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quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Mineração de criptomoedas e o acordo de Paris

Foto: © Michael Wensch/Domínio Público

Mineração de criptomoedas e o acordo de Paris, por Eduardo Henrique Silva Souza e Vivaldo José Breternitz
Apesar de estarem se tornando um pouco mais populares e terem criado milionários da noite para o dia, as criptomoedas ainda têm um longo caminho a percorrer para serem conhecidas e aceitas por grande parte da população.

Enquanto Miami está se tornando uma criptocity, negociando casas em bitcoins, utilizando a tecnologia de blockchain para registrar escrituras de imóveis e até mesmo planejando o pagamento de salários dos funcionários públicos com essa criptomoeda, a China proibiu qualquer tipo de operação com esses ativos no país, alegando o elevado consumo de energia exigido, mas provavelmente também preocupada com a estabilidade de seu sistema financeiro.

Além de falta de conhecimento de grande parte da população, as criptomoedas ainda enfrentam outro obstáculo: a pegada de carbono. Sem considerar outras criptomoedas, apenas a mineração de bitcoins gera tanto CO2 quanto a Irlanda ou a Grécia. Isso acontece em função de a mineração e o processamento das transações com esses ativos exigirem muita computação e, consequentemente, muita energia elétrica.



Após as barreiras lançadas pela China, foi detectado um aumento considerável de mineração de bitcoins na Suécia, o que levou o governo desse país a pedir à União Europeia que proíba essa atividade, alegando que a mineração, apenas no país, consome energia suficiente para abastecer 200 mil residências e que para minerar uma bitcoin se consome energia suficiente para rodar 1,8 milhão de quilômetros em um carro elétrico.

Enquanto se prepara para impor restrições à mineração em seu território, a Suécia pede também que as empresas envolvidas com a mineração de criptomoedas sejam proibidas de se certificarem como negócios sustentáveis. Segundo o governo sueco, se a proibição da mineração não ocorrer, será impossível à União Europeia atingir as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris em termos de combate ao aquecimento global.

Eduardo Henrique Silva Souza é Mestrando em Computação Aplicada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e empresário da área.

Vivaldo José Breternitz, Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor do Programa de Mestrado Profissional em Computação Aplicada da Universidade Presbiteriana Mackenzie .


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/12/2021





Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 13/12/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/12/13/mineracao-de-criptomoedas-e-o-acordo-de-paris/

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Águas Naturais Afetadas por Mineração, artigo de Carlos A. de Medeiros Filho


in https://www.wikiwand.com/en/Acid_mine_drainage

O estudo das características geoquímicas das águas naturais afetadas pelas atividades de mineração é um assunto de significativa importância na ciência ambiental.

Schmiermund & Drozd (1997) e Wildeman & Schmiermund (2004) relatam que o termo “Drenagem Ácida de Minas” (DAM) tem seu uso comum como uma expressão descritiva aplicada à maioria dos tipos de águas influenciadas pela mineração. Os autores consideram, entretanto, que essa denominação e amplitude do termo são inadequadas.

Nem todas as águas encontradas nas operações mineiras e industriais são iguais. Rotular todas essas águas como DAM e o não entendimento da química dessas águas pode levar a erros na definição das causas das contaminações e, consequentemente, pode deixar de atender aos objetivos do tratamento, causando falhas no método de limpeza (1, 2).

Muitas dessas águas são de fato ácidas com pHs significativamente inferiores a 7,0, dando legitimidade ao termo “Drenagem Ácida de Minas” (DAM). Entretanto, o baixo pH não é uma característica universal das águas naturais influenciadas pela mineração. A drenagem de minas também pode ser neutra ou alcalina, e o aspecto mais ambientalmente sério de alguma drenagem pode não ser seu baixo pH, mas sim seu conteúdo de metais pesados, teores de ferro ou alumínio, concentrações de sulfato ou arseniato ou sólidos suspensos (1,2).

Schmiermund & Drozd (1997) e Wildeman & Schmiermund (2004), considerando o conjunto de águas afetadas por trabalhos mineiros, defendem a expressão mais abrangente de “águas influenciadas por mineração“ (AIM) e propõem uma divisão, dessas águas, em quatro categorias:

a) A drenagem ácida de minas (DAM) ou drenagem ácidas de rochas (DAR) é um AIM que possui acidez mineral. Inclui todas as águas com acidez mineral que podem ser encontradas em uma operação de mineração e não apenas a água que flui de galerias e poços. DAM ou DAR de pilhas de estéril, paredes de poço e estéril estão incluídas.

b) As águas marginais possuem alcalinidade e pHs em torno de 7. No entanto, apresentam um ou dois contaminantes inorgânicos que estão acima dos padrões de concentração para organismos aquáticos.

c) Águas de processamento mineral têm alcalinidade e pH acima de 7. No entanto, elas contêm ânions solúveis, como arsenato e selenato, que persistem através do circuito de processamento mineral. Além disso, as águas dos circuitos de processamento de cianeto contêm esse constituinte e outros metais, como ferro e cobre, que são complexados pelo cianeto.

d) As águas residuais têm pHs acima de 7 e um alto nível de sólidos totais dissolvidos. Os constituintes que compõem os sólidos dissolvidos são cátions, como sódio e potássio, e ânions, como cloreto e sulfato, que persistem na água até o mar.


A figura 1 ilustra variações no pH e na concentração de metais de diferentes “águas influenciadas por mineração” do Cinturão Mineral do Colorado

A figura 1 ilustra variações no pH e na concentração de metais de diferentes “águas influenciadas por mineração” do Cinturão Mineral do Colorado. Os diferentes símbolos, no gráfico, representam diferentes tipos de depósitos minerais, com diferentes assembleias minerais, rochas hospedeiras ou alterações (1). Fica evidente a presença de casos de águas com pH superiores a 6, mas com valores relevantes da associação de metais tóxicos (Zn + Cu + Cd + Pb + Co + Ni).

Uma classificação alternativa, para ser discutida, é dividir as “águas influenciadas por mineração” (AIM) em três grupos, considerando os valores de pH.

Classe 1 – compreendendo águas com pH < 6. Incluiriam os clássicos tipos de drenagem ácidas de rochas (DAR)

Classe 2 – compreendendo águas com 6 ≤ pH < 8 e, portanto, correspondendo a águas neutras ou próximas a neutralidade.

Classe 3 – compreendendo águas com pH > 8 e correspondendo, portanto, a águas alcalinas.

Em cada um dos três grupos, poderiam haver subdivisões em relação, por exemplo, a concentrações de metais tóxicos individuais ou em conjunto; quantidade de sólidos totais dissolvidos; teores de Fe e Al e concentração de cianetos.

Essas classificações ressaltam outras possibilidades de tratamento além da adição de alcalinidade, comum no tipo de drenagem ácidas. Quando estas classificações mais diversificadas de águas são aplicadas, existem uma série de questões de tratamento que devem ser consideradas.

Referências Bibliográficas

1 – Schmiermund, R.L., and Drozd, M.A., eds., 1997, Acid mine drainage and other mininginfluenced waters (MIW), in Marcus, J.J., ed., Mining environmental handbook: London, Imperial College Press, Chapter 13, p. 599-617.

2 – Wildeman, T.R.; Schmiermund, R.L. 2004. Mining Influenced Waters: Theirs Chemistry and Methods of Treatrament. 2004 National Meeting of the American Society of Mining and Reclamation and The 25th West Virginia Surface Mine Drainage Task Force.

Carlos Augusto de Medeiros Filho, geoquímico, graduado na faculdade de geologia da UFRN e com mestrado na UFPA. Trabalha há mais de 35 anos em Geoquímica em Pesquisa Mineral e Ambiental


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 03/11/2020




Autor: Carlos Augusto de Medeiros Filho
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 03/11/20
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/11/03/aguas-naturais-afetadas-por-mineracao/

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Por territórios livres de mineração, artigo de Gilvander Moreira

Por territórios livres de mineração

Por Gilvander Moreira1

Dias 1º e 2 de dezembro último (2019), estivemos no município do Serro, na região do Alto Jequitinhonha, MG, participando da luta para impedir a instalação da mineradora Herculano no município do Serro. Fizemos reuniões com comunidades nos distritos de São Gonçalo do Rio das Pedras e em Milho Verde, duas comunidades que são ainda verdadeiros paraísos naturais, com muitas cachoeiras, ar puro e bioma do cerrado ainda preservado, mas agora sob ameaça das mineradoras. Na cidade do Serro participamos de uma Assembleia Popular contra a mineração. A luta contra a chegada de mineração no município do Serro, em MG, só cresce. Em 2015, o povo organizado rechaçou a instalação da mineradora Anglo American que queria expandir a devastação que está causando no município de Conceição do Mato Dentro, município vizinho. O povo está descobrindo os enormes impactos socioambientais que a mineração poderá causar na região, caso se instale. O povo está vendo as imensas violências que a mineradora Anglo American está causando no município vizinho de Conceição do Mato Dentro. Uma série de mentiras das mineradoras está sendo desmascarada. Dom Vicente Ferreira, bispo da região de Brumadinho, MG, integrante da Comissão de Ecologia Integral e Mineração da CNBB2, está repetindo: “A mineração em Minas Gerais está sendo criminosa”. É mentira, por exemplo, dizer que mineração gera emprego, pois na realidade gera muito mais desemprego do que emprego. É mentira dizer que mineração traz progresso, porque na realidade traz é miséria e violência para os territórios. O empobrecimento dos municípios onde há mineradoras é comprovado por pesquisas científicas. A exploração minerária provoca colapso no abastecimento de água, destrói a agricultura familiar, aumenta a insegurança da população, destrói as condições objetivas para o turismo e afeta o patrimônio histórico cultural da região.

Estamos na luta para conquistarmos a anulação da declaração de conformidade para o empreendimento minerário concedida pelo prefeito do município do Serro, Guilherme Simões Neves. Exigimos a realização de estudos independentes que analisem criticamente as informações apresentadas pela mineradora Herculano e a garantia de participação popular nos processos de decisão sobre a mineração no município do Serro. O povo já percebeu que minerar no Serro faz parte dos interesses mercadológicos da mineradora Anglo American que insiste em expandir para além de Conceição do Mato Dentro.

Na Assembleia Popular contra a mineração no Serro, em MG, tivemos a alegria e a responsabilidade de estar ao lado de Mateus Mendonça Leite, professor de Direito na PUC/MG, e advogado da Federação das Comunidades Quilombolas do Estado de Minas Gerais. Mesmo ameaçado de morte e processado pela mineradora Herculano, o Dr. Mateus Mendonça denunciou, mais uma vez, que a implantação de um empreendimento minerário predatório, coloca em risco a segurança hídrica da população serrana, o patrimônio cultural formado pelo conjunto arquitetônico e urbanístico do centro histórico da cidade do Serro e o modo de ser e viver das comunidades quilombolas de Queimadas. A mineradora tentou judicialmente proibir o advogado Mateus Mendonça de falar contra a instalação de mineração no Serro, mas o TJMG3 garantiu o direito do advogado Mateus Mendonça continuar alertando o povo sobre as violências que a mineração trará ao município do Serro, caso seja instalada.

Mateus Mendonça recordou Sobral Pinto, grande advogado do povo brasileiro nos anos de chumbo da ditadura de 1964. Ao ser questionado sobre o que é o advogado, Sobral Pinto respondeu: “O advogado só é advogado quando tem coragem de se opor aos poderosos de todo gênero que se dedicam à opressão pelo poder. É dever do advogado defender o oprimido. Se não o faz, está apenas se dedicando a uma profissão que lhe dá sustento e à sua família. Não é advogado“. Essa resposta de Sobral Pinto é uma luz a todos/as que se engajam na luta pela superação das violências e opressões da sociedade capitalista/colonial.

Faço questão de reproduzir aqui o que o advogado Mateus Mendonça disse na Assembleia Popular no Serro contra a mineração: “Sou advogado e continuarei a defender o respeito aos direitos étnicos e territoriais das comunidades quilombolas contra as opressões provenientes do agronegócio, da mineração e da especulação imobiliária. Jamais disponibilizarei minhas habilidades de advogado para defender a iniquidade, a injustiça e a opressão. Tenho verdadeira ojeriza daqueles operadores do direito (que não merecem ser chamados de advogados) que defendem qualquer causa se lhe forem garantidos bons honorários advocatícios. A luta das comunidades quilombolas do Serro, que tenho a honra de dar minha contribuição, é a continuidade da resistência histórica à opressão, é a continuação da revolta dos escravos acontecida na região do Serro em 1864, há mais de 150 anos. Continuamos na luta para honrar os ancestrais quilombolas.”

Parodiando Sobral Pinto, digo que é dever de todo padre e de todo pastor defender os oprimidos e explorados. Líder religioso que não defende os injustiçados se torna falso pastor, falso sacerdote, falso profeta. Defender os explorados se faz não apenas sendo solidário, mas engajando em lutas por justiça, pois se fica só na solidariedade não se mexe nas causas geradoras das injustiças. Na Bíblia, os profetas Jeremias e Ezequiel esbravejam contra os falsos pastores: “Ai dos pastores que expulsam minhas ovelhas … e não cuidam delas” (Jeremias 23,1-4). “Ai dos pastores que cuidam apenas de si mesmos. […] Vocês dominam com violência e opressão. […]” (Ezequiel 34,1-10). Os padres, bispos, pastores e leigos com poder religioso que amputam a dimensão social do Evangelho de Jesus Cristo, que desencarnam a mensagem bíblica desvinculando a relação intrínseca existente entre fé e problemas sociais se tornam muitas vezes cúmplices das opressões que se abatem sobre o povo, pois, em vez de animar o povo para se organizar e lutar pelos direitos sociais, ficam atraindo o povo para “tocas religiosas” – oásis em contextos de cruéis opressões políticas e econômicas – e, assim, reproduzem a ideologia dominante na sociedade que tenta justificar a imensa desigualdade social reinante no nosso país.

O grito geral do povo do Serro é “Mineração aqui, NÃO!” Esse grito está sendo ecoado em todos os territórios que estão sendo violentados pelas mineradoras em conluio com o Estado. Propositivamente, o povo exige: “Queremos nosso território livre de mineração!”.

Com o papa Francisco, com o Sínodo para a Amazônia, com os ensinamentos e testemunho de Jesus Cristo e de todos os/as mártires devemos seguir lutando pela construção de uma sociedade do Bem Viver e Conviver, o que passa pela superação do capetalismo, essa máquina de moer vidas humanas e vidas de todos os seres vivos. Quando eu era criança, sobrevivendo escravizado em latifúndios, trabalhando à meia, cortei muitas árvores com machado ou foice. Arrependo-me disso. Hoje não tenho mais coragem de cortar nenhuma árvore, porque descobri que as árvores são usinas produtoras de oxigênio e fábricas de assimilação de gás carbônico. Portanto, quanto mais árvores houver mais oxigênio teremos no ar e menos gás carbônico teremos no ar. E, ao contrário, quanto menos árvores, menos oxigênio e mais gás carbônico no ar. As árvores também são sagradas. Assim como a água, o irmão oxigênio é fonte de vida. O Deus da vida pede de nós a preservação das condições objetivas de vida. Por isso lutamos por territórios livres de mineração.

Obs.: Os filmes e vídeos nos links, abaixo, versam sobre o assunto tratado, acima.

1 – Filme documentário “Vidas Barradas” – crime/tragédia da Vale e do Estado a partir de Brumadinho.

https://www.youtube.com/watch?v=A-zATqACHqU

2 – Lama o crime vale no Brasil – A tragédia de Brumadinho

https://www.youtube.com/watch?v=Sok8jGWpPIY

3 – VALE e Poder Judiciário: Desrespeito aos atingidos/as! Até quando? 28/11/2019

https://www.youtube.com/watch?v=Nw0Gxv-q8cA

Belo Horizonte, MG, 10/12/2019.



1 Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH, em Belo Horizonte, MG. E-mail: gilvanderlm@gmail.comwww.gilvander.org.brwww.freigilvander.blogspot.com.brwww.twitter.com/gilvanderluis – Facebook: Gilvander Moreira III

2 Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.


3 Tribunal de Justiça de Minas Gerais.



Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 13/12/2019
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2019/12/13/por-territorios-livres-de-mineracao-artigo-de-gilvander-moreira/

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Em livro, quilombolas e ribeirinhos denunciam os impactos da mineração em Oriximiná, Pará

 Em livro lançado pela Comissão Pró-Índio de São Paulo na semana passada, quilombolas e ribeirinhos revelam as consequências socioambientais de 40 anos de extração de bauxita na Amazônia



Comunidade quilombola Boa Vista. Foto: Carlos Penteado (2018).

O livro “Antes a água era cristalina, pura e sadia. Percepções quilombolas e ribeirinhas dos impactos e riscos da mineração em Oriximiná, Pará”, lançado em 21/11, discute as consequências da extração de bauxita a partir do ponto de vista da população impactada. O estudo reúne depoimentos selecionados a partir de 47 entrevistas com moradores do Quilombo Boa Vista e das comunidades ribeirinhas Boa Nova e Saracá que denunciam impactos sobre os cursos d’água e revelam um sentimento de insegurança frente aos riscos das barragens de rejeitos que a empresa tem instaladas na região.


A mineração ocorre em plena Amazônia, no interior de uma unidade de conservação federal (Floresta Nacional Saracá-Taquera), onde vivem comunidades quilombolas e ribeirinhas. A empresa, Mineração Rio do Norte, tem como acionistas as gigantes Vale, South32, Rio Tinto, Companhia Brasileira de Alumínio, Alcoa Alumínio S.A., Alcoa World Alumina, Hydro e Alcoa Awa Brasil Participações. A bauxita, matéria prima utilizada na produção de alumínio, é comercializada no mercado nacional e internacional.
“A água que nós temos não é uma água de qualidade”

Os quilombolas de Boa Vista e os ribeirinhos de Boa Nova e Saracá apontam como as principais consequências das alterações nos cursos d’água: a restrição de acesso a água potável, o surgimento de novas doenças (atingindo especialmente crianças e mulheres) e a diminuição do pescado.

“Antes a água era cristalina, pura e sadia. Hoje eu tenho medo, ela está poluída. Não é pavulagem, a bauxita polui a água” afirma Maria Zuleide Viana dos Santos, do Quilombo Boa Vista.

Jones da Luz, comunidade Boa Nova, em seu depoimento ao estudo também aponta a preocupação com as doenças: “A gente vê que as famílias, a maioria se queixa muito de diarreia, através da água poluída”. E sobre a diminuição do pescado, Jones afirma que “o peixe para a gente pescar aqui já não tem mais porque ele acha que não é bom estar aqui, porque a água está muito poluída”.

Quilombolas e ribeirinhos mostram-se céticos com as informações da Mineração Rio do Norte (MRN) de que a qualidade da água dos igarapés se mantém adequada.

“Sempre vem pesquisa de água, todo mês eles vêm fazer essa pesquisa, mas nunca dá nada. Eu não acredito que uma água que já está dessa forma não tenha nada” alega Maria de Fátima Viana Lopes, da comunidade Boa Nova.



Ribeirinhos realizaram a lavagem de uma das caixas d’água do microssistema implantado pela mineradora. Esgotada a água, procederam à limpeza da caixa – a cor da água que sai nesse processo é semelhante à da bauxita. Foto: Carlos Penteado (2018).
“A nossa comunidade, a gente não se sente seguro”


Outro motivo de preocupação para os moradores de Boa Vista, Boa Nova e Saracá são as barragens de rejeitos da Mineração Rio do Norte. Dados da Agência Nacional de Águas indicam que a MRN é a quarta mineradora em número de barragens no Brasil: são 25 barragens já implantadas e há previsão de construção de mais estruturas.

“A nossa comunidade, a gente não se sente seguro. As barragens são grandes, a gente tem medo de estourar”, Jones da Luz, Comunidade Boa Nova

“Eles dizem que Boa Vista está segura. Quem garante isso?”, Aildo Viana dos Santos, Quilombo Boa Vista.

As comunidades ribeirinhas Boa Nova e Saracá estão localizadas a jusante do sistema de disposição de rejeitos instalado no interior da Flona Saracá-Taquera que já conta com 23 barragens. O Quilombo Boa Vista encontra-se a 430 metros de outras duas barragens de contenção de sedimentos e clarificação de água situada às margens do Rio Trombetas.

Quilombolas e ribeirinhos ressentem-se da falta de transparência e diálogo por parte da empresa e dos órgãos de governo.

“Se romper alguma lá, a gente não sabe nem como fazer porque, até aqui, ela nunca deu palestra, nunca desenvolveu algum estudo sobre isso para dar um resultado positivo para nós comunitários” Ederson Seixas Santino, comunidade Saracá.




A barragem da mineração (curso de água avermelhada) está a 400 metros do Quilombo Boa Vista. Foto: Carlos Penteado.
No livro, são analisados os planos de ação emergência de barragens que a MRN concluiu no primeiro semestre de 2018. Os dois planos abrangem 4 das 25 barragens da empresa e indicam que uma eventual falha nas barragens poderia causar perdas de vidas humanas, impactos no fornecimento de água potável e para a prática da pesca e navegação.


A análise da Comissão Pró-Índio aponta que, embora os novos estudos da mineradora representem um avanço no reconhecimento dos riscos a que estão sujeitos quilombolas e ribeirinhos, são ainda insuficientes para permitir uma avaliação mais aprofundada dos impactos socioambientais de um eventual desastre e estabelecer ações de emergência efetivas.

Na elaboração dos planos de emergência da MRN, não houve diálogo ou consulta às comunidades da zona de risco.

“Eles só vêm dizer que tem os tanques sim, dos rejeitos da bauxita, mas que esses tanques são cuidados, é verificado direitinho que não leva o risco de acontecer nada para a comunidade, não vai prejudicar a comunidade em nada. Então, são esses os informes que vêm. E não dizendo que um dia leva o risco de dar um problema.

Seria muito importante se a mineradora assumisse um compromisso com nós, com os comunitários daqui. A gente, a comunidade, tem que estar assegurada em documento, ter assegurado algum benefício para que as pessoas não fiquem como ficou o pessoal de Mariana” Maria de Fátima Viana Lopes, comunidade Boa Nova.
Recomendações

O livro apresenta uma série de recomendações visando à promoção dos direitos de quilombolas e ribeirinhos à água, ao meio ambiente sadio e equilibrado, à segurança e ao controle social das atividades minerárias que impactam diretamente suas vidas. Veja os destaques abaixo.

Ao Ibama

Apurar os fatos relatados pelos quilombolas de Boa Vista e os ribeirinhos de Boa Nova e Saracá sobre os impactos da atividade minerária nos recursos hídricos e determinar aos responsáveis a imediata adoção de medidas para a solução dos problemas encontrados.

Condicionar a autorização para a Mineração Rio do Norte implantar novas barragens à realização de avaliação de impacto socioambiental específica para as novas estruturas e ao atendimento pelo empreendedor das Recomendações aqui indicadas.

À Agência Nacional de Mineração

Promover a reclassificação de Dano Potencial Associado das barragens A1 e Água Fria tendo em vista os potenciais impactos para os quilombolas de Boa Vista e a Reserva Biológica do Rio Trombetas.

Condicionar a autorização para a Mineração Rio do Norte implantar novas barragens ao atendimento pelo empreendedor das Recomendações aqui indicadas.

Assegurar ampla publicidade dos resultados das fiscalizações da Agência Nacional de Mineração nas barragens da Mineração Rio do Norte para a sociedade, em formato e conteúdo acessíveis às comunidades situadas a jusante das barragens.

À Mineração Rio do Norte

Apurar os fatos relatados pelos quilombolas de Boa Vista e os ribeirinhos de Boa Nova e Saracá sobre os impactos nos recursos hídricos e adotar em curto prazo as medidas para a solução dos problemas encontrados.

Acatar a determinação do Ibama e proceder a revisão da classificação de risco das barragens A1 e Água Fria passando para alto Dano Potencial Associado.

Promover adequações no Plano de Ação de Emergência das Barragens A1 e Água Fria a partir de consulta e diálogo com os quilombolas de Boa Vista e no Plano de Ação de Emergência das Barragens TP 01 e TP 02 a partir de consulta e diálogo com as comunidades ribeirinhas Boa Nova e Saracá.



Antes a Água era Cristalina, Pura e Sadia – Percepções quilombolas e ribeirinhas dos impactos e riscos da mineração em Oriximiná, Pará
Comissão Pró-Índio de São Paulo
96 páginas | 21 x 28 cm
Acesse o livro aqui




in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 29/11/2018





Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 29/11/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/11/29/em-livro-quilombolas-e-ribeirinhos-denunciam-os-impactos-da-mineracao-em-oriximina-para/