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segunda-feira, 31 de outubro de 2022

'Minha doença é tão rara que não tem nome'



Legenda da foto,

Debbie é uma das primeiras pacientes a serem atendidas na primeira clínica do Reino Unido destinada a síndromes não identificadas

Quando era adolescente, a britânica Debbie Schwartz se sentia humilhada quando os médicos diziam que suas doenças estavam todas na sua cabeça.


"Era devastador", conta a ex-professora de 47 anos.


"Me sentia sem esperança, isolada e humilhada."


Debbie tem uma doença tão rara que os especialistas ainda não foram capazes de identificar.


Agora, ela está entre os primeiros pacientes a serem tratados na primeira clínica do Reino Unido especializada em síndromes que não têm nome.

Debbie passou grande parte da adolescência sendo levada pelos pais de um lado a outro do país, na tentativa de descobrir o que havia de errado com sua única filha.


"Eu sentia como se estivesse decepcionando meus pais", relembra.


"Eles me levavam de um lado para o outro, para hospitais em Newcastle e em Londres."


"Como uma criança de 11 anos, ser informada de que os exames não mostram nada, e seus pais estão ouvindo isso, não passa pela cabeça que os médicos estejam errados, porque eles fizeram todos aqueles exames, e eles são médicos, eles sabem. Então o diagnóstico deve ser que eu inventei."



CRÉDITO,DEBBIE SCHWARTZ
Legenda da foto,

Os pais de Debbie, Suzanne e Anthony Schwartz, levaram a filha a vários especialistas pelo país, na esperança de um diagnóstico

"O ônus era muito meu, e me sentia pressionada por isso. Eu estava na escola e era apenas uma criança. Foi difícil."


Debbie sentia que os médicos haviam sido "muito displicentes" — até que, no final da adolescência, sua visão, fala, audição e mobilidade se deterioraram.


Isso não a impediu, no entanto, de se formar em bioquímica em Londres e se qualificar para se tornar professora de ciências.


Mas, em 2000, Debbie sofreu um colapso e passou 10 meses no hospital. Desde então, não andou — nem trabalhou — mais.


"Foi decidido então que não era asma, e comecei a fazer vários exames diferentes com médicos diferentes", afirma.


"Eles começavam animados porque eu era um caso único e achavam interessante, mas perdiam o interesse quando faziam os exames e ainda assim não conseguiam chegar a um diagnóstico."


"Eles não achavam nada de errado, então atribuíam tudo a ser psicossomático, depressão ou ansiedade."


"A parte que me corroía a alma era porque quando eles diziam que não havia nada de errado, eu não ia para casa e ficava tudo bem... eu continuava deteriorando."


"Eu me sentia um fracasso."


Legenda da foto,

Devido à sua condição, Schwartz precisa da ajuda de três cuidadores ao longo do dia


Após anos de luta, Debbie finalmente conseguiu um diagnóstico parcial em 2005 de doença mitocondrial — um grupo de condições causadas por defeitos em partes-chave das células do corpo.


Posteriormente, ela também foi diagnosticada com mais três "distúrbios muito raros" — uma condição neurológica, outra afetando seu sistema imunológico e um distúrbio do movimento chamado distonia.


Ela tem perda auditiva, visão parcial, dificuldade de equilíbrio e não tem sensibilidade nas mãos, nem abaixo dos joelhos — precisa da ajuda de cuidadores três vezes ao dia e sua qualidade de vida está "piorando".


Uma das coisas que mais frustra Debbie é que, embora ela esteja convencida de que suas condições estejam ligadas, até agora elas foram vistas isoladamente.


Mas ela está confiante de poder chegar mais perto de descobrir qual pode ser sua condição subjacente, com a ajuda de especialistas da primeira clínica nacional do Reino Unido para síndromes não identificadas, localizada na capital do País de Gales, Cardiff, sua cidade natal.



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

O primeiro centro dedicado exclusivamente à pesquisa e tratamento de doenças não identificadas está localizado no Hospital Universitário do País de Gales


Embora individualmente essas condições sejam muito raras, juntas podem afetar milhares de pessoas.


Até agora, Debbie tinha que recorrer a vários especialistas para tratar suas diversas condições.


"Mas são equipes diferentes que seguem sua especialidade", explica.


"Não me veem como uma pessoa por inteiro e meus sintomas como um todo, que é o que esta nova clínica vai fazer".


Agora, após uma batalha de 35 anos, ela espera obter um diagnóstico único geral, que ela acredita ter tido um "efeito profundo" em sua vida por tanto tempo.


"Espero que, com uma equipe de médicos multidisciplinares olhando para mim como um todo, possam chegar a uma conclusão de que é um distúrbio, em vez de todos esses separados".


Estima-se que 6 mil bebês nasçam todos os anos com uma doença tão rara que sequer tem nome — e há cerca de 350 mil pessoas no Reino Unido nesta situação.


Especialistas estimam que pode haver mais de 8 mil doenças raras, e as crianças são as mais atingidas — 50% das doenças raras afetam crianças, e quase um terço delas morre antes de completar cinco anos.


A nova clínica SWAN (sigla em inglês para "síndromes sem um nome") do Hospital Universitário do País de Gales, em Cardiff, pode ser acessada por adultos e crianças de todo o País de Gales por meio do encaminhamento de um médico do hospital — estima-se que haja cerca de 150 mil potenciais pacientes no País de Gales.


"As doenças raras são um problema de saúde significativo que infelizmente está associado a desfechos ruins", afirma o médico Graham Shortland, diretor clínico do novo centro.


"O impacto sobre os pacientes e suas famílias é considerável, com a maioria dos pacientes que recebem um diagnóstico esperando em média quatro anos."


"Um diagnóstico traz esperança e tranquilidade às famílias, e o objetivo da clínica é encurtar a jornada de diagnóstico, melhorar o acesso a cuidados especializados e apoiar aqueles que continuam à espera de um diagnóstico".


Legenda da foto,

Iolo Doull acredita que o País de Gales está sendo pioneiro na pesquisa de doenças raras


Como muitas dessas doenças geralmente têm uma causa genética, espera-se que a clínica também possa aconselhar as famílias sobre os riscos de uma criança herdar doenças raras.


Especialistas na área de saúde afirmam que a clínica é outro exemplo de que o País de Gales está na vanguarda no campo de doenças raras, após se tornar o primeiro país do Reino Unido a oferecer testes genéticos de genoma completo para crianças muito doentes.


"A clínica SWAN é a primeira do tipo no Reino Unido e, até onde sabemos, não há outras na Europa", afirma Iolo Doull, presidente do conselho do Grupo de Implementação de Doenças Raras.


"Você pode considerar o País de Gales como um lugar muito pequeno ou grande o suficiente para fazer coisas importantes. Neste caso, o País de Gales foi grande o suficiente para fazer isso que talvez em outros lugares ficasse fora do radar."





Autor: Owain Clarke
Fonte: BBC News
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 31/10/2022
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-63424523

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Ácido úrico pode causar alterações no rim diabético após controle da doença


Os pesquisadores constataram que o ácido úrico proporcionaria uma espécie de ‘memória metabólica’ que induziria à formação de tecido fibroso nos rins – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

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Altos níveis de ácido úrico no organismo podem levar a complicações no rim diabético, mesmo que o excesso de açúcar no sangue (hiperglicemia) esteja controlado, aponta pesquisa da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP. A diminuição da excreção de ácido úrico no diabetes seria um componente importante da “memória metabólica”, ativando os mecanismos que causam fibrose e perda da função renal, mesmo após o tratamento convencional da doença. Os resultados do trabalho são descritos na tese de doutorado de Antonio Anax Falcão de Oliveira, que recebeu menção honrosa na categoria Ciências da Saúde do Prêmio Tese Destaque USP 2018.

O objetivo da pesquisa foi entender, a partir de um modelo animal, algumas alterações renais persistentes após o tratamento do diabetes. “Estudos epidemiológicos feitos nas décadas de 1980 e 1990 mostram que quando o diabético é tratado de forma intensiva desde o início da doença, há uma grande diminuição do risco de complicações microvasculares, como a nefropatia ou doença renal. Já os que permanecem inicialmente hiperglicêmicos e são então submetidos ao tratamento intensivo não experimentam o mesmo benefício”, diz a professora Ana Paula de Melo Loureiro, orientadora do trabalho. “Há uma elevada ocorrência de doenças renais em diabéticos, o que gera um enorme sofrimento e gasto com tratamento.”No estudo, o diabetes foi induzido em ratos para imitar os efeitos de períodos curtos e longos sem tratamento. “Um grupo ficou com hiperglicemia por quatro semanas e outro por 12 semanas. Em seguida, ambos foram tratados pelo tempo correspondente ao período em que não receberam cuidados, ou seja, quatro e 12 semanas”, explica o autor da tese. “Após o tratamento, foram examinados todos os parâmetros convencionais de controle do diabetes e da função renal, como níveis de glicemia, hemoglobina glicada, massa relativa do rim, proteínas na urina e dano tubular. Em todos os casos, os indicadores estavam normais, sem indícios de nefropatia.”


A professora Ana Paula de Melo Loureiro e o pesquisador Antonio Anax Falcão de Oliveira. Segundo a professora da FCF, os resultados da pesquisa apontam para a necessidade de maior investigação dos efeitos do ácido úrico aumentado nos indivíduos com controle do diabetes – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens
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A pesquisa procurou marcadores do comprometimento da função renal a partir da análise de vias que levam às complicações do diabetes. “Os parâmetros avaliados de estresse oxidativo, por exemplo, se normalizaram após o tratamento, demonstrando não ser importante de indução de danos persistentes no diabetes controlado”, afirma o pesquisador. “Entretanto, quando são focalizados os componentes de uma importante via fibrogênica, um conjunto de moléculas que leva ao enrijecimento do tecido (fibrose) e perda da função renal, foram detectados proteínas e intermediários metabólicos que permanecem alterados mesmo quando os parâmetros convencionais do diabetes e da função renal são estabilizados. A permanente ativação dessa via pode aumentar o risco de dano ao tecido renal.”

A proteína AMPK fosforilada, que bloqueia a fibrose, está diminuída durante o diabetes. Quando o tratamento foi aplicado após quatro ou 12 semanas, não houve normalização do nível renal dessa proteína. “Já o TGF-β, proteína que exerce papel central na indução da fibrose, permaneceu aumentado nos animais com hiperglicemia e após o tratamento tardio (12 semanas)”, relata Falcão de Oliveira. “Alterações dos níveis de AMPK fosforilada podem levar a alterações dos níveis da proteína PGC 1-α, importante para a geração de energia pelas células (função mitocondrial). Verificou-se a diminuição dos níveis de PGC 1-α após o período mais longo de diabetes, sem normalização com o tratamento.”

Dois metabólitos associados ao processo de fibrose foram analisados. “O fumarato, um intermediário do ciclo de Krebs (via metabólica importante para a geração de energia pelas células), já foi apontado como um metabólito que aumenta a atividade do TGF-β. No estudo, o perfil de alteração dos níveis renais de fumarato se assemelhou ao do TGF-β, mantendo-se aumentado nos animais hiperglicêmicos e quando o tratamento é tardio”, destaca o pesquisador. “O ácido úrico, que durante o período de hiperglicemia tem a sua excreção renal diminuída, resultando em aumento no sangue, é apontado como inibidor da atividade de AMPK”.


Esquema: Via fibrogênica renal ativada pela hiperglicemia se mantém alterada após o controle glicêmico, dependendo do período de existência de hiperglicemia. A persistência da diminuição de excreção de ácido úrico pode contribuir para a indução das alterações observadas após o controle glicêmico. A alteração metabólica detectada pode ajudar a entender por que indivíduos diabéticos apresentam risco aumentado de doença renal mesmo com o controle adequado da glicemia – Diagrama: Cedido pelo pesquisador (Clique na imagem para ampliar)
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Ácido úrico

Na análise dos níveis de ácido úrico no sangue e na urina dos animais foi verificado aumento dos níveis sanguíneos e diminuição dos níveis urinários desde o período mais curto de hiperglicemia, alterações que persistiram após os dois períodos de tratamento. “Há a possibilidade de que o ácido úrico aumentado persistentemente no organismo dos animais, mesmo após o controle do diabetes, leve à diminuição da forma ativa da AMPK (fosforilada), favorecendo o aumento dos níveis de TGF-β e toda a via fibrogênica”, observa Falcão de Oliveira. “O ácido úrico proporcionaria uma espécie de ‘memória metabólica’ que induziria à formação de tecido fibroso nos rins (efeito fibrogênico).”

Segundo a professora da FCF, os resultados da pesquisa apontam para a necessidade de maior investigação dos efeitos do ácido úrico aumentado nos indivíduos com controle do diabetes. “O trabalho reforça a importância do controle precoce da glicemia, e também do ácido úrico”, ressalta. Para o pesquisador, “o ácido úrico é uma peça importante para explicar a ‘memória metabólica’ no rim diabético, ajudando a entender por que os pacientes de diabetes tratados mantêm o risco aumentado de complicações microvasculares”.




Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 28/11/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-da-saude/acido-urico-pode-causar-alteracoes-no-rim-diabetico-apos-controle-da-doenca/

sexta-feira, 30 de março de 2018

Doença falciforme: faixa etária para transplante de medula é ampliada

O Ministério da Saúde ampliou a faixa etária para indicação de transplante de medula aparentado para tratamento da doença falciforme - doença genética que atinge principalmente a população negra. Agora a idade não é mais critério de restrição para esse transplante, único método de curar a doença no SUS. Em 2015, foram diagnosticados 1.145 novos casos da doença no Programa de Triagem Neonatal do SUS.

Baseado em evidências científicas, o Ministério da Saúde decidiu ampliar a faixa etária para dar mais qualidade de vida às pessoas com essa doença. A partir de agora, pessoas também acima de 16 anos podem fazer o transplante alogênico aparentado de medula óssea, de sangue periférico ou de sangue de cordão umbilical, do tipo mieloablativo, para tratamento da doença falciforme. Trata-se de mais uma ação do Sistema Único de Saúde (SUS) para fortalecer a Política Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doença Falciforme (PNAIPDF). A conquista é considerada um avanço, já que havia uma reivindicação de especialistas e da sociedade civil. Antes, só podiam fazer o transplante, pessoas abaixo de 16 anos pois não havia dados científicos para atestar segurança e eficácia do procedimento para maiores dessa idade.

A doença falciforme é genética e hereditária. A causa é uma mutação no gene que produz a hemoglobina A (HbA) originando uma outra mutante denominada hemoglobina S. Apesar das particularidades que distinguem as doenças falciformes e de graus variados de gravidade, todas essas doenças têm manifestações clínicas e hematológicas semelhantes e são tratadas da mesma forma.

As pessoas com esse tipo de doença apresentam anemia crônica e episódios frequentes de dor severa, decorrentes do processo de vaso oclusão causados pela forma de foice (daí o nome falciforme) que as hemácias assumem. Além disso, essas pessoas apresentam vulnerabilidade a infecções, o sequestro esplênico (quando o baço acumula sangue), a síndrome torácica aguda (infiltrado pulmonar) e o priapismo (ereção involuntária que causa dor) são algumas das intercorrências frequentes nestas pessoas.

Assistência

A realização do Teste do Pezinho, é fundamental para a identificação precoce e acompanhamento dos casos, bem como para o planejamento e organização da rede de atenção integral. O exame deve ser realizado nos postos públicos de saúde na primeira semana de vida.


Todos os medicamentos que compõem a rotina do tratamento são disponibilizados no Sistema Único de Saúde (SUS). Os que integram a farmácia básica são: ácido fólico (de uso contínuo), penicilina oral ou injetável (obrigatoriamente até os cinco anos de idade), antibióticos, analgésicos e antiinflamatórios (nas intercorrências). A hidroxiuréia, os quelantes de ferro, o dopller transcraniano e transfusões sanguíneas integram os medicamentos e procedimentos para atenção especializada.

O rigoroso programa de vacinação estabelecido no calendário nacional também é outro importante fator de redução da mortalidade infantil por infecções, pois as crianças com a doença falciforme possuem um risco aumentado em 400 vezes em relação à população em geral.


Autor: Carolina Valadares
Fonte: Agência Saúde
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data de Publicação: 28/03/2018
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/doenca-falciforme-faixa-etaria-para-transplante-de-medula-e-ampliada

segunda-feira, 12 de março de 2018

Um século da gripe espanhola: luta contra a doença continua e mundo tem pelo menos 3 milhões de casos graves por ano






Vírus da gripe coletado de sobreviventes em 1918 (Foto: CDC/BSIP/AFP/Arquivo)

Há 100 anos tinha início a grande epidemia de gripe espanhola que deixou ao menos 50 milhões de mortos. Um século depois, a guerra contra o vírus da gripe continua e a perspectiva de uma nova pandemia parece inevitável.


Em uma manhã de março de 1918, um soldado no Kansas (centro dos Estados Unidos) foi admitido na enfermaria com febre, dores musculares e dor de garganta, sintomas da gripe.


Em poucos meses, um terço da população mundial foi afetada pela epidemia que resultou ser mais mortífera que a Primeira Guerra Mundial, na qual morreram quase 10 milhões de militares e nove milhões de civis.


A magnitude deste flagelo não foi, felizmente, igualada por outras epidemias, mas em algum momento uma nova pandemia afetará o mundo, cada vez mais globalizado, afirmam os especialistas.




Ilustração em propaganda francesa faz alegoria sobre a doença (Foto: Costa/Leemage/AFP/Arquivo)


A questão é saber quando. A gripe é uma infecção viral aguda que se propaga facilmente de uma pessoa a outra.


Os principais sintomas são febre alta, tosse, dores e mal-estar na garganta. Na maioria dos casos é leve, mas há pacientes que experimentam consequências graves.


Embora não haja uma pandemia, em um ano normal se atribui às epidemias de gripe entre 3 e 5 milhões de casos graves e entre 290 mil e 650 mil mortos em todo o mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).



Entre os custos médicos, as faltas e outras consequências, a fatura é exorbitante.


Mas, por que um vírus tão comum segue sendo uma ameaça, enquanto a varíola, por exemplo, foi erradicada?


A resposta é porque este vírus é um ás da metamorfose.



"Os vírus da gripe têm uma capacidade de mutação enorme, já que para sobreviver são obrigados a mudar em mutações aleatórias", explicou Vincent Enouf, do Instituto Pasteur de Paris.




Há quatro tipos de vírus da gripe: A, B, C e D (este último afeta principalmente o gado). As epidemias sazonais são provocadas pelos vírus A e B.


Os primeiros se dividem em vários subgrupos, entre eles o H1N1 e o H3N2, que circulam atualmente entre os humanos. Os vírus do tipo B se dividem em duas cepas principais: Yamagata e Victoria.


Cada um pode ser divido em diferentes cepas, e cada uma delas necessita sua própria vacina.




Profissinal da saúde na Espanha prepata vacina contra o H1N1 (Foto: Cesar Manso/AFP/Arquivo)


Em busca da vacina universal


O cenário mais catastrófico seria a aparição de novos vírus transmitidos entre humanos a partir de mutações que combinem agentes que afetem pessoas com patógenos dos animais.


Desde a gripe espanhola, houve três pandemias que se desenvolveram desta forma: a gripe asiática de 1957, a de Hong Kong de 1968 e a A (H1N1) de 2009.



E os vírus contam com reservas naturais ilimitadas, já que circulam constantemente em populações de aves.



"Nós, a população humana, vamos estar continuamente expostos à gripe e a novas cepas de vírus, a cada ano, a cada década e sem dúvida assim será sempre", prevê o especialista em vírus David Evans, que trabalha na Universidade Saint Andrews na Escócia.




A consequência é que vai haver outra pandemia.



"Sua periculosidade e o número de mortos que deixará dependerá da natureza exata que tenha o vírus", indica Wendy Barclay, especialista em gripe do Imperial College, uma universidade com sede em Londres.




Embora, diferentemente de 1918, tenhamos antibióticos para tratar as infecções bacterianas que aproveitam o ataque do vírus da gripe, como são as bronquites e as pneumonias, que são uma causa importante de mortalidade, não se deve cantar vitória.



"Os danos poderiam ser igualmente muito significativos", advertiu Barclay.




Então, haverá algum dia uma forma de ganhar a guerra contra a gripe?

Vírus da gripe espanhola de 1918 (Foto: CDC/Phanie/AFP/Arquivo)


Este é um sonho da comunidade científica, contar com uma arma definitiva, uma vacina universal que possa ser eficaz sem importar qual cepa do vírus ataque.


Mas hoje, isso é ficção científica.


Atualmente há muitas vacinas em estudo, mas "não se sabe se uma ou outra vai ser concluída com êxito", destacou o virologista Jonathan Ball, da Universidade de Nottingham.


"O vírus da gripe é, sem dúvida, um dos mais estudados e dos mais controlados", disse Evans.


"Mas o que aprendemos é que é muito difícil de controlar".


Autor: France Presse
Fonte: G1 Globo
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 11/03/2018
Publicação Original: https://g1.globo.com/bemestar/noticia/um-seculo-da-gripe-espanhola-luta-contra-a-doenca-continua-e-mundo-tem-pelo-menos-3-milhoes-de-casos-graves-por-ano.ghtml

sexta-feira, 9 de março de 2018

Alzheimer: exame de sangue poderia prever risco da doença



O novo estudo concluiu que altos níveis de aminoácidos de cadeia ramificada no sangue indicam baixo risco de demência. (iStockphoto/Getty Images)

Em um novo estudo publicado no periódico científico Alzheimer’s & Dementia, pesquisadores identificaram no sangue moléculas que podem servir como biomarcadores precoces do risco de Alzheimer. Este é o primeiro estudo a sugerir que a presença de elevados níveis de aminoácidos de cadeia ramificada podem indicar baixo risco de demência.

“Agora está claro que precisamos olhar para além dos caminhos tradicionalmente estudados da amiloide e da tau e entender todo o espectro de patologia envolvida em pessoas que apresentam sintomas de doença de Alzheimer e outras demências”, observa Sudha Seshadri, professor de neurologia e líder do estudo.




De acordo com Seshadri, há uma necessidade crescente de abordar a prevenção e o tratamento das demências com uma “abordagem de múltiplos elementos”, já que essa não é uma doença com uma única causa. Finalmente os cientistas estão começando a olhar para outros órgãos e tecidos, não só para o cérebro, em busca de marcadores da doença.
A conexão entre sangue e demência

No estudo, cientistas da Universidade do Texas em San Antonio, nos Estados Unidos, analisaram dados de oito estudos que acompanharam grandes grupos de pessoas de origem europeia em cinco países, por um longo período. Eles também tiveram acesso a exames de sangue iniciais e registros da incidência da doença de Alzheimer ou outras formas de demência nesses grupos.

Desta forma, eles foram capazes de analisar amostas de sangue basais de 22.623 participantes que não apresentavam demência no início do estudo e também não tinham antecedentes de AVC ou “outras doenças neurológicas que afetem a função cognitiva”. No total, 995 casos de demência e 745 casos de Alzheimer foram detectados durante o acompanhamento.

Usando ressonância magnética nuclear e espectrometria de massa, os pesquisadores identificaram e quantificaram “metabolitos sanguíneos, lipídios lipoproteicos e lipídios” nas amostras basais de sangue. Os resultados mostraram que algumas das moléculas presentes nessas amostras estavam associadas a um menor risco de demência e doença de Alzheimer, enquanto outras estavam associadas a um maior risco.
Várias moléculas

O menor risco de demência foi associado a: aminoácidos de cadeia ramificada isoleucina, leucina e valina; creatinina; e duas subclasses de lipoproteínas de baixa densidade (VLDL). O risco de Alzheimer inferior foi similarmente relacionado a aminoácidos de cadeia ramificada.

Os aminoácidos de cadeia ramificada são nutrientes essenciais para o corpo obtidos a partir de alimentos ricos em proteínas, como carne e legumes.

Já o aumento do risco de demência foi associado a uma lipoproteína de alta densidade (HDL) e a uma subclasse VLDL. E o de Alzheimer, a uma subclasse HDL.

Eles esperam que esses achados ampliem a busca de novos medicamentos, tão necessária para a doença de Alzheimer e outras formas de demência. “É emocionante encontrar novos biomarcadores que possam nos ajudar a identificar pessoas que estão no maior risco de demência”, disse Seshadri.
Alzheimer e outras demências

A demência é uma doença que afeta o cérebro e gradualmente rouba a capacidade de um indivíduo lembrar, pensar, argumentar, se comunicar e cuidar de si mesmo. O Alzheimer é a forma mais comum do problema. Cerca de 47 milhões de pessoas vivem com demência no mundo, 65% delas com doença de Alzheimer.


Autor: Veja Abril
Fonte: Veja Abril
Sítio Online da Publicação: Veja Abril
Data de Publicação: 08/03/2018
Publicação Original: https://veja.abril.com.br/saude/alzheimer-exame-de-sangue-poderia-prever-risco-da-doenca/

quinta-feira, 1 de março de 2018

Febre amarela dificilmente será erradicada. Vacinação é a forma mais efetiva de controlar a doença



Foto: EBC

Febre amarela dificilmente será erradicada. Vacinação é a forma mais efetiva de controlar a doença. Entrevista especial com Tatiana Guimarães de Noronha

IHU

“A febre amarela silvestre nunca foi erradicada e muito dificilmente será, pois ela é perpetuada pelos mosquitos que vivem nas áreas de florestas e seus habitantes naturais, os macacos”, alerta Tatiana Guimarães de Noronha, médica e pesquisadora responsável pela área de Epidemiologia Clínica da Assessoria Clínica de Bio-Manguinhos/Fiocruz. Entretanto, adverte, o controle do mosquito Aedes aegypti, que é o vetor urbano da doença, a manutenção do equilíbrio ecológico e, fundamentalmente, a vacinação contra febre amarela podem conter a proliferação da doença nas áreas urbanas.

Segundo ela, uma possibilidade para enfrentar os surtos de febre amarela seria adotar a vacinação contra a doença de forma rotineira. “Considerando a facilidade dos deslocamentos de suscetíveis para áreas de risco e a tendência de expansão dessas áreas, é provável, sim, que todo o país tenha de adotar a vacinação rotineira. Considerando também a segurança da vacinação de lactentes conduzida há décadas em grandes áreas do país, a introdução da vacinação no calendário básico das crianças a partir de nove meses de idade, nas demais áreas, pode ser considerada uma estratégia proativa, de mais fácil aceitação pelo público e de menor carga adicional para os serviços de imunização da rede pública, comparada às campanhas de vacinação”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail para a IHU On-Line, Tatiana de Noronha explica as diferenças entre as doses de vacina plena e fracionada. Ambas, afirma, são produzidas pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos de Bio-Manguinhos e utilizadas há décadas em diversas regiões do país. “A estratégia da dose fracionada está sendo utilizada como uma medida de emergência, pois há a necessidade de se vacinar um contingente enorme da população, em curto espaço de tempo, em áreas em que não havia recomendação de vacinação para esta doença”. E afirma: “Com o aumento da circulação do vírus da febre amarela da forma silvestre se aproximando de áreas com alta densidade populacional, houve a correta decisão pelo Ministério da Saúde de fazer vacinação em massa, cobrindo estas regiões em curto prazo de tempo, na tentativa de se evitar a possibilidade de transmissão urbana do vírus”. Apesar do aumento da vacinação no país, a médica frisa que “a cobertura vacinal tem sido baixa e precisamos do apoio dos profissionais de saúde e da confiança da população para atingir o nosso objetivo, que é controlar a doença”.

Tatiana Guimarães de Noronha é médica, graduada pela Universidade Federal Fluminense – UFF, com especialização em Pediatria e Infectologia Pediátrica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. É mestra em Saúde Pública e doutora em Epidemiologia pela Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz. É a pesquisadora responsável pela área de Epidemiologia Clínica da Assessoria Clínica de Bio-Manguinhos/Fiocruz.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – No que consiste a febre amarela silvestre e quais as diferenças com relação à variação urbana da doença?

Tatiana Noronha – O termo “febre amarela silvestre” corresponde à doença adquirida pelo homem a partir da picada de mosquitos que vivem na região de floresta (chamados de Haemagogus e Sabethes), próximos às copas de árvores, que se alimentam de sangue de macacos e transmitem a doença entre esses animais. No entanto, quando o homem entra na região de mata, sem estar protegido, ou seja, vacinado, acaba sendo acidentalmente picado por esses mosquitos e adquire a doença. A febre amarela urbana ocorre quando pessoas doentes são picadas por mosquitos que vivem na área urbana (Aedes aegypti) e transmitem a doença para outros seres humanos. As duas formas de febre amarela manifestam-se da mesma forma, com sintomas e gravidade semelhantes.
Diferenças

A diferença entre elas consiste apenas na forma de transmissão, ou seja, a febre amarela é chamada de silvestre quando afeta o ser humano que foi picado por mosquito que vive na mata, após picar macacos infectados, e é chamada de urbana quando adquirida a partir de mosquitos que vivem na área urbana, alimentando-se de sangue humano e, portanto, transmitindo a doença de um ser humano para outro. Vale destacar que o último relato de febre amarela urbana no Brasil é de 1942, tendo sido erradicada graças às ações de vacinação e controle do mosquito nas áreas urbanas. Com o retorno e crescimento descontrolado desses mosquitos nas últimas décadas, a vacinação de toda a população em risco tem sua importância destacada.

A febre amarela silvestre nunca foi erradicada e muito dificilmente será, pois ela é perpetuada pelos mosquitos que vivem nas áreas de florestas e seus habitantes naturais, os macacos. Por isso, há décadas tem sido indicada a vacinação das pessoas que, por atividades de trabalho ou lazer, entram nas áreas de mata, onde o vírus causador da doença, os mosquitos e macacos naturalmente vivem. A indicação da vacinação é revista periodicamente a partir da identificação de novas áreas com circulação do vírus causador da febre amarela, e os macacos são os nossos grandes aliados, pois são os primeiros a adoecer, permitindo a detecção do risco, mesmo antes de seres humanos serem afetados.

IHU On-Line – Passadas algumas semanas do início da vacinação contra febre amarela com doses fracionadas em algumas regiões do país, qual sua avaliação?

Tatiana Noronha – Historicamente, é conhecida a efetividade da vacina de febre amarela no controle de surtos da doença. Espera-se o mesmo com a utilização da dose fracionada, que já teve a sua capacidade protetora cientificamente comprovada como semelhante à dose plena, por pelo menos oito anos após a vacinação. Além dos dados científicos, temos a experiência de países africanos, como a República Democrática do Congo, que conseguiu controlar o surto da doença, com a utilização da mesma dose fracionada da mesma vacina de febre amarela utilizada aqui. Em relação à campanha realizada recentemente no Rio de Janeiro e São Paulo, não temos ainda tempo disponível para avaliação, mas gostaria de chamar atenção para o fato de que a cobertura vacinal tem sido baixa e precisamos do apoio dos profissionais de saúde e da confiança da população para atingir o nosso objetivo, que é controlar a doença.

IHU On-Line – Quais as diferenças entre a aplicação da dose plena e da dose fracionada da vacina?

Tatiana Noronha – Tanto para dose fracionada quanto para dose plena, é utilizada a mesma vacina de febre amarela, que é produzida pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos de Bio-Manguinhos, e utilizada há décadas em diversas regiões do país. A dose fracionada é uma parte da dose padrão da vacina da febre amarela e confere proteção equivalente, segundo demonstrado por estudos científicos. Na dose padrão, é aplicado 0,5 mL da vacina, enquanto na dose fracionada é aplicado 0,1 mL. O tempo de proteção da dose padrão é para toda a vida. Já com a dose fracionada, de utilização mais recente, sabe-se que a duração é de pelo menos oito anos — tempo que foi possível estudá-la até agora. Estudos em andamento continuarão a avaliar a proteção posterior a esse período.

Outra diferença entre elas que vem sendo questionada é sobre a idade de aplicação. Como os estudos de dose-resposta foram realizados apenas em adultos, a dose fracionada não é recomendada para crianças abaixo de dois anos. Além disso, a dose fracionada não serve para o Certificado Internacional de Vacinação, necessário para determinadas viagens internacionais.

IHU On-Line – Quais são os riscos e benefícios da vacinação como forma de prevenir a doença?

Tatiana Noronha – A vacinação é conhecidamente a medida mais eficaz para a prevenção da febre amarela. Em torno de 98% dos adultos apresentam títulos de anticorpos considerados como protetores cerca de 1 a 2 semanas após a vacinação.

Como qualquer vacina, eventos adversos podem ocorrer. A experiência de uso da vacina de febre amarela no Brasil e no mundo, há cerca de sete décadas, permite o estabelecimento da sua segurança, especialmente se respeitadas as suas contraindicações. A vacina não deve ser administrada em crianças menores de nove meses de idade; pessoas com imunodeficiência por doença ou tratamento; e indivíduos com histórico de reação anafilática ao ovo de galinha, componente usado na produção da vacina. Pessoas em condições especiais, como aqueles maiores de 60 anos e portadores de doenças autoimunes, devem procurar orientação médica antes de decidir se devem ou não se vacinar.

As reações à vacina da febre amarela são geralmente leves. Cerca de 2 a 5% dos vacinados podem apresentar dor de cabeça, dor no corpo e febre entre o 5º e o 10º dias após a vacinação. A vacina de febre amarela pode acarretar evento adverso grave em um a cada 400 mil vacinados (ou seja, cerca de 0,00025%), podendo ou não levar à morte. Há suspeita de que esses eventos ocorram por fatores individuais, e estudos estão sendo conduzidos para avaliar quais fatores podem estar associados à ocorrência de eventos adversos graves. É sabido que cerca de 15% dos casos humanos de febre amarela evoluem para a forma grave, dos quais cerca de 50% evoluem para o óbito. Portanto, consideramos o risco-benefício altamente favorável à vacinação em áreas endêmicas e em outras situações de risco de adoecimento.

IHU On-Line – Quais seriam as melhores estratégias para o controle da doença e prevenção da sua urbanização para além da vacinação?

Tatiana Noronha – Controle do vetor urbano (comprovadamente, o mosquito Aedes aegypti) — que tem falhado nas últimas décadas, o que pode ser observado pela dificuldade de controle dos casos de dengue e, mais recentemente, zika e chikungunya. É claro que ações individuais, como uso de repelentes e mosquiteiros, têm a sua relevância, porém nenhuma medida se aproxima da vacinação em termos de efetividade no controle da doença. Uma medida importante também é a preservação do ambiente, pois com as ações de desmatamento e desequilíbrio ecológico, pode haver proliferação dos mosquitos de hábito silvestre, os quais podem ir para a borda da floresta à procura de alimentos (especialmente, com a morte de macacos) e podem picar seres humanos não vacinados, levando ao aumento dos casos de febre amarela silvestre. Se algum indivíduo entre esses doentes for para a cidade, pode ser picado pelo Aedes aegypti, que transmitirá a doença para outro indivíduo não vacinado, configurando o ciclo urbano da doença. Ou seja, a prevenção da febre amarela urbana está estritamente relacionada ao controle da febre amarela silvestre.

IHU On-Line – Por que as aplicações de doses fracionadas se configuram como alternativa para a imunização no Brasil hoje?

Tatiana Noronha – A estratégia da dose fracionada está sendo utilizada como uma medida de emergência, pois há a necessidade de se vacinar um contingente enorme da população, em curto espaço de tempo, em áreas em que não havia recomendação de vacinação para esta doença. Com o aumento da circulação do vírus da febre amarela da forma silvestre se aproximando de áreas com alta densidade populacional, houve a correta decisão pelo Ministério da Saúde de fazer vacinação em massa, cobrindo estas regiões em curto prazo de tempo, na tentativa de se evitar a possibilidade de transmissão urbana do vírus.

Essa decisão foi respaldada pela Organização Mundial da Saúde, que, em julho de 2016, revisou evidências existentes que demonstraram que o uso de dose fracionada em 1:5 (0,1 mL) da vacina da febre amarela proporciona proteção contra a doença similar à observada com o uso da dose padrão (0,5 mL).

IHU On-Line – O Brasil deveria adotar a vacinação contra a febre amarela de forma rotineira, incluindo-a dentro do calendário de vacinação? Por quê?

Tatiana Noronha – Considerando a facilidade dos deslocamentos de suscetíveis para áreas de risco e a tendência de expansão dessas áreas, é provável, sim, que todo o país tenha de adotar a vacinação rotineira. Considerando também a segurança da vacinação de lactentes conduzida há décadas em grandes áreas do país, a introdução da vacinação no calendário básico das crianças a partir de nove meses de idade, nas demais áreas, pode ser considerada uma estratégia proativa, de mais fácil aceitação pelo público e de menor carga adicional para os serviços de imunização da rede pública, comparada às campanhas de vacinação. Além disso, a aplicação de vacinas nas rotinas dos serviços de saúde permite uma avaliação mais criteriosa das possíveis contraindicações, aumentando ainda mais a segurança vacinal. No entanto, essa estratégia seria indicada mais a médio prazo e não substitui as campanhas de vacinação em massa, necessárias no momento atual nas áreas de risco já identificadas.

IHU On-Line – O que a volta da febre amarela revela sobre a política de saúde pública no Brasil?

Tatiana Noronha – Não estamos vivendo “a volta da febre amarela”, pois a febre amarela silvestre nunca deixou de existir no Brasil e, por isso, é chamada de endêmica no nosso país. Até o momento, desde 1942, não temos relato da forma urbana da doença. O que temos observado, especialmente do ano passado para cá, é um aumento do número de casos da febre amarela silvestre, próximo a áreas de elevado contingente populacional (Rio de Janeiro e São Paulo, por exemplo). A expansão dos casos silvestres da doença no sentido leste-sul, a partir da região amazônica, tem sido observada nas últimas décadas, com ciclos de maior expansão a cada 6 a 7 anos, detectados graças às ações de vigilância em saúde pública, o que inclui a detecção de macacos doentes ou mortos (chamados de epizootias).

Essas ações de vigilância permitem a implementação de ações de controle da doença, como a vacinação da população em risco. O que tem ocorrido recentemente é uma expansão muito rápida do vírus pela região sudeste, atingindo áreas de elevado contingente populacional, não vacinado contra febre amarela. A razão para essa rápida expansão não está bem clara e, provavelmente, é multifatorial. No entanto, o Ministério da Saúde, com apoio dos estados e municípios, tem agido de forma a controlar a disseminação da doença, e a campanha de vacinação em dose fracionada, com respaldo das Organizações Mundial e Pan-americana da Saúde, é um exemplo disso.

IHU On-Line – Em termos de controle epidemiológico e política de saúde pública, quais as semelhanças e distinções no controle de febre amarela e outras doenças, como zika, dengue e chikungunya, que possuem o mosquito como vetor?

Tatiana Noronha – Essas quatro doenças são chamadas de arboviroses por serem transmitidas por insetos e, no meio urbano, compartilham o mesmo vetor, o mosquito Aedes aegypti, sabidamente de difícil controle. A principal diferença entre essas doenças, em termos de ações de prevenção e controle, é que para febre amarela existe uma vacina eficaz, com segurança conhecida, que tem sido capaz de evitar a reurbanização da doença há décadas.

Como dito anteriormente, não é possível erradicar a febre amarela, pois existe um hospedeiro não humano (o macaco) que juntamente com os vetores silvestres perpetuam a circulação do vírus no seu habitat. No entanto, se o ser humano que entrar na floresta estiver vacinado, se as ações de vigilância (incluindo de macacos infectados) estiverem funcionando e a expansão das aéreas de risco for identificada a contento, é possível manter a febre amarela sob controle com ações de vacinação como política de saúde pública. Infelizmente, o mesmo ainda não é possível com dengue, zika e chikungunya, e ficamos à mercê apenas do controle vetorial e de ações de proteção individual, como uso de repelentes.

IHU On-Line – A febre amarela também é realidade em outros países, inclusive muitos só permitem a entrada de pessoas que tenham sido vacinadas. Que experiências de outros países poderiam servir de inspiração para o Brasil no que diz respeito ao controle da febre amarela?

Tatiana Noronha – Para o controle da febre amarela no Brasil são adotadas medidas cujas prioridades são: vacinar na rotina das unidades básicas 100% da população residente nas áreas com a recomendação para vacinação a partir dos nove meses de idade; vacinar oportunamente (pelo menos dez dias antes) viajantes para áreas com risco de febre amarela; monitorar coberturas vacinais em todos os municípios; investigar os eventos adversos pós-vacinação; e realizar a vigilância de casos suspeitos de febre amarela e epizootias, com o objetivo de monitorar a circulação do vírus. Além disso, a vigilância entomológica, com isolamento de vírus da febre amarela em mosquitos, tem sido recomendada como estratégia complementar à vigilância de casos humanos e epizootias, de modo a subsidiar o planejamento das ações de prevenção e controle antes da ocorrência de casos humanos.

Dessa forma, a vacinação rotineira é complementada por campanhas de imunização em massa, para conter surtos epidêmicos. Ou seja, são estratégias consideradas exemplares, que, se bem conduzidas e associadas a medidas de preservação ambiental, representam sucesso no controle da doença. Chamo atenção para isso porque o planejamento existe e, se fizermos nosso “dever de casa” adequadamente, conseguimos sucesso no controle da doença sem necessidade de inspiração em outros países. Exceção se faz para experiência de uso da dose fracionada na África, que foi importante para embasar a adoção dessa estratégia em caráter emergencial no Brasil, visando ao controle da doença em áreas de elevado contingente populacional suscetível (não vacinado anteriormente).

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Tatiana Noronha – Gostaria de solicitar que os profissionais de saúde se atualizem sobre a indicação da vacinação, incluindo seus riscos e benefícios, de forma que possam orientar adequadamente a população. Por trás das estratégias de vacinação, participando das tomadas de decisão em relação às políticas de saúde pública, existem técnicos capacitados e experientes, com apoio de cientistas de instituições renomadas. Portanto, procurem se atualizar, com atenção especial às fontes confiáveis de informação.



(EcoDebate, 01/03/2018) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

Autor: EcoDebate
Fonte: Agência EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 01/03/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/03/01/febre-amarela-dificilmente-sera-erradicada-vacinacao-e-forma-mais-efetiva-de-controlar-doenca/

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Pesquisadores corrigem em embriões humanos mutação associada a uma doença cardíaca



Embriões nos estágios iniciais de multiplicação após reparo de gene feito com CRISPR-Cas9


Pesquisadores liderados pelo geneticista Shoukhrat Mitalipov, da Universidade de Saúde e Ciência de Oregon, nos Estados Unidos, usaram uma técnica de edição de genes para corrigir em embriões humanos uma mutação responsável pelo desenvolvimento tardio de uma doença cardíaca. Essa é a primeira demonstração feita nos Estados Unidos de que é possível eliminar uma cópia defeituosa de um gene e substituí-la por uma versão íntegra nas células do embrião sem, aparentemente, prejudicar o seu desenvolvimento. Valendo-se da mesma técnica, em março deste ano, a equipe de Jianqiao Liu, da Universidade Médica de Guangzhou, na China, já havia restaurado em embriões humanos dois genes ligados a duas formas de anemia, mas com um índice menor de sucesso.

No estudo publicado em 2 de agosto na revista Nature, Mitalipov e outros 30 pesquisadores dos Estados Unidos, da Coreia do Sul e da China usaram uma técnica de edição de genes chamada CRISPR-Cas9 para eliminar a cópia alterada do gene MYBPC3, que codifica uma proteína descoberta nos anos 1980 pelo biólogo brasileiro Fernando Reinach. Esses sistema de edição é formado por uma proteína (Cas9) ligada a uma molécula que a direciona a uma região de repetições do DNA conhecida pela sigla CRISPR (ver Pesquisa FAPESP nº 240). A Cas9 corta a fita dupla de DNA e ativa nos embriões os mecanismos de reparo que produziram uma cópia íntegra do MYBPC3 – as células humanas têm duas, mas uma mutada já causa problemas. Antes das equipes de Mitalipov e de Liu, outros grupos na China haviam tentado usar a técnica para editar embriões humanos, sem sucesso.

Mitalipov e seu grupo conseguiram aumentar a eficiência e a segurança da técnica ao identificar o momento e o modo mais adequados de adotá-la. Eles injetaram a Cas9 no óvulo com o espermatozoide na fecundação – mesmo assim, ela só funcionou em metade dos casos. Quando foi inserida após a fecundação, os embriões apresentaram um problema chamado mosaicismo: metade de suas células tinha o gene corrigido e metade, a versão defeituosa.

Inicialmente, os pesquisadores suspeitaram que, mesmo quando corrigiu o problema do embrião, a Cas9 tivesse atuado sobre 15 regiões diferentes da originalmente prevista. Uma análise posterior não encontrou defeitos nessas regiões, sugerindo que o problema estava na técnica de verificação usada. Nenhum embrião foi implantado em mulheres, algo não permitido nos Estados Unidos.

O trabalho prepara o caminho para o uso clínico de terapias baseadas nessa ferramenta, escreveram Nerges Winblad e Fredrik Lanner, do Instituto Karolinska, na Suécia, na Nature. E levanta questões éticas. Teme-se, por exemplo, que a edição de genes possa ser usada para gerar pessoas mais fortes ou inteligentes.

“A CRISPR-Cas9 é uma técnica poderosa, que pode corrigir uma mutação”, afirma a bióloga Ângela Saito, pesquisadora do Laboratório de Modificação do Genoma (LMG) no Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), em Campinas. “Como há o risco de alterações inespecíficas e resultados indesejáveis, mais estudos precisam ser feitos antes que possa ser usada para tratar doenças hereditárias humanas.” Para o embriologista José Xavier Neto, coordenador do LMG do LNBio, “por ora, a edição de genes apresenta uma solução para um problema que pode ser resolvido de modo mais seguro com a seleção de embriões obtidos por fertilização in vitro antes da implantação no útero”.




Artigo científico
MA, H. et al. Correction of a pathogenic gene mutation in human embryos. Nature. 2 ago. 2017.




Autor: RICARDO ZORZETTO | ED. 258 |
Fonte: fapesp
Sítio Online da Publicação: fapesp
Data de Publicação: SETEMBRO 2017
Publicação Original: http://revistapesquisa.fapesp.br/2017/08/18/a-era-da-edicao-genica/?cat=ciencia

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Alta taxa de açúcar na gravidez aumenta risco de doença cardíaca em bebês, diz estudo





Níveis altos de açúcar no começo da gravidez podem deflagrar problemas cardíacos em bebês (Foto: Reprodução/TV Fronteira)



Altos níveis de açúcar no sangue no início da gravidez aumentam risco de problema cardíaco em bebês, aponta estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Stanford (EUA). A pesquisa foi publicada nesta sexta-feira (15) no "Journal of Pediatrics".


O estudo analisou os efeitos do açúcar na primeira fase da gestação, quando o coração está se formando. A relação encontrada independe da mãe ter diabetes: a cada aumento de 10 miligramas da glicose na fase inicial da gravidez, o risco de um problema congênito no órgão tem um incremento de 8%.


Para chegar aos resultados, a equipe analisou prontuários médicos de 19.107 mães que tiveram bebês entre 2009 e 2015. Os registros continham detalhes do atendimento pré-natal, incluindo resultados de exame de sangue.


Dessa análise, pesquisadores encontraram 811 bebês diagnosticados com doença cardíaca congênita; também foram selecionadas as mães que tiveram a glicose testada no início da gravidez e excluidas aquelas com diabetes já diagnosticada.


O próximo passo da pesquisa será seguir um grupo de mulheres na gestação para ver se os resultados se confirmam. Se se confirmarem, a pesquisa pode ser vir de base para protocolos que exortem médicos a pedirem o exame obrigatoriamente na fase inicial da gravidez.




Autor: G1 Globo
Fonte: G1 Globo
Sítio Online da Publicação: G1 Globo
Data de Publicação: 15/12/2017
Publicação Original: https://g1.globo.com/bemestar/noticia/alta-taxa-de-acucar-na-gravidez-aumenta-risco-de-doenca-cardiaca-em-bebes-diz-estudo.ghtml

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Mortes por sarampo tem queda substancial, mas doença ainda mata 90 mil por ano



Foram poupadas as vidas de 1,3 milhões de pessoas por conta da vacinação contra a doença, diz relatório da OMS

Em 2016, cerca de 90.000 pessoas morreram de sarampo – uma queda de 84% se relacionadas às 550.000 mortes ocorridas em 2000, de acordo com novo relatório divulgado em outubro de 2017. Isso marca a primeira vez que as mortes globais por sarampo ficaram abaixo de 100.000 por ano.

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“Poupar uma média de 1,3 milhões de vidas por ano através da vacina contra o sarampo é uma conquista incrível e faz com que um mundo livre de sarampo pareça possível”, diz o Dr. Robert Linkins, da Iniciativa contra o Sarampo e Rubéola (MR&I) e Chefe da Divisão de Controle de Doenças Aceleradas e Doenças Preveníveis à Vacina nos Centros de Controle e Prevenção de Doenças. A MR&I é uma parceria formada em 2001entre a Cruz Vermelha Americana, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, a Fundação das Nações Unidas, a UNICEF e a OMS.

Desde 2000, cerca de 5,5 bilhões de doses de vacinas contra o sarampo foram fornecidas às crianças através de serviços de vacinação de rotina e campanhas de vacinação em massa, preservando 20,4 milhões de vidas estimadas.

“Vimos uma queda substancial nas mortes por sarampo por mais de duas décadas, mas agora devemos nos esforçar para zerar os casos de sarampo”, diz o Dr. Jean-Marie Okwo-Bele, diretor do Departamento de Imunização, Vacinas e Produtos Biológicos da OMS. “A eliminação do sarampo só será alcançada se as vacinas chegarem a cada criança, em todos os lugares”.

O mundo ainda está longe de atingir os objetivos regionais de eliminação do sarampo. A cobertura com a primeira das duas doses necessárias de vacina contra o sarampo ficou paralisada em aproximadamente 85% desde 2009, muito abaixo da cobertura de 95% necessária para parar as infecções por sarampo, e a cobertura com a segunda dose, apesar dos recentes aumentos, foi de apenas 64% em 2016.

Muitas crianças – 20,8 milhões – ainda não têm acesso à primeira dose de vacina contra o sarampo. Mais de metade dessas crianças não vacinadas vivem em seis países: Nigéria (3,3 milhões), Índia (2,9 milhões), Paquistão (2,0 milhões), Indonésia (1,2 milhões), Etiópia (0,9 milhões) e República Democrática do Congo (0,7 milhão). Uma vez que o sarampo é uma doença viral altamente contagiosa, grandes surtos continuam a ocorrer nestes e outros países da Europa e América do Norte, colocando as crianças em risco de complicações graves para a saúde, como pneumonia, diarreia, encefalite, cegueira e morte.

“Esta queda notável nas mortes por sarampo é resultado de anos de trabalho árduo por parte dos profissionais de saúde, governos e agências de desenvolvimento para vacinar milhões de crianças nos países mais pobres do mundo”, disse o Dr. Seth Berkley, CEO da Gavi, Vaccine Alliance, um dos maiores apoiantes mundiais dos programas de vacinação contra o sarampo. “No entanto, não podemos nos dar ao luxo de ser complacentes. Muitas crianças ainda não estão recebendo as vacinas que salvam vidas. Para atingir essas crianças e nos estabelecer em um caminho realista para a eliminação do sarampo, precisamos melhorar a imunização de rotina apoiada por sistemas de saúde fortes”.




Autora: segurancadopaciente
Fonte: segurancadopaciente
Sítio Online da Publicação: segurancadopaciente
Data de Publicação: 30/11/2017
Publicação Original: https://www.segurancadopaciente.com.br/seguranca-e-gestao/mortes-por-sarampo-tem-queda-substancial-mas-doenca-ainda-mata-90-mil-por-ano/?utm_source=IBSP+Newsletter&utm_campaign=efcb86f8b0-EMAIL_CAMPAIGN_2017_12_01&utm_medium=email&utm_term=0_cf1fdfc664-efcb86f8b0-141552645

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Parar de usar antibióticos em animais saudáveis ajuda a evitar a propagação da resistência antibiótica



A falta de antibióticos efetivos é uma ameaça de segurança tão séria como um surto de doença súbita e mortal

A OMS – Organização Mundial da Saúde está recomendando que os agricultores e a indústria alimentar parem de usar antibióticos rotineiramente para promover o crescimento e prevenir doenças em animais saudáveis.

As novas recomendações da OMS visam ajudar a preservar a eficácia dos antibióticos, que são importantes para a medicina humana, reduzindo seu uso desnecessário em animais. Em alguns países, aproximadamente 80% do consumo total de antibióticos relevantes é aplicado no setor animal, em grande parte para promoção do crescimento dos animais saudáveis.

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Diretrizes da OMS sobre o uso de antimicrobianos em animais
O uso excessivo e indevido de antibióticos em animais e seres humanos está contribuindo para a crescente resistência aos medicamentos que matam as infecções bacterianas. Alguns tipos de bactérias que causam infecções graves em humanos já desenvolveram resistência à maioria ou a todos os tratamentos disponíveis, e há poucas opções promissoras no pipeline de pesquisa.

“A falta de antibióticos efetivos é uma ameaça de segurança tão séria como um surto de doença súbita e mortal”, diz o Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS. “A ação forte e sustentada em todos os setores é vital se quisermos reverter a maré da resistência antimicrobiana e manter o mundo seguro”.

Uma revisão sistemática publicada na The Lancet Planetary Health descobriu que as intervenções que restringem o uso de antibióticos em animais fontes de alimento reduziram as bactérias resistentes a antibióticos nestes animais em até 39%. Esta pesquisa informou diretamente o desenvolvimento das novas diretrizes da OMS.

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Redução do uso em animais fontes de alimento

Com isso, a Organização Mundial da Saúde recomenda fortemente a redução geral no uso de todas as classes de antibióticos em animais fontes de alimento, incluindo a restrição completa desses antibióticos para promoção do crescimento e prevenção de doenças sem diagnóstico. Animais saudáveis só devem receber antibióticos para prevenir doenças se tiverem sido diagnosticados em outros animais na mesma população.

Quando possível, animais doentes devem ser testados para determinar o antibiótico mais eficaz e prudente para tratar sua infecção específica. Os antibióticos utilizados em animais devem ser selecionados entre aqueles que a OMS classificou como “menos importante” para a saúde humana e não daqueles classificados como “de importância crítica e de máxima prioridade”. Estes antibióticos são muitas vezes a última linha de tratamentos para curar infecções bacterianas graves em seres humanos.

“A evidência científica demonstra que o uso excessivo de antibióticos em animais pode contribuir para o aparecimento de resistência aos antibióticos”, diz o Dr. Kazuaki Miyagishima, diretor do Departamento de Segurança Alimentar e Zoonoses da OMS. “O volume de antibióticos utilizados em animais continua aumentando em todo o mundo, impulsionado por uma crescente demanda por alimentos de origem animal, muitas vezes produzidos através de criação intensiva”.

Muitos países já tomaram medidas para reduzir o uso de antibióticos em animais fontes de alimento. Por exemplo, desde 2006, a União Europeia proibiu o uso de antibióticos para a promoção do crescimento. Os consumidores também estão impulsionando a demanda de carne aumentada sem o uso rotineiro de antibióticos, com algumas grandes cadeias alimentares adotando políticas “sem antibióticos” para seus suprimentos de carne.

Opções alternativas para o uso de antibióticos para a prevenção de doenças em animais incluem melhorar a higiene, melhor uso da vacinação e mudanças na habitação de animais e nas práticas de criação.
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