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terça-feira, 10 de janeiro de 2023

INCQS/Fiocruz realiza controle da qualidade dos resíduos de agrotóxicos em alimentos

O Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS/Fiocruz) realiza análises de resíduos de produtos agrícolas (agrotóxicos) utilizados nas lavouras, que podem permanecer nos alimentos e ser ingeridos. Estas são desenvolvidas com a participação em projetos e programas com outras instituições e são realizadas pelo Departamento de Química (DQ) do Instituto.



“Considerando que as substâncias agrotóxicas podem causar danos à saúde, é extremamente importante que haja um controle dos resíduos que ficam após o uso desses produtos nas lavouras. O controle da qualidade permite avaliar se os resíduos encontrados estão de acordo com os limites estabelecidos pela legislação da Anvisa”, explicam Lucia Bastos, Maria Helena Wohlers e Angélica Castanheira, do Laboratório de Alimentos.

Este processo envolve ensaios de multirresíduos (vários resíduos juntos analisados ao mesmo tempo), sendo que atualmente o INCQS/Fiocruz analisa cerca de 350 Ingredientes Ativos (IA), e ensaios de resíduos de ditiocarbamatos, uma classe química de produto muito usado.

O Instituto também produz Ensaios de Proficiência (EP) nesta área, que são amostras (item de ensaio) que podem ser utilizadas como ferramentas de verificação externa sobre como está o seu processo de trabalho e demonstração da confiabilidade dos resultados analíticos laboratoriais. Os EPs são feitos anualmente e distribuídos a laboratórios de alimentos no Brasil e em outros países da América Latina.

“A produção de Ensaios de Proficiência é importante para permitir que os demais laboratórios tenham uma ferramenta de avaliação do seu trabalho que possa demonstrar que seus resultados são confiáveis”, completa Leonardo Coutada, chefe do Núcleo de Alimentos, Microscopia e Métodos Rápidos.

A equipe esclarece, ainda, que analisar resíduos de agrotóxicos tem um alto custo e é um processo complexo.

Saiba mais sobre agrotóxicos.



Autor: Penélope Toledo (INCQS/Fiocruz)
Fonte: fiocruz
Sítio Online da Publicação: fiocruz
Data: 10/01/2023
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/incqs/fiocruz-realiza-controle-da-qualidade-dos-residuos-de-agrotoxicos-em-alimentos

terça-feira, 1 de junho de 2021

Estudo inédito detecta agrotóxicos em alimentos ultraprocessados


Agrotóxicos. Foto de Gervásio Lima
Estudo inédito detecta agrotóxicos em alimentos ultraprocessados

Análise do Idec avaliou 27 produtos populares no dia a dia dos brasileiros, como bisnaguinha e bolacha, com forte apelo infantil
O Idec – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor – apresenta o resultado de um estudo inédito no país, sobre a presença de resíduos de dezenas de agrotóxicos em alimentos comuns na mesa do brasileiro.

Por Rachel Buzzoni e Luciana Munaretti, IDEC


A análise foi feita em produtos ultraprocessados (com alto teor de açúcar, sal e gordura), a maioria de forte apelo ao público infantil, e encontrou traços de substâncias controversas. Caso do glifosato, que é usado nas lavouras de soja, trigo, milho e cana de açúcar.


Foram 27 produtos analisados, divididos em oito categorias. Dessas, seis apresentaram resíduos de agrotóxicos. Os produtos onde foram identificados agrotóxicos são: a bebida de soja Naturis (Batavo); o cereal matinal Nesfit (Nestlé); os salgadinhos Baconzitos e Torcida (ambos da Pepsico); os pães bisnaguinha Pullman (Bimbo), Wickbold, Panco e Seven Boys (da Wickbold); os biscoitos de água e sal Marilan, Triunfo (Arcor), Vitarela e Zabet (ambos da M Dias Branco); as bolachas recheadas Bono e Negresco (Nestlé), Oreo e Trakinas (Mondeléz).


Os fabricantes dos produtos citados já foram notificados em relação às substâncias detectadas em seus produtos. Os que responderam ao Idec alegam que a quantidade de agrotóxico está dentro dos limites permitidos ou que seguem boas práticas dos fornecedores de matéria-prima. De fato, não há regulação sobre o limite máximo desses resíduos em ultraprocessados, pois a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) apenas monitora essas substâncias nos alimentos in natura. Entretanto, para Teresa Liporace, diretora executiva do Idec, “É urgente que os órgãos fiscalizadores se debrucem sobre isso, e que a população seja informada a respeito da contaminação do que está comendo, bem como sobre os riscos desses produtos para a saúde”.


O Idec encomendou a análise a um laboratório que é referência nacional, acreditado pelo Inmetro, credenciado no MAPA (Ministério da Agropecuária e Abastecimento) e utilizado pela Anvisa. O resultado foi organizado pela equipe multiprofissional do Idec e transformado numa cartilha detalhada. Para Rafael Arantes, nutricionista do Idec, o que mais chamou a atenção foram especialmente os ultraprocessados à base de trigo. “Encontramos resíduos de agrotóxicos em todos os que foram testados, com destaque para a presença de glifosato na maior parte dos produtos. É bem preocupante”.


Faz realmente mal à saúde?


Todos os agrotóxicos encontrados nos alimentos analisados estão presentes nas lavouras brasileiras, como o glifosato, herbicida mais usado no mundo. Em 2015, a Iarc (Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer), da OMS (Organização Mundial da Saúde), concluiu com base em centenas de pesquisas que o glifosato era “provavelmente carcinogênico” para humanos. No Brasil, a Anvisa decidiu no ano passado manter a liberação do glifosato, mas com restrições.


Rafael Arantes, nutricionista do Idec, diz que “Jogamos luz em um problema que ainda precisa ser amplamente monitorado e melhor compreendido, mas podemos afirmar que os ultraprocessados representam um perigo duplo para a população. Além dos malefícios já conhecidos para a saúde, encontrar agrotóxicos nesses produtos acende mais um alerta, indicando uma conexão com a forma insustentável de produção de commodities que são alguns dos principais ingredientes para esses produtos”.


Acesse a cartilha com o estudo completo em: https://www.idec.org.br/veneno-no-pacote
IDEC
O Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) é uma associação de consumidores sem fins lucrativos, independente de empresas, partidos ou governos.


***
Nota – Pesquisa IDEC

Frente a informe divulgado pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC), a Lactalis do Brasil informa:
– A empresa não foi comunicada nem notificada sobre qualquer informação referente ao presente estudo nem pelos órgãos competentes;
– Todos os insumos produzidos pela Lactalis do Brasil são controlados e monitorados através de laudos externos e atendem rigorosamente à legislação brasileira;
– A empresa tem uma política rígida na escolha de seus fornecedores de insumos, homologando apenas aqueles que cumprem com todas as exigências legais e de segurança alimentar. As avaliações desses fornecedores são feitas mediante laudos externos.
***

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 01/06/2021






Autor: Rachel Buzzoni e Luciana Munaretti, IDEC
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 01/06/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/06/01/estudo-inedito-detecta-agrotoxicos-em-alimentos-ultraprocessados/

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

CPT lança revista sobre os impactos do uso de c

CPT lança revista sobre os impactos do uso de agrotóxicos no Cerrado

A segunda edição da Revista Cerrados aponta as manobras do agronegócio junto ao Governo Federal para flexibilizar as leis referentes a agrotóxicos no Brasil

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) lança, nesta terça-feira (15), a segunda edição da Revista Cerrados.
A publicação traz os diversos impactos à biodiversidade do Cerrado e nos territórios onde vivem seus povos ocasionados pelo uso intenso de agrotóxicos pelo agronegócio nas lavouras de soja, milho, cana-de-açúcar, algodão entre outras monoculturas.

Dentre os dados preocupantes apontados pela revista, destaca-se que até agosto deste ano estava autorizada, pelo Governo Federal, a comercialização de mais de 2,8 mil produtos agrotóxicos no Brasil. Desde o início de 2019 foram autorizados 745 novos venenos pela gestão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Os textos ainda relacionam o aumento do uso de agrotóxicos aos casos de intoxicação de pessoas nos estados que compõem a chamada última fronteira agrícola do Matopiba (acrônimo dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), bem como destrincham as diversas manobras do governo em direção ao desmonte e flexibilização da legislação referente a agrotóxicos no país.

“O objetivo da Revista Cerrados é ser um espaço de denúncias das violências e destruição da sociobiodiversidade do Cerrado, mas também ser um instrumento de informação e formação para comunidades, organizações parceiras, pesquisadores e população em geral”, afirma Valéria Santos, membro da coordenação editorial da revista.

Por outro lado, a publicação abre espaço para as boas novas a partir de saberes e práticas agroecológicas vindas de territórios dos povos e comunidades tradicionais, como resistências a esse projeto de morte. As mulheres auto-organizadas de comunidades rurais da Baixada Cuiabana, em Mato Grosso, se reconhecem como guardiãs do Cerrado e se colocam em processo de resgate cultural e de transformação na construção de uma sociedade com relações sociais e ambientais mais saudáveis.

Também como instrumento efetivo de soberania alimentar, sem a aplicação de venenos e degradação do Cerrado, a Revista analisa experiências agroecológicas construídas a partir dos saberes centenários dos povos do Cerrado. “Para conhecimento e reconhecimento das riquezas dos modos de vida dos povos cerratenses, a Revista traz os anúncios das lutas dos povos por terra, agroecologia, soberania alimentar e territórios livres de agrotóxicos”, complementa Valéria.

A Revista Cerrados é uma iniciativa da Comissão Pastoral da Terra através da Articulação das CPT’s do Cerrado – que reúne os seus Regionais presentes nesta região – e contou com a colaboração na produção dos textos de agentes pastorais e pesquisadoras e pesquisadores acadêmicos cerratenses e militantes na defesa dos povos e territórios do Cerrado: Aline Mialho, Cecília Amália Cunha Santos, Leomar Daroncho, Patrícia Dias Tavares, Murilo Mendonça Oliveira de Souza, Cleber Adriano Rodrigues Folgado, Sandra Procópio da Silva e Leonardo Melgarejo.

A 2ª Edição da Revista Cerrados pode ser adquirida gratuitamente no site da CPT a partir das 10 hrs desta terça-feira, 15 de dezembro de 2020: https://www.cptnacional.org.br/





in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/12/2020




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 15/12/20
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/12/15/cpt-lanca-revista-sobre-os-impactos-do-uso-de-agrotoxicos-no-cerrado/

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Veneno à nossa mesa – O Brasil é o país que mais consome agrotóxicos




Abrimos o especial sobre “Agro É Tóxico”, durante a pandemia sanitária de Sars-Cov-2, com um tema preocupante, o Brasil se destaca como o maior consumidor de agrotóxicos do mundo.

A reportagem é de Antony Corrêa, Jade Azevedo e Lucas Souza, publicada por Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST, 12-11-2020.

O ano de 2020 está quase no fim, e já é considerado como um ano atípico, no qual, as condições de vida e subsistências de trabalhadoras e trabalhadores foi severamente afetada. No Brasil, temos a triste marca de 163.406 mortes pelo novo coronavírus até a metade do mês de novembro. Em contrapartida, há setores e grupos de empresas que parecem passar pelo oposto, com conquistas e lucros durante este período. É o que acontece com a indústria do agro-minério-negócio, além do aumento do seu Produto Interno Bruto (PIB) em cerca de 2,42% de janeiro a fevereiro, é crescente as aprovações de registros de agrotóxicos para fabricação e uso em nosso país.

Nos cinco primeiros meses do ano, em plena pandemia sanitária de Covid-19, o Ministério da Agricultura já havia publicado o registro de 150 agrotóxicos para uso no Brasil. Destes, 118 agrotóxicos foram liberados só entre março a maio, com 84 deles destinados agricultura e 34 para uso na indústria. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), aponta que parte dessas novas mercadorias devem ser reavaliadas, pelas possíveis ligações a casos de câncer. Concomitante a isso, as empresas que concentram a produção de veneno, já haviam solicitado a liberação de mais 216 produtos.

O número de aprovações neste ano já foi maior do que o ocorrido no mesmo período de 2019. O que é preocupante, já que no ano anterior se havia batido o recorde de aprovações, com 474 novos produtos anualmente. Em setembro de 2020 já havíamos atingido a marca de 315 novas autorizações publicadas, como se pode observar no gráfico a seguir.

Registro anual de agrotóxicos no Brasil de 2000-2020. (Fonte: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, 2020)


Como informa a Agência Repórter Brasil (2020), entre os agrotóxicos aprovados estão produtos que foram banidos em outras nações, como o Fipronil, inseticida banido em 2004 na França, o Clorotalonil, banido na União Europeia e Estados Unidos, e o Clorpirifós, banido na União Europeia. Estes dois últimos, por afetarem o as células favorecendo o aparecimento de câncer, e neurotoxicidade que afeta o desenvolvimento humano.

As aprovações só foram possíveis pelo fato de serem enquadradas como atividades essenciais durante a pandemia. As licenças para fabricação de veneno se distribuem entre 53 empresas de 11 países. No entanto, diferente de 2019, este ano, os registros se concentram nas mãos de empresas brasileiras, com destaque a AllierBrasil.
Uma herança para produzir alimentos lucro

No Brasil, o uso do agrotóxico foi integrado ao Plano Nacional de Desenvolvimento Agrícola (PNDA) de 1975, que incentivou financeiramente as indústrias de fabricação desses produtos, e contribuiu na difusão do argumento da produção de alimentos em escala para resolver o problema da fome no mundo. O Brasil, hoje, é o terceiro maior produtor de alimentos do mundo e o segundo maior exportador, atrás apenas dos Estados Unidos. E mesmo ao liderar essas produções de larga escala como a soja, o milho e carne, a fome no Brasil tem aumentado. O que suscita as questões: que tipo de “alimento” é produzido? Mercadoria? Para quem? Com que qualidade nutricional? E a que custo?

De acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados em setembro deste ano, a fome, insegurança alimentar grave, atingiu cerca de 4,6% da população entre 2017 a 2018. São mais de 10 milhões de brasileiros com menos do que o necessário para suprir as demandas nutricionais. Essa pesquisa é apresentada, cinco anos depois do Brasil ter saído do mapa da fome. Estatística da qual o país tem se aproximado rapidamente com os desmontes da política de segurança alimentar. Outro argumento para o agrotóxico defendido por corporações transnacionais é que isso representa a modernização da técnica e agricultura. Ao investigar o tema, se percebe que a aplicação do agrotóxico no agronegócio é mais do que um melhoramento técnico. É uma articulação política e econômica entre latifundiários, indústrias transnacionais químicas e de biotecnologia que trabalham pelo mercado, o que amplia a taxa de lucro e o poder político global desses conglomerados.
O agronegócio financia a política

No Brasil, existe uma articulação se torna nítida ao olharmos para os financiadores da Frente Parlamentar da Agropecuária, popular bancada ruralista. Essa, recebe recursos do Instituto Pensar Agro, financiado por 38 associações do agronegócio ─ conglomerados que concentram o controle deste ramo no país e no mundo. No Infográfico a seguir podemos observar 12 dessas associações, que exercem maior influência.



Brasil: O maior consumidor de agrotóxicos

A média anual de uso dos agrotóxicos no Brasil entre 2012 a 2014 totalizaram 877.782 toneladas, de acordo com o atlas Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia de 2017, contabilizando: 334.628 toneladas no Centro-Oeste, 244.911 no Sul, 188.512 no Sudeste, 101.460 no Nordeste e 28.271 no Norte.


Em 2017, com cerca de 550 mil toneladas de ingredientes ativos, o Brasil alcançou o título de maior consumidor de agrotóxicos em volume de produto do planeta ㅡ de acordo com os dados da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados apresentados em audiência de 2019 em Brasília.

Leonardo Melgarejo, engenheiro agrônomo e integrante do Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos, comenta que existem estudos que tentam dizer o contrário, e são amplamente divulgados em órgãos institucionais, pela Frente Parlamentar da Agricultura, a bancada ruralista.

Esses “números são feitos com base [na venda e] no valor do agrotóxico utilizado por hectare”, o que coloca países como o Japão na frente do Brasil. Podemos ter a falsa impressão de que esses países consomem mais veneno, por gastarem mais dólares em agrotóxicos que são mais seguros. “Nessa conta parece que no Brasil se usa menos do que fato é utilizado. Nós usamos mais venenos e os piores venenos”, alerta Melgarejo.

O pesquisador destaca como confiável o método produzido na Universidade Federal do Mato Grosso, por Wanderlei Pignati, que considera para o cálculo os principais municípios produtivos, a área cultivada das principais culturas e as informações dos produtos mais aplicados. Isso permite chegar a uma média que extrapolam para toda a área cultivada, e se estima os dados que faltam das vendas ilegais de agrotóxicos. Essa estimativa é de “um bilhão de litros de agrotóxicos por ano. Dá uns 30% a mais do que as vendas contabilizadas pelo IBAMA”, observa.

Melgarejo observa que a flexibilização da legislação tem aumentado o descuido com a informação e consequentemente a contaminação. Um exemplo recente é o caso do Paraquat, proibido em 2017 pela ANVISA, com o prazo de três anos para a retirada do produto do mercado brasileiro. Em setembro, o produto deveria ser banido e excluído de todas as prateleiras. Contrariando as suas decisões anteriores a Anvisa cedeu às pressões do agronegócio e autorizou o uso do estoque de Paraquat.
Entenda um pouco mais: o que são agrotóxicos?

De acordo com o decreto nº 4.074, de 4 de janeiro de 2002, os agrotóxicos são: produtos e componentes resultantes de processos físicos, químicos ou biológicos. Destinados ao uso nos setores de produção, armazenamento e beneficiamento de produtos agrícolas, nas pastagens, na produção de florestas nativas ou implantadas. Também são utilizados em outros ecossistemas com a finalidade de alterar a composição da flora e fauna, a fim de preservá-las da ação danosa de seres vivos considerados nocivos. São conhecidos ainda como substâncias e produtos desfolhantes, dessecantes, estimulantes e inibidores de crescimento.

Um marco regulatório da Anvisa de 2019, alterou a classificação de toxicidade dos agrotóxicos, adotando o padrão internacional, com cinco divisões, o Sistema Globalmente Harmonizado de Classificação e Rotulagem de Produtos Químicos (GHS). Por este novo padrão, são considerados venenos extremamente tóxico apenas aqueles produtos que causarem morte horas depois do contato ou ingestão pelo indivíduo. Agrotóxicos “pouco tóxicos” não terão mais a advertência de risco no rótulo. Dessa forma, dos agrotóxicos aprovados no início do ano, apenas seis produtos haviam sido classificados como extremamente ou altamente tóxicos. Podemos observar esta nova classificação no infográfico.
O veneno paira no ar

Pode ser considerado um agrotóxico todo produto que for tóxico para a agricultura e pecuária. Leonardo Melgarejo, aponta que os agrotóxicos podem ser extratos de plantas como também de síntese química. Esse último, predomina na agricultura atualmente, e são formulações desenvolvidas em laboratórios que geram o xenobiótico. Essas substâncias têm uma finalidade específica, como matar determinado inseto, entretanto possuem ações colaterais. Um exemplo desse efeito colateral citado pelo engenheiro agrônomo, é a “luta dos produtores de uva contra os produtores de soja, quando os produtores de soja usam o 2,4-D, que é um herbicida para limpar as suas lavouras”. O que acontece é que este herbicida fica à deriva no ar, atinge os parreirais dos vizinhos, e afeta a produção das uvas.

Caso semelhante é relatado pela agricultora assentada Maria Aparecida Mota Belarmindo (Cida), 43 anos, natural da Paraíba, e moradora do Assentamento Olívio Albani, em Campo Erê, Santa Catarina. Ela nos relatou o caso ocorrido na região em 2007, em que fazendeiros despejavam veneno sobre o acampamento localizado entre os latifúndios. “Quando a gente veio pra cá, eles passavam de avião o veneno, nas propriedades deles, a gente fica bem no meio, e nos quatro lados tem fazendeiro. A gente denunciou para Ministério Público, para IBAMA, para a FATMA, pra tudo”, lembra a camponesa.

Ela conta que logo em seguida da aplicação dos agrotóxicos, muita gente ficou doente por causa das águas, daquele veneno. Parte das pessoas afetadas foram internada no hospital em Campo Erê e parte em Palma Sola. Entre os sintomas estava a diarréia e vômito. Cida, relembra que os vizinhos durante este período continuaram a aplicação do veneno até o final da safra, e depois que o caso repercutiu, passaram a fazer as aplicações com máquinas de solo.

Ela associa alguns problemas na saúde mental das pessoas no assentamento à exposição ao veneno, “tem bastante gente muito ansiosos, nervosos aqui no assentamento, por causa disso, por causa do veneno”. Outro problema que permanece atualmente, é a monocultura de pinus que cerca a vizinhança, e que Cida também considera um veneno para a saúde.

A camponesa e assentada relata que depois de um longo período, mesmo não havendo mais aplicação de veneno por aviões, os impactos da persistência do agrotóxico e envenenamento da terra são perceptíveis. “A gente plantava as frutas e não dava nada, principalmente a parreira, a uva, não dava por causa dos veneno da soja”. Ela relata, que mesmo com barreiras contra o veneno, seu vizinho seguia a plantação de soja. “Teve uma época ali que as minhas uvas não vinham por causa disso […] aqui no assentamento [agora] é proibido plantar soja por causa do veneno, porque ele é muito mais forte, mata mais, e trás outras doenças e outras pragas”, destaca.

Cida e tantas outras camponesas e camponeses que produzem agroecologicamente e/ou que estão em processo de transição são pontos de resistência que em meio às contradições do sistema e violência do agro-minério-negócio, florescem por meio de suas experiências ancoradas em um projeto de sociedade e de campo que é popular e que respeita às formas milenares de produzir da natureza.

Neste atual cenário do Brasil o debate sobre a produção de alimentos e uso de agrotóxicos é constante dentro da luta dos Movimentos Sociais pelo direito à alimentação e Reforma Agrária Popular, que discute técnicas agrícolas, pecuárias, questões políticas, conômicas, sociais e formativas de concepção de mundo, enquanto projeto de campo e sociedade. Neste bojo, publicaremos ao longo das semanas o “Especial Agro é tóxico”, com o intuito de pôr elementos para a discussão sobre: o cenário nacional, a legislação sobre agrotóxico, saúde e contaminação e a contraposta que vem sendo construída pelos movimentos sociais do campo, por meio da agroecologia e Reforma Agrária Popular.

(EcoDebate, 16/11/2020) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]


Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 16/11/20
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/11/16/veneno-a-nossa-mesa-o-brasil-e-o-pais-que-mais-consome-agrotoxicos/

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Agrotóxicos proibidos na Europa são campeões de vendas no Brasil

Agrotóxicos associados a casos de câncer, danos genéticos e suicídios estão presentes em alimentos cotidianos do brasileiro, como café, arroz, feijão, batata, maçã, banana e até no caldo de cana. Enquanto os riscos à saúde fizeram a comunidade européia banir o uso do paraquate, atrazina e acefato, as três substâncias estão entre as mais vendidas no Brasil. Em 2017, as plantações brasileiras receberam mais de 60 mil toneladas destes químicos.

É na Europa que ficam as bases das principais empresas do mercado mundial de agrotóxicos: Syngenta, Bayer CropScience e BASF são responsáveis por quase metade desse comércio no mundo. Mas é também da Europa que pesquisas científicas denunciam seus riscos há décadas.

“A União Europeia produz agrotóxicos, mas tem deixado de lado os produtos que são nefastos à saúde, em função da pressão da sociedade civil organizada”, afirma Larissa Mies Bombardi, da Universidade de São Paulo, autora de ampla investigação sobre o tema que resultou no atlas Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia.

Ela observa que, na prática, as empresas europeias que fabricam essas substâncias transferiram os produtos mais perigosos para mercados mais permissivos, como o Brasil. Cerca de um terço dos ingredientes liberados para uso no Brasil estão proibidos na União Europeia, ela aponta.

O resultado é o impacto direto sobre a saúde dos brasileiros. A cada 24 horas, oito pessoas são intoxicadas por agrotóxicos no país, segundo dados oficiais, que são subnotificados. O Ministério da Saúde estima que para cada caso desses, outros 50 não foram registrados. Parte dessas intoxicações leva à morte.



Paraquate: depressão, câncer e Parkinson

Fabricado pela gigante mundial suíça Syngenta desde a década de 60, e proibido em território europeu desde julho de 2007, o paraquate é oitavo agrotóxico mais vendido no Brasil. É um herbicida com extensa lista de riscos à saúde humana. Está no arroz, banana, batata, café, cana-de-açúcar, citros, feijão, maçã, milho, soja e trigo. A Syngenta procurou a redação após a publicação da matéria e enviou nota sobre o processo de pesquisa e aprovação dos agrotóxicos que a empresa vende no Brasil (leia a nota).

O paraquate foi investigado durante nove anos pelo Centro de Controle de Intoxicações em Marselha, na França. Os estudos, que ocorreram antes e depois da proibição da substância na Europa, comprovaram uma associação direta com casos de envenenamentos graves e fatais.

O instituto francês estudou a relação entre a exposição ao agrotóxico e 34 tentativas de suicídio, sendo quase a metade dos casos fatal. A maioria dos pacientes estava em casa quando bebeu o veneno de forma intencional. Das 15 mortes, 10 ocorreram nas primeiras 48 horas após a ingestão. A rapidez se deve à falência de múltiplos órgãos, entre outras complicações. Os outros 33% dos óbitos aconteceram ainda no primeiro mês. Segundo a pesquisa, publicada em artigo científico, no Journal of Medical Toxicology de 2013, os pacientes tiveram extensa fibrose pulmonar e insuficiência de oxigênio.

O químico não é apenas uma arma usada para tirar a própria vida, mas também um dos elementos que pode estar por trás do quadro depressivo que motivou a ação suicida. “Causa depressão no sistema nervoso central”, afirma a biomédica Karen Friedrich sobre a neurotoxicidade do Paraquate. Com mestrado e doutorado em Toxicologia, ela é assessora da Coordenadoria Nacional de Defesa do Meio Ambiente do Trabalho, do Ministério Público do Trabalho, e explica que o efeito do químico é a diminuição de neurotransmissores, como a dopamina.

Em casos de depressão e suicídio, Friedrich ressalta, há sempre diversos fatores que influenciam o quadro. “O pequeno agricultor tem a preocupação com o clima, se vai chover, qual o preço que ele vai vender a hortaliça dele. As vezes, ele vive numa situação de violência intensa. Tem todo um contexto social e de exposição química, que vão trabalhar para que ele sinta a depressão e que leve ao suicídio”, acrescenta a pesquisadora.


As plantações brasileiras foram pulverizadas com 60 mil toneladas de químicos proibidos na Europa por oferecer risco à saúde humana

Evidências mostram o quanto países em desenvolvimento tem a auto-intoxicação por agrotóxicos como grande problema de saúde pública. Estima-se cerca de 300 mil mortes por ano, apenas na região conhecida como Ásia-Pacífico, que inclui os países asiáticos banhados pelo oceano e a Oceania, segundo artigo da British Journal of Clinical Pharmacology de 2011. O problema, contudo, não se limita a nações emergentes. “Entre 1945 e 1989, o paraquate foi responsável por 56% de todas as mortes por pesticidas, na Inglaterra e no País de Gales”. Foi responsável ainda por mais mortes em 2008, do que qualquer outro pesticida.

O paraquate também foi escrutinado por pesquisadores da Itália, que apontaram riscos de câncer no sistema linfático, como os casos registrados em Puglia, no sul do país. A atividade agrícola parece ser um fator de risco para o desenvolvimento de subtipos de câncer registrados nas cidades de Bari e Taranto. O risco aumenta se há interação entre o paraquate e outros agrotóxicos, como o captafol e radone. A investigação analisou 158 casos entre 2009 a 2014, e descobriu que mesmo os pacientes expostos a baixos níveis de paraquate tinham risco aumentado para todos os linfomas.



A disputa pelo Brasil

Classificado como extremamente tóxico (na terminologia médica “Classe I”), a Anvisa baniu o herbicida após estudos apontarem que ele pode causar mutação no material genético e doença de Parkinson. “O Paraquate é muito tóxico do ponto de vista agudo, ou seja, imediato. Isso está bem consolidado na literatura científica”, afirma Friedrich.

A data para o paraquate sair das prateleiras brasileiras é setembro de 2020, segundo o a Anvisa. Até lá, a proibição pode ser revertida. Uma das iniciativas é o projeto de decreto legislativo do deputado federal Luis Carlos Heinze (PP/RS) que propõe suspender a proibição do ingrediente.

O prazo para ser banido em território brasileiro foi um abalo comercial para a Syngenta, que logo começou um lobby com políticos brasileiros para reverter a decisão. Em uma carta assinada pelo presidente da Câmara de Comércio Suíço-Brasileira, Emanuel Baltis, um convite é feito para uma viagem à Suíça em novembro de 2017, para “conhecer aspectos da capacidade de inovação suíça” e fazer uma visita à multinacional.


Além de utilizado como veneno para tirar a própria vida, os efeitos do paraquate podem estar por trás do quadro depressivo em casos de suicídio

Documento obtido pela organização suíça PublicEye, que investiga o comportamento das empresas do país, expõe a lista de políticos que viajaram ao país aceitando o convite. Entre eles está a deputada federal Tereza Cristina (DEM/MS), anunciada pelo presidente eleito Jair Bolsonaro como a Ministra da Agricultura. Custos com passagens aéreas, logística da agenda oficial dentro da Suíça, hospedagem e alimentação foram pagos pela Câmara de Comércio.

Segundo a PublicEye, a maioria dos participantes era integrante da bancada ruralista – a Frente Parlamentar da Agropecuária. “Eles desempenharam um papel fulcral para fazer a ANVISA rever suas ambições no tocante à proibição do paraquate”, lê-se no comunicado da organização.



Atrazina: mudando o sexo dos sapos

O ritmo de aumento do uso dos agrotóxicos no Brasil parece caminhar na contramão das descobertas internacionais. Entre 2000 e 2010, a utilização de pesticidas no mundo aumentou em 100%. No Brasil, o crescimento foi o dobro: 200%. Hoje, 20% dos agrotóxicos comercializados no mundo são vendidos no Brasil. A larga utilização desses químicos pode afetar não só a saúde humana, mas gerar transformações inesperadas ao meio ambiente, como sapos mudarem de sexo.

Estudos apontam que o agrotóxico atrazina pode levar à completa feminização dos machos sapos-com-garras-africanos. Isso passou a acontecer porque o agrotóxico é um potente disruptor endócrino, segundo um estudo norte-americano. A atrazina atinge os níveis de testosterona desses anfíbios adultos, diminuindo suas glândulas reprodutoras, além de atacar o desenvolvimento de esperma. Dos sapos machos estudados, 10% foram totalmente transformados em fêmeas a ponto de conseguirem acasalar com outros machos e produzirem ovos viáveis.

“Esses tipos de problemas, como os animais que invertem o sexo e distorcem as relações sexuais, são muito mais perigosos do que qualquer substância química que possa matar uma população de sapos”, afirmou o biólogo e professor Tyrone Hayes, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, em uma entrevista sobre sua pesquisa, em 2010.

Nesse período, Hayes trabalhava também como consultor e pesquisador para a empresa que produz a atrazina, a Novartis, que se fundiu com a Zeneca e formou a Syngenta. Em seu site pessoal, Hayes explica que a empresa e seus consultores tentaram impedir que ele levasse a informação a público. “Renunciei a minha posição de consultoria na empresa e publiquei o meu trabalho e outras descobertas com apoio de financiamento independente”, escreveu em sua página chamada ‘AtrazineLovers’.


Estudos apontam que o agrotóxico atrazina pode levar à completa feminização dos machos sapos-com-garras-africanos

A descoberta de reversão sexual chama a atenção sobre como a Atrazina pode favorecer a diminuição dessa espécie e ainda atingir outros anfíbios. Segundo a Anvisa, o agrotóxico no Brasil é usado principalmente no cultivo de abacaxi, cana-de-açúcar e milho. A atrazina está banida da União Europeia, desde 2004, mas, aqui, é o sexto pesticida mais comercializado com quase 29 mil toneladas, apenas em 2017.

“A Atrazina foi encontrada em água coletada em muitos poços de água potável, no centro-oeste dos Estados Unidos. Também foi encontrada em córregos, rios e lagos próximos a campos onde foi aplicada”, afirma documento da agência de registros de substância tóxicas e doenças, de Atlanta, nos EUA, em comunicado de 2003. O órgão já havia alertado sobre os riscos de gestantes expostas à água contaminada, pois a exposição pode alterar o peso do feto e provocar problemas cardíacos e urinários da mãe.




Acefato: infertilidade e danos genéticos

Já o acefato, com mais de 27 mil toneladas em 2017, ocupa a quarta posição entre os agrotóxicos mais vendidos no Brasil. Usado nas culturas de algodão, amendoim, batata, citros, feijão, melão, milho, soja e tomate esse ingrediente também é objeto de estudos médicos pelo mundo. Uma mulher de 55 anos teve uma tetraplegia associada à exposição contínua ao acefato, em 2004. Ela aplicou o agrotóxico em casa, para matar insetos e procurou um médico quando teve paralisia em um dos braços. Por dois anos, sofreu com a evolução da perda das atividades motoras até falecer. As doenças do sistema nervoso central, chamadas de neuropatias, são uma das consequências comprovadas da exposição ao acefato. “Ele está associado a problemas no material genético que advém principalmente de uma substância produzida a partir do acefato, não intencionalmente”, afirma a toxicologista Karen Friedrich. Ela explica que, ao entrar em contato com o meio ambiente ou com seres vivos, o acefato pode se transformar em outra substância chamada metamidofós, que é proibido na União Européia e no Brasil. Após uma autópsia, os médicos conseguiram diagnosticar a causa da morte da senhora: Mielite Transversa, uma doença neurológica causada por uma inflamação na medula espinhal. O artigo foi publicado pela Escola de Medicina da Universidade de Louisville, nos EUA. Friedrich destaca que os danos provocados pelo agrotóxico podem afetar os desenvolvimento dos genes, estarem associados a casos de câncer e passarem de pai para filho.


O acefato pode afetar a fertilidade masculina, com alto risco detectado entre os trabalhadores rurais do Sri Lanka

O uso extensivo de agrotóxicos do tipo organofosforados, como o acefato, pode alterar a qualidade do sêmen e o DNA na formação dos espermatozoides, de acordo com pesquisadores do Centro de Biotecnologia, da Universidade de Sri Jayawardenapura, no Sri Lanka. O acefato é amplamente utilizado pelos agricultores do país asiático. Segundo o estudo, a exposição pode afetar a fertilidade dos homens, indicando altos riscos aos jovens trabalhadores. “A integridade do DNA do espermatozoide é vital para transmitir informação genética durante a reprodução e qualquer dano ao DNA pode resultar em infertilidade”, concluem os pesquisadores.

Nota da Redação: a matéria foi atualizada em 19 de dezembro para incluir nota enviada pela Syngenta.

Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de agrotóxicos. A cobertura completa está no site do projeto.

Esta publicação foi realizada com o apoio da Fundação Rosa Luxemburgo com fundos do Ministério Federal para a Cooperação Econômica e de Desenvolvimento da Alemanha (BMZ).




Autor: José Brito, Agência Pública/Repórter Brasil
Fonte: Agência Pública/Repórter Brasil
Sítio Online da Publicação: Agência Pública/Repórter Brasil
Data: 10/12/2018
Publicação Original: https://reporterbrasil.org.br/2018/12/agrotoxicos-proibidos-europa-sao-campeoes-de-vendas-no-brasil/

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Conselho Nacional de Saúde recomenda que STF vote pelo fim da isenção fiscal de agrotóxicos


pulverização aérea de agrotóxicos


Benefício fiscal concedido aos agrotóxicos é denunciado como inconstitucional por ser prejudicial à saúde e ao meio ambiente; julgamento ocorre na quarta-feira, 19/2.

IDEC

O CNS (Conselho Nacional de Saúde) recomendou aos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) que declarem a inconstitucionalidade dos benefícios fiscais concedidos aos agrotóxicos, como prevê as cláusulas Primeira e Terceira do Convênio Confaz (Conselho Nacional de Política Fazendária) 100/97. A orientação foi aprovada pelo Plenário do CNS na 326ª Reunião Ordinária, realizada na última sexta-feira (14) em Brasília.

Na quarta-feira (19), o STF julga a ADI 5.553/DF (ação direta de inconstitucionalidade), que tem o objetivo de derrubar esse benefícios fiscais concedidos aos agrotóxicos.

O Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), que tem um assento no CNS, forneceu os subsídios para elaboração da recomendação. Entre os argumentos considerados estão o fato de que “os malefícios do consumo de alimentos produzidos com agrotóxicos têm vasta comprovação científica produzida por instituições especializadas e de notável prestígio” e que os benefícios fiscais violam o princípio da defesa do consumidor previsto na Constituição Federal que visa a proteger a vida e a saúde da população.

De acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas), os agrotóxicos matam 200 mil pessoas por ano em todo o mundo por intoxicação aguda. No Brasil, em média, sete pessoas são intoxicadas por dia. Informações do Ministério da Saúde mostram que de 2007 a 2017, 1.824 pessoas morreram devido ao uso de venenos e outras 718 pessoas tiveram sequelas.

“O Estado deveria agir no sentido de minimizar o uso de agrotóxicos e não de aumentar. Tal ação desincentiva o desenvolvimento de alternativas técnicas para a produção agrícola e não estimula produtores a migrar para modelos menos nocivos. Como resultado, esses benefícios fiscais intensificam a oferta de alimentos nocivos à saúde no mercado de consumo brasileiro”, afirma Mariana Gondo, advogada do Idec.

Para colaborar na argumentação técnica e jurídica sobre impactos sociais e econômicos dessa isenção fiscal, organizações da sociedade civil e redes de defesa dos direitos humanos participam do julgamento da ação na condição de amicus curiae (amigo da corte).

“É um contrassenso em um momento de extrema política de austeridade e corte de direitos sociais manter benefícios a produtos que comprovadamente causam inúmeros danos e impactos à saúde humana e à biodiversidade brasileira”, aponta Naiara Bittencourt, advogada popular da Terra de Direitos e integrante da Campanha Contra os Agrotóxicos e pela Vida.

O Greenpeace também engrossa o coro contra os benefícios fiscais. A organização redigiu uma manifestação técnica para o STF mostrando a visão sobre o modelo agrícola brasileiro e os agrotóxicos. “Nunca se liberou tanto veneno quanto em 2019. Mais agrotóxicos no mercado e isenção fiscal é a combinação perfeita para nos distanciar cada vez mais de uma agricultura verdadeiramente sustentável. Esse casamento entre poder público e agrotóxicos tem custado caro para o bolso do País e para a nossa saúde. Defender o fim dessa aliança é torcer por todos nós!”, analisa Marina Lacôrte, da campanha de Agricultura e Alimentação do Greenpeace Brasil.

Segundo estudo da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), feito por pesquisadores da Fiocruz e da UFRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro), o valor que o governo federal e os estados deixam de arrecadar com a isenção fiscal aos pesticidas é equivalente a quase quatro vezes o orçamento total previsto para o Ministério do Meio Ambiente para 2020, um total de R$ 2,7 bilhões.

Estima-se que para cada dólar usado na compra de agrotóxicos, até 1,28 dólar é gasto para o tratamento de intoxicações agudas, ou seja aquelas que ocorrem imediatamente após a aplicação. O cálculo não considera o custo ao sistema público de saúde no tratamento das intoxicações crônicas, das doenças que resultam da exposição constante ao agrotóxico.

Ao todo, quatro pedidos – individuais e coletivos – foram admitidos pela Corte para apoiar o fim dos benefícios. Os autores são a Defensoria Pública do Estado de São Paulo, ABA (Associação Brasileira de Agroecologia), Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, Fian Brasil, Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) e Terra de Direitos. Todas as organizações têm trabalhado em conjunto para mobilizar a sociedade sobre o assunto.

ADI 5553

A ação é movida pelo PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) e questiona dois dispositivos legais que concedem benefícios fiscais aos venenos: o Decreto nº 7.660/11 e o Convênio 100/97 do Confaz.

A primeira norma garante isenção de IPI (Imposto Sobre Produtos Industrializados) para alguns agrotóxicos. Já a segunda, reduz em 60% a base de cálculo do ICMS nas saídas interestaduais dos agrotóxicos, além de possibilitar que os estados reduzam a base de cálculo do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) incidente sobre os produtos em até 60% nas operações internas.

Fonte: IDEC


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 19/02/2020





Autor: EcoDebate
Fonte: IDEC
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 19/02/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/02/19/conselho-nacional-de-saude-recomenda-que-stf-vote-pelo-fim-da-isencao-fiscal-de-agrotoxicos/

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Uso de agrotóxicos e problemas para saúde, Parte 2/2 (Final), artigo de Roberto Naime





RIGOTTO et al (2014) registra que outro elemento para traçar cenários futuros, considerando o modelo de desenvolvimento e suas implicações para a saúde pública, está nas projeções do MAPA para 2020/2021, apontando que a produção de “commodities” para exportação deve aumentar em proporções de 55% para a soja, 56,46% para o milho, 45,8% para o açúcar, em relação a 2011.

Assinalam os autores que como são monocultivos químico-dependentes, as tendências atuais de contaminação devem ser aprofundadas e ampliadas.

A Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, que reúne atualmente mais de uma centena de organizações sociais, tem desenvolvido, desde 2011, ações de comunicação, formação e articulação política, trazendo visibilidade ao problema e ampliando o debate, a exemplo da produção e divulgação de vídeos como “O Veneno Está na Mesa I e II”, de Sílvio Tendler.

O Dossiê da ABRASCO traz a público o compromisso de profissionais da Saúde Coletiva em disponibilizar para a sociedade as evidências científicas dos malefícios dos agroquímicos, com ampla repercussão no meio acadêmico, na mídia e entre os movimentos sociais.

A preocupação e a indignação geradas neste processo conduzem à construção de uma nova proposta da soberania alimentar, que encontra eco no debate da segurança alimentar e nutricional, e tem sido fomentado no âmbito do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (CONSEA).

Somam-se também nesse contexto a construção do campo agroecológico, consignado especialmente na Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) e na Associação Brasileira de Agroecologia (ABA).

RIGOTTO et al (2014) registra que “nos últimos anos, a ampliação de escala de experiências agroecológicas, a consolidação de muitos casos bem sucedidos de aplicação prática dos princípios da agroecologia em todas as regiões do Brasil, as sistematizações demonstrando os impactos positivos e a multifuncionalidade da agroecologia, as lutas pela afirmação dos modos de vida e de produção das populações tradicionais, proporcionaram um ambiente fértil para uma estratégia de maior visibilidade pública da agroecologia junto a outros setores da sociedade, principalmente no meio urbano. A agroecologia aparece mais claramente nas pautas dos movimentos sociais do campo, e foi destaque no Encontro Unitário dos Trabalhadores, Trabalhadoras e Povos do Campo, das Águas e das Florestas”.

Diante disso, se vislumbra o acirramento do debate entre distintas perspectivas sobre o uso de agrotóxicos numa disputa profundamente assimétrica, tendo em vista o poder econômico, político e de produção simbólica dos que pretendem avançar rumo a um projeto de desenvolvimento hegemônico.

No entanto, diversas forças vêm se somando no sentido da precaução e da promoção da saúde, contribuindo com a emergência de novas perspectivas de futuro. Nesse sentido, o posicionamento crítico de pesquisadores, professores e profissionais de saúde pode colaborar positivamente com novos caminhos.

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Aposentado do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.



Referências:

AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA). Relatório de Atividades de 2011 e 2012. Brasília: Agência Nacional de Vigilância Sanitária; 2013.

CARNEIRO, F. F., PIGNATI W., RIGOTTO R. M., AUGUSTO, L. G. S., RIZOLLO A. e MULLER, N. M., et al. Dossiê ABRASCO. Um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde. Parte 1 – Agrotóxicos, Segurança Alimentar e Saúde. Rio de Janeiro: ABRASCO; 2012.

CENTRO COLABORADOR DE VIGILÂNCIA EM ACIDENTES DE TRABALHO, Universidade Federal da Bahia. Acidentes de trabalho devido à intoxicação por agrotóxicos entre trabalhadores da agropecuária 2000-2011. Salvador: Centro Colaborador de Vigilância em Acidentes de Trabalho, Universidade Federal da Bahia; 2012.

CONSELHO NACIONAL DE SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL. Carta à Presidente Dilma Rousseff. Brasília: Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional; 2013. (E.M. n o 003-2013/CONSEA).

MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO. Brasil: projeções do agronegócio 2010/2011 a 2020/2021. Brasília: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento; 2011.

MONTEIRO D. Alguns elementos do contexto político no Brasil relacionado à agricultura e ao desenvolvimento rural. Rio de Janeiro: Articulação Nacional de Agroecologia; 2013.

SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE, Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico 2013; 44(10).

RIGOTTO , Raquel Maria, VASCONCELOS, Dayse Paixão e, ROCHA, Mayara Melo, Uso de agrotóxicos no Brasil e problemas para a saúde pública, Cad. Saúde Pública vol. 30 n. 7, Rio de Janeiro Jul. 2014, http://dx.doi.org/10.1590/0102-311XPE020714



Nota da redação: Para acessar a parte anterior deste artigo clique aqui.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/10/2019




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 17/10/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/10/17/uso-de-agrotoxicos-e-problemas-para-saude-parte-22-final-artigo-de-roberto-naime/

Uso de agrotóxicos e problemas para saúde, Parte 1/2, artigo de Roberto Naime





RIGOTTO et al (2014) assinala que os agrotóxicos constituem hoje um importante problema de saúde pública, considerando a amplitude da população exposta nas fábricas de agrotóxicos e em seu entorno, na agricultura, no combate às endemias e em outros setores, nas proximidades de áreas agrícolas, além de todos os consumidores dos alimentos contaminados.


Entre 2007 e 2011, de acordo com os dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), houve um crescimento de 67,4% de novos casos de acidentes de trabalho não fatais devido a agrotóxicos, e o coeficiente de intoxicações aumentou em 126,8%, crescimento este maior entre as mulheres (178%).


RIGOTTO et al (2014) identifica que o subdiagnóstico e a subnotificação são fartamente reconhecidos para os casos agudos e a limitação é ainda maior quando se trata de avaliar os efeitos crônicos dos agrotóxicos. Este quadro é explicável diante do progressivo aumento do consumo e intensificação do uso dessas substâncias no país.


O mercado brasileiro de agrotóxicos expandiu rapidamente na última década (190%), num ritmo de crescimento maior que o dobro do apresentado pelo mercado global (93%), o que coloca o Brasil em primeiro lugar no “ranking” mundial.


A liberação do cultivo a partir de sementes transgênicas e sua difusão nas áreas agricultáveis estão associadas ao aumento do consumo, tendo em vista o uso intenso de herbicidas, responsáveis por 45% do volume consumido, seguidos pelos fungicidas (14%) e inseticidas (12%).


Os resultados do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, desenvolvido pela ANVISA, indicam que em 2011, apenas 22% das 1.628 amostras analisadas estavam livres desses contaminantes.


Já o controle da contaminação da água para o consumo humano pelo sistema de vigilância em saúde, previsto na portaria 2.914/2011, tem sido ainda bastante restrito a municípios das regiões Sudeste e Sul do Brasil, não permitindo conhecer o quadro no território nacional.


RIGOTTO et al (2014) observa que considerar as perspectivas de cenários futuros para a questão dos agrotóxicos no Brasil, supõe analisar as disputas em curso no campo social, no qual agentes lutam por projetos e interesses distintos, muitas vezes contraditórios, inclusive nos princípios éticos que os orientam.


De um lado estão os agentes sociais comprometidos com a modernização da agricultura, que se colocam na atualidade a serviço da divisão internacional do trabalho definida pelas grandes corporações econômicas, impondo ao Brasil e a outros países da América Latina e da África a reprimarização de suas economias rumo à produção de “commodities”.


Nesse campo reúnem-se os setores oligopolizados da indústria química, metal-mecânica e de sementes, grandes proprietários de terra, e uma participação importante do setor financeiro.


Amparados em seu poder econômico e político, tecem fortes alianças com poderosos segmentos do Estado, tanto executivos, quanto legislativos e judiciários, para incidir na orientação das políticas de desenvolvimento, na destinação do crédito público para os complexos agroindustriais e na desregulamentação e flexibilização da legislação.


RIGOTTO et al (2014) registra que as políticas de ciência e tecnologia e a de formação de recursos humanos são também fortemente tensionadas por esses atores, a exemplo das pesquisas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) e da tônica dominante nos cursos de ciências agrárias ou nos institutos federais.


Contam ainda com os meios de comunicação massivos na difusão dos pressupostos da “Revolução Verde”, focados no aumento da produtividade a partir de extensos monocultivos, da mecanização e da inexorabilidade do uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos, ampliando seu mercado inclusive entre agricultores familiares.


Tal modelo de produção tem levado ao surgimento de super-pragas, com grandes prejuízos econômicos e pressões para importação de agrotóxicos proibidos no país e pelo desmanche da atual legislação brasileira sobre agrotóxicos.


A Frente Parlamentar da Agropecuária e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) incidem de forma articulada e potente sobre temas como os direitos territoriais de povos quilombolas e indígenas, a reforma agrária, as florestas, a água, minerais, biodiversidade, direito ao trabalho e à saúde.


Exemplos claros são a lei n 12.873/13 e o decreto n 8.133/13, que estabelecem a anuência de importação, produção, comercialização e uso de agrotóxicos em situação de emergência fito ou zoosanitária, concedida apenas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), sem as avaliações prévias dos órgãos de saúde e de meio ambiente.


RIGOTTO et al (2014) assinala finalmente, que tramita atualmente no Senado o PLS 209/2013, que determina que um único órgão centralizará os procedimentos para avaliação dos agrotóxicos, de forma semelhante ao que acontece com as sementes transgênicas na Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), que em toda a sua história, jamais recusou uma liberação solicitada pelo setor econômico.



Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Aposentado do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.


Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.



Referências:


AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA). Relatório de Atividades de 2011 e 2012. Brasília: Agência Nacional de Vigilância Sanitária; 2013.


CARNEIRO, F. F., PIGNATI W., RIGOTTO R. M., AUGUSTO, L. G. S., RIZOLLO A. e MULLER, N. M., et al. Dossiê ABRASCO. Um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde. Parte 1 – Agrotóxicos, Segurança Alimentar e Saúde. Rio de Janeiro: ABRASCO; 2012.


CENTRO COLABORADOR DE VIGILÂNCIA EM ACIDENTES DE TRABALHO, Universidade Federal da Bahia. Acidentes de trabalho devido à intoxicação por agrotóxicos entre trabalhadores da agropecuária 2000-2011. Salvador: Centro Colaborador de Vigilância em Acidentes de Trabalho, Universidade Federal da Bahia; 2012.


CONSELHO NACIONAL DE SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL. Carta à Presidente Dilma Rousseff. Brasília: Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional; 2013. (E.M. n o 003-2013/CONSEA).


MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO. Brasil: projeções do agronegócio 2010/2011 a 2020/2021. Brasília: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento; 2011.


MONTEIRO D. Alguns elementos do contexto político no Brasil relacionado à agricultura e ao desenvolvimento rural. Rio de Janeiro: Articulação Nacional de Agroecologia; 2013.


SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE, Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico 2013; 44(10).


RIGOTTO , Raquel Maria, VASCONCELOS, Dayse Paixão e, ROCHA, Mayara Melo, Uso de agrotóxicos no Brasil e problemas para a saúde pública, Cad. Saúde Pública vol. 30 n. 7, Rio de Janeiro Jul. 2014, http://dx.doi.org/10.1590/0102-311XPE020714



in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/10/2019


terça-feira, 20 de agosto de 2019

Em Confresa (MT), ‘chuva’ de agrotóxicos expulsa agricultores familiares e polui as águas do território indígena Urubu Branco

Por Texto: Julia Dolce | Fotos: José Cícero da Silva




“A senhora pode aguentar tudo, resistir à pressão de todo o tipo, mas quero ver aguentar o veneno”, ouviu Valdiva de Oliveira e Silva, hoje com 66 anos, de um funcionário de “Gilbertão”, que queria expulsá-la de seu lote, no assentamento Gleba Novo Horizonte, em Confresa, Mato Grosso. O grileiro Gilberto – preso por grilagem, ameaça e uso de violência em 2009 – foi certeiro na previsão. A agricultora, uma liderança conhecida por suportar as ameaças de morte e agressões físicas de capangas, acabou vencida pela chuva de agrotóxicos despejada pelas produtoras de soja sobre os pés de pequi e laranja que lhe davam o sustento – quando as vacas começaram a morrer, ela foi a última a deixar a casa na comunidade de 80 famílias.

“Só não resisti ao veneno. Eu fiquei com a terrinha de 36 alqueires, no meio de uma área de 16 mil hectares de lavoura de cana. Era avião o dia inteiro, jogando inseticida, herbicida. Eles usavam de estratégia, minha área virou ponto de manobra do avião, ele fazia o retorno em cima da minha terra. O vento puxava o veneno e vinha uma chuva em cima de nós”, relata.

O canavial deu lugar às plantações de soja da Agropecuária Três Flechas sem que Valdiva conseguisse reaver o prejuízo – ela chegou a registrar Boletim de Ocorrência (BO) na delegacia de polícia de Confresa, mas nada aconteceu. O filho Moisés, então adolescente, passou a sofrer de uma alergia que perdura até hoje. Em 2015, foi por fim assentada na Gleba Independente I, também na zona rural de Confresa. Mas não conseguiu fugir do veneno. Quando mudou para lá, as comunidades da região já sofriam com a deriva (a aplicação do produto que se desvia do alvo) do glifosato, o agrotóxico mais utilizado pelo agronegócio brasileiro. A fazenda Luta, a maior produtora de soja transgênica da região, fica a apenas 4 km de sua casa.

Valdiva conta que já sabia que seria cercada pela soja. “E sei também que daqui a dez anos esses assentamentos onde estamos, onde tiver terra plana que dá para virar soja, vai virar. Não sei como vamos viver. Aqui já sentimos os efeitos, não sei se é da Luta, se é da fazenda que fica aqui atrás. Mas a mandioca embola o olho todinho, fica empedradinho. As plantas murcham, quebram, endurecem e não voltam mais”, enumera.

Cerca de 90% do território do município de Confresa é formado por assentamentos rurais, segundo a prefeitura. As quatro feiras semanais de alimentos, produzidos por quase 6 mil famílias assentadas, movimentam uma renda de R$ 3 milhões por ano. Nas palavras do secretário de Agricultura, Meio Ambiente e Turismo de Confresa, Iranilto de Matos Rodrigues, é essa renda que “faz a cidade girar”.

Ele próprio assentado e ex-executor do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) do Araguaia, Rodrigues destaca que a deriva dos agrotóxicos da fazenda Luta preocupa ainda mais porque ela fica “quase dentro” da sede do município e “na divisa com os índios”. Ele se refere à fronteira da Luta com a Terra Indígena (TI) Urubu Branco, um grande retângulo de floresta transitória entre o cerrado e a mata amazônica que o povo Apyãwa, conhecido como Tapirapé, luta para preservar. Os indígenas se queixam principalmente da poluição das águas, já que os ribeirões passam pela fazenda antes de se juntarem no córrego da Onça, no território deles. “Eles têm reclamado, os agricultores têm reclamado, nossos técnicos que têm propriedades lá ao redor também têm reclamado. Temos que achar uma forma mais pacífica de conviver, principalmente porque aqui acabam usando bastante a pulverização aérea”, diz o secretário.

O padre Alex Venuncio Gonçalves, coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Alto Araguaia, que há anos acompanha os conflitos fundiários resultantes da expansão da soja na região, faz uma denúncia ainda mais grave. Segundo ele, a pulverização tem sido utilizada como forma de expulsar os agricultores familiares, como aconteceu com Valdiva. “Num primeiro momento, foi a luta armada, pistoleiros. Depois, veio uma intensa judicialização, que frequentemente prejudicava os pequenos agricultores. Hoje temos uma guerra química: as derivas de veneno cumprem essa função, porque vão acabando com as produções dos camponeses, gerando uma situação de empobrecimento e pressionando-os a negociar seus lotes e sair”, diz.

Julia Dolce/Agência Pública



Depósito municipal de vasilhames de agrotóxicos em Confresa fica na fronteira com a propriedade da Fazenda Luta


A engenheira agrônoma Polyana Rafaela Ramos, professora do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), também alerta para a seriedade da situação. “Já ouvi muitos casos, a maioria dos assentamentos menores, que têm terras boas para o agronegócio, tem passado por isso. Eles ameaçam de forma velada ou diretamente com o veneno, vão comprando propriedades ao redor, e quem aguenta? Com gado morrendo, plantação morrendo, perdendo a saúde?”, questiona.
A fazenda Luta

Em janeiro de 2015, quando Valdiva deixava sua terra para ser reassentada na Gleba Novo Horizonte, três de seus futuros vizinhos registravam um Boletim de Ocorrência na Polícia Civil de Confresa contra a fazenda Luta por abandono de substâncias tóxicas nocivas ao meio ambiente, delito previsto na Lei dos Crimes Ambientais (Lei n° 2.848/40). Argildo Jornooki, conhecido como Russo por sua ascendência eslava, reclamava a perda do mandiocal, da plantação de jaca e abacaxi, que há 32 anos cultiva no lote de 13 hectares a 800 metros da sede da fazenda Luta. O apicultor Silvestre, seu irmão e vizinho, também atribuía à deriva do veneno da soja a morte das abelhas e a drástica redução da produção do mel, sua principal fonte de renda. O produtor José Valdir Duarte trazia o prejuízo no corpo, com problemas de pele causados pela deriva da pulverização aérea.

Um ano antes Russo, Silvestre e outros mais de 40 produtores do assentamento se reuniram para reclamar da deriva dos agrotóxicos a representantes da fazenda Luta. O veneno passou a afetá-los em 2013, exatamente quando a fazenda iniciava o plantio de soja nos 40 mil hectares comprados em 2012 da antiga Destilaria Gameleira, que foi à falência depois do resgate de 1.400 trabalhadores em trabalho análogo à escravidão. O gerente da fazenda Luta, Fernando Luiz Canan, genro do proprietário, Vítor Elísio Poltronieri, fez então um acordo informal com os agricultores. Russo diz que recebeu R$ 40 mil da fazenda, e o irmão, R$ 2 mil, além da promessa do gerente de que a deriva dos venenos seria controlada. Mas no ano seguinte a deriva foi ainda mais forte e o prejuízo maior, como vem ocorrendo até agora, dizem os agricultores.

Entre as propriedades que detinha na região, antes de comprar as terras da Gameleira, o catarinense Vitor era dono da madeireira Poltronieri Madeiras, no município de Sinop, e de uma transportadora, processada em 2009 e condenada em primeira instância por transporte irregular de madeira (o empresário recorreu e o processo está na Turma Recursal Única de Cuiabá). Poltronieri também foi processado pelo Ministério do Meio Ambiente acusado de desmatar 2.838,58 hectares no município de Ipiranga do Norte (MT) (condenado por Dano Ambiental em primeira instância, ele recorreu, e o processo está suspenso). A família tem fazendas em Ipiranga e em Sinop, onde o seu genro e gerente, Fernando Canan, foi condenado em outubro de 2018 em um processo administrativo por desmatar mais de 500 hectares de vegetação nativa.


De acordo com um ex-funcionário da fazenda Luta, que pediu para não ser identificado pela reportagem, era Fernando que comandava as pulverizações de agrotóxicos, embora a legislação exija que esse trabalho seja feito por um engenheiro agrônomo. O funcionário, que trabalhou na fazenda entre 2014 e 2018, disse que, embora as propriedades da família Poltronieri no Mato Grosso sejam supervisionadas por um mesmo engenheiro agrônomo, ele raramente acompanhava a fazenda Luta. “Eles [o gerente e o agrônomo] se comunicavam por e-mail, mas quase o ano todo quem determinava as aplicações era o Fernando”, na dosagem que “era conveniente para ele” e sem “seguir regras”, afirmou.

A Agência Pública teve acesso a uma perícia do Instituto de Defesa Agropecuária do Estado do Mato Grosso (Indea), de fevereiro de 2015, em que o engenheiro agrônomo e fiscal Kleube Pereira de Souza constatou a “utilização de agrotóxicos em desacordo com as recomendações constantes”, em receitas assinadas pelo agrônomo responsável pela fazenda Luta. “Os produtos Zapp QI 620, Nomolt 150 e Talstar 100 foram aplicados com dose ou cultura em desacordo com o recomendado.” O primeiro produto, patenteado pela Syngenta, é um herbicida classificado pela Associação Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como pouco tóxico. O segundo e o terceiro são inseticidas, respectivamente classificados como pouco e medianamente tóxicos.

A fazenda Luta não retornou as tentativas de contato presencial, telefônico e por email da Pública, que também não conseguiu falar com o proprietário da fazenda, Vítor Poltronieri, nem com o gerente, Fernando Canan. Em declaração anexada na ação civil pública aberta pelo Ministério Público Federal (MPF) em decorrência das denúncias dos agricultores, o advogado da fazenda Luta, Mário Sérgio dos Santos Ferreira Júnior, afirma que as aplicações feitas em torno dos agricultores se limitaram a fungicidas, e não herbicidas, o que impossibilitaria os danos alegados.
Evidências e lapsos

Amargando os prejuízos na roça e na saúde, os agricultores voltaram a procurar a Luta no ano seguinte. Dessa vez, ouviram que não tinham como provar que o prejuízo era causado pela fazenda e que, se quisessem reclamar, que entrassem na Justiça. Foi quando eles lavraram o BO, que não resultou em nenhuma investigação. Procuraram então um advogado, mas, segundo eles, ninguém queria pegar o processo. “Todo mundo tinha medo [da fazenda Luta], eles são grandes”, diz Russo.

Finalmente, em setembro de 2017, o advogado Luiz Octávio Moraes Martins aceitou representar o caso, e o inquérito policial 91.371 foi aberto para investigar as denúncias na Polícia Civil de Confresa. Em maio deste ano, a investigação chegou ao gabinete do juiz do Fórum da Comarca de Porto Alegre do Norte, segundo informou a assessora do juiz. Possivelmente, porém, o caso será arquivado, como recomenda uma minuta do Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPE) anexada ao processo consultado pela Pública no Fórum de Porto Alegre do Norte. A justificativa do MPE é que não “se vislumbra comprovação da materialidade delitiva”, já que não houve laudo pericial para atestar as denúncias.

Pela mesma razão, o inquérito civil sobre o caso, aberto paralelamente ao inquérito policial, também em 2017, na 1a Promotoria de Justiça Cível de Porto Alegre do Norte foi arquivado em maio deste ano. O promotor Marcelo Rodrigues Silva pediu arquivamento por ausência de laudo de dimensão dos prejuízos ambientais e do auto de infração. Segundo o promotor, “diante do lapso temporal decorrido” qualquer tentativa de apuração dos fatos seria “frustrada”.

No processo consultado pela Pública, porém, há laudos periciais feitos pelo Indea, comprovando sintomas de contaminação nas plantas dos agricultores. “Esses sintomas assemelham-se à fitotoxidez ocasionada por herbicidas sistêmicos”, afirma o documento, assinado pelo engenheiro agrônomo Reinaldo Moraes da Silva.

Mas, segundo o MPE, para que o processo fosse adiante, o advogado das partes teria que ter pedido perícia à Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), o que não fez. A Pública procurou Luiz Otávio Moraes Martins, mas ele não quis falar com a reportagem.

Para Russo, as provas do caso são “visíveis”. “Tem foto, testemunha, tá tudo bem montado. Mas não se acredita, não.” Em um grande espaço de seu lote, o agricultor deixa os restos do abacaxi que não vingou como prova da intoxicação. “Sempre achei que alguém fosse vir ver.”
Águas tapirapés

A engenheira agrônoma Polyana Rafaela Ramos, professora do IFMT, diz que a irresponsabilidade na aplicação de agrotóxicos nas fazendas é o mais comum. Mas, mesmo quando a pulverização é feita com cuidado, a deriva é inevitável, destaca. “Se não fizer as precauções, ela vai atingir velocidade e distâncias maiores, mas sempre vai existir. Aqui na região venta bastante, a deriva chega a quase 30 km. Não tem como controlar, mesmo com trator. Você diminui, mas acabar não acaba, é mentira”, afirma, categórica.

Polyana é mestre em ciências ambientais e, em sua dissertação, estudou as práticas agrícolas do povo Tapirapé. Segundo ela, os indígenas estão sofrendo com a deriva dos agrotóxicos especialmente pela contaminação dos córregos. “Não temos estudos que comprovem, até porque estudos que buscam indícios de agrotóxicos são caríssimos e pouquíssimas universidades hoje dispõem dos equipamentos necessários. Mas os córregos correm dentro da Luta e temos o etnoconhecimento, o relato da população, e prontuários médicos que dizem que pessoas tiveram intoxicação provavelmente causada por químicos na região, que coincidem com aplicações na região”, explica.

“A gente percebe o cheiro através do vento e aí dá sintomas de gripe. Mas temos fontes de ribeirão, que saem e entram no território. Todos os venenos vêm junto com a água, contaminam o lençol freático e também podem prejudicar, mesmo futuramente, a saúde do nosso povo”, diz o cacique Kamoriwai’i Elber Tapirapé, que acompanhou a reportagem da Públicaem uma visita de dez dias às aldeias.

O cacique conta que há cerca de dois anos os Tapirapé procuraram a fazenda Luta para pedir que as aplicações fossem feitas mais longe da fronteira com a Urubu Branco. “Falaram que eles jogam, mas não é problemático para o ser humano, que é só pra matar insetos que dão na lavoura”, diz Kamoriwai’i, que continuou preocupado. “A gente tem conhecimento que muitos estudos mostram como eles prejudicam o ser humano. Sabemos que muitas vezes não é imediato, leva tempo.”

Para os pajés, os primeiros a serem procurados pelos Tapirapé quando adoecem, a contaminação da água já está prejudicando a saúde das pessoas. Enquanto nos explica como cura seus pacientes, fumando e passando as mãos sobre eles, Marlene Tapirapé, pajé de 48 anos, diz devagar em português: “O branco joga lixo dentro da água e a água faz mal para a pessoa. A pessoa chega ruim do rio, dá dor de barriga. Antigamente não era assim não, agora o branco tá perto e tá trazendo mais doenças. Quando eu não sei a cura para o mal dos brancos, mando para o hospital”, diz. Marlene e seu filho Namoré, também pajé, vivem na aldeia Wiriaotawa, que fica bem próxima ao rio Tapirapé.

O agente de saúde indígena Arawy’i Jackson Tapirapé, que trabalha há 13 anos no posto da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) na Urubu Branco, conta que as principais doenças que acometem os cerca de 800 moradores da TI são resfriados e diarreia – o que, segundo ele, é resultado do aumento do consumo de produtos industrializados pela população indígena e do contato com água contaminada. “Tudo ao redor das aldeias é plantação de soja e milho com agrotóxicos, isso nos afeta muito. Muitos produtos são jogados, caem no rio Tapirapé, os peixes consomem e nós consumimos os peixes. Nos contaminamos também indiretamente”, explica, acrescentando que os principais afetados são idosos e crianças.

A Secretaria de Saúde de Confresa não respondeu às inúmeras tentativas da reportagem de ter acesso a laudos de intoxicação por agrotóxicos. Dados do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), do Ministério da Saúde, publicados pelo site Por Trás do Alimento, uma parceria entre a Pública e a Repórter Brasil, porém, mostram que entre 2014 e 2017 todos os 27 agrotóxicos testados pelo órgão foram detectados na água que abastece Confresa. A água da cidade é abastecida pelo córrego Cacau, que cruza a fazenda Luta. Além disso, 19 agrotóxicos foram detectados acima do limite considerado seguro na União Europeia, entre eles, justamente, o glifosato.
Produtores quebrados

Confresa é repleta de lojas de produtos agrícolas e revendedoras de insumos – é a soja que fez a população, atualmente de 30 mil habitantes, aumentar 4,7% ao ano, uma das maiores taxas de crescimento urbano do estado. A cidade funciona como dormitório para os caminhoneiros que, com o asfaltamento da BR-158, conhecida como uma das estradas da soja, aguardam para levar o produto para o porto de Itaqui no Maranhão, de onde é exportado.

Trata-se de um ciclo de desenvolvimento que não beneficia a população local, como observa o padre Alex. “Há o asfaltamento da BR-158, a chegada do linhão da energia elétrica. Isso, claro, é desenvolvimento para a região, mas vem dentro de uma lógica que não é para ligar cidades ou favorecer as populações que aqui habitam, mas em uma estrutura voltada para a soja. E o agronegócio das monoculturas em grande escala é voltado para a exportação, sobretudo para a China e para os Estados Unidos”, explica.

A reportagem conversou com Matheus Simões, funcionário da revendedora de agrotóxicos Brasil Rural, cuja principal parceira é a Bayer, antiga Monsanto. A loja, montada há três anos e meio, é uma das pioneiras no município. De acordo com Simões, só no ano passado foram abertas outras oito revendedoras de agrotóxicos na cidade; e no primeiro semestre deste ano, mais duas. O vendedor disse que, entre os herbicidas, o glifosato é o mais vendido. Patenteado pela Monsanto nos anos 1970, o produto já foi relacionado ao desenvolvimento cancerígeno por uma série de pesquisas ao redor do mundo. Apenas nos Estados Unidos, a Bayer já soma mais de 18 mil processos contra o uso de glifosato.

A aplicação por aviação agrícola de alguns herbicidas, como o 2,4-D, que costuma ser aplicado em conjunto com o glifosato, é proibida no Brasil. A pulverização aérea de agrotóxicos permitidos também é restringida a menos de 500 metros de povoações e 250 metros de rios e áreas de mananciais, o que é considerado insuficiente para garantir a saúde da população, segundo a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), que defende a proibição da pulverização aérea em todo o país.

Em audiência pública na Assembleia Legislativa do estado, no último mês de abril, o médico Wanderlei Pignati, professor do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e pesquisador da Abrasco, apresentou um dado impressionante: a exposição ao agrotóxico no Mato Grosso é quase dez vezes maior do que a média nacional, de 7,3 litros por pessoa. Pignati conduziu uma pesquisa no município de Lucas do Rio Verde (MT), entre 2007 e 2014, cujo resultado apontou a presença de agrotóxicos até mesmo no leite materno. Um mês depois dessa audiência pública, a Assembleia Legislativa do Mato Grosso deu parecer contrário ao Projeto de Lei 484/2019, que propunha a proibição da pulverização aérea no estado. Segundo dados da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja-MT), mais de 30% da área plantada com soja no MT utiliza aviação agrícola, e o estado possui a maior frota de aeronaves agrícolas do país, 494 unidades ao todo.

Enquanto isso, os agricultores familiares continuam sofrendo com o uso abusivo – quando não mal-intencionado, como denunciou o padre Alex – dos agrotóxicos. Para o agricultor Russo, por exemplo, a perda da produção por anos consecutivos acarretou na impossibilidade de continuar a pagar o tratamento de sua filha Cátia, de 27 anos, que ficou tetraplégica em um acidente de ônibus em 2008. A indenização da viação Xavante até hoje não foi recebida pela família. “Se não me atrapalhar, eu tiro até R$ 100 mil no ano. Mas os anos que eu mais produzi, que mais ia crescer, eles me derrubaram. Fiquei quase um ano sem colher. Gastava R$ 3.500 por mês com o tratamento dela em Cuiabá, tava difícil eu trabalhar e pagar pra ir lá visitar. Tô quebrado, não tem saída. Agora ela faz tratamento aqui no hospital de Confresa”, lamenta. Seu irmão, o apicultor Silvestre, também perdeu sua maior fonte de renda: a produção de mel, que chegava a 2 litros de mel por colmeia/ano.

Silvestre, Valdiva e outros agricultores familiares estão participando de um curso de agroecologia promovido pela Secretaria de Agricultura e Meio Ambiente de Confresa, em parceria com o IFMT, para assentados e indígenas. Em uma visita à TI Urubu Branco, Valdiva constatou que os prejuízos unem indígenas e agricultores familiares. “Todas as nações que estão aqui, fazendo todos os tipos de agricultura familiar, tão sendo punidas do mesmo jeito. Para nós, o veneno é um fracasso”, diz.



A reportagem é parte do projeto da Agência Pública chamado Amazônia sem Lei que investiga violência relacionada à regularização fundiária, demarcação de terras e reforma agrária na Amazônia LegalPor Texto: Julia Dolce | Fotos: José Cícero da Silva



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 20/08/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/08/20/em-confresa-mt-chuva-de-agrotoxicos-expulsa-agricultores-familiares-e-polui-as-aguas-do-territorio-indigena-urubu-branco/

quinta-feira, 16 de maio de 2019

O uso seguro de agrotóxicos é um mito, por Roberto Naime

Imagem: ENSP


Em entrevista realizada por Leila Leal, da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/FIOCRUZ), a professora Raquel Rigotto, do Departamento de Saúde Comunitária da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), defende o debate sobre uso de agrotóxicos como um tema estratégico e critica a ideia de que é possível utilizá-los de forma segura.

Sobre a importância da discussão sobre agrotóxicos na atual conjuntura assevera que “os agrotóxicos não podem ser vistos apenas como um conjunto de substâncias químicas que pode causar riscos químicos à saúde. Eles precisam ser entendidos no contexto em que são utilizados, que envolve o processo de modernização agrícola conservadora em curso no Brasil, que tem a ver com a reestruturação produtiva no campo e a divisão internacional da produção e do trabalho, na qual cabe ao Brasil a produção de “commodities” de origem agrícola. Este contexto mais geral precisa ser considerado, assim como o entendimento do agronegócio não apenas em sua dimensão de latifúndios e monoculturas, mas também como um subsistema técnico e político que envolve o capital financeiro, a indústria química, a indústria de biotecnologia, sementes, fertilizantes, tratores e toda a indústria metal-mecânica. Esse contexto determina a vulnerabilidade das populações aos agrotóxicos. E que populações são essas? Temos em primeiro lugar os trabalhadores das empresas, mas também outros segmentos de trabalhadores que são influenciados por esse processo, como os pequenos produtores. No Ceará, os pequenos produtores foram colocados na condição de parceiros do agronegócio, o que na verdade é uma forma de terceirização. O cultivo de fumo no Rio Grande do Sul também é um exemplo disso, são pequenos produtores que estão completamente subordinados às exigências da indústria fumageira. Além desses trabalhadores, são atingidos os moradores dessas regiões. No Mato Grosso, há municípios completamente cercados pelo agronegócio, que atinge até mesmo a reserva do povo Xingu. Há rios que nascem fora de suas reservas e cuja água já entra no território indígena contaminada por agrotóxicos. Há também a questão dos consumidores de alimentos, que têm uma ingestão diária aceitável de veneno. É o ‘veneno nosso de cada dia’ na alimentação. E temos os trabalhadores que fabricam esses venenos. Há conflitos ambientais já identificados com esses trabalhadores de fábricas e as comunidades do entorno das fábricas, que são contaminadas. No nordeste, há uma fábrica de agrotóxicos que tem problemas sérios com 11 bairros na sua vizinhança por causa da sua contaminação atmosférica. Além disso, a questão dos agrotóxicos é abrangente porque vai nos ajudar a resgatar a inter-relação campo e cidade. Na medida em que o país se urbaniza, tendemos a pensar o Brasil como um país urbano, e há uma conotação simbólica de que isso nos aproxima mais do perfil dos países desenvolvidos e deixa para trás o ‘atraso do campo’, perdendo de vista que há uma dinâmica rural-urbana fundamental. Isso se expressa na produção de alimentos, na manutenção de riquezas naturais como a água, os microclimas, as chuvas (importantes para a cidade e “produzidas” no campo) e também do ponto de vista da organização do campo. A concentração de terra, que expulsa pessoas das áreas rurais, faz com que as cidades fiquem cada vez mais ingovernáveis, por causa da migração e de todos os processos de degradação da qualidade de vida, como a violência, as drogas e outros. Enfim, faz com que toda a problemática ambiental urbana cresça. Os agrotóxicos dão oportunidade para discutirmos tudo isso, e também para debatermos a ciência e seus limites hoje. Há substâncias químicas que nos mostram a insuficiência dos conhecimentos produzidos para que possamos ter alguma segurança ao lidar com elas. Um exemplo é o problema da exposição múltipla a vários ingredientes ativos, que ainda carece de respostas. São várias situações que nos colocam os limites da ciência e que também desafiam o Estado, porque não há como tratar os problemas dos agrotóxicos apenas como problema agrícola ou agrário, apenas como problema de saúde ou de meio ambiente. Esse é um problema que perpassa diversos setores das políticas públicas e exige uma atuação integrada, o que também é um exercício interessante de se fazer”.

Provocada sobre o destaque da importância de se esclarecer se estamos discutindo agrotóxicos e saúde ou agrotóxicos e doença. Qual a diferença entre as abordagens e o que isso significa para o debate, arguiu “na cultura positivista que temos, existe uma certa tendência, tantos dos empresários como algumas vezes até da própria mídia, de procurar por agravos à saúde que pudessem ser atribuídos aos agrotóxicos, identificando e quantificando casos. É como se, para validar a questão dos agrotóxicos como um problema digno de atenção, relevante e urgente, dependêssemos disso, como se precisássemos ter geração e comprovação da doença para começarmos a pensar no assunto e nos problemas dos agrotóxicos. O que estamos propondo é que o conhecimento sobre a nocividade dos agrotóxicos está dado “a priori”, porque ao defini-los como agrotóxicos estamos dizendo que são biocidas, que fulminam a vida, e ao atribuir a eles uma classificação toxicológica que vai de pouco tóxico a extremamente tóxico também estamos deixando isso claro. Não há nenhuma classificação que seja “não-tóxico”. O mesmo acontece em termos da classificação ambiental, que se relaciona à resistência do solo, e aos estudos da biomagnificação, teratogênese, mutagênese e carcinogênese (referentes ao acúmulo de produtos tóxicos ao longo da cadeia alimentar e à possibilidade de anomalias e malformações fetais, mutações genéticas e desenvolvimento de câncer). Então, os agrotóxicos já estão classificados nesse sentido. Não há que se perguntar se são veneno ou remédio, está claro que são um tipo de veneno. Esse potencial de dano está dado, e defendemos que não precisaríamos provar a existência do dano para postergar políticas públicas e iniciativas dos agentes econômicos para combater esse problema. Poderíamos, desde já, estar trabalhando na perspectiva de que existe um risco e um contexto de risco, partindo para o controle desses riscos”.

Sobre a dificuldade de estabelecer relações entre exposição humana aos agrotóxicos e os danos à saúde, argumenta que “os efeitos crônicos causados pela exposição a agrotóxicos são muito diversificados. Cada composto e princípio ativo tem um perfil toxicológico e uma nocividade própria, e isso se relaciona a uma série de patologias que vão desde dermatoses até infertilidade, abortamento, malformações congênitas, cânceres, distúrbios imunológicos, endócrinos, problemas hepáticos e renais. Mas todas essas patologias têm etiologias variadas, o que significa que podem ser causadas por outros elementos que não os agrotóxicos. E, como somos acostumados a fazer raciocínio muito linear entre doença e agente causal, isso fica muito complicado. É possível, por exemplo, quando uma empresa quer se negar a assumir suas responsabilidades, que ela diga que o trabalhador teve uma leucemia porque a família tem carga genética para isso. Do ponto de vista epidemiológico, os estudos têm evidenciado essas correlações, demonstrando que populações mais expostas, comparando com não expostas, têm carga maior de doenças. Mas gerar essa informação é difícil. No caso do Ceará, o instituto que recebe a maioria dos cânceres hematológicos não tem na sua ficha de investigação o dado sobre a ocupação do trabalhador. Isso é um exemplo da dificuldade que temos para fazer um perfil que relacione a ocupação e, por consequência, o contato com agrotóxicos, a uma determinada doença”.

Auscultada sobre um discurso muito difundido de que os agrotóxicos seriam uma necessidade para garantir a produção de alimentos, e de que sem eles “o mundo morreria de fome”. A partir daí, a proposta é desenvolver formas seguras de lidar com os agrotóxicos. Qual a sua opinião sobre isso? O “uso seguro” é possível, se manifesta “a ‘Revolução Verde’, que é o momento que marca na história da humanidade a questão dos agrotóxicos, aconteceu há cerca de 50 anos. A humanidade tem cerca de 8 mil anos de história conhecida na agricultura, e nós vivemos e nos alimentamos por todos esses milênios sem os agrotóxicos e transgênicos (o que é um outro argumento muito comum agora, de que, de repente, não podemos mais viver sem os transgênicos). É claro, há relatos de que desde os povos mais antigos havia uso de algumas substâncias para controle de pragas e de processos de cultivo, a humanidade tem um acúmulo nesse sentido. Estou me referindo a esse uso massivo de agrotóxicos, estimulado pela indústria química, que pode fazer propaganda na televisão, ter isenção de impostos como o ICMS, IPI, Cofins, PIS/Pasep. Então, a primeira coisa importante de tomarmos consciência é que já vivemos muitos anos como humanidade sem os venenos, e que depois do uso de venenos a produtividade da agricultura certamente elevou-se, mas a segurança e a soberania alimentar da humanidade não. Continuamos tendo quase um bilhão de pessoas desnutridas ou subnutridas no mundo, então está clara que essa não é uma crise que seja explicada pela subprodução, mas sim pela má distribuição. Isso se deve ao fato de que aquilo que o agronegócio e a modernização agrícola produzem não são alimentos, mas sim “commodities”, o que é muito diferente. Há todo um aparato jurídico, institucional, legal, para regular o uso de agrotóxicos e o que vemos é que esse aparato não tem sido eficaz. O que se vê é que, desde o processo de normatização, houve interferência. Temos documentos dos produtores de agrotóxicos em que afirmam a sua estratégia de interferir no processo regulatório, fazer “lobby”, interferir na capacitação dos servidores públicos e dos operadores de direito que lidam com essa área. Então, desde o início da regulação, há problemas. Quantos desses estatutos que estão previstos na legislação funcionam efetivamente? O receituário agronômico não funciona e há pouquíssimos laboratórios, no país inteiro, que são capazes de fazer análise da água e da contaminação humana por agrotóxicos. Um dos grandes dramas é esse, podemos colocar em portaria todos os 450 ingredientes ativos de veneno registrados que temos no Brasil, mas onde vão ser analisados para cada uma das prefeituras de cada um dos quase 6 mil municípios do nosso país? Não temos essa capacidade instalada. Fazemos o licenciamento ambiental desse empreendimento, mas não temos condições de monitorar se as condicionantes e requisitos colocados no licenciamento são cumpridos, porque não há fiscal, não tem diária, não tem aparelho e laboratório. Há também uma série de argumentos que foram trazidos pelo Censo Agropecuário, através do qual podemos constatar que há mais de 5 milhões de estabelecimentos com mais de 16 milhões de trabalhadores rurais dos quais um número significativo é de crianças, com escolaridade considerada baixa. Como podemos pensar em uso seguro numa vastidão dessa? A assistência técnica é precária. O Censo mostra que as propriedades que mais receberam assistência são aquelas acima de 200 hectares, ou seja, há milhões de propriedades de pequenos produtores que estão à revelia de assistência técnica. Como podemos imaginar que o uso seguro acontecerá assim? Qualquer pessoa pode chegar a uma loja e comprar o veneno que o balconista estiver interessado em vender e usar do jeito que o balconista ensinar. É muito difícil pensar em uso seguro assim”.

Sobre um despreparo dos profissionais de saúde e do próprio SUS para lidar com essa questão, disse “do ponto de vista da Política Nacional de Saúde do Trabalhador, temos previstas ações que vão desde a atenção básica, que seria principalmente através da Estratégica de Saúde da Família, até os Centros de Referência em Saúde do Trabalhador, com ações hierarquizadas. A proposta é muito interessante. Mas o que vemos, especialmente no Ceará, é que a forma como o SUS chega aos territórios que sofreram profundas transformações pelos processos de modernização agrícola é insuficiente. Os profissionais da atenção primária estão completamente absorvidos pela assistência médica, têm pouco tempo de fazer as outras ações pensadas para sua atuação e conhecem muito pouco a dinâmica viva dos territórios em que as unidades de saúde estão inseridas. Então, têm poucas notícias sobre a instalação de empresas de agronegócio, não sabem se há trabalhadores migrantes que vêm para atender demanda de força de trabalho sazonal, para, por exemplo, a colheita do melão (que é um caso muito comum), que estão sem suas famílias e que isso causa a expansão de uma rede de prostituição, o que gera outros problemas, como gravidez indesejada na adolescência, uso de drogas e doenças sexualmente transmissíveis, inclusive Aids. Então, para o sistema de saúde que está ali absorvido em diagnosticar e tratar doenças, embora estejamos tentando superar esse paradigma, isso nem sempre é possível, é difícil enxergar essas dinâmicas. A resposta às novas necessidades de saúde tem sido insuficiente, é isso que mostrou o estudo realizado pela Vanira Mattos na UFC. Há experiências ricas pelo Brasil afora, mas estou falando de um olhar local do Ceará. Ainda não conseguimos, ao longo dos três anos da nossa pesquisa, envolvê-los no atendimento a esses trabalhadores, nem desenvolver conjuntamente as ações de vigilância sanitária, epidemiológica, ambiental e em saúde do trabalhador, que ainda não estão acontecendo adequadamente”.



Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.



Referência:
https://www.ecodebate.com.br/2015/05/05/professora-da-universidade-federal-do-ceara-critica-ideia-de-que-e-possivel-utilizar-agrotoxicos-de-forma-segura/



in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/05/2019




Autor: Dr. Roberto Naime
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 16/05/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/05/16/o-uso-seguro-de-agrotoxicos-e-um-mito-por-roberto-naime/

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Sobre o mapa dos agrotóxicos na água

https://apublica.org/2019/05/sobre-o-mapa-dos-agrotoxicos-na-agua/

Fonte: Agência Pública

Resumo:

Com dados do Ministério da Saúde, mapa revelou contaminação da água em todo o país. Apesar de ataques, a Repórter Brasil e a Agência Pública seguem investigando os agrotóxicos, tema de amplo interesse público devido à sua importância para a saúde, o meio ambiente e a economia

Por Redação

Em 15 de abril, publicamos um mapa sobre a presença de agrotóxicos na água produzido com os dados de controle do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), ligado ao Ministério da Saúde. O mapa é resultado de um esforço jornalístico em conjunto das agências de jornalismo brasileiras Repórter Brasil e Agência Pública em parceria com a organização suíça Public Eye.

A ferramenta permite que qualquer brasileiro possa consultar se agrotóxicos foram detectados de 2014 a 2017 na água que sai da torneira da sua cidade.

Os dados do Ministério da Saúde demonstraram uma realidade inquietante: milhares de cidades encontraram vestígios de agrotóxicos na água em medições realizadas neste período. Embora a maioria dos testes revelasse concentração dentro dos limites permitidos pela lei brasileira, em diversos casos esses níveis estiveram acima do que é considerado seguro no Brasil. Comparando com os padrões europeus, os dados revelam que grande parte da água dos municípios analisados seria qualificada como imprópria na Europa.

Desde que foi publicado, as informações do mapa foram utilizadas por 393 jornais, rádios e sites pelo Brasil. A repercussão revela que essas informações são de amplo interesse da população. Além de reforçar a importância da transparência de dados sobre a qualidade da água e sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde humana e meio ambiente.

As informações geraram ainda impacto local, graças ao trabalho de veículos regionais. O portal G1 de Cabo Frio, por exemplo, entrou em contato com os responsáveis pela divulgação das informações em 50 cidades do interior Rio de Janeiro, das quais 36 estão sem dados no mapa. Questionadas, empresas de abastecimento e prefeituras se comprometeram a passar a enviar os resultados dos testes ao Sisagua. A mesma promessa foi dada à equipe do portal G1 do Sul de Minas, que fez uma série de matérias veiculadas pela EPTV, sucursal da TV Globo. Na Bahia, o jornal Correio aprofundou os dados em matéria de capa. Uma das cidades destacadas é Mucugê, destino turístico famoso por seus rios e cachoeiras dentro da Chapada Diamantina. A reportagem revela que a água do município estaria sob impacto das plantações de batata, morango e tomate.
Metodologia

Para acessar os dados, primeiro a reportagem entrou com um pedido pela Lei de Acesso à Informação. O Ministério da Saúde enviou a base do Sisagua em abril de 2018 e, meses depois, passou a divulgar os dados atualizados no site Dados Abertos, do governo Federal.

A base de dados completa, recebida pela reportagem em abril de 2018, pode ser baixada neste link: base de dados enviada pelo Ministério da Saúde. São esses os dados utilizados no mapa. É importante salientar que, como o banco do Sisagua é atualizado de modo constante, as informações que foram acrescentadas depois de abril de 2018 não estão no mapa.

Como os dados estão classificados com termos técnicos de difícil entendimento, a reportagem consultou os manuais sobre a metodologia e entrou em contato com o Ministério da Saúde. Em janeiro de 2019, a pasta enviou os seguintes esclarecimentos, com as orientações sobre como interpretar os resultados:

– “Valor Numérico, quando é possível quantificar a concentração da substância analisada”;

– “Menor que o Limite de Quantificação (< LQ), quando é possível identificar a presença, mas não a concentração existente”

– “Menor que o Limite de Detecção (< LD), quando a substância está ausente ou em concentração inferior àquela que o equipamento consegue detectar.”

Além desses indicadores, a base de dados também traz o código “VMP”, que significa Valor Máximo Permitido. O VMP indica qual é a concentração máxima na água que é considerada segura no Brasil.

São esses os parâmetros enviados pelo Ministério da Saúde e reproduzidos no mapa.

Vale ressaltar que o Sisagua reúne um complexo banco de dados, pois recebe resultados de testes feitos em todo o país. As medições são feitas pelas mesmas empresas que fornecem a água que são as responsáveis por testar a presença de 27 agrotóxicos na rede que abastece as cidades. As informações são enviadas ao Sisagua pelas próprias empresas, ou por secretarias estaduais e municipais.

A lei brasileira determina que os fornecedores de água no Brasil devem realizar os testes a cada seis meses. Muitas não fazem os testes, ou não enviam os dados, descumprindo a lei.
Questionamentos

Após a publicação do mapa, algumas empresas de abastecimento entraram em contato com questionamentos sobre a leitura dos dados enviados ao Sisagua.

Nossos jornalistas checaram todos os casos e se certificaram de que as informações divulgadas estão condizentes com os dados da tabela enviada pelo Ministério da Saúde, assim como com a metodologia de leitura enviada pelo órgão.

A reportagem encaminhou os questionamentos sobre o Sisagua ao Ministério da Saúde e aguarda um retorno desde então. Caso o órgão decida por rever a metodologia de leitura, assim como corrigir alguma informação, a base será atualizada no mapa.

Na última semana, associações e sindicatos patronais ligados ao agronegócio passaram a atacar o trabalho de jornalismo de dados com a publicação de notas, matérias em sites e até memes acusando a publicação de Fake News. A Agência Pública e Repórter Brasilentendem que o termo está sendo usado com a intenção de atacar a credibilidade da informação publicada por duas organizações de jornalismo investigativo com uma trajetória reconhecida que, juntas, somam mais de 60 prêmios nacionais e internacionais.

A Repórter Brasil e a Agência Pública comprometem-se a seguir investigando com rigor e divulgando reportagens sobre agrotóxicos, um tema de amplo interesse público devido a sua importância para a saúde pública, meio ambiente e economia.

A parceria entre as agências para investigar este assunto teve início em dezembro de 2018 e, desde então, produziu dezenas de reportagens e notícias sobre o tema. O material pode ser encontrado no site Por Trás do Alimento, assim como mais informações sobre este projeto de cobertura.



Esta nota faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de Agrotóxicos no Brasil. A cobertura completa está no site do projeto.




Autor: ENRIQUE MÜLLER
Fonte: Agência Pública
Sítio Online da Publicação: Agência Pública
Data: 07/05/2019
Publicação Original: https://apublica.org/2019/05/sobre-o-mapa-dos-agrotoxicos-na-agua/