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segunda-feira, 18 de maio de 2020

Em quarentena com o inimigo: violência contra a mulher cresce durante a pandemia

Em meio à pandemia, uma dura realidade, mascarada em muitos lares, torna-se, agora, mais visível. O número de casos de violência contra a mulher vem crescendo de forma substancial, no mundo inteiro, nesse período em que diversos países adotaram medidas necessárias de isolamento social para frear o avanço do novo coronavírus. Na China, por exemplo, ativistas de direitos humanos denunciaram que os casos de agressões à mulher triplicaram durante a quarentena. Na França, desde o começo da crise sanitária, houve um aumento de aproximadamente 30% dos casos de polícia relacionados às agressões contra mulheres. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU Mulheres), mesmo antes da disseminação global do coronavírus, um terço das mulheres em todo o mundo já experimentou alguma forma de violência em suas vidas, seja física ou psicológica. No Brasil, não é diferente. Segundo o plantão judiciário do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ), houve um aumento de cerca de 50% na demanda de casos de violência contra a mulher após o início da recomendação de isolamento social no estado, em março.

“Para a maioria das pessoas ficar em casa nesse momento de quarentena é sinônimo de proteção. Mas para muitas mulheres, de diversas idades e condições econômicas, que também precisam lidar com o medo de contaminação pelo vírus, a quarentena representa o desafio de permanecer trancada com o agressor em seu próprio lar, 24 horas por dia”, disse a médica e professora Claudia Leite de Moraes, do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/Uerj) e do curso de Pós-Graduação em Saúde da Família da Universidade Estácio de Sá. Contemplada pelo programa Cientista do Nosso Estado, por meio do qual recebe apoio da FAPERJ para a realização de suas pesquisas, ela coordena, na universidade, o Programa de Investigação Epidemiológica em Violência Familiar (PIEVF), que completou 20 anos em 2019. “Vale lembrar que muitos casos de violência contra a mulher são subnotificados, porque há o medo e a resistência da vítima em denunciar, além da dificuldade concreta de contato presencial com as instituições de proteção à mulher no período da pandemia”, completou.

A pressão psicológica, que cresce naturalmente com as notícias sobre o avanço da pandemia, e o aumento do tempo de convívio com o agressor são apenas alguns fatores associados à violência contra a mulher nessa quarentena. “O aumento do estresse e a sobrecarga de trabalho em casa para a mulher, que muitas vezes é a principal ou única encarregada dos cuidados com familiares, são alguns fatores que propiciam a ocorrência de violência, em lares onde a principal forma de comunicação já é a violência", observou. "O maior tempo de convívio com os agressores, que passam a ter maior controle e poder sobre a vítima, e a redução do contato com a rede psicossocial de apoio individual e coletivo, como amigos, família, trabalho e escolas, também aumentam o risco de violência”, acrescentou.

A própria conjuntura econômica também contribui para agravar as tensões domésticas. A perda de empregos afeta especialmente as mulheres, que se concentram no setor de Serviços, o mais afetado pela crise, e ainda representam a maioria da força de trabalho no mercado informal, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Além das restrições de movimento decorrentes da quarentena, as limitações financeiras e o sentimento de insegurança encorajam os abusadores, dando-lhes poder e controle adicionais. O abuso de álcool e drogas, mais frequente em situações de crise, também compõe o quadro que pode levar a intensificação e a ocorrência de novos casos de violência”, resumiu.



Cláudia Leite: para a médica e pesquisadora, familiares e vizinhos das vítimas devem prestar
atenção às situações suspeitas (Foto: Divulgação)


Diante de situações de violência contra a mulher, Cláudia destaca a importância de uma atenção redobrada dos vizinhos e familiares durante o confinamento. “Especialmente nesse período de isolamento social, os vizinhos, amigos e familiares têm que se conscientizar que em briga de marido e mulher é preciso, sim, meter a colher. Muitas vezes, eles são os que têm melhores condições de realizar denúncias de violência, já que não estão diretamente expostos aos agressores. É preciso ter muita atenção às situações suspeitas, como gritos, choros, discussões em voz alta e ameaças. As denúncias anônimas podem evitar situações mais graves e até a morte”, alertou. Em relação aos cuidados por parte de familiares, ela ponderou: "Os familiares devem estranhar situações como a perda repentina de contato, pelo telefone e redes sociais. É importante que mulheres em situação de violência busquem fazer o isolamento social com outros familiares, e evitem ficar sozinhas com o agressor".

A pesquisadora destaca que, nesse momento de quarentena, é fundamental a organização de redes institucionais de apoio a distância, com canais para assistência remota à mulher vítima de violência, pela Internet e pelo telefone. “No início da quarentena, as instituições públicas e redes de apoio tiveram que se organizar às pressas para oferecer esse tipo de assistência remota à mulher. Muitas dessas trabalhavam apenas presencialmente, mas agora já é possível notificar as agressões e crimes via Internet, até mesmo por aplicativos, e por telefone, inclusive de forma anônima”, observou Cláudia.

Além dos canais para realização de denúncias via telefone (o Ligue 180, especializado no atendimento à mulher em situação de violência; o Disque 100, para denúncias de violações aos direitos humanos; e o telefone 190, da Polícia Militar) e pela internet (Ministério Público), o Governo Federal disponibilizou no mês de março o aplicativo “Direitos Humanos Brasil” para recebimento de denúncias de violência doméstica. Recentemente, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) divulgou um material informativo com enfoque na violência contra a mulher neste período. O material tem como objetivo conscientizar mulheres sobre possíveis situações de violência e disponibilizar canais de ajuda nesse momento, e meios de denúncia para vizinhos e familiares diante de casos suspeitos. A Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro também divulgou uma cartilha, que pode ser acessada aqui. Além destes canais, as delegacias de mulheres e delegacias comuns mantêm o funcionamento 24 horas.




Autor: Débora Motta
Fonte: Faperj
Sítio Online da Publicação: Faperj
Data: 14/05/2020
Publicação Original: http://www.faperj.br/?id=3977.2.2

terça-feira, 31 de março de 2020

'Quarentena para quem?': trabalhadores enfrentam ônibus cheio e proteção precária


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Todos os dias quando liga a TV para acompanhar as notícias dos telejornais em meio à pandemia de coronavírus, a catadora de materiais recicláveis Janaina de Melo ouve um recado incessante: "Fique em casa".

Empurrando uma carroça ao lado dos filhos de 12 e de 13 anos, Melo diz que a pandemia de coronavírus não vai fazê-la parar. Pois é o trabalho dela que sustenta não só os adolescentes, mas também uma filha de 3 anos e o marido desempregado. E afirma que a política de isolamento adotada pela Prefeitura do Rio de Janeiro (onde ela vive) — seguindo as normas da Organização Mundial da Saúde (OMS) — derrubou o lucro dos coletores.

"O movimento na rua está bem baixo. As pessoas não podem sair de casa, não podem fazer festa, churrasco, e não produzem tanta latinha. Nas últimas semanas, caiu muito o volume, e também o preço. (Cada kg de) latinha custava R$ 2,80, mas hoje está R$ 1. A garrafa PET saiu de R$ 1,20 para R$ 0,80 e só o óleo continuou R$ 1 o litro", relata.

Antes, ela conta que tinha uma meta de receber R$ 100 quando levava material para vender, às segundas e sextas. Mas última semana, conseguiu apenas R$ 30 em cada dia. A única renda fixa da família, que mora na favela Costa Barros, é o Bolsa Família no valor de R$ 230.

"De duas semanas para cá, as pessoas não estão acumulando coisas em casa. Não nos passam mais reciclagem. Eu entendo que elas podem até ter medo, mas deu uma queda muito brusca", afirma.


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Janaina de Melo sustenta três filhos e o marido desempregado com dinheiro que ganha como catadora de material reciclado

E enfatiza que não tem condições de obedecer os recados para ficar em casa. O que ela faz é apenas se proteger da maneira que pode, lavando com água e sabão as mãos e a caçamba da carroça que ela usa assim que termina o serviço.

Ela disse que nenhum dos amigos carroceiros dela contraíram o vírus.

"Me vejo fazendo um trabalho essencial, que contribui até com o meio ambiente. Enquanto muitos sujam, eu tiro da rua e faço minha renda. Sei que é pela saúde de todos o isolamento. Mas, se não tiver uma ajuda, quem não tem renda fixa ou dinheiro guardado passará fome. Só quero que tudo se normalize e que a população e o poder público tenham mais respeito pelos catadores", diz Melo.

O Movimento Pimp My Carroça criou um financiamento coletivo para garantir uma renda mínima aos catadores para que eles possam ficar em casa e evitem a transmissão do coronavírus. O dinheiro arrecadado será distribuído entre os cerca de 3 mil catadores cadastrados no aplicativo Cataki, que conecta catadores a pessoas que produzem reciclagem.

Nesta segunda-feira (30/03), o Senado votará o pagamento de um auxílio emergencial de R$ 600 durante três meses para os trabalhadores brasileiros sem carteira assinada.
Preocupação com a mãe

Dentro de uma cabine, o porteiro Rodolfo Pessoa Viana passa o dia vendo pessoas passando, recebendo encomendas e liberando o acesso de visitantes em um prédio em Moema, na zona sul de São Paulo. O medo de contrair coronavírus o deixa ansioso toda vez que escuta a recomendação para ficar em casa.


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O porteiro Rodolfo Pessoa Viana diz que tem 'preocupação e muito medo' por ter de trabalhar durante período de quarentena estabelecido em SP.

"Quarentena para quem? Ouvir isso para mim é um desespero, um terror. Toda vez que eu escuto para ficar em casa me bate preocupação e muito medo. Eu moro com a minha mãe de 62 anos e tenho esse sentimento de pânico por não poder ficar em casa", diz, em entrevista à BBC News Brasil.

Viana, que trabalha em dias intercalados, disse que não conseguiu nem mesmo reduzir a carga horário no trabalho. A maior preocupação dele é o risco de se contaminar no trajeto entre a casa dele, na favela de Paraisópolis, e o trabalho em Moema, ambos na zona sul de São Paulo. No deslocamento, ele pega um ônibus e um metrô.

"A gente não pode reduzir o trabalho porque os condôminos dependem da gente. Mas eu saio com muito medo. Tenho álcool em gel, uso luvas na mãos e máscara. O que mais assusta é que muita gente que está na rua, na verdade, deveria estar em casa", afirma.

No trajeto das ruas estreitas da maior favela de São Paulo até o condomínio no bairro de casas de alto padrão onde trabalha, Viana identifica uma clara disparidade de cuidados e preocupação em relação ao coronavírus.

"No meu bairro, acham que não está acontecendo nada, não estão nem aí. A rua está cheia e os moradores ainda falam que (o vírus) é uma mentira. Isso aumenta meu medo. Mas quando eu chego na Estação João Dias do metrô, vejo todo mundo de luvas e máscara", diz.

O porteiro conta à reportagem que não anda com luvas porque não encontrou nenhuma à venda.

'Os outros dependem da gente'

Já a cobradora de ônibus Márcia Cristina Chaves Lima passa o dia com luvas e máscaras e muito tensa ao presenciar centenas de pessoas girando a catraca à sua frente. O medo, não só de pegar o vírus, mas também transmiti-lo para a mãe, de 77 anos, é tão grande que Lima deixou o sobrado onde mora com a família há uma semana e passou a dormir na casa do noivo.


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Cobradora de ônibus Márcia Cristina Chaves Lima passa o dia com luvas e máscaras por medo de coronavírus

A irmã mais nova de Lima trabalha em um hospital e, por ter mais chances de entrar em contato com o vírus, passou a dormir isolada em um cômodo na parte de baixo do sobrado da família.

"Minha mãe pergunta: 'Você vai vir aqui hoje? Vem aqui.' Mas eu respondo que não posso e só converso com ela por telefone. Eu trabalho muito exposta. Estamos fazendo a nossa parte para cuidar de quem a gente ama, mas ainda tem muitos idosos na rua. Muita gente não está levando a sério", afirma.

Ela conta que a empresa tomou diversas medidas de segurança, como ter adotado uma limpeza especial dos ônibus e a distribuição de álcool gel para os funcionários. Mesmo com tantos cuidados, diz que tem medo de ser contaminada. Mas reconhece que precisa trabalhar porque oferece um serviço essencial à população.

"Se pudéssemos ficar em casa, ficaríamos. Transportamos pessoas da área de saúde, posto de gasolina, supermercado e não podemos ficar sem eles. A gente não pode parar de trabalhar", afirma.

A cobradora diz que nenhum funcionário acima de 60 anos está trabalhando e que os ônibus estão circulando com frota reduzida e, mesmo assim, vazios.

Já a faxineira Tatiana Aparecida da Silva trabalha na linha de frente do risco de contaminação. Ela é uma das responsáveis pela limpeza de um hospital de São Paulo.

Em meio à pandemia de coronavírus, ela precisa tomar cuidados redobrados. Isso porque trabalha não só nas áreas comuns, como corredores e salas de espera, mas também faz a limpeza dos quartos do hospital.


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Faxineira de hospital Tatiana Silva avalia como incoerente o discurso de Jair Bolsonaro de que isolamento deveria ser flexibilizado.

Ela avalia como incoerentes as críticas do presidente Jair Bolsonaro contra o isolamento social de todos os brasileiros.

"Não parei de trabalhar um só dia, mas seguindo todas as orientações e acreditando na minha fé. Mas achar que todos devem sair de casa e contar com a sorte? Acho que vivemos em uma democracia, então quem quiser assuma os riscos", afirma.

Ela diz que tenta se manter calma porque disse não poder de trabalhar.

"Quem cuida de quem precisa não pode ficar doente. A gente tem que blindar a nossa mente. Tive colegas que saíram com medo de estar muito vulnerável e entrar nas estatísticas. Mas tem que encarar. Eu assisto todos os noticiários, mas não deixo o pânico entrar na minha mente. Eu sigo todas as técnicas de segurança e tenho fé".




Autor: Felipe Souza - @felipe_dess
Fonte: BBC News Brasil em São Paulo
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 31/03/2020
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52090643

terça-feira, 17 de março de 2020

Coronavírus: por que ainda não há quarentena no Brasil; entenda o que é e como pode ocorrer


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Há 301 casos confirmados do novo coronavírus no Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde

Desde que foram confirmados os primeiros casos de transmissão comunitária do novo coronavírus no Brasil, alguns Estados e o Distrito Federal anunciaram medidas para conter sua disseminação, como suspensão das aulas, fechamento de cinemas, teatros e restaurantes e cancelamento de grandes eventos.

O Ministério da Saúde também pediu que idosos fiquem em suas residências e que as pessoas trabalhem de casa quando possível.

Muita gente tem se referido a isso como "quarentena", mas, tecnicamente, ainda não chegamos ao estágio em que esta medida está em vigor, como na Itália e na China — e, mais recentemente, na França e na Espanha —, onde indústrias e o comércio foram fechados e as pessoas foram proibidas de sair às ruas.

Até o momento, têm sido adotadas as chamadas medidas de distanciamento social, em que se busca reduzir a circulação de pessoas pelas cidades e prevenir o contato entre quem está saudável com quem já está infectado, explica Eduardo Carmo, pesquisador do Núcleo de Epidemiologia e Vigilância em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Brasília.

"Quarentena é uma medida de restrição de movimentos, do direito de ir e vir, que pode ser individual ou coletiva, em bairros, cidades ou outra unidade geográfica. Isso não foi adotado no Brasil ainda", diz Carmo.

O que diz a legislação?

A Lei 13.979, de 6 de fevereiro, trata das medidas que podem ser aplicadas para combater a epidemia de coronavírus no Brasil. Entre elas, estão o isolamento e a quarentena.

O isolamento é recomendado para pessoas que sejam consideradas casos assintomáticos, suspeitos, confirmados ou prováveis ou tenham entrado em contato com casos confirmados. Nesses casos, o isolamento deverá ser normalmente feito em casa, por um prazo de 14 dias, que pode ser ampliado de acordo com o resultado dos exames.

Em uma coletiva de imprensa na sexta-feira (13/03), o secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Wanderson de Oliveira, esclareceu que o isolamento não é uma medida de cumprimento obrigatório.

"Não vai ter ninguém controlando as ações das pessoas, é um ato de civilidade para proteção das outras pessoas. Já a quarentena é uma medida restritiva para o trânsito de pessoas, que busca diminuir a velocidade de transmissão do coronavírus", disse Oliveira.

A Portaria 356, do Ministério da Saúde, de 11 de março, regulamenta esta lei e esclarece que o objetivo da quarentena é "garantir a manutenção dos serviços de saúde em local certo e determinado".

Esta medida deve ser decretada por meio de um "ato administrativo formal", editado pelos secretários municipal ou estadual de Saúde, o ministro da Saúde ou por prefeitos, governadores ou presidente da República.


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No Brasil, estão sendo aplicadas até o momento medidas de distanciamento social, mas não de quarentena

Quando — e se — for necessária, "a medida de quarentena será adotada pelo prazo de até 40 dias, podendo se estender pelo tempo necessário para reduzir a transmissão comunitária e garantir a manutenção dos serviços de saúde no território", diz a portaria.

Essa prorrogação depende de uma avaliação do Centro de Operações de Emergência em Saúde Pública, e a quarentena não pode ser mantida depois do fim de uma situação de emergência de saúde pública de interesse internacional.

Por fim, o descumprimento das regras de quarentena poderá ser punido "nos termos previstos em lei".
Quando se instaura uma quarentena?

Eduardo Carmo explica que uma quarentena é normalmente adotada em áreas onde há uma transmissão comunitária, quando não é possível identificar a origem da infecção.

Diante do grande número de casos, a ideia da medida é evitar não apenas que haja ainda mais infecções, mas que o vírus se espalhe para outras regiões.

"Foi como ocorreu na Itália, onde começou a haver a transmissão comunitária no norte do país e foi instaurada uma quarentena ali para que não houvesse disseminação para outros territórios italianos, mas isso se mostrou improdutivo, porque já estava ocorrendo a transmissão comunitária nestes locais", diz Carmo.

Poucos dias depois de anunciar que 16 milhões de italianos na Lombardia e em 14 outras Províncias estavam sob quarentena, o governo do país ampliou a medida para todo o país, afetando 60 milhões de pessoas.

"Colocar um país inteiro sob quarentena é mais para evitar a dispersão do vírus para outros países do que para reduzir o número de casos dentro do país, ainda que uma medida assim possa ter esse efeito", diz Carmo.

O pesquisador destaca ainda o caso da China, onde cidades inteiras foram colocadas sob quarentena — estima-se que 500 milhões de pessoas foram alvo de restrições de circulação e viagens.

"A medida aparentemente evitou a disseminação para todo o território nacional em larga escala. A capital, Pequim, não foi seriamente afetada, por exemplo, assim como outras grandes províncias além de Hubei", diz Carmo.


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Protestos como os do domingo não seriam possíveis em uma situação de quarentena

Pode haver quarentena no Brasil?

O pesquisador afirma que a adoção da quarentena no Brasil dependerá da velocidade de transmissão do vírus no país.

O primeiro caso foi detectado no dia 26 de fevereiro, em São Paulo, em um empresário de 61 anos que se infectou em uma viagem à Itália. Desde então, já foram confirmados 301 casos no país.

Entre eles, há 128 casos importados, quando a pessoa é contaminada no exterior; 80 de transmissão local, quando o paciente foi infectado ao ter um contato próximo com outro paciente confirmado; e 21 de transmissão comunitária, oito nas cidades do Rio de Janeiro e 13 na cidade de São Paulo.

"Se começar a ocorrer a transmissão comunitária em outros Estados além de Rio e São Paulo, não vai fazer sentido instaurar uma quarentena. Normalmente, é mais viável adotar medidas de distanciamento social e recomendar que as pessoas fiquem em casa", diz Carmo.

Por sua vez, a médica sanitarista Ana Freitas Ribeiro, do serviço de epidemiologia do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, avalia que a quarentena é uma "questão de tempo".

"Se há transmissão comunitária, precisamos aplicar medidas restritivas mais eficazes, porque as medidas mais brandas não surtem efeito. Uma escola fecha, mas outra não. O idoso fica em casa, mas o jovem que mora com ele continua a circular e traz o vírus", diz Ribeiro.
Apoio à população e cooperação da sociedade

O Ministério da Saúde disse ainda na sexta-feira que, nos locais onde há transmissão comunitária, a quarentena pode ser declarada pelos gestores locais quanto 80% ou mais dos leitos de unidades de tratamento intensivo (UTI) disponíveis para o tratamento de pacientes com covid-19, a doença provocada pelo novo coronavírus, estiverem ocupados.

A sanitarista Ana Freitas Ribeiro diz que esse critério pode ser insuficiente, porque, mesmo diante de medidas drásticas como a imposição de uma quarentena, a transmissão comunitária intensa continua a ocorrer por um determinado tempo.

"Vimos isso acontecer na China, onde, depois de a quarentena ser instaurada, a curva de infecção demorou muito a cair, e o país continuou a ter por dia 3 mil novos casos e 100 mortes ao longo do mês seguinte", diz Ribeiro.

Por este motivo, a médica avalia que "não faz sentido" esperar até que 80% dos leitos de UTI disponíveis para pacientes infectados pelo novo coronavírus estejam em uso para que esta medida seja tomada.

"Quando fizer isso, já não vai ter mais quase leito. Haverá uma situação de superesgotamento desses recursos", diz Ribeiro.

Carmo concorda e afirma que medidas de restrição de circulação devem ser adotadas antes de se chegar a este patamar. "Para reduzir a pressão sobre os serviços de saúde, é preciso que isso ocorra antes da subida para o pico da curva de infecção, porque, com 80% dos leitos de UTI ocupados, provavelmente se estará muito perto do pico", afirma o pesquisador.

Ribeiro ressalta, no entanto, que, se uma quarentena chegar a ser instaurada no país, esta medida precisará ser acompanhada de medidas de apoio à população por parte do governo e entre a própria sociedade, para evitar uma "crise social intensa".

"Não basta apenas determinar que as pessoas fiquem em casa, porque há pessoas que vivem de um salário diário e vão precisar de ajuda para se alimentar, há pessoas idosas que não podem sair de casa e precisarão que alguém leve comida para elas ou de ajuda quando necessitarem buscar algum serviço de saúde", diz a médica.

"Isso envolve um aporte de recursos muito grande e uma capacidade de organização das pessoas em seus prédios e bairros."




COMO SE PROTEGER: O que realmente funciona
COMO LAVAR AS MÃOS: Vídeo com o passo a passo
SINTOMAS E RISCOS: Características da doença
25 PERGUNTAS E RESPOSTAS: Tudo que importa sobre o vírus
MAPA DA DOENÇA: O alcance global do novo coronavírus




Autor: Rafael Barifouse
Fonte: BBC News Brasil em São Paulo
Sítio Online da Publicação: BBC Brasil News
Data: 17/03/2020
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-51883270