Mostrando postagens com marcador Pós-pandemia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pós-pandemia. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Diarreia do viajante no pós-pandemia: abordagem clínica e probióticos

A Organização Mundial do Turismo calcula que, devido à pandemia de Covid-19, as viagens internacionais registraram uma queda de 700 milhões de turistas no mundo, apenas no ano de 2020. No Brasil, o número de viagens também foi reduzido drasticamente desde o início da Pandemia em março de 2020. Porém, com a crescente imunização da população, vários destinos já estão disponíveis para serem visitados, o que certamente levará a um aumento do trânsito de turistas. É justamente neste momento devemos estar atentos ao retorno dos casos de diarreia do viajante, a qual apresenta uma incidência estimada em 10-40% dependendo do destino. 

Conheça agora

O que é diarreia do viajante? 

É a diarreia (≥3 evacuações de fezes não formadas em 24 horas), acompanhada por, pelo menos, um dos seguintes sintomas: febre, náuseas, vômitos, cólicas abdominais, tenesmo ou disenteria, que ocorre durante uma viagem ou até 10 dias após o regresso à cidade de origem. Pode ser causada por parasitas, vírus ou bactérias, sendo as últimas as mais frequentes, representando até 80-90% dos casos.  Os patógenos mais prevalentes são Escherichia coli enterotoxigênica e enteroagregativa, seguida por Campylobacter jejuni e Shigella spp. Já a Giardia lamblia, por outro lado, é o principal patógeno protozoário. Os destinos que oferecem maior risco são: Américas do Sul e Central, África, México e Oriente Médio.  

Principais agentes etiológicos da diarreia do Viajante na América Latina e Caribe




Como diagnosticar esta diarreia? 

Em geral, o diagnóstico é fornecido pelo histórico do próprio paciente, que está viajando ou acaba de retornar de algum destino, em geral com baixa condição econômica. Os fatores de maior risco são: falta de saneamento, de água potável ou queda frequente de energia elétrica, interferindo no adequado armazenamento de alimentos. Outros fatores de riscos relatados na literatura e que devem ser observados são: pacientes que já apresentaram diarreia do viajante e jovens até 30 anos. Na maioria dos casos não é necessária a realização de exames, como parasitológico de fezes, coprocultura ou mesmo reação em cadeia da polimerase (PCR). O quadro é autolimitado, e , geralmente, o viajante não procura assistência médica. 

 Classificação de gravidade da diarreia do viajante:

Como tratar a diarreia do viajante? 

O mais importante é a reidratação do paciente. Agentes antimotilidade proporcionam alívio sintomático e poderão ser úteis no tratamento. A loperamida pode ser usada em adultos e crianças, exceto se houver disenteria.  

Nas etiologias bacterianas, os antibióticos são eficazes na redução da duração da diarreia em cerca de um dia.  O tratamento com antibióticos não é recomendado em pacientes com diarreia do viajante leve, mas está indicado nos casos graves. Exemplos de antibióticos a serem prescritos: fluoroquinolonas, azitromicina e  rifaximina. 

Nos casos em que a diarreia já está estabelecida, os probióticos (“organismos vivos que, quando consumidos em quantidades adequadas, trazem benefício a saúde do hospedeiro”) reduzem a duração dos sintomas. Bae realizou metanálise que incluiu onze artigos que teve como objetivo avaliar a eficácia dos probióticos e concluiu que os probióticos mostraram eficácia estatisticamente significativa na prevenção da diarreia do viajante. Estudos demonstraram que o Lactobacillus rhamnosus GG (LGG®) protege contra esse tipo de diarreia quando comparado ao placebo. O benefício da administração de LGG® é maior em pacientes com história prévia de diarreia do viajante. Essas pesquisas indicaram que colonizar o intestino com LGG® antes e durante a viagem pode reduzir a incidência de diarreia do viajante. Outros trabalhos demonstram ainda que o LGG® atua contra a bactéria E. coli, por meio da redução de toxina Shiga, inibição de adesão, proteção contra lesões de junções firmes e modulação imune.  

Como prevenir a diarreia? 

Escolha adequadamente o que for alimentar, evite alimentos in natura, frutos do mar, beba apenas água mineral engarrafada e use-a para escovar os dentes. Procure lavar as mãos com água e sabão frequentemente ou use álcool gel (≥60% de álcool) se não for possível lavá-las, especialmente após uso de sanitários ou antes de preparar alimentos. Não há vacinas disponíveis para a maioria dos patógenos. 

Estudo no México mostrou que o subsalicilato de bismuto pode reduzir em até 50% o risco de diarreia do viajante. O uso profilático de antibióticos deve ser avaliado com cautela devido ao risco de resistência bacteriana. 

Segundo o CDC, o uso de probióticos, como Lactobacillus GG e Saccharomyces boulardii pode ser avaliado individualmente (em especial nos grupos de risco), mas ainda não está indicado de rotina para todos os viajantes.  




Autor: Larissa Pires Marquite da Silva.
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 10/12/2021
Publicação Original: https://pebmed.com.br/diarreia-do-viajante-no-pos-pandemia-abordagem-clinica-e-probioticos/

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Novas investigações sobre as principais causas da perda de biodiversidade no mundo lançam um apelo por uma reorganização urgente e profunda da economia global pós-pandemia, para evitar novos danos ao planeta



O relatório sublinha que as atuais regras comerciais, políticas econômicas, encargos da dívida, subsídios e formas de evasão fiscal, bem como o persistente incumprimento dos compromissos de financiamento pelos países ricos, não só prejudicam os esforços pela conservação da biodiversidade, como estão entre os principais fatores que provocam os danos ecológicos.

O estudo, conduzido por investigadores da Universidade de Lancaster, da Universidade da Colúmbia Britânica e da Universidade Duke, demonstra o incumprimento dos compromissos relacionados à Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), um importante tratado multilateral assinado com o objetivo de conservar a biodiversidade, utilizá-la de forma sustentável e partilhar equitativamente os seus benefícios.

Os investigadores consideram que a abordagem global para a definição das políticas ligadas à biodiversidade é inadequada — as discussões giram em torno das maneiras de trazer a natureza para dentro das regras existentes do jogo econômico, em vez de examinar a forma como essas regras criam o problema em primeiro lugar.

O relatório também destaca que os investimentos em projetos de melhoria da natureza fazem pouco para conter o agravamento da crise da biodiversidade — porque os fatores econômicos que impulsionam a crise continuam a ser ignorados. 

Os autores advertem que, embora o aumento do financiamento para ações ligadas à biodiversidade seja bem-vindo, os seguintes fatores econômicos têm de ser abordados para que tais ações sejam eficazes:

As normas existentes para regular o comércio e o investimento, cujo efeito é estimular um modelo de desenvolvimento que degrada a biodiversidade

Um crescimento exponencial no financiamento público e privado das indústrias nocivas à biodiversidade

As políticas de austeridade e liberalização do comércio, impostas de forma generalizada como condições de acesso aos mecanismos de apoio financeiro

Os encargos da dívida nos países em desenvolvimento, que esgotam as finanças públicas e tornam impossível, para muitas nações, o investimento na conservação e utilização sustentável

As desigualdades enraizadas ao nível internacional e nacional, para as quais o desenvolvimento econômico nocivo à biodiversidade é apresentado como a única solução

Subsídios públicos para atividades que prejudicam a biodiversidade, cujo volume excede largamente o investimento internacional em iniciativas para a sua preservação

Evasão fiscal pelas elites ricas e as grandes empresas, que drenam ainda mais os cofres públicos

Os investigadores mostram que os países mais ricos não estão cumprindo suas obrigações de financiamento previstas na CDB. Em vez disso, nos quase 30 anos desde o nascimento da CDB em 1992, os signatários do mundo rico só pagaram cerca da metade (58%) do que prometeram, enquanto continuam a promover agendas econômicas que aprofundam as causas da perda de biodiversidade.

A Dra. Jessica Dempsey, do Departamento de Geografia da Universidade da Colúmbia Britânica, foi uma das investigadoras principais no estudo. Em suas palavras: “A nossa investigação mostra que, além de serem necessários mais recursos financeiros para conter a crise da biodiversidade, também é preciso repensar de forma mais ampla os mecanismos pelos quais as regras da economia estão a conduzir à sexta extinção. Precisamos olhar com atenção para elementos como a política fiscal e os direitos de propriedade intelectual, e até mesmo ideias inteiras que orientam o funcionamento da economia global — tais como aquelas que determinam o que significa para os governos ser ‘financeiramente responsáveis’, quando a história demonstra a ineficácia da austeridade em produzir bons resultados ambientais”.

“Para fazer uma analogia com a atual pandemia, o FMI propôs recentemente pagamentos de solidariedade para o Sul Global” diz Lim Li Ching, da Rede do Terceiro Mundo. “Esta seria também uma boa medida para a biodiversidade, mas precisa de ser acompanhada de profundas mudanças estruturais — e o FMI poderia começar por parar de obrigar esses mesmos países a adotarem políticas de austeridade.”

Os autores salientam que as desigualdades sociais em matéria de raça, gênero, classe e casta não só influenciam a forma como os efeitos da perda de biodiversidade são sentidos, mas também conduzem elas próprias à extinção e degradação ecológica, por forçarem injustamente os países em desenvolvimento e as comunidades com poucos recursos financeiros a adotarem estratégias de sobrevivência e desenvolvimento nocivas ao ambiente. Dessa forma, a justiça social e ambiental deve ser um elemento central nos esforços para enfrentar a crise da biodiversidade.

O relatório também se concentra nas dívidas — tanto monetárias como ecológicas — acumuladas pelo mundo rico às custas dos pobres. Os autores dizem que o pagamento destas dívidas é crucial, mas não pode ser realizado apenas pela concessão de mais financiamento através dos canais existentes — também é necessário um novo processo de regulamentação global para criar uma economia mais equitativa.

Os autores de Muito além do déficit: situar o financiamento da biodiversidade no contexto da economia global, publicado pela Rede do Terceiro Mundo e pela Universidade da Colúmbia Britânica em maio de 2021, dizem que chegou a hora de agir, num momento em que a COVID-19 acelera o ímpeto para repensar a estrutura e a regulação da economia global.

Num documento de síntese que acompanha o relatório completo, os investigadores apresentam cinco recomendações para modificar os processos econômicos globais, de modo a deixarem de contribuir para a destruição da biodiversidade. Assim, apelam aos 196 governos que são Partes na Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) para que:

1) Eliminem o nexo entre dívida e austeridade, que alimenta o extrativismo e impede a implementação da CDB.

2) Regulamentem as finanças e penalizem as indústrias que provocam danos à biodiversidade e aos direitos dos povos indígenas e comunidades locais.

3) Assegurem que o financiamento da biodiversidade não impeça a implementação de mudanças transformadoras nem prejudique os objetivos da CDB.

4) Reduzam as desigualdades de riqueza e poder aos níveis nacional e internacional, que impedem a execução de mudanças transformadoras.

5) Atuem para eliminar as desigualdades de classe, casta, raça e gênero, que estão na base da perda de biodiversidade e impedem a sua conservação e utilização sustentável.



O Dr. Patrick Bigger, do Centro de Pentland da Universidade de Lancaster, um dos líderes do projeto, afirma: “Estamos a apelar por mudanças urgentes na abordagem, com fortes ações estatais e multilaterais coordenadas para regular e redirecionar o financiamento, de projetos que degradam a biodiversidade para outros que promovam uma recuperação econômica benéfica ao ambiente. Para tal, é preciso reforçar as nossas instituições públicas e iniciar reformas profundas para transformar a política e o investimento público.” E acrescenta: “O nosso estudo demonstra que o financiamento é frequentemente canalizado para projetos ineficazes, sem efeitos comprovados ou totalmente contraproducentes. Muitos desses projetos baseiam-se no chamado financiamento misto, que acaba por apoiar organizações privadas orientadas pelo lucro, em vez de ajudar diretamente os países com maior biodiversidade a protegerem os seus frágeis ecossistemas e as pessoas que os conservam e deles dependem”.

Os autores do artigo são Patrick Bigger e Jens Christiansen, da Universidade de Lancaster, Jessica Dempsey, Adriana DiSilvestro, Audrey Irvine-Broque, Sara Nelson, Fernanda Rojas-Marchini e Andrew Schuldt, da Universidade da Colúmbia Britânica, e Elizabeth Shapiro-Garza, da Universidade Duke.


Referência:

Bigger, Patrick & Dempsey, Jessica & Christiansen, Jens & Rojas-Marchini, Fernanda & Irvine-Broque, Audrey & Nelson, Sara & Disilvestro, Adriana & Schuldt, Andrew & Shapiro-Garza, Elizabeth. (2021). Beyond The Gap: Placing Biodiversity Finance in the Global Economy. 10.13140/RG.2.2.10618.21449.



Henrique Cortez, tradutor e editor, a partir de original da Lancaster University

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/05/2021




Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 17/05/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/05/17/perda-de-biodiversidade-exige-repensar-a-economia-global/

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Pós-pandemia: o que está em jogo na ‘economia verde’?


Pós-pandemia: o que está em jogo na ‘economia verde’? artigo de Amyra El Khalili

A cotação da água no mercado de futuros de Wall Street, como se fosse ouro ou petróleo, viola os direitos humanos básicos e torna o elemento líquido vulnerável a uma eventual bolha especulativa

Palavras-chave: Economia verde. Problemas socioambientais. Serviços ambientais.

Sumário: 1 Água transformada em mercadoria na Bolsa de Nova Iorque – Referências

Às vésperas da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável – Rio+20 (2012), fomos abordados por uma avalanche vinda dos ativistas internacionais que denunciavam os perigos da economia verde, tão propalada pela mídia e pelas grandes ONGs ambientalistas, com a anuência de políticos ideologicamente alinhados, tanto com a direita quanto com a esquerda, neste continente latino-americano-caribenho.

A economia verde se apresentou como uma alternativa para solucionar os problemas socioambientais, como o combate à pobreza, às desigualdades e à degradação ambiental, sendo posta, nas convenções das instituições, como meta dos Objetivos do Milênio no programa da ONU pelo Banco Mundial, pela Organização dos Estados Americanos (OEA), entre outros, nos mais diversos setores da economia, supostamente admitida (a economia verde) como consenso resultante (era o que diziam) de amplo debate com a sociedade, transformando-se, portanto, em fato consumado.

No entanto, a economia verde não se limita a incluir as variáveis ambientais no debate político-econômico. Ela vem como um pacote forjado pelo setor financeiro, arrastando em seu bojo, evidentemente ajustado aos seus interesses, inúmeras iniciativas e propostas que partiram da base excluída dos grandes centros de decisão e das reuniões dessas mesmas instituições, que contaram com uma ilegítima representação de mesmos políticos e seus parceiros nos megaprojetos de infraestruturas responsáveis pelos impactos ambientais nas regiões de onde partiram as propostas dos(as) que desafiam diuturnamente o status quo com seu direito de existir.

Importantes propostas discutidas por anos de trabalho junto às mais diversas comunidades que constituíram, por exemplo, os comitês de bacias hidrográficas, como a “cobrança pelo uso da água”, foram postas no mesmo pacote do que chamam “pagamento por serviços ambientais”.

O setor do agronegócio e empresarial utiliza os recursos naturais (água, energia e minério) mediante outorga (concessão de exploração) como insumo para produzir bens e serviços, enquanto a proposta elaborada pelos comitês de bacias hidrográficas, “cobrança pelo uso da água”, está sendo incluída nesse pacote financeiro (da economia verde), sem a devida explicação do que significa “assinar” um contrato com uma cláusula específica sobre “pagamentos por serviços ambientais” ou mesmo esclarecer o que está implícito quando se utiliza essa expressão.

1 Água transformada em mercadoria na Bolsa de Nova Iorque

Em 2020, a água começou a ser negociada como recurso (commodity), tendo como base o índice Nasdaq Veles California Water (NQH2O) no mercado de futuros de Wall Street, como acontece com o petróleo e o ouro.

Para explicar o que isso significa e por que isso não deveria acontecer, o jornalista diretor-fundador da Diálogos do Sul, Paulo Cannabrava Filho, dialoga comigo para a TV Diálogos do Sul durante a live conduzida pela jornalista Vanessa Martina.

A cotação da água no mercado de futuros de Wall Street, como se fosse ouro ou petróleo, viola os direitos humanos básicos e torna o elemento líquido vulnerável a uma eventual bolha especulativa, denuncia em um comunicado o relator especial da ONU sobre o direito à água potável e saneamento, Pedro Arrojo-Agudo.

Para Emiliano Teran Mantovani, do Observatorio de Ecología Política de Venezuela:

[…] A criação do índice ‘Nasdaq Veles California Water’ em outubro de 2018 por parte do mencionado CME Group, com a finalidade de colocar um marcador na bolsa de futuros da água na Califórnia, tem como antecedente próximo a formação de mercados de futuros que envolveram perversamente os alimentos desde 2008, como aconteceu com o trigo, o cacau e o arroz. Isso faria com que os grandes bancos privados internacionais destinassem enormes cifras para a compra dos referidos títulos, enquanto se especulava com eles, disparando os preços dos alimentos e aumentando a quantidade de famintos no mundo.

Desde sempre, a nossa participação no debate sobre instrumentos econômicos e financeiros foi pautada pela didática e por esclarecimentos. Sempre expusemos claramente nas discussões os riscos e as necessidades de avançar na direção de um novo modelo econômico para a América Latina e o Caribe, com propostas que vinham da base e dos rincões mais distantes dos centros urbanos, enquanto os políticos e lobistas debatiam as suas propostas em fóruns realizados em hotéis de luxo, regados a badalados coquetéis com solidariedade corporativa entre pares.

Valendo-se de conceitos confusos, de posições políticas dúbias, mas com sofisticada engenharia financeira a respeito da equação terra e bens comuns, os recursos naturais estratégicos engrossaram os negócios da geopolítica internacional (nossa velha conhecida) como mais um incremento de guerras (muitas vezes promovidas pelos próprios governantes), tudo em defesa da democracia e da paz na América Latina, na Ásia, no Oriente Médio, na África.

Essa questão, pelo tanto que é de espinhosa, requer coragem para o devido enfrentamento. Ela nos impõe relembrar a história sangrenta com que foram instaladas as forças políticas na América Latina e no Caribe, o colonialismo, a escravidão. Lamentável e lastimavelmente, também nos obriga a olhar a situação dos(as) irmãs e irmãos refugiados(as), imagem que incomoda, ocupando quase diariamente os noticiários, assim como os ocupam de fundamentalistas que se alimentam do ciclo vicioso da indiferença.

A pesquisa investigativa Valoração econômica e pagamento por serviços ambientais – reconhecimento do valor da natureza ou atribuição de preço à destruição da natureza?, da bióloga e ativista Jutta Kill, faz uma análise acurada e nos dá esclarecimentos fundamentados com argumentos técnico-operacionais (de execução) e jurídicos de como se deu a implementação desses “experimentos” com base no princípio da economia verde nos países do Norte e suas consequências tanto lá quanto cá.

Nesse trabalho, fica claro que estamos diante de um problema de ordem ética e moral mais complexo e bem distante das falsas soluções que se impõem por força do comodismo da despolitização e da falta de interesse. Esta última é a que tranquilamente assim se justifica: “Se não entendo do assunto, não quero saber”.

Se quisermos sair do atoleiro em que nossa civilização contemporânea se meteu, é melhor começar a saber e a entender.

Gente disposta a pesquisar, a esclarecer e a orientar, comprometida com a democratização da informação, não falta nem nunca faltou. Aliás, como nos chama a atenção o cientista e ativista Carlos A. Lungarzo:

[…] O despertar das mulheres, coincidindo com uma das maiores crises internacionais do capitalismo, pode ser a esperança de uma nova etapa, desta vez pacífica, que não renuncie à igualdade (e, portanto, à desaparição das classes), mas encare os problemas imediatos. Esta seria uma Novíssima Esquerda, ou, melhor, uma segunda fase da “Nova Esquerda”. Nada garante seu sucesso, mas sua chance é maior que a dos movimentos violentos que só beneficiam os traficantes de armas, e que produziram milhões de mortos na África, na Ásia e na América Latina.

Não podemos esperar que os grupos que hoje mobilizam dúzias de trilhões de dólares sejam definitivamente derrotados. Até que isso aconteça, se acontecer, bilhões de crianças, índios, negros, refugiados, mulheres e pobres esperam uma reação das forças esclarecidas deste planeta, que, acreditemos ou não, existem.

Notas:

(1) Água transformada em mercadoria na Bolsa de Nova York. LIVE com o jornalista Paulo Cannabrava e Amyra El Khalili. TV Diálogos do Sul. Transmitido ao vivo em 10 de dez. de 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=RHCN22Wy5B4.

(2) A valoração econômica da natureza tem sido estudada há alguns anos. Nesta nova publicação pela Fundação Heinrich Böll, Valoração econômica e pagamento por serviços ambientais –reconhecimento do valor da natureza ou atribuição de preço à destruição da natureza?, da bióloga e ativista Jutta Kill, o tema é investigado sob um novo enfoque. Esse artigo explora, assim, as diferenças entre as iniciativas recentes focadas em “acabar com a invisibilidade econômica da natureza” e as antigas perspectivas a respeito da sua valoração econômica. Apesar de concebida atualmente como um novo mecanismo de conservação ambiental e desenvolvimento sustentável, a valoração econômica da natureza não é novidade. Na realidade, ela está inserida na lógica da acumulação de capital presente em nossa sociedade há séculos.

Referências:

ACOSTA, Alberto; CAJAS-GUIJARRO, John. Aberraciones del capital. Wall Street líquido y sociedades sedientas. Rebelión, 17 dez. 2020. Disponível em: https://rebelion.org/aberraciones-del-capital/.

ÁLVAREZ, Clemente. O que significa a água começar a ser cotizada no mercado de futuros de Wall Street?. Jornal El País, 09 dez. 2020. Disponível em: https://brasil.elpais.com/economia/2020-12-09/o-que-significa-a-agua-comecar-a-ser-cotizada-no-mercado-de-futuros-de-wall-street.html.

ARROJO-AGUDO, Pedro. A ONU denuncia que a cotação da água no mercado de futuros viola direitos humanos básicos. IHU – Instituto Humanitas Unisinos, 12 dez. 2020. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/605566-e-de-todos-a-onu-denuncia-que-a-cotacao-da-agua-no-mercado-de-futuros-viola-direitos-humanos-basicos.

EL KHALILI, Amyra. O Rio São Francisco e a “cobrança pelo uso da água”. Disponível em: http://port.pravda.ru/sociedade/cultura/14-08-2016/41543-rio_sao_fransisco-0/. Acesso em: 14 ago. 2016. Capturado em: 10 mar. 2017.

EL KHALILI, Amyra. As commodities ambientais e a métrica do carbono. Disponível em: http://racismoambiental.net.br/2017/02/17/as-commodities-ambientais-e-a-metrica-do-carbono/. Acesso em: 17 fev. 2017. Capturado em: 17 fev. 2017.

KILL, Jutta. Valoração econômica e pagamento por serviços ambientais: reconhecimento do valor da natureza ou atribuição de preço à destruição da natureza? Disponível em: http://br.boell.org/pt-br/2017/03/03/valoracao-economica-da-natureza. Acesso em: 02 mar. 2017. Capturado em: 10 mar. 2017.

LUNGARZO, Carlos A. A greve de mulheres e a “novíssima esquerda”. Disponível em: http://port.pravda.ru/mundo/10-03-2017/42844-greve_mulheres-0/. Acesso em: 08 mar. 2017. Capturado em: 08 mar. 2017.

MANTOVANI, Emiliano Terán. El nuevo asalto al agua y las rutas del capitalismo azul. Agencia Latinoamericana de Información –ALAI, 16 dez. 2020. Disponível em: https://www.alainet.org/es/articulo/210210?utm_source=email&utm_campaign=alai-amlatina.

Fonte:

EL KHALILI, Amyra. Pós-pandemia: o que está em jogo na “economia verde”?. Fórum de Direito Urbano e Ambiental – FDUA, Belo Horizonte, ano 20, n. 116, p. -, mar./abr. 2021.


Amyra El Khalili – Professora de Economia Socioambiental. Foi economista, com mais de duas décadas de experiência nos mercados futuros e de capitais, tendo ocupado cargos relevantes em corretoras e bancos de investimentos. Editora das redes Movimento Mulheres pela P@Z! e Aliança RECOs – Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras. Autora do e-book Commodities Ambientais em Missão de Paz: Novo Modelo Econômico para a América Latina e o Caribe.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/05/2021




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 12/05/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/05/12/pos-pandemia-o-que-esta-em-jogo-na-economia-verde/