêmio é, também, um importante incentivo aos meus colegas de trabalho e alunos de Iniciação Científica e pós-graduação do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IBCCF/UFRJ)”, afirma.

Dificuldade de respirar, tosse, chiado, aperto no peito e respiração curta e rápida são os principais sintomas da asma. Sua origem pode ser genética – como a existência de histórico familiar – e seu quadro geralmente é intensificado por fatores ambientais como frio excessivo, poluição, odores fortes etc. Professora Adjunta no IBCCF, Fernanda explica que a terapia mais comum para asma busca o controle dos sintomas e a melhoria da função pulmonar. Em geral, o tratamento é feito com medicamentos de ação anti-inflamatória, em especial os corticoides sistêmicos ou inalatórios, geralmente associados aos broncodilatadores (as “bombinhas” de asma) e à adoção de medidas educativas e de controle dos fatores que disparam a crise.

Patologia respiratória bastante comum, a asma afeta, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 300 milhões de pessoas no mundo e é responsável por aproximadamente 250 mil mortes anuais. No Brasil são 6,4 milhões de asmáticos acima de 18 anos, segundo Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada pelo Ministério da Saúde e Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Entretanto, de 10% a 20% desse contingente não respondem aos medicamentos disponíveis e a cada crise acumulam mais danos ao tecido pulmonar, o que ao longo do tempo agrava o quadro e aumenta o risco de óbito”, explica a pesquisadora. Este percentual de pacientes é exatamente o grupo-alvo de suas pesquisas, iniciadas com células-tronco, a fim de reverter os danos causados pela doença. Ao longo dos estudos, além de células-tronco presentes na medula óssea, identificaram-se células maduras (monócitos) com potencial anti-inflamatório e regenerativo. “Tais células também são encontradas no sangue, o que abre a possibilidade de a terapia celular não depender de um procedimento tão invasivo quanto a punção da medula óssea”, explica Fernanda.

Segundo a pesquisadora, os monócitos têm origem na medula, mas passam pela corrente sanguínea antes de se deslocarem para os tecidos – como o alveolar – onde são denominados macrófagos. Conhecidos como “faxineiros”, são capazes de limpar restos celulares, partículas inertes ou microrganismos, mantendo os tecidos livres de corpos estranhos, além de exercerem função imunitária. Ela explica que as pesquisas, agora, buscam desenvolver estratégias que aumentem o potencial terapêutico dessas células, seu potencial anti-inflamatório, e entender como elas agem no controle e regeneração de outras células do pulmão, visando melhorias dos diversos sintomas da asma, como a produção de muco, por exemplo.

Graduada com louvor pela Faculdade de Medicina da UFRJ, Fernanda estuda novas terapias para problemas respiratórios crônicos desde sua Iniciação Científica. Contemplada pelo programa Pós-Doutorado Nota 10 da FAPERJ, seu projeto “Terapia Celular em Modelo Murino de Asma Grave: papel dos Macrófagos” foi seu terceiro pós-doutorado, supervisionado pelo professor Marcelo Morales. De 2014 a 2017, sob a supervisão da professora Patrícia Rieken Macedo Rocco, ela recebeu bolsa Atração Jovens Talentos, com verba de consumo do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do programa Auxílio Instalação da FAPERJ para pesquisa em Medicina Regenerativa. Entre 2013 e 2014, seu pós-doutorado em Medicina Regenerativa e Bioengenharia foi fora do Brasil, na Faculdade de Medicina da Universidade de Vermont, nos Estados Unidos, sob supervisão de Daniel Weiss, com bolsa de Pós-doutorado no Exterior do CNPq.

Os projetos de pesquisa relacionados à Fisiologia e Fisiopatologia Pulmonar, Imunologia, Medicina Intensiva, Medicina Regenerativa e Bioengenharia de Fernanda já receberam quatro prêmios da Sociedade Torácica Americana. Com 11 artigos publicados como primeira autora, 27 como coautora, 11 artigos plenos em revistas indexadas, três capítulos como primeira autora em livros internacionais e dois como coautora em livros nacional e internacional, ela foi eleita membro do Programa Jovens Lideranças Médicas da Academia Nacional de Medicina (ANM).

Em sua 13ª edição, o programa “Para Mulheres na Ciência”, desenvolvido pela L'Oréal em parceria com a Unesco e a Academia Brasileira de Ciências (ABC), recebeu recorde de inscrições, um total de 524 trabalhos, 34% a mais que em 2017. O programa tem como objetivo transformar o panorama da ciência no País, favorecendo o equilíbrio dos gêneros no cenário brasileiro e incentivando a entrada de jovens mulheres no universo científico. Anualmente, são premiados sete jovens pesquisadoras em quatro categorias: Ciências da Vida, Química, Matemática e Física. Em mais de uma década já foram distribuídos R$ 3,5 milhões entre 82 mulheres cientistas, escolhidas por uma comissão julgadora formada por renomados profissionais das áreas científicas. Fernanda foi a única pesquisadora premiada pelo Estado do Rio de Janeiro na edição deste ano. As outras seis contempladas são a bióloga Angélica Vieira, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que investiga o aumento da resistência da população a antibióticos; a bioquímica Ethel Wilhelm, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que dedica-se a terapias eficazes para causas de dores em idosos; Sabrina Lisboa, biomédica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP), que busca uma terapia eficaz para pacientes que sofrem de Transtorno de Estresse Pós-Traumático; Jaqueline Soares, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), que conduz estudo sobre o desenvolvimento de próteses ortopédicas e dentárias mais resistentes, a partir da pedra-sabão; Nathalia Lima, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), cujo trabalho de pesquisa busca aumentar prazo de validade do cimento; e Luna Lomonaco, do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME/USP), especialista em sistemas dinâmicos, ou seja, sistemas que mudam com o tempo.








Autor: Paula Guatimosim
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 20/09/2018
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3630.2.7

terça-feira, 7 de agosto de 2018

A questão ambiental entre a ciência e a ideologia, Parte 6/7, artigo de Roberto Naime

SILVA et al (1997) asseveram que FERRY (1994) classifica as diversas correntes ambientalistas, inicialmente como movimento de libertação animal, onde há uma expansão do universo moral para os seres sencientes, sendo esta uma ética baseada em interesses utilitaristas, como a defendida por SINGER (1994).

Em ecologia superficial, de cunho instrumental, segundo o qual a natureza possui caráter humanista, não é considerada sujeito de direito e sua preservação constitui-se um meio para conseguir o bem-estar do homem.

E por último, em ecologia profunda, defendida por NAESS (1973), a qual adota uma nova ética baseada em princípios preconizadores de que a valorização ética da natureza independe da sua utilidade quanto às demandas práticas da sociedade.

Os limites objetivos de qualquer ser vivo devem ser respeitados, os valores humanos devem ser equivalentes aos dos demais seres da natureza, os homens não têm nenhum direito que lhes assegure dominação sobre as outras espécies e a riqueza e a diversidade da vida devem ser garantidas para as gerações futuras.

Os posicionamentos ideológicos no interior do próprio movimento ambientalista são bastante divergentes. Schwarz & Schwarz dizem que os ambientalistas aceitam a estrutura intelectual da sociedade industrial, tentando resolver os problemas ambientais neste contexto.

Os ecologistas ditos profundos acreditam não ser possível resolver tais problemas, caso não se mude radicalmente o sistema de valores atuais com profundas substituições nos códigos culturais (SCHWARZ & SCHWARZ, 1990). Na prática, verifica-se ser muito difícil analisar as diferenças dos discursos no interior dos movimentos ambientalistas.

Neste contexto, o setor empresarial assumiria um papel de destaque nesta nova fase do debate ambientalista. Schmidheiny, o principal conselheiro para Negócios e Indústria do secretário-geral da Conferência das Nações Unidas para Meio Ambiente e Desenvolvimento, defende que “parte da ‘sanidade ambiental’ só será alcançada através da modernização dos meios de produção, sob uma ótica de custo/benefício” (SCHMIDHEINY, 1992:35).

Ao criticar tal argumento, Tauk-Tornisielo afirma que é “motivado mais pela necessidade de racionalizar custos do que desenvolver cuidados com o ambiente, refletindo o novo posicionamento das indústrias diante da nova ordem econômica mundial, onde o aumento sensível da competitividade passa pela redução de custos, sem a qual as empresas estarão à margem dos mercados” (TAUK-TORNISIELO, 1995:11).

Nesta visão a iniciativa privada apenas se camufla de comprometida com causas ambientais, buscando maximizar condições operacionais.

Por isso se sabe que leis e normas não vão resolver os problemas. A civilização humana vai acabar determinando nova autopoiese sistêmica, na acepção de Niklas Luhmann e Ulrich Beck, que contemple a solução dos maiores problemas e contradições exibidas pelo atual arranjo de equilíbrio. Para sua própria sobrevivência, o “sistema” vai acabar impondo uma nova metamorfose efetiva.

A autopoiese sistêmica dominante necessita ser alterada. Pois hoje só o consumismo garante a manutenção dos círculos virtuosos da sociedade.

Aumento de consumo gera maiores tributos, maior capacidade de intervenção estatal, maior lucratividade organizacional e manutenção das taxas de geração de ocupação e renda. O consumismo precisa ser substituído pela idéia de satisfazer as necessidades dentro de ciclos.

A primeira fase ecológica foi caracterizada por um certo “romantismo naturalista” que lutava pela intocabilidade da natureza.

A segunda refletia um período de informação, onde a junção da mídia com a ecologia, por um lado, e a emergência de movimentos de defesa do meio ambiente, por outro, permitiram o surgimento de um ‘”marketing ecológico”, que causou transformações nas formas de percepção das questões ambientais pela população.

Na terceira fase da ecologia, na da década de 90 do século passado, a proteção ambiental passa a ser vista como “sub-produto da racionalização de custos”, garantindo, portanto, a “oxigenação” dos processos produtivos (TAUK-TORNISIELO, 1995).

Neste embate ressurgiu, a partir dos trabalhos em ecodesenvolvimento na década de 60, o conceito de “desenvolvimento sustentável”, visto como “um processo de transformação no qual a exploração dos recursos, a direção dos investimentos, a orientação do desenvolvimento tecnológico e a mudança institucional se harmonizam e reforçam o potencial presente e futuro, a fim de atender às necessidades e aspirações humanas” (CARVALHO, 1991 apud RIBEIRO, 1992:21).

Assim, a idéia de sustentabilidade do ambiente e do desenvolvimento passou a ser fundamental no interior das discussões da CNUMAD/92.

Na visão economicista, diz Comune, “o ponto central da teoria econômica do meio ambiente determina que a maneira de tratar as ineficiências do mercado para atingir o ponto ótimo de eficiência alocativa da economia, define as bases das políticas do meio ambiente” (COMUNE, 1994:51).

Nas análises econômicas convencionais, as externalidades e os bens públicos nem sempre são levados em consideração e, para a eficiência de um mercado perfeitamente competitivo, não se contabilizam estes fenômenos por constituírem fontes de ineficiências. Não há pretensão de finalizar discussões, mas ocorre bem isso.

Por isso a abordagem sociológica e antropológica acaba alicerçando movimentos da sociedade que propugnam alterações ideológicas como apanágios para a solução de problemas ambientais.

Não ocorre encaminhamento de soluções, pois tanto vertentes socialistas como da livre iniciativa adotam a cartilha de crescimento permanente como forma de incrementar círculos econômicos virtuosos.

ANDERSON & LEAL (1992) afirmam que a ecologia de livre mercado enfatiza a importância dos processos de mercado na determinação de quantidades ótimas da utilização de recursos.
Se critica os adeptos do desenvolvimento sustentável e se considera que este seria demasiadamente centrado na administração científica do ambiente e baseado em políticas coercitivo ou disciplinadoras, sob o controle do Estado.

SILVA et al (1997) assinalam que a apologia ao mercado determina que “ao contrário das soluções por regulamentações para os problemas do meio ambiente, especialistas uma postura onisciente e benévola, o ambientalismo de livre mercado descentraliza o poder e atrela os interesses próprios através de incentivos de mercado” (ANDERSON & LEAL, 1992: 167)

Existem posicionamentos bastante controvertidos em relação à questão do desenvolvimento sustentável e Viola diferencia posições divergentes neste debate, a estatista, que através de mecanismos normativos, reguladores e promotores, vê no Estado o lócus privilegiado do desenvolvimento social e ambientalmente sustentável.

A comunitária, que, por meio dos movimentos sociais e das organizações não governamentais identifica na comunidade esse lócus privilegiado.

E finalmente a visão de mercado, que mediante taxas ou tarifas, tanto da poluição, como do uso de recursos naturais e de concessões comercializáveis de taxas de poluição, prioriza
o critério da eficiência sobre o da eqüidade (VIOLA, 1992).

O debate está aberto a todos os interessados, que queiram contribuir com formulações a serem construídas e não existem posições dominantes ou hegemônicas.

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.


Nota da Redação: Sugerimos que leia, também, as partes anteriores desta série de artigos:

A questão ambiental entre a ciência e a ideologia, Parte 1/7

A questão ambiental entre a ciência e a ideologia, Parte 2/7

A questão ambiental entre a ciência e a ideologia, Parte 3/7

A questão ambiental entre a ciência e a ideologia, Parte 4/7

A questão ambiental entre a ciência e a ideologia, Parte 5/7



Referências:

ACOT, P., 1990. História da Ecologia. Rio de Janeiro: Campos.

ANDERSON, T. L. & LEAL, D., 1992. Ecologia de Livre Mercado. Rio de Janeiro/Porto Alegre: Expressão e Cultura/Instituto Liberal.

BERTALANFFY, L. V., 1977. Teoria Geral dos Sistemas. Petrópolis: Vozes.

BORNHEIM, G., 1989. Tecnologia e política. In: Anais do Seminário Universidade e Meio Ambiente: Documentos Básicos, pp. 165-167, Brasília: Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis ­ IBAMA.

BRUNDTLAND, G.H., 1991. Nosso Futuro Comum. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas.

BRÜSEKE, F. J., 1993. Para uma teoria não-linear e pluri-dimensional do desenvolvimento. In: As Ciências Sociais e a Questão Ambiental Rumo à Interdisciplinaridade (P. F. Vieira & D. Maimon, orgs.), pp. 189-216, Rio de Janeiro/Belém: Associação de Pesquisa e Ensino em Ecologia e Desenvolvimento ­ APED/Universidade Federal do Pará ­ UFPA.

CHÂTELET, F., 1994. Uma História da Razão: Entrevistas com Emile Noël. Rio de Janeiro: Zahar.

COMUNE, A. E., 1994. Meio ambiente, economia e economistas. Uma breve discussão. In: Valorando a Natureza (P. H. May & R. S. da Motta, orgs.), pp. 45-58, Rio de Janeiro: Campus.

COSTA, W. M., 1989. Bases epistemológicas da questão ambiental: determinações, mediações e contradições. In: Anais do Seminário Universidade e Meio Ambiente: Documentos Básicos, pp. 99-105, Brasília: Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis/IBAMA.

COUTINHO, M., 1992. Ecologia e Pensamento Ambientalista. Uma Reflexão acerca do Tráfego de Idéias e Conceitos. Tese de Doutorado, São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Sociais, Universidade de São Paulo.

CRAMER, J. & VAN DEN DAELE, W., 1985. Ecology an “alternative” natural science? Synthese, 65:347-400.

DESCARTES, R., 1966. Discours de la Méthode. Paris: Garnier-Flammarion.

DUPUY, J. P., 1980. Introdução à Crítica da Ecologia Política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

EDMUNDS, S. & LETEY, J., 1975. Ordenación y Gestion del Medio Ambiente. Madrid: Instituto de Estudios de Administración Local.

FERNANDEZ, M. I. T., 1995. Acerca del Ver, Pensar, Actuar y Salud. Tese de Doutorado, Rio de Janeiro: Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz.

FERRY, L., 1994. A Nova Ordem Ecológica: A Árvore, o Animal e o Homem. São Paulo: Ensaio.

FUCKS, M., 1992. Natureza e meio ambiente: a caminho da construção de um consenso social. In: Ecologia, Ciência e Política (M. Goldenberg, coord.), pp. 121-134, Rio de Janeiro: Revan.

HABERMAS, J., 1983. Textos Escolhidos. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural.

HOTTOIS, G., 1994. Vérité objective, puissance et système, solidarité. (D’ une étique pour l’age technoscientifique). Revue Transdisciplinaires en Santé, 1:69-84.

JONAS, H., 1973. Philosophical Essays: From Ancient Creed to Technological Man. Chicago/Londres: The University of Chicago Press

LADRIÈRE, J., (s/data). Ética e Pensamento Científico: Abordagem Filosófica da Problemática Ética. São Paulo: Letras & Letras.

LAGO, A. & PÁDUA, J. A., 1985. O que é Ecologia? São Paulo: Brasiliense.

LEOPOLD, A., 1949. A Sand Country Almanac and Sketches Here and There. New York: Oxford University Press.

MCCORMICK, J., 1992. Rumo ao Paraíso: A História do Movimento Ambientalista. Rio de Janeiro: Relume-Dumará.

MEADOWS, D. H., 1978. Limites do Crescimento.Um Relatório para o Projeto do Clube de Roma sobre o Dilema da Humanidade. Coleção Debates. São Paulo: Perspectiva.

MORI, M., 1994. L’ambiente nel dibattito etico contemporaneo. In: Costituzioni, Razionalità, Ambiente, (S. Scamuzzi, org.), pp. 91-127, Torino: Bollati-Boringhieri.

MORIN, E., 1977. O Método I: A Natureza da Natureza. Portugal: Europa-América.

MOSCOVICI, S., 1977. A Sociedade contra Natureza. Lisboa: Bertrand.

NAESS, A., 1973. The shallow and the deep, long-range ecology movement. Inquiry, 16:95-100.

ODUM, E. P., 1971. Fundamentals of Ecology. 3a ed., Filadélfia: W. B. Saunders Company.

ODUM, E. P., 1986. Ecologia. Rio de Janeiro: Ed.Guanabara.

PIAGET, J. & GARCIA, R., 1987. Psicogênese e História das Ciências. Lisboa: Dom Quixote.

PRIGOGINE, I. & STENGERS, I., 1992. Entre o Tempo e a Eternidade. São Paulo: Companhia das Letras.

RIBEIRO, G. L., 1992. Ambientalismo e desenvolvimento sustentado: nova ideologia/utopia do desenvolvimento. In: Meio Ambiente, Desenvolvimento e Reprodução ­ Versões da ECO 92 pp. 5-36, Rio de Janeiro: Instituto de Estudos da Religião.

ROSSET, C., 1989. A Anti-Natureza: Elementos para uma Filosofia Trágica. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo.

SCHMIDHEINY, S., 1992. Mudando de Rumo: Uma Perspectiva Empresarial Global sobre o Desenvolvimento e o Meio Ambiente. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas.

SCHRAMM, F. R., 1992. Ética e ecologia: algumas reflexões comuns. In: Saúde, Ambiente e Desenvolvimento: Uma Análise Interdisciplinar (M. C. Leal; P. C. Sabroza; R. H. Rodriguez & P. M. Buss, orgs.), pp. 207-216, São Paulo: Hucitec/Rio de Janeiro: Abrasco.

SCHWARZ, W. & SCHWARZ, D., 1990. Ecologia: Alternativa para o Futuro. São Paulo: Paz e Terra.

SINGER, P., 1994. Ética Prática. São Paulo: Martins Fontes.

TAUK-TORNISIELO, S. M., 1995. Análise ambiental: os princípios da interdisciplinaridade. In: Análise Ambiental. Estratégias e Ações (S. M. Tauk-Tornisiello; N. Gobbi; C. Foresti & S. T. Lima, orgs.), pp. 9-17, São Paulo: T. A. Queiroz/Editora da Universidade Estadual Paulista.

THOMAS, K., 1989. O Homem e o Mundo Natural. Mudanças de Atitudes em Relação às Plantas e aos Animais (1500-1800). São Paulo: Companhia das Letras.

VIOLA, E. 1992. O movimento ambientalista no Brasil (1971-1991): da denúncia e conscientização pública para a institucionalização e o desenvolvimento sustentável. In: Ecologia, Ciência e Política (M. Goldenberg, coord.), pp. 49-75, Rio de Janeiro: Revan.

VIOLA, E. J. & LEIS, H. R., 1991. Desordem global da Biosfera e a nova ordem internacional: o papel organizador do ecologismo. In: Ecologia e Política Mundial (H. R. Leis, org.), pp. 23-50. Rio de Janeiro: Vozes.

VIOLA, E. J. & LEIS, H. R., 1995. O ambientalismo multissetorial no Brasil para além da Rio-92: o desafio de uma estratégia globalista viável. In: Meio Ambiente, Desenvolvimento e Cidadania: Desafios para as Ciências Sociais (UFSC, ed.), pp. 134-160, São Paulo: Cortez/Florianópolis: Editora da Universidade Federal de Santa Catarina.

SILVA, Elmo Rodrigues, SCHRAMM, Fermin Roland, A questão ecológica: entre a ciência e a ideologia/utopia de uma época, Cad. Saúde Pública vol. 13 n. 3 Rio de Janeiro Jul./Sep. 1997, http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1997000300002


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 07/08/2018




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 07/08/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/08/07/a-questao-ambiental-entre-a-ciencia-e-a-ideologia-parte-67-artigo-de-roberto-naime/

terça-feira, 24 de julho de 2018

A questão ambiental entre a ciência e a ideologia, Parte 2/7, artigo de Roberto Naime

SILVA et al (1997) asseveram que este período “revolucionário” que a imagem do mundo, tal como a conhecemos hoje, foi construída e deve-se, em grande parte, à Galileu Galilei (1564-1642).

Para ele, a realidade sensível era inteligível, contanto que se realizassem as análises necessárias e se aperfeiçoasse o instrumento matemático, como ocorreu com os trabalhos do físico Isaac Newton (1643-1727).

René Descartes (1596-1650) deu continuidade ao processo de mudanças iniciado por Copérnico e Galileu, sendo considerado o filósofo fundador da modernidade (CHÂTELET, 1994).

A respeito do projeto moderno de dominação racional da natureza pelo homem, Descartes afirma: “conhecendo a força e as ações do fogo, da água, do ar, dos astros, dos céus e de todos os outros corpos que nos cercam, tão distintamente como conhecemos os diversos misteres de nossos artifícios, poderíamos empregá-los da mesma maneira em todos os usos para os quais são próprios, e assim nos tornar como que senhores e possuidores da natureza” (Descartes, 1966:64).

A partir do método cartesiano, a cisão entre homem/natureza e corpo/espírito passou a ser “doutrinária”, ou seja, a visão de separação e dominação tornou-se predominante no mundo ocidental. Esta concepção modula a ciência fracionada que se vive até hoje.

A revolução dos conceitos aceitos perdura ate hoje. Embora a pretensão de tornar o homem “senhor e possuidor da natureza” tivesse se mostrado, nos séculos seguintes, nem tão possível, nem tão boa, o pensamento cartesiano ficou profundamente enraizado na cultura ocidental, desde a sociedade iluminista até os tempos atuais.

Por isso quando se analisa qualquer coisa, não se consegue com facilidade impor abordagem holística.

Dois aspectos importantes destacam-se no pensamento cartesiano, a racionalidade e o antropocentrismo. Conseqüentemente, a natureza dessacralizada pela separação homem-sujeito de um lado e natureza-objeto do outro, resultou em “novas” possibilidades científicas e tecnológicas, libertando definitivamente a ciência das concepções teológicas herdadas do mundo medieval.

Abrem-se diferentes perspectivas no pensamento filosófico, político, econômico e surge a industrialização que deu origem a profundas transformações na sociedade.

A partir do século XVIII, elementos inovadores são introduzidos. Dentre os mesmos, a concentração de capitais, a apropriação das forças produtivas e as novas técnicas, máquinas e matérias-primas.

As indústrias instalam-se, destruindo ou redefinindo o meio rural, produzindo ou ampliando as aglomerações urbanas, modificando as formas de apropriação dos recursos naturais e os modos de relacionamento com o ambiente natural original.

Os impactos ambientais não devem ser associados exclusivamente com a grande indústria, dominante a partir das primeiras décadas deste século. Já no século XVIII, o seu modo de operar se fazia sentir, alterando a natureza, devido, principalmente, a dois elementos fundamentais do relacionamento entre atividades produtivas e meio ambiente, a escala e a intensidade dos impactos (COSTA, 1989). É a partir deste período que ciência e tecnologia tornam-se inseparáveis.

No domínio específico da ciência, observa-se a continuidade da fragmentação do conhecimento científico. A experiência cotidiana permite atestar que embora os órgãos de fomento a pesquisa no país estejam consolidados e representem marcos de competência e idoneidade, estão totalmente comprometidos com estas abordagens científicas totalmente fragmentadas.

Com a valorização da filosofia positiva, no século XIX, a especialização disciplinar vai se estabelecendo como paradigma. Moscovici afirma que “a individualização dos atos, dos interesses e das relações humanas, deram vigoroso impulso à oposição sociedade e natureza. Em física, em biologia, em economia, em filosofia, em toda parte o indivíduo é a unidade de referência e a sociedade só poderia ser um estado antagonista” (MOSCOVICI, 1977:75).

Este constituiu o modelo do projeto racional para o mundo, em que a ciência e a técnica são identificadas como ideais de progresso e felicidade. E está se descobrindo escancaradamente que não é assim.

Apesar da crença progressista na ciência e na tecnologia, a exploração predatória dos recursos naturais é sentida e questionada por alguns grupos. O movimento romântico europeu, por exemplo, possibilitou o surgimento de “novas sensibilidades” em relação ao mundo natural, “o início do período moderno de fato engendrou essa sensibilidade cindida, da qual a civilização sofre até hoje” (THOMAS, 1989:339).

De certa maneira condicionada a esta herança, surge, no século XX, a crítica ao projeto moderno de compreensão e dominação da natureza. As incertezas, os paradoxos e a dificuldade para explicar os novos fenômenos vão conduzindo a ciência a buscar novos rumos.

A “nova física”, proposta por I. Prigogine, demonstra-nos que os fenômenos são dependentes da historicidade, que há imprecisão nos instrumentos e nas observações objetivas da ciência, causando perplexidades.

Assim, Prigogine & Stengers consideram que “as descobertas experimentais inesperadas que marcaram a física tais como instabilidade das partículas elementares, estruturas de não-equilíbrio apontam para a necessidade de ultrapassar a negação do tempo irreversível, herança deixada pela física clássica para a relatividade e a mecânica quântica” (PRIGOGINE & STENGERS, 1992:13).

Deste modo, busca-se compreender a emergência dos sistemas evolutivos e uma nova visão de mundo vai se delineando. Até alcançar os paradoxos de hoje, onde parece que nem ideologia e nem nova ciência salvam a civilização. Apenas nova autopoiese sistêmica civilizatória, mas que não se vislumbra a partir de onde poderá ser construída.


Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.




Autor: Roberto Naime
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 24/07/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/07/24/a-questao-ambiental-entre-a-ciencia-e-a-ideologia-parte-27-artigo-de-roberto-naime/

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Como aliviar a tosse do bebê? Veja o que funciona, de acordo com a ciência

Direito de imagem
GETTY IMAGES
Image caption

Em casos graves de ataque de tosse, os pais devem levar o bebê ao médico

Pode ser bastante desesperador presenciar um ataque de tosse em um bebê. A sensação dos pais muitas vezes é de impotência e exaustão após uma noite em claro pontuada por sessões ritmadas de tosse. O que fazer nessas situações? Há estratégias comprovadamente eficazes para aliviar o sintoma?

Em casos mais graves, não há dúvida. É preciso levar a criança ao médico ou a um serviço de emergência. Alguns sinais de alerta que indicam a necessidade de um atendimento profissional imediato são: dificuldade de respirar mesmo nos momentos em que o bebê não está tossindo, pele azulada ao redor da boca, febre alta persistente e prostração.

A maior parte dos casos de tosse em bebês, no entanto, tem uma causa bem menos preocupante: o resfriado comum, resultante de infecções virais. Segundo a pediatra Sônia Chiba, presidente do Departamento Científico de Pneumologia da Sociedade de Pediatria de São Paulo, a maioria dos resfriados não requer nenhuma medicação. Trata-se de uma doença autolimitada, que dura de cinco a sete dias independentemente do uso de remédios.

Se a criança tem períodos de tosse intensa e febre, mas na maior parte do tempo fica bem, sorri, brinca e não deixa de beber líquidos, então ela provavelmente tem um resfriado comum.
Remédio para tosse?

Apesar de menos grave, o resfriado pode ser bastante desconfortável para os pequenos, principalmente por causa dos acessos intermináveis de tosse. Infelizmente, não há nenhuma medicação comprovadamente capaz de aliviar a tosse causada por resfriados em bebês.

Até existem produtos disponíveis na farmácia que alegam proporcionar alívio. Mas, segundo uma revisão publicada em 2014 pela Colaboração Cochrane - organização internacional especializada em revisar estudos da área médica -, não há indícios científicos suficientes para justificar o uso de medicamentos populares, como xaropes, para tratar a tosse em crianças ou adultos.

Para os pais que estão vendo um filho sofrer com os sintomas de um resfriado, pode ser difícil aceitar que o melhor a fazer é esperar a doença seguir seu curso natural e evitar o uso de medicamentos. Mas, em alguns países, já houve uma mudança de mentalidade nesse sentido, de acordo com o pediatra Dennis Scolnik, professor da Universidade de Toronto, no Canadá, e especialista em emergência pediátrica.
Risco desnecessário

"Nós paramos de usar medicamentos para resfriado em muitos países porque nada se mostrou eficaz para tratar uma tosse viral. Não usamos xaropes, inclusive a maioria já foi retirada das farmácias no Canadá", diz Scolnik. Ele afirma que uma criança com resfriado só precisará de medicação caso se mostre necessário reduzir a febre. Outros medicamentos têm riscos de efeitos colaterais, e por que correr esse risco quando se sabe que eles não funcionam?

"Percebo que no Canadá, nos últimos 8 a 10 anos, as pessoas estão aceitando isso muito melhor. Inclusive, elas até sabem quando não é preciso ir ao médico", diz o pediatra. "Mas já trabalhei em outros lugares onde os pais praticamente ameaçam processar o pediatra caso ele não receite um medicamento, e eles querem um antibiótico imediatamente." Scolnik observa que, em muitas situações, é mais difícil para o médico gastar 5 minutos educando os pais do que 30 segundos escrevendo uma prescrição.

A pediatra Sônia Chiba afirma que a conscientizar os pais de que é melhor não medicar um resfriado ainda é um desafio no Brasil. "É trabalhoso porque os pais ficam muito ansiosos. Tem pais que querem antibióticos e quando o pediatra não receita, eles acabam desistindo do profissional." Para Scolnik, essa é uma conscientização que deve começar nas escolas de medicina e se espalhar pela sociedade.
O que os pediatras recomendam?

Já que não existem remédios comprovadamente eficazes para tratar a tosse relacionada ao resfriado, o que os médicos recomendam para bebês com esse sintoma? De acordo com Fátima Rodrigues Fernandes, pediatra e alergologista do Hospital Infantil Sabará, em São Paulo, é importante garantir a hidratação do bebê oferecendo líquidos constantemente. Em caso de bebês de menos de 6 meses, que só se alimentam de leite, pode ser benéfico aumentar a oferta de leite nesse período.

Além disso, Fernandes recomenda que os pais pinguem soro fisiológico nas narinas do bebê. A pediatra explica que, dentro do nariz, existem cílios nos quais partículas nocivas se grudam. Por meio de movimentos, esses cílios "varrem" para fora essas partículas, protegendo o organismo. Quando o interior do nariz está seco, esse aparelho mucociliar não consegue fazer a limpeza de forma adequada, por isso é importante manter a região hidratada.
Inalação, umidificador, mel...Direito de imagem
GETTY IMAGES
Image caption

A inalação com soro fisiológico é uma forma de aliviar a tosse do resfriado em crianças

Existem outras estratégias popularmente adotadas para tentar aliviar a tosse de resfriado em crianças, como inalação com soro fisiológico, uso de umidificador no quarto ou uma colherada de mel antes de dormir. Porém, nem todas têm o aval dos especialistas.

A inalação com soro fisiológico, segundo Fernandes, pode ajudar na hidratação da mucosa respiratória e não traz nenhum risco. Mas o efeito é o mesmo de pingar algumas gotinhas de soro fisiológico nas narinas. Um outro estudo da Colaboração Cochrane de 2017 concluiu que a inalação de ar umidificado e aquecido não demonstra "nem benefícios nem malefícios" para pacientes com resfriado comum.

Já o umidificador de ar, ao mesmo tempo em que pode ser útil para a hidratação das vias aéreas, também pode ser perigoso, segundo Fernandes. "O excesso de umidade é prejudicial sobretudo nas famílias de alérgicos porque propicia a proliferação de ácaros e mofo", diz a especialista. Apesar da popularidade crescente do uso de umidificadores em quartos de crianças que sofrem de tosse, não existem estudos clínicos adequados para avaliar a eficácia desse método.

Quanto ao uso de mel no combate à tosse, é importante lembrar que crianças com menos de 1 ano não devem consumir mel por causa do risco de botulismo, doença neurológica provocada pela toxina produzida pela bactéria Clostridium botulinum.

Para crianças com mais de um ano, uma revisão de estudos publicada em 2018 mostra que aquelas que receberam mel tiveram, de fato, uma leve melhora na duração da tosse em comparação com crianças que receberam placebo ou que não tiveram tratamento nenhum.

Uma outra pesquisa feita na Universidade Estadual da Pensilvânia, nos EUA, avaliou o efeito do néctar de agave, produto com propriedades semelhantes ao mel, para tratar tosse aguda em bebês de 2 meses a 3 anos. A conclusão foi que a substância promoveu uma leve melhora do sintoma. Porém o efeito foi semelhante ao observado com placebo, substância inerte usada em ensaios clínicos para se medir o efeito psicológico positivo de se usar uma droga. Na conclusão, os autores do estudo recomendam que pais e pediatras avaliem o custo-benefício dessa alternativa.

De acordo com a pediatra Sônia Chiba, quando não há contraindicações, algumas dessas estratégias podem ajudar os pais a ficarem menos ansiosos, o que pode contribuir paralelamente para o bem-estar da criança.

Em termos de prevenção, a recomendação geral dos pediatras é manter a carteira de vacinação em dia, lavar as mãos com frequência e evitar grandes aglomerações.
Outras causas de tosse

O resfriado comum é um dos principais responsáveis pela tosse em crianças, mas ela pode ser sintoma de diversas outras doenças.

A asma, que provoca tosse seca, chiado no peito e falta de ar, pode ser desencadeada por fatores como o frio, poeira, exposição a fumaça e resfriado.

Já a bronquiolite, causada pelo vírus sincicial respiratório (VSR), provoca tosse com chiado e é comum em crianças com menos de dois anos.Direito de imagem
GETTY IMAGES
Image caption

Nenhum medicamento é comprovadamente eficaz em aliviar a tosse de resfriado em crianças

A laringite provoca a chamada "tosse de cachorro", semelhante a um latido canino. Trata-se de uma doença viral também comum no outono e inverno.

Outra possível causa da tosse em bebês é o refluxo gastroesofágico, quando o material ácido do refluxo irrita as terminações nervosas dos brônquios, provocando um quadro de tosse crônica.

A tosse também pode ser provocada por alergias e aspiração de objetos.

Cada uma dessas doenças deve ser devidamente diagnosticada e tratada por um médico.
Como identificar uma emergência?

- Dificuldade de respirar, mesmo quando não está tossindo

- Febre alta persistente e prostração

- Pele azulada ao redor da boca
O que fazer quanto à tosse de resfriado?

- Ofereça líquidos, como água e sucos, constantemente. Em caso de bebês com menos de 6 meses, aumente a oferta de leite

- Use soro fisiológico para lavar as narinas da criança

- Deixe a criança encontrar a posição em que ela se sente mais confortável para respirar melhor

- Nenhum medicamento é comprovadamente eficaz em aliviar a tosse de resfriado em crianças. Tenha paciência e aguarde a doença terminar seu ciclo
O que funciona para a tosse?

- Inalação com soro fisiológico: não acarreta riscos e ajuda a hidratar a mucosa respiratória, mas tem efeito semelhante ao uso de soro fisiológico nas narinas

- Umidificador no quarto: pode ajudar a manter a mucosa respiratória hidratada, mas é perigoso. A umidade excessiva aumenta o risco de mofo, o que pode ser pior do que ar seco

- Mel: não deve ser usado para bebês menores de um ano. Em crianças mais velhas, pode ajudar a aliviar os sintomas, ainda que os efeitos não sejam intensos

- Néctar de agave: não tem contraindicação para bebês e se mostrou capaz de provocar uma leve melhora dos sintomas. Porém, os resultados foram semelhantes a placebo, indicando que pode se tratar de um efeito psicológico

- Xaropes: não há indícios científicos de que xaropes e outros medicamentos livres de prescrição disponíveis nas farmácias sejam eficazes para tratar a tosse em crianças
Possíveis causas de tosse em bebês

- Resfriado comum

- Gripe

- Asma

- Bronquiolite

- Laringite

- Alergia

- Refluxo gastroesofágico

- Aspiração de objeto




Autor: Mariana Lenharo
Fonte: Nova York para BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data de Publicação: 19/07/2018
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-44853967

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Com crise e cortes na ciência, jovens doutores encaram o desemprego: 'Título não paga aluguel'


Direito de imagem
CECILIA TOMBESI/BBC NEWS
Image caption

Jovens doutores de diversas áreas de atuação estão enfrentando dificuldades no mercado de trabalho

O estatístico Paulo Tadeu Oliveira, de 55 anos, defendeu seu doutorado na Universidade de São Paulo (USP) em agosto de 2008. Dez anos depois, ainda não conseguiu ingressar no mercado de trabalho. O pesquisador, que é deficiente visual, emendou três pós-doutorados em busca de especialização e experiência, mas não passou nas diversas seleções para o quadro de universidades públicas. Atualmente, está no quarto estágio pós-doutoral, desta vez sem apoio financeiro.

Em busca de trabalho na iniciativa privada, ele consultou 18 headhunters para tentar enquadrar seu currículo ao mercado, mas encontrou respostas similares: o estatístico não possui experiência corporativa e, ao mesmo tempo, é considerado overqualified (qualificado demais) para as posições disponíveis. Em maio, ele relatou sua história à Comissão de Direitos Humanos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e espera resposta.

Assim como Oliveira, diversos jovens doutores (ou seja, titulados recentemente) estão patinando profissionalmente. A concorrência continua crescendo: no ano passado, foram formados 21.609 novos doutores – ao todo, são 302.298, incluindo estrangeiros residentes no país.

Em 2006, o país atingiu a meta de formar 10 mil doutores e 40 mil mestres por ano, segundo dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) divulgados à época. Em 2014, o Plano Nacional de Educação estabeleceu uma nova meta: a formação de 25 mil doutores por ano até 2020.

O problema é que o principal destino de doutores, a área da educação – 74,5% dos empregados estão nas universidades ou institutos de pesquisa – sentiu os efeitos da crise econômica no país.
Talvez também te interesse

O orçamento do Ministério da Educação (MEC) sofreu cortes de R$ 7,7 bilhões em 2015 e de R$ 10,7 bilhões em 2016, segundo dados da própria pasta. No Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) 44% (R$ 2,5 bilhões) foram congelados em 2017, de acordo com números do governo.

A Capes, vinculada ao MEC, perdeu R$ 1 bilhão por ano desde 2015; o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ligado ao MCTIC, também perdeu cerca de R$ 1 bilhão no caixa de 2015 para 2016, o que afeta programas de pós-doutorado, por exemplo.

Nas instituições particulares, o quadro também é pessimista, com a demissão de milhares de professores - a Estácio de Sá, por exemplo, demitiu 1,2 mil docentes em dezembro de 2017 – e o trancamento de matrículas de alunos, que registrou um aumento de 22,4% entre 2011 e 2015, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep).
Novo cenário

Entre 1996 e 2014, o número de programas de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) triplicou no país, informa o relatório Mestres e Doutores 2015, o mais recente da série. Elaborado pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), o estudo revela que o período também registrou um boom na formação de mestres (379%) e doutores (486%) no país.

Um novo estudo em andamento no CGEE revela também a taxa de empregabilidade de doutores recém-titulados: entre 2009 e 2014, o índice se estabilizou em cerca de 73%, mas em 2016 caiu para 69,3%.

"Historicamente, a taxa de emprego é mais estável, fruto de uma política constante, passando por governos variados. Apesar de ter cada vez mais doutores, podemos afirmar que até 2015 eles foram absorvidos pelo mercado, público e privado", diz a coordenadora da pesquisa, Sofia Daher, de 55 anos.

"A queda não é drástica, mas sinaliza uma tendência nova. Houve uma redução considerável de concursos para professores universitários", disse ela à BBC News Brasil.

O pesquisador Ronaldo Ruy, de 36 anos, é um retrato desse novo cenário: está desempregado desde a defesa de seu doutorado na Universidade Federal do Ceará (UFC), em 2016. "Estou buscando pós-doutorado para não tirar definitivamente os dois pés da ciência", diz ele, que fez cursos no Smithsonian Research Tropical Institute e no Florida Museum of Natural History, nos EUA.

Atualmente dependendo da ajuda financeira da família, Ruy buscará trabalho fora de sua área de atuação. "O amor pela ciência não as paga contas. No meu caso particular, a situação chegou ao ponto da minha família ter dado prazo para que eu saia de casa e inevitavelmente terei que seguir outro caminho (profissional)", conta.


Direito de imagem
ARQUIVO PESSOAL
Image caption

Ronaldo Ruy diz que tenta o pós-doutorado como forma de permanecer na ciência

Foi o que fez Karen Carvalho, de 36 anos, doutora em neurociências pela USP.

Após a conclusão da pesquisa no Instituto Butantan, em novembro, ela tentou ingressar na indústria farmacêutica, sem sucesso.

"Durante o doutorado, desenvolvi depressão. Uma ironia, pois meu campo de estudo é estresse e depressão", diz a bióloga, que hoje atua como corretora de imóveis.

De acordo com uma investigação com 2 mil estudantes de 26 países, publicada na revista Nature Biotechnology em março, os pós-graduandos têm seis vezes mais chance de sofrer ansiedade e depressão do que a população geral.

Além das pressões do doutorado, Carvalho afirma que a falta de perspectiva agravou seu quadro.

"No Brasil, a gente é tratado como 'só estudante' durante a pós. Falta olhar para o cientista como um profissional, muitas vezes muitíssimo qualificado. Você se mata para fazer mestrado e doutorado, e depois pensa: e agora, vou fazer o que com os títulos? Só perdi meu tempo? É uma tristeza, perde-se o brilho olhando para a situação atual da ciência. A gente está no limbo."
Doutores demais?

O biólogo professor da Universidade de Brasília (UnB) Marcelo Hermes-Lima, de 53 anos, vem criticando o que vê como uma formação excessiva de doutores desde 2008.

"Teve uma inundação de 'cérebros'. É a lei do mercado: se você tem essa 'commodity' demais, desvaloriza-se", afirma.

Para Hermes-Lima, a última década registrou "uma alucinada proliferação" de cursos de pós-graduação no país, priorizando quantidade, e não qualidade da formação acadêmica. "Aí chegou o teto - e o teto agora está começando a cair", ilustra.

"A crise econômica empurrou muita gente sem real motivação científica para a universidade. Sem emprego, muita gente buscou refúgio na ciência, de olho nas bolsas. A crise demorou para chegar na ciência, mas agora chegou", critica.

O filósofo Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação do governo Dilma Rousseff, pensa diferente. "Parar de investir na formação doutoral é um risco. Como um doutor demora em regra quatro anos para se titular, uma parada significará que, quando precisarmos de mais doutores, eles não estarão disponíveis", analisa.

Para ele, a dificuldade de manter o ritmo de investimento para jovens doutores está relacionada "por um lado, à crise econômica; por outro, às prioridades diferentes do novo governo".


Direito de imagem
ARQUIVO PESSOAL
Image caption

Karen Carvalho, doutora em neurociências, hoje trabalha como corretora de imóveis

Procurado pela BBC News Brasil, o Ministério da Educação diz não ser "verdade que falte recurso para as universidades". "A expansão das universidades federais trouxe impactos significativos para o orçamento do MEC, que precisam ser compreendidos em sua plenitude", escreve a pasta, em nota.

Essa expansão, acrescenta, "foi realizada sem planejamento". "O ano de 2014 foi influenciado pelas eleições e por um momento econômico em que a gestão anterior não mensurou os efeitos dos gastos exagerados e sem controle. Diversos programas aumentaram recursos fora da realidade, fazendo com que a própria gestão anterior iniciasse as reduções, a partir de 2015", conclui.

De 2003 a 2010, houve um salto de 45 para 59 universidades federais, o que representa uma ampliação de 31%; e de 148 câmpus para 274 câmpus/unidades, crescimento de 85%. A expansão também proporcionou uma interiorização – o número de municípios atendidos por universidades federais foi de 114 para 272, um crescimento de 138%, segundo dados do próprio MEC.

Por sua vez, o MCTIC afirma que está atuando junto à equipe econômica para maior disponibilização de recursos. "Em anos anteriores, os esforços do MCTIC para recomposição orçamentária têm dado resultados, com a liberação de recursos contingenciados ao longo do ano. No cenário de restrições orçamentárias, o MCTIC mantém ainda permanente diálogo com os gestores de suas entidades vinculadas para que os recursos sejam otimizados, minimizando o impacto em suas atividades."
Cartas de rejeição

Diante da falta de oportunidade no mercado, tanto na iniciativa privada quanto nas instituições públicas, muitos jovens doutores apostaram na possibilidade de um pós-doutorado, conforme diversos relatos à BBC Brasil. A bolsa mensal do CNPq é de R$ 4,5 mil.

Diferentemente do mestrado ou doutorado, o pós-doutorado não é um título: é uma especialização ou um estágio para aprimorar o nível de excelência de determinada área acadêmica. É visto como um aperfeiçoamento do currículo para processos seletivos para docente nas universidades públicas.

Para a maioria dos candidatos, porém, as expectativas acabaram frustradas.

"A proposta, apesar de meritória, não pode ser atendida nesta demanda, considerando-se a disponibilidade de recursos", dizia a resposta-padrão enviada a dezenas de doutores recém-titulados que tinham pedido bolsas na modalidade Pós-Doutorado Júnior (PDJ), do CNPq.


Direito de imagem
ARQUIVO PESSOAL
Image caption

'Título não paga aluguel', diz Laura Carlette, que estuda o tema

Diante do resultado, divulgado em meados de junho, muitos doutores relataram sua indignação ao serem rejeitados em depoimento em grupo de 6,6 mil pesquisadores brasileiros no Facebook. Sob a condição de anonimato, um parecerista do CNPq conta que os avaliadores também ficaram frustrados. "Não importa o quanto o projeto é excelente, não há recursos para todo mundo; é infrutífero para a ciência do país".

No início deste ano, dos 2.550 pedidos recebidos pelo CNPq, foram concedidas 363 bolsas de PDJ. No primeiro calendário de 2017, foram 2392 pedidos e 359 concessões.

Doutor em psiquiatria pela UFRGS, com temporada de estudos na Tufts University, nos EUA, o pesquisador Dirson João Stein, de 44 anos, tentou quatro editais de pós-doutorado desde abril, diante da falta de concursos na área. Não conseguiu aprovação em nenhum.

"Vejo como uma oportunidade de transição entre a vida estudantil e a vida profissional. Há possibilidade de praticar a docência, um dos principais pré-requisitos para a seleção de professores", considera. Assim como Ruy, Stein depende da família e, agora, faz freelancer como garçom para festas em São Leopoldo (RS).
Peso emocional

A psicóloga Inara Leão Barbosa, de 60 anos, que pesquisa desemprego desde 2003, destaca que um de seus efeitos psicossociais é o isolamento dos amigos e da família.

"É um sentimento de regressão, um impacto muito violento. Eles, que eram considerados tão inteligentes, passam a ser vistos como vagabundos que não querem trabalhar. Muitos voltam a morar com os pais e são tratados como adolescentes. Eles se culpam como indivíduos, esquecendo que a crise faz parte do sistema", diz Barbosa, professora da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS).

Muitos doutores vão parar no subemprego. "E, se você não quiser (o subemprego), no momento de crise tem uma fila de gente que quer", afirma.

Professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), o historiador Rodrigo Turin, 38, diz que a academia está sendo pautada por conceitos como "produtividade", "inovação" e "excelência", respondendo a uma lógica de mercado.

"Já começaram a aparecer, inclusive, ofertas de postos não-remunerados, nos quais esses jovens acadêmicos são induzidos a pesquisar e dar aulas apenas para poder 'engordar' seus currículos e, assim, se tornarem mais competitivos", critica.

Essa "ideologia da excelência" é um dos pontos estudados por Lara Carlette, de 29 anos. Sua tese Universidades de classe mundial e o consenso pela excelência, defendida no Departamento de Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em fevereiro, foi indicada ao Prêmio Capes pela originalidade do trabalho.

Ao propor um desdobramento de sua pesquisa para o CNPq, ela recebeu dois pareceres positivos e uma decisão negativa que, ironicamente, indicava falta de originalidade.

Segundo Carlette, os jovens doutores vivem impasses: por um lado, muitos passam anos na condição de bolsistas de dedicação exclusiva (o que proíbe vínculo empregatício, assim limitando a possibilidade de experiência docente); por outro lado, a experiência é cobrada nos concursos.

Na mesma linha, os acadêmicos precisam preservar a originalidade de suas teses (o que limita a publicação de artigos durante o doutorado), mas a produtividade (o número de publicações) é cobrada nos processos seletivos e nos editais.

"Pode parecer dramático, mas conviver com isso diariamente é torturante. Saber ler a conjuntura, e não individualizar a falta de oportunidades, é essencial", adiciona a pesquisadora, que já foi questionada inclusive pela juventude: foi chamada de "novinha" durante um processo seletivo.

"Depois da alegria e do alívio de defender uma tese, você está desempregado no dia seguinte. Título não paga aluguel."




Autor: Juliana Sayuri
Fonte: São Paulo para a BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data de Publicação: 16/07/2018
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44696697

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Batalhas sem fim



Em 2016, ao lado do senador Cristovam Buarque (à esq.), Helena Nader, da SBPC, integrou uma comissão de instituições de ciência e tecnologia e ensino superior e entregou uma carta ao senador Renan Calheiros (à dir.) pedindo a rejeição dos vetos presidenciais ao Marco LegalImagem: Jane de Araújo / Agência Senado

Em junho de 2018, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), ao lado da Academia Brasileira de Ciências (ABC), da Associação Nacional dos Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) e do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap), encabeçava uma lista de 56 instituições de ensino e pesquisa que assinavam uma mensagem de protesto contra os cortes no orçamento federal de ciência e tecnologia. Encaminhada ao presidente da República, aos ministros da Ciência e Tecnologia e da Educação e aos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, a nota mostra como são aparentemente intermináveis as batalhas em defesa da pesquisa brasileira encampadas pela SBPC desde que começou a funcionar, em 1948, em São Paulo.
Leia também:

Mesmo que não tenha obtido tantas vitórias quanto gostaria, a SBPC contribuiu para aumentar a visibilidade da produção acadêmica nacional, promover a profissionalização da carreira dos cientistas, fortalecer o movimento de criação das fundações estaduais de apoio à pesquisa e ampliar os debates sobre ciência, tecnologia, inovação e ensino superior, de acordo com dirigentes da associação e pesquisadores acadêmicos. Fez-se ouvir ao longo da elaboração da Constituinte de 1988 e nas discussões do Código Florestal, em 2012, e do Marco Legal de Ciência e Tecnologia, em 2017, entre outras situações em que foi consultada ou se manifestou, mesmo sem ter sido convidada. Sua atuação ora é discreta, em reuniões a portas fechadas em gabinetes de deputados e senadores, ora é pública, como na Marcha pela Ciência, que reuniu centenas de pessoas em várias capitais em 2017, em defesa dos investimentos no setor.

A SBPC emergiu em meio a conflitos. Em 1948, o governador paulista, Adhemar de Barros (1947-1951), decidiu intervir no Instituto Butantan e reduzir a pesquisa sem ligação direta com a produção de soros antiofídicos. O diretor do instituto, Eduardo Vaz (1947-1951), demitiu pesquisadores da área de química e endocrinologia. As demissões mobilizaram outros cientistas de São Paulo e incentivaram a criação da SBPC. “Apesar dos protestos, os pesquisadores não conseguiram deter a demissão dos cientistas do Butantan, que começaram a voltar a partir de 1951 com a saída de Vaz e a nomeação de um novo diretor”, comenta o médico sanitarista Nelson Ibañez, coordenador do Laboratório Especial de História da Ciência do Instituto Butantan, que examinou esse episódio em um artigo de 2006 na revista Cadernos de História da Ciência.



Os 10 pesquisadores cassados da Fiocruz em 1970, em foto da década de 1980Imagem: José de carvalho filho /Acervo Casa de Oswaldo Cruz

Em 1949, a SBPC começou a publicar a revista Ciência e cultura, com artigos de divulgação científica escritos por pesquisadores, e a promover as reuniões anuais – a primeira, em Campinas. E logo entrou em outras contendas. A associação reforçou a pressão das lideranças científicas para que o governo de São Paulo levasse adiante um dos artigos da Constituição de 1947, que previa a criação de uma fundação para o apoio à pesquisa científica, a FAPESP, formalizada em 1960 e em operação desde 1962. Nessa época, a SBPC teve um papel importante no reconhecimento social da identidade e do trabalho dos cientistas, ao defender salários melhores e contratos em tempo integral, argumenta o cientista político Antonio José Junqueira Botelho, professor do Instituto Universitário de Pesquisas da Universidade Cândido Mendes, do Rio de Janeiro, em um artigo de 1990 na revista Social Studies of Science.

Em 1964, o recém-implantado governo militar cassou 85 intelectuais e professores universitários, entre eles os educadores Anísio Teixeira (1900-1971) e Paulo Freire (1921-1997) e o antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997). A SBPC manifestou sua preocupação com os afastamentos e a perseguição a professores e pesquisadores, que se intensificou, a partir de 1968, com o Ato Institucional nº 5. Em abril de 1970, o governo decretou a suspensão dos direitos políticos e a aposentadoria compulsória de um grupo de 10 pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz do Rio de Janeiro. Entre eles estava o médico e entomologista Herman Lent (1911-2004), um dos fundadores da SBPC, que em 1978 relatou o episódio no livro O massacre de Manguinhos (editora Avenir). O Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, noticiou a demissão coletiva em 3 de abril de 1970 com o título “Médici pune cientistas”. A Ciência e Cultura reproduziu a notícia e a Associação Médica do Estado da Guanabara enviou uma carta ao presidente da República – reproduzida no Correio – pedindo, sem nenhum sucesso, a revogação da dispensa dos pesquisadores.



A notícia do Correio da Manhã sobre a demissão coletivaImagem: José de carvalho filho /Acervo Casa de Oswaldo Cruz

“A SBPC tomou um posicionamento político claro, era contra a ditadura, mas a maior preocupação eram as interferências do governo na comunidade científica”, diz o físico Sergio Rezende, professor da Universidade Federal de Pernambuco, ex-ministro da Ciência e Tecnologia (2005-2010) e presidente de honra da agremiação. Muitos cientistas de várias áreas do conhecimento que apoiavam a SBPC foram presos – e alguns torturados – por contestar o governo militar. Alguns deles partiram para o exílio; outros decidiram arriscar e ficar no Brasil. Os físicos, em especial, criticaram abertamente o governo militar, sacrificando a própria carreira acadêmica, argumenta o físico Olival Freire Júnior, professor da Universidade Federal da Bahia (UFB), em um artigo de 2009 no Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi.

Os recursos para as instituições de pesquisa começaram a escassear nos anos
1970, acompanhando a queda do crescimento econômico. “Os frutos do regime militar afluíam cada vez menos para os cientistas, que, até então, tinham sido uma clientela privilegiada”, observou a socióloga Ana Maria Fernandes (1948-2018) no livro A Construção da ciência no Brasil e a
SBPC (Editora UnB, 1990). Foi nessa época que a SBPC começou a se pronunciar publicamente de modo crítico sobre temas econômicos, sociais e políticos, incluindo a reintegração de professores aposentados compulsoriamente (os de Manguinhos seriam recontratados a partir de 1979).

A partir de meados dos anos 1970, “a SBPC se tornou um polo de aglutinação de quem queria debater”, comenta o antropólogo Otávio Velho, professor emérito do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que foi secretário e vice-presidente e é presidente de honra da associação. “Ao assumir a luta pela democracia, ao lado de outras associações, em certa medida a SBPC perdeu o papel singular de defender a ciência e sua agenda começou a se fragmentar”, diz Junqueira Botelho, atualmente professor visitante da Universidade Sofia, em Tóquio, no Japão. No mesmo período, ele ressalta, a ciência se tornava mais complexa, com maior participação dos governos federal e estaduais, além de outras agremiações que lutavam por seus espaços, a exemplo da Sociedade Brasileira de Física (SBF), criada em 1966 durante a reunião anual da SBPC, em Blumenau, Santa Catarina.



A instalação da Assembleia Constituinte, em 1987, resultou na Constituição de 1988, que favoreceu a criação de novas fundações estaduais de apoio à pesquisaImagem: Agência Brasil

Depois do choque do petróleo em 1973, quando o preço do combustível chegou a subir 400%, o governo militar, que já tinha iniciado a montagem de Angra I, reforçou a aposta nas usinas nucleares como uma das alternativas para minorar a crise energética. “As sociedades científicas e a SBPC foram veementemente contra”, relembra o físico José Goldemberg, atual presidente da FAPESP e ex-presidente da SBF (1975-1979) e da SBPC (1979-1981). “Apesar dos embates com o governo autoritário, a SBPC nunca foi fechada pelos militares”, destaca Goldemberg.

Em um documento de 15 páginas, de março de 1987, a Comissão de Estudos para a Constituinte da SBPC, coordenada pelo sociólogo José Albertino Rodrigues, professor da Universidade Federal de São Carlos, encaminhou propostas para a gestão de ensino, saúde, espaço territorial, meio ambiente, populações indígenas e ciência e tecnologia. Aprovada em 22 de setembro e promulgada em 5 de outubro de 1988, a Constituição estabelecia, no parágrafo 5º do artigo 218: “É facultado aos Estados e ao Distrito Federal vincular parcela de sua receita orçamentária a entidades públicas de fomento ao ensino e à pesquisa científica e tecnológica”. Ao elaborarem suas Constituições, 21 estados determinaram a criação de fundos ou fundações para gerenciar os recursos destinados a essas duas áreas. Já funcionavam sete fundações estaduais de apoio à pesquisa – as de São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Alagoas, Pernambuco e Maranhão – e as da Paraíba e do Ceará estavam legalmente constituídas. A SBPC apoiou a criação de outras, ao lado dos então dirigentes da FAPESP Flávio Fava de Moraes, Francisco Romeu Landi (1933-2004) e Alberto Carvalho da Silva (1916-2002).

“Nos últimos 14 anos, conseguimos em muitos momentos buscar a modernidade na gestão de ciência e tecnologia e do ensino superior”, comenta a bioquímica Helena Nader, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ela esteve à frente da SBPC por três mandatos (de 2011 a 2017), além de ter sido vice-presidente nas duas gestões do matemático Marco Antonio Raupp (2007-2011), que substituiu quando ele deixou o cargo para assumir a Agência Espacial Brasileira.



Marcha pela Ciência em 2017, em São Paulo, contra os cortes no orçamento federal de ciência e tecnologiaImagem: Adriano Vizoni/Folhapress

Uma de suas grandes batalhas, na gestão de Raupp, foi o Código Florestal. Insatisfeitos com a proposta do governo federal, a SBPC e a ABC formaram um grupo de trabalho. Um dos resultados do esforço foi o livro O Código Florestal e a ciência: Contribuições para o diálogo (SBPC e ABC), lançado no Congresso Nacional, em Brasília, em 2011. “O Código Florestal teria saído pior sem nossas intervenções. Conseguimos aumentar a distância da área de mata próxima a rios a ser preservada. Não conseguimos incluir o mangue como um ecossistema estratégico, mas continuaremos lutando”, conta ela. “O diálogo com os parlamentares é difícil, mas possível.”

Também há derrotas. A mais recente, conta Helena, foi a aprovação da Emenda Constitucional 95/2016 que congelou os gastos públicos, incluindo os de universidades e centros de pesquisa. “Escrevi artigos, falei com ministros e congressistas. Poderiam ter revertido, mas não quiseram, por falta de conhecimento sobre o impacto da ciência, tecnologia e inovação na economia de um país.”

Agora como presidente de honra, Helena irá em julho a uma audiência no Supremo Tribunal Federal sobre descriminalização do aborto, uma das bandeiras mais recentes da instituição. O livro A ciência e o Poder Legislativo no Brasil (SBPC, 2017) retrata as grandes lutas da instituição, mas certamente haverá muito mais. Em um artigo de 2008 na Folha de S.Paulo, Raupp observou: “Algumas décadas de luta ainda serão necessárias para colocar a ciência brasileira não somente em pé de igualdade com as nações mais avançadas, mas sobretudo a serviço do desenvolvimento socioeconômico do país”.

Artigos científicos
IBANEZ, N. et al. De Instituto Soroterápico a Centro de Medicina Experimental: Institucionalização do Butantan no período de 1920 a 1940. Cadernos de História da Ciência, v. 2, n. 1, p. 77-103. 2006.
BOTELHO, A. J. J. The professionalization of Brazilian scientists, the Brazilian Society for the Progress of Science (SBPC), and the state, 1948-60. Social Studies of Science, v. 20, n. 3, p. 473-502, ago. 1990.
FREIRE JR., O. et al. Ciência e política durante o regime militar (1964-1984): A percepção dos físicos brasileiros. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 4 (3), p. 479-85. 2009.

Livros
NADER, H. B.; OLIVEIRA, F. de; MOSSRI, B. de B. (orgs.) A ciência e o Poder Legislativo no Brasil – Relatos e experiências. SBPC: São Paulo, 1ª ed., 2017.
FERNANDES, A. F. A construção da ciência no Brasil e a SBPC. Brasília: Editora UnB, 2ª ed., 2000.

Autor: Carlos Fioravanti
Fonte: Revista Pesquisa FAPERJ
Sítio Online da Publicação: Revista Pesquisa FAPERJ
Data de Publicação: 10/07/2018
Publicação Original: http://revistapesquisa.fapesp.br/2018/07/05/batalhas-sem-fim/