Mais de um terço da área da plataforma de gelo da Antártica pode estar em risco de colapso
University of Reading*
Mais de um terço da área da plataforma de gelo da Antártica pode estar em risco de colapso no mar se as temperaturas globais chegarem a 4 ° C acima dos níveis pré-industriais, de acordo com uma nova pesquisa.
A Universidade de Reading conduziu o estudo mais detalhado de todos os tempos, prevendo o quão vulneráveis as vastas plataformas flutuantes de gelo ao redor da Antártica se tornarão a eventos dramáticos de colapso causados pelo derretimento e escoamento, conforme a mudança climática força o aumento das temperaturas.
Ele descobriu que 34% da área de todas as plataformas de gelo da Antártica – cerca de meio milhão de quilômetros quadrados – incluindo 67% da área da plataforma de gelo na Península Antártica, estaria em risco de desestabilização abaixo de 4 ° C de aquecimento. Limitar o aumento da temperatura a 2 ° C em vez de 4 ° C reduziria à metade a área de risco e potencialmente evitaria um aumento significativo do nível do mar.
Os pesquisadores também identificaram Larsen C – a maior plataforma de gelo remanescente na península, que se dividiu para formar o enorme iceberg A68 em 2017 – como uma das quatro plataformas de gelo que seriam particularmente ameaçadas em um clima mais quente.
A Dra. Ella Gilbert, uma cientista pesquisadora do Departamento de Meteorologia da Universidade de Reading, disse: “As plataformas de gelo são importantes amortecedores que impedem que as geleiras em terra fluam livremente para o oceano e contribuam para o aumento do nível do mar. Quando elas entram em colapso, é como uma rolha gigante sendo removida de uma garrafa, permitindo que quantidades inimagináveis ??de água das geleiras caiam no mar.
“Sabemos que, quando o gelo derretido se acumula na superfície das plataformas de gelo, isso pode fazer com que elas se quebrem e desmoronem de maneira espetacular. Pesquisas anteriores nos deram uma visão geral em termos de previsão do declínio da plataforma de gelo da Antártica, mas nosso novo estudo usa as técnicas de modelagem mais recentes para preencher os detalhes mais finos e fornecer projeções mais precisas.
“Os resultados destacam a importância de limitar os aumentos da temperatura global, conforme estabelecido no Acordo de Paris, se quisermos evitar as piores consequências das mudanças climáticas, incluindo o aumento do nível do mar.”
O novo estudo, publicado no jornal Geophysical Research Letters , usou modelagem climática regional de alta resolução para prever com mais detalhes do que antes o impacto do aumento do derretimento e do escoamento de água na estabilidade da plataforma de gelo.
A vulnerabilidade da plataforma de gelo devido a esse processo de fraturamento foi prevista em cenários de aquecimento global de 1,5 ° C, 2 ° C e 4 ° C, todos possíveis neste século.
As plataformas de gelo são plataformas flutuantes permanentes de gelo presas a áreas da costa e são formadas onde as geleiras que fluem da terra encontram o mar.
Todo verão, o gelo na superfície da plataforma de gelo derrete e goteja em pequenas lacunas de ar na camada de neve abaixo, onde volta a congelar. No entanto, nos anos em que há muito derretimento, mas pouca neve, a água acumula-se na superfície ou flui em fendas, aprofundando-se e alargando-as até que a plataforma de gelo eventualmente se rompa e desmorone no mar. Se houver água se acumulando na superfície da plataforma de gelo, isso sugere que ela pode ser vulnerável a colapsar dessa forma.
Foi o que aconteceu com a plataforma de gelo Larsen B em 2002, que se quebrou após vários anos de altas temperaturas de verão. Seu colapso fez com que as geleiras atrás da plataforma de gelo acelerassem, perdendo bilhões de toneladas de gelo para o mar.
Os pesquisadores identificaram as plataformas de gelo Larsen C, Shackleton, Pine Island e Wilkins como as de maior risco abaixo de 4 ° C de aquecimento, devido à sua geografia e ao escoamento significativo previsto nessas áreas.
O Dr. Gilbert disse: “Se as temperaturas continuarem a aumentar nas taxas atuais, podemos perder mais plataformas de gelo da Antártica nas próximas décadas.
“Limitar o aquecimento não será bom apenas para a Antártica – preservar as plataformas de gelo significa menos aumento do nível do mar global, e isso é bom para todos nós.”
Referência:
Gilbert, E., & Kittel, C. (2021). Surface melt and runoff on Antarctic ice shelves at 1.5°C, 2°C and 4°C of future warming. Geophysical Research Letters, 48, e2020GL091733. https://doi.org/10.1029/2020GL091733
* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 08/04/2021
Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 08/04/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/04/09/mais-de-um-terco-da-area-da-plataforma-de-gelo-da-antartica-pode-estar-em-risco-de-colapso/
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sábado, 10 de abril de 2021
quarta-feira, 23 de dezembro de 2020
Coronavírus se espalha para a estação de pesquisa da Antártica
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Já houve casos de Covid-19 em todos os seis continentes. — Foto: Getty Images via BBC
O novo coronavírus atingiu o continente antártico, que até então estava livre da Covid-19.
O Exército chileno registrou 36 casos na estação de pesquisa Bernardo O'Higgins, dos quais 26 em militares e 10 em trabalhadores da manutenção. Todos foram levados de volta para o Chile.
A notícia chega poucos dias depois que a Marinha chilena confirmou três casos em um navio que havia levado suprimentos e pessoal para a estação.
Isso significa que, agora, casos da Covid-19 já foram registrados em todos os seis continentes.
O navio Sargento Aldea chegou à estação de pesquisa em 27 de novembro e navegou de volta ao Chile em 10 de dezembro.
Três de seus tripulantes testaram positivo ao retornar à base naval chilena em Talcahuano.
A Marinha do Chile disse que todos os que embarcaram na viagem à Antártica fizeram testes de PCR e todos os resultados foram negativos.
A estação de pesquisa Bernardo O'Higgins é uma das quatro bases permanentes que o Chile tem na Antártica e é operada pelo Exército.
O Chile é o sexto país mais afetado da América Latina, com mais de 585 mil casos confirmados de coronavírus.
'Nenhum país tem capacidade de tratar pessoas gravemente doentes'
O missão do Reino Unido na Antártica está reduzindo suas pesquisas por causa do coronavírus.
Em agosto, o país anunciou que apenas equipes essenciais retornariam ao continente após o inverno. Toda pesquisa de campo profundo foi adiada por um ano.
A missão britânica argumentou que não teria capacidade para tratar as pessoas que viessem a adoecer.
Por isso, após uma consulta a parceiros internacionais, decidiu adotar medidas rígidas para manter o coronavírus fora da região.
"Nenhuma nação tem instalações médicas para lidar com pessoas gravemente doentes", explicou a cientista Jane Francis, diretora da missão.
"Todos estão tomando medidas de precaução muito duras para garantir que qualquer atividade na Antártica neste ano seja a mais segura possível."
O navio Sargento Aldea chegou à estação de pesquisa em 27 de novembro e navegou de volta ao Chile em 10 de dezembro.
Três de seus tripulantes testaram positivo ao retornar à base naval chilena em Talcahuano.
A Marinha do Chile disse que todos os que embarcaram na viagem à Antártica fizeram testes de PCR e todos os resultados foram negativos.
A estação de pesquisa Bernardo O'Higgins é uma das quatro bases permanentes que o Chile tem na Antártica e é operada pelo Exército.
O Chile é o sexto país mais afetado da América Latina, com mais de 585 mil casos confirmados de coronavírus.
'Nenhum país tem capacidade de tratar pessoas gravemente doentes'
O missão do Reino Unido na Antártica está reduzindo suas pesquisas por causa do coronavírus.
Em agosto, o país anunciou que apenas equipes essenciais retornariam ao continente após o inverno. Toda pesquisa de campo profundo foi adiada por um ano.
A missão britânica argumentou que não teria capacidade para tratar as pessoas que viessem a adoecer.
Por isso, após uma consulta a parceiros internacionais, decidiu adotar medidas rígidas para manter o coronavírus fora da região.
"Nenhuma nação tem instalações médicas para lidar com pessoas gravemente doentes", explicou a cientista Jane Francis, diretora da missão.
"Todos estão tomando medidas de precaução muito duras para garantir que qualquer atividade na Antártica neste ano seja a mais segura possível."
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Pinguins na Antártica em foto de janeiro de 2015 — Foto: AP Photo/Natacha Pisarenko, File
Desafio logístico
O principal desafio logístico é a incerteza em torno das rotas aéreas.
Muitos dos que vão para a Antártica a cada temporada de verão o fazem viajando de avião para a África do Sul, a Austrália/Nova Zelândia ou o Chile.
Dali, pegam um novo voo ou um navio para cruzar o oceano até o continente.
Mas, com os corredores aéreos interrompidos no momento, estes tradicionais pontos de partida para o continente antártico não estão operando como deveriam.
A pandemia do coronavírus atingiu o mundo em meados da temporada de verão de 2019/2020.
Tirar todo o pessoal temporário do continente e trazê-lo para casa também provou ser uma dor de cabeça logística — e obrigou alguns cientistas e técnicos a enfrentar longas esperas e quarentena.
Autor: BBC News Brasil
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 22/12/20
Publicação Original: https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/12/22/coronavirus-se-espalha-para-a-estacao-de-pesquisa-da-antartida.ghtml
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020
Antártica, 20 graus: o continente gelado emite sinal de alerta, por Sucena Shkrada Resk

Nem sempre os recordes são sinais de celebração. O que dizer, então, sobre o registro da temperatura de 20,75 graus C na Ilha Seymour, na Antártica, no último dia 9 de fevereiro? É bom frisar – GRAUS POSITIVOS, no continente gelado. O anúncio foi feito pelo cientista brasileiro Carlos Schaefer, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que integra o Projeto brasileiro Terrantar (que monitora os impactos das mudanças climáticas em 23 locais na Antártica), ao jornal britânico The Guardian.
O que significa esta informação?
Em linhas gerais, que o derretimento do gelo se acelera e contribui ao aumento do nível dos oceanos e mares. Com isso, há a desestabilização gradativa de todo o ecossistema e da vida na zona costeira e em países insulares, neste século, e clima no planeta. Mais um ângulo dos efeitos das Mudanças Climáticas e do Aquecimento Global na era fóssil e dos desmatamentos, que geram o descontrole dos Gases de Efeito Estufa (GEEs) e refletem no aumento da temperatura global. A pergunta que persiste diante deste desafio da humanidade: há tempo para ceticismos?
Apesar de ainda haver um trâmite oficial protocolar de se aguardar a confirmação dos dados pela Organização Mundial Meteorológica Mundial (OMM), o fato irrefutável é o seguinte: não há o que comemorar e nunca foi tão necessário defender a Ciência e o investimento em pesquisas. E priorizar a manutenção das pesquisas na base antártica brasileira Comandante Ferraz, reinaugurada em janeiro deste ano, após incêndio ocorrido há oito anos.
Além da Antártica, o processo de derretimento do gelo, com o aumento mais frequente das temperaturas, está acelerado na Groenlândia e no outro extremo do planeta, no Ártico, como também no Alasca e nos Andes. O relatório sobre os Oceanos e Criosfera produzido por cientistas que integram o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), apresentado na Conferência das Partes da Convenção-Quadro sobre Mudança do Clima (COP-25), em dezembro, em Madri, reitera os alertas. E não é por acaso que foi instituída a Década das Nações Unidas para a Ciência dos Oceanos (2021-2030).
Antes dessa temperatura acima dos 20 graus C na Antártida, foi registrado lá, em 1982, 19,8 graus C, na Ilha Signy. No dia 6 de fevereiro deste ano, o extremo Norte da Península Antártica havia registrado 18,3 graus C, segundo pesquisador argentino da Base Esperanza. E em 2015 – 17,5 graus C. A porção oeste do continente tem apresentado os maiores impactos. As gigantescas geleiras Thwaites e Pine Island estão literalmente derretendo.
Por que a Antártida é tão importante para a humanidade no planeta?
A resposta é simples: 70% da água doce se concentram no formato de gelo e neve no mundo. Com todas as inconstâncias climáticas desde a era pré-industrial, cientistas do Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas (IPCC) avaliam que os oceanos estarão até 110 cm mais altos até o final deste século. Isso quer dizer que o comprometimento de países insulares e de zonas costeiras é inevitável e deslocamentos migratórios em decorrência das mudanças climáticas e do Aquecimento Global já são uma realidade. Já em 2017, o Laboratório de Propulsão à Jato da NASA tem realizado previsões sobre o que pode acontecer com 293 cidades portuárias no mundo, com os derretimentos em massa do gelo em todas as principais áreas no mundo. Aqui no Brasil, Belém, Recife e Rio de Janeiro sofrerão impactos.
O que causa maior preocupação é que as cidades excepcionalmente se preparam para estes cenários e poucas têm planos de combate às mudanças climáticas, que inferem primordialmente a adaptação e redução de danos.
Na Antártica, o ecossistema já sofre baixas significativas. Os cientistas têm pesquisado o declínio de mais de 50% nas colônias de pinguins de chinstrap, que dependem do gelo marinho, na região da península Antártica. O clima, por sua vez, fica cada vez mais instável, porque altera as correntes oceânicas e os níveis do Aquecimento Global, segundo pesquisadores. É uma retroalimentação de comprometimentos, que tem o “dedo” do ser humano, neste período chamado Antropoceno.
*Sucena Shkrada Resk – jornalista, formada há 28 anos, pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional, pela FESPSP, e autora do Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk (https://www.cidadaosdomundo.webnode.com), desde 2007, voltado às áreas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade.
Artigo enviado pela Autora e originalmente publicado no Blog Cidadãos do Mundo.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 19/02/2020
Autor: Sucena Shkrada Resk
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 19/02/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/02/19/antartica-20-graus-o-continente-gelado-emite-sinal-de-alerta-por-sucena-shkrada-resk/
sexta-feira, 24 de janeiro de 2020
Antártica: Fiocruz divulga relato da primeira expedição

Na Antártica, a primeira oportunidade pode ser a última. A frase, ouvida de veteranos, foi repetida pelos pesquisadores da Fiocruz que retornaram após sua primeira expedição ao continente gelado. Para fazer pesquisas na Antártica, é necessário muita preparação e planejamento. O grupo passou por uma preparação de um ano, que incluiu a definição de metodologia, logística, pontos de coletas e até mesmo um treinamento de oito dias conduzido pela Marinha na restinga da Marambaia. Ainda assim, é importante estar disposto e preparado para se enfrentar os imprevistos, além das condições adversas de um ambiente inóspito e instável. A lição foi aprendida na prática pelo grupo de cientistas que compôs a terceira fase da 38º Operação Antártica Brasileira (Operantar), que incluiu seis pesquisadores e dois profissionais de comunicação da Fiocruz.
A fase ficou marcada pela queda do avião da Força Aérea Chilena Hércules C-130, que desapareceu no dia 9 de dezembro no mar entre o Chile e Antártica. O navio polar Almirante Maximiano foi acionado para auxiliar na operação de busca e salvamento da aeronave e desviou sua rota para a região do acidente com todos a bordo na madrugada do dia 10 de dezembro, interrompendo os trabalhos de coleta. Em casos assim, a solidariedade é norma internacional.
Com isso, o grupo teve apenas uma descida do navio para coleta em solo, em Rip Point, na Ilha Nelson. A oportunidade foi bem aproveitada e serviu para colocar em prática a metodologia desenvolvida pela equipe. Foram coletadas amostras de solo, líquens, fezes e carcaças de animais, que serão analisados nos laboratórios da Fiocruz e no laboratório da Fundação na Estação Antártica Comandante Ferraz para identificação de microrganismos. A ideia é identificar ameaças e oportunidades entre vírus, bactérias, fungos e helmintos que circulam no continente antártico.
“Nós fomos brindados com um dia antártico fantástico, com sol, com uma temperatura agradável, com um vento que não estava atrapalhando”, conta o virologista do Laboratório de Vírus Respiratório e do Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Fernando do Couto Motta.
O dia bonito, no entanto, não acabou com as dificuldades do terreno, mesmo para um grupo acostumado com o trabalho de campo. “A coleta foi bem difícil. A gente ficou andando o dia todo com a neve até a altura do joelho, carregando mochila pesada. Foi bastante cansativo”, lembra Túlio Machado Fumian, pesquisador do Laboratório de Virologia Comparada e Ambiental do IOC/Fiocruz.
Mesmo com o desvio de rota e a interrupção da pesquisa de campo, o grupo não se abateu, nem parou de trabalhar. “A gente continuou discutindo e trabalhando em diferentes aspectos do projeto e tendo uma boa convivência. Acho que isso é um trampolim para próximas etapas que poderão buscar padrões mais elevados em próximas operações”, relata Fernando.
Um novo grupo de Fundação, composto por quatro pesquisadoras e dois profissionais de comunicação, já está novamente na Antártica, colocando na prática os ensinamentos passados por pelo primeiro grupo após reuniões de avaliação.
Cooperação em pesquisa
No contexto antártico, a cooperação é o cotidiano da pesquisa. Diferentes grupos dividem o espaço do navio e precisam negociar seu trajeto e logística. O convívio, que inclui refeições conjuntas, jogos e sessões de filmes, permite a troca de experiências e auxílio mútuo entre as equipes. “Essa é a vantagem de estar no navio, você convive com áreas novas, você aprende coisas diferentes”, comenta Túlio.
Ao desembarcar com um grupo da Universidade Federal de Viçosa (UFV) que estuda solos, o grupo da Fiocruz aprendeu um pouco mais sobre a formação geológica do continente. Em contrapartida, alguns pesquisadores tiveram que ajudar a carregar as baterias de cerca de 30kg que alimentam os sensores instalados para monitorar como as mudanças climáticas impactam no permafrost, camada do solo permanentemente congelada.
“É interessante ouvir os diferentes grupos testemunharem como eles tentam medir, as mudanças climáticas e quais são os impactos. A gente vê que a natureza lá é muito flexível. Em duas semanas, foi possível observar o degelo do entorno da Estação, que acontece todo verão, e imediatamente os musgos que estão embaixo começam a aparecer e fica tudo verde”, relatou Wim, que passou cerca de um mês na Estação Antártica Comandante Ferraz montando o laboratório de biossegurança que a Fiocruz ocupará permanentemente, o Fiolab.
Em outro momento, a equipe do Fioantar viu no desembarque de outro grupo a oportunidade de conseguir mais amostras de solo. O grupo da Universidade Federal Fluminense (UFF), liderado pela veterana de operações na Antártica Rosemary Vieira, coletou amostras em uma geleira próxima a estação polonesa Henryk Arctowski, uma área especialmente protegida.
“A gente sabe que o sedimento que a gente consegue coletar é difícil, ele é caro. E para que vamos manter esse tipo de material congelado e estocado só para o nosso uso, a partir do momento que ele serve também como fonte de pesquisa para outros grupos? Então, o compartilhamento é uma coisa protocolar, é o óbvio”, conta Rosemary, que participa em operações antárticas desde 2003. Ela garante que na Antártica o imprevisto é sempre a regra. “Tem que estar pronto para isso. E não voltar frustrado nunca”.
A professora da UFF explica que, mais do que amostras, as pesquisas também compartilham dados em escala internacional; mas a cooperação internacional vai além. Para chegar à Antártica, as expedições brasileiras precisam passar pela cidade chilena de Punta Arenas, onde os pesquisadores aguardam a “janela metereólogica”, como é chamado o intervalo entre frentes frias, para fazer a travessia entre os dois continentes por avião ou navio. Os voos de apoio, operados pela Força Áerea Brasileira (FAB), têm como destino a Base Chilena Presidente Frei Montalva, a única da ilha Rei George com pista de pouso. Outra cooperação comum, como foi possível observar, é a ajuda com a locomoção no continente. Durante a 3ª fase da 38ª Operantar, um grupo de poloneses pegou carona no “Tio Max” para ir da base chilena para a estação polonesa, vizinha à brasileira.

Pesquisadores coletaram amostras de solo, líquens, fezes e carcaças de animais (Foto: Paulo Lara)
Continente nem tão isolado
A proximidade da América do Sul e do Brasil do continente antártico, com grande fluxo de aves migratórias e correntes marítimas, o derretimento do gelo causado pelas mudanças climáticas, a presença de pesquisadores e o aumento do turismo justifica a relevância da detecção de possíveis ameaças à saúde humana no continente antártico. A cada ano, estima-se que cerca 5 mil pesquisadores passem pelo continente no verão e, para a temporada de 2019/2020, eram esperados 80 mil turistas na região.
“A Antártica parece intocado, mas quando você vê a movimentação dos países, a quantidade de estações, principalmente na área da ilha Rei George, não é tão isolada assim. E já tem realmente uma atividade crescente de turismo na região, o que é bastante preocupante”, observa o coordenador do projeto Wim Degrave, que como muito cientistas teme que a atividade saia do controle.
O continente é gerido pelo Tratado Antártico, que garante a não militarização, a liberdade de pesquisa científica, a proteção do meio ambiente e o congelamento de qualquer reivindicação territorial por países. O Brasil aderiu ao Tratado em 1975 e é um dos 29 membros com poder de voto em seu Conselho Consultivo. Desde 1982, o país desenvolve atividades científicas na Antártica, um requisito para os signatários do documento. Complementar a esse tratado, um protocolo de proteção ambiental foi assinado em 1991 em Madrid, que deu a Antártica o estatuto de” Reserva Natural Internacional dedicada à Ciência e à Paz". O protocolo proíbe a mineração e a exploração de petróleo no continente e ainda prevê a proteção da flora e da fauna e o controle do turismo.
Vigilância em saúde
A proposta de levar a expertise da Fiocruz para a Antártica reúne uma equipe multidisciplinar de dez laboratórios da instituição e busca munir o Sistema Único de Saúde (SUS) com informações que podem auxiliar em uma vigilância sanitária de ponta. “Estima-se que cerca de 60% das doenças que atingem o ser humano têm origem em animais”, afirma Fernando do Couto Motta.
Além disso, os microrganismos identificados na Antártica podem ter potencial biotecnológico. Por estarem há muito tempo isolados em um ambiente extremos, esses organismos – chamados de extremófilos - desenvolveram características próprias que podem ser utilizadas para a produção de insumos para a saúde.
Outra preocupação dos cientistas são os possíveis efeitos das mudanças climáticas. “As mudanças climáticas têm um impacto muito grande. Com o degelo do permafrost, temos novos lagos e ecossistemas se formando. Alguns microrganismos que estavam congelados podem ser descongelados e isso pode ser um risco. Já vimos isto acontecer no Ártico, com o Bacillus anthracis. Além disso, outra questão importante é como estes microrganismos estão reagindo à exposição aos raios UV.”, conta Wim.
Autor: Julia Dias (Agência Fiocruz de Notícias)
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 24/01/2020
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/antartica-fiocruz-divulga-relato-da-primeira-expedicao
segunda-feira, 18 de junho de 2018
A perda de gelo na Antártica está contribuindo cada vez mais para a elevação global do nível do mar

A coautora Isabella Velicogna, professora de ciência do sistema da Terra da UCI, mostrada aqui na Groenlândia com o coautor Eric Rignot, também professor de Ciência do Sistema Terrestre da UCI. Foto de Maria Stenzel, para a UCI
A perda de gelo na Antártida fez com que o nível do mar subisse 7,6 milímetros desde 1992, com 40% do aumento ocorrendo apenas nos últimos cinco anos, de acordo com uma equipe de 84 cientistas. incluindo especialistas em liderança disciplinar da Universidade da Califórnia, em Irvine.
Sua avaliação das condições na Antártida é baseada em dados combinados de 24 pesquisas por satélite e atualizações das descobertas de 2012. Os resultados do projeto – conhecido como Exercício de Comparação Comparativa do Balanço de Massa da Massa de Gelo – foram publicados hoje na revista Nature .
Eles mostram que antes de 2012, a Antárctica perdeu gelo a uma taxa constante de 76 bilhões de toneladas por ano – uma contribuição de 0,2 mm por ano para o aumento do nível do mar. Mas desde então, houve um aumento de três vezes. Entre 2012 e 2017, o continente perdeu anualmente 219 bilhões de toneladas de gelo – uma contribuição ao nível do mar de 0,6 mm por ano.
“As medições de gravidade da missão GRACE [Gravity Recovery & Climate Experiment] nos ajudam a rastrear a perda de massa de gelo nas regiões polares e os impactos no nível do mar em pontos ao redor do planeta”, disse a coautora Isabella Velicogna, professora de Sistema Terrestre da UCI. Ciência. “Os dados dos satélites gêmeos do GRACE nos mostram não apenas que existe um problema, mas que ele está crescendo em gravidade a cada ano que passa”.
O GRACE é uma missão conjunta da NASA e do Centro Aeroespacial Alemão .
A Antarctica armazena água congelada suficiente para elevar os níveis do mar global em 58 metros, e saber quanto gelo está perdendo é fundamental para entender os efeitos da mudança climática hoje e no futuro.
A perda de gelo do continente como um todo é uma combinação de aumento do derretimento na Antártida Ocidental e na Península Antártica, com um pequeno sinal do manto de gelo na Antártica Oriental.
A Antártida Ocidental experimentou a maior mudança, com perdas de gelo crescendo de 53 bilhões de toneladas por ano na década de 1990 para 159 bilhões de toneladas anuais desde 2012. A maior parte veio das imensas geleiras Pine Island e Thwaites, que estão recuando rapidamente devido ao degelo águas oceânicas.
No extremo norte do continente, o colapso da plataforma de gelo na Península Antártica provocou um aumento de 25 bilhões de toneladas na perda de gelo desde o início dos anos 2000. Acredita-se que o manto de gelo do leste da Antártica permaneceu relativamente estável nos últimos 25 anos.
“Com o número de estudos científicos focados nesta região, as ferramentas tecnológicas que temos à disposição e conjuntos de dados que abrangem várias décadas, temos uma imagem inequívoca do que está acontecendo na Antártida”, disse o co-autor Eric Rignot, Donald Bren Professor e cadeira de ciência do sistema da Terra na UCI. “Estamos confiantes em nossa compreensão da mudança da massa de gelo na Antártida e seu impacto no nível do mar. Vemos esses resultados como outro alarme de toque para desacelerar o aquecimento do nosso planeta ”.
Rignot, que liderou os estudos sobre o orçamento da massa de gelo para a avaliação, e Velicogna, que dirigiu a medição da gravidade, também atuam como cientistas pesquisadores no Laboratório de Propulsão a Jato da NASA. O projeto foi apoiado pela NASA e pela Agência Espacial Européia.
* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/06/2018
Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 18/06/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/06/18/a-perda-de-gelo-na-antartica-esta-contribuindo-cada-vez-mais-para-a-elevacao-global-do-nivel-do-mar/
A perda de gelo na Antártida fez com que o nível do mar subisse 7,6 milímetros desde 1992, com 40% do aumento ocorrendo apenas nos últimos cinco anos, de acordo com uma equipe de 84 cientistas. incluindo especialistas em liderança disciplinar da Universidade da Califórnia, em Irvine.
Sua avaliação das condições na Antártida é baseada em dados combinados de 24 pesquisas por satélite e atualizações das descobertas de 2012. Os resultados do projeto – conhecido como Exercício de Comparação Comparativa do Balanço de Massa da Massa de Gelo – foram publicados hoje na revista Nature .
Eles mostram que antes de 2012, a Antárctica perdeu gelo a uma taxa constante de 76 bilhões de toneladas por ano – uma contribuição de 0,2 mm por ano para o aumento do nível do mar. Mas desde então, houve um aumento de três vezes. Entre 2012 e 2017, o continente perdeu anualmente 219 bilhões de toneladas de gelo – uma contribuição ao nível do mar de 0,6 mm por ano.
“As medições de gravidade da missão GRACE [Gravity Recovery & Climate Experiment] nos ajudam a rastrear a perda de massa de gelo nas regiões polares e os impactos no nível do mar em pontos ao redor do planeta”, disse a coautora Isabella Velicogna, professora de Sistema Terrestre da UCI. Ciência. “Os dados dos satélites gêmeos do GRACE nos mostram não apenas que existe um problema, mas que ele está crescendo em gravidade a cada ano que passa”.
O GRACE é uma missão conjunta da NASA e do Centro Aeroespacial Alemão .
A Antarctica armazena água congelada suficiente para elevar os níveis do mar global em 58 metros, e saber quanto gelo está perdendo é fundamental para entender os efeitos da mudança climática hoje e no futuro.
A perda de gelo do continente como um todo é uma combinação de aumento do derretimento na Antártida Ocidental e na Península Antártica, com um pequeno sinal do manto de gelo na Antártica Oriental.
A Antártida Ocidental experimentou a maior mudança, com perdas de gelo crescendo de 53 bilhões de toneladas por ano na década de 1990 para 159 bilhões de toneladas anuais desde 2012. A maior parte veio das imensas geleiras Pine Island e Thwaites, que estão recuando rapidamente devido ao degelo águas oceânicas.
No extremo norte do continente, o colapso da plataforma de gelo na Península Antártica provocou um aumento de 25 bilhões de toneladas na perda de gelo desde o início dos anos 2000. Acredita-se que o manto de gelo do leste da Antártica permaneceu relativamente estável nos últimos 25 anos.
“Com o número de estudos científicos focados nesta região, as ferramentas tecnológicas que temos à disposição e conjuntos de dados que abrangem várias décadas, temos uma imagem inequívoca do que está acontecendo na Antártida”, disse o co-autor Eric Rignot, Donald Bren Professor e cadeira de ciência do sistema da Terra na UCI. “Estamos confiantes em nossa compreensão da mudança da massa de gelo na Antártida e seu impacto no nível do mar. Vemos esses resultados como outro alarme de toque para desacelerar o aquecimento do nosso planeta ”.
Rignot, que liderou os estudos sobre o orçamento da massa de gelo para a avaliação, e Velicogna, que dirigiu a medição da gravidade, também atuam como cientistas pesquisadores no Laboratório de Propulsão a Jato da NASA. O projeto foi apoiado pela NASA e pela Agência Espacial Européia.
* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/06/2018
Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 18/06/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/06/18/a-perda-de-gelo-na-antartica-esta-contribuindo-cada-vez-mais-para-a-elevacao-global-do-nivel-do-mar/
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