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quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Estudo aponta níveis elevados de mercúrio em crianças e mulheres indígenas



Por: Julia Neves (EPSJV/Fiocruz)*


São 9,6 milhões de hectares entre os estados de Amazonas e Roraima em uma região rica em minérios. Nela, vivem cerca de 26 mil indígenas ianomâmis que têm sido altamente impactados pela presença de garimpeiros ilegais. Recentemente, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) chamou atenção para os dados preliminares de uma pesquisa inédita que revela a contaminação por mercúrio em mulheres e crianças, das aldeias de Maturacá e Ariabu, localizadas na Região de Maturacá no estado do Amazonas. De acordo com o estudo que analisou amostras de cabelo de quase 300 indivíduos, 56% dos indígenas apresentaram concentrações de mercúrio acima do limite estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de 2 microgramas por grama (ou ppm). Em 4% da população analisada havia concentrações acima de 6 microgramas por grama, considerado o limite para o surgimento de efeitos adversos à saúde. A partir dessa concentração de mercúrio no cabelo, aumentam as chances de surgirem danos neurológicos graves.

Os resultados desta pesquisa foram apresentados à comunidade indígena no final de julho de 2019, em cumprimento ao acordo firmado entre a coordenação do projeto e às lideranças locais. Este estudo para avaliação da exposição dos ianomâmis ao mercúrio foi um pedido dos próprias lideranças locais, que já desconfiavam da contaminação dos moradores dessa região devido à proximidade aos pontos de garimpo de ouro.

Ainda em fase de publicação, o estudo faz parte de um esforço de investigação mais amplo sobre a situação nutricional de crianças indígenas, intitulada Pesquisa sobre os determinantes sociais da desnutrição de crianças indígenas de até cinco anos do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Yanomami. Financiado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e coordenado pelo pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz), Paulo Basta, o projeto contou com uma equipe multidisciplinar da Fiocruz e com a parceria da Secretaria Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde (Sesai) e do Instituto Evandro Chagas (IEC).

Especialista em mercúrio, a professora-pesquisadora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) Ana Claudia Vasconcellos integrou a equipe do estudo e foi a campo durante o mês de fevereiro de 2019. “Aplicamos um questionário e obtivemos informações sobre o histórico de doenças da família, sobre a alimentação das crianças, das mães, de todos em uma maneira geral. Nessas visitas também coletamos as amostras de cabelo, que após serem armazenadas e identificadas, foram encaminhadas para o laboratório de Toxicologia, do Instituto Evandro Chagas”, conta.

E os resultados foram preocupantes. Das amostras de cabelo analisadas, provenientes de 134 mulheres adultas e 144 crianças, as concentrações de mercúrio variaram de 0,08 a 13,87 microgramas por grama (ou ppm). Este valor máximo foi detectado em uma amostra de cabelo de uma criança de apenas três anos. Tal concentração representa cerca de sete vezes mais mercúrio que o limite preconizado pela OMS (2,0 ppm) e o dobro da concentração limite para o surgimento de efeitos adversos à saúde (6,0 ppm). “No caso de crianças pequenas, de meses a três anos, por exemplo, a exposição ao mercúrio pode estar associada ao consumo de leite materno (que também pode conter mercúrio caso a mãe se alimente de peixes contaminados), mas também pode ser reflexo da exposição intrauterina”, aponta.

No organismo humano, o principal alvo de atuação do mercúrio presente nos peixes ou em outros organismos aquáticos é o sistema nervoso central. “Em grávidas, essa substância ultrapassa a placenta e o risco é muito maior para o feto, que ainda está em formação. O cérebro do feto é muito mais sensível ao mercúrio e pode comprometer a cognição. Essa criança pode ficar com a inteligência comprometida para o resto da vida, ter danos ou perda de visão, da audição e até mesmo na parte motora”, alerta.

Apesar dos altas concentrações de mercúrio encontradas na comunidade, Ana Claudia ressalta que existem outros fatores de risco que podem provocar atrasos cognitivos. “Em Maturacá [AM], mais de 80% das crianças sofrem de desnutrição, que é outro fator que pode provocar perda cognitiva. Então, não é tão simples dizer que aquele desfecho na saúde é com certeza por conta da exposição ao mercúrio. Mas, nesse cenário, nós podemos afirmar que o mercúrio é perigoso, que existe a possibilidade dele provocar perda cognitiva e das funções motoras, auditivas e visuais nas crianças e nos adultos”.

Relação do mercúrio com o garimpo

Ana Claudia explica que o mercúrio usado no garimpo está em seu estado elementar, como o mercúrio líquido prateado presente nos termômetros, por exemplo. Na região Amazônica, segundo ela, o ouro geralmente está em partículas finas e, para facilitar a retirada do leito do rio, os garimpeiros jogam o mercúrio. “Isso porque, por ter afinidade, o mercúrio e o ouro formam uma pedra maior, chamada amálgama, facilitando a extração”, afirma.

Só que o mercúrio elementar, por suas propriedades físico-químicas, não é muito tóxico para o organismo humano caso será ingerido diretamente, destaca a pesquisadora: “Tem histórias de garimpeiros que bebem o mercúrio para mostrar que não acontece nada. Mas, na verdade, grande parte do que ele ingere, é eliminado. A priori não é uma forma tão grave de contaminação”. No caso do mercúrio elementar, a via de exposição que mais representa risco à saúde humana é a inalação de seus vapores, que atingem o sistema nervoso central e provocam danos importantes.

Mas então por que o mercúrio é tão perigoso? Ana Claudia explica que em sistemas aquáticos – tanto no mar quanto nos rios –, o mercúrio elementar sofre oxidação e se transforma em espécies iônicas, que se ligam a matéria orgânica e se depositam no sedimento do rio. Este, por sua vez, tem regiões onde não tem oxigênio e reúne bactérias específicas que respiram enxofre (bactérias sulfato-redutoras) e transformam o mercúrio em metilmercúrio, a forma mais tóxica. “Essa substância entra na cadeia alimentar aquática, vai se acumulando em peixes e em quaisquer organismos que estejam ali. Os peixes maiores, que ocupam o topo da cadeia alimentar por serem carnívoros, têm concentrações maiores de mercúrio, devido ao processo de biomagnificação. Então como os seres humanos tendem a se interessar por esses peixes maiores, a exposição a essa substância é maior. Podemos concluir que, para quem não trabalha com o garimpo, a maior via de exposição é através da alimentação”.

A principal fonte de proteína animal na Amazônia ainda é o peixe. E a pesquisadora afirma que justamente por isso não tem como pedir que essa população deixe de comer esse alimento. “Além de ser uma questão cultural, é sobrevivência. Eles fazem tudo no rio, usam para trafegar, se banhar, se alimentar. Não tem como cortar essa ligação”, defende.

Qual o caminho?

No Brasil, o principal problema do uso do mercúrio é ligado ao garimpo, alerta Ana Claudia, no sentido de que todo mercúrio utilizado acaba sendo perdido no ambiente, não existe recuperação ou um descarte responsável: “O garimpeiro não possui a menor preocupação ambiental. O mercúrio é lançado no sistema aquático, e a partir daí ele começa a sofrer uma série de alterações químicas e vai contaminando água, solo e organismos aquáticos”.

Segundo a pesquisadora, os danos ambientais e à saúde humana podem ser minimizados com o banimento do uso do mercúrio no processo de extração do ouro. Outros setores produtivos, que são fontes emissoras potenciais de mercúrio, já utilizam tecnologias de menor potencial poluidor. “Na produção de cloro soda existe toda uma preocupação na perda desse mercúrio para o meio ambiente e, por isso, são estabelecidas regras e protocolos para garantir que essa perda vai ser a menor possível ou mesmo que não exista". Além disso, a pesquisadora diz que está tecnologia está sendo substituída por outras menos nocivas.

As termelétricas também se preocupam com a liberação de vapores contendo mercúrio a partir da queima do carvão. Existe, na maioria delas, alguma medida para evitar a liberação do mercúrio. “Por ser um elemento natural, o mercúrio também é encontrado no carvão mineral e vegetal e quando as termelétricas queimam esse carvão há uma produção de vapor de mercúrio”, relata Ana Claudia, explicando que, em contrapartida, essas indústrias apresentam relatórios de produção anual com uma parte de responsabilidade socioambiental da empresa que demonstra a redução na emissão de mercúrio com o passar dos anos.

Outro fato relevante a ser destacado é que em 2013 o Brasil assinou a Convenção de Minamata, que prevê o banimento ou diminuição do uso de mercúrio em várias atividades. Incluindo o uso do metal em termômetros, previsto para acabar em 2020. “Em outras atividades ela estabelece algumas normas e recomendações para que cada país signatário tome algum cuidado. Em relação ao garimpo, a Convenção não estabelece um prazo para finalizar, mas traz alertas e recomendações para que cada país regularize essa atividade e, de preferência, que sejam utilizadas outras substâncias que não sejam tóxicas ao meio ambiente”, afirma.

Com isso, Ana Claudia acredita que é preciso uma maior fiscalização por parte das autoridades públicas. “O mercúrio é um perigo, principalmente para aqueles que trabalham com esse elemento, o próprio garimpeiro por exemplo. O problema não se restringe aos ribeirinhos, ele se expande. Outros estudos demonstram que, assim como os ribeirinhos e os indígenas, a população urbana da região amazônica também possui níveis altos de mercúrio no organismo”, aponta.

Por fim, a pesquisadora ressalta que a ideia é continuar o estudo para que seja traçado um histórico de exposição dessa comunidade ao mercúrio. Ela explica como será feito: “Eu coletei algumas amostras de mulheres indígenas que possuem o cabelo muito comprido, com até 40 cm. E nessa primeira avaliação, nós trabalhamos usando somente 1,5 cm mais próximos da raiz nas amostras. Esse pequeno segmento reflete a exposição recente, diz respeito à aproximadamente o último mês de exposição. Agora vamos continuar analisando os outros centímetros dos cabelos”.




Autor: Julia Neves (EPSJV/Fiocruz)*
Fonte: Fiocruz
Sítio Online da Publicação: Fiocruz
Data: 19/08/2019
Publicação Original: https://portal.fiocruz.br/noticia/estudo-aponta-niveis-elevados-de-mercurio-em-criancas-e-mulheres-indigenas

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Dispositivo portátil identifica presença de mercúrio no ar

Pesquisadores da Unicamp, em parceria com a Universidade de Victoria (Canadá) e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), desenvolveram um amostrador capaz de medir a quantidade de mercúrio presente no ar e, assim, verificar se uma determinada área está contaminada com o metal. Enriquecido com nanopartículas de ouro em vidro poroso, o dispositivo tem o tamanho de um botão e, em contato com o mercúrio, tem sua coloração modificada.

A tecnologia pode auxiliar no controle da saúde da população que reside no entorno de regiões onde há mineração de ouro. A ideia é que os trabalhadores do setor de mineração passem a utilizar o dispositivo acoplado a suas roupas. A pesquisa foi divulgada, no último dia 28 de novembro, pelo periódico científico Scientific Reports, publicação do grupo Nature.

Embora o foco da tecnologia seja a contaminação presente no ar, ela poderia ser utilizada, por exemplo, para avaliar a exposição ao mercúrio de populações que vivem ao redor do Rio Xingu, na região Amazônica. Uma pesquisa conduzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e pelo Instituto Socioambiental (ISA) constatou que algumas aldeias indígenas chegam a ter 92% de sua população contaminada por mercúrio. Neste caso, boa parte da contaminação se dá pela água, por meio da presença do metal em peixes consumidos pelos indígenas. Contudo, os pesquisadores lembram que o mercúrio presente no ar também é um agravante para a situação.

“Eles não estão explorando o ouro, mas estão em uma área próxima da exploração e o mercúrio acaba chegando lá”, contextualiza o professor Ítalo Odone Mazali, do Instituto de Química (IQ) da Unicamp, e um dos responsáveis pelos estudos. “A população mais exposta ao mercúrio gasoso são os garimpeiros. Mas esse mercúrio lançado no ar vai ser depositado à curta, média ou longa distância (milhares de km). Quando o mercúrio é depositado na água, ele acaba sendo incorporado à cadeia alimentar”, conta a professora Anne Hélène Fostier, também do IQ e com participação de destaque no estudo.


Da esq. para a dir., os pesquisadores Ítalo Odone Mazali, Elias de Barros Santos e Anne Hélène Fostier

Após a exposição, o dispositivo é fotografado e, com a ajuda da câmera de um celular, as imagens são avaliadas por meio do sistema RGB (Red Green Blue), para quantificar o metal a que o amostrador – e, consequentemente, o trabalhador – foi exposto. “A gente associou a intensidade de cor com a quantidade de mercúrio. Quanto maior a contaminação, mais intensa ficará a cor do amostrador”, explica o professor Mazali.

Colocado à prova, o sensor já foi testado por trabalhadores da mineração em Burkina Faso, na África, e mostrou ser bastante eficiente. Os testes comprovaram que a exposição ao mercúrio gasoso era superior à quantidade estabelecida pela OSHA (Occupational Safety and Health Administration). De acordo com o órgão, o limite máximo de exposição permitida para o vapor de mercúrio é de 0,1 mg/m3 de ar. Em campo, a pesquisa constatou a presença de 30 a 555 nanogramas de mercúrio, número bem superior ao estipulado pela OSHA.

Com participação do professor Elias de Barros Santos, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), durante seu projeto de pós-dourado pela Universidade de Victoria, os testes foram realizados em uma mina de Burkina Faso, na África. “Ele foi aplicado em um ambiente bem contaminado, em uma mina de extração na África. Durante a extração artesanal de ouro, os mineiros usam mercúrio como amalgamador (utilizado na separação de ligas metálicas). Depois disso, para separar o ouro da amálgama, é preciso que essa mistura seja aquecida a 400 graus Celsius. Esse aquecimento faz com que o mercúrio evapore e seja inalado pelos trabalhadores”, conta Santos.

Os docentes salientam que a situação precária e insalubre a que os profissionais da mineração são expostos, sem nenhum tipo de preparo para lidar com a exposição ao mercúrio, é um problema mundial. “A estimativa é que existam 20 milhões de pessoas, espalhadas pela América Latina, África e Ásia, trabalhando nessas condições. O ambiente é bem inóspito. Além disso, tem famílias com crianças que vivem nesses garimpos e que estão expostas a esse ambiente”, alerta Santos.


Monitoramento de contaminação de mineradores em Burkina Faso, onde parte da pesquisa foi desenvolvida | Foto: Divulgação

“Atualmente, boa parte dos trabalhadores sabe que o mercúrio é perigoso, mas não tem outra alternativa. É importante que eles possam ser monitorados para ver a quais níveis estão sendo expostos. A tecnologia pode ser utilizada também por profissionais das usinas de reciclagem de lâmpadas fluoerescentes, que também tem risco de exposição ao gás”, ressalta a professora Anne Hélène. Dentre os problemas de saúde ocasionados pela contaminação por mercúrio, estão o nervosismo, ansiedade, irritabilidade, mudanças de humor, agressividade, confusão mental, insônia, lapsos de memória, enxaqueca, alucinações, tendência a cometer suicídio, tontura e labirintite.

Vale salientar que, hoje em dia, não há tecnologia semelhante no mercado. “Os sistemas que medem o mercúrio na atmosfera, hoje, são muito mais sofisticados, mais caros e que precisam de uma fonte de energia fixa e de gases especiais para funcionar, permitindo uma única medida naquele momento”, completa Anne. Além de ser um amostrador portátil e que permite obter resultados em poucos minutos, a tecnologia tem como diferencial o fato de ser barata e reutilizável. Os responsáveis pelos estudos estimam o custo para obtenção do dispositivo em menos de 2 dólares. “O sensoriamento é fácil, sendo necessário apenas um celular e um programa que faça convolução em RGB, permitindo acompanhar o nível de exposição total”, defende Mazali.

Autor: CAROLINA OCTAVIANO 
Fonte: Unicamp
Sítio Online da Publicação: Unicamp
Data de Publicação: 20/12/2017
Publicação Original: https://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2017/12/20/dispositivo-portatil-identifica-presenca-de-mercurio-no-ar