sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Estudo de pesquisadores do Museu Nacional revela como cresciam alguns dos precursores dos crocodilos no período Triássico

Pesquisadores do Museu Nacional, unidade de ensino e pesquisa vinculada à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em colaboração com o Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia (CAPPA-UFSM) e o Museu de La Plata, Argentina, acabam de publicar um trabalho científico sobre os padrões de crescimento da linhagem crocodiliana (Pseudosuchia), investigando uma espécie encontrada em rochas de idade triássica (cerca de 231 milhões de anos atrás), no Rio Grande do Sul.

A pesquisa aborda essa questão por meio da análise paleohistológica dos ossos de Dynamosuchus collisensis, um representante do grupo dos Ornithosuchidae. A Paleohistologia – que analisa cortes micrométricos em ossos fósseis ao microscópio – é uma ferramenta cada vez mais em ascensão na pesquisa paleontológica, permitindo compreender aspectos fundamentais do ritmo de crescimento e idade individual e contribuindo para preencher lacunas importantes no conhecimento sobre a biologia dos grupos extintos de vertebrados.

O artigo intitulado Filling a key gap in growth patterns of Pseudosuchia through the osteohistology of Dynamosuchus collisensis (Ornithosuchidae: Archosauria) foi publicado neste mês de fevereiro na revista científica internacional Royal Society Open Science. O estudo foi liderado por Brodsky Dantas Macedo de Farias, bolsista FAPERJ do programa de Pós-Doutorado Nota 10, vinculado ao Programa de Pós-graduação em Zoologia do Museu Nacional, e supervisionado por Marina Bento Soares, pesquisadora da mesma instituição que também recebe apoio da FAPERJ para a realização de suas pesquisas por meio do programa de fomento à pesquisa "Cientista do Nosso Estado".

Também participam do trabalho, Rodrigo Temp Müller e Fabiula Prestes de Bem (CAPPA-UFSM) e Maria Belén von Baczko e Julia Brenda Desojo (Museo de La Plata, Argentina). Dynamosuchus collisensis é o único representante brasileiro pertencente ao grupo dos ornitossúquios, aparentados à linhagem crocodiliana. O fóssil (espécime CAPPA/UFSM 0248) foi encontrado no município de Agudo, Rio Grande do Sul, em afloramentos da Formação Santa Maria.

As análises paleohistológicas mostram que Dynamosuchus apresentava, em sua maior parte, tecidos ósseos altamente vascularizados, indicativos de crescimento rápido. No úmero, foram identificadas três linhas anuais de crescimento e no fêmur, quatro. Isso indica que o indivíduo estudado tinha, no mínimo, quatro anos de idade no momento da morte. A ausência de transição para tecidos de crescimento mais lento, indicam que o indivíduo estudado ainda era esqueletalmente e, provavelmente, sexualmente imaturo. Considerando que o espécime analisado, com cerca de dois metros de comprimento, ainda era jovem, os dados sugerem que ele provavelmente teria muito a crescer ao longo da vida.


As análises paleohistológicas dos ossos do Dynamosuchus indicaram que ele tinha, no mínimo, quatro anos de idade no momento da morte, cerca de dois metros de comprimento, ainda era jovem, e que provavelmente teria muito a crescer ao longo da vida (Foto: Rodrigo Tempo Müller)


Para fortalecer as interpretações baseadas nos dados paleohistológicos, também foram empregados métodos independentes de avaliação da maturidade esquelética, como a análise das suturas nas vértebras. As vértebras analisadas apresentam suturas neurocentrais (entre o centro e o arco neural) abertas, ou seja, arcos neurais ainda não fusionados aos centros vertebrais. Essas características são indicativas de imaturidade esquelética e corroboram as evidências obtidas a partir da paleohistologia óssea, de que o espécime CAPPA/UFSM 0248 era um indivíduo jovem.

O projeto desenvolvido pelo Bolsista de Pós-Doutorado Nota 10 da FAPERJ, intitulado “Preenchendo lacunas no conhecimento paleobiológico de arcossauros do Triássico do Sul do Brasil a partir da paleohistologia“, tem como objetivo principal fornecer uma abordagem comparativa envolvendo os principais grupos de Pseudosuchia durante o primeiro período da Era Mesozoica, o período Triássico.

Neste contexto, por se tratar de um dos grupos mais basais dessa linhagem, os ornitossúquios constituem uma referência-chave para a reconstrução da trajetória dos Pseudosuchia. Resultados obtidos até o momento pelo projeto indicam que o padrão atual de crescimento em crocodilos, que crescem de forma lenta durante toda a vida (mesmo depois de adultos), contrasta ao observado nos seus precursores fósseis, incluindo os ornitossuquídeos, que cresciam a taxas bastante elevadas até atingir o estágio adulto.


O bolsista de pós-doutorado Brodsky Farias e a professora Marina Bento Soares: pesquisadores puderam contar com os recursos do mais bem equipado Laboratório de Paleohistologia do Brasil, instalado no Museu Nacional/UFRJ e implementado com recursos da FAPERJ (Fotos:Divulgação)


"Esta pesquisa é particularmente importante porque não apenas aponta para a presença de um predador de grande porte nos ecossistemas do Triássico brasileiro, mas também revela, através da paleohistologia, que os representantes basais da linhagem crocodiliana apresentavam padrões de crescimento compatíveis com taxas metabólicas mais elevadas, possivelmente mais próximas das aves e mamíferos do que dos crocodilos atuais", diz Brodsky Farias.

Professora do Departamento de Geologia e Paleontologia do Museu Nacional, Marina Bento Soares conta que o convite para participarem da pesquisa partiu de Rodrigo Temp Müller, primeiro autor da descrição original de Dynamosuchus collisensis e coautor do presente estudo, para realizar as análises histológicas do material. "Desde o início, reconhecemos a relevância científica da espécie, a única representante brasileira do grupo Ornitosuchidae, um dos ramos mais basais da linhagem crocodiliana. Diante dessa importância, incorporamos o estudo ao projeto do Brodsky, que, desde o doutorado, investiga os padrões de crescimento dos pseudosúquios", explica a pesquisadora, ressaltando que a inclusão de Dynamosuchus ampliou substancialmente a base comparativa do projeto e permitiu preencher uma lacuna fundamental no entendimento da biologia da linhagem crocodiliana, no seu início. "É importante ressaltar, também, que o Museu Nacional, na sua fase de reconstrução após o incêndio de 2018, conta com o mais bem equipado Laboratório de Paleohistologia do Brasil, implementado com recursos da FAPERJ. Toda a fase experimental do trabalho com Dynamosuchus foi realizada no referido laboratório, e vários novos estudos vêm por aí", adianta.



Autor: Faperj
Fonte: Faperj
Sítio Online da Publicação: Faperj
Data: 2/02/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=963.7.5

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Curta Ciência Delas revela trajetórias femininas na produção científica

Exibido como parte da programação da Imersão no Verão, no contexto das celebrações do Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, o documentário Ciência Delas apresentou às estudantes, na tarde do dia 9 de fevereiro, histórias e trajetórias de mulheres que produzem ciência e ajudaram a construir o Programa Mulheres e Meninas na Ciência da Fiocruz.

Com 22 minutos de duração, Ciência Delas nasceu da pesquisa de Beatris Duqueviz , que em seu doutorado investigou o Programa Mulheres e Meninas na Ciência, ligado à Vice-Presidência de Educação, Informação e Comunicação (VPEIC/Fiocruz). O documentário de curta duração une dados, depoimentos e imagens marcantes para contar a trajetória do programa e revelar as mulheres que foram decisivas nessa história. O resgate por meio desses depoimentos, joga luz sobre o programa e evidencia desigualdades de gênero no universo científico no Brasil.


Para Beatris, o documentário é um potente meio de divulgação científica. “O vídeo amplia a compreensão e o acesso para quem está fora da academia. Acho importante que trabalhos científicos alcancem mais pessoas que talvez não tenham a oportunidade de ler uma tese ou artigo, democratizando o conhecimento”, afirma. Ela ressalta que, cada vez mais, pesquisadores buscam novos formatos e linguagens para ampliar o alcance e o impacto social de seus trabalhos. “Foi um mergulho delicioso nesse mundo do audiovisual”, destaca.

Beatris observa que o documentário é uma estratégia para ampliar a circulação das informações e popularizar os resultados do Programa Mulheres e Meninas na Ciência. “Essa iniciativa tem potencial para ir muito além dos muros da Fiocruz, servindo como referência para políticas públicas em outras instituições”, afirma Beatris, que assina o roteiro e a direção juntamente com Daniela Muzi. A produção, realizada entre novembro de 2024 e fevereiro de 2025 pela VideoSaúde Distribuidora da Fiocruz, combina novas entrevistas e imagens de arquivo para retratar como o programa vem impulsionando ações de equidade de gênero no campo científico.

Audiovisual que mobiliza

Para Daniela Muzi, pesquisadora, documentarista e coordenadora da VideoSaúde, o audiovisual tem o poder de afetar e mobilizar. “Ao tornar visíveis as trajetórias de mulheres cientistas, o documentário permite que outras mulheres e meninas possam se imaginar também nesse campo”, afirma. Apesar dos avanços, ela lembra que as mulheres continuam sub-representadas em certas áreas, cargos de liderança e bolsas de pesquisa. “As barreiras do chamado ‘teto de vidro’ são múltiplas e interligadas, incluindo sobrecarga mental e jornada dupla, resultado do acúmulo de exigências acadêmicas e responsabilidades de cuidado, como maternidade e familiares dependentes, comprometendo trajetórias científicas”, explica.

Essas dificuldades se somam às desigualdades de oportunidades profissionais, à desvalorização da competência feminina, à violência de gênero e à ausência de políticas institucionais efetivas voltadas à equidade. “O documentário evidencia que não se trata de casos isolados, mas de um problema estrutural”, reforça Daniela. Ela vê o filme como uma fonte de inspiração e um convite à reflexão sobre políticas mais inclusivas.

Segundo ela, a frase escolhida para o cartaz “Quando mulheres abrem caminhos, meninas conquistam o mundo” sintetiza a mensagem de transformação que as diretoras quiseram transmitir. “Durante séculos, a ciência foi retratada como um universo masculino. Agora, por meio da imagem e do movimento, as mulheres afirmam seus lugares. É aquela máxima de que uma mulher puxa a outra, e isso é bem real”, conclui.

O filme está disponível na Fioflix, com versões com janela de Libras e audiodescrição.




Autor: Liseane Morosini
Fonte: Vpeic/Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 10/02/2026

Parece mágica, mas é ciência: brasileira de 15 anos inventou sistema que transforma água suja em potável no Sertão sem usar uma gota de cloro

Em 2019, no interior do Brasil, uma adolescente baiana inventou um produto que pode mudar a realidade do Nordeste brasileiro. Aos 15 anos, Anna Luísa Beserra desenvolveu um sistema simples, movido exclusivamente a energia solar, capaz de tornar potável a água da chuva armazenada em cisternas no Sertão nordestino. A invenção nasceu como um projeto escolar, mas não durou muito tempo para que ela fosse reconhecida fora desse ambiente. No mesmo ano, a invenção rendeu à jovem o prêmio Young Champions of the Earth, concedido pela ONU.

Criado a partir da observação direta da realidade de comunidades rurais da Bahia, o sistema, batizado de Aqualuz, atua justamente onde políticas públicas e infraestrutura falham. Em regiões onde a água existe, mas não é segura para consumo, a tecnologia passou a significar saúde, autonomia e dignidade.

No Sertão, o problema não era a escassez de água, mas o acesso à água potável

Durante visitas a comunidades do interior baiano, Anna identificou que muitas famílias possuíam cisternas para armazenar água da chuva, mas continuavam adoecendo. O problema não era a falta de água, e sim a contaminação dessa água armazenada, considerada imprópria para consumo humano. A constatação surgiu quando ela ainda era adolescente e participava de um programa educacional voltado à sustentabilidade.

Anna buscou por soluções que pudessem resolver o problema, mas ao invés de buscar ideias caras ou dependentes de infraestrutura elétrica, a estudante decidiu optou por aproveitar um recurso abundante na região nordestina: o sol. Após meses de pesquisa e testes, nasceu o protótipo do Aqualuz, um sistema pensado para ser acessível, resistente e fácil de operar, mesmo em áreas isoladas.

Como funciona o Aqualuz? Um sistema solar simples, certificado e pensado para durar

O grande diferencial do Aqualuz é que ele dispensa o uso de produtos químicos, eletricidade ou manutenção complexa, pois é baseado no reaproveitamento de recursos próprios A água da chuva coletada pelas cisternas é direcionada para um reservatório transparente, onde permanece exposta à radiação solar por cerca de quatro horas - e é exatamente aí que a mágica acontecer. Esse processo aparentemente simples consegue eliminar bactérias e microrganismos patogênicos, tornando a água própria para o consumo.

De acordo com dados da Safe Drinking Water for All (SDW), startup social fundada por Anna, cada unidade tem vida útil estimada de até 20 anos e capacidade para purificar até 10 litros de água por hora, volume suficiente para atender uma família inteira. Sensores acoplados ao equipamento indicam quando a água está pronta para uso. A tecnologia foi testada e certificada por laboratórios da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e recebeu apoio institucional de iniciativas do SEBRAE e da Fundação Toyota, consolidando a viabilidade técnica e científica do sistema.

Impacto social levou à invenção ser reconhecida pela ONU

Anna Luisa Beserra foi a primeira brasileira a ganhar o prêmio Jovens Campeões Da Terra. Créditos: Divulgação

O sistema inventado por Anna para solucionar a água contaminada das cisternas foi parar na mira do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Devido a sua invenção, em 2019, Anna Luísa foi escolhida como representante da América Latina e do Caribe no prêmio Jovens Campeões da Terra, tornando-se a primeira brasileira a receber a honraria.

Na ocasião, a ONU tratou o Aqualuz como um exemplo de tecnologia baseada em soluções locais, capaz de melhorar a qualidade de vida em regiões vulneráveis. Desde então, o sistema foi instalado em comunidades rurais da Bahia, Piauí, Pernambuco e Ceará, beneficiando mais de 3 mil pessoas com acesso à água potável. O projeto também se apoia em um modelo de capacitação comunitária, em que os moradores locais aprendem a instalar e fazer a manutenção dos equipamentos, o que gera renda e fortalece a autonomia das comunidades atendidas.



Autor: xataka
Fonte: xataka
Sítio Online da Publicação: xataka
Data: 09/02/2026
Publicação Original: https://www.xataka.com.br/ciencia/parece-magica-e-ciencia-brasileira-15-anos-inventou-sistema-que-transforma-agua-suja-em-potavel-no-sertao-sem-usar-uma-gota-cloro

Fiocruz lidera nas Américas estudo global da OMS sobre oxigênio medicinal

Publicado em fevereiro na revista científica The Lancet Global Health, um estudo prospectivo e observacional da Organização Mundial da Saúde (OMS) analisou os requisitos do uso de oxigênio medicinal e de suporte respiratório em pacientes hospitalizados com Covid-19 em 23 países de baixa e média renda, correlacionando a infraestrutura disponível com a mortalidade hospitalar. A análise revelou que o acesso ao oxigênio é um marcador crítico de iniquidade em saúde.

Nas Américas, o estudo é conduzido por pesquisadoras da Fiocruz. Sob a liderança da coordenadora do Centro Clínico do Instituto Nacional de Infectologia (INI/Fiocruz), Mônica Cruz, e da vice-diretora de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico do INI/Fiocruz, Valdiléa Veloso, o INI/Fiocruz consolidou-se como o centro de maior recrutamento em todo o continente.


Dos mais de 53 mil pacientes triados globalmente em 56 centros, a Fiocruz foi responsável pela triagem de 601 pacientes e inclusão de 166 na coorte definitiva. A coleta de dados contou com a atuação estratégica da equipe de Fisioterapia do Centro Hospitalar do INI/Fiocruz, que esteve na linha de frente do suporte respiratório, reforçando a capacidade da Fiocruz em mobilizar recursos humanos e tecnológicos de ponta durante a crise sanitária mundial.

Para Mônica Cruz, os resultados vão além da resposta à pandemia. “Este estudo confirmou que o oxigênio não é apenas um insumo hospitalar, mas um marcador estrutural de iniquidades. Ele determina a resiliência de um sistema de saúde”, afirma. Segundo a pesquisadora, as evidências geradas pela Fiocruz e seus parceiros globais subsidiam a resolução da Assembleia Mundial da Saúde de 2023, fornecendo base científica para que governos identifiquem dispositivos prioritários e estabeleçam agendas de pesquisa para futuras emergências globais.

Oxigênio como marcador de iniquidade

O estudo revela uma realidade alarmante: cerca de 60% da população mundial carece de acesso a oxigênio medicinal de qualidade. A análise global demonstrou que a disponibilidade de oxigênio varia drasticamente entre as regiões, impactando diretamente as taxas de sobrevivência. Na região africana, onde a infraestrutura é mais limitada, a mortalidade hospitalar em 30 dias atingiu 37,6%.

Em contrapartida, os dados das Américas onde a Fiocruz foi referência destacaram a alta complexidade do atendimento. A região registrou o uso mais frequente de ventilação mecânica invasiva (26,4%) e apresentou a maior densidade de profissionais de saúde, com uma mediana de 110 trabalhadores para cada 100 leitos.

Na Fiocruz

Autor: INI/Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 09/02/2026
Publicação Original: https://fiocruz.br/noticia/2026/02/fiocruz-lidera-nas-americas-estudo-global-da-oms-sobre-oxigenio-medicinal

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Pesquisa na Pesagro estabelece padrão para a produção da farinha de banana verde


O principal diferencial da banana verde é o amido resistente, um carboidrato insolúvel (Foto: Pixabay)

O Brasil é o quarto produtor mundial de bananas, tendo colhido pouco mais de 7 milhões de toneladas em 2024, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Vale da Ribeira, em São Paulo, é a maior região produtora, com 40 mil hectares cultivados. Entretanto, as perdas chegam a 40% da produção, em média, principalmente devido à inadequação na colheita e na estocagem, transporte e, especialmente, devido aos frutos fora do tamanho padrão para uso de mesa. A farinha de banana verde tem sido uma alternativa para o completo aproveitamento das bananas na cadeia produtiva, garantindo as qualidades nutricionais da fruta além de disponibilizar o amido resistente (AR), o que caracteriza o produto como alimento funcional.

Projeto conduzido ao longo de três anos na Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado do Rio de Janeiro (Pesagro-Rio), com o apoio do Programa de Bolsa de Treinamento e Capacitação Técnica em Apoio à Pesquisa e Desenvolvimento do Setor Agropecuário e da Agroindústria do Estado do Rio de Janeiro (TCT Agro), da FAPERJ, estabeleceu os parâmetros para a produção e conservação da farinha de banana verde. Segundo a pesquisadora Eliane Rodrigues, coordenadora do estudo, a farinha de banana verde é rica em fibras, sais minerais e vitaminas, e possui um grande diferencial em relação às demais farinhas: o amido resistente, alimento funcional que auxilia nas defesas do organismo e no trânsito intestinal. Ela pode ser empregada na fabricação de vários alimentos como sopas, comidas infantis, bolos, biscoitos, dentre outros, dependendo da granulometria.

Com cerca de 30 espécies conhecidas e 700 diferentes variedades, a banana (Musa spp.) pertencente à família das Musaceae, é uma fruta de rápido cultivo e fácil propagação, sendo produzida em grande escala no mundo todo, mas especialmente nos países tropicais. Uma das frutas mais consumidas em diversos países, a banana é rica em fibras, sais minerais como potássio, manganês e magnésio, vitaminas B1, B6, A e C, e betacaroteno, além de também ser rica em triptofano, um aminoácido que proporciona aumento da serotonina.
 

O projeto estabeleceu parâmetros para higiene de bancadas e utensílios e a padronização nutricional e sanitária do produto (Fotos: Divulgação)


“No caso da banana verde, seu principal diferencial é o amido resistente, um carboidrato insolúvel que sofre fermentação bacteriana no intestino, reforçando o sistema imunológico e reduzindo a ocorrência de doenças inflamatórias, colaborando para regular níveis de colesterol e glicemia, até mesmo podendo prevenir o câncer de cólon, caracterizando, assim, o produto como funcional”, explica a pesquisadora.

Eliane Rodrigues conta que diversas pequenas agroindústrias do estado do Rio de Janeiro aproveitam a banana verde fora do tamanho padrão de consumo para fazer farinha. No entanto, não havia parâmetros de qualidade no processo produtivo, fazendo com que o produto oferecido nas prateleiras ao consumidor não tivesse um padrão de qualidade. E sua pesquisa foi justamente para cobrir essa lacuna: determinar a qualidade físico-química, microbiológica e toxicológica das farinhas ofertadas no mercado consumidor.

O projeto-piloto foi executado na Fumel, agroindústria localizada em Cachoeiras de Macacu (maior produtor de banana do RJ), que recebe a produção de diversos pequenos produtores do estado e é um dos maiores produtores de banana-passa, bananada e outros subprodutos da banana. O objetivo agora é replicar o método e acompanhar a produção das diversas marcas de farinha de banana verde comercializadas no estado do Rio de Janeiro, garantindo a inocuidade microbiológica do produto e estabelecendo um protocolo de padronização nutricional e sanitária do produto. Além de determinar o melhor ajuste da temperatura e do tempo da desidratação, a fim de manter a característica nutricional, a pesquisa estabeleceu parâmetros para higiene de bancadas e utensílios, e até mesmo o melhor material para a embalagem da farinha, visando evitar possível contaminação.


Eliane Rodrigues: para a pesquisadora, o mais importante é que na produção da farinha da banana verde não há perda do amido resistente


Para a pesquisadora, o mais importante é que, na produção da farinha a partir da banana verde, não há perda do amido resistente, cujo percentual chega a aproximadamente 40% do produto. “Conseguimos manter o produto como alimento funcional”, comemora a farmacêutica. Além disso, os estudos também contribuíram para atestar a não ocorrência da micotoxina fumonisina nas amostras de farinha analisadas durante os três anos de experimento. Causada pela contaminação das bananas pelo fungo Fusarium spp., a micotoxina fumonisina é uma das principais doenças da bananeira.

Eliane explica que no Centro Estadual de Pesquisa em Qualidade de Alimentos da Pesagro, em Niterói, é feito o controle de qualidade de diversos tipos de alimentos, englobando os aspectos físico-químicos, microbiológicos, sensoriais e de contaminantes. Somado a isso, são desenvolvidas novas tecnologias de fabricação e estudos com processamento tecnológico de alimentos.

Graduada em Farmácia, mestre e doutora em Medicina Veterinária e Processamento Tecnológico de Produtos de Origem Animal pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Eliane foi a primeira pesquisadora do estado do Rio a trabalhar com homeopatia em animais, obtendo uma redução de 90% da mastite (inflamação das tetas) em vacas submetidas a esse tratamento. Na área de Tecnologia de Alimentos, dedicou-se ao estudo de produtos de origem animal, inicialmente com leite e derivados lácteos e depois com carnes. Segundo ela, o laboratório também apoia as ações de vigilância sanitária da Superintendência de Defesa Agropecuária da Secretaria de Estado de Agricultura, sendo o único órgão público autorizado a emitir laudos técnicos para o Serviço de Inspeção Estadual. “Todas as nossas atividades visam a segurança dos alimentos e a saúde do consumidor”, resume.


Veja videorreportagem no canal da FAPERJ no YouTube sobre as atividades do Centro Estadual de Pesquisa em Qualidade de Alimentos (CEPQA) da Pesagro-Rio: aqui.


Autor: faperj
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 05/02/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=913.7.9

Jogo de tabuleiro ajuda estudantes a refletir sobre o trabalho do cuidado




Ao assumir as personagens do 'Jogo do Cuidado', os participantes têm a oportunidade de viver as experiências de quem mora nas grandes cidades. Reflexões sobre acesso à moradia, saneamento, segurança, transporte, saúde e outros direitos e infraestruturas (Foto: Divulgação/Eric Lobo)


Questões relacionadas à reprodução social e ao chamado trabalho do cuidado estão presentes no dia a dia de muitas pessoas. Sobretudo das mulheres que, geralmente, carregam a responsabilidade e o peso de cuidar de crianças e idosos e de dar conta de uma série de afazeres domésticos. Para discutir esses e outros aspectos de um trabalho não remunerado e quase sempre invisibilizado, pesquisadoras da Escola de Arquitetura e Urbanismo e do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF), sob a coordenação da professora Rossana Brandão Tavares, criaram o “Jogo do Cuidado – Um jogo sobre o direito à cidade das mulheres”. O grupo vem discutindo a problemática da reprodução social nos territórios urbanos e produziu um jogo de tabuleiro como material de apoio didático para que professores do Ensino Médio possam trabalhar essas questões com seus alunos.

O território onde o jogo é disputado é a Região Portuária da cidade do Rio de Janeiro, lugar onde a professora realiza sua investigação há mais de uma década. O tabuleiro do jogo é dividido em dez áreas, como a Central do Brasil, os bairros da Gamboa, Saúde e Santo Cristo, a favela da Providência, a Praça Mauá e a Cidade do Samba. São locais onde vivem e transitam os dez personagens do jogo, que retratam a diversidade de grupos sociais, com gênero, idade, raça e orientação sexual diferentes. As características de cada um deles estão descritas na carta relativa a esse personagem. A carta traz também o grau de instrução, o local de moradia e o objetivo de cada um.

Produzido a partir de recursos do programa Jovem Cientista do Nosso Estado da FAPERJ, o jogo conta com outras 41 cartas – de sorte, de revés, de direitos e com coringas – que ficam na mesa para serem compradas pelos participantes à medida que o jogo se desenrola. Além delas, há dez peões e cédulas que simbolizam o Capital do Cuidado e o Capital Econômico.


Parte do Grupo de Estudos e Pesquisa Urb.Anas, da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFF. Pesquisadores vêm estudando as contradições a respeito da reprodução social e do trabalho do cuidado (Foto: Divulgação/Tayná Silva)

Ao longo de cada partida, os participantes têm a oportunidade de viver as experiências dos personagens que se assemelham às situações enfrentadas pelas pessoas nas grandes cidades – com todas as dificuldades e enfrentando desafios relacionados a diferentes questões cotidianas, como acesso à moradia, segurança, serviços de transporte, de saúde e de educação. A meta de cada participante é não ser expulso do jogo e acumular maior Capital do Cuidado, ou seja, incidir no território com infraestruturas e equipamentos que apoiem o trabalho do cuidado. À medida que as cartas da mesa são tiradas, surgem novas situações que podem melhorar ou piorar as condições de vida de cada área e de cada um. Ao final, vence o jogador que acumular o maior valor de Capital do Cuidado.

“O jogo é fruto da pesquisa que realizamos sobre a vida cotidiana das mulheres na cidade atravessada pelo trabalho do cuidado, e foi pensado para apoiar atividades realizadas em sala de aula. Em parte, ele é baseado nas dinâmicas sociais e urbanas da Região Portuária do Rio de Janeiro. O objetivo é contribuir para a compreensão das contradições a respeito da reprodução social e do trabalho do cuidado”, explica Rossana, idealizadora do jogo e professora da Escola de Arquitetura e Urbanismo e do Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFF.

O jogo de tabuleiro é um produto do projeto “Inversões Urbanas – Cartografias da reprodução social dos territórios” desenvolvido pelo Grupo de Estudos e Pesquisa Urb.Anas da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFF. Como as cidades não são pensadas e estruturadas para facilitar o trabalho do cuidado, o tema tem sido trabalhado para aprofundar uma agenda de pesquisa no campo da Arquitetura e Urbanismo, assim como no Planejamento Urbano e Regional.


Professora e idealizadora do jogo, Rossana Brandão Tavares vem estudando caminhos para a articulação entre os problemas urbanos e de moradia, familismo e a reprodução social. A pesquisadora desenvolve há 15 anos suas investigações sobre a Região Portuária do Rio (Foto: Divulgação/Camille Cristine)


“A proposta da pesquisa é justamente estudar, compreender e propor caminhos para a articulação entre os problemas urbanos e a reprodução social que, historicamente, é de responsabilidade das mulheres. Dessa forma, discutimos a importância de pensar as cidades a partir da ética do cuidado e da gestão feminista do habitat”, explica Rossana, coordenadora do Urb.Anas e Jovem Cientista do Nosso Estado.

Como uma das ações previstas no programa da FAPERJ é a promoção de práticas relacionadas à pesquisa em escolas públicas no estado, a equipe coordenada por Rossana realizou atividades com os alunos do Colégio Estadual Reverendo Hugh Clarence Tucker, na Gamboa. Eles são moradores da região. Em conjunto com os pesquisadores e seus professores, os estudantes puderam refletir sobre as condições de vida no local, o trabalho do cuidado, o cotidiano das mulheres e questões como familismo e reprodução social.

O “Jogo do Cuidado” foi lançado no final de 2025, na Semana Acadêmica da UFF. O jogo e a pesquisa também foram apresentados e discutidos em outros eventos acadêmicos e em uma audiência pública da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).

Foram impressas 20 unidades do jogo e, diante do grande interesse que ele vem despertando nos eventos em que foi apresentado, a equipe do Urb.Anas desenvolveu um site, a partir do qual o tabuleiro e todas as cartas do jogo podem ser impressos. O site será lançado oficialmente dia 3 de março, às 16h, em um encontro virtual com as pesquisadoras, mas já pode ser acessado em: www.jogodocuidado.com.br . Na ocasião, também será apresentado o site www.urbanasuff.arq.br , onde será possível acompanhar as atividades do grupo de pesquisas.




Autor: faperj
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 05/02/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=950.7.9

Chamada apoiará colaborações em bioeconomia e desenvolvimento sustentável


(foto: Wikimedia Commons)

FAPESP e FAPEAM financiarão projetos bilaterais que gerem inovações com base na sociobiodiversidade amazônica


A FAPESP anuncia o lançamento de uma chamada de propostas em conjunto com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM), para o financiamento de pesquisas em ciência, tecnologia e inovação em bioeconomia amazônica, a partir da articulação de colaborações entre pesquisadores dos estados de São Paulo e do Amazonas.

A chamada – a terceira no âmbito do acordo de cooperação entre as instituições – visa apoiar a criação e o aprimoramento de tecnologias, processos e produtos inovadores para a valorização da sociobiodiversidade amazônica, a transição para uma economia de baixo carbono e a inclusão social.

FAPESP e FAPEAM também pretendem fomentar pesquisa em inovação e tecnologia avançada com potencial de gerar cadeias de valor sustentáveis e que contribuam com a inserção mercadológica de bioprodutos e biotecnologias amazônicas em cadeias de valor nacionais e globais, incluindo a criação ou o aprimoramento de mecanismos de certificação e rastreabilidade.

A chamada está aberta a pesquisadores vinculados a instituições de ensino superior e pesquisa dos estados de São Paulo e Amazonas. As propostas devem ter como representantes dois coordenadores, um de cada estado, e devem ser elaboradas conjuntamente entre as metades paulista e amazonense do consórcio. Serão apoiadas propostas que se atenham às quatro linhas temáticas da chamada:

• Linha 1 - Governança, Instrumentos Regulatórios e Modelos de Negócios Sustentáveis em Bioeconomia, tendo como foco principal a estruturação, a viabilidade e a competitividade do ambiente bioeconômico;
• Linha 2 - Descarbonização, Energias Renováveis e Economia Circular na Amazônia, cujo objetivo predominante é o impacto ambiental e energético da tecnologia/processo/serviço proposto;
• Linha 3 - Desenvolvimento de Bioprodutos, Bioprocessos e Biotecnologias da Sociobiodiversidade, com foco na geração de soluções tecnológicas inovadoras derivadas da biodiversidade amazônica;
• Linha 4 - Valorização do Capital Humano e Economia Criativa para a Bioeconomia, instrumentalizando identidades culturais como vetores estratégicos para o desenvolvimento da bioeconomia e incluindo ações de empreendedorismo social.

FAPESP e FAPEAM apoiarão projetos por até 36 meses. Serão selecionados até 10 projetos.

A FAPEAM destinará um total de R$ 2 milhões para a chamada. A FAPESP reservou um valor global de R$ 6 milhões e aplicará à chamada as normas de apoio e condições de elegibilidade da modalidade de fomento Auxílio à Pesquisa – Regular.

Cada coordenador deverá submeter proposta à Fundação de Amparo à Pesquisa de seu respectivo estado, por meio do SIGFAPEAM, do lado amazonense, e do SAGe, do lado paulista. O prazo para submissão é 23 de março.

A chamada está publicada em: fapesp.br/17974.




Autor: fapesp
Fonte: fapesp
Sítio Online da Publicação: fapesp
Data: 30/01/2026