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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Porto Livre reúne obras gratuitas sobre saúde dos povos indígenas

A desassistência sanitária e nutricional que atinge os povos indígenas do território Yanomami levou o Ministério da Saúde (MS) a declarar a situação como Emergência em Saúde Pública de importância nacional. Nas últimas semanas, o país tem acompanhado uma série de medidas humanitárias em apoio a indígenas Yanomamis em situação de extrema vulnerabilidade. A Fiocruz anunciou, em 23/1, a instalação de uma Sala de Situação para articular possíveis ações de apoio ao MS e à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) frente à emergência sanitária.

Tema de profunda relevância na agenda pública do país, a saúde dos povos indígenas tem ampla circulação nas pesquisas e nos espaços de produção de conhecimento da Fiocruz. Na plataforma Porto Livre, portal de livros em acesso aberto coordenado pelo Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict/Fiocruz), 15 obras estão disponíveis para download gratuito sobre o tema. São livros que transitam sobre as mais diversas questões de saúde relacionadas aos povos originários. Questões que dialogam diretamente com o cenário enfrentado pelos Yanomamis: vigilância alimentar e nutricional; direito sanitário; vulnerabilidade; cenários epidemiológicos; medicinas e tradições indígenas etc.

Do total de obras disponíveis, sete integram a coleção Saúde dos Povos Indígenas da Editora Fiocruz. Dedicada a publicar estudos originais sobre as mais diversas facetas do processo saúde-doença dos povos indígenas, a coleção pretende contribuir para a construção de enfoques teóricos inovadores. Os títulos em acesso aberto na Porto Livre são:

- Demografia dos Povos Indígenas no Brasil
- Entre Demografia e Antropologia: povos indígenas no Brasil
- Medicinas Indígenas e as Políticas da Tradição: entre discursos oficiais e vozes indígenas
- Políticas Antes da Política de Saúde Indígena
- Processos de Alcoolização Indígena no Brasil: perspectivas plurais
- Saúde Indígena em Perspectiva: explorando suas matrizes históricas e ideológicas
- Transformação e Persistência: antropologia da alimentação e nutrição em uma sociedade indígena amazônica

Outros cinco títulos da Editora Fiocruz fazem parte da lista disponível na Porto Livre. O mais recente é Vozes Indígenas na Saúde: trajetórias, memórias e protagonismos, publicado em 2022, em coedição com a plataforma editorial Piseagrama. A coletânea reúne relatos de 13 lideranças acerca de suas trajetórias de vida e de atuação no movimento indígena, com ênfase no campo da saúde.

Publicado em 2021, o e-book Covid-19 no Brasil: cenários epidemiológicos e vigilância em saúde também faz parte da lista. Apesar de não ser uma publicação exclusivamente dedicada à saúde indígena, o volume apresenta um importante capítulo intitulado Vulnerabilidade das populações indígenas à pandemia de Covid19 no Brasil e os desafios para o seu monitoramento. Parceria entre o Observatório Covid-19 Fiocruz e a Editora Fiocruz, a obra apresenta um diagnóstico detalhado da evolução da pandemia no país. Lançado como parte da série Informação para Ação na Covid-19, o e-book recebeu importantes reconhecimentos: foi um dos 10 finalistas da categoria Ciências do 64º Prêmio Jabuti, maior premiação literária do país, e conquistou o 3º lugar na categoria Ciências da Vida do 8º Prêmio Abeu, concedido pela Associação Brasileira das Editoras Universitárias.

Atenção Diferenciada: a formação técnica de agentes indígenas de saúde do Alto Rio Negro, lançado em 2019, integra a coleção Fazer Saúde. O livro apresenta as contribuições do Curso Técnico de Agentes Comunitários Indígenas de Saúde (CTACIS) na região do Alto Rio Negro, no Amazonas. Com a proposta de melhorar os serviços de saúde nas comunidades indígenas, o curso foi desenhado como uma estratégia multidisciplinar por diversos atores e implementado de acordo com as realidades locais.

Lançados em 2007 e 2008, em coedição com a Educação à Distância da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (EAD/Ensp/Fiocruz), os livros Vigilância Alimentar e Nutricional para a Saúde Indígena, volume I e Vigilância Alimentar e Nutricional para a Saúde Indígena, volume II levantam relevantes contribuições para a consolidação da vigilância alimentar e nutricional no âmbito da saúde indígena, com destaque para a importância e os desafios da diversidade étnica brasileira.

Outros três livros completam a lista de saúde indígena em acesso aberto na Porto Livre:

- Pohã Ñana: nãnombarete, tekoha, guarani ha kaiowá arandu rehegua ou Plantas medicinais: fortalecimento, território e memória guarani e kaiowá (Fiocruz Pernambuco, 2020)

- Equidade Étnicorracial no SUS: pesquisas, reflexões e ações em saúde da população negra e dos povos indígenas (Rede Unida, 2018)

- O direito sanitário na sociedade de risco: a política nacional de atenção à saúde dos Povos Indígenas (Editora Fi, 2017)

Arca e VideoSaúde também contemplam produções sobre o tema

Outras plataformas vinculadas ao Icict que também apresentam uma série de obras em acesso aberto relacionadas à saúde indígena são o Arca, repositório institucional da Fiocruz, e a VideoSaúde Distribuidora. No repositório, são centenas de trabalhos desenvolvidos pela comunidade Fiocruz, que incluem livros, teses, manuais, dissertações, artigos e vídeos.


Já a VideoSaúde, responsável por produzir, distribuir e preservar material audiovisual sobre saúde, ciência e tecnologia, também dispõe de uma área temática com produções sobre saúde indígena. São seis documentários sobre o tema, produzidos no período de 2005 a 2020. As obras podem ser assistidas gratuitamente na plataforma da VideoSaúde e os vídeos podem ser baixados no Arca. Os documentários também podem ser adquiridos pela Livraria Virtual da Editora Fiocruz, que disponibiliza - em formato DVD - as produções do Selo Fiocruz Vídeo.













Autor: Icict/Fiocruz
Fonte: fiocruz
Sítio Online da Publicação: fiocruz
Data: 31/01/2023
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/porto-livre-reune-obras-gratuitas-sobre-saude-dos-povos-indigenas

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Sobre a importância de proteger a terra sagrada para as comunidades nativas

“As árvores são preciosas para nós”, diz Priscilla Hunter. “Acreditamos que os espíritos de nossos ancestrais estão lá.”

Hunter é um membro do Coyote Valley Band of Pomo Indians no norte da Califórnia. Ela também é fundadora e presidente do InterTribal Sinkyone Wilderness Council (e a pessoa que detém a equipe na foto acima).



Em 1997, o conselho adquiriu 3.844 acres da região selvagem de Sinkyone, cerca de 320 quilômetros ao norte de São Francisco, ao longo da Costa Perdida da Califórnia. Está “perdida” porque a cênica Highway 1 a evita, cortando o interior para evitar o terreno costeiro acidentado. Pode-se também dizer que está perdido porque menos de 2% das sequoias antigas originais sobreviveram à extração de madeira décadas atrás. Agora, as 10 tribos que formaram o consórcio estão trabalhando para proteger e preservar sua terra sagrada. Perguntei a Hunter como eles estão conseguindo isso.

“Estamos apenas deixando curar. Leva muito tempo para curar uma área que foi cortada e cortada”, ela me disse. “As pessoas estão dizendo: 'O que vocês estão fazendo com isso?' Deixando curar. 'Como vocês estão lidando com isso?' Deixando curar."

Seus esforços ganharam atenção.

Em dezembro passado, a Save the Redwoods League, um grupo sem fins lucrativos estabelecido na área, deu ao conselho mais 523 acres de floresta costeira da Califórnia. Designado como Tc'ih-Léh-Dûñ - que significa "lugar de pesca" na língua Sinkyone - a terra inclui quase 200 acres de sequoias antigas.

“Ficamos muito satisfeitos por ter um lugar que ainda tem algumas das árvores antigas”, diz Hunter. “Vai salvar algumas árvores. Assim, as criaturas terão um lugar seguro – os peixes, os pássaros e tudo mais.”

O conselho de Sinkyone é apenas um exemplo de como os povos indígenas, em comunidades nos Estados Unidos e Canadá, estão assumindo o controle de suas terras, leis e destino.

A matéria de capa deste mês, “We Are Here”, explora como as nações nativas estão reivindicando sua soberania e reconstruindo suas culturas.

Obrigado por ler a National Geographic.




Autor: DAVID BRINDLEY, INTERIM EDITOR IN CHIEF
Fonte: nationalgeographic
Sítio Online da Publicação: nationalgeographic
Data: 14/06/2022
Publicação Original: https://www.nationalgeographic.com/culture/article/on-the-importance-of-protecting-land-sacred-to-native-communities?cmpid=org=ngp::mc=social::src=twitter::cmp=editorial::add=tw20220614ngm-editorsletterminitwthread&linkId=169296162

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Genética ajuda a demonstrar colapso populacional de povos indígenas no Brasil após chegada de europeus

A história das ameaças de extermínio dos povos indígenas, que na América Latina permeia o passado e segue de outras formas no presente, também pode ser contada com ajuda das ciências genômicas. As estimativas de um estudo genético inédito sugerem que houve um colapso populacional de indígenas desde o período da invasão europeia à América do Sul. A maior redução aconteceu entre os Tupis (98.99%), seguida dos Andinos (95.6%) e os Jês (83,1%). Os povos da costa do Oceano Pacífico (Chile, Peru, Equador e Colômbia) sofreram redução em torno de 60%.

O estudo se baseou em dados genômicos coletados de 383 nativos de 58 grupos diferentes que habitavam o Brasil (região amazônica, o sul do Brasil e costa brasileira) e outras regiões da América Latina (México, Bolívia, Colômbia, Equador e Peru – costa do Pacífico), contidos em um banco de dados produzidos pelos pesquisadores da USP e bancos públicos. Um artigo descrevendo a pesquisa, intitulado Population Histories and Genomic Diversity of South American Natives, foi publicado no periódico Oxford Academic Molecular Biology and Evolution no último dia 7. O primeiro autor é o biólogo e pesquisador Marcos Araújo Castro e Silva, orientando da professora Tábita Hunemeier, do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva, do Instituto de Biociências (IB) da USP.


A maior redução aconteceu entre os Tupis (98.99%), seguida dos Andinos (95.6%) e os Jês (83,1%) – Foto: USP Imagens


Dizimação dos índios brasileiros


Tábita Hunemeier, coordenadora do grupo de pesquisa. Professora/pesquisadora do Instituto de Biociências da USP – Foto: Arquivo pessoal

Analisando a herança genética que esses povos deixaram na população atual, é possível reconstruir a história demográfica dos nativos, diz Tábita. Segundo a pesquisadora, no decorrer do estudo da diversidade genética dos antepassados indígenas, os pesquisadores se surpreendiam com os números que iam sendo compilados com relação ao declínio populacional indígena no Brasil. A violência dos colonizadores, sobretudo na época das expedições bandeirantes, dizimou cerca de 99% dos indígenas da costa brasileira e 83% da região central do País, relata.

A sociedade indígena foi desestabilizada com a chegada dos europeus. Eles tinham um modo de vida que foi totalmente corrompido pelas expedições exploratórias. “Os bandeirantes eram homens extremamente rudes, violentos e ambiciosos. Há relatos de que, nas primeiras décadas do século 17, eles mataram ou escravizaram milhares de indígenas, assassinados em confrontos ou tornados vítimas das péssimas condições de vida, pela fome e pelas doenças inseridas na comunidade pelos colonizadores europeus”, diz ela.

Com relação à população amazônica, a pesquisadora relata que era bem numerosa. Há cerca de mil anos, somente os índios pertencentes ao tronco Tupi (tamoios, guaranis, tupiniquins, tabajaras, entre outros) eram estimados entre um e cinco milhões de pessoas. No Brasil, por volta do ano de 1500, as estimativas baseadas em dados históricos eram de aproximadamente 3 milhões, sendo que um terço desses habitava a costa brasileira. Atualmente, o último censo demográfico brasileiro (2010) notificou um número de 800 mil indígenas em todo o território brasileiro, sobretudo na Amazônia. “Como o censo é de 2010, provavelmente esse número está bem abaixo, talvez próximo da metade”, lamenta a professora.

Nos períodos anteriores à colonização, por não haver relatos escritos, a história do Brasil só pode ser acessada por meio da arqueologia, de relatos etnográficos, da botânica e agora pela genética. “Todos esses conhecimentos integrados trazem uma visão mais completa do que aconteceu naquela época”, diz Tábita.

Demografia: ancestralidade genética



Marcos Araújo Castro e Silva, autor da pesquisa e orientando da professora Tábita Hunemeier – Foto: Arquivo pessoal

Castro explicou ao Jornal da USP como foi possível resgatar as informações demográficas do passado e trazê-las para o presente, ou seja, como usar a genética para estimar essa drástica redução populacional entre os indígenas na América do Sul. Segundo o pesquisador, “por meio do estudo dos dados genômicos de populações nativas contemporâneas é possível inferir a diversidade genética de seus ancestrais a cada geração no passado”, diz.

A metodologia da pesquisa consistiu na identificação de sequências idênticas do genoma entre indivíduos de uma mesma população, que são os chamados segmentos idênticos por descendência, ou seja, são idênticos por terem sido herdados de um ancestral comum. Tais segmentos idênticos aumentam em frequência na população em períodos nos quais o tamanho da população é pequeno (muitos indivíduos descendentes dos mesmos ancestrais), resultando em diminuição da diversidade genética da população, explica Castro.

Segundo Tábita, atualmente a variabilidade genética dos indígenas (que é uma fração da variabilidade genética do passado) tem sido muito pequena. Por meio do estudo dessa variabilidade genética atual é possível quantificar a diversidade genética de uma população em um determinado período, com base no número de sequências idênticas que foram formadas no passado.

Outro conceito importante para entender essa inferência, diz o pesquisador, é a recombinação genética, que é aleatória e reduz o comprimento dessas sequências idênticas entre indivíduos na população em um ritmo previsível ao longo das gerações. Desse modo, a partir do comprimento de um segmento idêntico por descendência é possível deduzir quando ele foi formado no passado. Assim, de acordo com o número de segmentos idênticos por descendência em cada faixa de comprimento, é possível inferir qual seria o tamanho (número de indivíduos) da população no período em que aqueles segmentos foram formados, isto porque em populações menores espera-se que o número de segmentos idênticos formados seja maior e vice-versa.

Como exemplo, Castro explica que segmentos com comprimento de aproximadamente 8.4 cM (centimorgan é uma medida de distância genética) foram formados aproximadamente há 18 gerações (500 anos atrás considerando um tempo de geração de 28 anos), e portanto é possível inferir o tamanho da população nessa época de acordo com o número de segmentos idênticos por descendência com esse comprimento identificados na população, conclui.

Mais informações: hunemeier@gmail.com, com Tábita Hunemeier, e marcosaraujocastro@gmail.com, com Marcos Araújo Castro e Silva








Autor: Ivanir Ferreira
Fonte: jornal.usp
Sítio Online da Publicação: jornal.usp
Data: 09/12/2021
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/genetica-ajuda-a-demonstrar-colapso-populacional-de-povos-indigenas-no-brasil-apos-chegada-de-europeus/

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Para os povos indígenas isolados, o genocídio não é apenas uma possibilidade distante, mas um risco iminente que cresce com o avanço da covid-19 e com a presença impune de invasores nos territórios indígenas

O impacto das altas temperaturas nas hospitalizações por doenças cardiovasculares aumentou nas últimas duas décadas em Queensland, na Austrália, de acordo com um novo estudo publicado esta semana na PLOS Medicine por Shanshan Li e Yuming Guo da Monash University, Austrália, e colegas.

O aparecimento de um grupo de indígenas isolados no entorno da Terra Indígena (TI) Uru-Eu-Wau-Wau, numa área habitada por colonos, no município de Seringueiras, em Rondônia, no dia 19 de junho de 2020, é mais um registro da movimentação desses povos em distintos lugares da Amazônia. Os deslocamentos desses grupos, se expondo ao risco do contato com não indígenas – que por si só já representa uma grande ameaça a sua sobrevivência – evidencia algo ainda mais grave, nesses tempos de pandemia da covid-19: a invasão de seus territórios.

É crescente o número de invasores nos territórios habitados por indígenas isolados. Na TI Uru-Eu-Wau-Wau, o desmatamento promovido por invasores duplicou de 2018 para cá. Em abril deste ano, um professor e agente ambiental Uru-Eu-Wau-Wau, empenhado em ações de vigilância, foi brutalmente assassinado. Essa terra indígena é alvo da ação de madeireiros, grileiros e garimpeiros. Possivelmente, a movimentação dos indígenas isolados ocorre porque eles estão em expedições de reconhecimento para encontrar um ambiente mais seguro para viver.

Situação semelhante ocorre nas TIs Yanomami, nos estados de Roraima e Amazonas; Vale do Javari, no Amazonas; Arariboia, no Maranhão; Mamoadate, no Acre; e Munduruku, Kayapó e Ituna-Itaitá, no Pará, onde vivem perto de 30 povos isolados. Nestes territórios, enquanto exploram ilegal e impunemente madeira e minérios, os invasores desmatam, poluem os rios e igarapés, matam ou afugentam a caça e os peixes e atentam diretamente contra a vida dos povos indígenas. E, pela possibilidade de transmissão da covid-19, representam um risco potencial de genocídio desses povos.

Mesmo diante do enorme risco que milhares de invasores em terras indígenas representam para os povos isolados devido à covid-19, nenhum plano de desintrusão ou protocolo específico de prevenção foi implementado pelo governo.

As esporádicas operações da Polícia Federal, Ibama e Funai já não mais intimidam os infratores. Sabem que não existe determinação e firmeza, mas condescendência do governo no combate aos crimes ambientais e à violação dos direitos indígenas. A sinalização do governo Bolsonaro de que os ilícitos praticados nas terras públicas protegidas serão tolerados fica evidente na declaração do Presidente da República de que não demarcará nenhuma terra indígena; na intenção manifesta do Ministro do Meio Ambiente de aproveitar a pandemia para “passar a boiada” (desconstruir as cautelas previstas na legislação de proteção ambiental); na exoneração de servidores públicos no cumprimento do dever em operações de repressão a crimes ambientais; e na Instrução Normativa 09 do presidente da Funai, que pretende regularizar o esbulho das terras indígenas.

O governo adota a política da omissão planejada do seu dever constitucional de demarcar e proteger as terras indígenas, para que estas sejam usurpadas e privatizadas por terceiros. No caso dos povos isolados, a usurpação de seus territórios passa, se não pelo genocídio, pela promoção do contato forçado, ao encargo de um pastor fundamentalista nomeado para a chefia da Coordenação Geral dos Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) da Funai. Essa antipolítica indigenista tem na sua raiz uma ideologia autoritária, racista e de ódio à diversidade de pensamento, de povos, de organizações sociais, de crenças e de saberes. Uma ideologia que visa anular e exterminar tudo e todos que colocam limites à voracidade do mercado e à liberdade individual daqueles que se consideram os escolhidos.

Nesse ambiente político perverso e doentio, o genocídio não é apenas uma possibilidade distante, mas um risco iminente que cresce assustadoramente com o avanço da covid-19 nos territórios indígenas e com a antipolítica indigenista que define os povos indígenas como o inimigo a ser eliminado.

Julho/2020

Conselho Indigenista Missionário – Cimi

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/07/2020





Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 22/07/2020
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2020/07/22/a-ameaca-de-genocidio-que-paira-sobre-os-povos-indigenas-isolados-no-brasil/

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Eventos destacam cultura, direitos e a saúde dos povos indígenas

Na quarta-feira, dia 27 de novembro, o Grupo de Pesquisa Ambiente, Diversidade e Saúde, do departamento de Endemias Samuel Pessoa da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), promoverá duas atividades para divulgar a cultura, os direitos e a saúde dos povos indígenas do Brasil. A primeira delas, marcada para 9h, na Tenda da Ciência, exibirá o documentário Mboraihu: O espírito que nos une. Mais tarde, às 14h, o debate continuará no Ceensp O bem viver e a resiliência dos povos indígenas no cuidado com a Amazônia, no auditório térreo da Ensp. As atividades são abertas aos interessados.

A exibição do documentário, na Tenda da Ciência Virgínia Schall, receberá Ismael Morel, da Associação Jovens Indígenas Guarani-Kaiowá em Ação, Islândia Carvalho, da Fiocruz Pernambuco, Ida Kolte, da St George’s University of London, e Davilson Brasileiro, da Base Um Produções. O evento será coordenado por Paulo Basta, da Ensp. No encontro, também haverá uma roda de conversa e apresentação cultural do grupo Arandu, do Povo Guarani-Kaiowá.

Às 14h, o Ceensp contará com participação da Iolanda Peraira da Silva, do Povo Macuxi; Michel Oliveira Baré Tikuna, do Povo Baré e Tikuna; do procurador da república Marco Antônio Delfino de Almeida e do coordenador do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental, Marcos Wesley de Oliveira.



Atividades nos dias 28 e 29/11

Na quinta-feira, dia 28/11, a Feira Agroecológica Josué de Castro receberá o Grupo de dança Arandu, que apresentará O canto da resistência Guarani-kaiowá. Na sexta-feira, 29/11, haverá exibição do filme Mboraihu no Museu do Índio da Funai pela manhã e, às 16h, uma apresentação do grupo Arandu nos jardins do Museu da República.




Autor: Ensp/Fiocruz
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 26/11/2019
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/eventos-destacam-cultura-direitos-e-saude-dos-povos-indigenas

quarta-feira, 7 de março de 2018

Povos indígenas da Amazônia caçam animais que se alimentam em áreas contaminadas com hidrocarbonetos e metais pesados

Um estudo da ICTA-UAB e do Departamento de Saúde Animal e Anatomia da UAB demonstra que as principais espécies caçadas pelas populações indígenas da Amazônia peruana ingerem água e solo contaminados com hidrocarbonetos e metais pesados.



CRÉDITOS: ICTA-UAB i Federació Indígena Quechua del Pastaza


O projeto criou uma plataforma de ciência cidadã na qual os cidadãos podem visualizar vídeos gravados em áreas contaminadas da Amazônia para poderem reconhecer as espécies afetadas e seus comportamentos.

Os animais selvagens caçados pelos indígenas da floresta amazônica bebem água e comem solo contaminado pela indústria de extração de petróleo, de acordo com uma pesquisa do Instituto de Ciência e Tecnologia do Meio Ambiente da Universitat Autònoma de Barcelona (ICTA-UAB) o Departamento de Saúde Animal e Anatomia da UAB, o Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal) e o Instituto Internacional de Estudos Sociais (ISS-EUR). A pesquisa, que pela primeira vez revela imagens de como os animais bebem água e comem solo (geofagia) contaminados por derramamentos de óleo ou diretamente pelos poços de petróleo, alertas sobre o risco que isto representa para a saúde das populações que caçam esses animais para alimentação .

A pesquisa, publicada em Pesquisa Ambiental, faz parte de um projeto científico mais amplo desenvolvido pela ICTA-UAB e liderado pelo Dr. Martí Orta-Martínez há mais de uma década, dedicado a analisar os níveis alarmantes de contaminação de petróleo existentes em áreas remotas de a Amazônia peruana perto da fronteira com o Equador. Em estudos anteriores, os cientistas demonstraram como as atividades de extração de petróleo realizadas nas últimas quatro décadas contaminaram, em geral, o solo e as nascentes dos rios, não só através de derrames acidentais, como também em grande parte pela descarga de águas produzidas extraídas juntamente com o petróleo . Estas águas produzidas contêm altas concentrações de sais e metais pesados, como chumbo, cádmio, cromo, bário e hidrocarbonetos. A contaminação, que afeta rios, sedimentos e solo, se espalha por 3,

A instalação de armadilhas de câmeras permitiu a gravação de imagens de principalmente quatro espécies selvagens (tapires, pacas, pecaris e veados vermelhos), as espécies mais importantes na dieta das comunidades indígenas da região, representando entre 47% e 67% de sua carne total consumo. Esses mamíferos, residentes de um ecossistema pobre em sal, como é a Amazônia, geralmente complementam suas dietas com minerais de superfície comendo o solo. No entanto, eles já foram vistos perto dos locais de extração de petróleo, atraídos pela alta salinidade da água produzida. O mesmo comportamento também foi observado entre espécies ameaçadas de extinção.

A descoberta pode estar relacionada aos altos níveis de chumbo e cadmio detectados no sangue de 45 mil habitantes de cinco grupos étnicos indígenas da região. De acordo com o Ministério da Saúde do Peru, 98,6% e 66,2% das crianças indígenas da área superaram todos os limites aceitáveis ??de cádmio e de chumbo em sangue, assim como 99,2% e 79,2% dos adultos.

As autoridades peruanas declararam esta área da floresta amazônica uma emergência ambiental em 2013 e uma emergência de saúde em 2014, mas ainda não existem registros locais de morbidade ou mortalidade. No entanto, os cientistas recordam às autoridades que “esses compostos são neurotóxicos e cancerígenos”.

Projeto Participação Cidadã

Como parte do estudo, o ICTA-UAB eo Departamento de Saúde Animal e Anatomia da UAB lançaram um projeto de participação cidadã com base no reconhecimento colaborativo que visa identificar outras espécies possíveis que aparecem nas mais de 8 mil capturas de câmeras registradas na região de Loreto , Peru, durante aproximadamente 500 dias.

Através da criação de uma plataforma on-line interativa em cientistas ingleses e espanhóis, o objetivo é identificar todas as espécies amazônicas vistas como consumindo água e solo contaminados com petrolium, além de analisar seu comportamento. A plataforma “AmazonOil”, lançada graças ao financiamento da Fundação BBVA, inclui o apoio das associações indígenas FEDIQUEP, FECONACOR, OPIKAFPE e ACODECOSPAT da região. A versão final da plataforma de ciência do cidadão estará disponível a partir de 28 de março em https://www.zooniverse.org/projects/marcartro/amazonoil


Referência:

Orta-Martínez M., Rosell-Melé A., Cartró-Sabaté M., O’Callaghan-Gordo C., Moraleda-Cibrián N., Mayor P. “First evidences of Amazonian wildlife feeding on petroleum-contaminated soils: A new exposure route to petrogenic compounds?” Environmental Research. 2017 https://doi.org/10.1016/j.envres.2017.10.009


* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 06/03/2018



Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 06/03/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/03/07/povos-indigenas-da-amazonia-cacam-animais-que-se-alimentam-em-areas-contaminadas-com-hidrocarbonetos-e-metais-pesados/