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quarta-feira, 15 de março de 2023

Uma injeção de anticorpos pode um dia ajudar pessoas com endometriose

Um tratamento experimental para a endometriose, uma doença ginecológica dolorosa que afeta cerca de 190 milhões de pessoas em todo o mundo, pode um dia oferecer uma nova esperança para aliviar os sintomas.



Women with endometriosis can experience debilitating pelvic pain. Treatment options are limited.

VIROJT CHANGYENCHAM/MOMENT/GETTY IMAGES

As injeções mensais de anticorpos reverteram os sinais indicadores de endometriose em macacos, relatam os pesquisadores em 22 de fevereiro na Science Translational Medicine. O anticorpo tem como alvo a IL-8, uma molécula que provoca inflamação dentro das lesões dispersas, às vezes sangrantes, que marcam a doença. Depois de neutralizar a IL-8, essas lesões características encolhem, descobriu a equipe.


O novo tratamento é “bastante potente”, diz Philippa Saunders, uma cientista reprodutiva da Universidade de Edimburgo que não esteve envolvida no trabalho. Os autores do estudo não relataram uma cura, ela aponta, mas seu anticorpo parece ter um impacto. “Eu acho que é realmente muito promissor”, diz ela.


Muitos cientistas acreditam que a endometriose ocorre quando pedaços do revestimento uterino – o endométrio – se desprendem durante a menstruação. Em vez de sair pela vagina, eles viajam na outra direção: subindo pelas trompas de falópio. Esses pedaços de tecido então atravessam o corpo, gerando lesões onde aterrissam. Eles se aglomeram nos ovários, trompas de falópio, bexiga e outros pontos fora do útero e ganham vida própria, diz Saunders.


Um diagrama do órgão reprodutor interno de uma mulher mostrando lesões de endometriose no útero, ovários e bexiga.

A doença ginecológica endometriose é marcada por lesões reveladoras (vermelhas) que podem ocorrer no útero (rosa), ovários (branco), bexiga (amarelo) e outros locais do corpo.

TUMEGGY/BIBLIOTECA DE FOTOS CIENTÍFICAS/GETTY IMAGES

As lesões podem desenvolver células nervosas, formar protuberâncias duras de tecido e até mesmo sangrar durante os ciclos menstruais. Eles também podem desencadear crises crônicas de dor pélvica. Se você tem endometriose, pode sentir “dor ao urinar, dor ao defecar, dor ao fazer sexo, dor ao se movimentar”, diz Saunders. As pessoas com a doença também podem lutar contra a infertilidade e a depressão, acrescenta ela. "É realmente desagradável."


Uma vez diagnosticados, os pacientes enfrentam uma escassez de opções de tratamento – não há cura, apenas terapias para aliviar os sintomas. A cirurgia para remover as lesões pode ajudar, mas os sintomas geralmente voltam.


A doença afeta pelo menos 10% das meninas, mulheres e homens trans em seus anos reprodutivos, diz Saunders. E as pessoas normalmente sofrem por anos – cerca de oito em média – antes de um diagnóstico. “Os médicos consideram a dor pélvica menstrual uma coisa muito comum”, diz Ayako Nishimoto-Kakiuchi, farmacologista da Chugai Pharmaceutical Co. Ltd. em Tóquio. A endometriose “é subestimada na clínica”, diz ela. “Acredito firmemente que esta doença foi pouco estudada.”


Drogas hormonais que interrompem a ovulação e a menstruação também podem oferecer alívio, diz Serdar Bulun, endocrinologista reprodutivo da Northwestern University Feinberg School of Medicine, em Chicago, não envolvido no novo estudo. Mas essas drogas vêm com efeitos colaterais e não são ideais para pessoas que estão tentando engravidar. “Eu vejo esses pacientes todos os dias”, diz ele. “Vejo o quanto eles sofrem e sinto que não estamos fazendo o suficiente.”


A equipe de Nishimoto-Kakiuchi projetou um anticorpo que se agarra ao fator inflamatório IL-8, uma proteína que os cientistas apontaram anteriormente como um potencial culpado da doença. O anticorpo age como um coletor de lixo, diz Nishimoto-Kakiuchi. Ele pega IL-8, entrega-o ao maquinário de eliminação de resíduos da célula e, em seguida, sai para capturar mais IL-8.


A equipe testou o anticorpo em macacos cynomolgus que foram modificados cirurgicamente para ter a doença. (A endometriose raramente aparece espontaneamente nesses macacos, descobriram os cientistas anteriormente após a triagem de mais de 600 fêmeas.) A equipe tratou 11 macacos com a injeção de anticorpo uma vez por mês durante seis meses. Nesses animais, as lesões murcharam e o tecido adesivo que as cola ao corpo também se afinou. Antes deste estudo, diz Nishimoto-Kakiuchi, a equipe não achava que tais sinais de endometriose fossem reversíveis.


A monkey that spontaneously developed endometriosis had a lesion (red tissue near the blue arrow, left image) that shrunk (blue arrow in right image) after 12 months of treatment with an antibody that targets the inflammatory factor IL-8.A. NISHIMOTO-KAKIUCHI ET AL/SCIENCE TRANSLATION MEDICINE 2023


Autor: Meghan Rosen
Fonte: sciencenews
Sítio Online da Publicação: sciencenews
Data: February 22, 2023
Publicação Original: https://www.sciencenews.org/article/antibody-injection-help-endometriosis



sexta-feira, 22 de julho de 2022

‘Diziam que era dor normal de mulher’: o diagnóstico atrasado que levou à menopausa cirúrgica



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Pacientes que precisaram retirar ovários devido à endometriose dizem que, culturalmente, pessoas normalizam as dores da mulher

Aos 32 anos, a artesã Adriana Tigre começou a ter sintomas típicos das mulheres que chegam à menopausa. Episódios de calor intenso, irritabilidade, alterações no sono e no humor…

Normalmente relacionados ao período que engloba o último ciclo menstrual das mulheres, entre os 45 e 55 anos, os sinais apareceram mais cedo na vida da paulistana, hoje com 37, por causa da retirada dos ovários — uma antecipação conhecida como "menopausa cirúrgica".

O procedimento, que pode trazer riscos à vida da mulher, deve ser evitado. É indicado em casos específicos, alerta a ginecologista Ceres Resende, coordenadora da área de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília (UnB) (leia mais abaixo).

Sofrendo com "dores incapacitantes e insuportáveis" desde a primeira menstruação, aos 12 anos, Adriana passou pelo procedimento após ser diagnosticada tardiamente com um quadro grave de uma doença que afeta uma a cada dez brasileiras, segundo o Ministério da Saúde: a endometriose.

O problema ocorre quando um tecido semelhante ao revestimento do útero cresce em outras partes do corpo — geralmente, ao redor dos órgãos reprodutivos, intestino e bexiga. Não há causa conhecida ou cura.

Recentemente, a cantora Anitta compartilhou conviver com a doença, o que levou a uma disparada na busca e nas postagens sobre assunto na internet e nas redes sociais brasileiras.

Dor normal?

Desde adolescente, Adriana relata que ouvia de familiares, amigas e médicos que o que ela sentia durante a menstruação era uma "dor normal, de toda mulher".



CRÉDITO,ARQUIVO PESSOAL
Legenda da foto,

Adriana entrou em menopausa cirúrgica aos 32 anos, após a remoção dos ovários


"Eu me questionava se a dor era tão forte assim, me sentia uma mulher fraca por não aguentar aquela dor, já que as outras aguentavam. Mas a verdade é que não era normal. Eu só melhorava, em algumas crises, quando tomava morfina", descreve.


A artesã conta que precisou ir diversas vezes ao hospital com dores em que "pedia para morrer" e passou por dezenas de médicos que "minimizavam" seu sofrimento. Foi só depois de entrar para um grupo de mulheres do Facebook que ela viu uma possibilidade de diagnóstico para entender o que ela sentia.


"Eu nunca tinha ouvido falar que endometriose existia."


Uma ultrassonografia transvaginal confirmou a suspeita. "Quando descobri, já estava no estágio 4, que é a severa. Tinha atingido a bexiga, o intestino, invadido camadas de músculo", conta. A média de atraso para descoberta de endometriose é de oito anos, segundo a médica Ceres Resende.


Adriana precisou passar por uma laparoscopia, procedimento cirúrgico para a retirada de focos da endometriose e, em casos muito graves, dos ovários.

'Médicos normalizam a cólica'

A produtora e designer Ana Fontelle, 53 anos, do Rio de Janeiro, viveu uma situação parecida. Ela conta que, desde os 12 anos com dores no período menstrual e com episódios graves de sangramentos, ela ouvia que precisava "aguentar" sua condição feminina.


"Muitos médicos normalizam a cólica, passam remédios fortes e dizem que é isso. Fui levada a acreditar que era algo normal."


Quando ela perdeu o movimento da perna esquerda e teve um inchaço grande na barriga, em 2015, uma investigação médica levou à descoberta da endometriose. Inicialmente, fez tratamento para o nervo ciático, com acunpuntura e idas ao ortopedista.


"Uma médica, que digo que foi minha salvadora, descobriu que a endometriose já tinha se espalhado para outros órgãos, como intestino, afetando até os nervos", diz.


Em uma cirurgia de sete horas, Ana perdeu dez centímetros do intestino grosso e teve que remover apêndice, útero e também os ovários.


Aos 47 anos, ela entrou em menopausa cirúrgica. Apesar da idade, não tinha os sintomas do climatério, que é o período que antecede e sucede a menopausa natural.

Só em casos extremos


Apesar de casos relacionados à endometriose, a maioria das pacientes que precisam retirar os ovários e entram em menopausa cirúrgica o fazem por outros motivos, explica Ceres Resende, da UnB.


Os principais são os cânceres de ovário e de endométrio, tumores benignos que ocupam todo o órgão, ou ainda pacientes que se submetem ao procedimento porque foi identificado por um profissional que têm alto risco de desenvolver câncer (identificado com exames genéticos, como o caso da atriz Angelina Jolie).



CRÉDITO,MUHAMMAD HAMED/REUTERS
Legenda da foto,

Angelina Jolie fez cirurgia para retirar ovários aos 39 anos, por risco de desenvolver câncer


Nos casos de endometriose, o ideal é que não se precise chegar ao ponto da ooforectomia bilateral (a retirada dos dois ovários), diz Resende.


"É muito triste ver que, ainda hoje, tem-se a ideia de risco de perder ovário por causa de endometriose. Sempre tem que tentar preservar o tecido ovariano dentro do possível."


"O ideal é ter diagnóstico antes, instituir tratamento, principalmente um bloqueio menstrual, com acompanhamento clínico. Se for fazer tratamento cirúrgico, pode fazer em mais de uma abordagem, não precisa retirar toda a endometriose. Pode retirar uma parte para tentar preservar os ovários, esperar e fazer uma segunda etapa", explica.


A médica ressalta, porém, que, em casos extremos, esse pode ser um caminho: "Por exemplo, se você tiver que aliviar uma dor que incapacita a vida dessa mulher".

Mudanças repentinas


Diferentemente da menopausa natural, em que as mulheres apresentam os sintomas gradualmente ao longo dos anos no climatério, as mudanças são repentinas com a remoção dos ovários.


Sem os órgãos, as mulheres perdem a principal fonte de hormônios como estrogênio e progesterona. O procedimento também elimina o ciclo menstrual.


"Essa retirada brusca desencadeia sintomas bruscos. Vem uma onda mais intensa de sintomas, porque ela tinha os hormônios normais e, de repente, você os retira de forma súbita", diz Resende.


Entre as consequências mais comuns, estão a sudorese, distúrbios do sono, risco de alterações de humor, diminuição da libido, ressecamento e ardência vaginal e incontinência urinária.


Adriana Tigre conta que, três meses após a cirurgia, passou a se sentir muito mais velha: "Eu me sinto uma senhora de 70 anos em um corpo de 37".


"Primeiro, foi muita dor de cabeça, depois inchei muito, tinha muito calor, como meu corpo pegando fogo, ficava nervosa com qualquer coisa, dor nas pernas e muito indisposta, cansada, com braço sem força", conta.


A retirada dos ovários pode levar ao maior risco de osteoporose e problemas cardiovasculares, como infarto, segundo estudos já publicados.


"O ideal, dentro do possível, se a paciente não tiver contraindicação, é que ela receba terapia de reposição hormonal, assim que retira os ovários", explica Resende.


A menopausa cirúrgica também pode levar à depressão.


Mãe de um menino, Adriana tinha planos de ter dois mais filhos antes da cirurgia. Mas diz que sua experiência foi traumática, porque os médicos não a informaram com clareza as etapas e consequências da cirurgia, o que a levou a um quadro depressivo: "É difícil ter que abandonar planos, ver pessoas da minha idade saindo, se divertindo... Mas eu não tenho energia".


Sem sintomas físicos fortes da menopausa cirúrgica, Ana Fontelle também conta que passou por problemas de saúde mental após o procedimento, mais relacionados à sua "autoestima enquanto mulher".


Após a retirada dos ovários, Ana relata "alívio" com as dores. Já Adriana passou por períodos com menos crises, mas segue sofrendo.


Na maioria das mulheres, os sintomas da endometriose diminuem após a menopausa (cirúrgica ou não). Mas, como Adriana, algumas seguem tendo dores.


Isso normalmente acontece porque, apesar das lesões estarem menos ativas com a falta dos hormônios, elas continuarão lá. Ou seja, apesar da menopausa poder ajudar nos sintomas, ela não é uma cura.

Sinais de alerta para endometriose*
Mudança nas características da dor (normalmente mais intensas a partir dos 25 anos);
Dores mais localizadas, com um lado que dói mais;
Dores profundas durante e após o ato sexual;
Sangramentos mais prolongados.

*Fonte: Ceres Resende (UnB)

- Texto originalmente publicado em https://www.bbc.com/portuguese/geral-62173141






Autor: Vitor Tavares
Fonte: BBC News Brasil em São Paulo
Sítio Online da Publicação: BBC News
Data: 21/07/2022
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-62173141

segunda-feira, 7 de março de 2022

Existe prevenção primária para endometriose?

De acordo com dados epidemiológicos recentes existe maior chance de desenvolver endometriose mulheres que tiveram menarca precoce, apresentam ciclo menstrual curto, ciclos hipermenorrágicos, tamanho corporal magro, poucas gestações e menor paridade. Pesquisadores acreditam que a exposição a poluentes e alergia a níquel são fatores de risco para o desenvolvimento desta patologia, porém, não temos dados suficientes para confirmar tal suspeita.

Do mesmo modo que os poluentes citados acima, não há evidências robustas que sustentem uma associação significativa entre dieta e endometriose. Embora as mulheres com endometriose consumam menos vegetais, frutas cítricas, laticínios, bem como alimentos ricos em vitamina D e ômega-3 e mais carne vermelha, café e gorduras trans. A suplementação de ômega-3 e vitamina D podem ser benéficos para prevenção e para controle das dores nestas pacientes, embora seja necessário mais estudos para qualificar essa recomendação.


Fatores preventivos

Existem evidências científicas recentes sobre estilo de vida e dieta saudáveis, com redução do consumo de álcool e atividade física regular para a prevenção da endometriose. Aliás, independentemente da endometriose, os benefícios de um estilo de vida saudável são bem conhecidos. Até onde sabemos, a proposta de estilo de vida saudável pode ser considerada uma opção viável e aceitável para melhorar a saúde no geral, e também pode ser benéfica para o risco de endometriose. No entanto, ainda é necessário mais estudos para esta recomendação tornar-se fortemente embasada cientificamente.

Já as evidências sobre a profilaxia de endometriose com o uso de anticoncepcionais orais são controversas. Aparentemente, os anticoncepcionais orais melhoram o quadro álgico, mas não impedem a evolução da doença. De modo que não deve ser recomendado o uso de anticoncepcionais orais para prevenção da endometriose ou impedir sua evolução.




Autor: Letícia Suzano Lelis Bellusci
Fonte: PEBMED
Sítio Online da Publicação: PEBMED
Data: 07/03/2022
Publicação Original: https://pebmed.com.br/existe-prevencao-primaria-para-endometriose/

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Diagnóstico de endometriose: jornalista conta saga de 15 anos para identificar a doença


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KAROLINE GOMES
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A jornalista Karoline Gomes encarou consultas e exames ao longo de quinze anos, antes de obter um diagnóstico

A jornalista paulista Karoline Gomes passou pelos mesmos sintomas ao longo de quinze anos. Todos os meses, sentia cólicas menstruais fortes. A dor vinha acompanhada de desmaios, idas ao hospital em busca de medicação e dias acamada. Como resposta ao problema, recebia uma leva de medicamentos para dor.

O exemplo da jovem, que tem hoje 26 anos, ilustra o tipo de dificuldade enfrentada por mulheres com endometriose.

No caso de Karoline, as dores apareceram logo na primeira menstruação, aos 9 anos. Aos 12, começou a peregrinação por consultórios médicos. Somente aos 24 ela obteve uma resposta para o problema.

Mundialmente, as estimativas dão conta de que mulheres demoram entre sete e dez anos para obter um veredicto do tipo.

E muitas delas ainda estão à espera: cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva sofrem da doença.

O que é a endometriose

A endometriose é uma doença crônica em que o tecido que reveste o interior do útero, o endométrio, desenvolve-se para fora do órgão.

Em um ciclo normal, essa mucosa se descama e ocasiona o sangramento característico da menstruação. Em caso de fecundação, é nela que o óvulo se fixa dentro do útero.

A condição aparece quando há uma anomalia no processo, já que o endométrio, ao se espalhar, acaba em outros outros cantos do corpo.

O sofrimento físico associado à condição vem daí: os focos de tecido que estão fora do útero também respondem a hormônios e sangram.

Esse sangramento — que pode ocorrer nas proximidades de órgãos como ovários, intestino ou bexiga — causa inflamação e desencadeia dores fortes.

Os focos da doença podem então danificar as trompas uterinas, comprometer órgãos vizinhos ao sistema reprodutor e ir além.

Quando Karoline Gomes encarou um tratamento para a doença, ela já chegara ao quadro avançado. Logo de cara, teve de passar por uma cirurgia para extrair as trompas, dez centímetros do intestino e três centímetros da bexiga.
Primeiros sinais

As cólicas menstruais constantes acenderam o primeiro sinal vermelho para Karoline.

Ela conta que usava desde compressas quentes até remédios analgésicos e anti-inflamatórios para aliviar a dor na região pélvica.

"Ou os médicos diziam que isso era raro para meninas da minha idade, ou que era normal ter essas dores porque eu era muito jovem."

A saída encontrada pelos médicos foi a prescrição do anticoncepcional, que prometia controlar as crises.

"Quando o remédio funcionava, era o paraíso. Eu saía da cama, tinha qualidade de vida", conta Karoline.

Com o tempo, entretanto, as dores voltavam. Meses sem reclamação eram intercalados por períodos de cólica forte.

O ginecologista Bernardo Portugal Lasmar, da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), explica o problema por trás das crises.

"O anticoncepcional por si só não trata a endometriose, apenas controla os sintomas. Enquanto isso, a doença pode evoluir."

Por exemplo, as medicações podem suspender a menstruação e impedir que os focos da doença "sangrem", mas não os eliminam, nem barram seu avanço.

Ainda sem solução para as dores, Karoline mudou de cidade e continuou a saga por um diagnóstico. Entre os exames solicitados, estavam desde amostras de sangue até exames de papanicolau e ultrassons.

"Mas eu precisava de alguém que não tratasse aquilo como apenas questão de rotina", diz Karoline, que recorria à rede privada.

Para ela, um dos obstáculos era dar conta de explicar a própria situação em consultas rápidas.

"Eu sabia dizer o que eu sentia, mas não conseguia colocar a ênfase no quanto doía, eu não tinha tempo."

Em tempo restrito, precisava narrar o longo histórico da doença e os pormenores das crises, em que a dor chegava à região lombar e à virilha.

A necessidade do tempo maior de consulta também é um dos pontos levantados por Lasmar, da Febrasgo. Como o ginecologista destaca, os sinais da endometriose podem ser percebidos já na conversa feita em consultório, antes de qualquer exame físico.

"A paciente vai contar detalhes que são indicativos da doença e o médico precisa estar atento."

Cólicas fortes, dores em regiões próximas, ciclos menstruais curtos e infertilidade são alguns dos alertas possíveis.
Ponto de virada

A luz no fim do túnel apareceu depois de uma conversa entre amigas.

"Uma delas comentou que uma amiga tinha ido à ginecologista e sido diagnosticada com endometriose."

Os sintomas descritos se pareciam com os de Karoline, que recorreu à indicação. Quando chegou ao consultório, contou sua suspeita à médica.

Dessa vez, os pedidos de exame foram além dos testes de sangue, incluindo uma ressonância magnética da pelve.

Com resultados em mão, o veredicto veio.

"Ela disse 'lamento informar, mas você tem uma endometriose muito grave'. Lembro de ter ficado tão feliz que levantei e abracei a médica", conta Karoline.

"Só conseguia pensar 'eu não sou louca, eu sabia o que estava sentindo'. Foi como ter a minha história validada."

Dar um nome ao quadro foi só o primeiro passo. A partir daí, teve de buscar um cirurgião especialista que conseguisse remover os focos da doença.

Para muitos casos de endometriose, essa intervenção cirúrgica que "limpa" os focos, chamada de laparoscopia, é indicada.

São feitas pequenas incisões no abdômen da paciente, por onde se insere o instrumento cirúrgico.

É assim que os médicos visualizam os danos causados pela doença e eliminam focos visíveis.


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KAROLINE GOMES
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Karoline mostra as cicatrizes de procedimentos pelos quais passou no tratamento de endometriose

Os médicos indicam cirurgia a mulheres que têm outros órgãos comprometidos, como os rins ou o intestino, ou que sofram com dores fortes mesmo sob efeito do anticoncepcional.

Mas, antes de qualquer procedimento, as possibilidades precisam ser discutidas com o médico. Em casos avançados, pode ser necessária a remoção de órgãos afetados.

"Eu deixei claro para o médico, na presença do meu marido, que ele estava liberado para remover útero e trompas, se achasse necessário."

Mas, depois do primeiro procedimento, a saída indicada pelo médico foi um remédio aplicado por injeções, diretamente na barriga.

A medicação, usada também em casos de câncer de próstata e de mama, desencadeou uma série de efeitos colaterais.

"Foi como enfrentar uma nova doença. Eu não menstruava, tinha muitas dores de estômago e de cabeça, meus pés ficaram inchados e o remédio piorava meu quadro de depressão."

A ideia era combater a doença por meio de seis aplicações do remédio, sem extrair os órgãos afetados.

Depois da quarta aplicação, o plano deu errado. Karoline teve de recorrer ao hospital, depois de sofrer uma hemorragia.
"Eu não sei como você vivia com tanta dor"

Foi uma perfuração no intestino que levou Karoline à sala de cirurgia. Os focos da doença haviam chegado ao reto e à bexiga, danificando órgãos na região da pelve.

O procedimento levou à remoção das duas trompas uterinas, de parte do intestino e da bexiga.

Um médico diferente fez o procedimento em caráter de emergência, já que os danos aos órgãos eram piores que o previsto. Os exames de imagem haviam apontado comprometimento de dois centímetros de intestino — que provou ser cinco vezes maior.

Ao passar pela UTI, onde Karoline seguia internada, o cirurgião responsável comentou o caso.

"Eu me lembro dele falando: 'Eu não sei como você vivia com tanta dor, os seus órgãos estavam dilacerados'", relata ela. "Eu falava o tempo todo que tinha essa dor, mas não me ouviam."

A jovem paulista soube ainda que o quadro de hemorragia e a internação às pressas poderiam ter sido evitados.

"O primeiro cirurgião que me atendeu achava que eu era nova demais para ficar infértil, para tirar as trompas. Foi por isso que parei na UTI e precisei de outra cirurgia."

"Tudo pela possibilidade de que, um dia, eu quisesse ter um bebê", diz Karoline. "Mas esse bebê não existe. Quem existe neste momento sou eu, e eu estou sentindo dor."


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Depois de encarar o tratamento para endometriose, Karoline Gomes criou o Endomapa, grupo que reúne mulheres que sofrem da doença
Rede de apoio

Uma das dificuldades de mulheres com endometriose está em encontrar médicos que identifiquem a doença. Com sintomas como cólicas menstruais fortes, as pacientes nem sempre conseguem ir além dos exames de rotina.

Foi com isso em mente que a jornalista Karoline Gomes criou o Endomapa, um grupo de Facebook destinado a mulheres que sofrem com a doença — ou suspeitam de um diagnóstico.

"A primeira movimentação do Endomapa foi a de encontrar a médica que me diagnosticou, pela indicação da amiga de uma amiga."

No grupo, as participantes contam desde dificuldades encontradas nas consultas até indicações de médicos no sistema público de saúde. Cabe a Karoline moderar e facilitar o contato entre as participantes.

Por trás do projeto, está a ideia de facilitar o acesso a um atendimento adequado.

"É uma dor incapacitante, são muitos os casos em que não dá para ter uma vida normal e saudável."



Autor: Priscila Bellini
Fonte: BBC News Brasil em Londres
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 24/01/2020
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-50672105

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

6 fatos sobre endometriose




A endometriose é caracterizada pela implantação do endométrio (tecido que reveste a cavidade uterina) fora do útero. Em um processo normal, a mulher elimina o endométrio durante a menstruação. Contudo, algumas células podem migrar no sentido oposto e se alojar na cavidade abdominal, multiplicando-se e provocando uma reação inflamatória.

O principal sintoma da doença é a cólica menstrual que, em muitos casos, pode ser tão intensa a ponto de deixar a paciente incapaz de cumprir suas tarefas do dia a dia. Além disso, dor durante a relação sexual, dificuldade para engravidar após um ano de tentativa e alterações intestinais ou urinárias durante a menstruação também podem ser sinais da endometriose. Em casos avançados, a dor pode ocorrer também fora do período menstrual. Conheça alguns fatos importantes sobre a doença:


1. ATIVIDADES FÍSICAS SÃO ESPECIALMENTE BENÉFICAS PARA AS PACIENTES



Os exercícios são essenciais para que a doença seja administrada corretamente. A recomendação é que as pacientes pratiquem uma atividade aeróbica regrada, de três a quatro vezes na semana, durante 30 ou 40 minutos. Caminhada, corrida, natação e bicicleta são boas opções que ajudam a diminuir o limiar estrogênico e a melhorar a imunidade.


2. O ESTRESSE É UM FATOR DE RISCO PARA O SURGIMENTO DA ENDOMETRIOSE

A menstruação retrógrada leva o endométrio para a cavidade abdominal e a imunidade tem algum papel ao permitir que ele se desenvolva na região. Por isso, estuda-se a influência de várias questões ligadas à imunidade da paciente, e uma delas é o estresse. Mulheres com endometriose têm maiores traços de estresse e ansiedade.

As condições ambientais e a exposição a poluentes de combustão, como as dioxinas, também são fatores que têm sido associados ao problema.


3. O ACOMPANHAMENTO PSICOLÓGICO PODE SER ALIADO NO TRATAMENTO DA DOENÇA



As características emocionais das pacientes, principalmente das mulheres muito detalhistas e exigentes e que sofrem de estresse e/ou ansiedade, devem ser levadas em conta. Assim, a psicoterapia pode fornecer o apoio necessário para ajudá-las a lidar melhor com os aspectos emocionais que podem estar relacionados ao surgimento da doença, como estresse, e/ou se agravar em decorrência dela, como ansiedade causada pela dificuldade de engravidar.



4. O TRATAMENTO PODE SER CIRÚRGICO OU CLÍNICO



Nos casos em que a endometriose já está avançada, é necessário tratamento cirúrgico acompanhado de complementação clínica. Já para os casos em fase inicial, existe a possibilidade de tratamento clínico com pílula anticoncepcional combinada ou só com progesterona. O procedimento cirúrgico utilizado na grande maioria dos casos é a laparoscopia, método minimamente invasivo feito sob anestesia por meio de pequenas incisões no abdômen. A cirurgia convencional, na qual se abre o abdômen, é utilizada em uma pequena parcela de casos, quando existem aderências ou sangramentos mais graves.


5. A ENDOMETRIOSE ESTÁ RELACIONADA À INFERTILIDADE FEMININA



Pacientes com doença avançada e obstrução nas tubas uterinas que impeça o espermatozoide de chegar ao óvulo têm um fator anatômico que justifica a infertilidade. Além disso, algumas questões hormonais e imunológicas podem ser a razão de mulheres com endometriose leve não conseguirem engravidar. No entanto, após o tratamento, muitas podem recuperar a fertilidade, principalmente aquelas em que as tubas não tiverem sofrido obstrução.


6. A DOENÇA PODE ATINGIR MULHERES DESDE A PRIMEIRA ATÉ A ÚLTIMA MENSTRUAÇÃO



A média de idade quando o diagnóstico é feito é de 32 anos (sendo que em 40% dos casos as pacientes já estavam com a doença havia cinco anos ou mais), mas a endometriose pode ocorrer também na adolescência e após os 40 anos. Entre 40% e 50% das adolescentes que têm cólicas intensas (que as deixam incapacitadas de realizar tarefas básicas) podem ter endometriose.



Ouça também o podcast sobre Endometriose

Fonte: Dr. Maurício Simões Abrão, médico ginecologista, professor na Universidade de São Paulo (USP) e diretor do setor de endometriose do Hospital das Clínicas, em entrevista a este Portal.


Sobre o autor: Maiara Ribeiro
Jornalista, repórter do Portal Drauzio Varella e interessada em temas relacionados a saúde da mulher e deficiências na infância.




Autor: Maiara Ribeiro
Fonte: Drauzio Varella
Sítio Online da Publicação: Drauzio Varella
Data: 04/09/2018
Publicação Original: https://drauziovarella.uol.com.br/ginecologia/6-fatos-sobre-endometriose/