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quarta-feira, 29 de julho de 2020

Livro destaca o protagonismo da Medicina tropical nos estudos em Leishmanioses

Em meio à pandemia causada pelo coronavírus, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) firmou, recentemente, um acordo com a biofarmacêutica AstraZeneca para a compra de lotes e transferência de tecnologia para a produção da vacina contra a Covid-19 desenvolvida pela Universidade de Oxford, no Reino Unido. “Esse importante passo, que pode representar uma saída para a atual crise sanitária, só está sendo possível graças à expertise da Fiocruz e ao longo processo de construção e consolidação, no decorrer do século XX, do conhecimento científico nacional e das instituições de pesquisa brasileiras”, disse o historiador Jaime Larry Benchimol, que recebe apoio da FAPERJ por meio do programa Cientista do Nosso Estado. Na obra Uma história das leishmanioses no Novo Mundo (fins do século XIX aos anos 1960), recém-lançada pelas editoras Fino Traço (BH) e Fiocruz (RJ), ele e o seu orientando, Denis Jogas, também historiador e bolsista de Doutorado Nota 10 da Fundação, destacam como os estudos em leishmanioses no início do século passado contribuíram para que os cientistas brasileiros assumissem, já naquela época, um papel protagonista diante de seus pares europeus, e estabelecessem as bases para a globalização da Medicina e da pesquisa desenvolvidas nos Trópicos.

Dividida em nove capítulos, a publicação coloca em xeque narrativas que atribuem a atores não-europeus um papel marginal na produção de conhecimento científico no decorrer do século XX. Ao revisitar as trajetórias de cientistas pioneiros como Gaspar Vianna, Carlos Chagas e seu filho primogênito, Evandro, além de Samuel Pessôa e muitos outros, a obra recupera não só a contribuição de grandes nomes da pesquisa nacional na primeira metade do século passado, mas narra, como pano de fundo, a história de importantes instituições científicas brasileiras, entre elas o Instituto Oswaldo Cruz, que integra atualmente a Fiocruz, e o estabelecimento de um primeiro programa de combate às leishmanioses no País. “A história de uma doença nunca é a história de uma só doença. Em cada conjuntura sobressaem diversas patologias e há interações entre elas, além dos impactos sobre a sociedade da época. Estudar a história das leishmanioses no Brasil também é aprender sobre outras doenças tropicais, como a febre amarela, a malária e a doença de Chagas, e entender como os cientistas brasileiros ganharam projeção no Velho Mundo, comportando-se não como meros receptores de conhecimento, mas como protagonistas da sua construção", disse Benchimol.   

A história da pesquisa nacional em Leishmanioses

O livro relata como as leishmanioses desafiaram a comunidade científica mundial desde o final do século XIX até os anos 1960. No século passado, o seu diagnóstico e enfrentamento exigiu uma grande capacidade de pesquisa internacional, pois esse complexo de doenças contrariava a ideia corrente, entre os cientistas, de que cada doença tinha um agente causal único, claramente discernível. “As leishmanioses eram um conjunto de doenças com manifestações clínicas muitos diferentes, mas associadas a protozoários que pareciam ser morfologicamente indistinguíveis com os recursos tecnológicos disponíveis à época. Isso inquietou e estimulou muito a comunidade científica”, explicou Denis Jogas. “Esse grupo de doenças classificado como leishmanioses abrangia desde o Calazar, doença visceral relatada na Índia e em outras partes da Ásia, e na região mediterrânea, onde logo se verificou que acometia também os cães; a doença cutânea conhecida como ‘Botão do Oriente’; e as doenças do continente americano, que também podiam destruir as mucosas do indivíduo e que só eram encontradas em ambientes florestas”, detalhou.


Capa do livro: obra revisita parte significativa da 
história da ciência brasileira (Foto: Reprodução) 





















Já havia evidências sobre a ocorrência do Botão do Oriente na região do Rio Nilo, no Antigo Egito. A doença era caracterizada por lesões dermatológicas, com curso clínico brando e tendência à cura espontânea. Enquanto isso, o Calazar, descrito na Índia e na região mediterrânea, era mais agressivo, atingindo as vísceras do paciente, com rápida progressão e elevado índice de mortalidade. Foi só na virada do século XIX para o XX que se descobriu que ambas as formas da doença são causadas por parasitas protozoários cujo nome genérico Leishmania deu origem ao nome pelo qual a doença é conhecida hoje, leishmaniose. 

O debate ficou mais acalorado quando uma terceira forma de Leishmania, ainda desconhecida pela comunidade científica, passou a acometer muitas pessoas. Dessa vez, no Brasil e em países da América latina. “O jovem cientista Gaspar Vianna, do Instituto Oswaldo Cruz, foi quem descreveu o agente patológico da leishmaniose cutânea, que batizou de Leishmania braziliensis”contextualizou Benchimol. A doença despertou o interesse de pesquisadores em 1908, quando um surto atingiu operários que estavam na linha de frente da construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que ligaria São Paulo a Mato Grosso. Ela é transmitida ao ser humano pela picada das fêmeas de flebotomíneos (o "mosquito-palha") infectadas. Outra contribuição relevante de Vianna foi identificar a importância do tratamento com a substância tártaro emético (antimônio trivalente). “Tratamentos com base em compostos antimoniais como o prescrito por Vianna ainda são a principal forma de combate à leishmaniose. O uso desse medicamento salvou inúmeras vidas, em particular na Índia, onde o Calazar fazia muitas vítimas”, completou Jogas.

Com apenas 29 anos, Gaspar Vianna, então um promissor patologista do Instituto Oswaldo Cruz, morreu após ser contaminado durante a realização de uma necropsia. Ao abrir a cavidade torácica do corpo de um paciente que morreu com tuberculose, um jato do líquido pulmonar atingiu seu rosto e o contaminou. “A morte prematura de Vianna o impossibilitou de ter o devido reconhecimento em vida. Foi preciso o engajamento de outros cientistas brasileiros, como o médico baiano Alfredo da Matta, para que a Leishmania braziliensis fosse reconhecida pela comunidade científica internacional”, recordou Jogas.

Outros importantes defensores da espécie descrita por Vianna foram o zoólogo Arthur Neiva, do Instituto Oswaldo Cruz, que sustentou sua descoberta na Conferência da Sociedade Sul-Americana de Higiene, Microbiologia e Patologia, realizada em Buenos Aires em 1916, e o parasitologista Samuel Pessôa, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. “Pessoa produziu evidências para respaldar a teoria de que as leishmanioses cutâneas e mucocutâneas americanas eram autóctones, o que contribuiu para a crescente aceitação internacional do conceito de Leishmaniose Tegumentar Americana. Mas estudos posteriores, realizados pela equipe de Ralph Lainson e Jeffrey Shaw no Instituto Evandro Chagas, no Pará, sobre as leishmanioses da Amazônia, mostraram que muitas outras espécies de leishmania estão associadas ao complexo de doenças denominado Leishmaniose Tegumentar Americana”, ponderou Benchimol. Ele é professor do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz (COC) e do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Condições de Vida e Situações de Saúde na Amazônia (Fiocruz Amazônia, Manaus).

 
Denis Jogas (à esq.) e Jaime Benchimol:
 pesquisa incluiu visitas a vários acervos internacionais (Foto: Divulgação)

















O livro, que tem 790 páginas, é resultado de um minucioso trabalho de pesquisa da dupla de historiadores, que percorreu acervos de diversos países, incluindo bibliotecas no Brasil, Argentina, França e Estados Unidos. “Realizei meu estágio de doutoramento no exterior com apoio da FAPERJ, o que contribuiu para que eu reunisse um amplo conjunto de fontes primárias durante os seis meses que passei na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (École de Hautes Études en Sciences Sociales), em Paris, sob orientação do professor Kapil Raj. Fiz muitas pesquisas no arquivo histórico do Instituto Pasteur, essenciais para a construção da minha tese, entre outubro de 2017 e março de 2018”, contou Jogas. Por outro lado, Benchimol visitou a Wellcome Library, em Londres; o arquivo da Organização Mundial da Saúde (OMS), em Genebra, na Suíça; e, nos Estados Unidos, os arquivos de Harvard e da Fundação Rockfeller, entre outras instituições.

O livro mostra que os estudos sobre as leishmanioses e outras endemias rurais contribuíram para que o Brasil tivesse uma das mais pujantes comunidades científicas da América Latina. Também evidencia a importância desse grupo de doenças, ainda em crescimento. “A leishmaniose é considerada ainda hoje uma ‘doença reemergente e negligenciada’, classificação criada pela OMS. Reemergente porque foi momentaneamente controlada nos anos 1950 e 1960, no Brasil e em outros países, mas irrompeu em áreas consideradas livres da doença, em função de mudanças ambientais, migrações humanas e crescimento urbano caótico. Negligenciada porque recebe pouca atenção do Estado, dos grupos farmacêuticos e está associada às condições de pobreza”, ressaltou Benchimol. “As leishmanioses são endêmicas em 98 países e territórios nos quatro continentes, com estimativa de dois milhões de novos casos por ano, segundo o Primeiro Relatório ‘Trabalhando para Superar o Impacto Global de Doenças Tropicais Negligenciadas’, da OMS. Nosso trabalho destaca a contribuição dos pesquisadores brasileiros e latinos para a construção desse conhecimento”, acrescentou Jogas. 


Autor: FAPERJ 
Fonte: FAPERJ 
Sítio Online da Publicação: FAPERJ 
Data: 23/07/2020
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4026.2.8

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Fiocruz Minas testa novas técnicas para diagnóstico das leishmanioses

Uma pesquisa da Fiocruz Minas mostrou que o LAMP, teste utilizado para detecção de uma série de doenças infecciosas, pode ser empregado também para o diagnóstico de leishmaniose visceral humana. O estudo, realizado pelo Grupo de Pesquisas Clínicas e Políticas Públicas em Doenças Infecciosas e Parasitárias (PCPP), foi publicado recentemente na revista BioMed Research International.

Para verificar a eficácia do LAMP, os pesquisadores aplicaram a técnica em amostras de sangue que já haviam passado por métodos de diagnóstico tradicionalmente utilizados. Ao todo, foram 219 amostras, sendo 114 de pacientes já diagnosticados com leishmaniose visceral e 105 de pessoas cujos exames deram negativo para essa doença. Ao comparar os resultados do LAMP e dos exames feitos anteriormente, os pesquisadores verificaram que houve 98% de concordância tanto entre as amostras positivas quanto entre as negativas. “Foram altas tanto a sensibilidade, que é a capacidade do teste de identificar corretamente os indivíduos que têm a doença, como também a especificidade, que é a capacidade do teste identificar corretamente os indivíduos que não têm a doença. Ou seja, o LAMP se mostrou uma técnica de acurácia diagnóstica bastante alta, demonstrando ser possível utilizá-lo no diagnóstico da leishmaniose visceral humana”, afirma o pesquisador Daniel Moreira de Avelar, do Grupo de Pesquisas Clínicas e Políticas Públicas em Doenças Infecciosas e Parasitárias (PCPP).

Atualmente, o Ministério da Saúde recomenda alguns tipos de testes de diagnóstico para leishmaniose visceral, entre eles o parasitológico, os sorológicos e os moleculares. Entretanto, segundo o pesquisador, tais metodologias apresentam algumas limitações que podem dificultar o diagnóstico precoce da doença. “O parasitológico apresenta baixa sensibilidade, além de ser muito invasivo e, por isso, requer ser feito em hospitais e centros de referência, fazendo com que muitos pacientes tenham que percorrer longas distâncias para ter acesso. Os sorológicos funcionam bem em pessoas com boa resposta imunológica, mas pacientes imunodeprimidos, por exemplo, não respondem bem, devido às deficiências na produção de anticorpos. Já os moleculares, também de alta precisão, geralmente dependem de equipamentos nem sempre disponíveis em todas as localidades”, explica Avelar.

Já o LAMP, de acordo com o pesquisador, é um teste isotérmico, uma vez que todas as reações necessárias para a detecção das doenças podem ocorrer dentro de uma mesma temperatura. É diferente do PCR, um tipo de teste molecular que requer variação de temperatura e, por isso, depende de equipamentos de alto custo e de laboratórios bem estruturados. “O LAMP pode ser feito usando aparelhos simples, como por exemplo, banho-maria. Ou seja, isso facilita sua implementação em laboratórios menores”, afirma Avelar.

Leishmaniose Tegumentar

A eficácia do LAMP também está sendo testada para a detecção da leishmaniose tegumentar. Um estudo, que será publicado em breve, mostrou que a técnica associada com coleta de material por swab teve resultados bem parecidos aos de exames realizados por meio de biópsia. “A vantagem é que, ao adotar o LAMP, podemos usar o SWAB para a coleta de material, técnica que é bem menos invasiva e também menos dolorosa para o paciente. Isso também significa que o procedimento poderá ser feito em laboratórios de pequeno porte”, destaca o pesquisador.

Importante salientar que os estudos que visam à avaliação de novas técnicas de diagnóstico, realizados no IRR, vão ao encontro do que preconiza a Organização Mundial de Saúde (OMS) em relação aos critérios que devem ser observados ao recomendar novas metodologias. “A OMS determina que os testes devem ser sensíveis, específicos, rápidos, robustos, de fácil realização e serem executados onde as pessoas doentes estão. Além disso, devem ser realizados em tempo real, usar o mínimo de equipamentos e a coleta das amostras deve ser realizada de forma não invasiva. Em nossos estudos, temos buscado garantir esses critérios”, diz.

Sobre a doença

As leishmanioses se dividem em dois tipos: tegumentar, que ataca a pele e as mucosas; e visceral, que ataca órgãos internos, como fígado e baço. A doença é causada por protozoários parasitas que ficam hospedados principalmente em roedores e cães domésticos e são transmitidos ao homem pelas fêmeas de flebotomíneos, popularmente conhecidos como mosquito palha, cangalhinha e birigui.

No caso da leishmaniose tegumentar, o principal sintoma é o aparecimento das feridas na pele. Geralmente, a lesão aparece pequena, de forma arredondada, profunda, avermelhada e cresce progressivamente com o passar dos dias. Entretanto, quando o parasita abriga a mucosa do indivíduo contaminado, as feridas aparecem no nariz, na boca ou, em casos mais graves, na garganta e no sistema da laringe do organismo.

Já a leishmaniose visceral é uma doença infecciosa sistêmica, caracterizada por febre de longa duração, aumento do fígado e baço (hepatoesplenomegalia), perda de peso, fraqueza, redução da força muscular, anemia e outras manifestações.

Não há vacina contra as leishmanioses humanas. As medidas mais utilizadas para o combate da enfermidade se baseiam no controle de vetores e dos reservatórios, proteção individual, diagnóstico precoce e tratamento dos doentes, manejo ambiental e educação em saúde.




Autor: Fiocruz Minas
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: BBFiocruz
Data: 06/02/2020
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/fiocruz-minas-testa-novas-tecnicas-para-diagnostico-das-leishmanioses

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Leishmanioses: estratégia de controle vetorial prevê a utilização de iscas açucaradas



Por: Maíra Menezes (IOC/Fiocruz)*


Assim como os beija-flores, os insetos flebotomíneos – transmissores das leishmanioses, conhecidos como mosquitos-palha – alimentam-se naturalmente do néctar das flores e são atraídos por soluções açucaradas. Tendo em vista essa característica, algumas estratégias de controle vetorial lançam mão de uma armadilha: soluções de água com açúcar combinadas com inseticidas são borrifadas sobre plantas ou pedaços de algodão, transformando-os em iscas açucaradas, que são espalhadas nos locais conhecidos de concentração dos insetos. Recém-publicado na revista Parasites and Vectors, um estudo liderado pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) abre portas para o desenvolvimento de uma versão sustentável do método. O trabalho avalia a ação de compostos naturais de plantas, chamados de glicosídeos, e seus derivados. A pesquisa aponta atividade contra os parasitos Leishmania, causadores das leishmanioses, e mostra que, quando administrados aos flebotomíneos através de iscas açucaradas, alguns desses compostos diminuem a quantidade de parasitos presente nos insetos, assim como reduzem a longevidade dos vetores.

Segundo os autores, os resultados indicam que as moléculas são promissoras para o desenvolvimento de iscas açucaradas para controle vetorial e bloqueio da transmissão das leishmanioses, com menor risco de desenvolvimento de resistência entre os insetos e de danos ambientais. “Os glicosídeos são açúcares de plantas que constituem uma defesa natural contra isentos herbívoros e já vêm sendo estudados para o controle de pragas agrícolas. Por isso, decidimos avaliar sua ação contra os flebotomíneos, como uma alternativa sustentável aos inseticidas. Para nossa grande surpresa, observamos que eles não são tão tóxicos para os flebotomíneos, mas atuam sobre os parasitos Leishmania, que se desenvolvem no intestino dos insetos, o que pode ser positivo para o desenvolvimento de novas ferramentas de controle vetorial”, conta o pesquisador Fernando Genta, do Laboratório de Bioquímica e Fisiologia de Insetos do IOC e coordenador do estudo.

Primeira autora do artigo, Tainá Neves Ferreira aponta mais uma vantagem dos compostos naturais. Ela destaca que as leishmanias apresentam dois estágios de vida: um nos insetos, chamado de promastigota, e outro nos hospedeiros vertebrados, incluindo os seres humanos, chamado de amastigota. “Isso é importante porque ao utilizar moléculas que agem nos insetos contra a forma promastigota dos parasitos não deve haver efeito de seleção de resistência sobre a forma amastigota, encontrada nos pacientes e alvo no tratamento das leishmanioses”, diz a estudante, que realizou a pesquisa durante o mestrado no Programa de Pós-graduação em Biologia Celular e Molecular do IOC e atualmente dá continuidade ao trabalho no doutorado no Programa de Pós-graduação em Biologia Parasitária do Instituto.

O projeto contou com a colaboração de pesquisadores dos Laboratórios de Bioquímica e Fisiologia de Insetos, de Biologia Molecular de Doenças Endêmicas e de Doenças Parasitárias do IOC, além do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Entomologia Molecular e da Universidade de Glasgow, no Reino Unido.

Molécula de amêndoas, ameixas e pêssegos

A pesquisa avaliou quatro substâncias, sendo dois açúcares glicosídeos – esculetina e amidalina – e duas moléculas derivadas desses compostos – esculina e mandelonitrila. Soluções de água com açúcar combinadas com as diferentes substâncias foram utilizadas para produzir as iscas açucaradas, oferecidas aos flebotomíneos como fonte de alimentação. Os melhores resultados foram observados com a mandelonitrila. Testes em cultura de células mostraram efeito sobre todas as espécies de Leishmania avaliadas, incluindo L. mexicana, L. amazonensis e L. braziliensis, causadoras da leishmaniose tegumentar americana, e L. infantum, agente da leishmaniose visceral americana. Nos ensaios com flebotomíneos infectados por L. mexicana, a mandelonitirila diminuiu em 1/3 a quantidade de vetores infectados e provocou redução de 65% no número médio de protozoários encontrado nos insetos. Além disso, a substância reduziu a longevidade dos vetores. Entre os machos, o tempo de vida média foi reduzido em 59% (de 17 para sete dias), enquanto entre as fêmeas, a queda foi de 33% (de 15 para dez dias). Todos os experimentos foram realizados com flebotomíneos da espécie Lutzomia longipalpis, principal transmissora da leishmaniose visceral americana, utilizada como modelo para pesquisas.


Soluções de água com açúcar combinadas com diferentes substâncias foram utilizadas para produzir iscas (Foto: Josué Damacena)

Os pesquisadores ressaltam que a mandelonitirila é um composto estável e de baixo custo, que apresenta muito baixa toxicidade para mamíferos. As características são consideradas favoráveis para o desenvolvimento das iscas açucaradas como ferramenta de controle vetorial. “A mandelonitrila é um derivado do glicosídeo amidalina, encontrado em sementes, raízes e folhas de amêndoas, ameixa e pêssego, entre outras plantas. Considerando sua baixa toxicidade em mamíferos, compostos relacionados a essa substância podem ser avaliados para o controle das leishmanioses também em outros projetos de pesquisa”, reforça Tainá.

Contribuições para pesquisas

Além de apontar novos caminhos para o desenvolvimento de métodos de controle vetorial, o artigo apresenta inovações que podem contribuir para futuras pesquisas. Naturalmente fluorescente, a molécula esculina tem potencial para ser usada como marcador em estudos de campo com flebotomíneos. “A marcação é necessária, por exemplo, em pesquisas nas quais os insetos são liberados no ambiente e depois recapturados. Também pode ser usada para avaliar a ingestão de alimento de uma fonte específica. Observamos que a esculina apresentou baixo impacto sobre a fisiologia dos insetos, o que é fundamental para um bom marcador”, diz Genta.

De forma inédita, o trabalho utilizou a fluorescência natural da esculina para medir a quantidade de açúcar ingerida pelos vetores. O estudo apontou que os machos ingerem cerca de 35% menos açúcar do que as fêmeas. Além disso, enquanto as fêmeas costumam ingerir de 0,1mg a 0,6mg de sangue em uma única refeição, o volume da alimentação açucarada é sete a 42 vezes menor. De acordo com os cientistas, este conhecimento pode ser importante no desenvolvimento de pesquisas e de ferramentas de controle vetorial que têm a alimentação açucarada dos insetos como foco.

Impacto no Brasil

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), anualmente, são estimados até um milhão de novos casos de leishmaniose tegumentar e 90 mil de leishmaniose visceral. O Brasil é um dos países com maior número de registros, figurando entre os sete mais afetados do planeta para as duas formas do agravo. Classificadas como doenças tropicais negligenciadas, as leishmanioses afetam principalmente populações pobres, sendo associadas a condições como moradia precária, deslocamentos populacionais e desnutrição. A infecção também está ligada a mudanças ambientais, incluindo desmatamento, urbanização e construção de barragens.

O ciclo de transmissão das leishmanioses envolve os protozoários do gênero Leishmania, hospedeiros animais e os insetos flebotomíneos. Os parasitos são transmitidos às pessoas pela picada de fêmeas do vetor, que se infectam ao sugar o sangue de animais infectados, caracterizados como reservatórios do agravo. Na leishmaniose tegumentar, mamíferos silvestres, como preguiça, gambá, roedores e canídeos, são normalmente identificados como reservatórios. Já na leishmaniose visceral, além dos reservatórios silvestres, os cães domésticos podem ser fonte de infecção para os vetores no ambiente urbano.

As leishmanioses tegumentares geralmente provocam lesões na pele. Nos casos mais graves, as mucosas do nariz e da boca também são afetadas. Na leishmaniose visceral, órgãos internos, como fígado e baço, são atingidos e o agravo pode levar à morte. Em todos os casos, o tratamento é feito com medicamentos específicos, disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS). “O controle vetorial é apenas uma das ferramentas para o enfrentamento das leishmanioses, que precisa ser adotada juntamente com medidas como diagnóstico e tratamento precoces, ações de proteção individual e manejo de reservatórios”, enfatiza Genta.




Autor: Maíra Menezes
Fonte: IOC/Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 02/01/2019
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/leishmanioses-estrategia-de-controle-vetorial-preve-utilizacao-de-iscas-acucaradas