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terça-feira, 28 de abril de 2020

Diabetes, hipertensão e obesidade avançam entre os brasileiros

O maior aumento identificado é em relação à incidência da obesidade, que teve uma alta de 72% no período de 13 anos. Os dados fazem parte da pesquisa Vigitel 2019



O Ministério da Saúde traçou o perfil do brasileiro em relação as doenças crônicas mais incidentes no país: 7,4% tem diabetes, 24,5% tem hipertensão e 20,3% estão obesos. É o que aponta a pesquisa Vigitel 2019 (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), lançada na última semana pelo Ministério da Saúde. No período de 13 anos, desde o início do monitoramento, o maior aumento é em relação a obesidade, que passou de 11,8% em 2006 para 20,3% em 2019, uma ampliação de 72%. Significa que dois em cada 10 brasileiros estão obesos. Se considerando o excesso de peso, metade dos brasileiros está nesta situação (55,4%).


A pesquisa mostrou que, no período entre 2006 e 2019, a prevalência de diabetes passou de 5,5% para 7,4% e a hipertensão arterial subiu de 22,6% para 24,5%. Em relação à diabetes, o perfil de maior prevalência está entre mulheres e pessoas adultas com 65 anos ou mais. O mesmo perfil se aplica a hipertensão arterial, chegando a acometer 59,3% dos adultos com 65 anos ou mais, sendo 55,5% dos homens e 61,6% das mulheres.


Quanto ao excesso de peso, o índice passou de 42,6% em 2006 para 55,4% em 2019. O maior índice está entre os homens, alcançando 57,1% e entre as mulheres o percentual de 53,9%. A pesquisa apontou que o excesso de peso tende a aumentar com a idade: para os jovens de 18 a 24 anos, a prevalência foi de 30,1% e entre os adultos com 65 anos e mais de 59,8%. Por outro lado, a incidência diminui com a escolaridade: para as pessoas com até oito anos de estudo, a prevalência foi de 61,0%, já entre aqueles com 12 anos ou mais de estudo, de 52,2%.

Em relação à obesidade, o maior percentual está entre as mulheres (21%) e aumenta conforme a idade: para os jovens de 18 a 24 anos é de 8,7% e entre os adultos com 65 anos e mais, alcança o patamar de 20,9%. A obesidade é maior para as pessoas com até oito anos de escolaridade (24,2%) ante e aqueles com 12 anos ou mais (17,2%).

O Vigitel é uma pesquisa telefônica realizada com maiores de 18 anos, nas 26 capitais e no Distrito Federal, sobre diversos assuntos relacionados à saúde. O objetivo é conhecer a situação de saúde da população para orientar ações e programas que reduzam a ocorrência e a gravidade de doenças, melhorando a saúde da população.

Os resultados apresentados para diabetes e hipertensão merecem destaque frente à pandemia da COVID-19. Estudos realizados com pacientes da China e de outras localidades apontaram para maior risco de agravamento e morte por COVID-19 em pessoas que apresentam doenças pré-existentes, como diabetes e hipertensão, além de doenças cardiovasculares. No Brasil, até o dia 20 de abril, 72% dos óbitos confirmados para a doença tinham mais de 60 anos e 70% apresentavam pelo menos um fator de risco. A cardiopatia foi a principal comorbidade associada e esteve presente em 945 dos óbitos, seguida de diabetes (em 734 óbitos), pneumopatia (187), doença renal (160) e doença neurológica (159).

METOLOGIA

No ano de 2019 foram realizadas 52.443 entrevistas com adultos residentes nas capitais e no Distrito Federal, com duração média de, aproximadamente, 12 minutos, variando entre 4 e 58 minutos. Foram avaliados os indicadores de hipertensão arterial e diabetes, excesso de peso e obesidade, consumo abusivo de álcool, fumantes, consumo alimentar e atividade física.

Foram entrevistadas pessoas com 18 anos ou mais, residentes em domicílios com, pelo menos, uma linha de telefone fixo. Anualmente, estima-se um número amostral mínimo de duas mil entrevistas telefônicas para cada capital e o Distrito Federal e foram realizadas entre os meses de janeiro e dezembro de 2019.

Da Agência Saúde, com informações do Nucom SVSAtendimento à imprensa(61) 3315- 3580 / 2745

Autor: Ministério da Saúde
Fonte: Ministério da Saúde
Sítio Online da Publicação: Ministério da Saúde
Data: 27/04/2020
Publicação Original: 
https://www.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/46792-diabetes-hipertensao-e-obesidade-avancam-entre-os-brasileiros-2

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Influência da obesidade e adipocinas no risco cardiovascular – parte 1

Neste primeiro episódio do PEBMEDCast de uma série de três podcasts, a cardiologista Érika Campana, Doutora e Mestre em Medicina pela UERJ e Especialista em Cardiologia pela SBC/AMB, fala sobre obesidade e os efeitos das adipocinas no aparelho cardiovascular.

A especialista discute as intervenções no estilo de vida do indivíduo e como elas influenciam na redução de risco de desenvolvimento de cardiopatias. Ouça o episódio completo:

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podcast


Autor: Roberto Caligari
Fonte: PEBMED
Sítio Online da Publicação: PEBMED
Data: 29/01/2019
Publicação Original: https://pebmed.com.br/influencia-da-obesidade-e-adipocinas-no-risco-cardiovascular-parte-1/

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Obesidade infantil é tema de estudo

Com participação da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), um estudo analisou as ações de prevenção e controle da obesidade infantil, especialmente as de Promoção da Alimentação Adequada e Saudável (PAAS), que integram políticas do governo federal brasileiro nos últimos 15 anos. Destacam-se as disputas entre os interesses das corporações comerciais de alimentos processados e do agronegócio e os setores governamentais e societários norteados pelos objetivos de PAAS.

O estudo Políticas de Saúde e de Segurança Alimentar e Nutricional: desafios para o controle da obesidade infantil, de Patrícia Henriques, Patricia Camacho Dias, Roseane Moreira Sampaio Barbosa e Luciene Burlandy, da Universidade Federal Fluminense (UFF); e Gisele O’Dwyer, da Ensp/Fiocruz, diz que no Brasil o excesso de peso e a obesidade vêm sendo registrados a partir dos cinco anos de idade, em todos os grupos de renda e regiões, sendo mais prevalentes na área urbana do que na rural. “A infância é uma fase particularmente preocupante porque, para além das doenças associadas com a obesidade, o risco aumenta na idade adulta gerando consequências econômicas e de saúde, para o indivíduo e para a sociedade. Além disso, o estigma e a depressão podem prejudicar o desenvolvimento da criança, especialmente nas atividades escolares e de lazer”.

Conforme relata o artigo, há um consenso de que a obesidade é condicionada por fatores biológicos, ambientais, socioeconômicos, psicossociais e culturais. Entretanto, a sua ocorrência vem sendo predominantemente atribuída a um ambiente que promove ingestão excessiva de alimentos processados e ultraprocessados e desestimula a atividade física. “Estudos apontam que os principais condicionantes da obesidade em crianças são a ingestão de produtos pobres em nutrientes e com conteúdo elevado em açúcar e gorduras, a ingestão regular de bebidas açucaradas e atividade física insuficiente”.

Os autores do artigo expõem que a organização da Atenção Nutricional no Sistema Único de Saúde (SUS) é uma diretriz central da Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN) que prevê que os cuidados relativos à alimentação e nutrição (promoção da saúde, prevenção, diagnóstico e tratamento de agravos) devem fazer parte do cuidado integral na Rede de Atenção à Saúde (RAS). Nessa perspectiva, afirmam eles, sobressai a Linha de Cuidado para o Tratamento do Sobrepeso e da Obesidade, que define as ações que devem ser desenvolvidas nos diferentes pontos da RAS, inclusive as de PAAS, planejadas com base no conhecimento do cenário epidemiológico e nutricional da população.

Para isso, observa o artigo, a Vigilância Alimentar e Nutricional (VAN) assume papel relevante no monitoramento e análise dos problemas nutricionais, subsidiando o planejamento da atenção nutricional no SUS. “A PAAS também é uma das diretrizes da PNAN que, segundo os termos da própria política, fundamenta-se nas ações de incentivo, apoio, proteção e promoção da saúde, planejadas de forma integrada no âmbito da RAS. Essas ações incluem a reorientação dos serviços, a construção de ambientes promotores de saúde, a educação alimentar e nutricional (EAN) o controle e a regulação de alimentos”.

A Política Nacional da Atenção Básica prevê a reorganização dos serviços com vistas a ampliar a equidade e a qualidade da atenção à saúde e, desse modo, propiciar ambientes que favoreçam a prevenção, a promoção e o cuidado integral em saúde. Nessa perspectiva destacam-se: a Estratégia Amamenta e Alimenta Brasil que visa promover o aleitamento materno e a introdução complementar de alimentos de forma adequada e saudável e o Programa Saúde na Escola (PSE). A promoção e a atenção à saúde do escolar integram tanto a PNAN, quanto a PNPS, e o PSE se propõe a articular a atenção básica em saúde com a escola, possibilitando ações de PAAS e o monitoramento do estado nutricional.

De acordo com o artigo, as ações de EAN integram todas as políticas analisadas e abarcam a produção de instrumentos e materiais educativos que fomentem escolhas alimentares mais saudáveis, e processos educativos desenvolvidos nas redes de educação e saúde e outros espaços públicos. Visando valorizar e qualificar esse conjunto de ações, o governo federal publicou o Marco de Referência de EAN para as políticas públicas.

Os guias alimentares destinados a crianças menores de dois anos e a população brasileira apresentam princípios para alimentação saudável, dentre eles o respeito à cultura alimentar local. Na perspectiva de complementariedade e diálogo entre os materiais produzidos, o livro Alimentos regionais brasileiros divulga a variedade de frutas, hortaliças e leguminosas, ressalta a diversidade cultural e valoriza os alimentos existentes no país. “O guia alimentar inova ao basear-se em uma classificação de alimentos que evidencia as relações entre o crescente consumo de alimentos processados e ultraprocessados e a obesidade. Além disso, aborda a alimentação na perspectiva da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN)”.

Os pesquisadores ressaltam que a regulação da publicidade e comercialização de alimentos, especialmente para o público infantil, vem sendo objeto de políticas governamentais desde 2006, com elevado grau de conflito com o setor privado comercial, e obteve avanço significativo apenas na proteção aos lactentes e crianças de primeira infância. “Desde 2007 foram estabelecidos acordos voluntários entre o MS e a Associação Brasileira das Indústrias de Alimentos para melhoria da composição de produtos industrializados, especialmente aqueles preferidos pelo público infanto-juvenil, com redução gradativa dos teores de açúcares livres, sódio e gorduras trans, mas os acordos para redução de açúcares ainda não foram definidos”.

Eles também enfatizam a regulamentação da rotulagem nutricional para garantir o acesso à informação ao consumidor e inibir a publicidade no rótulo. “Esse tipo de regulação tem avançado no país, contudo ainda existem desafios quanto à qualidade das informações veiculadas e o seu potencial informativo”.

*Este artigo foi originalmente publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva (vol.23 n.12), de dezembro de 2018.





Autor: Ensp/Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 28/01/2019
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/obesidade-infantil-e-tema-de-estudo


quarta-feira, 25 de abril de 2018

Redução do excesso de peso e da obesidade pode evitar 15 mil casos de câncer por ano no Brasil

Estudo da USP indica relação com consumo de alimentos ultraprocessados

Estima-se que pelo menos 15 mil casos de câncer por ano no Brasil, ou 3,8% do total, poderiam ser evitados com a redução do excesso de peso e da obesidade. E esse número deve ainda crescer até 2025, quando se estima que mais de 29 mil novos casos de câncer atribuíveis à obesidade e sobrepeso devam surgir por ano, índice que vai representar 4,6% de todos os novos casos da doença no país.

Os dados são de um estudo epidemiológico feito no Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em colaboração com a Universidade de Harvard (Estados Unidos).

“O problema principal é que vem ocorrendo um aumento nas prevalências de excesso de peso e obesidade no Brasil e, com isso, os casos de câncer atribuíveis a essas duas condições também devem crescer. Fora isso, espera-se que haja um aumento nos casos de câncer como um todo, pois a população do país vai aumentar e envelhecer”, acredita o doutorando na FMUSP, Leandro Rezende.



De acordo com o estudo, o crescimento do sobrepeso e da obesidade na população está elevando o número de casos de câncer (Wilson Dias/Agência Brasil)


Rezende é um dos autores do artigo publicado na revista Cancer Epidemiology, com o título The increasing burden of cancer attributable to high body mass index in Brazil. O trabalho é resultado de uma Bolsa de Pesquisa no Exterior da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) realizada na Harvard University. Segundo o pesquisador, o aumento do poder econômico nos últimos anos levou a um maior consumo, porém, no caso da alimentação, o fenômeno ficou atrelado principalmente aos alimentos ultraprocessados.

“O estudo mostra essa fase de transição nutricional epidemiológica. São justamente esses alimentos altamente calóricos, com quantidade elevada de açúcar, sal e gordura, que também são os produtos mais baratos”, disse.

Obesidade e sobrepeso estão associados ao aumento de risco de 14 tipos de câncer, como o câncer de mama (pós-menopausa), cólon, reto, útero, vesícula biliar, rim, fígado, mieloma múltiplo, esôfago, ovário, pâncreas, próstata, estômago e tireoide, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, a incidência desses 14 tipos de câncer corresponde à metade do total de casos da doença diagnosticados por ano.

O estudo feito por Rezende, em colaboração com pesquisadores brasileiros e norte-americanos, calculou a fração atribuível populacional (FAP) do câncer relacionado ao índice de massa corporal (IMC) elevado. A FAP é uma métrica para estimar a proporção da doença possível de prevenir na população caso o fator de risco (nesse caso o sobrepeso e a obesidade) fosse eliminado, mantendo os demais fatores/causas estáveis.
População feminina

De acordo com o estudo, 3,8% dos mais de 400 mil casos de câncer diagnosticados anualmente são atribuíveis ao IMC elevado. Verificou-se também que esses casos são mais comuns em mulheres (5,2%) do que em homens. Isso se dá não apenas pelo fato de a média do IMC ser mais elevada nas mulheres, mas, principalmente, porque três tipos de câncer atribuíveis à obesidade e sobrepeso – ovário, útero e câncer de mama – afetam quase exclusivamente a população feminina.

Para estimar o excesso de peso e a obesidade na população brasileira, os pesquisadores usaram dados sobre IMC no Brasil em 2002 e 2013 da Pesquisa de Orçamentos Familiares e da Pesquisa Nacional de Saúde, ambas conduzidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A análise de dados em dois momentos, e com dez anos de diferença, se justifica para analisar a latência da doença a partir do excesso de peso ou obesidade.

De acordo com os dados do IBGE, 40% da população brasileira tinha sobrepeso ou obesidade em 2002. Em 2013, o total subiu para aproximadamente 60%. Levando em conta IMC, magnitude do risco relativo, casos da doença e período de latência, os pesquisadores estimaram que, em 2012, cerca de 10 mil casos de câncer em mulheres e 5 mil casos em homens eram atribuíveis ao excesso de peso e obesidade aferidos dez anos antes. Já os dados sobre a incidência de câncer foram obtidos do Instituto Nacional de Câncer (Inca) e da base Globocan da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, da OMS.

De modo a quantificar a dimensão da contribuição do sobrepeso e da obesidade na incidência de câncer no Brasil, os autores do estudo estimaram FAPs da doença em 2012 (com dados existentes) e em 2025 (por meio de projeção) atribuídas a IMC elevado. As frações foram calculadas de acordo com sexo, idade, área geográfica e tipo de câncer.
Abordagem regional

O trabalho é um dos primeiros a fazer comparações regionais sobre a relação entre obesidade e câncer. De acordo com o estudo, as maiores FAPs, para todos os tipos de câncer, foram encontradas nos estados das regiões Sul (3,4% de mulheres para 1,5% de homens) e Sudeste (3,3% de mulheres para 1,5% de homens).



Os pesquisadores associam o aumento do sobrepeso na população ao consumo crescente de alimentos ultraprocessados (Arquivo/EBC)


Nas mulheres, as maiores FAPs foram encontradas nos estados de Rio Grande do Sul (3,8%), Rio de Janeiro e São Paulo (ambos 3,4%). Nos homens, as FAPs mais altas foram em Mato Grosso do Sul e São Paulo (ambos 1,7%).

“Houve aumento do IMC no país inteiro. Observamos que o impacto da obesidade é maior nas regiões Sul e Sudeste, principalmente em São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, mais ricos e com maiores IMC. No entanto, não se justifica uma estratégia de prevenção de câncer e redução da obesidade exclusivamente nessas duas regiões”, disse Rezende.

Isso porque, de acordo com o artigo, ao comparar os dados de IMC de 2013 e de 2002, os autores perceberam que as regiões Norte e Nordeste tiveram o maior aumento de IMC em comparação com outras regiões. “Os dados mostram que é preciso tomar precauções em outros locais, além do Sul e Sudeste”, alerta Rezende.
Políticas públicas

Na avaliação do professor titular da FMUSP e orientador do estudo, José Eluf Neto, o interessante é poder mensurar o impacto da relação de câncer e obesidade para a saúde pública e, com base nisso, planejar ações e investimentos.

“Hoje, se sabe que há uma razão biológica para haver essa relação, com mecanismos moleculares ou metabólicos bem descritos. É o caso da insulina. A obesidade causa resistência à insulina gerando inflamações e o aumento da proliferação celular”, esclarece Eluf Neto.
Alimentos ultraprocessados

De acordo com o artigo, as vendas de produtos ultraprocessados cresceram 103% em toda a América Latina entre os anos de 2000 e 2013, acompanhadas de um consequente aumento no IMC nos países da região. Para os autores, reverter esse quadro exige políticas públicas como a regulamentação de imposto, rotulagem nutricional e restrição de marketing de alimentos ultraprocessados.

“Esse crescimento de vendas na América Latina retrata uma estratégia da indústria de alimentos, assim como foi, ou tem sido, a da indústria de tabaco. Quando alguns países começam a regular minimamente a venda e publicidade desses alimentos, eles partem para regiões em que as leis ainda não foram estruturadas para promover a saúde da população”, analisa Rezende.

Segundo ele, o crescimento dos alimentos ultraprocessados no Brasil é comparável ao que ocorreu com a indústria de tabaco nos anos 1980. “O tabagismo, hoje, é um problema maior em países de baixa e média renda porque é onde a indústria de tabaco está focada. Fazer isso no Brasil em 2018 ficou mais complicado. Temos restrição de publicidade, é proibido fumar em ambiente fechado. Já no caso dos alimentos ultraprocessados, é como se estivéssemos em 1980. Os produtos não são comercializados, rotulados e taxados de maneira adequada a garantir a saúde da população”, disse.
Outros fatores

A equipe de pesquisadores está calculando também o peso de outros fatores, como sedentarismo, tabagismo, alimentação e consumo de álcool, na incidência e mortalidade por câncer. Os dados desses outros fatores ainda não foram publicados, mas o objetivo final do trabalho é compará-los e estimar quantos casos de câncer seriam evitáveis no Brasil.

“Existem fatores genéticos que aumentam o risco do desenvolvimento do câncer, mas isso não é algo modificável e também eles não excluem os outros fatores que causam a doença. O tabagismo é o principal fator de risco ou causa de câncer no Brasil, podemos adiantar essa análise, mas ele está caindo de forma importante, com prevalência em cerca de 15% da população. Com isso, outros fatores começam a ganhar relevância na formação de políticas públicas. Os dados mostram que não dá para cessar os esforços para reduzir o tabagismo, mas combater o sobrepeso e a obesidade também deve ser prioridade”, avalia o pesquisador.


Por Ludmilla Souza, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 25/04/2018



Autor: Ludmilla Souza
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 25/04/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/04/25/reducao-do-excesso-de-peso-e-da-obesidade-pode-evitar-15-mil-casos-de-cancer-por-ano-no-brasil/

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Ciência Aberta estreia com debate sobre obesidade



O programa na íntegra também pode ser assistido em: https://youtu.be/-7htACAjApA

Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – A Organização Mundial da Saúde estima que 1,9 bilhão de adultos tenham sobrepeso, sendo 600 milhões com obesidade. Ainda assim, de acordo com estudos publicados na revista Lancet, nos últimos 30 anos nenhum país conseguiu elaborar estratégias para reverter a epidemia de obesidade de forma consistente.

No Brasil não é diferente. Nos últimos 35 anos a prevalência de obesidade subiu de 5,4% para 21% da população. De acordo com dados do Ministério da Saúde, a cada ano são 1 milhão de novos casos de obesidade no país e a cada 15 anos dobra a taxa de casos de obesidade.

Outros estudos mostram que, se a taxa de crescimento da obesidade continuar a mesma, o Brasil atingirá, em menos de 10 anos, o mesmo índice dos Estados Unidos, onde mais de 36% da população vive com sobrepeso ou obesidade.

“No Brasil, há um aumento maior da obesidade na população mais pobre, em comparação com a mais rica. É um problema que acomete todas as classes sociais, portanto sua prevenção interessa à população inteira”, disse Carlos Augusto Monteiro, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP e coordenador da edição mais recente do Guia alimentar para a população brasileira, durante a estreia do programa de TV Ciência Aberta, da FAPESP e da Folha de S.Paulo, na terça-feira (03/04).

Também participaram do programa Licio Velloso, professor do Departamento de Clínica Médica da Unicamp e coordenador do Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades (OCRC) – um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) financiado pela FAPESP – e a nutricionista especialista em comportamento alimentar Sophie Deram. A mediação do debate foi feita pela jornalista Sabine Righetti.

“Há um grande debate se a obesidade em si já seria uma doença, além de ser um fator de risco para a hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares, por exemplo. O fato é que, para a Organização Mundial da Saúde, doença é toda condição com algum tipo de alteração funcional, estrutural ou mesmo comportamental que leva sofrimento ao indivíduo e a obesidade se encaixa em todos esses critérios”, disse Velloso.

Os especialistas atribuem essa epidemia a mudanças no padrão alimentar da população em geral, que nas últimas quatro décadas trocou a alimentação tradicional de cada país – composta principalmente por cereais, verduras e carnes – por alimentos ultraprocessados, ricos em gorduras saturadas que fazem o alimento durar mais.

Estudo realizado no OCRC mostrou que essa alteração no padrão alimentar tem consequências na região cerebral que regula a fome. “Mostramos que a ingestão de gordura saturada gera uma inflamação no hipotálamo, a região do cérebro que controla a saciedade, e os neurônios começam a não regular tanto a fome”, disse Velloso.

A boa notícia é que essa inflamação pode ser revertida. “Da mesma forma que o ácido graxo saturado inflama, o insaturado reverte”, disse.

Os especialistas destacaram que o fato de aumentar o consumo de gorduras saturadas e de açúcar e a redução na ingestão de fibras explica essa epidemia de obesidade.

“Na obesidade, individualmente, a genética é importante, mas fica difícil explicar essa epidemia global com uma causa genética. A epidemia é atribuída a um fator ambiental, essa abundância de alimentos. A atividade física se modificou [reduziu] nos anos 1960 e a epidemia começou nos anos 1980”, disse Monteiro.

Os participantes do programa destacaram que há muitos fatores associados à obesidade. “Predisposição todos têm, mas quem vai puxar o gatilho para a obesidade é o ambiente”, disse Sophie Deram.

Ela lembrou ainda que há uma forte questão comportamental associada à obesidade. “Estamos sempre buscando o vilão da obesidade. Essa busca levou a uma confusão de informações. Para a academia, é importante saber, mas para a população fica difícil saber quando o ovo é bom ou ruim, por exemplo. Isso gera uma infinidade de dietas restritivas que, no fim, vão alterar a percepção de fome do indivíduo”, disse.

Tanto que, de acordo com Deram, a grande maioria das pessoas que fazem dieta retorna ao peso inicial depois de dois anos. “Não é uma questão de empenho. É o cérebro que controla tudo, inclusive a saciedade. Ele reage ao estresse da dieta restritiva e liga um mecanismo de adaptação que aumenta o apetite e diminui o metabolismo. Por isso não dá certo”, disse.

Para Velloso, os programas contra a obesidade precisam trabalhar o comportamento. “Em vez de enfatizar a perda de peso, enfatizar a manutenção do peso e a qualidade de vida”, disse.

O coordenador do OCRC explicou que existem dois tipos de fome: a homeostática e a hedônica. A primeira está relacionada ao hipotálamo e serve como um alerta para a baixa de energia. Já a segunda está ligada ao sistema límbico e às emoções.

“Fazer dieta restritiva aumenta a vontade da fome hedônica. Vimos isso em ratos que, quando acabam a dieta, buscam ingerir gordura”, disse Deram

Obesidade infantil

A obesidade é vista como um fator de risco para diversas outras doenças, como o diabetes, a hipertensão, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer. A associação da obesidade com essas doenças a torna uma doença com um aspecto maior ainda de comprometimento da saúde do indivíduo.

“Pequenos ganhos de peso acarretam grandes riscos de desenvolver diabetes e outras doenças. Portanto quando se fala em obesidade estamos falando de múltiplas doenças”, disse Velloso.

No Brasil, os dados de obesidade infantil são surpreendentes. Há 45 anos um terço das crianças sofria de desnutrição infantil. Hoje, um terço das crianças tem sobrepeso ou obesidade. “Isso não tem uma explicação clara. mas é um problema grave, pois as crianças já desde muito pequenas vão fazer dietas com restrição, terão insatisfação com o próprio corpo. Isso afeta muito a infância”, disse Deram.

A obesidade infantil ocorre justamente na fase da vida em que há o maior gasto energético, usado para o crescimento da criança. “O ambiente mudou tanto que até as crianças sucumbiram. Para ter uma ideia, uma refeição tradicional tem em média 1,4 Kcal/grama. Já um fast food tem 3 Kcal/grama. A mudança no ambiente alimentar é absurda”, disse Monteiro.

Velloso ressalta o aspecto do tempo na obesidade. “Quanto mais tempo a criança permanecer obesa, mais difícil será voltar ao peso e mais ela vai desenvolver doenças”, disse.

Para Monteiro, é preciso que os alimentos ultraprocessados sejam tratados como o tabaco e a bebida alcoólica. “Não estou falando em proibir, mas em restringir o marketing”, disse.

Ele ressaltou que o custo da obesidade no Brasil é de 2,4% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto menos de 1% do PIB é gasto em ciência. “Do ponto de vista da carga de doença no Brasil, a obesidade é o primeiro fator. É muito mais que o tabagismo, por exemplo. É possível economizar recursos e o sofrimento, mas para isso é preciso haver políticas públicas”, disse.

Entre as medidas destacadas pelo pesquisador estavam: imposto de alimentos ultraprocessados, restrição de propaganda e rotulagem nutricional como é feita no Chile, que destaca os riscos dos alimentos.

O programa na íntegra pode ser assistido em: https://youtu.be/-7htACAjApA

Público ampliado

O próximo programa de TV Ciência Aberta será no dia 8 de maio com o tema “Mudanças Climáticas”. A proposta do programa é apresentar ao público grandes temas em discussão na atualidade em uma linguagem simples e ágil para estimular a participação de jovens pesquisadores, estudantes e público interessado – levando ao conhecimento da sociedade as pesquisas apoiadas pela FAPESP, bem como o intercâmbio e a divulgação da ciência produzida no Estado de São Paulo e no Brasil.

“Com o programa, esperamos responder à inquietação de que o que os cientistas fazem é incompreensível e mostrar que não só é compreensível como pode beneficiar as pessoas. A série será uma maneira de os cientistas se comunicarem mais com a sociedade”, disse José Goldemberg, presidente da FAPESP.

A produção conjunta do programa Ciência Aberta faz parte de um acordo entre a FAPESP e a Folha de S.Paulo, que inclui também publicação de reportagens da Agência FAPESP, em português, inglês e espanhol, nas edições impressas e on-line da Folha (www1.folha.uol.com.br/especial/2018/agencia-fapesp/).


Autor: Maria Fernanda Ziegler
Fonte: Fapesp
Sítio Online da Publicação: Fapesp
Data de Publicação: 04/04/2018
Publicação Original: http://www.fapesp.br/11656

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Descoberta mostra potencial para tratar obesidade sem efeitos adversos


Peptídeo, que pode ser ingerido por via oral, será testado em seres humanos para permitir uso em medicamentos – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Opeptídeo Pep19, derivado de um composto produzido no interior das células do corpo, apresenta potencial de uso como fármaco para o tratamento da obesidade, demonstra pesquisa com a participação do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP. Testes com animais indicam que o peptídeo reduz peso, gorduras localizadas e melhora os índices de glicemia, colesterol e pressão arterial, sem causar depressão ou outros efeitos adversos no sistema nervoso central. O peptídeo, que pode ser ingerido por via oral, irá passar por testes em seres humanos para permitir a utilização em medicamentos. O estudo é descrito em artigo publicado no Scientific Reports da revista Nature.

Peptídeos são substâncias derivadas de proteínas que formam redes de interação dentro das células, sendo responsáveis por regular diversas funções celulares. “O Pep19 foi produzido a partir de um peptídeo encontrado no interior da célula e o estudo descobriu que ele modula a atividade do receptor de canabinoides”, afirma a pesquisadora Andrea Heimann, da empresa Proteimax Biotecnologia Ltda., que participou da pesquisa. “A atividade desse receptor está ligada a diversas doenças e também à regulação do humor, da saciedade (relacionada com o controle de peso) e da dor. Sua inibição é a base do tratamento, por exemplo, da cirrose e da epilepsia.”


Experimentos verificaram que o peptídeo Pep19 promove a diminuição de peso e de gorduras localizadas – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Ao constatar que o receptor de canabinoides pode ser um alvo terapêutico do peptídeo, os pesquisadores propuseram seu uso para tratar a obesidade e a síndrome metabólica, além de identificar possíveis efeitos adversos. “Medicamentos para obesidade com ação similar levavam a perda de peso e também melhoravam os parâmetros cardiovasculares dos pacientes”, explica Andrea. “No entanto, o fármaco também agia no sistema nervoso central, o que provocava depressão e, em alguns casos, suicídios.”

Os experimentos com ratos e camundongos verificaram que o Pep19 promove a diminuição de peso e de gorduras localizadas. “Ele também melhorou os parâmetros metabólicos associados à síndrome metabólica, como os níveis de glicemia (açúcar no sangue), insulina, colesterol e pressão arterial”, aponta a pesquisadora. “Ao mesmo tempo, constatou-se que não há ação sobre o sistema nervoso central, o que impede o aparecimento da depressão.”
Comprimidos

A pesquisa também descobriu que o Pep19 pode ser administrado ao paciente por via oral, ao contrário de substâncias similares, como a insulina, que não mantém sua atividade, por isso precisa ser injetada. “Assim, o medicamento com o Pep19 poderia ser colocado em comprimidos a serem ingeridos pelos pacientes”, aponta Andrea. A patente do peptídeo já está registrada nos Estados Unidos e a pesquisadora calcula que os testes clínicos (em seres humanos) devem ter início em seis meses, se houver investimento. “Conforme os resultados dos testes, estima-se que o medicamento possa estar no mercado dentro de cinco anos.”

A utilização do peptídeo como fármaco foi pesquisada pela Proteimax, empresa especializada na produção de anticorpos, peptídeos e proteínas, e em estudos de inovação em biotecnologia, como o desenvolvimento de fármacos. “O Pep19 é derivado de um peptídeo produzido no interior das células, que foi modificado computacionalmente para atuar fora delas, de modo a permitir o estudo de suas funções e a melhora de suas características”, conta a pesquisadora. “Ele foi colocado em contato com anticorpos que reconhecem quando há mudanças nos receptores das células, o que nessa pesquisa aconteceu com o receptor de canabinoides.”


Pesquisadores Rosângela Eichler, Andrea Heimann e Emer Ferro participaram do estudo – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

O funcionamento do peptídeo, seu mecanismo de interação com o receptor e seus efeitos foram estudados no Laboratório de Farmacologia de Peptídeos Intracelulares do ICB. “Há 15 anos o grupo de pesquisa vem estudando peptídeos, que têm importância biológica, fisiológica e potencialidade para utilização em medicamentos”, afirma o professor Emer Ferro, coordenador do laboratório. “O trabalho analisou peptídeos intracelulares que fazem parte da biblioteca existente no laboratório, além de outros pertencentes ao acervo da empresa.”

O artigo A novel peptide that improves metabolic parameters without adverse central nervous system effects foi publicado no Scientific Reports da revista científica Nature em 1º de novembro. A primeira autora do artigo, Patrícia Reckziegel, do ICB, atualmente realiza pós-doutorado na Suécia com Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior (Bepe) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A pesquisa também teve a colaboração de William Festuccia, Luiz Britto e Rosângela Eichler, do ICB; Karen Lopes Jang, Carolina Romão e Joel Heimann, da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP); Manoela Fogaça, Naielly Rodrigues, Nicole Silva e Francisco Guimarães, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP; e Achla Gupta, Ivone Gomes e Lakshmi Devi, da Icahn School of Medicine at Mount Sinai, nos Estados Unidos.

Mais informações: e-mails eferro@usp.br, com Emer Ferro, e andrea@proteimaxnet.com.br, com Andrea Heimann



Autora: Jornal USP
Fonte: Jornal USP
Sítio Online da Publicação: Jornal USP
Data de Publicação: 22/11/2017
Publicação Original: http://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-da-saude/descoberta-mostra-potencial-para-tratar-obesidade-sem-efeitos-adversos/