Mostrando postagens com marcador Medicina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Medicina. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 11 de junho de 2019

Academia Nacional de Medicina debate Ensino Médico e o futuro da Saúde

A Academia Nacional de Medicina (ANM) realizou na última quinta-feira (23/05) o “Simpósio Universidades Públicas e o Futuro da Saúde”, coordenado pelo vice-presidente da ANM, Antonio Egídio Nardi, professor do Instituto de Psiquiatria (Ipub) da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O consenso entre os acadêmicos foi de que a iniciativa da ANM em realizar um novo formato de evento, ampliando as discussões, é um importante passo para a retomada da representatividade da entidade no cenário nacional, sua participação na elaboração de políticas públicas, inclusive nas áreas social e econômica.

Presidente da FAPERJ e acadêmico da ANM, Jerson Lima Silva iniciou o debate traçando um panorama do financiamento da Ciência, Tecnologia e Inovação (C,T&I) no estado do Rio de Janeiro, afetado pelo passivo da FAPERJ, superior a R$ 300 milhões, cujo pagamento vem sendo negociado com o governo estadual. “Muitas vezes, quando falamos em salvar o Rio de Janeiro, estamos falando, igualmente, em salvar o Brasil, seu patrimônio científico, cultural”, disse, destacando que o Rio de Janeiro é o segundo maior produtor de conhecimento do País. Quanto ao cenário nacional, lembrou que nos últimos 15 anos o País vem ocupando entre a 12ª e a 14ª posição no ranking mundial de produção de conhecimento, classificação estabelecida a partir do número de artigos publicados em periódicos indexados, um dos melhores resultados já obtidos, tendo formado 22 mil doutores em 2018. O presidente da FAPERJ ressaltou que a Fundação continuará zelando pelos avanços e conquistas da C,T&I no Rio de Janeiro e avaliando sua contribuição para a sociedade. A diretora Científica da FAPERJ, Eliete Bouskela, elogiou a iniciativa da ANM, da qual também é acadêmica: “Este debate é extremante rico e importante para toda a academia ao deixar de discutir apenas temas específicos e passar a produzir protagonismo e planejamento junto ao governo”, afirmou.

Ex-ministro da Saúde, o médico sanitarista José Gomes Temporão alegou que sua motivação para participar do simpósio foi a possibilidade da discussão do momento por que passa o Brasil, dentro de um contexto geral. “Em um país com as dimensões e características do Brasil é imperativo abordar a questão do desenvolvimento em uma visão que integre a educação, a saúde, a ciência”, disse. Para ele, as políticas públicas devem integrar essas três dimensões, tendo a educação como a base do desenvolvimento, a saúde como política de melhoria de condições de vida e de bem estar da população, mas também envolvendo a dimensão econômica, de geração de riqueza e inovação; e a ciência, sem a qual, em sua opinião, o Brasil continuará sendo visto como exportador de commodities. Temporão convocou a ANM a voltar a ocupar seu papel de vanguarda na defesa dos interesses da educação, saúde e ciência no País.

O acadêmico José Osmar Medina, professor de Nefrologia da antiga Escola Paulista de Medicina, atual Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), considera que a organização da sociedade civil tem um papel importante diante do atual quadro de incertezas política e econômica. Destacou os relevantes trabalhos desenvolvidos pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e pelo Instituto Fernando Henrique Cardoso, que, no início de junho, colocará em debate o papel das Forças Armadas no atual governo. Ele classificou a ANM como um “núcleo de racionalidade não corporativa”, e relacionou os principais problemas a serem enfrentados na área da saúde, como a obesidade infantil, a crescente resistência da população em se vacinar, o controle da dependência das drogas, a liberação das armas de fogo, a saturação do mercado médico e as dificuldades de financiamento ao setor. Entre as ameaças à estabilidade, Medina citou a imigração, os conflitos comerciais, a preservação do meio ambiente, a guinada da política mundial à extrema direita, a ameaça de um conflito nuclear e a readaptação da democracia frente ao cenário atual.


Paulo Buss: ex-presidente da Fiocruz destacou o papel das políticas sociais na redução das desigualdades

Paulo Buss, ex-presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e atual diretor do Centro de Relações Internacionais em Saúde da Fiocruz, escolheu o tema “Pobreza, desigualdade e saúde: desafios para governo e sociedade em tempos de Agenda 2030 e Objetivos do Desenvolvimento Sustentável”. Iniciou sua apresentação com dados referentes ao aumento da desigualdade social no Brasil. Segundo ele, relatório do Banco Mundial aponta que a pobreza no Brasil aumentou 7,3 milhões desde 2014, atingindo 21% da população (43,5 milhões de pessoas) em 2017. Como agravante, revelou o acadêmico, houve crescimento da taxa de desocupação, da mortalidade materna e, nos últimos dois anos, da mortalidade infantil, que, em sua opinião, é o principal indicador de saúde pública. “É preciso destacar o papel das políticas sociais implementadas entre 2002 e 2015, como o Bolsa Família e demais benefícios de prestação continuada, que retiraram da pobreza cerca de 50 milhões de brasileiros, garantiram o aumento real do salário mínimo e a redução da mortalidade infantil”, disse. Sobre o atual projeto de cortes no orçamento destinado à Educação, ele considera “a crise mais grave da universidade brasileira em seus 100 anos de história”.

Professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e médico do Hospital Sírio Libanês, o cirurgião Raul Cutait elegeu o tema das “Instituições Privadas como Centros de Ensino” para sua exposição. Segundo ele, apesar de demandarem altos investimentos, necessidade constante de modernização de equipamentos e de instalações, custeio elevado, o número de escolas privadas de medicina é maior do que as públicas. “Enquanto isso, a faculdades públicas não visam lucro, são gratuitas, recebem os melhores alunos e agregam hospitais”, alegou. Ele informou que as mensalidades nas instituições privadas oscilam entre R$ 6 e R$ 16 mil por mês e, ainda assim, as universidades usam hospitais ligados ao SUS para residência dos alunos, a fim de reduzirem seus custos, objetivo que, muitas vezes, afeta também a qualidade do ensino. Entretanto, Cutait citou diversos exemplos positivos, entre eles os Hospitais Albert Einstein e Sírio Libanês, ambos de São Paulo, e o Grupo Fleury de medicina diagnóstica, com 170 unidades de atendimento em sete estados brasileiros, que realiza 78 milhões de exame ano e emprega 10 mil colaboradores. Nos Estados Unidos, o acadêmico deu exemplo de duas instituições sem fins lucrativos, a Mayo Clinic, localizada em Minnesota, cujo staff se limita a dois mil funcionários; e a Cleveland Clinic Foundation, com sede em Ohio, que administra 18 hospitais, 4.200 médicos e oferece 7.300 leitos no total dos seus campi.


Marcelo Morales: dirigente do MCTIC defendeu o repasse de 25% do Fundo Social do Pré-Sal para a ciência

Após a Sessão Ordinária, momento em que confrades e confreiras deram informes de interesse da comunidade médica, o Secretário de Políticas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicação (MCTIC), Marcelo Marcos Morales, deu início à conferência “Saúde, Ciência e Tecnologia: Diagnóstico, Propostas e Soluções no Cenário Atual de Contingenciamentos”. Morales, que também ocupa cadeira de membro titular na ANM, lembrou que, antes de compor o atual governo, integrou os governos de Dilma Rousseff e Michel Temer, e que sua bandeira é a defesa da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação. Convocou todos os presentes a fazerem um diagnóstico dos setores e oferecerem soluções. O secretário destacou os avanços de produtividade na agricultura, a exploração de petróleo em águas profundas no Pré-sal e os avanços nos estudos das arboviroses como importantes exemplos de conquistas da ciência e tecnologia. “Temos planos, que começaram em 2007, e metas, estabelecidas de 2002 a 2015, e, depois, de 2016 a 2022. Basta que sigamos a cartilha”, afirmou. Segundo ele, a economia passa por um momento grave e a Medida Provisória 95 colocou a C,T&I numa camisa de força. Entre as possíveis soluções, Morales faz coro com entidades representativas do setor e defende o repasse de 25% do Fundo Social do Pré-sal e o repasse dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) para a ciência.

Entre as diretrizes mais recentes, o secretário citou a Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI), que abrange 12 áreas e, em sua opinião, deve estar alinhada aos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Ressaltou ainda que o Plano de Ação para a Saúde possui sete linhas temáticas e que, apesar dos atuais contingenciamentos de recursos, a intenção do atual governo é investir 3% do PIB no setor até o final do mandato. Morales defendeu maior investimento em bioeconomia e biodiversidade e considera a Amazônia “nosso Sputnik”. O pesquisador também destacou a relevância dos 4.500.000 quilômetros quadrados a serem explorados na costa brasileira, “nossa Amazônia Azul”, e defendeu projetos ecológicos de longa duração. Por fim, esclareceu que o Programa Ciência nas Escolas, em parceria com o Ministério da Educação, conta com recursos de R$ 100 milhões e promoverá a interação entre escolas e instituições de pesquisa a fim de incentivar o gosto pela ciência entre as novas gerações.




Autor: Ascom Faperj
Fonte: Faperj
Sítio Online da Publicação: Faperj
Data: 06/06/2019
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3766.2.6

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Brasil e China debatem bioinformática e medicina de precisão

Pesquisadores do Instituto de Genômica de Pequim (Beijing Institute of Genomics - BIG) estiveram na Fiocruz para o seminário Brasil-China de Bioinformática, BigData e Medicina de Precisão. O evento aconteceu no Auditório do Museu da Vida, no campus de Manguinhos da Fiocruz, na quarta-feira (17/4), e foi uma continuação do seminário que ocorreu na segunda-feira (15/4), no Auditório do LNCC, em Petrópolis. A atividade foi promovida pelo Centro de Bioinformática do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), em parceria com a Fiocruz, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Na ocasião, cientistas chineses e brasileiros apresentaram suas pesquisas e descobertas em diversas áreas de computação com aplicações a grandes bases de dados em ciências da vida, em especial a área de Genômica, Bioinformática e Medicina de Precisão. Entre as pesquisas apresentadas estavam estudos de bactérias resistentes, viromas de plasma de doadores do norte brasileiro e avanços no diagnóstico e tratamento do câncer.

Cientistas no auditório do Museu da Vida

“É uma honra receber esses convidados, ainda mais para debater esse tema particularmente importante para a Fiocruz e a saúde pública”, declarou a presidente da Fundação, Nísia Trindade Lima. A Fiocruz possui relações com instituições chinesas desde 2017, quando foi assinado o primeiro Memorando de Entendimento (MdE) com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças Chinês (CDC-China). Desde então, essa coooperação foi reforçada com a assinatura de dois outros acordos com instituições chinesas.

Na segunda-feira, o LNCC, com quem a Fiocruz também já tem parcerias, e a Academia Chinesa de Ciências (CAS) assinaram um acordo visando o fortalecimento da cooperação entre os centros de bioinformática de Pequim e de Petrópolis.

O BIG é uma instituição pública que faz parte da Academia Chinesa de Ciências (CAS), com quem a Fiocruz possui uma cooperação assinada em 2018. Inaugurado em 2003, o Instituto participou do Projeto Internacional do Genoma Humano e possui projetos de big data e medicina de precisão.

Os projetos de bancos de dados são geridos pelo Big Data Center, que busca fornecer acesso aberto a uma variedade de recursos, com o objetivo de transformar grandes volumes de dados em descobertas na área de ciências da vida e da saúde.

O diretor do Centro, Yming Bao, apresentou alguns dos projetos da instituição, como o Genome Sequence Archive (GSA), um repositório de dados brutos de genoma, que aceita envios de todo mundo e com acesso gratuito para comunidade científica global; o Database Commons, um catálogo de bases de dados biológicos, o ScienceWikis, um catálogo de “wiki” de conhecimento biológico, e o iDogs, que reúne bases de dados genômicos de cachorros.

“Na China, não temos ainda uma cultura de compartilhamento de dados, não temos uma política que incentive o compartilhamento e ainda temos algumas questões técnicas. Mas estamos tentando reverter esse quadro, estabelecendo um centro nacional de dados e criando mecanismo que facilitem o compartilhamento”, afirma Yming Bao. O Big Data Center já é considerado um dos principais do mundo e possui cooperação com diversos países.

A medicina de precisão foi outro assunto abordado pelo seminário. A técnica busca utilizar a tecnologia para individualizar diagnósticos e tratamentos. Para os participantes, essa é uma área que tem potencial não só para revolucionar o tratamento de pacientes, mas também para reduzir custos.

No caso do Estados Unidos, estima-se que cerca de 70% dos gastos com os pacientes de câncer são para controlar e mitigar os efeitos colaterais, que poderiam ser reduzidos com um tratamento individualizado, exemplifica a pesquisadora do Centro de Desenvolvimento Tecnológico da Fiocruz, Tatiana Tilli. Na China, apenas 20% das drogas usadas para o tratamento de câncer são eficazes para os pacientes. “Isso quer dizer, que cerca de 80% é desperdiçado”, explica Yonbiao Xue.




Autor: Julia Dias
Fonte: Agência Fiocruz de Notícias
Sítio Online da Fiocruz
Data: 22/04/2019
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/brasil-e-china-debatem-bioinformatica-e-medicina-de-precisao

sexta-feira, 8 de março de 2019

Conheça 7 mulheres que fizeram história na Medicina e Enfermagem



Neste dia 8 de março comemoramos o Dia Internacional da Mulher, criada para conscientizar para a igualdade entre os gêneros. Aproveitamos esta data especial para resgatar as 7 personalidades femininas que ajudaram a moldar o cenário atual da medicina ou da enfermagem. Confira:
7. Elizabeth Blackwell

Elizabeth Blackwell nasceu em 1821, na Inglaterra. Ela desafiou a sociedade do fim dos século XIX ao ser a primeira mulher a ingressar em uma faculdade de Medicina. Em 1847, após ser recusada 12 vezes pela universidade Geneva Medical College, conseguiu ser admitida na instituição de ensino e, em 1849, entrou para a História ao ser a primeira médica do mundo.
6. Gerty Cori

Gerty Cori nasceu em Praga, na República Tcheca, em 1896. Radicada nos Estados Unidos, Cori foi a primeira mulher a receber o prêmio Nobel de Medicina, em 1947, por causa de seus estudos e descobertas que ampliaram o entendimento sobre diabetes.

5. Rita Lobato Velho Lopes

No Brasil, as mulheres também fizeram História no mundo da Saúde. Rita Lobato nasceu no Rio Grande do Sul em 1866. Apesar do preconceito, Lobato se tornou a primeira médica brasileira, em 1887, ao defender a tese “Paralelo entre os métodos preconizados na operação cesariana”.
4. Gertrude Elion

Gertrude Elion foi uma bioquímica americana que ganhou um Prêmio Nobel de Medicina em 1988 por desenvolver medicamentos cruciais para o tratamento da leucemia. No decorrer do seu trabalho, Elion descobriu importantes princípios da quimioterapia.
3. Françoise Barré-Sinoussi

Françoise Barré-Sinoussi é uma virologista francesa que descobriu a existência do HIV. Em 1983, Barré-Sinoussi publicou na revista Science a descrição completa do vírus da imunodeficiência adquirida quando, até então, a doença ainda não havia se tornado uma epidemia. O reconhecimento chegou em 2008 com o Prêmio Nobel de Medicina.
2. Ana Néri

Anna Justina Ferreira Néri nasceu na Bahia em 1814. Considerada a pioneira da enfermagem no Brasil, Nery prestou assistência na Guerra do Paraguai, em 1865, sendo considerada a primeira enfermeira do país. Em 1923, a primeira escola de enfermagem do Brasil recebeu o nome de Ana Néri.
1- Florence Nightingale

Florence Nightingale nasceu na Itália em 1820 e se radicou na Inglaterra. Nightingale chamou atenção ao servir na Guerra da Crimeia, que ocorreu entre 1853 e 1856 n sul da Rússia, onde atendeu os soldados feridos durante a batalha. Em 1859, ela fundou a primeira Escola de Enfermagem, no hospital Saint Thomas, em Londres.



Autor: Roberto Caligari
Fonte: PedMed
Sítio Online da Publicação: PedMed
Data: 08/02/2019
Publicação Original: https://pebmed.com.br/conheca-7-mulheres-que-fizeram-historia-na-medicina-e-enfermagem/

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Fiocruz promove o lançamento do Observatório da medicina

Em 18 de outubro, data em que se celebra o Dia do Médico, a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz) lançará o Observatório da Medicina, uma plataforma digital conduzida por professores, pesquisadores e pós-graduandos em saúde sobre as questões que norteiam a profissão, sobretudo a respeito da prática médica, suas transformações e impactos sociais, culturais, tecnológicos, econômicos, laborais e no sistema de saúde do país.

O ObMed foi idealizado pelo médico e doutorando do Programa de Pós-graduação em Bioética, Ética Aplicada e Saúde Coletiva (PPGBIOS) Luiz Vianna. A ferramenta pretende funcionar como um radar captando as principais transformações da medicina contemporânea, como a grande implementação da tecnologia, da inteligência artificial e a interferência da gestão e do mercado na atuação médica. “Reunimos um grupo de médicos da área da saúde coletiva para pensar a medicina contemporânea e o uso das novas tecnologias na gestão do conhecimento médico, do conhecimento cientifico e sua interferência na autonomia do profissional”, afirmou Vianna.

A plataforma traz as seções Pesquisas e Artigos, Mídias, Notícias e Boletins. As publicações, por sua vez, serão divididas nas áreas de Ensino, Políticas e Práticas, com coordenação dos pesquisadores Sergio Rego, Ligia Bahia e Nelson Sousa e Silva, respectivamente.



"O objetivo é problematizar questões da medicina atual, suas origens e consequências e, quem sabe, ousar prever seus futuros caminhos olhando para além de seu próprio plano conceitual e prático. Sem se furtar ao debate, por vezes volátil e pontuais, de cada um destes e outros tópicos em que se sentir provocado, a intenção do Observatório é escalar o complexo monte multicultural, político e econômico de onde possa observar, estrategicamente, o território onde ocorrem as inter-relações que constroem a Medicina. Nosso grupo alimentará os boletins a partir dessa análise” explicou.

Na opinião do diretor da Escola Nacional de Saúde Pública, Hermano Castro, a plataforma é uma ferramenta estratégica para observar as transformações no campo médico e suas consequências na saúde da população. “É de extrema importância que a principal escola de saúde pública do país crie ferramentas para monitorar as transformações no mundo da medicina, principalmente no que tange às influências do mercado, da saúde suplementar e o modo como isso influenciará o atendimento e a saúde da população. Precisamos fortalecer o SUS e, diante do atual cenário de cortes e desmontes, os centros de pesquisa devem monitorar essa realidade”.

O idealizador do Observatório lembra que a plataforma estará atenta às transformações na medicina e à interferência desse movimento na autonomia do médico. “Pela primeira vez, a autonomia da decisão medica está saindo do médico. E a preocupação com isso não é moral, é ética. O conhecimento médico está sendo tomado por um conhecimento sistêmico baseado num modelo informatizado e, obviamente, o sistema econômico domina esse saber e interfere nas decisões. Isso é claramente visualizado hoje na prática hospitalar e analisado em termos econômicos financeiros para trazer resultados positivos para quem é dono do negócio. Esse movimento já é forte na área privada e está invadindo a área da saude coletiva”, reforçou Luiz Vianna.




Autor: Ensp/Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 17/10/2018
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/fiocruz-promove-o-lancamento-do-observatorio-da-medicina

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Meio século com ELA

Não há registro de que alguém tenha vivido tanto tempo com esclerose lateral amiotrófica (ELA) – nome genérico para um conjunto de doenças degenerativas que lesa progressivamente os neurônios motores e leva à atrofia muscular – quanto o físico britânico Stephen Hawking. Entre o momento em que recebeu o diagnóstico, em 1963, quando os médicos estimaram sua sobrevida em dois anos, e o de sua morte, em março de 2018, passaram-se 55 anos. “Na época, pensei que minha vida tivesse terminado e que nunca concretizaria o potencial que acreditava possuir”, escreveu Hawking em sua autobiografia Minha breve história (Intrínseca, 2013). O pesquisador, que nasceu em 1942 e passou a maior parte de sua existência confinado em uma cadeira de rodas, atingiu 76 anos.

A história do cientista é um caso único de longevidade entre os pacientes de ELA, que acomete entre uma e duas pessoas a cada 100 mil habitantes, com uma incidência cerca de 20% maior entre os homens. Após a identificação da doença, apenas 10% das pessoas vivem 10 anos. A sobrevida média é de três a cinco anos, segundo dados da associação norte-americana de ELA. Não é muito difícil encontrar pacientes mais velhos do que o físico com a doença, mas não com o mesmo tempo de sobrevida. Até porque, na maioria dos casos, o diagnóstico da esclerose lateral amiotrófica ocorre em uma fase mais tardia da vida, geralmente entre os 50 e 70 anos de idade, quando os sintomas associados à enfermidade costumam aparecer, como dificuldade para andar e, depois, mastigar, falar e respirar. Hawking soube da doença quando tinha 21 anos.

As causas da ELA são pouco conhecidas. Em 90% dos casos, o mecanismo que a ocasiona é ignorado. Várias hipóteses são levantadas para tentar explicar essas ocorrências, como infecções virais, exposição a toxinas, alterações hormonais ou no sistema imunológico ou ainda uma combinacão de mutacões genéticas, cada uma delas produzindo um pequeno efeito. Esses casos são classificados como ELA esporádica. Em 10% das ocorrências, a doença surge de alterações genéticas que podem ser transmitidas para os descendentes de um paciente. Nesses casos, é possível haver um diagnóstico genético da doença, para a qual não há cura ou tratamento.

Alguns médicos afirmam que Hawking pode ter tido uma variante de ELA de progressão vagarosa, o que explicaria sua longevidade estendida. No entanto, o avanço da doença não parece ter sido especialmente lento em seu caso (Hawking teve de recorrer ao auxílio de uma cadeira de rodas ainda na década de 1960). “Minha hipótese é de que ele sempre foi muito bem cuidado, sob a supervisão de equipes médicas, com o auxílio de um respirador e alimentação especial”, opina a geneticista Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e de Células-tronco (CEGH-CEL) da Universidade de São Paulo (USP), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão financiados pela FAPESP.

Em 2004, a equipe de Mayana descobriu uma mutação no gene VAP-B que causa uma variante atípica de esclerose lateral amiotrófica. Os pacientes com essa forma da doença, denominada ELA8, demoram mais tempo para apresentar os primeiros sintomas. Em alguns, no entanto, a progressão da enfermidade é rápida e em outros lenta. “Estudamos centenas de pessoas com a mutação e estamos tentando descobrir se algumas delas têm algum mecanismo protetor que favoreça uma evolução mais lenta da doença”, explica Mayana. Hoje se sabe que essa mutação também está implicada em outras formas da enfermidade, além da ELA8.




Autor: Revista Pesquisa FAPERJ
Fonte: Revista Pesquisa FAPERJ
Sítio Online da Publicação: Revista Pesquisa FAPERJ
Data de Publicação: 10/04/2018
Publicação Original: http://revistapesquisa.fapesp.br/2018/04/19/meio-seculo-com-ela/

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Corações trocados

Em 26 de maio completam-se 50 anos do primeiro transplante de coração realizado no Brasil. Por falta de medicamentos que evitassem a rejeição do organismo ao órgão, o primeiro paciente viveu apenas 28 dias, mas o conhecimento adquirido em cinco décadas e o desenvolvimento de novas drogas permitem que, hoje, metade das pessoas tenha uma sobrevida de pelo menos 10 anos após receberem um coração melhor do que tinham. O número de transplantes cresceu e chegou a 380 em 2017 – um recorde, mas ainda distante dos 1.600 necessários para atender a demanda no país. Os Estados Unidos realizaram 3.190 cirurgias desse tipo em 2016, embora também sem atender a toda demanda.

“Poucas intervenções médicas são tão reabilitantes quanto o transplante cardíaco”, diz o cardiologista Fernando Bacal, diretor do núcleo de transplantes do Instituto do Coração da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor-FM-USP), o centro mais atuante nessa área, com 69 cirurgias desse tipo em 2017. “Antes do transplante, os pacientes sentem falta de ar mesmo em repouso, dificuldade para tomar banho e uma baixa expectativa de vida. Depois, podem até fazer esportes.”

Entrevista: Fábio Gaiotto

Como há 50 anos, o transplante continua a ser indicado para pessoas com insuficiência cardíaca irreversível e resistente a qualquer tratamento, “mas apenas quando o organismo ainda tem condições de reagir”, ressalta o cirurgião Fábio Jatene, diretor do setor de cirurgia cardiovascular do InCor. “É importante mostrar que se trata de uma forma eficiente de tratamento, para que o número de doadores continue crescendo.”

De 1968 até 2016, foram realizados 3.984 transplantes de coração no Brasil, total superado, no mesmo período, pelos de rim (80.894) e fígado (21.451), de acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (Abto). Atualmente, o transplante é a quinta cirurgia cardíaca mais comum, com 1,6% do total de 1.722 pacientes operados em 17 hospitais de 10 estados entre agosto de 2014 e dezembro de 2016, de acordo com um estudo de 2017 da Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular. Nesse levantamento, a cirurgia de revascularização do miocárdio, mais conhecida como ponte de safena, é a mais comum, com 48,8% do total, seguida pela cirurgia de implantação de válvulas, com 23,9%.


Ainda há problemas. “Faltam doadores e centros médicos com capacidade para fazer transplantes no país”, diz o cardiologista Roberto Kalil Filho, diretor-geral do InCor. Centros médicos de apenas quatro estados – São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco e Distrito Federal – realizam mais de 30 cirurgias desse tipo por ano.

Além de uma complexa estrutura logística, um dos obstáculos para o aumento do número de doadores de órgãos – não apenas de coração – é a alta taxa de recusa familiar, de 44% em 2015, segundo a ABTO. Uma das razões pode ser o despreparo das equipes médicas em explicar o conceito de morte encefálica às famílias, de acordo com um estudo ​de 2015 da Universidade Federal de São Paulo (ver Pesquisa FAPESP no 237). Outras barreiras incluem falhas na identificação e notificação de potenciais doadores, contraindicações médicas e dificuldades de transporte entre hospitais.

Realizados em 1968 e 1969 no Hospital das Clínicas (HC) da FM-USP, os três primeiros transplantes favoreceram a formação e o reconhecimento de profissionais da área médica, de instituições e de empresas. “O InCor é fruto do João Boiadeiro”, diz, aos 80 anos, o cirurgião cardíaco Domingo Marcolino Braile, referindo-se ao apelido do mato-grossense João Ferreira da Cunha, primeiro brasileiro e 17ª pessoa no mundo a trocar de coração, aos 23 anos.

Sua operação ocorreu cinco meses depois de o cirurgião sul-africano Chris-tiaan Barnard (1922-2001) ter feito o primeiro transplante cardíaco do planeta, em um hospital da Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul, em 3 de dezembro de 1967, aplicando técnicas aprendidas com o cirurgião norte-americano Norman Edward Shumway (1923-2006) na Universidade Stanford, Estados Unidos. O paciente de Barnard, Louis Washkanski – que hoje dificilmente passaria por esse tipo de operação por ter pressão alta nas artérias dos pulmões – sobreviveu 18 dias após a cirurgia. Mesmo assim, o primeiro transplante teve uma repercussão internacional imediata.



Equipe médica observa o paciente submetido ao primeiro transplante de coração no Brasil, realizado no Hospital das Clínicas da USP em 1968Imagem: DIVULGAçÃo HC-USP / reproduçÃO EDUARDO CESAR

O impacto do transplante de João Boaideiro também foi grande no Brasil, sexto país a fazer esse tipo de operação, após a África do Sul, Estados Unidos, Índia, França e Reino Unido. O cirurgião Euryclides de Jesus Zerbini (1912-1993) chefiou a equipe que realizou a cirurgia, concluída na manhã do dia 26 de maio de 1968 no Hospital das Clínicas da USP. “Zerbini batalhava pelo Instituto do Coração havia pelo menos 10 anos, mas não saía do papel”, escreveu o cirurgião Euclydes Marques, assistente de Zerbini na década 1960, no livro A face oculta dos transplantes. Logo depois do transplante, a verba para construir o InCor foi liberada. O prédio começou a ser erguido pouco depois e foi inaugurado em 1975.

O transplante é que não correu tão bem. Dezoito dias após a cirurgia, João Boiadeiro começou a apresentar sinais de que seu organismo estava rejeitando o coração que recebera. A rejeição se agravou, o órgão implantado parou de funcionar e o mato-grossense morreu no 28º dia após a cirurgia. Em setembro de 1968 a equipe do InCor fez o segundo transplante, em Hugo Orlandi, paulista de 48 anos, que morreu 378 dias depois, também por rejeição. “O arsenal de medicamentos para combater a rejeição, na época, era bastante limitado”, conta Bacal. O terceiro transplantado, Clarismundo Praça, paulista de 52 anos, não apresentou rejeição, mas morreu 83 dias após a cirurgia, realizada em janeiro de 1969, por causa de uma infecção generalizada iniciada em uma ferida cirúrgica.

Por causa da dificuldade em controlar a rejeição, que implicava uma sobrevida baixa para as pessoas operadas, os transplantes praticamente pararam de ser feitos no mundo inteiro até a década de 1980. O que permitiu a retomada foi a descoberta da ciclosporina, composto isolado de um fungo pelo bioquímico suíço Jean-François Borel que se revelou um poderoso imunossupressor, capaz de reduzir as reações que causam a rejeição de órgãos transplantados. A ciclosporina logo foi adotada nos transplantes, em conjunto com os corticoides e a azatioprina, os medicamentos usados até então. O InCor voltou a fazer transplantes em 1985, um ano depois de o cirurgião Ivo Nesralla ter feito no Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul o primeiro transplante brasileiro da era pós-ciclosporina. A partir daí o número de transplantes de coração começou a crescer continuamente (ver gráfico).

Transplantes em cães
Euclydes Marques, de 82 anos, lembrou-se de quando fazia parte da equipe que se preparava para fazer os primeiros transplantes cardíacos em pessoas. Ele liderava o grupo de estudantes de medicina que fez mais de 100 transplantes em cães em 1967 e 1968. “Zerbini apoiava, mas meio de longe, porque não acreditava na viabilidade do transplante naquela época”, afirma Marques. “Se acreditasse, teria agido antes.” Foi só ao saber do primeiro transplante na África do Sul, segundo Marques, que o cirurgião se interessou pelos transplantes em cães, fez alguns nos animais e depois outros em cadáveres até se sentir seguro.



Máquina de circulação extracorpórea usada em cirurgias cardíacas nas décadas de 1950 e 1960Imagem: léo ramos chaves

Em seu livro, Marques conta que ele encontrara uma candidata aparentemente adequada para um transplante, em 1967: uma mulher de 36 anos com um tumor no coração, chamado de rabdomiosarcoma. Ele propôs a cirurgia em uma reunião com outros médicos, e Luiz Venere Décourt (1911-2007) lhe perguntou quantos cães tinham sobrevivido ao transplante. Marques teve de reconhecer: nenhum. No ano seguinte, ao responder à mesma pergunta de Décourt, Christiaan Barnard, já famoso, em visita ao InCor, contou que nenhum dos cães que ele havia operado tinha sobrevivido. Fábio Jatene comentou: “O cão era um modelo empregado para treinar a técnica cirúrgica, embora não sobrevivesse ao final. Há anos não utilizamos mais cães com essa finalidade”.

Desde os anos 1950, a equipe que viria a compor o InCor fortaleceu a pesquisa e desenvolvimento de aparelhos e dispositivos usados na cirurgia cardíaca. Para incentivar essa área, Zerbini trouxe de volta ao HC seu ex-estudante Adib Jatene (1929-2014), cirurgião, então em Uberaba, Minas Gerais, reconhecido tanto por sua competência médica quanto pela habilidade em construir máquinas. Em 1958, Jatene e Braile, então no segundo ano do curso de medicina, construíram a máquina de circulação extracorpórea, que funcionava como um pulmão e coração mecânico para manter o sangue em movimento durante as operações e era usada em cirurgias cardíacas e nos primeiros transplantes (ver Pesquisa FAPESP nº 154). Zerbini tinha importado uma, mas a substituição de peças era difícil. Foi ele também que motivou a equipe da oficina do HC a produzir válvulas de controle de fluxo sanguíneo, já que o preço das importadas era muito alto. O desejo de autonomia se mantém. Instalada no segundo subsolo, a Divisão de Bioengenharia produz válvulas, cateteres, chips de marcapasso, entre outros dispositivos, e, em caráter experimental, um ventrículo artificial, usado como coração provisório pelas pessoas que aguardam um transplante.

Em 1961, Jatene mudou-se para o Instituto Dante Pazzanese, onde criou a oficina de bioengenharia para desenvolver instrumentos e aparelhos. Ali ele fez o primeiro marcapasso nacional, que não avançou por causa da dificuldade em obter os componentes eletrônicos. Em 1983, ele voltou ao InCor para ocupar a vaga de professor titular de Zerbini, recém-aposentado. Braile, depois de formado, em 1962, voltou para sua cidade, São José do Rio Preto, no interior paulista, formou equipes de cirurgia cardíaca e, em 1983, sua própria empresa, que produz válvulas cardíacas e outros dispositivos para cardiologia e oncologia (ver Pesquisa FAPESP nº 176). “Zerbini era muito modesto e dizia que se orgulhava de os alunos dele terem ido mais longe que ele”, recorda Braile.

Artigos científicos
DÉCOURT, L. V. e ZERBINI, E. J. Transplante de coração humano: Considerações sobre três casos. Revista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de São Paulo. v. 25, n. 4, p. 207-26. jul.-ago. 1970.
GOMES, W. J. et al. The Brazilian registry of adult patient undergoing cardiovascular surgery, the BYPASS Project: Results of the first 1,722 patients. Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular. v. 32, n. 2, p. 71-5. mar.-abr. 2017.

Livro
MARQUES, E. A face oculta dos transplantes. São Paulo: Holos, 2012.




Autor: Revista Pesquisa FAPERJ
Fonte: Revista Pesquisa FAPERJ
Sítio Online da Publicação: Revista Pesquisa FAPERJ
Data de Publicação: 10/04/2018
Publicação Original: http://revistapesquisa.fapesp.br/2018/04/19/coracoes-trocados/

Um parasita chega às metrópoles

Vista como uma doença rural e restrita à região Nordeste até a década de 1980, a leishmaniose visceral avança rumo a centros urbanos cada vez maiores. Causada pelo protozoário Leishmania infantum chagasi e transmitida pelas picadas das fêmeas dos insetos transmissores, principalmente da espécie Lutzomyia longipalpis, conhecida como mosquito-palha ou birigui, a doença se instalou em todas as grandes regiões, com quase metade dos casos (47%) concentrados no Nordeste, de acordo com o Ministério da Saúde (MS). Em 2016, o MS registrou 3.626 casos em pessoas, com 275 mortes, em todo o país. Em 2017, os estados de Rondônia e Amapá registraram pela primeira vez casos de cães domésticos com leishmaniose e as cidades de Florianópolis e Porto Alegre, os primeiros casos em seres humanos.

Em São Paulo, desde 1999, quando os municípios de Araçatuba e Birigui, na região noroeste, registraram os primeiros casos em seres humanos, a leishmaniose visceral propaga-se rumo ao litoral. Dos 645 municípios paulistas, 177 já registraram cães ou pessoas com leishmaniose visceral. De acordo com um estudo publicado em fevereiro de 2017 na revista científica PLOS Neglected Tropical Diseases, até 2020 o número de cães infectados deve aumentar em Balbinos, Sabino e Guaimbê, na região central do estado, em razão da proximidade com a rodovia Marechal Rondon, da temperatura elevada e da ocorrência de insetos transmissores; os cães atuam como reservatórios do protozoário causador da doença. O número de pessoas infectadas deve aumentar em Luiziânia, Alto Alegre e Santópolis do Aguapeí, também a oeste, em decorrência do aumento da umidade e da coexistência de insetos e cães infectados (veja os mapas).



“A leishmaniose visceral está avançando por falta de informação que permita diagnosticá-la precocemente”, comentou o médico parasitologista Mauro Célio de Almeida Marzochi, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) do Rio de Janeiro, em um encontro científico promovido pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo no final de abril na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP). Em agosto e novembro de 2016, um menino de 1 ano e 7 meses e seu irmão de 4 anos morreram no Guarujá, no litoral paulista, por causa dessa doença, diagnosticada tardiamente. Em 2017 o Guarujá registrou outro caso e Votorantim, cidade do interior paulista vizinha a Sorocaba, também um, ambos sem mortes.

“O Lutzomyia longipalpis está bem adaptado às áreas quentes e de vegetação mais aberta, como o Cerrado”, observa a bióloga Eunice Galati, professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP). “O desmatamento e a substituição da vegetação nativa por monoculturas podem gerar ambientes desfavoráveis para essa espécie, que encontra nas cidades um ambiente propício para sua sobrevivência.”



A leishmaniose visceral manifesta-se nas pessoas inicialmente pela palidez, febre contínua, emagrecimento, tosse, diarreia e aumento de volume do fígado e do baço. Se não tratada, pode ser fatal para as pessoas, por causa dos danos ao fígado, ao baço e à medula óssea causados pela Leishmania. A letalidade é considerada alta, de 7,8% em média, e há poucos medicamentos contra essa doença. O mais adotado é o antimonial pentavalente, que consiste na aplicação de injeções intramusculares diárias durante pelo menos um mês. Embora eficaz na eliminação do parasita, seus efeitos colaterais são intensos, podendo causar dores musculares, náuseas, vômitos, inflamações nos rins e distúrbios gastrintestinais, cardiovasculares e respiratórios.

Em áreas de transmissão da leishmaniose visceral, nem sempre se reconhece o ciclo completo de transmissão da doença – mosquitos transmissores, cães e seres humanos infectados. Às vezes, encontram-se apenas cães infectados e insetos. Outras vezes, apenas casos humanos, como no Guarujá. Outra possibilidade é a identificação somente de cães e pessoas com leishmaniose, sem os insetos transmissores já conhecidos, como em Florianópolis, que registrou três casos em seres humanos e 125 em cães infectados em 2017.



De 2010 a 2012, o biólogo Fredy Galvis-Ovallos, pesquisador da FSP-USP, percorreu os municípios de Embu das Artes e Cotia, na Grande São Paulo, em busca da possível origem dos casos de leishmaniose canina registrados na região desde 2003. Não havia Lutzomyia longipalpis, mas ele encontrou muitos exemplares de Pintomya fischeri, espécie apontada como potencial transmissora de Leishmania infantum chagasi. “Mesmo se confirmada, a P. fischeri tem um potencial menor de transmissão que a L. longipalpis, o que poderia explicar a ausência de casos em pessoas nesses municípios.” No mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o parasita causador da doença pode ser transmitido por cerca de 30 espécies de mosquitos.

A leishmaniose visceral é um problema típico de países com condições higiênicas precárias, já que os insetos transmissores se reproduzem em matéria orgânica em decomposição e depósitos de lixo. Dos 82 países em que já foi identificada, sete concentram 90% dos casos: Índia (6.249 casos em 2016), Sudão do Sul (4.175), Sudão (3.810), Brasil (3.336), Etiópia (1.593), Somália (781) e Quênia (692). Em 2015, a OMS registrou 23.084 mortes de pessoas no mundo causadas pela doença.


Cães de rua e domésticos são reservatórios de Leishmania…Imagem: Léo Ramos Chaves

Estratégias reavaliadas
A identificação de mosquitos, cães ou seres humanos infectados em grandes cidades tem motivado uma reavaliação das formas de combate à doença. “As estratégias de prevenção e controle deveriam focar na redução das populações de Lutzomyia e no bloqueio do contato entre elas e os hospedeiros nas áreas de alto risco de transmissão”, enfatiza a médica veterinária Anaiá da Paixão Sevá, pesquisadora da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP e principal autora do artigo prevendo a expansão da área de ocorrência de insetos transmissores, cães e seres humanos infectados. Marzochi, da Fiocruz, ressalta a importância da procura de casos humanos e caninos como forma de reduzir as mortes causadas por essa doença.

A eutanásia de cães infectados, prática recomendada pelo governo como forma de controle da leishmaniose visceral, “está cada vez menos sendo considerada”, diz o médico veterinário Francisco Edilson Ferreira de Lima Júnior, do MS. A eutanásia se mostrou pouco eficiente por causa da alta taxa de reposição de cães infectados por outros, principalmente filhotes, mais suscetíveis ao parasita. Além disso, os proprietários dos animais podem assumir o tratamento com a droga miltefosina, aprovada para uso veterinário em 2017. A medicação tem um custo inicial de cerca de R$ 2 mil por mês e não elimina totalmente os parasitas.

Entrevista: José Eduardo Tolezano

00:00 / 13:12


Como estratégia adicional de controle da leishmaniose, o governo federal está avaliando a possibilidade de distribuir – se tudo der certo, a partir de 2019 – coleiras impregnadas com uma solução a 4% de inseticida no controle de leishmaniose visceral em áreas de maior risco de transmissão. “O uso das coleiras tem um impacto maior que a eutanásia na redução da transmissão da leishmaniose visceral”, afirma o médico epidemiologista Guilherme Werneck, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Cada coleira custa em média R$ 100 reais, com efeito variável de quatro a seis meses.


…parasita transmitido pelo inseto Lutzomyia longipalpis, acimaImagem: CDC/ James Gathany

O uso da coleira em cães propiciou uma redução de 60% da população de mosquitos transmissores do parasita em partes de Fortaleza, no Ceará, e de 15% em um setor de Montes Claros, Minas Gerais, em comparação com áreas de controle nas mesmas cidades, ao longo de 30 meses, de acordo com um estudo publicado em março de 2018 na Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, com a participação da UFRJ e da Fiocruz. De acordo com Werneck, o estudo em Montes Claros também revelou as limitações dessa técnica, ao indicar que não se consegue aplicar a coleira em mais de 75% dos cães de uma região e a perda da coleira chegar a 40% em seis meses.

“A coleira protege os cães sadios e evita a transmissão nos infectados”, afirma o biólogo José Eduardo Tolezano, diretor do Centro de Parasitologia do Instituto Adolfo Lutz (IAL). Ele coordenou uma avaliação do uso da coleira em cerca de 10 mil cães, infectados ou não, em Votuporanga, na região noroeste do estado de São Paulo. A taxa de infeção nos cães caiu de 12% em 2014 para 1,5% no final de 2015, quando o estudo terminou. “Houve uma clara associação entre a queda de casos de leishmaniose em cães e a redução de casos em seres humanos”, observou Tolezano.

O biólogo Osias Rangel, pesquisador da Superintendência de Controle de Endemias (Sucen), ressalta: “Ações de controle dos insetos transmissores não podem ser interrompidas. Se forem, a doença volta”. Werneck enfatiza: “Temos de mudar os pilares estabelecidos há muitos anos, sem comprovação científica, sobre prevenção e controle, porque hoje a leishmaniose visceral é uma doença urbana”.

Artigos científicos
SILVA, R. A. E. et al. Effectiveness of dog collars impregnated with 4% deltamethrin in controlling visceral leishmaniasis in Lutzomyia longipalpis (Diptera: Psychodidade: Phlebotominae) populations. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, v. 113, n. 5, e170377, mar. 2018.
GALVIS-OVALLOS, F. et al. Canine visceral leishmaniasis in the metropolitan area of São Paulo: Pintomyia fischeri as potential vector of Leishmania infantum. Parasite, v. 24, n. 2, p. 1-10, jan. 2017.
SEVÁ, A. D. et al. Risk analysis and prediction of visceral leishmaniasis dispersion in São Paulo State, Brazil. PLOS Neglected Tropical Diseases, v. 11, n. 2, e0005353, fev. 2017.

Autor: Revista Pesquisa FAPERJ
Fonte: Revista Pesquisa FAPERJ
Sítio Online da Publicação: Revista Pesquisa FAPERJ
Data de Publicação: 29/06/2018
Publicação Original: http://revistapesquisa.fapesp.br/2018/06/15/um-parasita-chega-as-metropoles/

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Trocando as defesas do organismo


O estudo de doenças raras depende, às vezes, de grandes colaborações internacionais para obter um quadro mais completo ou a melhor abordagem terapêutica de uma condição clínica que acomete um número reduzido de pacientes. Esse foi o espírito que norteou o trabalho de uma equipe de 83 pesquisadores de 38 centros médicos de 18 países, incluindo o Brasil. O time de especialistas confrontou os resultados de duas abordagens utilizadas no tratamento de uma enfermidade autoimune incomum e grave que se manifesta em recém-nascidos apenas do sexo masculino e é conhecida pela sigla Ipex. Em razão de um defeito genético, as células de defesa dessas crianças atacam descontroladamente vários órgãos de seu próprio organismo.

A primeira abordagem, o chamado transplante de células-tronco hematopoiéticas (de medula óssea ou de cordão umbilical), procura dotar a criança de novo sistema imunológico, com células sadias que não manifestem a doença ou a apresentem em menor grau. A segunda, baseada no emprego de medicamentos imunossupressores, tenta diminuir a ação das células de defesa, que, no caso da Ipex, em vez de protegerem o organismo contra ameaças externas, se voltam contra ele. Com base em 96 casos tratados de 2000 a 2016 nos países participantes do estudo, a equipe constatou que o índice de sucesso das duas terapias foi semelhante, embora ligeiramente maior no caso dos transplantes. Em cerca de dois terços dos pacientes, os tratamentos melhoraram a qualidade de vida dos doentes, segundo artigo publicado em março de 2018 na revista científica Journal of Allergy and Clinical Immunology.

No entanto, o perfil dos pacientes que mais se beneficiaram com a adoção de cada estratégia foi diferente. A análise retrospectiva dos casos – 58 tratados com células-tronco e 34 com drogas imunossupressoras – indicou que o transplante se mostrou a melhor estratégia de longo prazo para recém-nascidos ou crianças ainda sem danos em seus órgãos causados pela Ipex. “O transplante é muito mais caro do que a terapia com imunossupressores. Pode custar de R$ 200 mil a R$ 500 mil e requer dois a quatro meses de internação”, comenta a pediatra Juliana Fernandes, do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), que participou do estudo. “Mas, quando ele dá certo, os pacientes, depois de dois anos, não precisam mais tomar remédios nem ser internados. Já quem faz apenas o tratamento imunossupressor provavelmente terá de ser hospitalizado novamente.”

Por isso, o emprego da estratégia medicamentosa, que deixa o paciente mais exposto a pegar infecções, é aconselhado apenas em pacientes que já apresentam comprometimento de algum órgão (nesses casos, a adoção do transplante produziu resultados ruins, segundo o estudo) ou como alternativa para deter a progressão da doença antes do transplante. A universidade paulista participou do estudo com cinco casos de crianças com Ipex tratadas desde 2008. Três das cinco crianças passaram por transplante de células-tronco extraídas da medula dos pais ou, como alternativa, de cordão umbilical. Os transplantes foram pagos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Às vezes, é necessário repetir o tratamento para dar certo. “Em 2009, um menino de 2 anos e 6 quilos tinha diabetes, hepatite, anemia e danos nos rins em razão da Ipex”, relata Juliana. O primeiro transplante não trouxe os resultados desejados, mas o segundo, seis meses depois, foi eficaz. Dos problemas iniciais, restou apenas o diabetes no garoto, hoje com 13 anos. Seu irmão gêmeo, que nasceu com a mesma doença, apresentava um estado menos grave, mas morreu por causa de uma infecção severa antes de se submeter ao procedimento. O menino que sobreviveu tem um segundo irmão, de 6 anos, que também nasceu com a Ipex e igualmente passou por dois transplantes de células da medula, o segundo foi bem-sucedido. Eles estão bem e são acompanhados pelas equipes da USP em consultas anuais.
Uma síntese da Ipex


Nome completo
Síndrome da imunodesregulação, poliendocrinopatia e enteropatia ligada ao cromossomo X

Causa
Mutações no gene forkhead box P3 (FOXP3), do cromossomo X, impedem o desenvolvimento normal de um grupo específico de células do sangue, os linfócitos T reguladores. Em consequência, as células de defesa começam a atacar outras células e órgãos

Incidência na população 
Desconhecida. Atinge apenas recém-nascidos do sexo masculino

Manifestações
Diabetes tipo 1, diarreias de longa duração, redução da quantidade de células vermelhas do sangue, de anticorpos e de plaquetas; inflamação e danos no fígado, nos rins, nas articulações e na glândula tireoide

Tratamentos
Medicamentos imunossupressores ou transplante de células-tronco hematopoiéticas (de medula óssea ou de cordão umbilical), com uma eficácia de 70%

Por ser rara, complexa e fatal, a Ipex – sigla de síndrome da imunodesregulação, poliendocrinopatia e enteropatia ligada ao cromossomo X – sempre gerou incertezas entre os médicos. “Não existem diretrizes gerais e o tratamento depende da experiência de cada centro médico”, diz a pediatra italiana Federica Barzaghi, do Hospital São Rafael, de Milão, que coordenou o estudo internacional. “Uma avaliação dos resultados e uma comparação entre os dois tipos de tratamento, com uma amostra ampla de casos, nunca haviam sido feitas.” A doença resulta de mutações em um gene do cromossomo X, o forkhead box P3 (FOXP3), que impede o funcionamento normal de um grupo específico de células do sangue, os linfócitos T reguladores.

Quando essas células não funcionam direito, instaura-se um desequilíbrio no sistema de defesa do organismo e os linfócitos de outros tipos começam a atacar as células do próprio corpo, traço típico das doenças autoimunes. “O estudo intensivo da Ipex enriquece nosso conhecimento sobre o sistema de defesa do organismo e sobre outras doenças autoimunes, porque permite ver como as células T reguladoras são essenciais para manter a tolerância celular e não atacar as outras células do próprio corpo”, explica a pediatra Magda Carneiro Sampaio, professora da FM-USP e diretora do Instituto da Criança. De acordo com um artigo de 2016 publicado na Nature Reviews Cardiology, a disfunção das células T reguladoras pode favorecer o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, como aterosclerose, hipertensão, aneurisma abdominal da aorta, hipertensão arterial pulmonar e infarto do miocárdio.

Na Ipex, que reúne sintomas de várias doenças autoimunes, as falhas das células T reguladoras podem causar, por ordem de frequência, nos casos examinados no estudo: diabetes tipo 1, por causa de danos ao pâncreas; diarreias de longa duração; redução da quantidade de células vermelhas do sangue (causando anemia), de anticorpos (o que leva a reações alérgicas e manchas vermelhas na pele) e de plaquetas (dificultando a coagulação do sangue); inflamação e danos no fígado, nos rins, nas articulações e na glândula tireoide; e queda de cabelo. Outra conclusão da análise dos 96 casos foi que os sintomas predominantes da síndrome independem do tipo de mutação no gene que controla o amadurecimento dos linfócitos T reguladores.

“Os dois tratamentos hoje usados para Ipex ainda precisam melhorar, porque a eficiência de cada um deles chega a no máximo 70%”, afirma Magda. O trabalho coletivo de análise da síndrome também evidenciou que a cura definitiva, segundo Federica, somente poderia ser atingida pela correção da falha genética que causa a doença: “Esperamos que a terapia gênica seja possível em breve para as crianças com os casos mais graves”.



Autor: Revista Pesquisa FAPERJ
Fonte: Revista Pesquisa FAPERJ
Sítio Online da Publicação: Revista Pesquisa FAPERJ
Data de Publicação: 10/07/2018
Publicação Original: http://revistapesquisa.fapesp.br/2018/06/18/trocando-as-defesas-do-organismo/

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Da Medicina à repressão policial: as drogas sob o foco da história


O livro acompanha momentos de maior ou menor repressão às drogas, entre 1921 e 1945 (Fotos: Divulgação)


“Logo, muito logo, os moços elegantes se embriagarão com a diamba, (...) o vício terrível passará a fazer parte da moda, como já o é a mania do éter, da morfina, da cocaína, etc.” O comentário é do médico Francisco de Assis Iglésias, em artigo publicado em 1918 nos Anais paulistas de medicina cirúrgica. Além de registrar os hábitos daqueles primeiros anos do século passado, Iglésias segue descrevendo a degeneração física e moral que, a seu ver, acompanha o consumo da cannabis sativa, nome científico da popular diamba, maconha, biricutico, erva, cangonha, bango, ganja, entre diversas outras denominações: “O indivíduo perde o brio, a dignidade, o sentimento do dever, e, incapaz para todo trabalho, não busca senão obedecer à tirania de seu vício execrado.”

O fato é que, ao longo da história, o homem sempre buscou substâncias com que pudesse amenizar as angústias da existência ou intensificar as alegrias, o lado lúdico da vida. E a historiadora Maria de Lourdes da Silva fez do assunto tema de seu livro Drogas: da Medicina à repressão policial, publicado pela editora Outras Letras, com apoio do programa Auxílio à Editoração (APQ 3), da FAPERJ. Nele, ela procura acompanhar as mudanças de mentalidade que se refletiram em momentos de maior ou menor repressão ao vício. Nas 330 páginas do livro, ela conta como a sociedade passou do consumo de elixires e beberagens à base de ópio e cocaína, que entre suas indicações visavam deixar os trabalhadores mais bem dispostos e aptos a enfrentar as exaustivas jornadas de trabalho, à repressão mais acirrada, que culminaria na atual “guerra contra as drogas”. Seu trabalho foca, especificamente, no período entre 1921 e 1945.

“A primeira lei, de 1921, não criminaliza, mas restringe essas substâncias ao uso clínico. Ou seja, era preciso ter uma prescrição médica para comprá-las na farmácia. Até porque opiáceos e a própria cocaína serviam como base a diversos medicamentos. Também a maconha tinha uso clínico. E o álcool, que desde épocas remotas tinha função de assepsia e purificação, era considerado o veículo ideal para outras substâncias medicamentosas”, explica a autora. Maria de Lourdes fez extensa pesquisa sobre o tema, objeto de sua tese de doutorado, defendida na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), em 2009, e, transformada em livro em 2015. Para isso, ela mergulhou em relatórios de polícia, na produção literária e científica da época, e mesmo na legislação vigente para compreender as representações associadas às drogas nas primeiras décadas do século XX.

“É um elemento de caráter moral que aos poucos vai mudando a ideia de que o consumo recreativo dessas substâncias é danoso às práticas laborais e à sociedade”, diz Maria de Lourdes. Mesmo assim, há drogas e drogas. A cocaína, assim como o láudano, vinhos e tônicos à base de opiáceos, que eram mais consumidos pelas classes altas em suas atividades de lazer e de entretenimento – incluindo-se aí a prostituição e os jogos de azar –, pouco sofria perseguição policial, enquanto o ópio e a maconha fumados pelos imigrantes chineses e negros, respectivamente, assim como a cachaça barata consumida pelos pobres eram considerados altamente perniciosos e alvo constante da ação dos agentes da lei. Como mostra a autora, artigo da Revista Policial publicado na década de 1920 ilustra a preocupação da polícia com os métodos para abordar usuários. “Vendedores e consumidores recebiam o mesmo tratamento: primeiro advertência e multa, e, no caso de reincidência, multa e prisão. O problema era a diferença entre aqueles que a polícia prenderia e aqueles com quem seria bem mais leniente”, explica a autora.

Essa tendência se acentuaria ao longo do tempo. “Os policiais distinguiam por bairro, gênero e grupo social, dirigindo suas operações apenas para onde se dizia que ‘podiam achar coisas’”. Em outras palavras, costumava-se "achar coisas" em bairros de periferia e grupos de classes sociais mais baixas e marginalizados socialmente. Nesse sentido, as batidas policiais aos terreiros de religiões de matriz africana, as perseguições a capoeiristas e tocadores de violão, assim como as prisões por vadiagem deixavam claro quem eram os alvos habituais dessa repressão.

Uma nova legislação, de 1932, passa a criminalizar o consumo da cannabis sativa, que a partir de então passa a ser proibida. A erva deixava de ser monopólio médico para se tornar caso de polícia. O mesmo acontece com a cocaína, que do uso popularizado por prescrição médica contra dores e fadiga, é totalmente banida a partir dos anos 1930. “O controle policial vem consolidar o imaginário negativo que acompanha o discurso moralista da época.” Vivia-se um período de convulsões sociais que culminaria no endurecimento da repressão e na implantação do Estado Novo. Embora a prioridade da polícia passe cada vez mais a ser a ameaça comunista, as drogas começam a ser associadas não só às práticas desregradas como também à subversão. “Com esta mudança de mentalidade, o consumo de psicoativos ganha um aspecto político; o usuário é não apenas o toxicômano, mas também o degenerado, o perigoso, o subversivo.”

Maria de Lourdes da Silva: historiadora fez extensa pesquisa sobre a repressão às drogas


No caso do álcool, embora o Brasil estivesse alinhado às políticas americanas, que viviam o período da Lei Seca, entre nós o debate foi intenso, mas a tese que colocava o álcool como o terceiro flagelo da humanidade – e que, por isso, devia ter o consumo também proibido – não saiu vitoriosa. “Mesmo que a primeira lei de drogas usasse a expressão 'embriagar-se' para identificar os estados de alteração provocados por psicoativos, na prática, o álcool recebe um tratamento diferente do dispensado às demais drogas. Enquanto a cerveja é anunciada nos jornais como “saudável e nutritiva”, no país produtor de cana-de-açúcar, os grandes fabricantes de cachaça são fortes o suficiente para que seu produto permaneça liberado”, diz Maria de Lourdes.

Se na legislação de 1921 já havia artigo que indicava a internação para tratamento, a lei seguinte, de 1932, já estabelece a internação compulsória do toxicômano. “A questão é que apesar de a lei prever a criação de instituições específicas, não há hospitais especializados para esse tipo de tratamento. O que acontece então é a internação nos manicômios comuns, uma vez que a toxicomania era considerada uma forma de alienação mental. Isso só iria mudar bem mais tarde, com a reforma manicomial de final dos anos 1970”, comenta Maria de Lourdes.

Depois do período Vargas e do fim da Segunda Guerra Mundial, segue-se o momento político de redemocratização das décadas de 1940 e 1950. "É quando se consolida a ideia do uso de psicoativos como patologia e surge a figura do viciado propriamente dito", fala Maria de Lourdes. Enquanto as organizações internacionais se mobilizam para configurar as drogas como uma questão de saúde pública, os opiáceos e a cocaína ainda encontram largo abrigo na prática da medicina. “Do ponto de vista social, as drogas passam a ser vistas como ‘coisa de gueto', de grupos marginais e de delinquentes", afirma a pesquisadora. A década seguinte, de 1960, veria o surgimento da contracultura, do movimento hippie e das idéias libertárias, mas o golpe de 1964, que instalaria a ditadura militar no Brasil pelos 21 anos seguintes, faz recrudescer e ampliar a repressão.

Mais uma vez, há uso político das condutas associadas ao uso de psicoativos, especialmente levando-se em conta o que as drogas representavam no movimento de contracultura. “É promulgada, em 1976, uma lei mais draconiana, igualando usuários a traficantes, com tratamento e punição semelhantes.” A diferenciação legal entre um e outro só aconteceria em 2006. “O movimento de descriminalização das drogas – que inclui a proposta de descriminalizar o porte para uso pessoal, por exemplo – está suspenso desde 2015 no Supremo Tribunal Federal (STF), embora a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) caminhe para o reconhecimento do uso medicinal da cannabis sativa, a maconha”, diz Maria de Lourdes. E acrescenta: “A repressão às drogas, um eficiente dispositivo de controle social, reflete, de forma mais ou menos acirrada, o momento político que o País vive.”


Autor: Vilma Homero
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data de Publicação: 24/05/2018
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3576.2.8

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Redecomep e Rede Rio: ligando a medicina ao futuro


Uma das enfermarias do Hospital da Lagoa: objetivo é treinar e capacitar funcionários por videoconferência (Foto: Divulgação/HFL)


Sabe a Internet que geralmente as pessoas acessam em suas casas? Imagina uma conexão 100 vezes mais rápida. É essa conexão, com linhas dedicadas de 1 gigabit por segundo de velocidade, que instituições de ensino e pesquisa do estado do Rio de Janeiro vêm tendo acesso gratuitamente à Internet. Esse trabalho faz parte do consórcio existente entre a Redecomep/RJ, iniciativa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) coordenada pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), com a Rede Rio de Computadores/FAPERJ, instalada no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). Segundo Sandro L. Silva, da equipe de engenharia da Rede Rio e da Redecomep, já foram contempladas mais de 100 instituições do Rio com essa Internet, que possui uma extensão de 300 km de fibra ótica própria em toda região metropolitana do estado, incluindo o Museu do Amanhã, na Zona Portuária do Rio, e a Fundação Cecierj/Consórcio Cederj.

A mais recente instituição a receber esse benefício foi o Hospital Federal da Lagoa (HFL), referência, principalmente, pelos tratamentos oncológicos infantis e pelas intervenções cirúrgicas. Segundo o diretor geral do hospital, o médico Pedro Cirillo, a implantação dessa Internet de alta velocidade será fundamental para o desenvolvimento dos projetos de capacitação dos funcionários e dos programas de residência médica, de enfermagem e de farmácia que incluem em torno de 200 residentes. “Vamos capacitar e treinar todos os funcionários do hospital, de enfermeiros a médicos, de fisioterapeutas a psicólogos. Todas as especialidades serão beneficiadas com esse projeto. Também iremos compartilhar informações valiosas, como aulas e conteúdo didático aplicados nos cursos de residência, além da filmagem de cirurgias importantes”, diz Cirillo.

“A Internet também será muito importante para os programas de residência médica”, afirma a a médica Angela Carrano, coordenadora do Centro de Estudos Oscar Niemeyer do HFL, denominado assim, pois o prédio do hospital, de dez andares, foi projetado pelo famoso arquiteto, com a participação de Helio Uchoa, o paisagista Roberto Burle Marx e o artista plástico Athos Bulcão, que confeccionou o mural de azulejos externo do hospital. O edifício, construído em 1952 e inaugurado em 1958, foi tombado em 1992 pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac). O centro de estudos dispõe de uma biblioteca equipada com terminais de computadores e dois auditórios, onde será instalada uma sala de videoconferências com câmeras de vídeo, alto-falantes e outros equipamentos ligados à Internet de alta velocidade.

De acordo com Angela, o mais importante a partir de agora é que, com essa Internet, o HFL poderá se beneficiar da conexão à Rede Universitária de Telemedicina (RUTE), uma iniciativa do MCTIC, apoiada pela Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e pela Associação Brasileira de Hospitais Universitários (Abrahue), coordenada pela RNP que interliga hospitais e universidades federais em todo o Brasil. “Com a RUTE poderemos compartilhar arquivos e realizar videoconferências com Instituições de todo o Brasil e, para isso, precisávamos de uma Internet de altíssima qualidade”, destaca.

Ela ressalta que a chegada da rede viabilizará a possibilidade de os médicos contarem com outras opiniões para diagnósticos difíceis. “Se, por acaso, aparecer um caso raro em qualquer local do Brasil ligado à rede, médicos especialistas no assunto poderão se reunir on-line e decidir juntos um diagnóstico”, explica. Para Angela, essa possibilidade de colaboração conjunta e de compartilhamento de informações representa um grande avanço para a medicina. “Agora que fomos beneficiados por essa rede de Internet de altíssima qualidade e com todas as possibilidades de melhora para o hospital que a Rede Rio nos trouxe, posso dizer que estamos conectados ao futuro”, diz a médica.


Autor: Danielle Kiffer
Fonte: Faperj
Sítio Online da Publicação: Faperj
Data de Publicação: 28/03/2018
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3545.2.3

quinta-feira, 29 de março de 2018

Redecomep e Rede Rio: ligando a medicina ao futuro



Uma das enfermarias do Hospital da Lagoa: objetivo é treinar e capacitar funcionários por videoconferência (Foto: Divulgação/HFL)

Sabe a Internet que geralmente as pessoas acessam em suas casas? Imagina uma conexão 100 vezes mais rápida. É essa conexão, com linhas dedicadas de 1 gigabit por segundo de velocidade, que instituições de ensino e pesquisa do estado do Rio de Janeiro vêm tendo acesso gratuitamente à Internet. Esse trabalho faz parte do consórcio existente entre a Redecomep/RJ, iniciativa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) coordenada pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), com a Rede Rio de Computadores/FAPERJ, instalada no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). Segundo Sandro L. Silva, da equipe de engenharia da Rede Rio e da Redecomep, já foram contempladas mais de 100 instituições do Rio com essa Internet, que possui uma extensão de 300 km de fibra ótica própria em toda região metropolitana do estado, incluindo o Museu do Amanhã, na Zona Portuária do Rio, e a Fundação Cecierj/Consórcio Cederj.

A mais recente instituição a receber esse benefício foi o Hospital Federal da Lagoa (HFL), referência, principalmente, pelos tratamentos oncológicos infantis e pelas intervenções cirúrgicas. Segundo o diretor geral do hospital, o médico Pedro Cirillo, a implantação dessa Internet de alta velocidade será fundamental para o desenvolvimento dos projetos de capacitação dos funcionários e dos programas de residência médica, de enfermagem e de farmácia que incluem em torno de 200 residentes. “Vamos capacitar e treinar todos os funcionários do hospital, de enfermeiros a médicos, de fisioterapeutas a psicólogos. Todas as especialidades serão beneficiadas com esse projeto. Também iremos compartilhar informações valiosas, como aulas e conteúdo didático aplicados nos cursos de residência, além da filmagem de cirurgias importantes”, diz Cirillo.

“A Internet também será muito importante para os programas de residência médica”, afirma a a médica Angela Carrano, coordenadora do Centro de Estudos Oscar Niemeyer do HFL, denominado assim, pois o prédio do hospital, de dez andares, foi projetado pelo famoso arquiteto, com a participação de Helio Uchoa, o paisagista Roberto Burle Marx e o artista plástico Athos Bulcão, que confeccionou o mural de azulejos externo do hospital. O edifício, construído em 1952 e inaugurado em 1958, foi tombado em 1992 pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac). O centro de estudos dispõe de uma biblioteca equipada com terminais de computadores e dois auditórios, onde será instalada uma sala de videoconferências com câmeras de vídeo, alto-falantes e outros equipamentos ligados à Internet de alta velocidade.

De acordo com Angela, o mais importante a partir de agora é que, com essa Internet, o HFL poderá se beneficiar da conexão à Rede Universitária de Telemedicina (RUTE), uma iniciativa do MCTIC, apoiada pela Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e pela Associação Brasileira de Hospitais Universitários (Abrahue), coordenada pela RNP que interliga hospitais e universidades federais em todo o Brasil. “Com a RUTE poderemos compartilhar arquivos e realizar videoconferências com Instituições de todo o Brasil e, para isso, precisávamos de uma Internet de altíssima qualidade”, destaca.

Ela ressalta que a chegada da rede viabilizará a possibilidade de os médicos contarem com outras opiniões para diagnósticos difíceis. “Se, por acaso, aparecer um caso raro em qualquer local do Brasil ligado à rede, médicos especialistas no assunto poderão se reunir on-line e decidir juntos um diagnóstico”, explica. Para Angela, essa possibilidade de colaboração conjunta e de compartilhamento de informações representa um grande avanço para a medicina. “Agora que fomos beneficiados por essa rede de Internet de altíssima qualidade e com todas as possibilidades de melhora para o hospital que a Rede Rio nos trouxe, posso dizer que estamos conectados ao futuro”, diz a médica.



Autor: Danielle Kiffer
Fonte: Faperj
Sítio Online da Publicação: Faperj
Data de Publicação: 28/03/2018
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3545.2.3

segunda-feira, 5 de março de 2018

Notas – Semana de 1º a 7 de março de 2018

’Cientista do Nosso Estado’ lança livro na Academia Nacional de Medicina
Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ, o médico e pesquisador Cláudio Tadeu Daniel-Ribeiro, em co-autoria com Yuri Chaves Martins, lança, na próxima quinta-feira, dia 8 de março, às 16h30, no Salão Nobre da Academia Nacional de Medicina (Rua General Justo , 365, 7º andar, Centro, Rio de Janeiro-RJ), o livro Imagens, Micróbios e Espelhos – Os Sistemas Imune e Nervoso e Nossa Relação com o Ambiente (Ed. Fiocruz). Na ocasião, os autores debaterão o tema do trabalho, com mediação do acadêmico e Marcello André Barcinski. Daniel-Ribeiro é membro da Academia Nacional de Medicina e chefe do Laboratório de Pesquisas em Malária do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), tendo dedicado sua carreira à investigação científica da malária, uma das doenças mais relevantes no cenário da saúde pública mundial. Mais informações: http://www.anm.org.br

Incubadoras de empresas da UFRJ e da PUC-Rio estão entre as 20 melhores do mundo
A Incubadora de Empresas da Coppe/UFRJ (Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro) e o Instituto Gênesis da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), estão entre as 20 melhores incubadoras do mundo, segundo o ranking da UBI Global. As duas instituições competiram com centenas de outras incubadoras em todo mundo na categoria “World Top Business Incubator – Managed by University”, que leva em consideração quesitos como postos de trabalho gerados pelas empresas residentes e graduadas, taxa de sobrevivência das empresas, faturamento, atração de investimento e número de graduadas e incubadas. A UBI Global é uma Instituição de pesquisa sueca especializada na análise de incubadoras e aceleradoras de todo mundo. Ela tem como objetivo ajudar as incubadoras e aceleradoras ligadas a universidades a se tornarem mais eficientes e competitivas através de insights de dados, melhores práticas e serviços de rede. Mais informações e lista completa das incubadoras selecionados: http://ubi-global.com/ranking-top-business-incubator-managed-university-2017-2018

Livro Direção de arte e transmidialidade será lançado nesta sexta
Acontece nesta sexta-feira, 2 de março, às 17h30, na Casa da Ciência da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Rua Lauro Müller, 3 – Botafogo), o lançamento do livro Direção de Arte e Transmidialidade, organizado pelos professores Amaury Fernandes Jr. e Kátia Augusta Maciel. O livro, publicado pela Editora da UFRJ, teve o apoio da FAPERJ, por meio do edital Apoio à produção de material didático para atividades de ensino e/ou pesquisa, de 2014. O lançamento ocorrerá durante o II Seminário Interprogramas ESPM/ECO, que abre as atividades do ano acadêmico de 2018 do Mestrado Profissional em Gestão da Economia Criativa da Escola Superior de Propaganda e Marketing (MPGEC) e do Programa de Pós-Graduação em Tecnologias e Linguagens da Comunicação (PPGTLCOM), da UFRJ. O evento é aberto ao público e as inscrições são gratuitas. O livro foi concebido para atender às exigências do conteúdo programático das disciplinas dos dois mestrados, oferecendo material de referência e incentivando a reflexão crítica sobre processos criativos, além de novas demandas de formação profissional para a área audiovisual. Devido à ausência de obra disponível com perfil semelhante, no mercado interno ou externo, Direção de arte e transmidialidade procurou condensar, em volume único, uma ampla discussão correlacionando essas duas grandes áreas de atuação dos profissionais em meios digitais. O livro pretende ainda contribuir para a formação de diretores de arte e diretores de produção que tenham domínio das suas áreas num contexto atualizado, levando em conta as profundas mudanças que o setor tem sofrido com o desenvolvimento de novas tecnologias e linguagens da comunicação e da mídia-arte. Mais informações: http://eco.espm.br


Dia das Meninas, promovido pelo Mast, chega à sua IV edição
Para estimular ainda mais o interesse e incentivar jovens meninas a explorarem carreiras científicas, tecnológicas, engenharias e de inovação, o Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST) dedica uma data inteira com atividades de ação educativa: O Dia das Meninas. O evento, que está em sua quarta edição, será realizado no dia 7 de março, e busca maior aproximação das estudantes com as cientistas mulheres, quebrando barreiras sociais, preconceitos e estereótipos que afastam e impedem as meninas de exercerem carreiras científicas. Este ano, o tema será voltado para a diversidade na ciência e também vai abordar questões de gênero e étnico-raciais, fatores imprescindíveis para atingir os objetivos de Desenvolvimento do Milênio propostos pelas Organização das Nações Unidas. Para participar deste dia tão especial, basta ligar para (21) 3514-5233 e realizar a sua inscrição. São 80 vagas disponíveis para o público. A ação faz parte da comemoração pelo Dia Internacional da Mulher, e a programação vai ser repleta de atrações que contemplam debates com pesquisadoras e atividades práticas de divulgação da ciência. A ideia é fomentar a interação entre as jovens participantes e as cientistas, além de proporcionar a experimentação da ciência. Mais informações: www.mast.br

Primeiro Sábado da Ciência de 2018 terá como tema Envelhecimento e Cérebro
O Espaço Ciência Viva, em seu primeiro Sábado da Ciência de 2018, no dia 17 de março, de 14h às 18h, vai abordar o tema “Envelhecimento e Cérebro”. Excepcionalmente, o evento não será realizado no último sábado do mês, pois fará parte da Semana Nacional do Cérebro, que acontecerá entre os dias 12 e 18 de março. A Semana Nacional do Cérebro (SNC) é uma iniciativa que tem como objetivo divulgar os estudos do cérebro no Brasil, promovida pela Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento (SBNeC) e parte integrante da Brain Awareness Week (BAW). No mês de março de cada ano, desde 2012, diversas universidades, hospitais e outras organizações se unem com o objetivo de popularizar conhecimentos sobre as neurociências. No Espaço Ciência Viva, serão abordados, de forma lúdica, temas como “Morfologia, Sistema Nervoso e Parasitologia”, com as oficinas “Anatomia humana e Comparada e “Microscopia”; “Qualidade de vida”, com “O Corpo no Som”; “Aprendizagem/Memória Motora” e “Envelhecimento Saudável”; além de outros assuntos, como “Ludicidades”, “Linguagem e Comunicação”, “Criatividade e Imaginação” e “Lógica e Cognição”. Também será realizada a palestra “O uso de medicamentos antidiabéticos no combate a Doença de Alzheimer”, a ser ministrada por André Felipe Batista, do Instituto de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IBqM/UFRJ), às 16h30h, na sala de vídeo. A linha de pesquisa de seu laboratório, chefiado pela professora Fernanda Guarino De Felice, foca na investigação de mecanismos moleculares para o entendimento da conexão entre a Doença de Alzheimer e a diabetes. O Espaço Ciência Viva fica na Av. Heitor Beltrão, n° 321, Praça Saens Pena, Tijuca. Mais informações: https://www.facebook.com/espacocienciaviva


Newton International Fellowships oferece bolsas para pós-doutorado
O Newton International Fellowships está com chamada aberta para pós-doutorado nas áreas de ciências naturais, sociais e humanas. O prazo para inscrições vai até o dia 27 de março. Podem se inscrever cientistas não-britânicos em fase inicial na carreira que pretendam desenvolver suas pesquisas em instituições do Reino Unido por dois anos. Mais informações: http://www.newtonfellowships.org

Museu do Amanhã promove debate sobre o papel da mulher na ciência
Quais são os projetos de divulgação científica liderados por mulheres no Brasil? Que iniciativas são feitas para aproximar a ciência de meninas, jovens e mulheres? Para responder a essas e outras questões, será realizado o evento Mulher e divulgação científica que acontece no dia 9 de março, às 15h, no Observatório do Amanhã (Praça Mauá, 1, Centro). Para abordar esses assuntos, foram convidadas: Patrícia Spinelli, coordenadora da iniciativa Dia das Meninas, que ocorre anualmente no Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast); Luisa Massarani, pesquisadora de Divulgação Científica e coordenadora do mestrado acadêmico em Divulgação da Ciência, Tecnologia e Saúde da Casa de Oswaldo Cruz (COC) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Cientista do Nosso Estado (CNE) da FAPERJ; e a mediadora da mesa, Carla Almeida, pesquisadora e jornalista especializada em ciência. Para participar, é necessário se inscrever no site do Museu do Amanhã: https://museudoamanha.org.br/user/register?destination=semana-das-mulheres-mulher-e-divulgacao-cientifica. Mais informações: https://museudoamanha.org.br/pt-br/semana-das-mulheres-mulher-e-divulgacao-cientifica




Autor: FAPERJ
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data de Publicação: 01/03/2018
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3531.2.5

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Pós-graduação em Bioengenharia na USP recebe inscrições até 6 de novembro

Estão abertas, até 6 de novembro de 2017, as inscrições para os processos seletivos para os cursos de mestrado e doutorado do Programa de Pós-Graduação Interunidades em Bioengenharia da USP, oferecido em conjunto pela Escola de Engenharia de São Carlos, a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e o Instituto de Química de São Carlos.


Programa de Pós-Graduação Interunidades em Bioengenharia oferece mestrado e doutorado em três unidades da USP: EESC, FMRP e IQSC (foto: USP)

No nível de mestrado, poderão inscrever-se candidatos graduados ou que no ato da matrícula tiverem concluído o curso de graduação nas áreas de Ciências Exatas, Engenharias, Biológicas e da Saúde, oriundos de instituições de ensino superior oficialmente reconhecidas no Brasil ou no exterior.

Para o doutorado, poderão se inscrever candidatos com mestrado nas áreas de Ciências Exatas, Engenharias, Biológicas e da Saúde, de programas de pós-graduação. No caso de candidatos ao doutorado direto, alunos graduados nas áreas de Ciências Exatas, Engenharias, Biológicas e da Saúde, em instituições de ensino superior, oficialmente reconhecidas no Brasil ou no exterior.

Os candidatos ao doutorado serão selecionados por meio de análise baseada na documentação solicitada (curriculum vitae, histórico escolar de graduação e de pós-graduação, duas cartas de recomendação e projeto de pesquisa). Adicionalmente, cada candidato deverá fazer uma apresentação de seu projeto de pesquisa, com duração máxima de 30 minutos, a uma banca constituída por ao menos dois membros.

A divulgação da seleção dos candidatos estará disponível no site da Bioengenharia a partir do dia 15 de dezembro. A primeira etapa das inscrições deve ser também feita pelo site da Bioengenharia.

Mais informações sobre as vagas, inscrições e processo seletivo estão no edital disponível em: www1.eesc.usp.br/bioeng/bioengenharia/portal/index.php/br/processo-seletivo.

Autora: Agência FAPESP
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: Agência FAPESP
Data de Publicação: 01/11/2017
Publicação Original: http://agencia.fapesp.br/posgraduacao_em_bioengenharia_na_usp_recebe_inscricoes_ate_6_de_novembro_/26546/

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Exposição ao ar poluído antes ou durante a gravidez altera a estrutura da placenta

A exposição de gestantes à poluição do ar durante a gravidez influencia o desenvolvimento do feto. A criança pode apresentar baixo peso ao nascer, além de ter aumentada a possibilidade de apresentar determinadas doenças na vida adulta, de acordo com estudos realizados no Brasil e no exterior. Os mecanismos moleculares por trás desses impactos da poluição na gestação, contudo, ainda não estavam completamente elucidados.


Alterações causadas pela poluição atmosférica podem limitar a nutrição e o crescimento do feto, aponta estudo feito por pesquisadores da USP (foto: Phelipe Janning / Agência FAPESP)


Um grupo de pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) constatou agora que a exposição a poluentes atmosféricos, antes ou durante a gravidez, altera algumas características da placenta, além de causar distúrbios em um sistema hormonal relacionado ao fluxo sanguíneo uteroplacentário e diminuir os níveis de fatores envolvidos no processo de formação placentária.

Os resultados do estudo, realizado no âmbito de um Projeto Temático e do doutorado de Sônia de Fátima Soto, feito com Bolsa da FAPESP, foram publicados na revista PLOS ONE.

“Observamos que a exposição a poluentes antes e/ou durante a gravidez desencadeia alguns fenômenos inflamatórios ao longo do desenvolvimento da placenta que comprometem seu crescimento. Isso possivelmente interfere na transferência de nutrientes e de oxigênio da mãe para o feto”, disse Joel Claudio Heimann, professor da FMUSP e orientador de Soto, à Agência FAPESP.

Os pesquisadores realizaram um experimento em que expuseram ratas Wistar – linhagem albina da espécie Rattus norvegicus –, antes de acasalarem e ficarem prenhes, tanto ao ar filtrado como ao ar poluído com concentração de material particulado fino (menor que 2,5 micrômetros) de 600 microgramas (μg) por metro cúbico (m3), utilizando para isso um equipamento chamado concentrador de partículas finas ambientais de Harvard (CPFAH). O tamanho de partícula foi determinado com base nas exposições ambientais reais na Região Metropolitana de São Paulo.

Os animais foram divididos em quatro grupos. O primeiro foi exposto ao ar filtrado antes e durante a gravidez, o segundo foi colocado em contato com ar filtrado antes da gravidez e com ar poluído durante a gravidez, um terceiro grupo foi submetido ao ar poluído antes da gravidez e ao ar filtrado durante a gravidez, e o quarto, ao ar poluído antes e durante a gravidez.

Para simular as condições reais de exposição de mulheres à poluição do ar antes e durante a gravidez em cidades como São Paulo, antes da gravidez os animais foram colocados em contato com ar poluído durante uma hora cinco vezes por semana por três semanas seguidas. A partir do sexto dia de prenhez, o número de exposições foi de sete vezes por semana.

As placentas dos animais foram coletadas no 19º dia de gravidez, dissecadas e pesadas de modo a avaliar os efeitos dos poluentes em sua estrutura e no sistema hormonal renina-angiotensina (RAS) uteroplacentário.

Os resultados das análises indicaram que a exposição ao ar poluído antes e/ou durante a gravidez diminuiu a massa, o tamanho e a área superficial da placenta e causou alterações no sistema RAS.

Estudos anteriores apontaram que distúrbios nesse sistema podem levar a uma redução do fluxo sanguíneo uteroplacentário. Além disso, a angiotensina II (AngII) – um peptídeo que faz parte desse sistema – é um potente regulador da migração e invasão de trofoblasto – camada de células epiteliais que forma a parede externa da blástula dos mamíferos (blastocisto) e atua na implantação e nutrição do embrião – no início da gravidez.

A invasão da vasculatura materna pelo trofoblasto é um pré-requisito para o estabelecimento de uma placenta normal e a continuação da gravidez, explicaram os pesquisadores.

“Constatamos que a exposição das ratas prenhes à poluição antes e/ou durante a gravidez causou alterações no sistema renina-angiotensina dos animais. Mas são necessários novos estudos para elucidarmos mecanismos moleculares adicionais”, disse Heimann.

Interferência na formação da placenta

Os pesquisadores também avaliaram os efeitos da exposição ao ar poluído em fatores que influenciam o processo de formação da placenta, como o fator de crescimento de transformação beta 1 (TGFβ1) e o fator de crescimento endotelial vascular (VEGF-A).

Diversos estudos sugeriram que o TGFβ1 tem um papel na invasão da mucosa que recobre a face interna do útero (endométrio). E, nos mamíferos, o TGFβ1 pode regular uma variedade de funções celulares, incluindo proliferação, diferenciação, morte programada (apoptose) e invasão de células placentárias.

O VEGF-A também desempenha um papel na formação da placenta ao modular a angiogênese, ligando-se a seus dois receptores: tirosina quinase 1 relacionada a fms (Flk-1) e tirosina quinase 1 hepática fetal (Flt-1). As análises moleculares indicaram que a exposição ao ar poluído diminuiu o conteúdo de TGFβ1 e Flk-1 na placenta dos animais.

A porção materna da placenta das ratas expostas a ar poluído antes da gravidez e a ar filtrado durante a gravidez, comparada com a daquelas colocadas em contato com ar poluído antes e durante a gravidez, apresentou diminuição nos níveis de angiotensina II (AngII) e seus receptores AT1 (AT1R) e AT2 (AT2R).

Na porção fetal da placenta das ratas expostas a ar filtrado antes da gravidez e a ar poluído durante a gravidez, a ar poluído antes da gravidez e a ar filtrado durante a gravidez e a ar poluído antes e durante a gravidez, os níveis de AngII também diminuíram. Contudo, a AT1R aumentou no grupo de animais expostos a ar filtrado antes da gravidez e a ar poluído durante a gravidez.

A expressão do gene VEGF-A foi menor no grupo de ratas expostas a ar poluído antes e durante a gravidez em comparação com os animais colocados em contato com ar filtrado antes e durante a gravidez.

Essas alterações indicam um possível comprometimento da invasão de trofoblasto e na angiogênese (formação de novos vasos sanguíneos) da placenta, explicou Heimann.

“Isso pode ter consequências para a interação entre mãe e feto, como também limitar a nutrição e o crescimento fetal”, afirmou.


O artigo Exposure to fine particulate matter in the air alters placental structure and the renin-angiotensin system (doi: 10.1371/journal.pone.0183314), de Sônia de Fátima Soto, Juliana Oliveira de Melo, Guilherme D’Aprile Marchesi, Karen Lucasechi Lopes, Mariana Matera Veras, Ivone Braga de Oliveira, Regiane Machado de Souza, Isac de Castro, Luzia Naôko Shinohara Furukawa, Paulo Hilário Nascimento Saldiva e Joel C. Heimann, pode ser lido em http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0183314.


Autora: Agência FAPESP
Fonte: Elton Alisson
Sítio Online da Publicação: Agência FAPESP
Data de Publicação: 30/10/2017
Publicação Original: http://agencia.fapesp.br/exposicao_ao_ar_poluido_antes_ou_durante_a_gravidez_altera_a_estrutura_da_placenta/26523/