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quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

SBAD 2022: Probióticos e as diferentes patologias do trato gastrointestinal

O quarto e último dia da Semana Brasileira do Aparelho Digestivo foi marcado por debates acerca do uso de probióticos em diversas condições clínicas. A primeira palestra do dia foi ministrada pelo Prof. Joaquim Prado e abordou o uso de probióticos na síndrome do intestino irritável (SII). Sabe-se que a SII é caracterizada pela coexistência de desconforto abdominal e alterações do hábito intestinal e acomete cerca de 7-22% da população. Do ponto de vista fisiopatológico, cursa com alteração da motilidade intestinal, desregulação da resposta imune, inflamação de baixo grau, hipersensibilidade visceral, aumento da permeabilidade intestinal e alterações na microbiota intestinal.


A microbiota intestinal exerce diversos papéis no organismo humano, influenciando nas junções firmes, produção de IgA, relação cripta/vilosidade, produção de vitaminas, ácidos graxos de cadeia curta, trofismo de mucosa e imunidade. O desequilíbrio da flora intestinal normal é associado a diarreia, constipação, dor abdominal, flatulência, alterações metabólicas, inflamatórias e imunoregulatórias. Em que se pese a recomendação contrária da American Gastroenterology Association ao uso de probióticos na SII, a diretriz mais atual, publicada pela Sociedade Japonesa de Gastroenterologia, diz que os probióticos são efetivos no tratamento da síndrome. Prado apresentou metanálise que demonstram um efeito significativo dos probióticos, embora ainda exista controvérsia quanto as melhoras cepas, combinações e concentração a serem utilizadas. Os gêneros mais estudados são Bifidobacterium, Lactobacillus e Streptococcus. Segundo Prado, B. infantis, B. brevis e B. animalis seriam melhores para abordagem da constipação, desconforto e distensão. Por outro lado, L. acidophilus, L. casei, L. infantis, L. reuteri e L. rhamnosus seriam mais interessantes no tratamento da diarreia, dor e desconforto.

O Prof. Eduardo Usuy abordou brevemente o uso de probióticos nas doenças inflamatórias intestinais. Apresentou estudos demonstrando benefício do uso em algumas situações, como na bolsite. Nessa situação, a American Gastroenterology Association atesta que existe um benefício potencial tanto na prevenção do primeiro episódio, como na manutenção da remissão após tratamento da bolsite. A combinação mais estudada nesse caso é o VSL3®. Foram discutidos estudos em retocolite ulcerativa com Escherichia coli Nissle 1917 e Lactobacillus GG, além da combinação de Lactobacillus salivarius, L. acidophilus, B. bifidum BGN4, com benefícios interessantes, mas ainda incipientes. Já na doença de Crohn, os trabalhos não suportam a eficácia clínica dos probióticos na indução ou manutenção da remissão. Destacou-se, ao final, o risco de bacteremia em pacientes imunossuprimidos tratados com probióticos.

A terceira palestra abordou o uso de probióticos nas doenças hepáticas. O Prof. Sérgio Pessoa demonstrou que existem diferenças entre microbiota de indivíduos saudáveis e hepatopatas. Caracterizou-se o papel do eixo intestino-fígado, em uma engrenagem complexa relacionada a inflamação e fibrose crônica. A disbiose foi associada a aumento na formação de metabólitos neurotrópicos, como a amônia, risco de translocação bacteriana, formação de lipopolissacárides, redução da formação de ácidos graxos de cadeia curta e desordens do metabolismo da bilirrubina. Novas estratégicas para tratamento de hepatopatias envolvem a manipulação da microbiota intestinal. Pessoa apresentou o aumento expressivo do número de publicações relacionadas ao tema na última década, especialmente aquelas relacionadas a doença hepática gordurosa não alcoólica e cirrose. Um interessante estudo observou grandes diferenças na composição da microbiota de pacientes com cirrose compensada e descompensada. O uso de probióticos como uma opção para tratamento e prevenção de encefalopatia hepática foi destacado, embora mais estudos sejam necessários. Um estudo com Saccharomyces boulardii demonstrou melhora de padrões hemodinâmicos na cirrose hepática, com redução de ascite, encefalopatia, bilirrubinas e aumento de plaquetas. Já o Lactobacillus GG foi capaz de reduzir a endotoxemia e níveis de TNF alfa em cirróticos. Pessoa apresentou ainda evidências de alteração na composição da microbiota intestinal em pacientes etilistas crônicos. Lactobacillus subtilis e Streptococcus faecium tiveram algum benefício na hepatite alcoólica, reduzindo LPS, TNF alfa e restaurando a microbiota. Já na doença hepática gordurosa não alcoólica uma das hipóteses discutidas foi o papel da microbiota na definição do fenótipo da doença. Uma metanálise apresentada observou melhora de transaminases em pacientes com esteatohepatite tratados com probióticos. Em outro estudo, a combinação de Bifidobacterium, Lactobacillus, Lactococcus e Propionibacterium reduziu o índice de gordura hepática e aminotransferases, além de modular a produção de citocinas. Por fim, o Pessoa concluiu que benefícios do uso de probióticos têm sido demonstrados em doenças hepáticas, embora existam ainda poucos ensaios clínicos sobre o tema.

A última palestra dessa mesa foi ministrada pelo Dr. Eduardo Antônio André e abordou o tema “Probióticos na Neoplasia de Cólon”. A neoplasia colorretal é a terceira mais diagnosticada no mundo e a quarta causa de óbitos por câncer. Cerca de 15-20% dos cânceres se desenvolvem por agentes infecciosos específicos. A microbiota participa no componente multifatorial de risco para câncer ao alterar o metabolismo do hospedeiro, imunidade e proliferação celular. A inflamação crônica induzida por agentes microbianos é um fator de risco nos processos de início/progressão do câncer, invasão tumoral e metástases. Citocinas pró-inflamatórias liberadas aumentam o dano ao DNA epitelial, modificações epigenéticas regulatórias e instabilidade genética. Segundo Eduardo, a microbiota colônica compõe-se por bactérias (90%), Archea, vírus e eucariontes unicelulares. Predominam Bacteroidetes e Firmicutes, sendo Proteobacteria, Actinobacteria e Fusobacteria componentes menores. Firmicutes, Actinobacteria e Lachnospiraceae são detectados mais frequentemente em adenomas. Proteobacteria, Alcaligenaceae, Enterobacteriaceae e espécies de Sutterella são aumentadas no câncer colorretal, enquanto Oscillospira estão depletadas na transição adenoma:câncer colorretal precoce. Fusobacterium nucleatum parece exercer impacto no desenvolvimento da neoplasia colorretal. Estudo apresentado pelo Prof. Eduardo demonstrou que a combinação da detecção de F. nucleatum + teste imunoquímico fecal aumenta a sensibilidade de detecção da neoplasia para 92,3% versus 73,1%. Por fim, foram apresentados estudos do uso de probióticos no pós-operatório de ressecção do câncer colorretal, sendo que uma metanálise com 1831 pacientes observou redução da inflamação, infecções e tempo de antibioticoterapia.

Certamente, o palpitante tema probióticos terá lugar garantido no próximo Congresso, com novas evidências sendo geradas diariamente.





Autor: Guilherme Grossi Cançado
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 04/12/2022
Publicação Original: https://pebmed.com.br/sbad-2022-probioticos-e-as-diferentes-patologias-do-trato-gastrointestinal/

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

SBAD 2022: Probióticos e as diferentes patologias do trato gastrointestinal

O quarto e último dia da Semana Brasileira do Aparelho Digestivo foi marcado por debates acerca do uso de probióticos em diversas condições clínicas. A primeira palestra do dia foi ministrada pelo Prof. Joaquim Prado e abordou o uso de probióticos na síndrome do intestino irritável (SII). Sabe-se que a SII é caracterizada pela coexistência de desconforto abdominal e alterações do hábito intestinal e acomete cerca de 7-22% da população. Do ponto de vista fisiopatológico, cursa com alteração da motilidade intestinal, desregulação da resposta imune, inflamação de baixo grau, hipersensibilidade visceral, aumento da permeabilidade intestinal e alterações na microbiota intestinal.


A microbiota intestinal exerce diversos papéis no organismo humano, influenciando nas junções firmes, produção de IgA, relação cripta/vilosidade, produção de vitaminas, ácidos graxos de cadeia curta, trofismo de mucosa e imunidade. O desequilíbrio da flora intestinal normal é associado a diarreia, constipação, dor abdominal, flatulência, alterações metabólicas, inflamatórias e imunoregulatórias. Em que se pese a recomendação contrária da American Gastroenterology Association ao uso de probióticos na SII, a diretriz mais atual, publicada pela Sociedade Japonesa de Gastroenterologia, diz que os probióticos são efetivos no tratamento da síndrome. Prado apresentou metanálise que demonstram um efeito significativo dos probióticos, embora ainda exista controvérsia quanto as melhoras cepas, combinações e concentração a serem utilizadas. Os gêneros mais estudados são Bifidobacterium, Lactobacillus e Streptococcus. Segundo Prado, B. infantis, B. brevis e B. animalis seriam melhores para abordagem da constipação, desconforto e distensão. Por outro lado, L. acidophilus, L. casei, L. infantis, L. reuteri e L. rhamnosus seriam mais interessantes no tratamento da diarreia, dor e desconforto.

O Prof. Eduardo Usuy abordou brevemente o uso de probióticos nas doenças inflamatórias intestinais. Apresentou estudos demonstrando benefício do uso em algumas situações, como na bolsite. Nessa situação, a American Gastroenterology Association atesta que existe um benefício potencial tanto na prevenção do primeiro episódio, como na manutenção da remissão após tratamento da bolsite. A combinação mais estudada nesse caso é o VSL3®. Foram discutidos estudos em retocolite ulcerativa com Escherichia coli Nissle 1917 e Lactobacillus GG, além da combinação de Lactobacillus salivarius, L. acidophilus, B. bifidum BGN4, com benefícios interessantes, mas ainda incipientes. Já na doença de Crohn, os trabalhos não suportam a eficácia clínica dos probióticos na indução ou manutenção da remissão. Destacou-se, ao final, o risco de bacteremia em pacientes imunossuprimidos tratados com probióticos.

A terceira palestra abordou o uso de probióticos nas doenças hepáticas. O Prof. Sérgio Pessoa demonstrou que existem diferenças entre microbiota de indivíduos saudáveis e hepatopatas. Caracterizou-se o papel do eixo intestino-fígado, em uma engrenagem complexa relacionada a inflamação e fibrose crônica. A disbiose foi associada a aumento na formação de metabólitos neurotrópicos, como a amônia, risco de translocação bacteriana, formação de lipopolissacárides, redução da formação de ácidos graxos de cadeia curta e desordens do metabolismo da bilirrubina. Novas estratégicas para tratamento de hepatopatias envolvem a manipulação da microbiota intestinal. Pessoa apresentou o aumento expressivo do número de publicações relacionadas ao tema na última década, especialmente aquelas relacionadas a doença hepática gordurosa não alcoólica e cirrose. Um interessante estudo observou grandes diferenças na composição da microbiota de pacientes com cirrose compensada e descompensada. O uso de probióticos como uma opção para tratamento e prevenção de encefalopatia hepática foi destacado, embora mais estudos sejam necessários. Um estudo com Saccharomyces boulardii demonstrou melhora de padrões hemodinâmicos na cirrose hepática, com redução de ascite, encefalopatia, bilirrubinas e aumento de plaquetas. Já o Lactobacillus GG foi capaz de reduzir a endotoxemia e níveis de TNF alfa em cirróticos. Pessoa apresentou ainda evidências de alteração na composição da microbiota intestinal em pacientes etilistas crônicos. Lactobacillus subtilis e Streptococcus faecium tiveram algum benefício na hepatite alcoólica, reduzindo LPS, TNF alfa e restaurando a microbiota. Já na doença hepática gordurosa não alcoólica uma das hipóteses discutidas foi o papel da microbiota na definição do fenótipo da doença. Uma metanálise apresentada observou melhora de transaminases em pacientes com esteatohepatite tratados com probióticos. Em outro estudo, a combinação de Bifidobacterium, Lactobacillus, Lactococcus e Propionibacterium reduziu o índice de gordura hepática e aminotransferases, além de modular a produção de citocinas. Por fim, o Pessoa concluiu que benefícios do uso de probióticos têm sido demonstrados em doenças hepáticas, embora existam ainda poucos ensaios clínicos sobre o tema.

A última palestra dessa mesa foi ministrada pelo Dr. Eduardo Antônio André e abordou o tema “Probióticos na Neoplasia de Cólon”. A neoplasia colorretal é a terceira mais diagnosticada no mundo e a quarta causa de óbitos por câncer. Cerca de 15-20% dos cânceres se desenvolvem por agentes infecciosos específicos. A microbiota participa no componente multifatorial de risco para câncer ao alterar o metabolismo do hospedeiro, imunidade e proliferação celular. A inflamação crônica induzida por agentes microbianos é um fator de risco nos processos de início/progressão do câncer, invasão tumoral e metástases. Citocinas pró-inflamatórias liberadas aumentam o dano ao DNA epitelial, modificações epigenéticas regulatórias e instabilidade genética. Segundo Eduardo, a microbiota colônica compõe-se por bactérias (90%), Archea, vírus e eucariontes unicelulares. Predominam Bacteroidetes e Firmicutes, sendo Proteobacteria, Actinobacteria e Fusobacteria componentes menores. Firmicutes, Actinobacteria e Lachnospiraceae são detectados mais frequentemente em adenomas. Proteobacteria, Alcaligenaceae, Enterobacteriaceae e espécies de Sutterella são aumentadas no câncer colorretal, enquanto Oscillospira estão depletadas na transição adenoma:câncer colorretal precoce. Fusobacterium nucleatum parece exercer impacto no desenvolvimento da neoplasia colorretal. Estudo apresentado pelo Prof. Eduardo demonstrou que a combinação da detecção de F. nucleatum + teste imunoquímico fecal aumenta a sensibilidade de detecção da neoplasia para 92,3% versus 73,1%. Por fim, foram apresentados estudos do uso de probióticos no pós-operatório de ressecção do câncer colorretal, sendo que uma metanálise com 1831 pacientes observou redução da inflamação, infecções e tempo de antibioticoterapia.

Certamente, o palpitante tema probióticos terá lugar garantido no próximo Congresso, com novas evidências sendo geradas diariamente.




Autor: Guilherme Grossi Cançado
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 04/12/2022
Publicação Original: https://pebmed.com.br/sbad-2022-probioticos-e-as-diferentes-patologias-do-trato-gastrointestinal/

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

SBAD 2022: Probióticos e as diferentes patologias do trato gastrointestinal

 O quarto e último dia da Semana Brasileira do Aparelho Digestivo foi marcado por debates acerca do uso de probióticos em diversas condições clínicas. A primeira palestra do dia foi ministrada pelo Prof. Joaquim Prado e abordou o uso de probióticos na síndrome do intestino irritável (SII). Sabe-se que a SII é caracterizada pela coexistência de desconforto abdominal e alterações do hábito intestinal e acomete cerca de 7-22% da população. Do ponto de vista fisiopatológico, cursa com alteração da motilidade intestinal, desregulação da resposta imune, inflamação de baixo grau, hipersensibilidade visceral, aumento da permeabilidade intestinal e alterações na microbiota intestinal.




A microbiota intestinal exerce diversos papéis no organismo humano, influenciando nas junções firmes, produção de IgA, relação cripta/vilosidade, produção de vitaminas, ácidos graxos de cadeia curta, trofismo de mucosa e imunidade. O desequilíbrio da flora intestinal normal é associado a diarreia, constipação, dor abdominal, flatulência, alterações metabólicas, inflamatórias e imunoregulatórias. Em que se pese a recomendação contrária da American Gastroenterology Association ao uso de probióticos na SII, a diretriz mais atual, publicada pela Sociedade Japonesa de Gastroenterologia, diz que os probióticos são efetivos no tratamento da síndrome. Prado apresentou metanálise que demonstram um efeito significativo dos probióticos, embora ainda exista controvérsia quanto as melhoras cepas, combinações e concentração a serem utilizadas. Os gêneros mais estudados são Bifidobacterium, Lactobacillus e Streptococcus. Segundo Prado, B. infantis, B. brevis e B. animalis seriam melhores para abordagem da constipação, desconforto e distensão. Por outro lado, L. acidophilus, L. casei, L. infantis, L. reuteri e L. rhamnosus seriam mais interessantes no tratamento da diarreia, dor e desconforto.

O Prof. Eduardo Usuy abordou brevemente o uso de probióticos nas doenças inflamatórias intestinais. Apresentou estudos demonstrando benefício do uso em algumas situações, como na bolsite. Nessa situação, a American Gastroenterology Association atesta que existe um benefício potencial tanto na prevenção do primeiro episódio, como na manutenção da remissão após tratamento da bolsite. A combinação mais estudada nesse caso é o VSL3®. Foram discutidos estudos em retocolite ulcerativa com Escherichia coli Nissle 1917 e Lactobacillus GG, além da combinação de Lactobacillus salivarius, L. acidophilus, B. bifidum BGN4, com benefícios interessantes, mas ainda incipientes. Já na doença de Crohn, os trabalhos não suportam a eficácia clínica dos probióticos na indução ou manutenção da remissão. Destacou-se, ao final, o risco de bacteremia em pacientes imunossuprimidos tratados com probióticos.

A terceira palestra abordou o uso de probióticos nas doenças hepáticas. O Prof. Sérgio Pessoa demonstrou que existem diferenças entre microbiota de indivíduos saudáveis e hepatopatas. Caracterizou-se o papel do eixo intestino-fígado, em uma engrenagem complexa relacionada a inflamação e fibrose crônica. A disbiose foi associada a aumento na formação de metabólitos neurotrópicos, como a amônia, risco de translocação bacteriana, formação de lipopolissacárides, redução da formação de ácidos graxos de cadeia curta e desordens do metabolismo da bilirrubina. Novas estratégicas para tratamento de hepatopatias envolvem a manipulação da microbiota intestinal. Pessoa apresentou o aumento expressivo do número de publicações relacionadas ao tema na última década, especialmente aquelas relacionadas a doença hepática gordurosa não alcoólica e cirrose. Um interessante estudo observou grandes diferenças na composição da microbiota de pacientes com cirrose compensada e descompensada. O uso de probióticos como uma opção para tratamento e prevenção de encefalopatia hepática foi destacado, embora mais estudos sejam necessários. Um estudo com Saccharomyces boulardii demonstrou melhora de padrões hemodinâmicos na cirrose hepática, com redução de ascite, encefalopatia, bilirrubinas e aumento de plaquetas. Já o Lactobacillus GG foi capaz de reduzir a endotoxemia e níveis de TNF alfa em cirróticos. Pessoa apresentou ainda evidências de alteração na composição da microbiota intestinal em pacientes etilistas crônicos. Lactobacillus subtilis e Streptococcus faecium tiveram algum benefício na hepatite alcoólica, reduzindo LPS, TNF alfa e restaurando a microbiota. Já na doença hepática gordurosa não alcoólica uma das hipóteses discutidas foi o papel da microbiota na definição do fenótipo da doença. Uma metanálise apresentada observou melhora de transaminases em pacientes com esteatohepatite tratados com probióticos. Em outro estudo, a combinação de Bifidobacterium, Lactobacillus, Lactococcus e Propionibacterium reduziu o índice de gordura hepática e aminotransferases, além de modular a produção de citocinas. Por fim, o Pessoa concluiu que benefícios do uso de probióticos têm sido demonstrados em doenças hepáticas, embora existam ainda poucos ensaios clínicos sobre o tema.

A última palestra dessa mesa foi ministrada pelo Dr. Eduardo Antônio André e abordou o tema “Probióticos na Neoplasia de Cólon”. A neoplasia colorretal é a terceira mais diagnosticada no mundo e a quarta causa de óbitos por câncer. Cerca de 15-20% dos cânceres se desenvolvem por agentes infecciosos específicos. A microbiota participa no componente multifatorial de risco para câncer ao alterar o metabolismo do hospedeiro, imunidade e proliferação celular. A inflamação crônica induzida por agentes microbianos é um fator de risco nos processos de início/progressão do câncer, invasão tumoral e metástases. Citocinas pró-inflamatórias liberadas aumentam o dano ao DNA epitelial, modificações epigenéticas regulatórias e instabilidade genética. Segundo Eduardo, a microbiota colônica compõe-se por bactérias (90%), Archea, vírus e eucariontes unicelulares. Predominam Bacteroidetes e Firmicutes, sendo Proteobacteria, Actinobacteria e Fusobacteria componentes menores. Firmicutes, Actinobacteria e Lachnospiraceae são detectados mais frequentemente em adenomas. Proteobacteria, Alcaligenaceae, Enterobacteriaceae e espécies de Sutterella são aumentadas no câncer colorretal, enquanto Oscillospira estão depletadas na transição adenoma:câncer colorretal precoce. Fusobacterium nucleatum parece exercer impacto no desenvolvimento da neoplasia colorretal. Estudo apresentado pelo Prof. Eduardo demonstrou que a combinação da detecção de F. nucleatum + teste imunoquímico fecal aumenta a sensibilidade de detecção da neoplasia para 92,3% versus 73,1%. Por fim, foram apresentados estudos do uso de probióticos no pós-operatório de ressecção do câncer colorretal, sendo que uma metanálise com 1831 pacientes observou redução da inflamação, infecções e tempo de antibioticoterapia.

Certamente, o palpitante tema probióticos terá lugar garantido no próximo Congresso, com novas evidências sendo geradas diariamente.





Autor: Guilherme Grossi Cançado
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 04/12/2022
Publicação Original: https://pebmed.com.br/sbad-2022-probioticos-e-as-diferentes-patologias-do-trato-gastrointestinal/

terça-feira, 15 de março de 2022

Infecções respiratórias: probióticos no tratamento e prevenção

As infecções respiratórias são quadros extremamente comuns, tanto na população pediátrica quanto em adultos. A pandemia da covid-19 trouxe novos reconhecimentos desses quadros como causadores de grande morbidade e mortalidade para a população. Os quadros infecciosos respiratórios trazem inúmeros prejuízos econômicos e financeiros, visto as altas taxas de hospitalizações, absenteísmo e custos para seu tratamento.

A grande variedade de agentes etiológicos e a limitada disponibilidade de vacinas para esses agentes gera um grande desafio preventivo na prática. Assim, formas adicionais de prevenção têm sido buscadas na literatura, com interesse da população geral acerca de evidências a esse respeito.


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Infecções respiratórias: o que são?

As infecções respiratórias consistem em síndromes clínicas caracterizadas pela invasão do trato respiratório, em qualquer parte, com produção de sinais e sintomas. Podem ocorrer tanto nas vias aéreas superiores, quando produzem os quadros de resfriado comum, rinites, sinusites, adenoidites, faringoamigdalites, epiglotites e laringites, quanto nas vias aéreas inferiores, onde causam as traqueítes, bronquiolites, tuberculose pulmonar e pneumonias. Em algumas situações, podem ser acometidas mais de uma parte das vias aéreas.

As infecções respiratórias são particularmente graves em alguns grupos, como crianças, idosos, portadores de doenças crônicas, grupos desfavorecidos socialmente e minorias étnicas. A maior parte dos quadros são causados por vírus, apesar de bactérias, fungos e parasitas também estarem envolvidos.

As infecções respiratórias de etiologia viral revestem-se de importância pelo seu alto contágio, com surgimento de surtos e epidemias associados, inclusive nos ambientes de creches e escolas. Geralmente, apresentam um caráter sazonal, com aumento dos casos nos períodos do outono e inverno. Porém, podem ocorrer em qualquer época do ano, como observado no último surto de influenza H3N2 observado em várias cidades brasileiras nos meses de dezembro de 2021 e janeiro de 2022.

Como a microbiota intestinal interfere nas infecções respiratórias?

A microbiota intestinal é composta por aproximadamente 104 bactérias de cerca de 1000 espécies diferentes. Os filos Firmicutes e Bacteroidetes formam cerca de 90% dessa microbiota. Chunxi et al (2020) ressaltam as semelhanças que as mucosas intestinal e respiratória apresentam: estrutura embrionária comum, funções estruturais e anatômicas semelhantes e colonização microbiana no início da vida ocorrendo de forma parecida. Assim, essas duas estruturas apresentam relações íntimas, reconhecidas como o eixo intestino-pulmonar (“Gut-lung axis”), com interações recíprocas que podem contribuir para suas funções.

Mudanças na microbiota intestinal não alteram apenas a função desse órgão, mas também podem causar desvios na função de vários outros órgãos. Diversos estudos têm sugerido que mudanças na microbiota intestinal estão associadas a doenças como alergias, doenças autoimunes, diabetes, obesidade e neoplasias, apesar dos mecanismos pelos quais essa relação ocorre ainda não estarem completamente compreendidos.

A microbiota intestinal tem sido reconhecida como tendo um papel relevante com relação à imunomodulação do hospedeiro, incluindo no que diz respeito ao trato respiratório. O papel exato da microbiota intestinal no trato respiratório ainda não é conhecido, mas mecanismos possíveis descritos na literatura sugerem que a regulação da população de células T, a produção de metabólitos da microbiota (como os ácidos graxos de cadeia curta), o desenvolvimento da tolerância imunológica, o aumento da produção de imunidade da mucosa (através do aumento da IgA) e a regulação da produção de citocinas estão envolvidas nessa relação.

Com relação ao papel da microbiota nas infecções respiratórias, diversos autores têm ressaltado a importância dessas relações. Chaux et al (2020) descrevem que a microbiota intestinal beneficia a mucosa respiratória através do estímulo à sua imunidade de mucosa e ao aumento da proteção contra infecções respiratórias, à distância, através da modulação da resposta imune do hospedeiro. Estudos têm observado a diferença da microbiota intestinal em pacientes com determinadas infecções respiratórias (vírus sincicial respiratório, influenza e tuberculose) quando comparados a pacientes sadios.

A desregulação da microbiota intestinal pode gerar um desbalanceamento da resposta imune contra vírus e bactérias, conforme apontam Shahbazi et al (2020). Os mesmos autores esclarecem que a microbiota intestinal está associada à sinalização pela via dos interferons, que são cruciais para a resposta contra infecções virais. Essa modulação pode também ocorrer no trato respiratório, através da migração de células imunológicas da mucosa gastrointestinal para o trato respiratório. Além disso, a microbiota intestinal esteve associada tanto à regulação da imunidade inata quanto da imunidade adquirida.

Avaliação do uso de probióticos na prevenção e tratamento das infecções respiratórias

Segundo Suez et al (2019), os probióticos podem ser definidos como “microrganismos vivos que conferem benefícios na saúde quando consumidos em quantidades adequadas”. Geralmente, são compostos por cepas das espécies Lactobacillus, Bifidobacterium ou Saccharomyces. Os probióticos têm sido implicados no tratamento da disbiose, que é um desbalanço na população microbiana comensal que pode comprometer a função da mucosa intestinal. O uso dos probióticos apresenta o potencial de manter a barreira de mucosa intestinal e exercer atividade imunomodulatória, através da prevenção ou tratamento da disbiose.

O uso de probióticos como forma de prevenção e tratamento das infecções respiratórias tem sido levantado na literatura, baseado nos achados de que a microbiota intestinal apresenta um papel fundamental na imunomodulação do sistema respiratório, afetando sua capacidade de defesa contra agentes invasores. A ideia do uso dos probióticos para a melhora dos quadros de infecções respiratórias é que, ao se melhorar a microbiota intestinal, é possível realizar um melhor ajuste dos mecanismos de proteção da via respiratória. Por exemplo, o uso de probióticos em ratos foi associado ao aumento da produção de diversas citocinas (incluindo o TNF-alfa e o IFN-gama) a nível de mucosa respiratória em um estudo experimental.

Suez et al (2019) relatam que diversas metanálises e revisões sistemáticas sugerem que os probióticos podem ser eficazes em reduzir a gravidade, duração e incidência de infecções respiratórias em crianças e adultos, apesar da baixa evidência desses estudos.

Uma revisão de 2018 (Robinson et al, 2018) encontrou estudos randomizados nos quais o uso de probióticos, especialmente de cepas do Lactobacillus rhamnosus, esteve associado, com relevância estatisticamente significativa, à redução de pneumonia associada à ventilação mecânica. Já a metanálise realizada por Long et al (2017) encontrou redução nas taxas de infecção respiratórias superiores, redução de absenteísmo escolar e redução do uso de antibióticos associado a infecções respiratórias com o uso de probióticos, apesar das qualidades das evidências também ser baixa.

Uma revisão sistemática brasileira (Araujo et al, 2015) encontrou resultados que sugerem que o uso de probióticos está relacionado com a redução de novos episódios de infecções respiratórias, principalmente em pacientes com história clínica de infecções respiratórias de repetição.

Apesar disso, geralmente os estudos indicativos do benefício do uso dos probióticos em infecções respiratórias são baseados em estudos in vitro ou com metodologias inadequadas. Os que são baseados em metodologias apropriadas, como estudos duplo-cego, controlados por placebo, frequentemente apresentam resultados contraditórios. Os mecanismos de benefício dos probióticos na prevenção de doenças respiratórias ainda não são completamente compreendidos, e ainda não está claro se os custos relacionados com o uso de probióticos justificam o uso deles para fins de prevenção e tratamento de infecções respiratórias.

Por ora, apesar de poucas orientações clínicas disponíveis, há uma crescente tendência de estudar e aplicar na prática o uso dos probióticos na prevenção e no tratamento adjuvante das doenças infecciosas respiratórias. Diversos estudos já destacam a importância da modulação da microbiota através do uso dos probióticos como um mecanismo promissor no controle dos processos inflamatórios. Apesar disso, há a necessidade de mais testes clínicos randomizados, além do estabelecimento de protocolos padronizados para uso clínico, para que a aplicabilidade clínica seja feita de forma segura e eficaz.





Autor: Dolores Henriques
Fonte: PEBMED
Sítio Online da Publicação: PEBMED
Data: 15/03/2022
Publicação Original: https://pebmed.com.br/infeccoes-respiratorias-probioticos-no-tratamento-e-prevencao/

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Diarreia do viajante no pós-pandemia: abordagem clínica e probióticos

A Organização Mundial do Turismo calcula que, devido à pandemia de Covid-19, as viagens internacionais registraram uma queda de 700 milhões de turistas no mundo, apenas no ano de 2020. No Brasil, o número de viagens também foi reduzido drasticamente desde o início da Pandemia em março de 2020. Porém, com a crescente imunização da população, vários destinos já estão disponíveis para serem visitados, o que certamente levará a um aumento do trânsito de turistas. É justamente neste momento devemos estar atentos ao retorno dos casos de diarreia do viajante, a qual apresenta uma incidência estimada em 10-40% dependendo do destino. 

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O que é diarreia do viajante? 

É a diarreia (≥3 evacuações de fezes não formadas em 24 horas), acompanhada por, pelo menos, um dos seguintes sintomas: febre, náuseas, vômitos, cólicas abdominais, tenesmo ou disenteria, que ocorre durante uma viagem ou até 10 dias após o regresso à cidade de origem. Pode ser causada por parasitas, vírus ou bactérias, sendo as últimas as mais frequentes, representando até 80-90% dos casos.  Os patógenos mais prevalentes são Escherichia coli enterotoxigênica e enteroagregativa, seguida por Campylobacter jejuni e Shigella spp. Já a Giardia lamblia, por outro lado, é o principal patógeno protozoário. Os destinos que oferecem maior risco são: Américas do Sul e Central, África, México e Oriente Médio.  

Principais agentes etiológicos da diarreia do Viajante na América Latina e Caribe




Como diagnosticar esta diarreia? 

Em geral, o diagnóstico é fornecido pelo histórico do próprio paciente, que está viajando ou acaba de retornar de algum destino, em geral com baixa condição econômica. Os fatores de maior risco são: falta de saneamento, de água potável ou queda frequente de energia elétrica, interferindo no adequado armazenamento de alimentos. Outros fatores de riscos relatados na literatura e que devem ser observados são: pacientes que já apresentaram diarreia do viajante e jovens até 30 anos. Na maioria dos casos não é necessária a realização de exames, como parasitológico de fezes, coprocultura ou mesmo reação em cadeia da polimerase (PCR). O quadro é autolimitado, e , geralmente, o viajante não procura assistência médica. 

 Classificação de gravidade da diarreia do viajante:

Como tratar a diarreia do viajante? 

O mais importante é a reidratação do paciente. Agentes antimotilidade proporcionam alívio sintomático e poderão ser úteis no tratamento. A loperamida pode ser usada em adultos e crianças, exceto se houver disenteria.  

Nas etiologias bacterianas, os antibióticos são eficazes na redução da duração da diarreia em cerca de um dia.  O tratamento com antibióticos não é recomendado em pacientes com diarreia do viajante leve, mas está indicado nos casos graves. Exemplos de antibióticos a serem prescritos: fluoroquinolonas, azitromicina e  rifaximina. 

Nos casos em que a diarreia já está estabelecida, os probióticos (“organismos vivos que, quando consumidos em quantidades adequadas, trazem benefício a saúde do hospedeiro”) reduzem a duração dos sintomas. Bae realizou metanálise que incluiu onze artigos que teve como objetivo avaliar a eficácia dos probióticos e concluiu que os probióticos mostraram eficácia estatisticamente significativa na prevenção da diarreia do viajante. Estudos demonstraram que o Lactobacillus rhamnosus GG (LGG®) protege contra esse tipo de diarreia quando comparado ao placebo. O benefício da administração de LGG® é maior em pacientes com história prévia de diarreia do viajante. Essas pesquisas indicaram que colonizar o intestino com LGG® antes e durante a viagem pode reduzir a incidência de diarreia do viajante. Outros trabalhos demonstram ainda que o LGG® atua contra a bactéria E. coli, por meio da redução de toxina Shiga, inibição de adesão, proteção contra lesões de junções firmes e modulação imune.  

Como prevenir a diarreia? 

Escolha adequadamente o que for alimentar, evite alimentos in natura, frutos do mar, beba apenas água mineral engarrafada e use-a para escovar os dentes. Procure lavar as mãos com água e sabão frequentemente ou use álcool gel (≥60% de álcool) se não for possível lavá-las, especialmente após uso de sanitários ou antes de preparar alimentos. Não há vacinas disponíveis para a maioria dos patógenos. 

Estudo no México mostrou que o subsalicilato de bismuto pode reduzir em até 50% o risco de diarreia do viajante. O uso profilático de antibióticos deve ser avaliado com cautela devido ao risco de resistência bacteriana. 

Segundo o CDC, o uso de probióticos, como Lactobacillus GG e Saccharomyces boulardii pode ser avaliado individualmente (em especial nos grupos de risco), mas ainda não está indicado de rotina para todos os viajantes.  




Autor: Larissa Pires Marquite da Silva.
Fonte: pebmed
Sítio Online da Publicação: pebmed
Data: 10/12/2021
Publicação Original: https://pebmed.com.br/diarreia-do-viajante-no-pos-pandemia-abordagem-clinica-e-probioticos/

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Candidíase de repetição: uso de probióticos como terapia complementar




A candidíase é uma infecção fúngica altamente prevalente, causada por espécies do gênero Candida. Esse fungo faz parte da microbiota da pele e das mucosas, incluindo o trato gastrointestinal e a vagina. Entretanto, quando há disbiose, pode se tornar patogênico. O tratamento mais utilizado atualmente são os derivados azólicos, todavia, o índice de reincidência da infecção tem sido elevado. Dessa forma, o uso de probióticos associados ou não à terapia convencional pode ser uma opção para o tratamento da candidíase, considerando a importância da manutenção da microbiota intestinal no combate a infecções oportunistas.

A candidíase é a segunda vaginite mais frequente, acometendo 75% das mulheres em idade reprodutiva. Estima-se que cerca de 150 milhões de mulheres em todo o mundo são afetadas pela candidíase vulvovaginal de repetição, caracterizada por quatro ou mais episódios sintomáticos em um ano. A Candida albicans é responsável por 90% dos casos e a Candida glabrata está mais associada a episódios de recorrência. Os sintomas típicos da infecção são: corrimento vaginal brancacento, prurido intenso, dispareunia e disúria.


O uso dos derivados azólicos no tratamento da candidíase tem sido questionado devido à sua toxicidade, à baixa efetividade no combate ao patógeno e ao risco do surgimento de cepas resistentes. Os efeitos colaterais, tais como náuseas, vômitos e diarreia, contribuem para a baixa adesão ao tratamento. Além disso, o surgimento de cepas resistentes está associado à incapacidade de penetração do medicamento nos biofilmes da Candida, o que reduz a efetividade do tratamento.

A microbiota intestinal impacta diretamente na saúde urogenital feminina e no sistema imunológico. Isso porque, a principal forma de transmissão da candidíase é endógena; o fungo é translocado do intestino para a vagina através da região perianal e permanece como colonizador até que se estabeleçam as condições favoráveis ao desenvolvimento da doença, como a diminuição do pH vaginal, a baixa imunidade ou o uso de antibióticos de largo espectro.


Além disso, a microbiota intestinal fornece uma linha de defesa contra patógenos oportunistas, contribuindo para a modulação da imunidade (Figura 1).

Figura 1 – Mecanismos diretos e indiretos pelos quais a microbiota intestinal previne o estabelecimento de infecções oportunistas. A) Competição por nutrientes e sítios de adesão no epitélio intestinal, impedindo a adesão de patógenos. B) Produção de biosurfactantes, moléculas que diminuem a tensão superficial, impedindo a adesão microbiana às superfícies celulares e provocando o descolamento das células já aderidas. C) Produção de exometabólitos, como o ácido lático, peróxido e hidrogênio e bacteriocinas, que causam morte celular ou neutralização de toxinas microbianas. D) Modulação do sistema imune, a partir do aumento de citocinas anti-inflamatórias. E) Regulação funcional das junções de oclusão, o que limita o acesso de patógenos à circulação sistêmica. Fonte: produção do autor.

Dessa forma, uma disbiose intestinal aumenta a susceptibilidade a candidíase de repetição


Figura 2 — Influência da disbiose na candidíase vulvovaginal de repetição. Fonte: produção do autor.

Estudos mostram que o uso de probióticos tem sido eficaz no tratamento da candidíase de repetição, visto que os Lactobacillus, principais bactérias probióticas, corrigem a disbiose, impedem a formação de biofilmes da Candida e estimulam a resposta de macrófagos, de forma a minimizar processos inflamatórios.

A inflamação é essencial para a Candida evoluir de levedura para hifa, forma responsável pela patogenicidade. Sendo assim, a redução da resposta inflamatória impossibilita essa mudança morfológica, quebrando o ciclo vicioso entre inflamação, transição levedura-hifa e estabelecimento da candidíase (Figura 3).


Figura 3 – Mecanismos de ação dos Lactobacillus sp. especificamente contra a Candida albicans. Fonte: produção do autor.

Os estudos científicos comprovam que há espaço para o uso de probióticos no tratamento da candidíase vulvovaginal de repetição, principalmente se associados a terapia convencional, considerando a importância do equilíbrio da microbiota e da ação dos Lactobacillus sp. contra a Candida. Entretanto, essa opção terapêutica ainda é pouco utilizada, logo, difundi-la no meio acadêmico é de suma importância para a maior eficácia no tratamento das pacientes.




Autor: Vera Lucia Angelo Andrade
Fonte: PebMed
Sítio Online da Publicação: PebMed
Data: 07/10/2019
Publicação Original: https://pebmed.com.br/candidiase-de-repeticao-uso-de-probioticos-como-terapia-complementar/