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terça-feira, 10 de maio de 2022

Peptídeo criado por grupo brasileiro retarda avanço do melanoma em testes com animais

Pesquisa publicada na revista Scientific Reports mostra que um peptídeo (molécula derivada de uma proteína) desenvolvido por cientistas brasileiros, chamado Rb4, foi eficaz no combate à progressão do câncer em modelo animal – especialmente melanoma grave –, sendo um agente promissor para o tratamento de tumores resistentes a drogas.

Em fase pré-clínica, in vitro e in vivo, o trabalho forneceu evidências de que o Rb4 desencadeia necrose em células de melanoma murinas (de camundongos). Além disso, o composto inibiu a viabilidade de linhagens celulares do câncer humano. Essas células tumorais perdem a integridade da membrana plasmática e as mitocôndrias (organelas que geram a energia celular) ficam dilatadas. Os cientistas, porém, ainda não têm claro como essa necrose é desencadeada.



Dados divulgados na revista Scientific Reports indicam que tratamento experimental com molécula derivada de proteína reduziu o crescimento do tumor e a formação de metástase, aumentando em 25% a sobrevida dos camundongos (antes e depois da atuação do peptídeo Rb4 nas células tumorais; imagem: Fabrício Castro Machado).

Nos animais, o peptídeo reduziu a metástase pulmonar e retardou o crescimento do melanoma subcutâneo. Os resultados sugerem que o Rb4 atua diretamente no tumor, induzindo a expressão de dois padrões moleculares associados ao dano, chamados DAMPs, que desencadeiam um efeito imunoestimulador durante a morte celular de melanoma.

“Fazemos ciência básica em busca de novas moléculas. Neste estudo, o Rb4, que deriva de proteína proteolipídica 2 [PLP2], apresentou preferência por causar um tipo específico de morte celular, a necrose, especialmente em melanoma. Mas não está claro como essa necrose ocorre e se desenvolve. O artigo dá alguns indícios da composição morfológica e dos efeitos finais do contato com o peptídeo”, diz à Agência FAPESP Fabrício Castro Machado, um dos autores do artigo.

Machado fez parte do grupo da Unidade Experimental de Oncologia, do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e é pesquisador da Recepta Biopharma (ReceptaBio), uma empresa brasileira de biotecnologia voltada ao estudo e ao desenvolvimento de novos fármacos para o tratamento do câncer. Daí o nome do peptídeo “Rb”.

Com o apoio da FAPESP, a pesquisa começou a ser desenvolvida pelo grupo do professor da Unifesp Luiz Rodolpho Travassos, que faleceu em 2020 e é homenageado no artigo.

Travassos publicou mais de 260 artigos, sendo parte deles ligada a estudos sobre atividades biológicas de peptídeos e peptidases (enzimas que quebram ligações peptídicas entre os aminoácidos das proteínas) em doenças infecciosas e câncer. Esse interesse o aproximou, em 2008, da ReceptaBio, que tem como diretor-presidente José Fernando Perez, ex-diretor científico da FAPESP (entre 1993 e 2005).

“O professor Travassos identificou várias sequências de pequenas moléculas, peptídeos bioativos baseados em anticorpos desenvolvidos pela ReceptaBio. O Rb4 foi também identificado durante esse processo de busca por novas moléculas, embora não derive de anticorpos. Temos uma outra, o Rb9, em processo de estudo mais avançado, com várias publicações e patentes, no entanto, ainda em fase pré-clínica”, explica a cientista Alice Santana Morais, analista de Pesquisa e Desenvolvimento da empresa e autora correspondente do artigo.

Em 2016, os cientistas descreveram as estruturas do peptídeo Rb9 e seus mecanismos de ação na inibição também de células de melanoma. Em publicação mais recente, de 2020, o avanço das pesquisas indicou um efeito imunomodulador do Rb9 no controle da progressão tumoral.

“Seja na academia ou em empresas como a ReceptaBio, é preciso agregar esforços para fazer pesquisa. Buscamos parcerias para ajudar a alavancar o processo de desenvolvimento dos fármacos, que é demorado, minucioso e exige discussão, detalhes e troca de experiências”, diz Morais.

Caminhos promissores

Novos tratamentos têm sido usados nos últimos anos contra vários tipos de câncer, entre eles a quimioterapia baseada em peptídeos. Essas moléculas despertam interesse em decorrência de algumas vantagens, como a capacidade de atingir especificamente células tumorais e a baixa toxicidade em tecidos normais. Podem ser usadas em terapias baseadas apenas em peptídeos ou conjugadas com outros tipos de medicamento, com aplicação como reagentes celulares, ligantes e vacinas, por exemplo.

Na pesquisa para avaliar o efeito antitumoral de Rb4, o grupo de cientistas investigou o crescimento e a morfologia em células de melanoma (B16F10-Nex2) cultivadas. O peptídeo foi capaz de interferir na morfologia, replicação e associação do melanoma.

Isso porque as células tratadas com Rb4 não se replicaram e formaram aglomerados rapidamente – fenômeno não observado no grupo-controle. Após 24 horas de incubação, as células também perderam sua morfologia natural.

Além disso, Rb4 reduziu o número de nódulos metastáticos pulmonares no modelo de melanoma singênico (animais gêmeos). Esse resultado foi detectado após células do câncer terem sido injetadas por via intravenosa nos camundongos. Eles receberam tratamento de cinco injeções do peptídeo (300 microgramas/por animal) em dias alternados, o que atrasou o crescimento tumoral em até 40 dias.

A taxa de sobrevivência dos camundongos tratados com Rb4 foi maior do que a de grupos-controle, aumentando a sobrevida em mais de 25% e em até dez dias.

O melanoma tem origem nas células que produzem a melanina, substância que determina a cor da pele, podendo aparecer em várias partes do corpo humano. Embora o câncer de pele seja o mais frequente no Brasil, correspondendo a cerca de 30% dos tumores, o melanoma representa 3% das neoplasias malignas. No entanto, é o tipo mais grave devido à alta possibilidade de provocar metástase, ou seja, de se disseminar por outros órgãos.

Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca), são cerca de 8.400 novos casos ao ano. Em 2019, foram 1.978 mortes.

O artigo PLP2-derived peptide Rb4 triggers PARP-1-mediated necrotic death in murine melanoma cells pode ser lido em: www.nature.com/articles/s41598-022-06429-8.





Autor: Luciana Constantino
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: Agência FAPESP
Data: 09/05/2022
Publicação Original: https://agencia.fapesp.br/peptideo-criado-por-grupo-brasileiro-retarda-avanco-do-melanoma-em-testes-com-animais/38565/

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Descoberta mostra potencial para tratar obesidade sem efeitos adversos


Peptídeo, que pode ser ingerido por via oral, será testado em seres humanos para permitir uso em medicamentos – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Opeptídeo Pep19, derivado de um composto produzido no interior das células do corpo, apresenta potencial de uso como fármaco para o tratamento da obesidade, demonstra pesquisa com a participação do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP. Testes com animais indicam que o peptídeo reduz peso, gorduras localizadas e melhora os índices de glicemia, colesterol e pressão arterial, sem causar depressão ou outros efeitos adversos no sistema nervoso central. O peptídeo, que pode ser ingerido por via oral, irá passar por testes em seres humanos para permitir a utilização em medicamentos. O estudo é descrito em artigo publicado no Scientific Reports da revista Nature.

Peptídeos são substâncias derivadas de proteínas que formam redes de interação dentro das células, sendo responsáveis por regular diversas funções celulares. “O Pep19 foi produzido a partir de um peptídeo encontrado no interior da célula e o estudo descobriu que ele modula a atividade do receptor de canabinoides”, afirma a pesquisadora Andrea Heimann, da empresa Proteimax Biotecnologia Ltda., que participou da pesquisa. “A atividade desse receptor está ligada a diversas doenças e também à regulação do humor, da saciedade (relacionada com o controle de peso) e da dor. Sua inibição é a base do tratamento, por exemplo, da cirrose e da epilepsia.”


Experimentos verificaram que o peptídeo Pep19 promove a diminuição de peso e de gorduras localizadas – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Ao constatar que o receptor de canabinoides pode ser um alvo terapêutico do peptídeo, os pesquisadores propuseram seu uso para tratar a obesidade e a síndrome metabólica, além de identificar possíveis efeitos adversos. “Medicamentos para obesidade com ação similar levavam a perda de peso e também melhoravam os parâmetros cardiovasculares dos pacientes”, explica Andrea. “No entanto, o fármaco também agia no sistema nervoso central, o que provocava depressão e, em alguns casos, suicídios.”

Os experimentos com ratos e camundongos verificaram que o Pep19 promove a diminuição de peso e de gorduras localizadas. “Ele também melhorou os parâmetros metabólicos associados à síndrome metabólica, como os níveis de glicemia (açúcar no sangue), insulina, colesterol e pressão arterial”, aponta a pesquisadora. “Ao mesmo tempo, constatou-se que não há ação sobre o sistema nervoso central, o que impede o aparecimento da depressão.”
Comprimidos

A pesquisa também descobriu que o Pep19 pode ser administrado ao paciente por via oral, ao contrário de substâncias similares, como a insulina, que não mantém sua atividade, por isso precisa ser injetada. “Assim, o medicamento com o Pep19 poderia ser colocado em comprimidos a serem ingeridos pelos pacientes”, aponta Andrea. A patente do peptídeo já está registrada nos Estados Unidos e a pesquisadora calcula que os testes clínicos (em seres humanos) devem ter início em seis meses, se houver investimento. “Conforme os resultados dos testes, estima-se que o medicamento possa estar no mercado dentro de cinco anos.”

A utilização do peptídeo como fármaco foi pesquisada pela Proteimax, empresa especializada na produção de anticorpos, peptídeos e proteínas, e em estudos de inovação em biotecnologia, como o desenvolvimento de fármacos. “O Pep19 é derivado de um peptídeo produzido no interior das células, que foi modificado computacionalmente para atuar fora delas, de modo a permitir o estudo de suas funções e a melhora de suas características”, conta a pesquisadora. “Ele foi colocado em contato com anticorpos que reconhecem quando há mudanças nos receptores das células, o que nessa pesquisa aconteceu com o receptor de canabinoides.”


Pesquisadores Rosângela Eichler, Andrea Heimann e Emer Ferro participaram do estudo – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

O funcionamento do peptídeo, seu mecanismo de interação com o receptor e seus efeitos foram estudados no Laboratório de Farmacologia de Peptídeos Intracelulares do ICB. “Há 15 anos o grupo de pesquisa vem estudando peptídeos, que têm importância biológica, fisiológica e potencialidade para utilização em medicamentos”, afirma o professor Emer Ferro, coordenador do laboratório. “O trabalho analisou peptídeos intracelulares que fazem parte da biblioteca existente no laboratório, além de outros pertencentes ao acervo da empresa.”

O artigo A novel peptide that improves metabolic parameters without adverse central nervous system effects foi publicado no Scientific Reports da revista científica Nature em 1º de novembro. A primeira autora do artigo, Patrícia Reckziegel, do ICB, atualmente realiza pós-doutorado na Suécia com Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior (Bepe) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A pesquisa também teve a colaboração de William Festuccia, Luiz Britto e Rosângela Eichler, do ICB; Karen Lopes Jang, Carolina Romão e Joel Heimann, da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP); Manoela Fogaça, Naielly Rodrigues, Nicole Silva e Francisco Guimarães, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP; e Achla Gupta, Ivone Gomes e Lakshmi Devi, da Icahn School of Medicine at Mount Sinai, nos Estados Unidos.

Mais informações: e-mails eferro@usp.br, com Emer Ferro, e andrea@proteimaxnet.com.br, com Andrea Heimann



Autora: Jornal USP
Fonte: Jornal USP
Sítio Online da Publicação: Jornal USP
Data de Publicação: 22/11/2017
Publicação Original: http://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-da-saude/descoberta-mostra-potencial-para-tratar-obesidade-sem-efeitos-adversos/