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segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Vírus encontrado em porcos na China é identificado em criança no Brasil


Há uma enorme quantidade de vírus ativos no mundo que ainda não foi descrita. O que foi tratado no estudo infecta o verme Ascaris suum, que fica alojado no intestino de porcos, e foi descrito por pesquisadores brasileiros e dos Estados Unidos. O trabalho, porém, não permite concluir que ele tenha sido trazido da China para o Brasil nem que seja o agente causador da doença – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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Um vírus que infecta o verme Ascaris suum, que fica alojado no intestino de porcos na China, foi encontrado no Brasil. O agente patogênico foi descoberto nas fezes de uma criança acometida de gastroenterite e descrito por pesquisadores de várias instituições brasileiras e dos Estados Unidos. O assunto foi tema de artigo publicado na revista Virus Genes.

As análises ainda não permitem concluir que o vírus em questão – denominado WLPRV/human/BRA/TO-34/201 – tenha sido trazido da China para o Brasil por alguém que comeu carne de porco infectada e nem que ele tenha sido o causador da gastroenterite.”Analisamos amostras de fezes de uma criança com diarreia cujo agente patogênico não tinha sido identificado e foi descoberto um vírus que só havia sido sequenciado anteriormente uma única vez, na China. Porém, é cedo para afirmar que o vírus tenha sido trazido da China para o Brasil. Como ele acabou de ser descrito, pode ser – e é bem provável – que, com o tempo, seja encontrado também em outros lugares. E que isso permita estabelecer uma sequência da propagação. Mas, por enquanto, não sabemos se o vírus veio da China. Tudo o que temos são duas sequências genômicas semelhantes”, explica a coordenadora do estudo, Ester Cerdeira Sabino, diretora do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo (IMT) e professora do Departamento de Moléstias Infecciosas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).

A pesquisa foi apoiada pela Fapesp por meio dos projetos Investigando a evolução de cepas animais de rotavírus infectando humanos e Metagenômica viral de dengue, Chikungunya e Zika vírus: acompanhar, explicar e prever a transmissão e distribuição espaço-temporal no Brasil. Segundo o pós-doutorando Antonio Charlys da Costa, há uma enorme quantidade de vírus ativos no mundo que ainda não foi descrita.

“Tendo em vista o número de seres eucariontes presentes na Terra, estima-se que existam aproximadamente 87 milhões de vírus para serem descritos. Atualmente, o Comitê Internacional de Taxonomia Viral (ICTV) reconhece 4.404 espécies de vírus em eucariotos – o que significa que mais de 99,99% dos vírus permanecem desconhecidos ou não classificados. Apesar de ser uma estimativa, acreditamos neste número devido à grande diversidade viral que encontramos em amostras sequenciadas até o momento”, disse Costa, bolsista de pós-doutorado no IMT com bolsa da Fapesp.

Um dos focos da pesquisa que Costa desenvolve é identificar e sequenciar vírus ainda não descritos. O estudo epidemiológico – contemplando a distribuição dos vírus, a frequência de ocorrência na população, as enfermidades associadas etc. – é algo posterior.

“O que fizemos foi investigar amostras de fezes humanas, colhidas durante a ocorrência de gastroenterites, cujos agentes patogênicos não tinham sido identificados. Encontramos inúmeros agentes presentes e agora estamos descrevendo esses achados. A metodologia utilizada é a metagenômica viral, que permite identificar qualquer agente infeccioso. Isso não quer dizer que os agentes encontrados sejam responsáveis pela gastroenterite. Mas esse levantamento permite iniciar uma correlação para estudos futuros”, explicou Sabino.

Como os vírus são o objeto do estudo, várias etapas precisam ser cumpridas durante a pesquisa. O primeiro passo é filtrar a amostra em escala micrométrica, de modo a bloquear e descartar células, parasitas, fungos e bactérias.

Mesmo assim, pedaços de DNA e RNA livres conseguem passar pelo filtro. E precisam ser eliminados. Para isso, são utilizadas nucleases – enzimas que digerem DNA e RNA. O ácido nucleico do vírus (DNA ou RNA) não é digerido, pois se encontra protegido no interior do capsídeo viral. Mas o ácido nucleico livre, sim. Depois de tudo isso, a partícula viral passa pelo processo de lise celular, destruição ou dissolução da célula causada pela rotura da membrana plasmática. Por fim, o material genético é liberado e sequenciado.

“Isso produz bilhões de sequências pequenas, que precisam ser alinhadas na tentativa de reconstruir os genomas virais. Uma vez obtidas as sequências maiores, o passo seguinte é buscar, por meio de bioinformática, algo semelhante no banco de dados – o que, em geral, demanda muito tempo de processamento e poder computacional. Sequenciamos todos os vírus possíveis nas amostras. E, depois, procuramos ver se as sequências obtidas coincidem com as de vírus conhecidos”, disse Sabino.
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Novos agentes virais

Segundo os autores da pesquisa, o principal agente viral de diarreias no Brasil costumava ser o rotavírus. Mas, à medida que as rotaviroses passaram a ser prevenidas por meio da vacinação, é possível que outros agentes virais possam estar causando as gastroenterites.

Sabino conta que pode ocorrer, por exemplo, de dois vírus não patogênicos produzirem um vírus patogênico por recombinação. Na recombinação, um pedaço de um vírus se junta a um pedaço de outro para formar um terceiro.

“Desconhecemos a etiologia de muitas doenças humanas. Para diarreias, por exemplo, em mais de 50% dos casos a causa é ignorada. Então, há muitos agentes a serem descobertos. Antes, não conseguíamos ir atrás desses agentes, porque era muito difícil e caro sequenciar. Com os sequenciadores de nova geração, ficou fácil. Mas há uma grande distância entre achar um agente e provar que ele é o causador da doença”, afirmou a pesquisadora.

Também participaram do artigo Adriana Luchs, Elcio de Souza Leal, Shirley Vasconcelos Komninakis, Flavio Augusto de Padua Milagres, Rafael Brustulin, Maria da Aparecida Rodrigues Teles, Danielle Elise Gill, Xutao Deng e Eric Delwart.

O artigo Wuhan large pig roundworm virus identified in human feces in Brazil pode ser lido na edição da Virus Genes.

José Tadeu Arantes/Agência Fapesp




Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 30/10/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-biologicas/virus-encontrado-em-porcos-na-china-e-identificado-em-crianca-no-brasil/

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Você gosta de ouvir Bach? Os porcos também


A música foi escolhida com base em referencial teórico, o que era necessário por ser validação de um novo método – Foto:Heribert Duling via Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0 de



Suínos tiveram uma melhoria em seu bem-estar, algumas mudanças de comportamento e até apresentaram alterações alimentares ao ouvir música clássica. Esses foram os resultados da tese de doutorado Enriquecimento sensorial do ambiente buscando o bem-estar de suínos, realizada por Érica Harue Ito, com orientação de Késia Oliveira da Silva Miranda, na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba.

Segundo a zootecnista, houve uma diminuição dos comportamentos agonísticos (brigas e perseguições) e um aumento nos comportamentos lúdicos (brincadeiras e interações entre eles) nos animais que ouviram o prelúdio da Suíte nº1 em Sol Maior para Violoncelo (BWV 1007), composta pelo alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750). Você pode ouvir a versão tocada para os porquinhos neste link.

Outro fator observado pela pesquisadora foi o consumo de ração e ganho de peso. Érica diz que ficou surpresa em perceber que os porcos que ouviram música tiveram o mesmo ganho de peso consumindo uma quantidade menor de ração. Ela ressalta a importância dessa descoberta para o produtor de suínos: “50% do custo da produção de suínos é a ração. A melhora de 1% disso faz uma diferença muito grande para produtores de animais, que ganham em centavos.”


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O estudo buscou validar o uso em campo aberto do método conhecido como enriquecimento sonoro. Em ambiente fechado, essa técnica já é melhor pesquisada e oferece a possibilidade de controlar fatores como temperatura e umidade. Em um campo aberto, esses fatores podem apenas ser monitorados. A música foi escolhida com base em referencial teórico, o que era necessário por ser validação de um novo método. “Como eu estava validando uma metodologia em instalações abertas, eu tinha que seguir alguma coisa que já existia na literatura. Pesquisei sobre rock, pagode, mas não encontrei nada. Por mim, eu colocaria”, comenta a pesquisadora.

A pesquisa foi feita com os porcos divididos em duas baias, que ficavam lado a lado, separadas por uma parede. A baia tratamento ouvia música, enquanto a baia controle não. A intensidade e a frequência do som foram monitoradas e a temperatura dos animais também, para garantir que não estavam com nenhuma doença. Os suínos ouviram a música durante um mês e a pesquisadora coletava dados a cada hora.

Segundo a zootecnista, para entender o mecanismo que levou a música a influenciar no consumo de ração e consequente ganho de peso dos animais, seria necessária uma pesquisa multidisciplinar, com psicólogos e neurocientistas. “Nós sabemos como é que a música influencia os seres humanos. Mas como influencia os animais? Será que ativa as mesmas regiões cerebrais que ativa em nós? Não há pesquisas sobre isso.”


Porcos que ouviram música tiveram o mesmo ganho de peso consumindo uma quantidade menor de ração. Essa é uma importante descoberta para os produtores de suínos – Foto: Alexas_Fotos/CC0 Creative Commons via Flickr

A aplicação direta da pesquisa seria para os produtores de animais, que podem utilizar a música, um recurso barato, ao qual todo mundo tem acesso, e se mostrou eficiente. Para além disso, fica a reflexão para a sociedade: “É muito fácil alguém que é leigo no assunto ter um cachorro ou um gato de estimação e entender que aquele animal sofre, sente fome, precisa de carinho e tem sentimentos. Mas é muito difícil ainda, para a grande maioria das pessoas, entender que a vaca que dá leite, o porco que dá carne, a galinha que dá ovo, também têm esses mesmos sentimentos”, afirma Érica. Sendo assim, nada mais justo do que buscar situações que proporcionem aos bichos viverem, se reproduzirem e crescerem de maneira agradável e de forma ética.Érica comenta que o estudo é apenas parte de um quebra-cabeça, pois além de faltar entender como a música afeta os animais, há também a possibilidade de se testar outros gêneros musicais e avaliar se possuem o mesmo efeito. Ela pretende continuar pesquisando, mas ressalta que provavelmente será mais difícil agora, por ser bolsista da Capes (Conselho Superior da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), que, no início deste mês anunciou uma possível suspensão no pagamento de bolsas e a interrupção de programas de fomento à pós-graduação no País. “É um pouco difícil, ainda mais agora, com os problemas de bolsa e financiamento. Então os recursos vão ser prioritários para a área de saúde, para o que é ‘considerado importante’. Eu sei que vai ficar mais difícil agora, mas o intuito é continuar”, avalia a pesquisadora.

Você pode ter acesso à versão simplificada da tese Enriquecimento sensorial do ambiente buscando o bem-estar de suínos neste link.

Mais informações: e-mail ericaito@usp.br com Érica Harue Ito




Autor: Ane Cristina
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 27/08/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-agrarias/voce-gosta-de-ouvir-bach-os-porcos-tambem/