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segunda-feira, 6 de março de 2023

5 estratégias para renovar a motivação e a paixão pelo trabalho



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Eu quis ser escritor desde que peguei emprestada, pela primeira vez, a antiga máquina de escrever dos meus pais, aos seis anos de idade. Para minha frustração, eu ainda não podia ter acesso ao computador da família.


Quando vi meus pensamentos tomarem forma na página em branco, fui fisgado imediatamente.


Como escritor e jornalista, reconheço a sorte que tenho de concretizar essas ambições infantis, mas estaria mentindo se dissesse que não existem períodos em que essa paixão diminui.


Isso acontece principalmente na Londres úmida e sem graça de janeiro, quando meu ânimo já está ruim, e a repetição dos prazos semanais pode começar a ser cansativa.


Nesses momentos, sinto como se estivesse andando em uma esteira ergométrica, sem sair do lugar — e me dá vontade de pular fora.


E não estou sozinho. Como revelou a recente tendência de "demissão silenciosa", muita gente está perdendo o entusiasmo por carreiras que, outrora, amava. Você pode ter feito tudo o que estava ao seu alcance para conseguir o emprego dos sonhos — e, ainda assim, a rotina diária às vezes tira seu entusiasmo.


"Na minha experiência como coach, eu diria que este é um problema sério e que está crescendo", afirma a coach pessoal britânica Anna K. Schaffner, especializada em exaustão, burnout e resiliência. Ela é autora do livro The Art of Self-Improvement ("A arte do autoaprimoramento", em tradução livre).


Para algumas pessoas, a perda da paixão pode ser sinal de que é preciso mudar de carreira, mas nem sempre essa mudança drástica é possível.


Felizmente, estudos recentes mostram que algumas pessoas adotam naturalmente "estratégias de cultivo" para reacender essa paixão e motivação — e todos nós podemos aplicar essas técnicas de várias formas diferentes.



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Dividir projetos em tarefas rápidas e menores pode oferecer aquela agradável sensação de satisfação quando você termina cada fase planejada

Questão de mentalidade


O primeiro estudo é da professora de psicologia Patricia Chen, da Universidade do Texas em Austin, nos Estados Unidos.


Ela analisou a influência de duas mentalidades diferentes sobre a paixão. Os chamados "teóricos da adequação" costumam concordar com afirmações como:


Acredito que existe um trabalho perfeito e adequado para cada indivíduo, e encontrar a profissão correta vai determinar a felicidade e o sucesso profissional da pessoa.


Já os "teóricos do desenvolvimento" são mais propensos a concordar com afirmações como esta:


Acredito que a paixão se desenvolva por meio de um processo de aprendizado em qualquer profissão escolhida. Quanto melhor você ficar em um tipo de trabalho, mais começará a amar a profissão.


Usando questionários detalhados que avaliam o tipo de mentalidade das pessoas e vários resultados no ambiente de trabalho, Chen concluiu que essas crenças se tornam profecias autorrealizáveis.


Os teóricos da adequação vão lutar para encontrar felicidade em um emprego que não atende aos seus critérios específicos. Enquanto isso, os teóricos do desenvolvimento podem aprender a encontrar prazer e interesse nas diferentes tarefas, de forma que sua satisfação cresça ao longo do tempo, mesmo se o emprego não atender inicialmente todos os requisitos desejados.


O novo estudo de Chen pretende explorar como os teóricos do desenvolvimento administram sua paixão desta forma. Que estratégias eles usam para manter acesa a chama do desejo pelo trabalho?


Para descobrir, ela começou entrevistando 316 estudantes de graduação de diversas disciplinas acadêmicas sobre como a paixão deles pelo curso mudou ao longo do tempo. O estudo incluía essencialmente um questionário aberto sobre o que havia causado essa mudança na paixão.


Dentre as centenas de respostas, os pesquisadores identificaram cinco estratégias comuns apontadas pelos estudantes para aumentar sua motivação. São elas:


- Reconhecer a relevância pessoal: um estudante de negócios, por exemplo, pode tentar pensar em formas nas quais o conhecimento teórico o ajuda a fundar uma start-up.


- Reconhecer a relevância social: um estudante pode se perguntar como o conteúdo dos estudos pode ajudá-lo a entender o mundo, e como aquele conhecimento pode acabar beneficiando os demais.


- Construir familiaridade: adquirir novos conhecimentos pode despertar a curiosidade de alguém para saber mais, à medida que identifica novos pontos de interesse. E o próprio fato de conseguir avançar e dominar tarefas difíceis, por si só, pode ser uma recompensa. Por isso, alguém que se sente desmotivado pode procurar novas formas de ampliar seus conhecimentos.


- Ganhar experiência prática: muitos estudantes descobriram que os estágios aumentaram seu entusiasmo pelos estudos acadêmicos.


- Encontrar mentores e mudar o ambiente: os estudantes podem procurar ativamente professores que os inspirem ou amigos que os ajudem a tornar o trabalho mais agradável.


De forma geral, Chen confirmou que os estudantes com mentalidade de desenvolvimento eram mais propensos a observar aumentos positivos da paixão pelos estudos ao longo do tempo. Esta mudança está relacionada com a quantidade de estratégias de cultivo da paixão que eles utilizam.


Já os estudantes com a mentalidade de adequação não parecem empregar essas estratégias com a mesma eficiência.



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Gerar motivação


As conclusões de Chen estão alinhadas com pesquisas psicológicas mais amplas que analisam as maneiras pelas quais as pessoas regulam seus interesses e motivação no trabalho.


Além de confirmar o uso das estratégias que Chen já havia encontrado (como identificar a relevância pessoal ou social do trabalho), estes estudos sugerem outras formas de reavivar o encanto.


Dois dos métodos mais úteis são a “definição de objetivos próximos” e a "consequência automática". Eles são particularmente úteis quando você se sente sobrecarregado com um novo projeto, no qual o desafio é tão grande, e a recompensa tão distante, que você tem dificuldade de reunir o entusiasmo necessário para começar.


Para aplicar o método de definição de objetivos próximos, você precisa dividir o projeto em tarefas menores que sejam mais rápidas de completar. Isso permite que você sinta aquela sensação agradável de satisfação quando finaliza cada etapa.


"Isso pode ser especialmente eficaz se você usar pequenas recompensas por atingir essas metas, como assistir à Netflix, depois de encerrar uma tarefa", afirma Maike Trautner, pesquisadora de pós-doutorado da Universidade de Münster, na Alemanha. Esta é a parte da consequência automática.


Mais uma vez, a mentalidade é importante. Em um recente estudo em parceria com Malte Schwinger, professor da Universidade Philipps de Marburgo, também na Alemanha, Trautner entrevistou mais de 700 estudantes para descobrir as formas como eles lidam com a motivação.


Assim como Chen observou no seu trabalho sobre a paixão, os dois professores concluíram que alguns estudantes acreditam que sua motivação para uma tarefa é fixa e inalterável, enquanto outros acreditam que ela pode ser cultivada.


E são estes últimos que buscam maneiras de aumentar a motivação utilizando estratégias práticas, enquanto aqueles que acreditam que a motivação está além do seu controle são menos proativos.



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Partindo para a ação


Para as pessoas que já têm uma mentalidade de desenvolvimento, estas estratégias podem parecer óbvias. Mas o trabalho de Chen sugere que elas são minoria. Nas amostras dela, a maioria demonstrou ter mentalidade de adequação e, portanto, poderia se beneficiar ao ser lembrada do seu potencial para desenvolver paixão e motivação.


Dedicar mais tempo para refletir sobre nossos objetivos gerais, procurar os benefícios que nosso trabalho proporciona para outras pessoas, entrar em contato com colegas inspiradores e definir um plano com pequenas recompensas — todas essas são estratégias simples que podemos seguir para ampliar nosso entusiasmo.


Mas você não precisa assumir toda a responsabilidade. Schaffner sugere conversar com seu chefe sobre maneiras pelas quais você pode mudar seu trabalho para que ele se alinhe melhor com seus valores e interesses — um processo que ela descreve como job crafting (que seria algo como uma "reconfiguração ou ressignificação do trabalho")


"Os bons empregadores devem se interessar por isso e apoiar a ideia", afirma.


"Faz total sentido que seus funcionários recebam tarefas mais adequadas para que eles tenham melhor desempenho."


Se você ainda sentir que nada mudou, talvez você esteja simplesmente pedindo demais da sua carreira.


Da mesma forma que, de vez em quando, esperamos que nossos parceiros românticos sejam a fonte de toda emoção nas nossas vidas (o que deposita uma pressão desnecessária sobre o relacionamento), às vezes podemos ter expectativas irreais sobre nossos empregos, como se fossem fornecer significado para nossas vidas.


Por este motivo, Schaffner sugere adotar um hobby que também possa oferecer um sentido de propósito e realização, para que o emprego não seja o único lugar em que você vai encontrar satisfação na vida.


"Ironicamente, com um pouco de desapego e perspectiva, nossa tendência é trabalhar melhor e com mais leveza", diz ela.


Eu mesmo estou tentando aplicar esta filosofia. Nestes dias sombrios de inverno no hemisfério norte, tenho tentado recarregar minha energia me lembrando de todas as razões que me levaram inicialmente a seguir a carreira de jornalista e dedicando mais tempo para ler os comentários das pessoas sobre o que escrevo — uma atividade que muitas vezes fica em segundo plano devido à pressão dos prazos urgentes.


Mas, seguindo o conselho de Schaffner, também estou me esforçando para dedicar mais tempo a outras atividades que eu adoro.


Nas palavras dela, "pode ser incrivelmente curativo e terapêutico quando o trabalho é apenas trabalho".






Autor: David Robson
Fonte: BBC Worklife
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 05/03/2023
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/articles/crgvpvwwvg4o

Comer comida queimada faz mal à saúde?



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Você costuma raspar os pedaços queimados da sua torrada? Pesquisas recentes indicam que pode ser uma boa ideia


É muito provável que você mantenha até hoje, talvez sem perceber, alguns dos hábitos de comer e cozinhar que aprendeu com adultos quando era jovem.


Talvez você nunca tenha lambido comida da faca, por exemplo, ou tenha o costume de jogar sal sobre seus ombros para afastar os maus espíritos.


Muitos desses hábitos estranhos provavelmente são apenas superstições, mas existe um costume em particular que pode ter sido profético algumas décadas atrás. Afinal, ele se baseia em uma descoberta científica que ainda não havia ocorrido.


Foi apenas em 2002 que cientistas da Universidade de Estocolmo, na Suécia, descobriram que pode realmente ser aconselhável raspar os pedaços queimados da sua torrada.


Eles descobriram que uma substância chamada acrilamida forma-se quando aquecemos certos alimentos – incluindo batatas, pão, biscoitos, cereais e café – a mais de 120°C e o açúcar dos alimentos reage com o aminoácido asparagina. Este processo é conhecido como a reação de Maillard, que faz com que o alimento adquira a coloração marrom e gere aquele sabor característico de "coisa queimada".

Os cientistas descobriram que a acrilamida é carcinogênica nos animais, ainda que em doses muito mais altas que as dos alimentos humanos.


A acrilamida também pode aumentar o risco de câncer em seres humanos, especialmente em crianças, segundo a Autoridade Europeia de Segurança Alimentar. Mas os pesquisadores que estudam seus efeitos em seres humanos ainda não conseguiram chegar a uma conclusão definitiva.


"Quase 30 anos depois da sua classificação como 'provável carcinogênico humano', as evidências da sua real carcinogenicidade nas pessoas ainda são inconsistentes. Se continuarmos fazendo novos estudos em seres humanos, poderemos ter dados apropriados para alterar a classificação da acrilamida para 'carcinogênico humano'", afirma Fatima Saleh, professora de ciências médicas de laboratório da Universidade Árabe de Beirute, no Líbano.


O que os cientistas sabem ao certo é que a acrilamida é neurotóxica para os seres humanos, o que significa que ela pode afetar o sistema nervoso. A causa exata ainda não é totalmente compreendida, mas uma das teorias é que a acrilamida ataca proteínas estruturais nas células nervosas ou pode inibir sistemas anti-inflamatórios que protegem as células nervosas contra lesões.


Já se demonstrou que os efeitos tóxicos da acrilamida são cumulativos. Isso significa que consumir pequenas quantidades de acrilamida por um longo período de tempo pode aumentar o risco de que ela prejudique órgãos com o passar do tempo.


Mais especificamente, evidências de estudos com animais sugerem que a exposição de longo prazo a acrilamida na alimentação também pode aumentar o risco de doenças neurodegenerativas, como a demência. E ela também pode estar associada a distúrbios do neurodesenvolvimento em crianças, segundo Federica Laguzzi, professora de epidemiologia nutricional e cardiovascular do Instituto de Medicina Ambiental do Instituto Karolinska, na Suécia.



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Retirar pedaços queimados dos alimentos antes de comê-los pode evitar prejuízos para a saúde


"A acrilamida atravessa todos os tecidos, incluindo a placenta, porque tem baixo peso molecular e é solúvel em água", explica Laguzzi. A professora encontrou relação entre a maior ingestão de acrilamida por mulheres grávidas e menor peso, circunferência da cabeça e comprimento dos bebês na hora do parto.


O possível mecanismo que leva a acrilamida a aumentar o risco de câncer em seres humanos ainda é desconhecido. Mas o professor de epidemiologia Leo Schouten, da Universidade de Maastricht, na Holanda, tem uma teoria sobre por que isso pode acontecer.


Depois que cientistas suecos descobriram a presença de acrilamida na alimentação humana em 2002, a Autoridade Alimentícia Holandesa entrou em contato com pesquisadores do Estudo de Coorte Holandês sobre Alimentação e Câncer, do qual Schouten faz parte, para investigar se a acrilamida na alimentação traria riscos para seres humanos.


Schouten e seus colegas tentaram então formular uma estimativa da quantidade de acrilamida consumida pelas pessoas, com base em um questionário.


Eles descobriram que a variação entre as pessoas com alta e baixa exposição em uma população de holandeses idosos pode ser explicada principalmente por um produto popular na Holanda – o "ontbijtkoek", algo como "bolo do café da manhã". Ele é extremamente rico em acrilamida, devido ao bicarbonato de sódio utilizado na sua produção.


Os pesquisadores investigaram a relação entre a ingestão de acrilamida por não fumantes (já que o cigarro também contém a substância) e todos os tipos de câncer e encontraram risco mais alto de câncer do ovário e endométrio em mulheres com alta exposição à acrilamida. E também encontraram, em outros estudos, uma leve correlação entre a ingestão de acrilamida e câncer renal.


Mas estas descobertas ainda aguardam confirmação por outros pesquisadores. O estudo mais próximo foi realizado nos Estados Unidos e suas conclusões, publicadas em 2012, indicam aumento do risco de câncer do ovário e endométrio entre mulheres pós-menopausa não fumantes que consumiram altas quantidades de acrilamida.


É claro que pode haver outras razões – pessoas que comem altos níveis de acrilamida também podem fazer outras opções de estilo de vida que as coloquem em risco mais alto.


Outros estudos não encontraram associação ou encontraram associação mais fraca. Mas não está claro se a relação encontrada por Schouten e sua equipe era incorreta ou se outros estudos não conseguiram medir a ingestão de acrilamida com precisão.



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Colocar as batatas na água quente por 10 minutos pode reduzir a quantidade de acrilamida produzida durante a fritura


Schouten explica que o mecanismo por trás do possível efeito causador de câncer da acrilamida pode estar relacionado aos hormônios, já que certos hormônios foram associados ao aumento do risco de câncer, especialmente câncer genital feminino, como o câncer do endométrio e do ovário.


"A acrilamida pode afetar o estrogênio ou a progesterona, o que explicaria o câncer feminino, mas ainda não há comprovação a respeito", afirma o professor.


Estudos de laboratório com ratos também encontraram relações entre a ingestão de acrilamida e câncer nas glândulas mamárias, na glândula tireoide, nos testículos e no útero, o que também sugere um processo hormonal. Mas isso não significa necessariamente que os riscos sejam similares em seres humanos.

Mais estudos


Em 2010, o Comitê Conjunto de Especialistas sobre Aditivos Alimentares da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) sugeriu que mais estudos de longo prazo são necessários para compreender melhor a relação entre a acrilamida e o câncer. O Comitê apoia os esforços para reduzir os níveis de acrilamida nos alimentos.


Mas um dos maiores desafios é medir com precisão a quantidade de acrilamida que nós consumimos.


"É bem aceito que a acrilamida é genotóxica e pode causar câncer em animais, mas a associação entre acrilamida e câncer em seres humanos ainda é incerta", afirma Laguzzi.


"A maioria dos estudos epidemiológicos é realizada com ingestão de acrilamida medida por meio de questionários sobre a alimentação que dependem do relato das pessoas, o que pode interferir nos resultados", explica a professora.


Embora Schouten acredite ter conseguido medir com precisão a acrilamida na alimentação das pessoas, nem todos concordam, incluindo vários toxicólogos. Outra forma de avaliar a ingestão de acrilamida é medir os biomarcadores na urina e no sangue, mas também não se encontrou nada de concreto desta forma, segundo ele.


É importante ter mais pesquisas, com a acrilamida medida com biomarcadores, especialmente no sangue, que demonstra a ingestão de acrilamida por um período de tempo mais longo do que a urina, segundo Laguzzi.


A acrilamida já foi medida por biomarcadores em estudos americanos, mas apenas muito recentemente. Um estudo de 2022, utilizando dados que cobrem uma década, demonstra relação entre a ingestão de acrilamida e mortes por câncer, mas não conseguiu concluir quais tipos da doença.


Uma razão que talvez explique por que não existem muitas evidências conclusivas de que os níveis de acrilamida na alimentação podem aumentar o risco de câncer é porque podemos ter medidas de proteção. no corpo, que limitam os riscos maiores causados por nossas eventuais batatas fritas mais queimadas.



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São necessários novos estudos de longo prazo para encontrar a relação entre alimentos queimados e o câncer


Laguzzi não encontrou relação entre o risco de câncer não ginecológico e a ingestão de acrilamida na sua pesquisa feita em evidência populacional dessa associação. Ela afirma que o motivo pode ser porque os seres humanos têm bons mecanismos de reparação para ajudar a prevenir possíveis efeitos carcinogênicos e neurotóxicos ou porque esses estudos foram realizados utilizando medidas imprecisas de exposição à acrilamida alimentar.


"Além disso, nós não comemos acrilamida sozinha", ressalta Laguzzi. "Ela está nos alimentos, onde também pode haver outros componentes, como antioxidantes, que podem ajudar a prevenir os mecanismos tóxicos."

Medidas de redução


Apesar da ausência de pesquisas sólidas que demonstrem os riscos da ingestão de acrilamida aos seres humanos, a indústria alimentícia está tomando medidas para reduzir a substância nos seus produtos.


"A União Europeia está em processo de definir os níveis máximos permitidos para acrilamida nos alimentos, o que poderá ter sérias repercussões para a cadeia de fornecimento", afirma o pesquisador Nigel Halford. Suas pesquisas estão ajudando agricultores a reduzir o potencial de formação de acrilamida em produtos preparados com trigo.


A acrilamida não é encontrada nas plantas, mas sim a asparagina, que é a substância que se transforma em acrilamida durante o aquecimento. "A acrilamida afeta uma ampla variedade de alimentos produzidos com cereais, de forma que é muito importante para a indústria alimentícia", afirma ele.


Os grãos de trigo acumulam muito mais asparagina do que o necessário e, aparentemente, o acúmulo é maior quando eles não têm todos os nutrientes necessários, especialmente enxofre, segundo Halford. O pesquisador está tentando suprimir este processo geneticamente, usando o método de edição genética Crispr.


No outro lado da cadeia de fornecimento, muitos produtores vêm sendo incentivados a reduzir, quando possível, o teor de acrilamida dos seus produtos, especialmente em alimentos para bebês.


Leo Schouten conta que esta iniciativa tem tido sucesso. Ele ficou feliz ao saber que o bolo de café da manhã holandês ontbijtkoek agora tem cerca de 20% da acrilamida que costumava ter, agora que foi alterada a sua forma de produção.


Fatima Saleh afirma que também existem formas de reduzir o teor de acrilamida em casa, durante a preparação dos alimentos. Segundo ela, por exemplo, mergulhar batatas cortadas em água quente por 10 minutos antes de fritá-las pode reduzir a formação de acrilamida em quase 90%.


Federica Laguzzi destaca que o interesse científico pelos riscos da acrilamida à saúde cresceu novamente nos últimos anos. Ela afirma que será um processo longo, mas espera que, em alguns anos, a eventual relação entre a ingestão de acrilamida e o risco de câncer fique mais clara.


Enquanto isso, aquele hábito de raspar os pedaços queimados da sua torrada pode não ser uma ideia tão ruim assim.




Autor: Jessica Bradley
Fonte: BBC Future
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 06/03/2023
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/articles/ckmd30dn5j2o

Qual o mínimo de exercícios que precisamos fazer e ainda assim melhorar a saúde



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Encaixar exercícios na nossa rotina cheia de compromissos é um desafio, mas uma questão importante


Quanto exercício você consegue encaixar na sua rotina?


Em um universo paralelo, eu praticamente moro dentro da piscina, vou de bicicleta a todos os lugares e corro 10 km só por diversão.


Mas no mundo real — do trabalho e da família — fazer natação uma vez na semana já é uma grande conquista.


A recomendação médica é para que as pessoas dediquem quase duas horas e meia (150 minutos) a exercícios de intensidade moderada por semana. Mas cerca de um quarto da população não consegue se exercitar nem por meia hora.


Então, existe uma alternativa mais fácil? Qual é a quantidade mínima de exercício para manter a saúde?


A professora Zoe Saynor — de fisiologia do exercício clínico da Universidade de Portsmouth e ex-jogadora profissional de rugby — busca recomendar rotinas mais simples de exercício.


Ela vai me ajudar a procurar uma resposta a essa questão. Por uma semana, eu usei um rastreador de atividades físicas.


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Zoe Saynor e o repórter James Gallagher no laboratório da Universidade de Portsmouth


Antes mesmo de eu revelar os resultados dos testes, já vou dar minhas desculpas: essa foi uma semana muito movimentada no trabalho, e fiquei preso à minha mesa na maior parte do tempo em que estava usando o equipamento.


Os resultados foram horríveis. Eu consegui apenas um minuto de exercício intenso (equivalente à corrida) por dia e 16 minutos de exercício moderado (uma caminhada rápida).


"Essa é o retrato do que vemos acontecer com muitas pessoas na sociedade moderna", diz Saynor.

Ir rápido ou ir longe?


Se você quer passar menos tempo se exercitando — mas obter bons resultados —, a única opção é se exercitar com maior intensidade.


"Há evidências claras de que, se você quiser sessões de exercício mais curtas, elas precisam ter uma intensidade mais alta", diz Saynor.


A orientação oficial dos médicos é de fazer 75 minutos de exercício físico intenso por semana, em vez de 150 minutos de atividade moderada.


Um dos exercícios da moda é o treino intervalado de alta intensidade (HIIT ou High Intensity Interval Training, em inglês), que envolve explosões de atividade intensa em períodos curtos de tempo.


No entanto, Saynor diz que a maioria das pessoas não consegue fazer treinos assim rotineiramente, porque o HIIT exige muita intensidade.

Qual é o mínimo?


Quando se trata da menor quantidade de exercícios que as pessoas devem fazer, Saynor diz que acredita que a quantidade de passos por dia gira em torno de 5.000 a 6.000.


É fácil desprezar os conselhos de descer uma parada de ônibus antes e caminhar o resto ou de dar uma volta no intervalo para o almoço. Mas aparentemente esses pequenos esforços parecem fazer a diferença.


Um estudo com quase 80 mil pessoas publicado na revista JAMA Internal Medicine mostrou que caminhar um pouco mais a cada dia reduz o risco de câncer, doenças cardiovasculares e morte precoce.


Esse padrão continua até que você atinja cerca de 10 mil passos por dia. Passos mais rápidos valem mais do que os lentos.


"Se você não tiver tempo para de uma hora para a outra dar 10 mil passos por dia, você conseguiria dar 5.000 passos mais rápido? Isso melhoraria sua saúde", diz Saynor.


Você nem precisa fazer exercícios formais, como corrida, musculação ou natação, para perceber os benefícios para sua saúde.


Um estudo publicado na Nature Medicine analisou 25 mil pessoas que não "se exercitam" formalmente, mas realizam pequenas tarefas cotidianas que exigem algum esforço físico.


Isso pode ser algo bastante corriqueiro — correr para pegar um trem, usar o aspirador de pó, brincar com crianças ou cachorros, carregar compras pesadas ou subir escadas.


A pesquisa mostrou que algo como três e quatro minutos de curtas atividades vigorosas ao longo do dia traz enormes benefícios à saúde.


"As pessoas que exibem essa atividade intermitente podem reduzir o risco de doenças importantes, como doenças cardíacas e câncer, em até 50%", diz Mark Hamer, professor de Esporte e Medicina de Exercícios da University College London.


"Na última década, as diretrizes estão lentamente se afastando da recomendação de 30 minutos por dia para algo como 'qualquer coisa já ajuda', e acho que esses resultados ressaltam essa ideia".



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Trabalho doméstico que movimenta o corpo já conta como traz benefícios à saúde

Sauna conta?


Se ainda assim, você não tem tempo nem para poucos exercícios, pode haver outra maneira — que é bastante agradável.


Que tal um banho — em banheira de hidromassagem ou sauna?


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Sauna é considerada uma boa maneira de imitar alguns dos benefícios do exercício


Resolvi botar meu calção de banho e participar de um novo teste.


Este é um experimento preciso — eu não posso simplesmente pular dentro da água. O pesquisador Thomas James tem que me "içar" para dentro de uma piscina com água a 40°C, de tal forma que apenas minha cabeça e pescoço ficam acima da água.


O ponto de 40°C é mais alto que a temperatura corporal (37°C). Então, o tempo todo em que estou aqui meu corpo está trabalhando para perder calor.


Rapidamente, sinto o suor de minha testa. Mas no resto do meu corpo o suor está apenas escorrendo e isso não está me esfriando.


"A água quente é letal nesse aspecto", diz James.


Se eu ficasse muito tempo aqui, meu corpo aqueceria demais e eu poderia morrer. Meu coração estaria bombeando cada vez mais rapidamente, tentando fazer o corpo perder calor ao aproximar o sangue da superfície da pele.


"Seu coração estará trabalhando duro, parecido com o que você veria com exercícios de baixa intensidade", diz ele. "Estamos vendo reduções na pressão arterial, mesmo em pessoas saudáveis".


A ideia dos pesquisadores é simular o que aconteceria com o corpo em um exercício.


"Esta é uma maneira muito boa de imitar alguns dos benefícios que você obtém do exercício, mas a evidência é certamente bastante clara de que o exercício é a melhor forma. Mas as duas coisas juntas [exercício e banho ou sauna] fornecem os maiores benefícios à saúde", diz James.


"Eu acho que isso realmente terá um papel importante no futuro. "


A conclusão é que fazer sauna ou tomar banho de hidromassagem depois da academia pode dar um impulso maior na saúde.


Mas a equipe da Portsmouth alerta que as pessoas precisam seguir as recomendações certas.


"Não diga: 'Vou ficar aqui o máximo que puder'. Faça isso pela diversão", diz James.


O conselho é banhos ou sauna de 10 a 20 minutos, dependendo dos equipamentos.


Obviamente, todos nós devemos ter como objetivo fazer a quantidade recomendada de exercício, mas, como muitos de nós achamos que isso impossível, é tranquilizador saber que há benefícios significativos a serem obtidos apenas fazendo um pouco mais no nosso dia-a-dia.






Autor: James Gallagher
Fonte: BBC News
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 06/03/2023
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c0x932x48vwo

'Fiz tatuagem para salvar minha vida'



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Ideia da tatuagem surgiu do medo de uma situação em que Amanda ficaria inconsciente


Desde quando era adolescente, a empresária Amanda Munaretti Selbach, de 39 anos, percebia que, ao tomar alguns medicamentos que continham o composto dipirona, sentia formigamento e coceiras pelo corpo.


No início, ela acreditava que os sintomas eram porque o medicamento estava agindo em seu organismo e não se importava com as reações. No entanto, com o passar dos anos, a empresária notou que essas manifestações após a ingestão do medicamento foram se agravando.


Com os sintomas cada vez mais graves, a empresária buscou ajuda médica e após fazer testes de alergia descobriu que era sensível a todos os Aines (Anti-inflamatórios Não Esteroides).


Os Aines são aqueles medicamentos usados no tratamento da dor aguda e crônica decorrente de processo inflamatório no organismo. Entre os exemplos mais comuns desses medicamentos estão: diclofenaco, Ibuprofeno, paracetamol, Nimesulida e AAS (ácido acetilsalicílico).

Para não ter reações alérgicas, os médicos explicaram que Amanda deveria usar medicamentos como antibióticos e corticoides, quando necessário, e assim, poderia ter uma vida considerada normal e sem intercorrências médicas.

Duas gestações, dois sustos



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Amanda descobriu que é alérgica a todos os anti-inflamatórios não esteroides


No entanto, o primeiro grande susto da empresária relacionado às suas alergias foi em 2011, quando ela foi submetida a uma cirurgia cesariana para o nascimento do primeiro filho. Sabendo da sua condição alérgica a diversos medicamentos, ela alertou os médicos e anestesistas que fariam o seu parto sobre a condição. Mas, segundo ela, não adiantou.


“O médico disse que eu precisava de um anti-inflamatório devido aos riscos de inflamação pós-cirurgia. Assim que fui para o quarto após a minha filha nascer, já comecei a passar mal. Meu corpo formigava, minha glote fechou, eu não conseguia mais falar e tinha dificuldade de respirar. Eu quase morri”, relata.


Para controlar a situação, segundo Amanda, foi necessário que os médicos usassem medicamentos como adrenalina para neutralizar o efeito do anti-inflamatório.


No ano seguinte, no nascimento do seu segundo filho, mais uma vez a empresária relata que comunicou os médicos sobre suas alergias e reações. No entanto, segundo ela, novamente durante a cesariana lhe foi aplicado medicamento anti-inflamatório e pela segunda vez ela teve edema de glote - reação alérgica grave que provoca inchaço na garganta, impedindo a passagem de ar para os pulmões.


“Dessa vez minha glote fechou na hora, na sala de parto mesmo. Meu obstetra se apavorou e todo o processo para controlar a alergia teve que ser feito ali mesmo”, recorda.

Tatuagem


Por recomendação dos próprios médicos, Amanda decidiu tatuar no braço esquerdo os medicamentos aos quais é alérgica e também aqueles que ela pode usar sem ter intercorrências.



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As tatuagens como esta feita por Amanda são chamadas de funcionais ou inteligentes


“Minha grande preocupação é sofrer um acidente, ficar inconsciente e não conseguir explicar sobre minhas alergias. Usar uma correntinha descrevendo as alergias ou deixar anotado na carteira, ou celular para mim não resolve, porque na hora de uma emergência ninguém vai olhar. Já estando tudo escrito no meu braço, não tem como eles não verem”, diz.


Ainda segundo a empresária, após fazer a tatuagem, em 2018, ela não teve mais nenhuma intercorrência médica devido ao uso errado de medicamentos aos quais é alérgica.

Ajudando os médicos


Tatuagens como a feita por Amanda, são chamadas de funcionais ou inteligentes, já que servem como ferramenta de prevenção, sinalizando alguma doença preexistente ou alergia, além de muitas identificarem ainda o tipo sanguíneo da pessoa.


Anuar Saleh Hatoum, especialista em medicina de emergência no Hospital Santa Paula, na capital paulista, afirma que esses desenhos na pele são, de fato, muito importantes e usados pelos médicos no primeiro atendimento a pacientes que chegam inconscientes.


“Sempre que o paciente chega, uma das primeiras coisas que a gente faz é a exposição dele, onde a gente o avalia por completo. A partir daí a gente procura sinais clínicos como fraturas e lesões que possam justificar o quadro dele e nesse momento também verificamos a questão da tatuagem, se tem algo que possa auxiliar nesse primeiro atendimento”, diz.



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'Minha grande preocupação é sofrer um acidente, ficar inconsciente e não conseguir explicar sobre minhas alergias', diz Amanda


No entanto, segundo os médicos, é preciso fazer a tatuagem em locais visíveis e estratégicos, que costumam ser olhados pelos profissionais de saúde de imediato, como braço e próximo a veias.


“Em qualquer situação de saúde crítica, uma das primeiras ações da equipe é providenciar um acesso venoso para punção venosa. Os braços são o primeiro lugar a serem observados pela facilidade de obtenção desse acesso. Faz parte em uma avaliação de emergência também a retirada de roupas e a avaliação do paciente por completo", acrescenta Christian Morinaga, gerente médico do Pronto Atendimento do Hospital Sírio-Libanês.


Porém, dependendo da situação, outras prioridades podem ocorrer, por isso, não é uma boa ideia registrar alergias no tórax, por exemplo.”


No caso das tatuagens com a tipagem sanguínea, em uma necessidade de transfusão, o tipo sanguíneo tatuado no punho ou no braço facilitam e agilizam o processo de atendimento ao paciente, afirmam os especialistas.

Cuidados ao fazer uma tatuagem


Para que a tatuagem seja feita da melhor maneira possível, é importante que o organismo esteja fortalecido e, assim, a recuperação aconteça de forma rápida.


Entre os principais riscos do procedimento estão: infecção, queloides e até mesmo transmissão de doenças infectocontagiosas, caso o estúdio não siga as normas de higiene e os materiais não sejam descartáveis.


“Os principais riscos são a possibilidade de contrair uma infecção, que pode ser causada por bactérias, vírus e fungos, ter reações alérgicas e até mesmo contrair doenças transmitidas pelo sangue, como hepatite B e C”, acrescenta Linhares.


Além disso, pessoas com problemas de pele, como eczema e psoríase, e pessoas com sistema imunológico enfraquecido, mulheres grávidas ou amamentando devem evitar fazer tatuagem.

Outras maneiras de comunicar suas alergias


- Usar pulseiras com as suas principais informações de saúde


- Deixar as pessoas mais próximas alertas sobre suas alergias


- Cadastrar as alergias no celular (muitos celulares disponibilizam informações em caso de emergência)


- Ter na bolsa ou carteira um cartão plastificado com informações de saúde







Autor: Simone Machado
Fonte: São José do Rio Preto (SP) para BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 06/03/2023
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c2lzw77zy5go

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Por que o Brasil tem a população mais ansiosa do mundo


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Aproximadamente 9,3% dos brasileiros sofrem de ansiedade patológica, segundo OMS


Coração acelerado antes de uma prova, nervosismo em uma reunião importante ou mãos suando no primeiro dia de trabalho. Provavelmente, você já sentiu algum desses sintomas.


Agora, se você está com dificuldades recorrentes para dormir, fica sem ar em uma reunião importante e não consegue se concentrar no trabalho por somente pensar no pior deve ficar atento. O que acredita ser normal pode ser um distúrbio psiquiátrico e exige avaliação médica.


Quando não tratada corretamente, a ansiedade pode virar uma adversidade e desencadear outros transtornos mentais, como a depressão, que acomete aproximadamente 300 milhões de pessoas no mundo, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).


Aos 19 anos, a estudante Julia de Mello Precioso representa um dos 18,6 milhões de brasileiros que possuem transtorno de ansiedade.


"No começo, me sentia desmotivada, meu coração ficava extremamente acelerado, tinha falta de ar, mudanças drásticas de humor. Mas ao passar do tempo esses sintomas foram aumentando e chegou no ponto deu somente chorar e não ter vontade de socializar."


Histórias como a dela estão sendo cada vez mais comuns no mundo, principalmente, após a pandemia do coronavírus. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que no primeiro ano da pandemia de Covid-19, a prevalência global de ansiedade e depressão aumentou em 25%.


"Uma das principais explicações para esse aumento é o estresse sem precedentes causado pelo isolamento social decorrente da pandemia, além das restrições à capacidade das pessoas de trabalhar, busca de apoio de familiares e vida social ativa. A solidão, medo de se infectar, sofrimento e morte de pessoas próximas foram fatores estressores que levaram à ansiedade e depressão", disse Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).


De acordo com o último grande mapeamento global de transtornos mentais, realizado pela OMS, o Brasil possui a população com a maior prevalência de transtornos de ansiedade do mundo.


Para se ter uma ideia, aproximadamente 9,3% dos brasileiros sofrem de ansiedade patológica. Em seguida, aparece o Paraguai (7,6%), Noruega (7,4%), Nova Zelândia (7,3%) e Austrália (7%). 


Índice elevado de desemprego, recorrentes mudanças no rumo da economia e falta de segurança pública são apontados por especialistas ouvidos pela BBC Brasil como principais fatores para a alta prevalência de transtornos de ansiedade na população.


"O Brasil tem uma alta taxa de violência, que faz muitas pessoas saírem de casa com o receio de serem assaltadas. Receio que gera ansiedade", apontou Rafael Boechat, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília (UnB).


Especializada em acolher pacientes com transtornos mentais, a psicóloga Adriana Botarelli conta que as próprias dificuldades econômicas contribuem para o alto número de pessoas ansiosas.


"A maior parte da população do Brasil tem pouco acesso a serviços de saúde mental, muitas horas de trabalho por dia, inseguranças quanto ao futuro e pouca qualidade de vida. Todos esses fatores trazem sentimentos de medo, preocupação e angústia."


Já Gerardo Maria de Araújo Filho, professor do departamento de ciências neurológicas, psiquiatria e psicologia médica da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp), acredita que o uso excessivo de computadores e smartphones também explica a alta prevalência de ansiedade no Brasil.


"A rede social gera uma série de cobranças nas pessoas. Você praticamente começa a querer ser magro e esportista como o influenciador."


Um estudo realizado pela Canadian Journal of Psychiatry comprovou que, quanto maior o uso de telas, maior o nível de ansiedade.


Ao mesmo tempo, um relatório lançado pela empresa de análise de mercado digital App Annie apontou que o Brasil lidera o pódio dos países com pessoas que mais passam tempo conectadas.


Para se ter uma ideia, o brasileiro passa, em média, quase cinco horas e meia por dia diante de seus aparelhos.


Trata-se, ao lado da Indonésia, do maior volume de uso de celulares entre os 17 países analisados no relatório (que também engloba Coreia do Sul, México, Índia, Japão, Turquia, Singapura, Canadá, EUA, Rússia, Reino Unido, Austrália, Argentina, França, Alemanha e China), com base em dados coletados das lojas online iOS App Store, Google Play e outras.

Crianças são mais vulneráveis


Entre as faixas etárias mais vulneráveis a ter o diagnóstico de transtorno de ansiedade, crianças e adolescentes aparecem na liderança.


Contudo, especialistas ouvidos pela BBC News Brasil ressaltam que todas as pessoas ao decorrer da vida são suscetíveis a ter o diagnóstico de algum transtorno de ansiedade.



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Crianças e adolescentes estão mais vulneráveis


João*, por exemplo, adorava brincar com os amigos, ir para a escola e passear com a família. Com a pandemia, tudo mudou e o menino de 13 anos precisou ficar mais tempo recluso em casa.


Foi quando a mãe percebeu o adolescente mais irritado, medroso e com preocupações excessivas. Era os primeiros sintomas da ansiedade patológica.


"Minha mãe percebeu que realmente precisava de ajuda quando comecei a me isolar e não sentir mais vontade de fazer atividades que gostava. Passei a ter um receio enorme que algo ruim iria acontecer, como alguém da minha família adoecer", relata o adolescente.


Assim como João* diversos outros jovens foram diagnosticados, em 2022, com ansiedade no Brasil.


Um mapeamento feito pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, em parceria com o Instituto Ayrton Senna, mostrou que 69% dos estudantes da rede estadual paulista relataram ter sintomas de ansiedade ou depressão durante as atividades remotas impostas pela pandemia.


"A ansiedade é mais comum na infância e adolescência, porque a pessoa ainda não conhece o mundo. É uma fase que o ser humano ainda está em desenvolvimento e a criança está extremamente vulnerável ao que acontece. Assim, uma briga dos pais em casa, por exemplo, pode despertar um quadro de ansiedade no filho", afirma Gerardo Maria de Araújo Filho, professor da Famerp.


Ênio Roberto de Andrade, diretor do Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Hospital das Clínicas de São Paulo diz que, geralmente, o sinal de alerta indicando não ser uma ansiedade normal, mas um transtorno de ansiedade é a influência dos sintomas na vida da pessoa.


"O tratamento mais indicado para a ansiedade na infância e adolescência é a terapia cognitiva comportamental (TCC), caso ela não funcione associa-se tratamento farmacológico. Em adulto, também vale iniciar com TCC, entretanto, geralmente o início com farmacoterapia é muito frequente", pontuou.

Como evitar um transtorno de ansiedade



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Um dos grandes desafios no combate as altas taxas de ansiedade é o forte estereótipo existente sobre os transtornos mentais


Pesquisas apontam que a ansiedade patológica está diretamente relacionada ao processo de aprendizado, ambiente que o indivíduo está inserido ou fatores genéticos do paciente.


Em alguns casos, como no processo de aprendizado, ela pode ser evitada a partir da orientação de pais e educadores.


"Um exemplo são mães que não deixam o filho fazer um inúmeras coisas por medo de que ele se machuque", explicou Ênio.


Na parte ambiental, a recomendação para diminuir as chances de crianças terem ansiedade patológica é o de preparar um ambiente menos ansiogênico, ou seja, sem "gatilhos".


Em contrapartida, quando a ansiedade é oriunda de fatores genéticos não há o que fazer para evitar, mas apenas procurar orientação médica.


"Sempre que os sintomas começam a atrapalhar a vida da pessoa, é a hora de buscar um psiquiatra para uma avaliação do quadro. Ansiedade e tristeza são características normais do ser humano, mas a partir do momento em que nos impedem de sair de casa, trabalhar, levar uma vida social ativa, nos relacionar com outras pessoas, devemos procurar auxílio", afirmou Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Psicofobia atrapalha


Um dos grandes desafios no combate as altas taxas de ansiedade é o forte estereótipo existente sobre os transtornos mentais. No Brasil, o preconceito em relação a pessoas que sofrem com distúrbios psiquiátrico é conhecido como psicofobia.


Jorge* lembra bem de quando teve sintomas do transtorno de ansiedade na adolescência e encontrou resistência dentro de casa para procurar ajuda especializada.


"De início, minha mãe me levou em um centro espírita. Meio que relutou em me levar no médico, mas como os sintomas persistiram marcamos uma consulta com um psiquiatra. Foi quando descobri que estava com transtorno de ansiedade."


A psicóloga Adriana Botarelli acredita que desmitificar a saúde mental e popularizar a ideia de procurar ajuda especializada é o caminho para o Brasil conseguir superar a alta incidência de ansiedade.


"Muitas pessoas ainda consideram tabu falar sobre transtornos mentais e acabam não cuidando de transtornos, seja por medo de serem chamados de 'loucos' por fazer tratamento psicológico e psiquiátrico, ou ainda por medo de medicação, acreditando que ficarão viciados ou sedados."



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Já Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), afirma que o ideal é que desde cedo crianças e adolescentes possam falar abertamente sobre saúde mental nas escolas e em casa, para que cresçam sem o estigma recorrente entre pessoas idosas.


"Precisamos de políticas públicas que estimulem os cuidados e a quebra desse estigma. Somente desta forma o portador de doença mental poderá viver de forma independente e autônoma, tendo oportunidades de trabalho, perseguindo suas metas e usufruindo de oportunidades com dignidade e plena inserção social", falou Silva.


Para quem convive com a ansiedade, atualmente, de forma harmônica, o segredo é não negar os seus sentimentos.


"Hoje, voltei a praticar exercícios físicos, consigo controlar mais meus pensamentos e identificar quando estou ansiosa. A ajuda de um profissional e força de vontade são cruciais", afirmou Julia.


Já Gerardo afirma que mais importante do que frequentar a terapia é o paciente reconhecer como usar a ansiedade ao seu favor.


"A grande questão não é ter ou não a ansiedade, mas a intensidade dela. Eu sempre falo que de 0 a 10, uma ansiedade 3 a 3,5 é uma ansiedade 'do bem'. Que é aquela dose de ansiedade que precisamos para realizar nossas atividades. Quando passa disso já é um sinal de alerta."

Tipos de transtornos ansiosos


Transtorno de ansiedade generalizada: tem como principal característica a preocupação excessiva e generalizada sem motivos óbvios em situações do dia a dia. Ou seja, o paciente fica sempre antecipando que algo de ruim vai acontecer, permanecendo em um estado de constante preocupação.


Transtorno de pânico: tem como principal característica uma sensação de medo intensa e repentina seguida por sintomas físicos (aceleração dos batimentos cardíacos e da respiração, suor frio, falta de ar, tontura, tremores, entre outros). Esses episódios podem acontecer a partir de qualquer momento, durando até 30 minutos.


Transtorno de ansiedade social: quem tem transtorno de ansiedade social, ou fobia social, tem intensa dificuldade em interagir com outras pessoas. Isso pode se referir desde a uma conversa com um grupo ou até mesmo a apresentação de um trabalho para a turma em ambiente de ensino. Dessa forma, o gatilho para o surgimento dos sintomas típicos da ansiedade costuma transitar na área da socialização. Dessa forma, a fobia social contribui pra que o paciente busque se isolar cada vez mais, evitando as suas fontes de angústia.


Agorafobia: é o transtorno de ansiedade relacionado a estar em situações ou locais sem uma maneira fácil de escapar. Em geral, trata-se de casos sem um perigo iminente óbvio, mas, mesmo assim, a pessoa se sente angustiada em busca de uma saída. Um dos casos mais comuns de agorafobia costuma ser o de não suportar ficar em locais lotados ou muito fechados, como dentro de um ônibus ou avião. Quem sofre com esse transtorno também costuma não se sentir bem em elevadores e demais espaços pequenos.



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Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT): tem como principal característica as lembranças recorrentes e intrusivas de um acontecimento que foi altamente angustiante para o paciente. Esse episódio traumático pode ser desde um acidente até a morte de um ente querido. O que diferencia o TEPT de um quadro de choque ou tristeza convencional é a prevalência dos seus sintomas, que vão de dificuldades para dormir até hipervigilância.


Transtorno de estresse agudo: a principal diferença do transtorno de estresse agudo para os demais tipos de ansiedade é que ele geralmente ocorre a partir da vivência ou testemunho de um evento traumático específico. Assim, o paciente fica revivendo aquele acontecimento e se angustiando com ele de maneira constante. Por ser um quadro agudo, ele não costuma durar muito tempo. Em até um mês, os sintomas geralmente se amenizam. No entanto, ainda assim é válido obter o diagnóstico de um especialista para avaliar o caso e contar com o tratamento adequado.


Mutismo seletivo: se caracteriza principalmente pela incapacidade de se comunicar verbalmente em situações sociais. O caso é diferente da fobia social, ou transtorno de ansiedade social, porque geralmente costuma cessar antes da adolescência ou vida adulta.


Transtorno de ansiedade de separação: aquela sensação de ter saudades de casa pode se manifestar de maneira muito mais grave na forma do transtorno de ansiedade de separação. Nesse caso, o paciente passa por sensações de angústia e desespero ao se separar de um ambiente que considera familiar e agradável.


Transtorno de ansiedade induzido por substância: o uso de substâncias específicas também pode ocasionar quadros de transtorno de ansiedade. Isso vale desde o caso de medicamentos convencionais até drogas perigosas, como é o caso de cocaína, heroína, maconha, entre outras.


*A reportagem resguardou os nomes verdadeiros de João e Jorge.

- Este texto foi publicado em

https://www.bbc.com/portuguese/articles/c4ne681q64lo





Autor: Rone Carvalho
Fonte: São José do Rio Preto (SP) para a BBC Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC
Data: 27/02/2023
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c4ne681q64lo

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Como é viver 10 anos com mão transplantada: 'salvei minha esposa em infarto'



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O paciente Mark Cahill e o cirurgião Simon Kay


Em 27 de dezembro de 2012 foi feito o primeiro transplante de mão no Reino Unido. Uma década depois, conversamos com o paciente e o cirurgião pioneiro no procedimento.


"Muitos pacientes dizem que, depois da cirurgia, pequenas coisas ficam mais significativas para eles", disse o professor e cirurgião plástico Simon Kay OBE. "Poder escovar o cabelo de uma filha, pegar dinheiro no bolso ou abrir a torneira para encher um copo de água..."


Ou, no caso de Mark Cahill, salvar a vida da esposa após ela sofrer um ataque cardíaco.


A cirurgia de Cahill foi feita no hospital universitário de Leeds, que abriga a Unidade de Transplante de Mãos do Reino Unido. É o único local que faz esse tipo de procedimento complexo no país.


O local é considerado um dos pioneiros mundiais no transplante de mãos em todo o mundo, uma área da medicina que parecia impossível décadas atrás.


Alguns dos pacientes que passaram pelos corredores desse hospital na última década perderam as mãos ou membros devido a acidentes. Outros em razão de condições médicas, como sepse ou esclerodermia (endurecimento da pele e dos órgãos internos que causa comprometimento dos pequenos vasos sanguíneos).

O caso de Cahill


Mark Cahill é um paciente modelo nessa unidade médica. Em 2012, após sofrer por anos com gota (doença inflamatória que acomete, principalmente, as articulações), a mão direita dele infeccionou a ponto de exigir amputação.


Foi então que a vida dele cruzou com a do "profe", como ele se refere ao professor e cirurgião Simon Kay, uma expressão que reflete a proximidade criada entre ambos ao longo dos anos.


"Minha mãe tinha visto o professor Kay na TV dizendo que faria transplantes de mãos", lembra Cahill.


"Consegui uma consulta e ele me disse que eu era o candidato ideal. Conversei com a minha família e resolvi fazer: 'tem que ser melhor do que o que eu tenho'. E, de fato, tem sido."



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O transplante de Cahill foi considerado um sucesso no Reino Unido

Fatos importantes sobre o transplante de mãos
Poucas famílias concordam em doar as mãos dos entes queridos
A doação de mãos não é uma opção que pode ser selecionada durante o registro de doação de órgãos
Encontrar um órgão compatível é mais complexo do que encontrar outros órgãos, pois a aparência física e a aceitação psicológica desempenham um papel fundamental no sucesso do transplante.
Uma avaliação do paciente por um ano é essencial e inclui questões psicológicas e imunológicas
A recuperação e a possibilidade de novos transplantes pode demorar de um a três anos
O transplante de mãos ainda não está disponível para crianças, mas essa é uma área que a equipe médica pretende desenvolver


Fonte: Leeds Teaching Hospitals NHS Trust

Cahill foi submetido à cirurgia somente após intensas entrevistas psicológicas. "Eles colocam à prova o seu estado psicológico para ver se você está apto", disse.


Um dia depois do Natal, finalmente chegou a ligação que ele e sua família tanto esperavam.


"Eles falaram: você pode vir? E explicaram que eu poderia passar um tempo no hospital enquanto faziam os exames para ver se eu era apto. Todo tipo de coisa passa pela sua mente: terei êxito e vou gostar do resultado? Não sabemos essas coisas até depois da operação."


Para ele, a decisão de fazer o transplante foi inevitável.


A equipe cirúrgica entrou em contato com os cirurgiões da França que fizeram o primeiro transplante de mão em 1998.


"Eles me colocaram para dormir e acordei com uma mão nova", diz Cahill, que fez o transplante no dia seguinte.


"Lembro-me de acordar na unidade de terapia intensiva e o professor entrar e dizer: 'vamos dar uma olhada'".


"Eu podia mover meus dedos um pouco e o professor disse: 'Não faça isso ainda'. Então pensei: 'Está funcionando agora'. É incrível que tenha se movido tão rápido."


Foram meses de fisioterapia. "Foi difícil no começo", lembra ele. "Seus nervos demoram muito para crescer e sem eles seus movimentos e sensações não estão lá."


Ele diz que a operação mudou a vida dele porque restaurou o que considera sua independência. "Antes eu tinha que pedir para as pessoas fazerem as coisas para mim. Dirigir, por exemplo, consigo dirigir com a mão direita, o que facilita muito."


Também acabou salvando uma vida quando, em 2016, sua esposa, Sylvia, sofreu um ataque cardíaco. "Ela ficou desacordada por 19 minutos e por pelo menos 10 deles eu a mantive viva com compressões cardíacas usando minha mão direita."


Ele diz que sempre será grato à equipe que o acompanhou. "Eles foram absolutamente fantásticos."



CRÉDITO,LEEDS TEACHING HOSPITALS NHS TRUST
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O professor Kay e uma equipe de especialista realizam a primeira operação de transplante de duas mãos no Reino Unido em julho de 2016

Experiência excepcional


O professor Kay olha para o passado com orgulho. "Há dez anos, realizamos o que era considerada uma cirurgia pioneira, tornando esse serviço acessível, bem coordenado e com uma das duas unidades mais importantes do mundo", disse.


"O nível de experiência e qualidade do atendimento dessa equipe é excepcional e, claro, nossas cirurgias não seriam possíveis sem a coragem e a generosidade dos doadores e suas famílias", afirmou. "Suas contribuições têm permitido mudar vidas. Trabalhar nessa área é um privilégio."


No entanto, uma década após a primeira cirurgia, a doação de mãos ainda não é uma opção que possa ser selecionada no registro de doadores no Reino Unido.


"Precisamos de doadores", disse Cahill. "É uma pergunta muito difícil para os enfermeiros fazerem às pessoas (familiares autorizados)."




Autor: bbc
Fonte: bbc
Sítio Online da Publicação: bbc
Data: 06/01/2023
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-64112974

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

5 avanços científicos esperados em 2023



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2022 foi um ano de avanços incríveis na ciência, medicina e exploração espacial, o que preparou o terreno para novos progressos em 2023.


Do programa Artemis da NASA, que voltou nossa atenção para a exploração da Lua, até novos métodos de desenvolvimento de vacinas de forma rápida e eficaz.


O ano de 2023 também promete continuar construindo esses avanços.


São cinco avanços esperados.

1. A nova geração de vacinas


Graças ao sucesso das vacinas de mRNA contra a pandemia de covid-19, estão sendo desenvolvidos todos os tipos de vacinas com essa tecnologia contra uma série de doenças.


Na mira das vacinas estão malária, tuberculose, herpes genital, HIV, fibrose cística, câncer e vários tipos de doenças pulmonares, entre outras.


A farmacêutica alemã BioNTech planeja iniciar em algumas semanas os primeiros testes em humanos de sua vacina de mRNA contra a malária e a tuberculose , enquanto a americana Moderna o fará contra os vírus que causam herpes genital e herpes zoster.


Uma das vacinas de mRNA mais promissoras é contra o câncer. Os imunizantes são projetados para reconhecer células cancerígenas e destruí-las.


Outras farmacêuticas estão investigando a possibilidade de aplicar a vacina contra a covid de forma rápida e eficaz com um simples spray nasal. Eles funcionaram em animais e testes em humanos são esperados em breve.

2. Observação espacial avançada



CRÉDITO,J.ORRELL/SLAC NATIONAL ACCELERATOR LABORATORY
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A câmera do telescópio Vera C. Rubin tem milhares de vezes a capacidade de uma câmera convencional


O mundo ficou maravilhado com as novas imagens do universo obtidas pelo poderoso Telescópio Espacial James Webb, o instrumento lançado pela NASA, a Agência Espacial Europeia (ESA) e a Agência Espacial Canadense. A expectativa é que o acessório continue a fazer descobertas por décadas.

Mas haverá instrumentos de exploração mais profundos.


A ESA planeja lançar o telescópio Euclides em 2023, que permanecerá em órbita solar por seis anos para criar um mapa 3D do universo.


A Agência de Exploração Aeroespacial do Japão, por sua vez, está desenvolvendo uma missão que detectará a radiação de raios-X de estrelas e galáxias distantes.


E no Chile, o telescópio Vera C. Rubin, que tem uma câmera com poder de detecção de mais de 3 bilhões de pixels, está pronto para fazer imagens no próximo mês de julho. O telescópio tem capacidade para registrar todo o céu visto do heisfério sul em apenas três dias.

3. Missões à Lua



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O programa Lunar Flashlight da NASA irá literalmente iluminar crateras e cantos escondidos da Lua para analisar a composição dos depósitos de gelo


O programa Artemis da NASA, que enviou a cápsula Orion à Lua sem tripulantes a bordo e a retornou com sucesso à Terra em dezembro, é apenas o começo de outras visitas ao nosso satélite.


Os Emirados Árabes Unidos lançaram seu veículo lunar Rashid em 11 de dezembro, programado para investigar a superfíciedo nosso satélite natural.


Nessa data a NASA também enviou um satélite orbital para explorar a composição dos depósitos de água congelada em crateras e regiões escurecidas na Lua.


Há também o módulo do HAKUTO-R do Japão, que tentará fazer um pouso suave na Lua em abril, bem como o Chandrayaan-3 da Índia, que busca pousar perto do polo sul da Lua em meados de 2023.


Uma das missões mais esperadas será o primeiro voo civil à Lua. Onze pessoas farão uma viagem de seis dias a bordo do foguete Starship da empresa SpaceX, de Elon Musk.


4. Engenharia genética CRISPR



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Manipulação genética deve avançar significamente em 2023


O tratamento mostrou resultados promissores em ensaios clínicos contra duas doenças genéticas do sangue, incluindo a doença falciforme.


As empresas farmacêuticas Vertex e CRISPR Therapeutics estão desenvolvendo o tratamento conhecido como exa-cel, que será submetido à aprovação da Food and Drug Administration dos EUA em março próximo.


O sinal verde disponibilizará o exa-cel para pacientes com anemia falciforme, uma grave deformidade estrutural dos glóbulos vermelhos que prejudica a circulação sanguínea.


E 2023 pode ser o ano em que será aprovada a terapia CRISPR-Cas9, uma técnica de edição de genes que permite alterar uma cadeia de DNA, cortando parte dela e reconstituindo-a para formar uma nova sequência.


5. Medicamentos contra Alzheimer



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A pesquisa de Alzheimer entrará em um estágio de desenvolvimento de drogas


Em novembro deste ano, foi anunciada a criação de um medicamento capaz de retardar a destruição do cérebro afetado pelo Alzheimer, o que foi recebido pela comunidade científica como um grande avanço.


No início de janeiro de 2023, o órgão regulador dos EUA anunciará se ele pode ser disponibilizado para o tratamento de pacientes, embora o medicamento seja eficaz apenas nos estágios iniciais da doença.


Trata-se da droga lecanemab, que ataca a placa pegajosa - chamada beta-amilóide - que se acumula no cérebro de pessoas com Alzheimer.


Em um campo de pesquisa repleto de falhas, essa droga é considerada "o início das terapias de Alzheimer", segundo especialistas.


Outra droga, chamada blarcamesine, que ativa uma proteína que melhora a estabilidade dos neurônios, continuará em testes clínicos. A novidade é desenvolvida pela empresa farmacêutica Anavex Life Sciences.

- Este texto foi publicado em https://www.bbc.com/portuguese/geral-64091916





Autor: BBC News Mundo
Fonte: bbc
Sítio Online da Publicação: bbc
Data: 26/12/2022
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-64091916

    segunda-feira, 31 de outubro de 2022

    Como se proteger de tristeza, raiva e medo após eleição



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    Estabelecer consensos e avaliar comportamentos são maneiras de evitar conflitos relacionados à política

    Esta reportagem foi publicada originalmente em 3 de outubro de 2022 e atualizada em 31 de outubro de 2022.


    Debates acalorados, ânimos acirrados, opiniões opostas… A eleição presidencial foi para muita gente fonte importante de estresse — que, por sua vez, é um dos fatores de risco por trás de transtornos mais sérios, como ansiedade e depressão.


    De acordo com psiquiatras, a probabilidade de desenvolver um quadro desses é ainda maior quando a disputa fica polarizada demais e pessoas do outro lado do espectro político passam a ser vistas como inimigas, que precisam ser derrotadas a qualquer custo.

    Além de fazer mal à democracia, esse tipo de pensamento representa uma ameaça à própria saúde mental das pessoas que nutrem sentimentos tão intensos, explicam os médicos.


    A boa notícia é que existem estratégias que ajudam a evitar uma piora da situação e a prevenir danos ao bem-estar, como fazer autoavaliação do comportamento, desligar das redes sociais e buscar uma avaliação com profissionais da saúde.

    Origem das preocupações

    A Associação Americana de Psicologia (APA) fez em 2020 um levantamento para entender o impacto das eleições presidenciais no dia a dia das pessoas.


    O estudo revelou que 68% dos participantes encaravam a disputa política entre o democrata Joe Biden e o republicano Donald Trump como uma fonte significativa de estresse.


    "O ano de 2020 foi diferente de tudo que já vivemos. Não apenas lidamos com uma pandemia que matou centenas de milhares de americanos, como observamos um aumento da divisão e da hostilidade", analisou à época o psicólogo Arthur Evans Junior, presidente da APA.


    Já uma investigação liderada pela Universidade da Califórnia em San Francisco, nos EUA, descobriu que estar do lado derrotado do pleito impacta a saúde mental.


    Ao analisar as informações de meio milhão de americanos, os acadêmicos notaram que os moradores de Estados cuja maioria votou na democrata Hillary Clinton, que perdeu a disputa, relataram mais transtornos um mês após as eleições de 2016.


    De acordo com os cálculos, isso se traduziu em 54,6 milhões de dias a mais de estresse e depressão para os 109,2 milhões de adultos que vivem nos Estados que preferiram Clinton.


    "Os profissionais de saúde devem considerar que as eleições podem ter um efeito, ao menos transitório, na piora da saúde mental", constatou a médica Renee Hsia, uma das responsáveis pelo trabalho.


    O assunto ganhou uma repercussão tão grande em terras americanas que alguns profissionais de saúde desenvolveram até um termo para descrevê-la: transtorno de estresse eleitoral.


    Embora não seja uma enfermidade oficialmente aceita nos manuais de psiquiatria, alguns acadêmicos a descrevem como "uma ansiedade generalizada que foca na eleição, mas não é causada apenas por ela".


    Um dos criadores do conceito é o terapeuta Steven Stosny. Ele aponta que os principais sintomas são dificuldades para dormir, dor de cabeça, problemas estomacais e aumento da irritabilidade ou da ansiedade.

    O ingrediente por trás de tudo


    No final das contas, o que esse rol de experimentos americanos revela é o papel de destaque do estresse no comportamento e nas emoções.


    O médico Daniel Martins de Barros, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, explica que o estresse é um conjunto de reações do nosso organismo quando estamos diante de situações novas, que requerem algum tipo de adaptação e enfrentamento.


    "Essas mudanças geram uma série de reações no nosso corpo para deixar a atenção afiada, o raciocínio veloz, os músculos tensos e o coração acelerado", diz.


    A princípio, esse conjunto de alterações é bem-vindo. Foi esse mecanismo que permitiu à nossa espécie identificar os perigos e responder de forma rápida — geralmente fugindo ou lutando.


    "A questão é quando esse estresse se transforma em algo crônico", diferencia o psiquiatra.


    "Uma demanda constante por mudanças e adaptações leva a desgastes no organismo e aumenta o risco do desenvolvimento de quadros como a ansiedade e a depressão", acrescenta.



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    O estresse é uma reação natural e esperada em situações de mudança. O problema é quando ele dura por muito tempo

    A situação no Brasil


    Não é segredo para ninguém que as eleições no país foram polarizadas - a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, em segundo turno, contra Jair Bolsonaro, por 50,9% a 49,1%, foi a mais apertada desde a redemocratização do país - e geraram disputas muito intensas. Mas será que é possível medir o estresse da população neste momento?


    Embora não existam muitas pesquisas publicadas sobre o tema no Brasil, Barros observa que a corrida presidencial de 2022 parece diferente do que aconteceu há quatro anos.


    "Me parece que a maioria das pessoas aprendeu a lição em 2018 e criou mecanismos para não entrar em conflitos ou brigas. Entre amigos e familiares com visões opostas, parece existir uma espécie de pacto de silêncio sobre o tema", avalia.


    "Mas é claro que não podemos ignorar os episódios de violência entre adversários políticos registrados nessas últimas semanas", complementa.


    Já o psiquiatra Lucas Spanemberg, do Instituto do Cérebro da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, entende que a participação política pode ter dois lados.


    "É algo paradoxal, mas engajar-se numa campanha é bom ao trazer uma sensação de pertencimento, de participação cívica, de protagonismo, de influência positiva no futuro do país", lista.


    "O problema é quando isso passa do ponto e gera uma tentação autoritária, em que a discussão se centra apenas no ataque ao adversário por meio da raiva, do ódio e da rejeição", compara.


    "Do ponto de vista da saúde mental, isso é negativo e pode trazer ansiedades."

    O papel das redes sociais


    Os médicos ouvidos pela BBC News Brasil acreditam que o acirramento dos ânimos se deve em parte às mídias sociais.


    Barros aponta que temos uma tendência natural de favorecer as pessoas que reconhecemos como semelhantes — e somos mais críticos e duros com quem é de fora do nosso grupo social.


    "Nós combatemos essa tendência com mecanismos civilizatórios, como a justiça social e a transparência".


    "A ideia de defender um ponto de vista e criar divergências faz parte da natureza humana. Mas os algoritmos das redes sociais favorecem o que a gente chama de viés de confirmação", ensina Spanemberg, que também trabalha no Hospital de Clínicas de Porto Alegre.


    Em termos práticos, essas plataformas são configuradas de modo a mostrar apenas conteúdos que se encaixam naquilo que a gente acredita.


    Em longo prazo, isso cria uma falsa sensação de que todo mundo pensa igual — opiniões divergentes são tão raras nessas redes que acabam ignoradas, ou atacadas com toda a força.


    "Ficamos, ao mesmo tempo, com a sensação de que somos validados o tempo todo, e com uma dificuldade de transitar com o diferente e o contraditório", resume o psiquiatra.



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    Redes sociais reforçam a ideia de que nossas ideias estão sempre corretas

    O que acontece com quem ganha e quem perde


    O psicanalista Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, destaca que a atitude após uma vitória ou uma derrota também influencia não apenas no futuro político do país, mas no acirramento de ânimos nas relações pessoais.


    "Na história brasileira, o lado vitorioso costuma usar o sarcasmo e a humilhação como ferramentas diante do derrotado."


    E isso, por sua vez, gera uma reação de vingança, raiva e rancor entre quem perdeu.


    "Me parece que ainda precisamos aprender a ganhar ou perder durante a disputa política", conta.


    "Outra falha que temos é a noção de que os líderes são infalíveis, não podem errar ou voltar atrás. Isso cria figuras de autoridade que são inflexíveis, o que se reflete no comportamento da sociedade", completa.

    Como evitar esses males


    Mas será que existe um caminho para lidar com um problema desse tamanho e fugir dos sentimentos de raiva, tristeza ou medo durante e após as eleições?


    Há pelo menos sete recomendações básicas que ajudam a refletir sobre as emoções e o comportamento — e como eles impactam a saúde mental.


    Tudo começa com um processo de autoavaliação. Como você reage quando uma pessoa diz algo que vai contra o que acredita? Isso te causa um estresse muito grande? Uma conversa sobre política gera um mal-estar ou uma sensação ruim em você ou nos demais participantes?


    "Há algo de errado quando as suas posições políticas limitam as conversas dentro da própria família, ou os grupos de WhatsApp deixaram de ser um lugar de confraternização para virar um terreno de disputa política", exemplifica Spanemberg.


    Vale também checar se esse comportamento impede você de fazer qualquer atividade profissional e de lazer ou prejudica os relacionamentos.


    Em segundo lugar, os médicos orientam ficar atento se você acha que está sempre correto em tudo.


    "Ninguém está certo em 100% das vezes", lembra Barros.


    "Pense se você já discordou alguma vez do grupo com o qual interage mais. Se isso nunca aconteceu, você pode estar sendo manipulado", complementa.


    O terceiro ponto é exercitar o consenso. Ao conversar com pessoas que têm visões antagônicas, tente encontrar pontos em comum que todos podem concordar.


    Isso ajuda a criar laços e mostrar que, mesmo quem tem visões diferentes sobre vários assuntos, pode estar de acordo em alguns pontos, apontam os pesquisadores.



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    Estabelecer o diálogo e respeitar posições antagônicas são estratégias para fugir de conflitos desnecessários


    A dica número quatro é tentar não antecipar quais serão as políticas do governo a partir de 2023.


    Uma pesquisa feita pela Universidade do Estado da Carolina do Norte, nos EUA, revelou que pessoas que antecipam cenários sociais e econômicos e acham que vão se estressar com a política do próximo governante geralmente estão certas.


    De fato, elas costumam sofrer mais com o estresse, mesmo antes que as coisas realmente aconteçam.


    Os psiquiatras também sugerem que as pessoas façam pausas nas redes sociais e nas notícias. Isso ajuda a tirar o foco da disputa eleitoral e abre espaço para outras atividades mais relaxantes, como fazer um exercício físico ou passear num parque.


    A sexta orientação é que as pessoas procurem ajuda profissional se sentirem que não estão melhorando. Passar por uma análise com o psicólogo ou com o psiquiatra ajuda a encontrar as fontes do estresse, da ansiedade ou da depressão — e permite escolher os melhores caminhos para tratar e resolver o transtorno.


    Por fim, Barros acredita que as pessoas se esqueceram de um aspecto importante das eleições. "O processo democrático envolve a continuidade ou a troca de governos, a depender da vontade da maioria dos cidadãos", diz.


    A existência desses processos é algo saudável e fundamental não apenas para o funcionamento da democracia, mas também para o equilíbrio da nossa própria saúde mental, destaca.


    Ele aponta que precisamos encarar a oposição ao governo da vez como parte do processo democrático — e não como um inimigo que deve ser eliminado.


    Segundo o psiquiatra, lidar com pessoas que a gente não gosta faz parte do convívio em sociedade. E entender isso pode até ajudar a aliviar o estresse e a carga emocional que vêm junto com os debates e as propostas para melhorar o futuro do país.




    Autor: André Biernath - @andre_biernath
    Fonte: BBC
    Sítio Online da Publicação: BBC
    Data: 31/10/2022
    Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-63080203

    quinta-feira, 15 de setembro de 2022

    As criaturas que não envelhecem e ajudam a revelar segredos do cérebro



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    O organismo dos axolotes é tido como 'modelo' pelos pesquisadores para uma série de estudos biológicos

    O axolote (Ambystoma mexicanum) é uma salamandra aquática originária do México, conhecida pela sua capacidade de regenerar sua medula espinhal, seu coração e seus membros.

    Estes anfíbios também produzem novos neurônios facilmente ao longo de suas vidas.

    Em 1964, pesquisadores constataram que axolotes adultos podem regenerar partes do cérebro, mesmo se um grande pedaço dele for completamente removido. Mas um estudo concluiu que a regeneração cerebral do axolote tem capacidade limitada de reconstrução da estrutura do tecido original.


    Qual será o grau de perfeição que o axolote pode atingir ao regenerar seu cérebro depois de lesionado?


    Como pesquisadora, estudo a regeneração no nível celular. Eu e meus colegas do Laboratório Treutlein do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça, e do Laboratório Tanaka do Instituto de Patologia Molecular de Viena, na Áustria, imaginamos se os axolotes seriam capazes de regenerar todos os tipos de células existentes no cérebro — incluindo as conexões entre as diferentes regiões do cérebro.


    Recentemente, publicamos um estudo criando um mapa das células que compõem uma parte do cérebro do axolote, esclarecendo sua forma de regeneração e a evolução cerebral em diferentes espécies.

    Por que estudar as células?


    Tipos diferentes de células possuem funções distintas. Elas podem especializar-se em certas funções, pois cada uma delas expressa genes diferentes.


    Compreender quais tipos de células existem no cérebro e o que elas fazem ajuda a esclarecer o quadro geral de funcionamento do cérebro. E também permite que os pesquisadores façam comparações ao longo da evolução para tentar descobrir as tendências biológicas entre as diferentes espécies.


    Uma forma de entender quais células expressam quais genes é o uso de um método conhecido como sequenciamento de RNA de célula única (scRNA-seq, na sigla em inglês).


    Esta ferramenta permite que os pesquisadores contem a quantidade de genes ativos no interior de cada célula de uma amostra específica. Ela mostra um retrato das atividades realizadas por cada célula no momento da sua coleta.



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    Desvendar o mistério da regeneração do axolote pode trazer melhorias para o tratamento médico de lesões graves


    Este método é fundamental para compreender os tipos de células existentes no cérebro dos animais. Os cientistas vêm usando scRNA-seq em peixes, répteis, camundongos e até em seres humanos.


    Mas estava faltando uma peça importante do quebra-cabeça da evolução do cérebro: os anfíbios.

    Mapeamento do cérebro do axolote


    Nossa equipe decidiu concentrar-se no telencéfalo do axolote.


    Nos seres humanos, o telencéfalo é a maior porção do cérebro. Ele contém uma região conhecida como neocórtex, que desempenha papel fundamental no comportamento e na cognição dos animais.


    Ao longo da evolução recente, o neocórtex aumentou imensamente de tamanho em comparação com outras regiões do cérebro. E, de forma similar, os tipos de células que compõem o telencéfalo passaram por grande diversificação e crescimento da sua complexidade ao longo do tempo, tornando essa região uma área de estudo fascinante.


    Nós usamos scRNA-seq para identificar os diferentes tipos de células que compõem o telencéfalo do axolote, incluindo diferentes tipos de neurônios e células de progenitores, ou células que podem dividir-se ou transformar-se em outros tipos celulares.


    Nós identificamos quais genes estão ativos quando as células progenitoras tornam-se neurônios e concluímos que muitas delas passam por um tipo intermediário de célula denominado neuroblastos (cuja existência em axolotes até então era desconhecida), antes de se tornarem neurônios maduros.


    Em seguida, nós incluímos a regeneração do axolote no teste, removendo uma seção do seu telencéfalo. Utilizando um método específico de scRNA-seq, conseguimos capturar e sequenciar todas as células novas em diferentes estágios de regeneração, de uma a 12 semanas após a lesão.


    Por fim, concluímos que todos os tipos celulares removidos haviam sido totalmente restaurados.


    Observamos também que a regeneração do cérebro acontece em três fases principais. A primeira fase começa com um rápido aumento da quantidade de células progenitoras, em que uma pequena fração dessas células ativa um processo de cura de feridas.


    Na segunda fase, as células progenitoras começam a diferenciar-se em neuroblastos. E, por fim, na terceira fase, os neuroblastos diferenciam-se nos mesmos tipos de neurônios que foram perdidos originalmente.


    Surpreendentemente, também observamos que as conexões neuronais interrompidas entre a área removida e outras regiões do cérebro haviam sido refeitas. Essa reconexão indica que a área regenerada também recuperou sua função original.

    Cérebros de anfíbios e de seres humanos


    Acrescentar os anfíbios ao quebra-cabeça evolutivo permite que os pesquisadores descubram como o cérebro e seus tipos celulares se alteraram ao longo do tempo, bem como os mecanismos por trás da regeneração.


    Ao comparar nossos dados sobre o axolote com outras espécies, descobrimos que as células do seu telencéfalo exibem forte similaridade com o hipocampo dos mamíferos — a região do cérebro envolvida na formação da memória — e com o córtex olfativo — a região do cérebro envolvida no sentido do olfato.


    Em um tipo de célula do axolote, nós chegamos a encontrar similaridades com o neocórtex, a região do cérebro conhecida pela percepção, pensamento e raciocínio espacial em seres humanos.


    Estas similaridades indicam que essas regiões do cérebro podem ter sido conservadas ou permanecido comparáveis ao longo da evolução — e que o neocórtex dos mamíferos pode ter um tipo de célula ancestral do telencéfalo de anfíbios.


    O nosso estudo ajuda a esclarecer o processo de regeneração cerebral, incluindo quais os genes envolvidos e como as células acabam por transformar-se em neurônios, mas ainda não sabemos quais sinais externos dão início ao processo. E também não sabemos se os processos identificados ainda são acessíveis aos animais que evoluíram posteriormente, como os camundongos e os seres humanos.


    Mas não somos os únicos tentando resolver o quebra-cabeça da evolução do cérebro.


    O Laboratório Tosches, da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, explorou a diversidade dos tipos celulares em outra espécie de salamandra, a Pleurodeles waltl. Já o Laboratório Fei, da Academia de Ciências Médicas de Guangdong, na China, e seus colaboradores da empresa chinesa de ciências biológicas BGI pesquisaram a disposição espacial dos tipos de células no prosencéfalo do axolote.


    Identificar todos os tipos de células no cérebro do axolote também ajuda a abrir o caminho para pesquisas inovadoras no campo da medicina regenerativa.


    Os cérebros de camundongos e seres humanos perderam grande parte da sua capacidade de reparo ou regeneração. As intervenções médicas atuais sobre danos cerebrais graves concentram-se em terapias com células-tronco e medicamentos para reforçar ou acelerar reparos.


    Examinar os genes e tipos de células que permitem que os axolotes realizem sua regeneração quase perfeita pode ser a chave para melhorar o tratamento de lesões graves e revelar o potencial de regeneração em seres humanos.


    * Ashley Maynard é candidata ao título de PhD em biologia do desenvolvimento quantitativo no Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça.







    Autor: Ashley Maynard *The Conversation
    Fonte: bbc
    Sítio Online da Publicação: bbc
    Data: 13/09/2022
    Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-62889026

    quinta-feira, 18 de agosto de 2022

    Monkeypox: o que caso de varíola dos macacos em cachorro pode significar para o futuro da doença



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    O vírus monkeypox pode afetar muitas espécies além dos seres humanos


    Um grupo de cientistas franceses confirmou o primeiro caso de monkeypox, doença conhecida popularmente como varíola dos macacos, em um cachorro.


    O relato inédito foi publicado no periódico científico The Lancet e já foi suficiente para mudar algumas recomendações das autoridades em saúde pública.

    O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, por exemplo, incluiu os cães entre as espécies que podem ser afetadas por esse vírus e orientou que pessoas diagnosticadas com a doença limitem o contato com os pets até a completa recuperação do quadro.


    Após realizar o teste que confirmou a presença do patógeno no bicho de estimação, os cientistas fizeram o sequenciamento genético das amostras colhidas de um dos donos e do cão.


    Os resultados mostraram que os vírus eram idênticos — o que praticamente confirma a transmissão do monkeypox dos humanos para o cachorro.

    Ainda não está claro se o caminho inverso também pode acontecer, ou seja, se o patógeno pode passar dos cães para as pessoas.


    Os especialistas entendem que isso é algo que ainda precisa ser observado e estudado a fundo.


    Representantes da Organização Mundial da Saúde (OMS) explicaram que a informação "é nova, mas não surpreende".


    "Esse é o primeiro incidente do tipo e ainda estamos aprendendo sobre a transmissão desse vírus de humanos para animais", declarou a médica Rosamund Lewis, líder técnica sobre monkeypox da OMS ao jornal The Washington Post.


    A virologista Clarissa Damaso, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, concorda com a avaliação e se mostra preocupada com o risco de que o vírus "descubra" hospedeiros diferentes.


    "Há um grande receio que envolve o fato de o monkeypox poder encontrar novos repositórios na natureza, o que dificultaria bastante o controle de casos", analisa.


    Entenda a seguir o que se sabe sobre o episódio confirmado na França e o que ele pode significar para o futuro da crise sanitária relacionada ao monkeypox.

    Uma nova espécie-alvo?


    O relato do caso foi publicado em 10 de agosto por pesquisadores da Universidade Sorbonne, em Paris.


    O cachorro, um galgo italiano de quatro anos, começou a apresentar lesões na pele doze dias após os seus dois tutores serem diagnosticados com monkeypox.


    Os indivíduos, do sexo masculino, se declaram como homens que fazem sexo com outros homens, moram na mesma casa e mantêm uma relação amorosa não exclusiva.


    O primeiro deles, de 44 anos, apresentou lesões no ânus, no rosto, nas orelhas e nas pernas.


    O segundo, de 27, teve feridas no ânus, nas pernas e nas costas.


    Ambos também sentiram falta de energia, dor de cabeça e febre.


    Já o cachorro apresentou pequenas pústulas no abdômen e uma pequena úlcera no ânus.



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    Um galgo italiano, como esse da imagem, foi o primeiro cachorro com um caso documentado de monkeypox

    Outras espécies afetadas

    Em regiões da África onde o monkeypox é endêmico, o vírus circula entre roedores e primatas não humanos — antes do surto atual, uma das principais formas de transmissão por lá, inclusive, acontecia pelo contato com esses animais na natureza ou nas regiões de transição das florestas para as cidades.


    Em entrevista à BBC News Brasil, Damaso lembra de um surto de monkeypox que aconteceu no zoológico de Roterdã, na Holanda, em 1964.


    À época, animais de várias espécies foram infectados — incluindo até tamanduás originários da América do Sul.


    Os registros do episódio mostram que orangotangos, chimpanzés, gorilas e outros primatas também foram afetados e alguns deles morreram.


    Mais recentemente, durante um surto de monkeypox que ocorreu nos Estados Unidos no início dos anos 2000, cientistas documentaram que o vírus passou para cães-da-pradaria, uma espécie de roedor que é mantida como animal de estimação por algumas pessoas.


    Atualmente, o CDC americano aponta que, além de seres humanos, a doença também pode afetar:
    Esquilos
    Cães-da-pradaria
    Marmotas
    Chinchilas
    Ratos de bolsa de Emin
    Cachorros
    Porcos-espinho
    Musaranhos
    Primatas não-humanos


    A entidade admite que o vírus provavelmente também infecta ratos, camundongos e coelhos.


    Não se sabe se o patógeno pode passar para porquinhos-da-índia, hamsters, gatos, vacas, camelos, ovelhas, porcos ou raposas.


    Que fique claro: o fato de esses animais serem possíveis "alvos" do patógeno não faz com que eles virem automaticamente uma ameaça a nós. Por isso, especialistas asseguram que nada justifica atacar ou até matar esses bichos — como, aliás, já aconteceu com alguns macacos no Brasil nas últimas semanas.


    Damaso explica que os orthopoxvirus, família da qual o monkeypox faz parte, têm essa característica de circular por várias espécies animais.


    "Como falamos de um vírus capaz de infectar diferentes hospedeiros, nós já esperávamos que isso [a transmissão para cachorros] pudesse acontecer", avalia.


    Uma das únicas exceções deste grupo viral é o smallpox, o vírus causador da varíola humana. Ele é bem "exclusivo" e, enquanto não foi eliminado do planeta por meio da vacinação na década de 1970, só circulou entre as pessoas.



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    Os cães-da-pradaria são suscetíveis ao monkeypox, assim como uma série de outros roedores

    O que fazer?


    A recomendação geral dos especialistas é que indivíduos com diagnóstico confirmado de monkeypox limitem o contato com os bichos de estimação.


    Vale, se possível, manter os animais em cômodos separados ou pedir que alguém cuide deles enquanto a infecção estiver ativa — a recuperação completa da doença acontece quando todas as lesões de pele cicatrizam (mesmo as casquinhas ainda podem trazer partículas virais).


    "Nesse contexto, é importante não colocar o cachorro para dormir na mesma cama, até porque ele pode ter contato com as lesões da pele ou com os vírus que foram parar no lençol", diz Damaso.


    "Caso não seja possível se distanciar do animal de estimação, o tutor deve usar máscara quando estiver próximo do pet, não deixar que ele toque nas lesões de pele e evitar abraços, carinhos e brincadeiras por um tempo", complementa a virologista.


    O CDC reforça que não há necessidade de dar banho no animal com desinfetante, álcool ou outros produtos químicos. O uso de máscaras nos pets também é algo contra-indicado.


    "Não abandone ou sacrifique animais de estimação apenas por causa de uma exposição potencial ao monkeypox", acrescenta a entidade.


    Nesse contexto, também é importante redobrar os cuidados de higiene dos potes de comida e água, dos brinquedos e dos locais de descanso dos pets.


    Se o cachorro ou o gato apresentar qualquer sintoma típico de monkeypox, como letargia, falta de apetite, tosse, secreções nasais, febres e, principalmente, lesões na pele, vale levá-lo para uma consulta com veterinário.


    Damaso entende que esses cuidados são primordiais para diminuir a probabilidade de o vírus "pular" e se estabelecer em outras espécies — o que tornaria o controle da doença ainda mais complicado no futuro.


    "Todo vírus que encontra novos reservatórios na natureza fica mais difícil de eliminar", conta.


    "Por isso que a gente precisa tomar cuidado agora e monitorar os casos, ainda mais um país com uma grande abundância na fauna, como é o caso do Brasil", conclui a virologista.







    Autor: André Biernath - @andre_biernath
    Fonte: BBC News Brasil em Londres
    Sítio Online da Publicação: BBC News
    Data: 17/08/2022
    Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-62575335