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terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Inscrições abertas para 30 cursos gratuitos a distância da USP

Aperfeiçoamento
CursoPeríodoCursoTipoLocal
Astronomia para docentes do Ensino Médio – 202304/03/2023 – 11/12/2023GratuitoÀ distânciaUSP
Cursos gratuitos a distância da USP de atualização
CursoPeríodoCursoTipoLocal
Ensino de ciências por investigação: práticas e discussões a partir do Desafio do Conhecimento da EEL USP06/12/2022 – 10/12/2022GratuitoÀ distânciaUSP
OTOUSP: Educação Continuada em Otologia27/03/2023 – 29/01/2024GratuitoÀ distânciaUSP
Difusão
CursoPeríodoCursoTipoLocal
Acolhimento, integração, treinamento e educação permanente de Representantes de Participantes de Pesquisa do CEPH/FZEA01/03/2022 – 31/12/2022GratuitoÀ distânciaUSP
Análise da Dependência Estocástica por Meio de Cópula – Online09/01/2023 – 17/02/2023GratuitoÀ distânciaUSP
Análise de dados amostrais complexos (on-line)09/01/2023 – 17/02/2023GratuitoÀ distânciaUSP
Biossegurança em ambientes clínicos da FORP16/08/2021 – 30/12/2022GratuitoÀ distânciaUSP
Cálculo Avançado – Remoto03/01/2023 – 10/02/2023GratuitoÀ distânciaUSP
Como ensinar as Partículas Modais Alemãs? A sequência didática como ferramenta de ensino (on-line)03/02/2023 – 17/03/2023GratuitoÀ distânciaUSP
Como vender para clientes do luxo08/02/2023 – 08/02/2023GratuitoÀ distânciaUSP
Curso de Férias – Programa de Triagem Auditiva Neonatal30/01/2023 – 03/02/2023GratuitoÀ distânciaUSP
Curso de Verão em Bioquímica e Biologia Molecular – EAD09/01/2023 – 20/01/2023GratuitoÀ distânciaUSP
Diversificando o currículo com Turismo07/02/2023 – 07/02/2023GratuitoÀ distânciaUSP
Equações diferenciais ordinárias – Remoto03/01/2023 – 14/02/2023GratuitoÀ distânciaUSP
Estrutura de projetos de pesquisa na área das Ciências Sociais Aplicadas31/01/2023 – 02/02/2023GratuitoÀ distânciaUSP
Ética e Segurança para usuários nas Redes Digitais20/03/2023 – 19/05/2023GratuitoÀ distânciaUSP
Frações Contínuas e Aplicações – EaD23/01/2023 – 03/02/2023GratuitoÀ distânciaUSP
Geografia e Turismo: Uma Parceria Necessária (Segunda Edição)06/02/2023 – 09/02/2023GratuitoÀ distânciaUSP
Iniciação no R com exemplos de Política Internacional06/02/2023 – 09/02/2023GratuitoÀ distânciaUSP
IX Campeonato de Neurociências Paulista “Brain Bee Competition”06/02/2023 – 17/02/2023GratuitoÀ distânciaUSP
Meninas Programadoras: Introdução à Programação para alunas do Ensino Médio ou Concluintes (curso remoto)07/01/2023 – 04/02/2023GratuitoÀ distânciaUSP
Meninas Programadoras: Introdução à Programação para alunas do Ensino Médio ou Concluintes (curso remoto)04/02/2023 – 04/03/2023GratuitoÀ distânciaUSP
Meninas Programadoras: Introdução à Programação para alunas do Ensino Médio ou Concluintes (curso remoto)04/03/2023 – 01/04/2023GratuitoÀ distânciaUSP
Otimização Linear – EAD09/01/2023 – 17/02/2023GratuitoÀ distânciaUSP
Professoras Programadoras: Introdução ao Pensamento Computacional com Scratch (100% online)31/01/2023 – 28/02/2023GratuitoÀ distânciaUSP
Professoras Programadoras: Introdução ao Pensamento Computacional com Scratch (100% online)07/03/2023 – 04/04/2023GratuitoÀ distânciaUSP
Qualidade do ar e os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável no ensino básico.30/01/2023 – 28/02/2023GratuitoÀ distânciaUSP
Representação do conhecimento, grafos de conhecimento, ontologias e suas aplicações06/02/2023 – 10/02/2023GratuitoÀ distânciaUSP
Treinamento para novos membros do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (CEPH) da FZEA01/03/2022 – 31/12/2022GratuitoÀ distânciaUSP
X Curso de Férias de Imunologia23/01/2023 – 03/02/2023GratuitoÀ distânciaUSP



Estão abertas as inscrições para dezenas de cursos gratuitos a distância da USP. Cada um deles é destinado a um público específico e tem seu próprio sistema de seleção.

A lista completa de cursos gratuitos a distância da USP pode ser vista na tabela abaixo. Para saber mais e fazer a inscrição basta clicar no nome do curso escolhido.




Autor: Milena
Fonte: horabrasil
Sítio Online da Publicação: horabrasil
Data: 30/11/2022
Publicação Original: https://www.horabrasil.com.br/2022/11/30/inscricoes-abertas-para-30-cursos-gratuitos-a-distancia-da-usp/

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Centro de Inteligência Artificial apoiado por FAPESP, IBM e USP inicia atividades




C4AI terá foco inicial em desafios relacionados à saúde, meio ambiente, cadeia de produção de alimentos, futuro do trabalho e desenvolvimento de tecnologias de processamento de linguagem natural em português do Brasil (imagem: divulgação)


A FAPESP, a IBM e a Universidade de São Paulo (USP) anunciaram ontem (13/10) o início das atividades do Centro de Inteligência Artificial (C4AI).

Apoiado pela FAPESP, no âmbito do Programa Centros de Pesquisa em Engenharia (CPE), o Centro será dedicado ao desenvolvimento de estudos e à pesquisa de ponta em IA para endereçar temas de grande impacto social e econômico.

O C4AI será sediado no prédio do Centro de Pesquisa e Inovação InovaUSP, localizado campus da USP, em São Paulo, e contará também com uma segunda unidade para capacitar estudantes e profissionais no Instituto de Ciências Matemáticas e da Computação (ICMC), no campus da USP em São Carlos, com início das atividades previsto para fevereiro de 2021.

A FAPESP e a IBM reservarão, cada uma, R$ 2 milhões anualmente nos próximos cinco anos para implementar o programa do centro, que contará com avaliações periódicas das atividades. Em contrapartida, a USP investirá R$ 4 milhões por ano em instalações físicas, laboratórios, professores, técnicos e administradores para gerir a unidade, entre outros custos.

“O início da operação do Centro de Inteligência Artificial representa a continuidade de um acordo firmado entre a FAPESP e a IBM em 2016, e faz parte de um esforço contínuo da Fundação em promover parcerias em pesquisa entre universidades e empresas”, disse Luiz Eugênio de Mello, diretor científico da FAPESP, durante a cerimônia on-line de lançamento do Centro.

“Apesar de no Estado de São Paulo já existir uma boa interação entre universidades e empresas é possível avançar ainda mais nesse sentido”, avaliou Mello.

O C4AI terá foco inicial em cinco grandes desafios relacionados à saúde, meio ambiente, cadeia de produção de alimentos, futuro do trabalho e no desenvolvimento de tecnologias de processamento de linguagem natural em português do Brasil, procurando maneiras de melhorar o bem-estar humano e apoiar iniciativas para diversidade e inclusão.

Em paralelo, três comitês de acompanhamento serão criados para promover temas de interesse comum do país, com foco na indústria, ciência e sociedade. Os comitês visam ampliar esses cinco desafios iniciais e conferir a eles uma aplicação real que seja útil para as empresas e a sociedade brasileira.

“Procuramos identificar problemas que são estratégicos para o Brasil, para os quais pesquisa brasileira pode fazer diferença e que os pesquisadores da IBM podem contribuir e que o país tem massa crítica para abordar”, disse Fabio Cozman, professor da USP e diretor do centro.

Temas de pesquisa

Na área agrícola, o objetivo das pesquisas será desenvolver e aplicar modelos de correlação avançados para a tomada de decisão baseada na causa e efeito, abordando questões como o desperdício de água e de alimentos.

Na área ambiental, os pesquisadores combinarão aprendizado de máquina com conhecimento simbólico para abordar perguntas complexas sobre a Amazônia Azul – vasta região do oceano Atlântico, na costa brasileira, rica em biodiversidade e recursos energéticos – e sobre o ecossistema marinho. Uma das perguntas que pretendem responder, por exemplo, é o que causou o aparecimento de manchas de óleo na costa do Nordeste do Brasil em 2019.

Já no setor da saúde será realizado um estudo em duas frentes de pesquisa. A primeira terá o objetivo de melhorar o diagnóstico, o tratamento e a reabilitação de pacientes que sofreram acidente vascular cerebral (AVC) por meio de técnicas de análise de redes complexas em dados multimodais. A segunda terá como foco investigar formas de melhorar a escolha de protocolos de reabilitação em casos de AVC.

Outro objetivo será habilitar o processamento de linguagem natural de alto nível para o português do Brasil, assim como já existe para outros idiomas, com o intuito de aprimorar os serviços de atendimento ao cliente, o treinamento de assistes virtuais, o monitoramento de redes sociais, bem como possibilitar a análise e a extração de conhecimento de grandes fontes de dados.

O C4AI também focará em pesquisas relacionadas às políticas públicas para a inteligência artificial e à coleta e análise de dados sobre o impacto da IA nos empregos e no futuro do trabalho.

“A agenda de pesquisa abrange temas de ponta na área de inteligência artificial, de modo a estar alinhada ao que está sendo feito em outros lugares no mundo”, diz Cláudio Pinhanez, pesquisador da IBM e vice-diretor do C4AI.

O centro será o primeiro na América do Sul a fazer parte do IBM IA Horizons Network (IAHN) – um programa criado em 2016 para promover a integração e a colaboração entre as principais universidades do mundo, estudantes e pesquisadores da IBM comprometidos em acelerar a aplicação de IA a alguns dos maiores desafios globais e locais, disse Jeffrey Welser, VP Exploratory Science & Universities Programs da IBM Research.

“Já temos alguns centros nos Estados Unidos, Europa, Ásia e esse será o primeiro na América do Sul. Será uma grande oportunidade para fortalecer a parceria com universidades”, avaliou Welser.






Autor: Elton Alisson | Agência FAPESP
Fonte: FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data: 14/10/2020
Publicação Original: https://agencia.fapesp.br/centro-de-inteligencia-artificial-apoiado-por-fapesp-ibm-e-usp-inicia-atividades/34349/#.X4bT7me2u48.whatsapp

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Destino dos mamíferos após dinossauros variou entre diferentes espécies


Pakicetus inachus, mamífero do Eoceno – Imagem: Nobu Tamura via Wikimedia Commons – CC

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Quando se fala em extinção em massa, é comum imaginar um meteoro caindo na Terra e dizimando dinossauros, mas não é bem assim. As diversas extinções em massa na história do planeta ocorreram de forma diferente sobre os grupos de seres vivos. Um exemplo são os mamíferos, classe de vertebrados que já existia no tempo dos dinossauros e sobreviveu ao evento extintivo há 66 milhões de anos, que marcou o fim do período Cretáceo.

Havia quatro linhagens de mamíferos contemporâneas dos répteis gigantes. Todas sobreviveram. Algumas saíram mais chamuscadas, outras menos. Em estudo publicado na Biology Letters, os biólogos Tiago Bosisio Quental, da Universidade de São Paulo, e Mathias Pires, da Universidade Estadual de Campinas, buscam entender de que forma os diversos grupos de mamíferos atravessaram a extinção em massa no fim do Cretáceo. O trabalho contou com apoio da Fapesp.

“Quando se fala em extinções em massa, subentende-se um evento de grandes proporções, durante o qual um número elevado de espécies se extinguiu em um período relativamente curto”, disse Pires.

Outro modo de se olhar para as extinções em massa é observar o número de espécies no registro fóssil. Verifica-se que em um determinado período geológico ocorreu uma extinção em massa quando o número total de espécies que desapareceu do registro fóssil é muito superior ao número de novas espécies.

“Ou seja, é quando a taxa de extinções, velocidade com que espécies são perdidas, supera a taxa de especiações, a velocidade com que as espécies são geradas. Isso torna negativa a taxa de diversificação, que é dada pela diferença entre as duas taxas”, disse Pires.

No registro fóssil dos últimos 500 milhões de anos foram identificadas cinco grandes extinções em massa (e muitas outras de menor escala). Elas ocorreram por diversos motivos, como vazamentos magmáticos por centenas de milhares ou milhões de anos, liberando bilhões de toneladas de gases de efeito estufa que envenenaram a atmosfera e bloquearam a radiação solar.

Foi o que ocorreu na pior das extinções em massa, há 252 milhões de anos, que marcou a passagem dos períodos Permiano ao Triássico (e das eras Paleozoica à Mesozoica), quando mais de 90% das espécies desapareceram. Extinções em massa também ocorreram quando houve a liberação maciça de bilhões de toneladas de gás carbônico (CO2) aprisionadas no subsolo oceânico, causando um megaefeito estufa – como especula-se ter ocorrido no final do período Triássico, há 201 milhões de anos, com perda de 80% das espécies.

Ou o contrário, com o sequestro de bilhões de toneladas de CO2 da atmosfera, o que derrubou as temperaturas, causando uma severa glaciação planetária. Foi assim há 444 milhões de anos, no fim do período Ordoviciano, quando desapareceram 86% das formas de vida.
Pesquisadores descrevem a dinâmica de diversificação dos mamíferos depois da extinção em massa do fim do Cretáceo. Muitas linhagens contemporâneas aos dinossauros desapareceram, mas outras sobreviveram (imagem: originação, extinção e taxas de diversificação para os três clados [grupos com um ancestral comum] de mamíferos na América do Norte. Linhas pontilhadas denotam o limite do Cretáceo-Paleógeno) – Foto: Biology Letters via Agência FAPESP
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Evento K-Pg

A extinção em massa de 66 milhões de anos atrás se chama evento K-Pg, sigla que se refere ao momento em que acaba o período Cretáceo (Kreide, em alemão) e inicia o período seguinte, o Paleógeno (Pg). Em uma escala de tempo mais ampla, o evento K-Pg foi o instante geológico que marca o fim da era Mesozoica, aquela dominada pelos dinossauros, e o início da Cenozoica, os últimos 66 milhões de anos.

O evento K-Pg foi provocado pela associação de dois fatores: vazamentos magmáticos devastadores onde hoje é a Índia, conjugados com a colisão de um astro celeste de 10 quilômetros de diâmetro na península de Yucatán, no atual México.

“Todos esses episódios de extinção massiva são heterogêneos. Tiveram causas diferentes e transcorreram de forma diversa. Da mesma forma, seu impacto sobre as formas de vida não foi absoluto, mas relativo. Alguns grupos sofreram mais, outros menos. Alguns desapareceram, enquanto outros aproveitaram as novas condições ambientais pós-catástrofe para se diversificar rapidamente”, disse Pires.

No novo trabalho, os pesquisadores buscaram entender de que modo as diversas linhagens de mamíferos existentes no final do Cretáceo ultrapassaram o gargalo biótico do evento K-Pg. Também participaram do estudo Daniele Silvestro, da Universidade de Gotemburgo (Suécia), e Brian Rankin, da University of California em Berkeley (Estados Unidos).

A grande classe dos mamíferos surgiu no Triássico há pelo menos 220 milhões de anos, idade do fóssil mais antigo que se conhece. No fim do Cretáceo, a linhagem era bastante diversificada. Havia os placentários (como são popularmente conhecidos os eutérios), linhagem à qual pertence o Homo sapiens, assim como todos os primatas, roedores, morcegos, cetáceos e ungulados, entre outros.

Havia também os marsupiais (ou metatérios), grupo que hoje acolhe gambás, cangurus e coalas. Eles dividiam o cenário com o grupo dos monotremados e, por fim, com o dos multituberculados (seu nome deriva do formato específico de seus dentes, com vários tubérculos).

O novo estudo ressalta que a extinção em massa do Cretáceo se abateu fortemente sobre os mamíferos. Isso não quer dizer que todos os quatro grupos sofreram com a mesma intensidade. A extinção em massa foi mais severa para uns do que para outros.

Durante o Cretáceo, entre 145 e 66 milhões de anos atrás, os multituberculados eram a linhagem dominante e a mais diversificada entre os mamíferos. Sabe-se isso porque, no registro fóssil que antecede o evento K-Pg, os fósseis de multituberculados são a grande maioria. Já os fósseis de placentários e de marsupiais, embora menos numerosos, também são encontrados em bom número.

A exceção são os monotremados. Assim como ocorre hoje, quando há somente duas famílias de monotremados viventes – das quais fazem parte o ornitorrinco e a equidna –, o registro fóssil dos monotremados é muito rarefeito, tanto antes quanto depois do Cretáceo, sugerindo que este grupo sempre foi relativamente marginal em relação às outras linhagens de mamíferos. É também por essa razão que tal linhagem não foi incluída no estudo.

Sabendo-se que havia multituberculados, placentários e marsupiais, qual grupo de mamíferos foi mais severamente atingido no K-Pg? De qual linhagem sobreviveram mais gêneros? Qual grupo apresentou o maior aumento de diversidade (maior especiação) nos milhões de anos imediatamente posteriores ao gargalo biótico? Qual grupo jamais se recuperou do cataclismo?

O único meio para tentar obter respostas a essas perguntas é recorrer ao registro fóssil encontrado em uma mesma região do planeta, de modo a tentar garantir que, há 66 milhões de anos e naquela região, a catástrofe se abateu de forma mais ou menos equivalente sobre todos os grupos de mamíferos.

Quental e Pires elegeram a América do Norte como local do estudo, uma vez que 150 anos de contínuas prospecções paleontológicas naquele continente fornecem um rico painel da diversidade de mamíferos antes, durante e após o evento K-Pg.

“A América do Norte apresenta um registro fóssil com qualidade suficiente para esse tipo de estudo. Já foram feitos outros estudos analisando como os mamíferos ultrapassaram a extinção do Cretáceo, mas até onde pudemos constatar este é um dos primeiros a analisar a dinâmica da diversificação das distintas linhagens de mamíferos”, disse Quental.

Os cientistas utilizaram um conjunto de dados com 188 recentes assembleias fossilíferas do Cretáceo e do Paleoceno – abrangendo um lapso temporal que vai de 69,9 milhões de anos até 55 milhões de anos atrás –, formações localizadas no interior ocidental da América do Norte.

“O registro fóssil de mamíferos da América do Norte possui assembleias muito bem estudadas com datações em torno do evento K-Pg, sendo as ocorrências de fósseis relativamente bem resolvidas, minimizando a incerteza taxonômica. O conjunto de dados que utilizamos inclui informações sobre quase 290 gêneros de mamíferos, entre multituberculados, eutérios e metatérios”, disse Quental.

Foram empregados diversos métodos estatísticos avançados para identificar padrões de originação, extinção e diversificação, antes, durante e após o K-Pg. Os resultados evidenciaram que as três linhagens atravessaram a extinção em massa de maneiras bem distintas.

O estudo indica que a taxa de originação de Methateria (marsupiais), por exemplo, permaneceu aproximadamente constante durante todo o intervalo de tempo estudado. No entanto, um claro pico de extinção é identificado durante o K-Pg, gerando um saldo líquido de diversificação negativo. Passado o evento K-Pg, a taxa de extinção diminuiu gradualmente. No entanto, a diversificação líquida negativa persistiu por mais de 2 milhões de anos, até cerca de 64 milhões de anos atrás.

Quanto aos multituberculados, eles estavam se diversificando no fim do Cretáceo, apresentando altas taxas de originação e taxas de extinção relativamente baixas. Já em torno do limite K-Pg, a taxa de extinção permaneceu baixa, mas observam-se quedas na taxa de originação, o que derruba a diversificação de multituberculados para perto de zero. Ou seja, durante o K-Pg a taxa de diversificação encontra-se em equilíbrio, pois aproximadamente a mesma quantidade de gêneros de multituberculados está se originando e se extinguindo.

Segundo o estudo, decorrido o K-Pg, embora a taxa de extinção dos multituberculados permanecesse em queda, o declínio na taxa de originação era ainda maior, consequentemente levando a uma diversificação negativa. Em outras palavras, a quantidade de gêneros de multituberculados continuou diminuindo durante o restante do período analisado, até 55 milhões de anos atrás. Tal declínio parece ter persistido por muito mais tempo, dado que os multituberculados desapareceram progressivamente do registro fóssil mundial, até, por fim, a linhagem terminar há cerca de 35 milhões de anos.

Especula-se que a razão para o fim dos multituberculados teria sido a competição crescente com uma nova linhagem de eutérios, os roedores, cuja ordem tem origem justamente logo após o evento K-Pg, já no período Paleógeno.

Quanto aos eutérios (placentários), o estudo mostra alta originação e alta extinção perto do limite K-Pg, resultando em uma inflexão na diversidade. As taxas de originação eram muito superiores àquelas das extinções, exceto no período entre 66 milhões de anos e 64 milhões de anos atrás.

Logo após, verifica-se um segundo pulso de originação, acompanhado pela queda nas taxas de extinção, sinal da ocorrência de uma curta explosão na diversificação. Em torno de 62 milhões de anos atrás, a originação de eutérios diminui, enquanto a diversificação fica em torno de zero, sugerindo um equilíbrio de diversidade.

“Encontramos três padrões de diversificação entre os grupos de mamíferos. Metatheria se comporta da forma clássica em uma extinção em massa. Diversas extinções se agrupam no tempo, levando a uma queda severa na diversificação”, disse Quental.

Segundo o pesquisador, nos multituberculados a diminuição na diversificação e a subsequente perda de diversidade foram impulsionadas pelo declínio das taxas de originação e não pela extinção, ou seja, perderam diversidade porque demoravam muito para gerar novas espécies.

“Já os eutérios mostram uma dinâmica mais complexa de ascensão e queda, mais precisamente atribuída por oscilações rápidas na taxa de especiação durante e logo após o K-Pg, ao mesmo tempo que a taxa de extinção aumenta, porém, não tanto a ponto de causar uma diversificação negativa por muito tempo”, disse Quental.

Pires ressalta que o estudo mostra que a extinção em massa do K-Pg foi ecologicamente seletiva entre as linhagens de mamíferos, “com uma concentração de extinções entre metatérios carnívoros especializados e eutérios insetívoros, enquanto os eutérios e os multituberculados mais generalistas mantiveram maior diversidade”.

Embora os resultados indiquem que os eutérios (placentários) sofreram perdas substanciais no limite de K-Pg, essas perdas foram compensadas pelo aumento da originação. Pode ter ocorrido diversificação entre os eutérios sobreviventes, graças à chegada à América do Norte de outros grupos de eutérios provenientes de outros continentes.

“A plasticidade de dietas dos multituberculados pode ter permitido que os grupos persistissem, explicando as baixas taxas de extinção. A diversidade ecológica e taxonômica dos multituberculados foi crescente durante o fim do Cretáceo. No entanto, nossas análises mostram que os multituberculados não compensaram as perdas por extinção, pois geravam cada vez menos diversidade, diferentemente dos eutérios, cujas perdas foram compensadas por altas taxas de originação”, disse Pires.

A conclusão dos pesquisadores indica que, quando os clados (grupos com ancestral comum) são avaliados individualmente, eventos de extinção em massa podem ser vistos como mudanças na extinção, na originação ou em ambos os regimes.

“Isso significa que os estudos sobre fenômenos macroevolutivos que são centrados em grandes grupos taxonômicos podem estar deixando de contar uma história macroevolutiva muito mais rica, só percebida em escalas taxonômicas mais sutis”, destacam.

O artigo Diversification dynamics of mammalian clades during the K–Pg mass extinction (doi: 10.1098/rsbl.2018.0458), de Mathias M. Pires, Brian D. Rankin, Daniele Silvestro e Tiago B. Quental, pode ser lido no site da publicação científica.

Peter Moon / Agência Fapesp




Autor: Peter Moon
Fonte: Agência Fapesp
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 07/01/2019
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-biologicas/destino-dos-mamiferos-apos-dinossauros-variou-entre-diferentes-especies/

Estudo sobre previsão de câncer de boca vence prêmio de inovação


Utilização de biotecnologia para análise de proteínas em amostras biológicas abre caminho para aperfeiçoar as decisões de tratamentos para pacientes com câncer de boca, do qual são diagnosticados cerca de 300 mil novos casos por ano em todo o mundo / Foto: Divulgação

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Pesquisa que apresenta um novo modo de prever o câncer de boca a partir da análise de proteínas, com participação do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, venceu o 4º Prêmio de Inovação do Grupo Fleury (PIF). O estudo, coordenado por pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (interior de São Paulo), teve a colaboração da professora Rosane Minghim e do doutorando Henry Heberle, do ICMC. O trabalho é descrito em texto publicado na revista Nature Communications e obteve o primeiro lugar na categoria Artigo nos júris técnico e popular do PIF, entregue no último dia 21 de novembro em São Paulo.

Os pesquisadores utilizaram técnicas proteômicas (ramo da biotecnologia que analisa proteínas em amostras biológicas) para descobrir um novo tipo de prognóstico do câncer de boca, por meio de exames clínicos e de imagem. “O método apresenta um grande potencial de orientar os profissionais da saúde a superarem as limitações do prognóstico realizado atualmente, assim como permite guiar as estratégias de tratamento personalizadas para pacientes com câncer de boca e, com isso, reduzir recorrências e metástases cervicais do câncer”, explica a primeira autora do trabalho, a pesquisadora Carolina Moretto Carnielli, do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio-CNPEM).

Ao contribuir para identificar, quantificar e compreender a relação entre abundância de proteínas, progressão de tumores e tratamentos, a pesquisa conseguiu abrir caminho para aperfeiçoar as decisões de tratamentos relacionados a esse tipo de câncer. Essa decisão é um grande desafio para os profissionais de saúde, levando-se em conta que as respostas aos tratamentos convencionais apresentam uma variação muito grande, pois as taxas de recorrência dos tumores podem variar entre 18% e 76% entre pacientes.


Descoberta realizada a partir da análise de amostras de tecido e de saliva de pacientes com câncer de boca mostra correlação de uma assinatura de três peptídeos com a presença de metástase (na imagem, Avaliação da abundância de proteínas selecionadas em amostras independentes de tecido de pacientes utilizando anticorpos por meio da imuno-histoquímica) – Foto: Nature Communicationsvia Agência Fapesp (Clique na imagem para ampliar)
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Diagnóstico


Biossensor detecta vírus associado ao risco de câncer de cabeça e pescoço


Análise de proteína na saliva indica evolução de câncer de boca


Proteína pode indicar risco de morte pelo câncer de boca


Remédio para diabete é testado contra câncer de cabeça e pescoço


Estudos mostram que, a cada ano, são diagnosticados cerca de 300 mil novos casos da doença em todo o mundo, período em que se registra também uma taxa de mortalidade de 145 mil pacientes. Além da participação do ICMC, o projeto contou, ainda, com a contribuição de pesquisadores do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), ligado à Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), da Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP) e do Instituto de Computação (IC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da Faculdade de Odontologia da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), entre outras instituições nacionais e internacionais.

A pesquisa recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). De acordo com a coordenadora do projeto, Adriana Paes Leme, pesquisadora do LNBio-CNPEM, estudos futuros pretendem ser desenvolvidos para compreender os mecanismos de ação das proteínas distribuídas pelas diferentes áreas do tumor.

O artigo Combining discovery and targeted proteomics reveals a prognostic signature in oral câncer foi originalmente publicado na revista Nature Communications, em setembro. O PIF surgiu em 2015 para divulgar e reconhecer projetos de pesquisa nacionais inovadores, em especial na área de saúde. A cerimônia de premiação do PIF aconteceu dia 21 de novembro de 2018, em São Paulo. Dividido nas categorias Artigo e Patente, a premiação oferece R$ 5 mil para os escolhidos pelo júri técnico e um troféu para os eleitos pelo júri popular.

Assessoria de Comunicação do ICMC, com informações do CNPEM e do Grupo Fleury





Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 08/01/2019
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-da-saude/estudo-sobre-previsao-de-cancer-de-boca-vence-premio-de-inovacao/

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Estação Oscar Freire recebe mostra “Do macaco ao Homem”

Foto: Cecília Bastos/ USP Imagens

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A estação Oscar Freire, da Linha 4-Amarela do Metrô de São Paulo, recebe a partir do dia 7 de janeiro a versão itinerante da exposição Do macaco ao homem, que tem como curador o professor Walter Neves, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. A mostra estará na estação até o dia 31.

A proposta é apresentar ao público, especialmente ao jovem, esse tema científico de forma atraente e lúdica. “A intervenção artísitca tem como objetivo transmitir informações sobre o desenvolvimento da nossa espécie. No momento, já é possível caracterizar, com um elevado grau de certeza, os principais passos da nossa linhagem evolutiva”, explica o antropólogo, arqueólogo e curador da exposição Walter Neves, coordenador do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da USP.

Foto: Divulgação / Catavento Cultural

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A exposição foi organizada em parceria entre a ViaQuatro, o Museu Catavento, o Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos (LEEH -IB -USP) e o Instituto de Estudos Avançados da USP.




Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 02/01/2019
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-biologicas/estacao-oscar-freire-recebe-mostra-do-macaco-ao-homem/

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Ciência USP #02: HTLV, um vírus que os brasileiros deveriam conhecer


Ciência USP #02: HTLV, um vírus que os brasileiros deveriam conhecer
Ciência USP

 
 
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Pesquisa indica potenciais planetas habitáveis em nossa galáxia


Impressão artística de como seria Upsilon Andromedae vista de uma lua hipotética de dimensões comparáveis às da Terra e que tivesse água no estado líquido – Foto: Lucianomendez via Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0


Uma pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe), realizada com participação do professor Jorge Melendez, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, avaliou a possibilidade de habitação em diferentes planetas da Via Láctea.

O método usado foi a análise de estrelas parecidas com o Sol, as chamadas gêmeas solares, de outros pontos da galáxia. O parâmetro era o nível de abundância do elemento tório (Th) nestes astros, que indicaria o potencial de gerar planetas rochosos como a Terra.

Foi usado um instrumento chamado espectrógrafo, que detecta energia vinda das estrelas e analisa sua composição por meio dos sinais recebidos. No caso se procurava pelo tório, elemento radioativo que possibilita a formação de planetas rochosos. Quanto maior a presença desse elemento, maior a probabilidade de existir tectonismo no planeta, essencial para garantir a vida. “Temos que lembrar que a Terra é um planeta geologicamente ativo, com terremotos e vulcões. Eles proporcionam o ciclo do carbono, mantendo a temperatura da Terra e estando intimamente ligado ao surgimento e evolução da vida na superfície terrestre”, diz André Milone, pesquisador da Divisão de Astrofísica do Inpe que orienta o pesquisador Rafael Botelho, primeiro autor do estudo.

Foto: Cedida pelo pesquisador

O professor Melendez, que forneceu a coleta de dados e participou de sua análise para o estudo, explica que o calor no interior de Terra e toda a atividade tectônica e vulcânica “se originam da energia liberada do decaimento de diversos elementos radioativos”, entre eles o tório.


O estudo mostra que potenciais planetas rochosos ao redor de gêmeas solares apresentam altas probabilidades de terem tectonismo, aumentando a chance de serem habitáveis. A pesquisa sugere condições geológicas favoráveis para o surgimento e manutenção da vida em exoplanetas rochosos, e que a vida poderia estar espalhada por todo o disco da Galáxia e ter se originado em qualquer época de sua evolução.


O espectrógrafo HARPS durante os testes de laboratório. A grande grade ótica pela qual a luz estelar entrante é dispersada é visível no topo da bancada – Foto: cedida pelo pesquisador

Segundo o doutorando Rafael Botelho, “o mais empolgante é que parece que o tório também é abundante em gêmeas solares velhas, significando que o disco da Galáxia pode estar repleto de vida, tanto no espaço quanto no tempo”. Até o momento, este é o mais amplo estudo da abundância do tório em gêmeas solares.

Os resultados estão no artigo Thorium in solar twins: implications for habitability in rocky planets, recentemente publicado no Monthly Notices of Royal Astronomical Society, disponível no site da publicação.




Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 18/12/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-exatas-e-da-terra/pesquisa-indica-potenciais-planetas-habitaveis-em-nossa-galaxia/

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Tese descreve ação da molécula que permite a fecundação das plantas


Flores reúnem tanto parte feminina quanto masculina do sistema reprodutivo das plantas. Fertilização começa quando o grão de pólen encontra a parte feminina e germina – Foto: Marie-Lan Nguyen / Wikimedia Commons / CC-BY 2.5


Assim como os animais, as plantas também dependem de hormônios para crescerem e se reproduzirem. Um grupo desses hormônios era conhecido dos pesquisadores do Laboratório de Bioquímica de Proteínas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, por suas funções nas raízes das plantas quando a bióloga Tabata Bergonci topou a tarefa de explicar o que eles faziam também nos tecidos do sistema reprodutivo. Os resultados foram a descrição inédita da atividade de quatro peptídeos – pequenas cadeias de aminoácidos, menores do que uma proteína – nesses tecidos e a descoberta de que um deles é fundamental para permitir a fecundação das plantas.


A pesquisadora Tabata Bergonci fez parte do doutorado nos EUA – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

A tese de Tabata, intitulada “Peptídeos RALF em tecido reprodutivo: caracterização e efeito dos AtRALF 4, 25, 26 e 34”, foi contemplada com o prêmio Tese Destaque USP 2018 e rendeu um artigo publicado na revista Science, em dezembro do ano passado. O artigo combinou os resultados apresentados na tese de Tabata com o trabalho de pesquisadores de China, Estados Unidos, México e Alemanha.

Na maioria das plantas, as flores reúnem tanto a parte reprodutiva feminina quanto a masculina. A parte feminina se encontra no centro da flor e a masculina é identificada pelos estiletes com pólen na ponta. A reprodução começa quando o grão de pólen – masculino – encontra o “órgão” reprodutor feminino. A partir desse encontro, o grão de pólen germina e se alonga para o interior do órgão feminino, formando uma estrutura chamada tubo polínico, até encontrar o óvulo. O professor Daniel Scherer Moura, que orientou Tabata no doutorado do Programa de Pós-Graduação em Genética e Melhoramento de Plantas da Esalq, conta que a história da pesquisa começou quando um aluno da graduação observou, em seu trabalho de iniciação científica, a presença de grande quantidade de peptídeos RALF (Fator de Alcalinização Rápida, na sigla em inglês) nas estruturas reprodutivas das flores.

O problema era que, até então, sabia-se apenas que os peptídeos desse grupo atuavam como inibidores da expansão celular nas raízes da planta. “A pergunta que eu passei para minha aluna responder foi justamente esta: em primeiro lugar, por que em tecidos reprodutivos nós temos inúmeros desses peptídeos e por que eles são produzidos em tamanha quantidade num tecido que, teoricamente, quer crescer? Ele não precisa ser inibido na sua expansão, ele quer justamente o contrário”, diz Moura. “O que nos chamou a atenção é que metade dos RALFs da planta estavam nos tecidos reprodutivos e eram muito expressos, quando comparávamos com outros (tecidos)”, conta Tabata.







































O “camundongo” das plantasArabidopsis thaliana tem ciclo de vida curto e genoma sequenciado – Foto: Million Moments/Wikimedia Commons

Para responder à questão, a bióloga trabalhou no Laboratório de Bioquímica de Proteínas com plantas da espécie Arabidopsis thaliana como modelo. Considerada “o camundongo das plantas”, a Arabidopsis é uma das espécies botânicas que os cientistas melhor conhecem. O genoma da planta já foi totalmente sequenciado e seu ciclo de vida curto, que costuma durar de 30 a 45 dias, permite aos pesquisadores realizar e repetir muitos experimentos em pouco tempo. Por outro lado, o tamanho da planta dificulta o estudo do sistema reprodutivo: ela cresce até 20 ou 25 centímetros de comprimento e as flores têm menos de um centímetro.

Os peptídeos RALF são produzidos a partir das instruções contidas em genes específicos das plantas. Tabata clonou os genes dos peptídeos de interesse em bactérias E. colipara poder isolar as moléculas que estava estudando. “É o que a gente chama de produção heteróloga, porque é em outro sistema. Em vez de produzir o RALF na planta e isolar da planta, eu faço a bactéria produzir para mim. E ela produz em grandes quantidades, porque eu clono exatamente num lugar (do DNA) da bactéria que é para produzir grandes quantidades (de proteínas)”, explica a pesquisadora.

Na sequência, ela utilizou os peptídeos isolados em soluções com diferentes concentrações em placas nas quais cultivou tubos polínicos em um meio de cultura. Os experimentos in vitro realizados em Piracicaba, porém, traziam muitos resultados negativos. “Tínhamos poucas técnicas para crescer pólen. A gente tinha resultados bonitos (com microscópio) confocal, mas isso é só bonito visualmente, você não publica nada sem explicar o que o RALF está fazendo lá. A gente tinha que entender e eu passei dois anos sem saber”, conta a autora da tese.

A situação mudou depois que a professora Alice Cheung, da Universidade de Massachusetts (UMass) em Amherst, nos Estados Unidos, enviou um convite para o laboratório. Tabata Bergonci conseguiu uma bolsa do programa Ciência Sem Fronteiras para fazer parte do doutorado no exterior e arrumou as malas para passar um ano em Amherst. Lá, ela ensinou aos novos colegas como produzir peptídeos em grande quantidade a partir de uma bactéria e aprendeu com Cheung uma técnica semi in vivo para experimentos com sistema reprodutivo de plantas. A técnica consiste, basicamente, em fazer um corte na flor para que o pólen germine na estrutura natural da planta, mas se alongue para dentro de um meio de cultura.



Pesquisadores descobrem detalhe que permite a fecundação das plantas

Nos experimentos com a técnica de Cheung, Tabata conseguiu observar que os peptídeos RALF 4, 25 e 26 limitavam um pouco o crescimento dos tubos polínicos, cumprindo uma função de manutenção da integridade da estrutura. A grande surpresa veio com o RALF 34. Ainda em Massachusetts, ela pingou uma gota desse peptídeo no tubo polínico e o viu romper. “Eu apliquei uma concentração muito alta. Então, eu diminuí a concentração até a condição fisiológica, que seria a concentração que ocorre na planta realmente, e vi que (o rompimento) continuava acontecendo”, conta a pesquisadora.



Como o RALF 34 é um peptídeo da parte reprodutiva feminina da planta, a descoberta permitiu concluir que ele é a molécula responsável pela fecundação. Assim, os peptídeos RALF 4, 25 e 26 mantém a integridade do tubo polínico até atingir o ovário, onde o RALF 34 entra em ação. Desta forma, o DNA dos núcleos espermáticos é preservado até o encontro com o óvulo. “A gente sabia que existia toda uma sinalização na ponta do tubo polínico quando chega ao óvulo, que faz ele romper. Ele precisa romper para liberar as células espermáticas e essa fecundação acontecer. Mas a gente não sabia qual era o sinal, ninguém sabia. Descobrir qual é a molécula que faz essa fecundação poder acontecer em todas as plantas é com certeza a melhor descoberta”, afirma a bióloga.

O artigo publicado na Science incluiu os resultados da pesquisa com os RALF 4 e 34 e dá um passo além da pesquisa de doutorado de Tabata. É uma história posterior à defesa da tese na Esalq, que aconteceu em agosto de 2016. Segundo Moura, a história começou a se fechar graças à descoberta da atividade biológica descrita pela pesquisadora.




Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 07/12/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-agrarias/tese-descreve-acao-da-molecula-que-permite-a-fecundacao-das-plantas/

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Técnica que usa luz para induzir célula doente ao suicídio é aperfeiçoada


Terapia fotodinâmica (PDT), usada para tratar doenças que envolvam proliferação celular descontrolada, emprega luz e compostos que absorvem luz (fotossensibilizadores) para gerar reações que causem danos irreversíveis às células doentes – Foto: John Crawford/Domínio Público via Wikimedia Commons



Pesquisa detalha ação benéfica da carnosina em músculo humano



Estudo explica como a luz provoca danos em membranas biológicas


No Instituto de Química (IQ) da USP, pesquisa buscou controlar o destino de células doentes ativando mecanismos de morte celular regulada. Os cientistas utilizaram luz e compostos que absorvem luz (fotossensibilizadores), os quais atuam em locais específicos nas células (mitocôndrias e lisossomos), levando à sua total destruição a partir de pequenos danos iniciais. A descoberta poderá aperfeiçoar a terapia fotodinâmica (PDT), utilizada no tratamento do câncer e de infecções. O estudo foi realizado no Centro de Pesquisa de Processos Redox em Biomedicina (Cepid Redoxoma), sediado no IQ.

Em geral, os compostos fotossensibilizadores absorvem luz e transferem energia para formar substâncias com grande reatividade química, as quais causam danos irreversíveis às células. “Eles podem levar a célula a morrer de forma descontrolada, no caso de dano muito severo, também chamada de necrose”, conta o professor Maurício Baptista, coordenador da pesquisa. “Podem ainda induzirem a ativação de mecanismos de morte programada ou de reparos que acabam por levar a célula a morrer também, mas de forma menos drástica que na necrose.”

A PDT pode induzir à morte celular de várias formas. “Isso depende de diversos fatores, como o tipo de célula tumoral, a estrutura dos compostos fotossensibilizantes, a dose de luz e a concentração do próprio composto”, afirma Baptista. “Hoje se alcança praticamente qualquer tecido com luz e consequentemente qualquer doença que envolva proliferação celular descontrolada pode ser tratada pela PDT, mas principalmente câncer e lesões pré-cancerígenas, infecções por microorganismos e vírus e degenerescência da mácula ligada a idade, doença que afeta a retina e pode levar à perda da visão.”

De acordo com o professor, as pesquisas procuram aprimorar a eficiência dos fotossensibilizadores. “Os estudos identificam as maneiras que esses compostos matam células tumorais ou agentes infecciosos da forma mais elegante, sem causar danos nos tecidos vizinhos e com a menor quantidade possível de luz e do próprio fotossensibilizador”, destaca.
Autofagia

A autofagia é um mecanismo de sobrevivência celular, baseado na degradação e reciclagem de organelas no seu interior, mantendo a célula estabilizada frente ao estresse nutritivo ou mesmo oxidativo. “Células com mecanismo autofágico funcional têm uma sobrevida maior do que células com autofagia defeituosa, que tendem a envelhecer rapidamente e a morrer com maior facilidade”, explica Baptista. “Células tumorais necessitam de forma mais contundente da autofagia para sobreviver, pois seus mecanismos celulares não são tão bem controlados. Consequentemente, atualmente busca-se novas drogas antitumorais identificando moléculas que afetam a autofagia.”


Pequenos danos induzidos pela luz, em locais específicos da célula (que regulam os mecanismos de morte celular), levam à sua destruição de forma contundente – Foto: John Crawford/Domínio Público via .



Pesquisa liga composto derivado do colesterol a doenças neurodegenerativas



Ácido úrico prejudica células do corpo que combatem infecções


A mitocôndria é a organela responsável pela manutenção dos níveis de energia da célula e também tem papel central nos mecanismos de sinalização que definem se ela pode continuar viva ou se deve morrer (mecanismos regulados de morte celular). “Ela necessita de processamento e reciclagem constante, então tem um mecanismo de ativação da autofagia (mitofagia) pronto para agir quando há algum problema”, descreve o professor. “O lisossomo é a organela que executa a digestão de mitocôndrias danificadas.”

A pesquisa demonstrou que danos específicos nas membranas da mitocôndria ativam a mitofagia. “Paralelamente, danos nas membranas dos lisossomos inibem a execução da autofagia”, aponta Baptista. “Esses dois processos combinados conduzem a célula à morte de forma contundente, e em decorrência de danos iniciais muito pequenos, mas bem localizados.” As conclusões são apresentadas em artigo publicado na revista Autophagy.

O estudo foi realizado inicialmente como projeto de mestrado de Nayra Fernandes Santos, e desenvolvido em parceria com Waleska Martins, também pesquisadora do Cepid Redoxoma, que foi pós-doutoranda no laboratório e atualmente é professora da Universidade Anhanguera de São Paulo. O trabalho teve também a participação do professor Luis Gustavo Dias, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, nos cálculos teóricos. O Redoxoma é um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid), apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).





Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 06/11/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-biologicas/tecnica-que-usa-luz-para-induzir-celulas-doentes-ao-suicidio-e-aperfeicoada/

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Fungo que causa doença do carvão na cana “engana” metabolismo da planta

Foto: Zineb Benchekchou/Embrapa

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Na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, cientistas vêm realizando estudos no sentido de compreender os mecanismos pelos quais o fungo Sporisorium scitamineum provoca a doença chamada “carvão da cana-de-açúcar”. O grupo de pesquisa é coordenado pela professora Claudia Bastos Monteiro-Vitorello, do Departamento de Genética da Esalq.

Quando uma planta é contaminada, há a produção de uma estrutura chamada “chicote” a partir do ápice da cana-de-açúcar, e é através dela que o fungo se dispersa e contamina outras plantas. “Essa estrutura [chicote] dá o nome de carvão da cana-de-açúcar à doença, pois os esporos do fungo dão aspecto de fuligem e se espalham no campo facilmente pela ação do vento, por exemplo”, explica a professora Patricia Dayane Carvalho Schaker, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, que realizou seu doutorado e pós-doutorado na Esalq.

“Chicote” do carvão da cana-de-açúcar – Foto: Claudia Bastos Monteiro-Vitorello/ Esalq

Para infectar a cana-de-açúcar, o fungo consegue transpor o sistema de defesa da planta. Em recente trabalho publicado pelo grupo, o S. scitamineum parece ser capaz de deter as moléculas de imunidade da planta, além de colonizar os tecidos vegetais usando um arsenal de proteínas relacionado à absorção de nutrientes e de enzimas que quebram a parede celular da planta.
Segurança alimentar ameaçada

As doenças e pragas na agricultura são fatores que podem comprometer a segurança alimentar dos países. Estima-se que 10% – 16 % da produção mundial seja perdida pelo aparecimento de patógenos, segundo estudo publicado por pesquisadores da Austrália e Reino Unido.

Atualmente, o carvão da cana-de-açúcar encontra-se distribuído em quase todos os países produtores de cana, incluindo seu centro de origem, em Papua-Nova Guiné, na Oceania. A doença tem aumentada a sua incidência nos últimos anos. “As condições ambientais associadas às mudanças climáticas têm favorecido o desenvolvimento do carvão da cana-de-açúcar. No Brasil, a colheita verde da cana também é considerada um fator de risco, mantendo a incidência da doença em níveis mais elevados”, explica Claudia Bastos.

Distribuição da doença em países que cultivam cana-de-açúcar – Fonte: Monteiro-Vitorello et al. 2017

O foco de estudo do grupo é entender como se dá a interação entre o S. scitamineum e a cana-de-açúcar. “No caso dessa doença, o interesse é grande, pois esse fungo manipula o metabolismo vegetal e o desenvolvimento normal da planta para produzir a sua própria estrutura de reprodução”, ressalta a professora.

O fungo S. scitamineum se nutre das células vivas do hospedeiro e, apesar de produzir sintomas da doença, a planta sobrevive – porém, com desempenho menor que as plantas sadias.

Durante a sua pós-graduação na Esalq, a professora Patrícia estudou a mudança do metabolismo da cana-de-açúcar quando infectada pelo fungo. “Verificamos que, desde as primeiras horas de infecção nas plantas, altera-se a expressão de genes relacionados às vias de florescimento. E esse padrão se perpetua até 200 dias após a infecção, quando as plantas já emitiram chicotes. Vários desses genes simplesmente não são expressos em plantas sadias, indicando que a presença do fungo sinaliza para que a planta ative as vias de desenvolvimento floral, o que permitirá, de forma indireta, a sobrevivência do fungo e a sua perpetuação no campo”, explica Patrícia Schaker.

Ustilago scitaminea, fungo responsável pelo carvão da cana-de-açúcar – Imagem: Shivas RG; Beasley DR, McTaggart AR / Smut Fungi of Australia

Já as variedades de cana-de-açúcar que são resistentes à doença conseguem responder muito mais rapidamente à presença do invasor, e de uma maneira muito mais agressiva. Plantas resistentes conseguem reagir através de uma forte explosão oxidativa, produzindo e liberando rapidamente água oxigenada, composto que é tóxico ao fungo, além de reduzirem a atividade de enzimas antioxidantes. Esses resultados foram publicados e indicam que, em conjunto, essas medidas retardam ou prejudicam a proliferação de fungos.

A relação entre cana-de-açúcar e carvão é complexa e um dos próximos passos do grupo é a realização de testes em uma planta-modelo, como Arabidopsis thaliana, para compreender como o carvão manipula o metabolismo da cana-de-açúcar para emissão do chicote. Parte dessa pesquisa será realizada por Claudia Bastos Monteiro-Vitorello na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. Tanto para a compreensão de um modelo de interação patógeno-planta, quanto para a busca de melhor manejo em campo, o estudo do fungo do carvão da cana-de-açúcar traz desafios e oportunidades para os cientistas e a professora Claudia diz que seu laboratório está de portas abertas para alunos que topem esse desafio.
Maria Letícia Bonatelli, especial para o Jornal da USP




Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 05/11/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-agrarias/fungo-que-causa-doenca-do-carvao-na-cana-engana-metabolismo-planta/