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terça-feira, 17 de agosto de 2021

Declínio global de polinizadores ameaça os ecossistemas e a humanidade


Declínio global de polinizadores ameaça os ecossistemas e a humanidade
O desaparecimento de habitats e o uso de pesticidas estão causando a perda de espécies de polinizadores em todo o mundo, representando uma ameaça aos “serviços ecossistêmicos” que fornecem alimentos e bem-estar a muitos milhões – especialmente no Sul Global – bem como bilhões de dólares em produtividade agrícola.

University of Cambridge*

Isso é de acordo com um painel internacional de especialistas, liderado pela Universidade de Cambridge, que usou as evidências disponíveis para criar o primeiro índice de risco planetário das causas e efeitos do declínio dramático de polinizadores em seis regiões globais.

As abelhas, borboletas, vespas, besouros, morcegos, moscas e beija-flores que distribuem pólen, vitais para a reprodução de mais de 75% das safras de alimentos e plantas com flores – incluindo café, colza e a maioria das frutas – estão diminuindo visivelmente em todo o mundo, mas pouco conhece as consequências para as populações humanas.

“O que acontece com os polinizadores pode ter enormes efeitos colaterais para a humanidade”, disse a Dra. Lynn Dicks, do Departamento de Zoologia de Cambridge. “Essas pequenas criaturas desempenham papéis centrais nos ecossistemas do mundo, incluindo muitos dos quais humanos e outros animais dependem para nutrição. Se eles forem, podemos ter sérios problemas. ”

Dicks reuniu uma equipe de 20 cientistas e representantes indígenas para tentar uma avaliação inicial das causas e dos riscos de declínio de polinizadores em todo o mundo. A pesquisa foi publicada na Nature Ecology & Evolution.

As três principais causas globais da perda de polinizadores são a destruição do habitat, seguida pelo manejo da terra – principalmente pastagem, fertilizantes e monocultura de lavouras – e depois o uso generalizado de pesticidas, de acordo com o estudo. O efeito da mudança climática vem em quarto lugar, embora os dados sejam limitados.

Talvez o maior risco direto para os humanos em todas as regiões seja o “déficit de polinização das safras”: quedas na quantidade e na qualidade das safras de alimentos e biocombustíveis. Os especialistas classificaram o risco de “instabilidade” da produção agrícola como sério ou alto em dois terços do planeta – da África à América Latina – onde muitos dependem diretamente de plantações polinizadas por meio de pequenos agricultores.

“As safras dependentes de polinizadores variam mais em rendimento do que, por exemplo, os cereais”, disse Dicks. “Fenômenos climáticos cada vez mais incomuns, como chuvas e temperaturas extremas, já estão afetando as lavouras. A perda de polinizadores adiciona mais instabilidade – é a última coisa que as pessoas precisam. ”

Um importante relatório de 2016 para o qual Lynn Dicks contribuiu sugeriu que houve um aumento de até 300% na produção de alimentos dependente de polinizadores na última metade do século passado, com um valor de mercado anual que pode chegar a US $ 577 bilhões.

A redução da diversidade de espécies foi vista como um risco global de alto escalão para os humanos, que não só põe em risco a segurança alimentar, mas também uma perda de “valor estético e cultural”. Essas espécies têm sido emblemas da natureza por milênios, argumentam os especialistas, e muito pouca consideração é dada a como seus declínios afetam o bem-estar humano.

“Os polinizadores têm sido fontes de inspiração para arte, música, literatura e tecnologia desde o início da história humana”, disse Dicks. “Todas as principais religiões do mundo têm passagens sagradas sobre as abelhas. Quando a tragédia atingiu Manchester em 2017, as pessoas procuraram as abelhas como um símbolo da força da comunidade. ”

“Os polinizadores costumam ser os representantes mais imediatos do mundo natural em nossas vidas diárias. Essas são as criaturas que nos cativam desde cedo. Percebemos e sentimos sua perda. Onde estão as nuvens de borboletas no jardim do final do verão, ou a miríade de mariposas voando pelas janelas abertas à noite? ”

“Estamos em uma crise de extinção de espécies, mas para muitas pessoas isso é intangível. Talvez os polinizadores sejam o termômetro da extinção em massa ”, disse Dicks.

A perda de acesso a “polinizadores gerenciados”, como colmeias industriais, foi classificada como um alto risco para a sociedade norte-americana, onde eles aumentam as safras, incluindo maçãs e amêndoas, e sofreram sérios declínios de doenças e ‘desordem do colapso das colônias’.

O impacto do declínio dos polinizadores nas plantas e frutas silvestres foi considerado um sério risco na África, Ásia-Pacífico e América Latina – regiões com muitos países de baixa renda, onde as populações rurais dependem de alimentos silvestres.

Na verdade, a América Latina era vista como a região com mais a perder. As safras polinizadas por insetos, como o caju, a soja, o café e o cacau, são essenciais para o abastecimento alimentar regional e o comércio internacional em todo o continente. É também o lar de grandes populações indígenas dependentes de plantas polinizadas, com espécies polinizadoras, como beija-flores, incorporadas na cultura oral e na história.

A Ásia-Pacífico foi outra região global onde o declínio dos polinizadores foi considerado um risco sério para o bem-estar humano. China e Índia dependem cada vez mais de frutas e vegetais que precisam de polinizadores, alguns dos quais agora exigem que as pessoas polinizem manualmente.

Os pesquisadores alertam que não se sabe o suficiente sobre o estado das populações de polinizadores no Sul Global, já que a evidência de declínio ainda vem principalmente de regiões ricas como a Europa (onde pelo menos 37% das espécies de abelhas e 31% das borboletas estão em declínio) . Os déficits de polinização e a perda de biodiversidade foram vistos como os maiores riscos para os europeus, com potencial para afetar as lavouras que variam de morangos a colza.

O Dr. Tom Breeze, coautor e Pesquisador em Economia Ecológica da University of Reading, disse: “Este estudo destaca o quanto ainda não sabemos sobre o declínio dos polinizadores e os impactos que isso tem nas sociedades humanas, particularmente em partes do Desenvolvendo o mundo.

“Embora tenhamos dados sobre o desempenho dos polinizadores em regiões como a Europa, existem lacunas de conhecimento significativas em muitas outras. É necessária mais pesquisa em nível global para que possamos realmente entender os problemas que enfrentamos e como podemos resolvê-los. ”

Referência:

Dicks, L.V., Breeze, T.D., Ngo, H.T. et al. A global-scale expert assessment of drivers and risks associated with pollinator decline. Nat Ecol Evol (2021). https://doi.org/10.1038/s41559-021-01534-9

Henrique Cortez *, tradução e edição.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/08/2021




Autor: Henrique Cortez
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 17/08/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/08/17/declinio-global-de-polinizadores-ameaca-os-ecossistemas-e-a-humanidade/

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Pesquisadores investigam impactos da introdução do tucunaré em outros ecossistemas

O tucunaré é um dos principais recursos pesqueiros da Amazônia. Chegando a medir cerca de um metro de comprimento, ele possui uma mancha arredondada perto da cauda, conhecida como ocelo. Com grande apelo na pesca esportiva, a espécie conhecida como tucunaré-amarelo (Cichla ocellaris) foi sendo introduzida ao longo das últimas décadas, de forma indiscriminada, em reservatórios e açudes de outras regiões brasileiras e fora do País, gerando impactos ambientais inesperados. Um estudo conduzido pelos pesquisadores da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio) Ana Clara Sampaio Franco e Luciano Neves dos Santos investigou os desequilíbrios causados pela introdução dessa espécie de peixe sobre as comunidades de peixes nativos, analisando de forma abrangente esses impactos em diversos países da América do Sul.

A pesquisa teve como desdobramento a publicação de um artigo na revista científica internacional Science of the Total Environmental, uma publicação do grupo Elsevier. Intitulado Ecological impacts of an invasive top predator fish across South America, o artigo é assinado pela dupla de pesquisadores da UniRio em colaboração com Emili García-Berthou, da Universidade de Girona, na Espanha, reconhecido pela sua expertise no estudo de espécies invasoras. Ana Clara recebe apoio da FAPERJ para o desenvolvimento de suas pesquisas, por meio do programa Pós-Doutorado Nota 10, enquanto o professor Luciano Santos, supervisor da pós-doutoranda e atual coordenador do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Neotropical (PPGBIO), da UniRio, foi contemplado pela Fundação com o programa Jovem Cientista do Nosso Estado (JCNE).



O tucunaré é originalmente uma espécie típica da região amazônica e da Bacia Tocantins-Araguaia, mas ele foi sendo introduzido pelo homem, até a década de 1990, em várias regiões brasileiras. “Existiam programas oficiais do governo brasileiro, já nos anos 1950, que preconizavam a introdução do tucunaré em represas recém-construídas, com o objetivo de repor numericamente as espécies de peixe afetadas pelo represamento. Porém, não se sabia na época que ele causaria impactos negativos sobre as espécies de peixes nativas. A partir dos anos 2000, o tucunaré foi deixando de ser introduzido em reservatórios por programas oficiais e começou a ser disseminado, furtivamente, em ambientes aquáticos para pesca esportiva, em todo o País”, contextualizou Ana Clara. Com uma capacidade de dispersão muito alta, a expansão dos tucunarés introduzidos nesses locais ocorre em detrimento de outras espécies que já habitavam o mesmo ecossistema. “No Panamá, um estudo comprovou que eles dominaram o lago Gatún, no vale do rio Chagres, o que acarretou na predação de espécies de peixes menores, usadas para a alimentação dos tucunarés e que, por sua vez, se alimentavam de larvas de mosquitos. Como consequência, a malária voltou a assolar a região”, citou Santos.

O estudo fluminense se destaca pela abrangência com que o tema foi investigado. “É o primeiro projeto de pesquisa que considerou dados sobre a introdução do tucunaré Cichla ocellaris em toda a América do Sul”, destacou Santos, que é o coordenador no Laboratório de Ictiologia Teórica e Aplicada (LICTA) da UniRio. “Analisamos uma escala geográfica ampla, incluindo rios, lagos e reservatórios, e não apenas um desses ambientes aquáticos, como costuma ocorrer em outros estudos. Foram 62 áreas analisadas ao todo, sendo 30 em áreas nativas e 32 sistemas em áreas onde o tucunaré foi introduzido. Avaliamos também dados secundários, com base na literatura, de países como Brasil, Paraguai, Bolívia, Peru e Guiana”, detalhou Ana Clara.


Os pesquisadores da UniRio Luciano Santos e Ana Clara Franco analisaram dados sobre a introdução do tucunaré em ecossistemas de países de toda a América do Sul (Foto: Divulgação)


O trabalho aponta que o barramento de rios e a introdução de espécies não-nativas representam, na atualidade, as principais ameaças à diversidade de peixes nativos de ambientes de água doce. “A construção de barragens e a introdução de espécies não-nativas, como o tucunaré-amarelo, geram impactos comprovados sobre a diversidade taxonômica e funcional da ictiofauna nativa”, disse Ana. A introdução do tucunaré nesses ambientes gera desequilíbrios em todo o ecossistema. Eles agem como uma espécie invasora e passam a competir com as espécies nativas por alimentos, e a serem predadores de outras. “Em locais onde o tucunaré foi introduzido há mais tempo, como por exemplo no reservatório de Lajes, localizado entre os municípios de Piraí e Rio Claro, no Sul Fluminense, os impactos negativos são mais evidentes. Lá, que foi um dos primeiros locais onde ele começou a ser introduzido fora da Amazônia, nos anos 1950, observamos uma quantidade bem menor de espécies nativas, que foram sendo substituídas por outras espécies invasoras, além do tucunaré, como a tilápia e a pescada”, disse Santos.

Segundo a pesquisa, os impactos da introdução do tucunaré nas áreas pesquisadas foram maiores em reservatórios do que em rios. “Comparamos os tipos de sistema e a introdução do tucunaré como espécie invasora gera um efeito negativo maior em reservatórios do que em rios, pois os primeiros são ambientes lênticos, de água parada, que favorecem o surgimento de populações mais numerosas de tucunarés, e, em consequência, uma menor riqueza de espécies nativas. Nos rios há uma abundância relativa menor de tucunarés invasores, eles não chegam a se tornar dominantes na comunidade e uma maior riqueza de espécies é preservada”, explicou Santos.

Os pesquisadores esperam que o estudo ajude a nortear a formulação de políticas públicas mais adequadas para o setor pesqueiro. “Nesse momento presenciamos algumas políticas públicas elaboradas sem o respaldo do conhecimento acadêmico, que naturalizam a presença de espécies invasoras, como a Lei do Tucunaré, que proíbe o abate de tucunaré nas águas da represa da usina hidrelétrica de Paraibuna, em São Paulo, ignorando os impactos que eles podem gerar sobre a comunidade de espécies nativas”, ponderou Ana Clara. “Esperamos que a pesquisa seja uma fonte de informações para subsidiar a implantação de medidas de manejo e mitigação sustentáveis das atividades potencialmente impactantes no setor, por parte dos órgãos responsáveis por esses sistemas”, concluiu.







Autor: Débora Motta
Fonte: FAPERJ
Sítio Online da Publicação: FAPERJ
Data: 21/05/2021
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4212.2.4

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Pesquisadores investigam impactos da introdução do tucunaré em outros ecossistemas


Exemplares do tucunaré-amarelo (Cichla ocellaris): espécie causa desequilíbrios ambientais quando disseminada em outros ecossistemas (Foto: Divulgação)

O tucunaré é um dos principais recursos pesqueiros da Amazônia. Chegando a medir cerca de um metro de comprimento, ele possui uma mancha arredondada perto da cauda, conhecida como ocelo. Com grande apelo na pesca esportiva, a espécie conhecida como tucunaré-amarelo (Cichla ocellaris) foi sendo introduzida ao longo das últimas décadas, de forma indiscriminada, em reservatórios e açudes de outras regiões brasileiras e fora do País, gerando impactos ambientais inesperados. Um estudo conduzido pelos pesquisadores da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio) Ana Clara Sampaio Franco e Luciano Neves dos Santos investigou os desequilíbrios causados pela introdução dessa espécie de peixe sobre as comunidades de peixes nativos, analisando de forma abrangente esses impactos em diversos países da América do Sul.

A pesquisa teve como desdobramento a publicação de um artigo na revista científica internacional Science of the Total Environmental, uma publicação do grupo Elsevier. Intitulado Ecological impacts of an invasive top predator fish across South America, o artigo é assinado pela dupla de pesquisadores da UniRio em colaboração com Emili García-Berthou, da Universidade de Girona, na Espanha, reconhecido pela sua expertise no estudo de espécies invasoras. Ana Clara recebe apoio da FAPERJ para o desenvolvimento de suas pesquisas, por meio do programa Pós-Doutorado Nota 10, enquanto o professor Luciano Santos, supervisor da pós-doutoranda e atual coordenador do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Neotropical (PPGBIO), da UniRio, foi contemplado pela Fundação com o programa Jovem Cientista do Nosso Estado (JCNE).

O tucunaré é originalmente uma espécie típica da região amazônica e da Bacia Tocantins-Araguaia, mas ele foi sendo introduzido pelo homem, até a década de 1990, em várias regiões brasileiras. “Existiam programas oficiais do governo brasileiro, já nos anos 1950, que preconizavam a introdução do tucunaré em represas recém-construídas, com o objetivo de repor numericamente as espécies de peixe afetadas pelo represamento. Porém, não se sabia na época que ele causaria impactos negativos sobre as espécies de peixes nativas. A partir dos anos 2000, o tucunaré foi deixando de ser introduzido em reservatórios por programas oficiais e começou a ser disseminado, furtivamente, em ambientes aquáticos para pesca esportiva, em todo o País”, contextualizou Ana Clara. Com uma capacidade de dispersão muito alta, a expansão dos tucunarés introduzidos nesses locais ocorre em detrimento de outras espécies que já habitavam o mesmo ecossistema. “No Panamá, um estudo comprovou que eles dominaram o lago Gatún, no vale do rio Chagres, o que acarretou na predação de espécies de peixes menores, usadas para a alimentação dos tucunarés e que, por sua vez, se alimentavam de larvas de mosquitos. Como consequência, a malária voltou a assolar a região”, citou Santos.

O estudo fluminense se destaca pela abrangência com que o tema foi investigado. “É o primeiro projeto de pesquisa que considerou dados sobre a introdução do tucunaré Cichla ocellaris em toda a América do Sul”, destacou Santos, que é o coordenador no Laboratório de Ictiologia Teórica e Aplicada (LICTA) da UniRio. “Analisamos uma escala geográfica ampla, incluindo rios, lagos e reservatórios, e não apenas um desses ambientes aquáticos, como costuma ocorrer em outros estudos. Foram 62 áreas analisadas ao todo, sendo 30 em áreas nativas e 32 sistemas em áreas onde o tucunaré foi introduzido. Avaliamos também dados secundários, com base na literatura, de países como Brasil, Paraguai, Bolívia, Peru e Guiana”, detalhou Ana Clara.


Os pesquisadores da UniRio Luciano Santos e Ana Clara Franco analisaram dados sobre a introdução do tucunaré em ecossistemas de países de toda a América do Sul (Foto: Divulgação)


O trabalho aponta que o barramento de rios e a introdução de espécies não-nativas representam, na atualidade, as principais ameaças à diversidade de peixes nativos de ambientes de água doce. “A construção de barragens e a introdução de espécies não-nativas, como o tucunaré-amarelo, geram impactos comprovados sobre a diversidade taxonômica e funcional da ictiofauna nativa”, disse Ana. A introdução do tucunaré nesses ambientes gera desequilíbrios em todo o ecossistema. Eles agem como uma espécie invasora e passam a competir com as espécies nativas por alimentos, e a serem predadores de outras. “Em locais onde o tucunaré foi introduzido há mais tempo, como por exemplo no reservatório de Lajes, localizado entre os municípios de Piraí e Rio Claro, no Sul Fluminense, os impactos negativos são mais evidentes. Lá, que foi um dos primeiros locais onde ele começou a ser introduzido fora da Amazônia, nos anos 1950, observamos uma quantidade bem menor de espécies nativas, que foram sendo substituídas por outras espécies invasoras, além do tucunaré, como a tilápia e a pescada”, disse Santos.

Segundo a pesquisa, os impactos da introdução do tucunaré nas áreas pesquisadas foram maiores em reservatórios do que em rios. “Comparamos os tipos de sistema e a introdução do tucunaré como espécie invasora gera um efeito negativo maior em reservatórios do que em rios, pois os primeiros são ambientes lênticos, de água parada, que favorecem o surgimento de populações mais numerosas de tucunarés, e, em consequência, uma menor riqueza de espécies nativas. Nos rios há uma abundância relativa menor de tucunarés invasores, eles não chegam a se tornar dominantes na comunidade e uma maior riqueza de espécies é preservada”, explicou Santos.

Os pesquisadores esperam que o estudo ajude a nortear a formulação de políticas públicas mais adequadas para o setor pesqueiro. “Nesse momento presenciamos algumas políticas públicas elaboradas sem o respaldo do conhecimento acadêmico, que naturalizam a presença de espécies invasoras, como a Lei do Tucunaré, que proíbe o abate de tucunaré nas águas da represa da usina hidrelétrica de Paraibuna, em São Paulo, ignorando os impactos que eles podem gerar sobre a comunidade de espécies nativas”, ponderou Ana Clara. “Esperamos que a pesquisa seja uma fonte de informações para subsidiar a implantação de medidas de manejo e mitigação sustentáveis das atividades potencialmente impactantes no setor, por parte dos órgãos responsáveis por esses sistemas”, concluiu.




Autor: Débora Motta
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 21/05/2021
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=4212.2.4


quarta-feira, 28 de abril de 2021

Integridade dos ecossistemas é determinante na redução das doenças infecciosas emergentes


Integridade dos ecossistemas é determinante na redução das doenças infecciosas emergentes

A integridade do ecossistema também ajuda a controlar as doenças, apoiando a diversidade biológica e dificultando a disseminação, a ampliação e a dominação dos patógenos

ONU
Você sabia que cerca de 60% das doenças infecciosas humanas e 75% das doenças infecciosas emergentes são zoonóticas, ou seja, transmitidas através de animais?

Alguns exemplos que surgiram recentemente são o Ebola, a gripe aviária, a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), o Vírus Nipah, a Febre do Vale Rift, a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), a Febre do Nilo Ocidental, o Zikavírus e, agora, o coronavírus – todos ligados à atividade humana.

O surto de Ebola na África Ocidental é resultado de perdas florestais que levaram a vida selvagem a se aproximar dos assentamentos humanos; a gripe aviária está relacionada à criação intensiva de aves e o Vírus Nipah surgiu devido à intensificação da suinocultura e à produção de frutas na Malásia.

Cientistas e especialistas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) estão reunindo os dados científicos mais recentes sobre o COVID-19 – tanto o que se sabe quanto o que não se sabe.

Embora a origem da pandemia e seu caminho de disseminação ainda não estejam claros, listamos seis pontos importantes que vale a pena conhecer:
A interação de seres humanos ou rebanhos com animais selvagens pode expor-nos à disseminação de possíveis patógenos. Para muitas zoonoses, os rebanhos servem de ponte epidemiológica entre a vida selvagem e as doenças humanas.
Os fatores determinantes do surgimento de zoonoses são as transformações do meio ambiente – geralmente resultado das atividades humanas, que vão desde a alteração no uso da terra até a mudança climática; das mudanças nos hospedeiros animais e humanos aos patógenos em constante evolução para explorar novos hospedeiros.
As doenças associadas aos morcegos surgiram devido à perda de habitat por conta do desmatamento e da expansão agrícola. Esses mamíferos desempenham papéis importantes nos ecossistemas, sendo polinizadores noturnos e predadores de insetos.
A integridade do ecossistema evidencia a saúde e o desenvolvimento humano. As mudanças ambientais induzidas pelo homem modificam a estrutura populacional da vida selvagem e reduzem a biodiversidade, resultando em condições ambientais que favorecem determinados hospedeiros, vetores e/ou patógenos.
A integridade do ecossistema também ajuda a controlar as doenças, apoiando a diversidade biológica e dificultando a disseminação, a ampliação e a dominação dos patógenos.
É impossível prever de onde ou quando virá o próximo surto. Temos cada vez mais evidências sugerindo que esses surtos ou epidemias podem se tornar mais frequentes à medida que o clima continua a mudar.



“Nunca tivemos tantas oportunidades para as doenças passarem de animais selvagens e domésticos para pessoas”, disse a diretora executiva do PNUMA, Inger Andersen. “A perda contínua dos espaços naturais nos aproximou demasiadamente de animais e plantas que abrigam doenças que podem ser transmitidas para os seres humanos”.

A equipe do PNUMA está trabalhando continuamente nessas questões importantes. As informações compartilhadas pela Divisão de Ciência estão disponíveis online com informações adicionais, incluindo uma lista de perguntas ainda não respondidas.



A natureza está em crise, ameaçada pela perda de biodiversidade e de habitat, pelo aquecimento global e pela poluição tóxica. Falhar em agir é falhar com a humanidade. Enfrentar a nova pandemia de coronavírus (COVID-19) e nos proteger das futuras ameaças globais requer o gerenciamento correto de resíduos médicos e químicos perigosos, a administração consistente e global da natureza e da biodiversidade e o comprometimento com a reconstrução da sociedade, criando empregos verdes e facilitando a transição para uma economia neutra em carbono. A humanidade depende de ação agora para um futuro resiliente e sustentável.


Nota da redação: Em relação ao tema “Covid-19/Coronavírus e Meio Ambiente” sugerimos que leia, também:
Coronavírus E O Meio Ambiente
Fatos Sobre Coronavírus E Meio Ambiente
Coronavírus, Meio Ambiente E Humanidade: O Que Temos A (Re)Aprender?
Coronavírus: Qual A Relação Do Meio Ambiente Com A Pandemia?
Como O Isolamento Social Tem Impactado No Meio Ambiente?
Os Efeitos Que Já Podemos Ver Da Pandemia Sobre O Meio-Ambiente
Covid-19 E Outros ‘Desserviços’ Ecossistêmicos
Como As Lições Do Covid-19 Podem Impedir O Colapso Ambiental


Da ONU, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/04/2020





Autor: ONU
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 28/04/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/04/28/integridade-dos-ecossistemas-e-determinante-na-reducao-das-doencas-infecciosas-emergentes/

segunda-feira, 29 de março de 2021

Todos os anos, a humanidade despeja o equivalente a seu próprio peso em plásticos nos ecossistemas

Em 2018, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) uniu forças com a Fundação Ellen MacArthur para enfrentar o que os especialistas ambientais chamam de um dos vícios mais perigosos do mundo: o plástico de uso único.

PNUMA

Agora, quase na metade do prazo de sete anos estabelecido no Compromisso Global por uma Nova Economia do Plástico, o PNUMA e seus parceiros observam que, embora tenha havido progresso, o mundo precisa acelerar as ações para conter a poluição por plásticos.

Todos os anos, a humanidade despeja o equivalente a seu próprio peso em plásticos nos ecossistemas. São 300 milhões de toneladas por ano que asfixiam os cursos d’água e os mares, entopem as ruas, prejudicam a vida selvagem e, por fim, causam sérios danos à saúde pública.

Para conter essa maré, o PNUMA e a Fundação Ellen MacArthur pressionaram os tomadores de decisão dos setores público e privado a se comprometerem a cultivar uma economia circular em torno do plástico, uma economia na qual o plástico é feito para durar e ser reutilizado – não simplesmente jogado fora. Isto envolveria novos produtos e modelos de negócios, bem como sistemas aprimorados de reciclagem e compostagem.


Todos os anos, o rastro tóxico do crescimento econômico – poluição e desperdício – resulta na morte prematura de milhões de pessoas ao mesmo tempo em que causa danos incalculáveis ao planeta. Elisa Tonda, PNUMA


Um relatório de progresso publicado no final do ano passado, encontrou uma melhoria demonstrável em um grande número de métricas em 2019:
O número de signatários, incluindo produtores de plásticos, instituições financeiras e governos, aumentou em 25% para quase 500.
Duas áreas registraram progressos significativos: o conteúdo reciclado das embalagens plásticas cresceu 22%, e 81% das empresas e 100% dos signatários do governo se comprometeram a eliminar gradualmente as piores categorias de embalagens plásticas, incluindo PVC e sacolas e canudos de uso único.
56% dos signatários têm ou estão desenvolvendo pilotos para testar modelos de reutilização em suas cadeias de valor.

“Todos os anos, o rastro tóxico da poluição e dos resíduos resulta na morte prematura de milhões de pessoas enquanto causam danos incalculáveis ao planeta”, diz Elisa Tonda, Chefe da Unidade de Consumo e Produção do PNUMA. “O mundo tem feito progressos nos últimos anos na batalha contra a poluição plástica, mas ainda há muito trabalho a ser feito”.

Nos últimos 50 anos, a produção de plástico aumentou mais de 22 vezes e cerca de US$180 bilhões foram investidos em instalações de produção somente na última década. Enquanto isso, a pandemia global da COVID-19 causou um surto de máscaras médicas plásticas, luvas e óculos de proteção, enquanto muitas das políticas destinadas a limitar produtos plásticos de uso único foram revertidas.

Embora o setor privado seja responsável pela maior parte dos signatários do Compromisso Global, os especialistas dizem que uma de suas contribuições mais valiosas é fornecer aos governos uma estrutura para desenvolver padrões para uma economia de plástico circular.

Como disse Tania Bishara, do Ministério do Meio Ambiente do Chile: “Desde sua assinatura, o Compromisso Global nos ajudou a trabalhar em iniciativas para uma transformação de nossa relação com o plástico e a trabalhar com atores do setor privado, sociedade civil, municípios e academia para desenvolver um roteiro de economia circular”.


Mulheres em busca de plásticos para reciclar no lixão de Dandora, Nairobi, Quênia. Foto: Duncan Moore/PNUMA


Combinar instrumentos políticos para alcançar o sucesso

Enquanto a Fundação Ellen MacArthur acompanha o progresso no setor privado, o PNUMA tem apoiado os 20 governos nacionais, subnacionais e municipais que até agora aderiram ao Compromisso Global de desenvolver políticas para limitar a poluição plástica.

“O compromisso tem sido integral ao nível local”, diz Cristina Helena Fabris Pinheiro, uma funcionária municipal de São Paulo, Brasil. Ela reuniu o Conselho Municipal e a Prefeitura para produzir instrumentos, especialmente estruturas legais, sobre a redução e não geração de produtos plásticos de uso único. Isso inclui decretos municipais que proíbem a distribuição de canudos plásticos e utensílios plásticos de uso único por estabelecimentos comerciais.

Em Copenhague, o Compromisso Global está ajudando as autoridades municipais a limitar os produtos plásticos de uso único em grandes eventos esportivos que acontecem na cidade, como a Euro Copa em 2021.

“Estes eventos são organizados por organizações privadas e prestadores de serviços privados. Trabalhar sob uma estrutura como o Compromisso Global para os mesmos objetivos e ter a mesma linguagem é uma grande ajuda”, diz Malene Møhl, da Administração Técnica e Ambiental da cidade.

O relatório 2020 também destaca a Responsabilidade Estendida do Produtor, ou REP, um tipo de abordagem política integrada que está começando a se impor com os governos em todas as escalas. Estas políticas colocam uma responsabilidade compartilhada pelo fim da vida útil dos produtos plásticos sobre os produtores de plástico e outros atores da cadeia de fornecimento, em vez de colocar o fardo sobre o público. A REP adequadamente projetada cria fortes incentivos para que os produtores projetem produtos que possam ser mantidos na economia, em vez de serem descartados, bem como um meio para que possam ser reciclados em novos produtos ou novos usos.

Cerca de um quarto dos signatários governamentais estão desenvolvendo políticas em torno da REP, principalmente na Holanda e no Chile.

“Estamos atualmente trabalhando na aprovação do regulamento de embalagens REP, que está em sua fase final”, diz Bishara, do Chile. Espera-se que o regulamento inclua metas para que os produtores aumentem a taxa de reciclagem de embalagens plásticas domésticas de 4,5% para 45%, bem como a obrigação de cobrir 80% das residências com coleta porta-a-porta das embalagens.

Apenas o início

O relatório de progresso deixa claro que ainda há um longo caminho a percorrer. Ele descobre que a COVID-19 expôs ainda mais os inconvenientes da economia linear. A crescente demanda por embalagens para alimentos e plástico bolha – a maioria não é reciclável – e a inversão de políticas que limitam os produtos plásticos de uso único são um problema contínuo.

O mundo não está no caminho certo para cumprir as metas do Compromisso Global para 2025. O progresso na expansão da reciclabilidade das embalagens plásticas e o fim da necessidade de produtos plásticos de uso único ainda está se movendo muito lentamente, diz o relatório. Além disso, as disparidades nas taxas de progresso entre os signatários são acentuadas.

“Quando se trata de poluição plástica, não há fronteiras”, disse Tonda do PNUMA. “Precisamos de uma abordagem comum do consumo e produção insustentáveis de plástico e da ação transformadora em todos os níveis. As parcerias e o multilateralismo são críticos”.


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 29/03/2021




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 29/03/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/03/27/todos-os-anos-a-humanidade-despeja-o-equivalente-a-seu-proprio-peso-em-plasticos-nos-ecossistemas/