segunda-feira, 6 de março de 2023

5 estratégias para renovar a motivação e a paixão pelo trabalho



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Eu quis ser escritor desde que peguei emprestada, pela primeira vez, a antiga máquina de escrever dos meus pais, aos seis anos de idade. Para minha frustração, eu ainda não podia ter acesso ao computador da família.


Quando vi meus pensamentos tomarem forma na página em branco, fui fisgado imediatamente.


Como escritor e jornalista, reconheço a sorte que tenho de concretizar essas ambições infantis, mas estaria mentindo se dissesse que não existem períodos em que essa paixão diminui.


Isso acontece principalmente na Londres úmida e sem graça de janeiro, quando meu ânimo já está ruim, e a repetição dos prazos semanais pode começar a ser cansativa.


Nesses momentos, sinto como se estivesse andando em uma esteira ergométrica, sem sair do lugar — e me dá vontade de pular fora.


E não estou sozinho. Como revelou a recente tendência de "demissão silenciosa", muita gente está perdendo o entusiasmo por carreiras que, outrora, amava. Você pode ter feito tudo o que estava ao seu alcance para conseguir o emprego dos sonhos — e, ainda assim, a rotina diária às vezes tira seu entusiasmo.


"Na minha experiência como coach, eu diria que este é um problema sério e que está crescendo", afirma a coach pessoal britânica Anna K. Schaffner, especializada em exaustão, burnout e resiliência. Ela é autora do livro The Art of Self-Improvement ("A arte do autoaprimoramento", em tradução livre).


Para algumas pessoas, a perda da paixão pode ser sinal de que é preciso mudar de carreira, mas nem sempre essa mudança drástica é possível.


Felizmente, estudos recentes mostram que algumas pessoas adotam naturalmente "estratégias de cultivo" para reacender essa paixão e motivação — e todos nós podemos aplicar essas técnicas de várias formas diferentes.



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Dividir projetos em tarefas rápidas e menores pode oferecer aquela agradável sensação de satisfação quando você termina cada fase planejada

Questão de mentalidade


O primeiro estudo é da professora de psicologia Patricia Chen, da Universidade do Texas em Austin, nos Estados Unidos.


Ela analisou a influência de duas mentalidades diferentes sobre a paixão. Os chamados "teóricos da adequação" costumam concordar com afirmações como:


Acredito que existe um trabalho perfeito e adequado para cada indivíduo, e encontrar a profissão correta vai determinar a felicidade e o sucesso profissional da pessoa.


Já os "teóricos do desenvolvimento" são mais propensos a concordar com afirmações como esta:


Acredito que a paixão se desenvolva por meio de um processo de aprendizado em qualquer profissão escolhida. Quanto melhor você ficar em um tipo de trabalho, mais começará a amar a profissão.


Usando questionários detalhados que avaliam o tipo de mentalidade das pessoas e vários resultados no ambiente de trabalho, Chen concluiu que essas crenças se tornam profecias autorrealizáveis.


Os teóricos da adequação vão lutar para encontrar felicidade em um emprego que não atende aos seus critérios específicos. Enquanto isso, os teóricos do desenvolvimento podem aprender a encontrar prazer e interesse nas diferentes tarefas, de forma que sua satisfação cresça ao longo do tempo, mesmo se o emprego não atender inicialmente todos os requisitos desejados.


O novo estudo de Chen pretende explorar como os teóricos do desenvolvimento administram sua paixão desta forma. Que estratégias eles usam para manter acesa a chama do desejo pelo trabalho?


Para descobrir, ela começou entrevistando 316 estudantes de graduação de diversas disciplinas acadêmicas sobre como a paixão deles pelo curso mudou ao longo do tempo. O estudo incluía essencialmente um questionário aberto sobre o que havia causado essa mudança na paixão.


Dentre as centenas de respostas, os pesquisadores identificaram cinco estratégias comuns apontadas pelos estudantes para aumentar sua motivação. São elas:


- Reconhecer a relevância pessoal: um estudante de negócios, por exemplo, pode tentar pensar em formas nas quais o conhecimento teórico o ajuda a fundar uma start-up.


- Reconhecer a relevância social: um estudante pode se perguntar como o conteúdo dos estudos pode ajudá-lo a entender o mundo, e como aquele conhecimento pode acabar beneficiando os demais.


- Construir familiaridade: adquirir novos conhecimentos pode despertar a curiosidade de alguém para saber mais, à medida que identifica novos pontos de interesse. E o próprio fato de conseguir avançar e dominar tarefas difíceis, por si só, pode ser uma recompensa. Por isso, alguém que se sente desmotivado pode procurar novas formas de ampliar seus conhecimentos.


- Ganhar experiência prática: muitos estudantes descobriram que os estágios aumentaram seu entusiasmo pelos estudos acadêmicos.


- Encontrar mentores e mudar o ambiente: os estudantes podem procurar ativamente professores que os inspirem ou amigos que os ajudem a tornar o trabalho mais agradável.


De forma geral, Chen confirmou que os estudantes com mentalidade de desenvolvimento eram mais propensos a observar aumentos positivos da paixão pelos estudos ao longo do tempo. Esta mudança está relacionada com a quantidade de estratégias de cultivo da paixão que eles utilizam.


Já os estudantes com a mentalidade de adequação não parecem empregar essas estratégias com a mesma eficiência.



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Gerar motivação


As conclusões de Chen estão alinhadas com pesquisas psicológicas mais amplas que analisam as maneiras pelas quais as pessoas regulam seus interesses e motivação no trabalho.


Além de confirmar o uso das estratégias que Chen já havia encontrado (como identificar a relevância pessoal ou social do trabalho), estes estudos sugerem outras formas de reavivar o encanto.


Dois dos métodos mais úteis são a “definição de objetivos próximos” e a "consequência automática". Eles são particularmente úteis quando você se sente sobrecarregado com um novo projeto, no qual o desafio é tão grande, e a recompensa tão distante, que você tem dificuldade de reunir o entusiasmo necessário para começar.


Para aplicar o método de definição de objetivos próximos, você precisa dividir o projeto em tarefas menores que sejam mais rápidas de completar. Isso permite que você sinta aquela sensação agradável de satisfação quando finaliza cada etapa.


"Isso pode ser especialmente eficaz se você usar pequenas recompensas por atingir essas metas, como assistir à Netflix, depois de encerrar uma tarefa", afirma Maike Trautner, pesquisadora de pós-doutorado da Universidade de Münster, na Alemanha. Esta é a parte da consequência automática.


Mais uma vez, a mentalidade é importante. Em um recente estudo em parceria com Malte Schwinger, professor da Universidade Philipps de Marburgo, também na Alemanha, Trautner entrevistou mais de 700 estudantes para descobrir as formas como eles lidam com a motivação.


Assim como Chen observou no seu trabalho sobre a paixão, os dois professores concluíram que alguns estudantes acreditam que sua motivação para uma tarefa é fixa e inalterável, enquanto outros acreditam que ela pode ser cultivada.


E são estes últimos que buscam maneiras de aumentar a motivação utilizando estratégias práticas, enquanto aqueles que acreditam que a motivação está além do seu controle são menos proativos.



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Partindo para a ação


Para as pessoas que já têm uma mentalidade de desenvolvimento, estas estratégias podem parecer óbvias. Mas o trabalho de Chen sugere que elas são minoria. Nas amostras dela, a maioria demonstrou ter mentalidade de adequação e, portanto, poderia se beneficiar ao ser lembrada do seu potencial para desenvolver paixão e motivação.


Dedicar mais tempo para refletir sobre nossos objetivos gerais, procurar os benefícios que nosso trabalho proporciona para outras pessoas, entrar em contato com colegas inspiradores e definir um plano com pequenas recompensas — todas essas são estratégias simples que podemos seguir para ampliar nosso entusiasmo.


Mas você não precisa assumir toda a responsabilidade. Schaffner sugere conversar com seu chefe sobre maneiras pelas quais você pode mudar seu trabalho para que ele se alinhe melhor com seus valores e interesses — um processo que ela descreve como job crafting (que seria algo como uma "reconfiguração ou ressignificação do trabalho")


"Os bons empregadores devem se interessar por isso e apoiar a ideia", afirma.


"Faz total sentido que seus funcionários recebam tarefas mais adequadas para que eles tenham melhor desempenho."


Se você ainda sentir que nada mudou, talvez você esteja simplesmente pedindo demais da sua carreira.


Da mesma forma que, de vez em quando, esperamos que nossos parceiros românticos sejam a fonte de toda emoção nas nossas vidas (o que deposita uma pressão desnecessária sobre o relacionamento), às vezes podemos ter expectativas irreais sobre nossos empregos, como se fossem fornecer significado para nossas vidas.


Por este motivo, Schaffner sugere adotar um hobby que também possa oferecer um sentido de propósito e realização, para que o emprego não seja o único lugar em que você vai encontrar satisfação na vida.


"Ironicamente, com um pouco de desapego e perspectiva, nossa tendência é trabalhar melhor e com mais leveza", diz ela.


Eu mesmo estou tentando aplicar esta filosofia. Nestes dias sombrios de inverno no hemisfério norte, tenho tentado recarregar minha energia me lembrando de todas as razões que me levaram inicialmente a seguir a carreira de jornalista e dedicando mais tempo para ler os comentários das pessoas sobre o que escrevo — uma atividade que muitas vezes fica em segundo plano devido à pressão dos prazos urgentes.


Mas, seguindo o conselho de Schaffner, também estou me esforçando para dedicar mais tempo a outras atividades que eu adoro.


Nas palavras dela, "pode ser incrivelmente curativo e terapêutico quando o trabalho é apenas trabalho".






Autor: David Robson
Fonte: BBC Worklife
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 05/03/2023
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/articles/crgvpvwwvg4o

Comer comida queimada faz mal à saúde?



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Você costuma raspar os pedaços queimados da sua torrada? Pesquisas recentes indicam que pode ser uma boa ideia


É muito provável que você mantenha até hoje, talvez sem perceber, alguns dos hábitos de comer e cozinhar que aprendeu com adultos quando era jovem.


Talvez você nunca tenha lambido comida da faca, por exemplo, ou tenha o costume de jogar sal sobre seus ombros para afastar os maus espíritos.


Muitos desses hábitos estranhos provavelmente são apenas superstições, mas existe um costume em particular que pode ter sido profético algumas décadas atrás. Afinal, ele se baseia em uma descoberta científica que ainda não havia ocorrido.


Foi apenas em 2002 que cientistas da Universidade de Estocolmo, na Suécia, descobriram que pode realmente ser aconselhável raspar os pedaços queimados da sua torrada.


Eles descobriram que uma substância chamada acrilamida forma-se quando aquecemos certos alimentos – incluindo batatas, pão, biscoitos, cereais e café – a mais de 120°C e o açúcar dos alimentos reage com o aminoácido asparagina. Este processo é conhecido como a reação de Maillard, que faz com que o alimento adquira a coloração marrom e gere aquele sabor característico de "coisa queimada".

Os cientistas descobriram que a acrilamida é carcinogênica nos animais, ainda que em doses muito mais altas que as dos alimentos humanos.


A acrilamida também pode aumentar o risco de câncer em seres humanos, especialmente em crianças, segundo a Autoridade Europeia de Segurança Alimentar. Mas os pesquisadores que estudam seus efeitos em seres humanos ainda não conseguiram chegar a uma conclusão definitiva.


"Quase 30 anos depois da sua classificação como 'provável carcinogênico humano', as evidências da sua real carcinogenicidade nas pessoas ainda são inconsistentes. Se continuarmos fazendo novos estudos em seres humanos, poderemos ter dados apropriados para alterar a classificação da acrilamida para 'carcinogênico humano'", afirma Fatima Saleh, professora de ciências médicas de laboratório da Universidade Árabe de Beirute, no Líbano.


O que os cientistas sabem ao certo é que a acrilamida é neurotóxica para os seres humanos, o que significa que ela pode afetar o sistema nervoso. A causa exata ainda não é totalmente compreendida, mas uma das teorias é que a acrilamida ataca proteínas estruturais nas células nervosas ou pode inibir sistemas anti-inflamatórios que protegem as células nervosas contra lesões.


Já se demonstrou que os efeitos tóxicos da acrilamida são cumulativos. Isso significa que consumir pequenas quantidades de acrilamida por um longo período de tempo pode aumentar o risco de que ela prejudique órgãos com o passar do tempo.


Mais especificamente, evidências de estudos com animais sugerem que a exposição de longo prazo a acrilamida na alimentação também pode aumentar o risco de doenças neurodegenerativas, como a demência. E ela também pode estar associada a distúrbios do neurodesenvolvimento em crianças, segundo Federica Laguzzi, professora de epidemiologia nutricional e cardiovascular do Instituto de Medicina Ambiental do Instituto Karolinska, na Suécia.



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Retirar pedaços queimados dos alimentos antes de comê-los pode evitar prejuízos para a saúde


"A acrilamida atravessa todos os tecidos, incluindo a placenta, porque tem baixo peso molecular e é solúvel em água", explica Laguzzi. A professora encontrou relação entre a maior ingestão de acrilamida por mulheres grávidas e menor peso, circunferência da cabeça e comprimento dos bebês na hora do parto.


O possível mecanismo que leva a acrilamida a aumentar o risco de câncer em seres humanos ainda é desconhecido. Mas o professor de epidemiologia Leo Schouten, da Universidade de Maastricht, na Holanda, tem uma teoria sobre por que isso pode acontecer.


Depois que cientistas suecos descobriram a presença de acrilamida na alimentação humana em 2002, a Autoridade Alimentícia Holandesa entrou em contato com pesquisadores do Estudo de Coorte Holandês sobre Alimentação e Câncer, do qual Schouten faz parte, para investigar se a acrilamida na alimentação traria riscos para seres humanos.


Schouten e seus colegas tentaram então formular uma estimativa da quantidade de acrilamida consumida pelas pessoas, com base em um questionário.


Eles descobriram que a variação entre as pessoas com alta e baixa exposição em uma população de holandeses idosos pode ser explicada principalmente por um produto popular na Holanda – o "ontbijtkoek", algo como "bolo do café da manhã". Ele é extremamente rico em acrilamida, devido ao bicarbonato de sódio utilizado na sua produção.


Os pesquisadores investigaram a relação entre a ingestão de acrilamida por não fumantes (já que o cigarro também contém a substância) e todos os tipos de câncer e encontraram risco mais alto de câncer do ovário e endométrio em mulheres com alta exposição à acrilamida. E também encontraram, em outros estudos, uma leve correlação entre a ingestão de acrilamida e câncer renal.


Mas estas descobertas ainda aguardam confirmação por outros pesquisadores. O estudo mais próximo foi realizado nos Estados Unidos e suas conclusões, publicadas em 2012, indicam aumento do risco de câncer do ovário e endométrio entre mulheres pós-menopausa não fumantes que consumiram altas quantidades de acrilamida.


É claro que pode haver outras razões – pessoas que comem altos níveis de acrilamida também podem fazer outras opções de estilo de vida que as coloquem em risco mais alto.


Outros estudos não encontraram associação ou encontraram associação mais fraca. Mas não está claro se a relação encontrada por Schouten e sua equipe era incorreta ou se outros estudos não conseguiram medir a ingestão de acrilamida com precisão.



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Colocar as batatas na água quente por 10 minutos pode reduzir a quantidade de acrilamida produzida durante a fritura


Schouten explica que o mecanismo por trás do possível efeito causador de câncer da acrilamida pode estar relacionado aos hormônios, já que certos hormônios foram associados ao aumento do risco de câncer, especialmente câncer genital feminino, como o câncer do endométrio e do ovário.


"A acrilamida pode afetar o estrogênio ou a progesterona, o que explicaria o câncer feminino, mas ainda não há comprovação a respeito", afirma o professor.


Estudos de laboratório com ratos também encontraram relações entre a ingestão de acrilamida e câncer nas glândulas mamárias, na glândula tireoide, nos testículos e no útero, o que também sugere um processo hormonal. Mas isso não significa necessariamente que os riscos sejam similares em seres humanos.

Mais estudos


Em 2010, o Comitê Conjunto de Especialistas sobre Aditivos Alimentares da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) sugeriu que mais estudos de longo prazo são necessários para compreender melhor a relação entre a acrilamida e o câncer. O Comitê apoia os esforços para reduzir os níveis de acrilamida nos alimentos.


Mas um dos maiores desafios é medir com precisão a quantidade de acrilamida que nós consumimos.


"É bem aceito que a acrilamida é genotóxica e pode causar câncer em animais, mas a associação entre acrilamida e câncer em seres humanos ainda é incerta", afirma Laguzzi.


"A maioria dos estudos epidemiológicos é realizada com ingestão de acrilamida medida por meio de questionários sobre a alimentação que dependem do relato das pessoas, o que pode interferir nos resultados", explica a professora.


Embora Schouten acredite ter conseguido medir com precisão a acrilamida na alimentação das pessoas, nem todos concordam, incluindo vários toxicólogos. Outra forma de avaliar a ingestão de acrilamida é medir os biomarcadores na urina e no sangue, mas também não se encontrou nada de concreto desta forma, segundo ele.


É importante ter mais pesquisas, com a acrilamida medida com biomarcadores, especialmente no sangue, que demonstra a ingestão de acrilamida por um período de tempo mais longo do que a urina, segundo Laguzzi.


A acrilamida já foi medida por biomarcadores em estudos americanos, mas apenas muito recentemente. Um estudo de 2022, utilizando dados que cobrem uma década, demonstra relação entre a ingestão de acrilamida e mortes por câncer, mas não conseguiu concluir quais tipos da doença.


Uma razão que talvez explique por que não existem muitas evidências conclusivas de que os níveis de acrilamida na alimentação podem aumentar o risco de câncer é porque podemos ter medidas de proteção. no corpo, que limitam os riscos maiores causados por nossas eventuais batatas fritas mais queimadas.



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São necessários novos estudos de longo prazo para encontrar a relação entre alimentos queimados e o câncer


Laguzzi não encontrou relação entre o risco de câncer não ginecológico e a ingestão de acrilamida na sua pesquisa feita em evidência populacional dessa associação. Ela afirma que o motivo pode ser porque os seres humanos têm bons mecanismos de reparação para ajudar a prevenir possíveis efeitos carcinogênicos e neurotóxicos ou porque esses estudos foram realizados utilizando medidas imprecisas de exposição à acrilamida alimentar.


"Além disso, nós não comemos acrilamida sozinha", ressalta Laguzzi. "Ela está nos alimentos, onde também pode haver outros componentes, como antioxidantes, que podem ajudar a prevenir os mecanismos tóxicos."

Medidas de redução


Apesar da ausência de pesquisas sólidas que demonstrem os riscos da ingestão de acrilamida aos seres humanos, a indústria alimentícia está tomando medidas para reduzir a substância nos seus produtos.


"A União Europeia está em processo de definir os níveis máximos permitidos para acrilamida nos alimentos, o que poderá ter sérias repercussões para a cadeia de fornecimento", afirma o pesquisador Nigel Halford. Suas pesquisas estão ajudando agricultores a reduzir o potencial de formação de acrilamida em produtos preparados com trigo.


A acrilamida não é encontrada nas plantas, mas sim a asparagina, que é a substância que se transforma em acrilamida durante o aquecimento. "A acrilamida afeta uma ampla variedade de alimentos produzidos com cereais, de forma que é muito importante para a indústria alimentícia", afirma ele.


Os grãos de trigo acumulam muito mais asparagina do que o necessário e, aparentemente, o acúmulo é maior quando eles não têm todos os nutrientes necessários, especialmente enxofre, segundo Halford. O pesquisador está tentando suprimir este processo geneticamente, usando o método de edição genética Crispr.


No outro lado da cadeia de fornecimento, muitos produtores vêm sendo incentivados a reduzir, quando possível, o teor de acrilamida dos seus produtos, especialmente em alimentos para bebês.


Leo Schouten conta que esta iniciativa tem tido sucesso. Ele ficou feliz ao saber que o bolo de café da manhã holandês ontbijtkoek agora tem cerca de 20% da acrilamida que costumava ter, agora que foi alterada a sua forma de produção.


Fatima Saleh afirma que também existem formas de reduzir o teor de acrilamida em casa, durante a preparação dos alimentos. Segundo ela, por exemplo, mergulhar batatas cortadas em água quente por 10 minutos antes de fritá-las pode reduzir a formação de acrilamida em quase 90%.


Federica Laguzzi destaca que o interesse científico pelos riscos da acrilamida à saúde cresceu novamente nos últimos anos. Ela afirma que será um processo longo, mas espera que, em alguns anos, a eventual relação entre a ingestão de acrilamida e o risco de câncer fique mais clara.


Enquanto isso, aquele hábito de raspar os pedaços queimados da sua torrada pode não ser uma ideia tão ruim assim.




Autor: Jessica Bradley
Fonte: BBC Future
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 06/03/2023
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/articles/ckmd30dn5j2o

Qual o mínimo de exercícios que precisamos fazer e ainda assim melhorar a saúde



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Encaixar exercícios na nossa rotina cheia de compromissos é um desafio, mas uma questão importante


Quanto exercício você consegue encaixar na sua rotina?


Em um universo paralelo, eu praticamente moro dentro da piscina, vou de bicicleta a todos os lugares e corro 10 km só por diversão.


Mas no mundo real — do trabalho e da família — fazer natação uma vez na semana já é uma grande conquista.


A recomendação médica é para que as pessoas dediquem quase duas horas e meia (150 minutos) a exercícios de intensidade moderada por semana. Mas cerca de um quarto da população não consegue se exercitar nem por meia hora.


Então, existe uma alternativa mais fácil? Qual é a quantidade mínima de exercício para manter a saúde?


A professora Zoe Saynor — de fisiologia do exercício clínico da Universidade de Portsmouth e ex-jogadora profissional de rugby — busca recomendar rotinas mais simples de exercício.


Ela vai me ajudar a procurar uma resposta a essa questão. Por uma semana, eu usei um rastreador de atividades físicas.


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Zoe Saynor e o repórter James Gallagher no laboratório da Universidade de Portsmouth


Antes mesmo de eu revelar os resultados dos testes, já vou dar minhas desculpas: essa foi uma semana muito movimentada no trabalho, e fiquei preso à minha mesa na maior parte do tempo em que estava usando o equipamento.


Os resultados foram horríveis. Eu consegui apenas um minuto de exercício intenso (equivalente à corrida) por dia e 16 minutos de exercício moderado (uma caminhada rápida).


"Essa é o retrato do que vemos acontecer com muitas pessoas na sociedade moderna", diz Saynor.

Ir rápido ou ir longe?


Se você quer passar menos tempo se exercitando — mas obter bons resultados —, a única opção é se exercitar com maior intensidade.


"Há evidências claras de que, se você quiser sessões de exercício mais curtas, elas precisam ter uma intensidade mais alta", diz Saynor.


A orientação oficial dos médicos é de fazer 75 minutos de exercício físico intenso por semana, em vez de 150 minutos de atividade moderada.


Um dos exercícios da moda é o treino intervalado de alta intensidade (HIIT ou High Intensity Interval Training, em inglês), que envolve explosões de atividade intensa em períodos curtos de tempo.


No entanto, Saynor diz que a maioria das pessoas não consegue fazer treinos assim rotineiramente, porque o HIIT exige muita intensidade.

Qual é o mínimo?


Quando se trata da menor quantidade de exercícios que as pessoas devem fazer, Saynor diz que acredita que a quantidade de passos por dia gira em torno de 5.000 a 6.000.


É fácil desprezar os conselhos de descer uma parada de ônibus antes e caminhar o resto ou de dar uma volta no intervalo para o almoço. Mas aparentemente esses pequenos esforços parecem fazer a diferença.


Um estudo com quase 80 mil pessoas publicado na revista JAMA Internal Medicine mostrou que caminhar um pouco mais a cada dia reduz o risco de câncer, doenças cardiovasculares e morte precoce.


Esse padrão continua até que você atinja cerca de 10 mil passos por dia. Passos mais rápidos valem mais do que os lentos.


"Se você não tiver tempo para de uma hora para a outra dar 10 mil passos por dia, você conseguiria dar 5.000 passos mais rápido? Isso melhoraria sua saúde", diz Saynor.


Você nem precisa fazer exercícios formais, como corrida, musculação ou natação, para perceber os benefícios para sua saúde.


Um estudo publicado na Nature Medicine analisou 25 mil pessoas que não "se exercitam" formalmente, mas realizam pequenas tarefas cotidianas que exigem algum esforço físico.


Isso pode ser algo bastante corriqueiro — correr para pegar um trem, usar o aspirador de pó, brincar com crianças ou cachorros, carregar compras pesadas ou subir escadas.


A pesquisa mostrou que algo como três e quatro minutos de curtas atividades vigorosas ao longo do dia traz enormes benefícios à saúde.


"As pessoas que exibem essa atividade intermitente podem reduzir o risco de doenças importantes, como doenças cardíacas e câncer, em até 50%", diz Mark Hamer, professor de Esporte e Medicina de Exercícios da University College London.


"Na última década, as diretrizes estão lentamente se afastando da recomendação de 30 minutos por dia para algo como 'qualquer coisa já ajuda', e acho que esses resultados ressaltam essa ideia".



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Trabalho doméstico que movimenta o corpo já conta como traz benefícios à saúde

Sauna conta?


Se ainda assim, você não tem tempo nem para poucos exercícios, pode haver outra maneira — que é bastante agradável.


Que tal um banho — em banheira de hidromassagem ou sauna?


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Sauna é considerada uma boa maneira de imitar alguns dos benefícios do exercício


Resolvi botar meu calção de banho e participar de um novo teste.


Este é um experimento preciso — eu não posso simplesmente pular dentro da água. O pesquisador Thomas James tem que me "içar" para dentro de uma piscina com água a 40°C, de tal forma que apenas minha cabeça e pescoço ficam acima da água.


O ponto de 40°C é mais alto que a temperatura corporal (37°C). Então, o tempo todo em que estou aqui meu corpo está trabalhando para perder calor.


Rapidamente, sinto o suor de minha testa. Mas no resto do meu corpo o suor está apenas escorrendo e isso não está me esfriando.


"A água quente é letal nesse aspecto", diz James.


Se eu ficasse muito tempo aqui, meu corpo aqueceria demais e eu poderia morrer. Meu coração estaria bombeando cada vez mais rapidamente, tentando fazer o corpo perder calor ao aproximar o sangue da superfície da pele.


"Seu coração estará trabalhando duro, parecido com o que você veria com exercícios de baixa intensidade", diz ele. "Estamos vendo reduções na pressão arterial, mesmo em pessoas saudáveis".


A ideia dos pesquisadores é simular o que aconteceria com o corpo em um exercício.


"Esta é uma maneira muito boa de imitar alguns dos benefícios que você obtém do exercício, mas a evidência é certamente bastante clara de que o exercício é a melhor forma. Mas as duas coisas juntas [exercício e banho ou sauna] fornecem os maiores benefícios à saúde", diz James.


"Eu acho que isso realmente terá um papel importante no futuro. "


A conclusão é que fazer sauna ou tomar banho de hidromassagem depois da academia pode dar um impulso maior na saúde.


Mas a equipe da Portsmouth alerta que as pessoas precisam seguir as recomendações certas.


"Não diga: 'Vou ficar aqui o máximo que puder'. Faça isso pela diversão", diz James.


O conselho é banhos ou sauna de 10 a 20 minutos, dependendo dos equipamentos.


Obviamente, todos nós devemos ter como objetivo fazer a quantidade recomendada de exercício, mas, como muitos de nós achamos que isso impossível, é tranquilizador saber que há benefícios significativos a serem obtidos apenas fazendo um pouco mais no nosso dia-a-dia.






Autor: James Gallagher
Fonte: BBC News
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 06/03/2023
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c0x932x48vwo

'Fiz tatuagem para salvar minha vida'



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Ideia da tatuagem surgiu do medo de uma situação em que Amanda ficaria inconsciente


Desde quando era adolescente, a empresária Amanda Munaretti Selbach, de 39 anos, percebia que, ao tomar alguns medicamentos que continham o composto dipirona, sentia formigamento e coceiras pelo corpo.


No início, ela acreditava que os sintomas eram porque o medicamento estava agindo em seu organismo e não se importava com as reações. No entanto, com o passar dos anos, a empresária notou que essas manifestações após a ingestão do medicamento foram se agravando.


Com os sintomas cada vez mais graves, a empresária buscou ajuda médica e após fazer testes de alergia descobriu que era sensível a todos os Aines (Anti-inflamatórios Não Esteroides).


Os Aines são aqueles medicamentos usados no tratamento da dor aguda e crônica decorrente de processo inflamatório no organismo. Entre os exemplos mais comuns desses medicamentos estão: diclofenaco, Ibuprofeno, paracetamol, Nimesulida e AAS (ácido acetilsalicílico).

Para não ter reações alérgicas, os médicos explicaram que Amanda deveria usar medicamentos como antibióticos e corticoides, quando necessário, e assim, poderia ter uma vida considerada normal e sem intercorrências médicas.

Duas gestações, dois sustos



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Amanda descobriu que é alérgica a todos os anti-inflamatórios não esteroides


No entanto, o primeiro grande susto da empresária relacionado às suas alergias foi em 2011, quando ela foi submetida a uma cirurgia cesariana para o nascimento do primeiro filho. Sabendo da sua condição alérgica a diversos medicamentos, ela alertou os médicos e anestesistas que fariam o seu parto sobre a condição. Mas, segundo ela, não adiantou.


“O médico disse que eu precisava de um anti-inflamatório devido aos riscos de inflamação pós-cirurgia. Assim que fui para o quarto após a minha filha nascer, já comecei a passar mal. Meu corpo formigava, minha glote fechou, eu não conseguia mais falar e tinha dificuldade de respirar. Eu quase morri”, relata.


Para controlar a situação, segundo Amanda, foi necessário que os médicos usassem medicamentos como adrenalina para neutralizar o efeito do anti-inflamatório.


No ano seguinte, no nascimento do seu segundo filho, mais uma vez a empresária relata que comunicou os médicos sobre suas alergias e reações. No entanto, segundo ela, novamente durante a cesariana lhe foi aplicado medicamento anti-inflamatório e pela segunda vez ela teve edema de glote - reação alérgica grave que provoca inchaço na garganta, impedindo a passagem de ar para os pulmões.


“Dessa vez minha glote fechou na hora, na sala de parto mesmo. Meu obstetra se apavorou e todo o processo para controlar a alergia teve que ser feito ali mesmo”, recorda.

Tatuagem


Por recomendação dos próprios médicos, Amanda decidiu tatuar no braço esquerdo os medicamentos aos quais é alérgica e também aqueles que ela pode usar sem ter intercorrências.



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As tatuagens como esta feita por Amanda são chamadas de funcionais ou inteligentes


“Minha grande preocupação é sofrer um acidente, ficar inconsciente e não conseguir explicar sobre minhas alergias. Usar uma correntinha descrevendo as alergias ou deixar anotado na carteira, ou celular para mim não resolve, porque na hora de uma emergência ninguém vai olhar. Já estando tudo escrito no meu braço, não tem como eles não verem”, diz.


Ainda segundo a empresária, após fazer a tatuagem, em 2018, ela não teve mais nenhuma intercorrência médica devido ao uso errado de medicamentos aos quais é alérgica.

Ajudando os médicos


Tatuagens como a feita por Amanda, são chamadas de funcionais ou inteligentes, já que servem como ferramenta de prevenção, sinalizando alguma doença preexistente ou alergia, além de muitas identificarem ainda o tipo sanguíneo da pessoa.


Anuar Saleh Hatoum, especialista em medicina de emergência no Hospital Santa Paula, na capital paulista, afirma que esses desenhos na pele são, de fato, muito importantes e usados pelos médicos no primeiro atendimento a pacientes que chegam inconscientes.


“Sempre que o paciente chega, uma das primeiras coisas que a gente faz é a exposição dele, onde a gente o avalia por completo. A partir daí a gente procura sinais clínicos como fraturas e lesões que possam justificar o quadro dele e nesse momento também verificamos a questão da tatuagem, se tem algo que possa auxiliar nesse primeiro atendimento”, diz.



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'Minha grande preocupação é sofrer um acidente, ficar inconsciente e não conseguir explicar sobre minhas alergias', diz Amanda


No entanto, segundo os médicos, é preciso fazer a tatuagem em locais visíveis e estratégicos, que costumam ser olhados pelos profissionais de saúde de imediato, como braço e próximo a veias.


“Em qualquer situação de saúde crítica, uma das primeiras ações da equipe é providenciar um acesso venoso para punção venosa. Os braços são o primeiro lugar a serem observados pela facilidade de obtenção desse acesso. Faz parte em uma avaliação de emergência também a retirada de roupas e a avaliação do paciente por completo", acrescenta Christian Morinaga, gerente médico do Pronto Atendimento do Hospital Sírio-Libanês.


Porém, dependendo da situação, outras prioridades podem ocorrer, por isso, não é uma boa ideia registrar alergias no tórax, por exemplo.”


No caso das tatuagens com a tipagem sanguínea, em uma necessidade de transfusão, o tipo sanguíneo tatuado no punho ou no braço facilitam e agilizam o processo de atendimento ao paciente, afirmam os especialistas.

Cuidados ao fazer uma tatuagem


Para que a tatuagem seja feita da melhor maneira possível, é importante que o organismo esteja fortalecido e, assim, a recuperação aconteça de forma rápida.


Entre os principais riscos do procedimento estão: infecção, queloides e até mesmo transmissão de doenças infectocontagiosas, caso o estúdio não siga as normas de higiene e os materiais não sejam descartáveis.


“Os principais riscos são a possibilidade de contrair uma infecção, que pode ser causada por bactérias, vírus e fungos, ter reações alérgicas e até mesmo contrair doenças transmitidas pelo sangue, como hepatite B e C”, acrescenta Linhares.


Além disso, pessoas com problemas de pele, como eczema e psoríase, e pessoas com sistema imunológico enfraquecido, mulheres grávidas ou amamentando devem evitar fazer tatuagem.

Outras maneiras de comunicar suas alergias


- Usar pulseiras com as suas principais informações de saúde


- Deixar as pessoas mais próximas alertas sobre suas alergias


- Cadastrar as alergias no celular (muitos celulares disponibilizam informações em caso de emergência)


- Ter na bolsa ou carteira um cartão plastificado com informações de saúde







Autor: Simone Machado
Fonte: São José do Rio Preto (SP) para BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 06/03/2023
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c2lzw77zy5go

sexta-feira, 3 de março de 2023

Transição para a agroecologia no Brasil para a produção sustentável


Transição para a agroecologia no Brasil para a produção sustentável
Pesquisa identificou 33 “viveiros” da agroecologia em diferentes regiões e traz um amplo levantamento das práticas de transição para modelo de produção sustentável

Um estudo sobre as práticas de transição para a agroecologia no Brasil identificou os principais desafios e oportunidades enfrentados por agricultores e organizações de apoio nessa trajetória. Trata-se da publicação Agroecologias do Brasil: potenciais brasileiros para uma agricultura regenerativa a partir da transição para a agroecologia, um amplo levantamento realizado pela World-Transforming Technologies (WTT), com apoio do Instituto Ibirapitanga e da Porticus.

“O principal objetivo desse levantamento é dar visibilidade às diferentes práticas de agroecologia no país, que pode ser descrita como uma forma de produzir alimentos saudáveis, sem prejudicar o meio ambiente, promovendo a sustentabilidade social e econômica das comunidades rurais. Até então, não havia um mapeamento tão amplo e detalhado dos vários territórios onde se pratica agroecologia em solo brasileiro e a equipe da WTT se debruçou sobre várias fontes de informação para construir o que talvez seja o mapa mais detalhado sobre esse assunto”, explica Andre Wongtschowski, diretor de Inovação da WTT.

A pesquisa identificou 33 “viveiros” da agroecologia em diferentes regiões do país, cada um com características e desafios próprios mas, ao mesmo tempo, com similaridades importantes dentro da imensa diversidade encontrada.

Exemplo disso é que esses territórios puderam ser classificados em três grandes tipos de agroecologia: as camponesas, em que prevalecem atividades circunscritas nas áreas dos estabelecimentos unifamiliares; as territoriais, baseadas em processos territoriais de gestão e manejo comunitário dos recursos naturais; e as intermediárias, em que prevalecem estabelecimentos unifamiliares, mas que são predominantemente baseadas em produtos da sociobiodiversidade.

“Isso mostra que há práticas que unem as várias agroecologias acontecendo no Brasil, ao mesmo tempo em que as especificidades de cada território são fundamentais para compreender os desafios e as potencialidades da agroecologia no país”, afirma Wongtschowski.

Nesta perspectiva, a publicação ressalta que sistemas agroalimentares desempenham papel econômico central para a manutenção da vida e sobrevivência de mais de 2 bilhões de pessoas no mundo, o que representa cerca de 10% da economia global, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU). Por outro lado, apesar dos relevantes avanços tecnológicos que contribuíram para aumentar a produção de alimentos nas últimas décadas, os sistemas agroalimentares de hoje também são responsáveis por impactos negativos, tais como o agravamento da emergência climática, perigos para a biodiversidade, a poluição das águas e do solo, além do risco crescente do surgimento de novas doenças infecciosas.

Não à toa, pesquisadores do mundo todo têm chamado a atenção para o que se convencionou chamar de “limites planetários”, uma espécie de fronteira para que a humanidade continue existindo de forma segura no planeta Terra. Dentre os nove limites planetários já identificados, quatro deles — mudanças climáticas, interferência nos ciclos globais de nitrogênio e fósforo, queda da taxa de biodiversidade e mudanças no uso da terra — já estão comprometidos, em grande parte por conta do modelo vigente de produção agropecuária, que vem minando a capacidade da Terra de sustentar a vida humana e das demais espécies.

Por isso, a transição agroecológica representa uma importante missão para o desenvolvimento sustentável do Brasil. “A política científica do país deve acompanhar e se integrar a agricultores e agricultoras, suas organizações, instituições de pesquisa nos territórios e seus sistemas de incentivo e financiamento, para acelerar e apoiar a difusão deste modelo de agricultura que, para além do sustentável, se propõe a regenerar ecossistemas e relações sociais”, recomenda a publicação.

Para que isso seja possível, no entanto, os investimentos ainda precisam de melhor direcionamento para que as práticas sejam efetivamente transformadoras. Ainda que o Brasil invista cerca de 1,2% do PIB (aproximadamente R$ 90 bilhões) em pesquisa e desenvolvimento, apenas uma pequena parcela desse desenvolvimento científico é orientado por missões que sejam estratégicas. Ou seja, muito pouco da ciência produzida é feita de maneira a buscar soluções para os graves problemas sociais ou ambientais do país.

“Diante deste cenário, é urgente e necessário que se identifique os desafios de inovação da agricultura ecológica, de modo que ela possa ter capacidade para se expandir, em termos sociais e econômicos, dentro das comunidades de agricultura familiar. Afinal, existe um grande potencial de preservação das paisagens naturais que estas práticas agroecológicas podem proporcionar”, sugere o estudo.

A partir dos desafios e oportunidades identificados, a equipe de pesquisa da WTT, juntamente com apoiadores, seguirá em uma nova fase da pesquisa, com lançamento previsto para julho deste ano. “O próximo passo será descrever, desenvolver e disseminar inovações de base científico-tecnológico que ajudem as agricultoras e agricultores a superar esses desafios, dando um novo impulso às agroecológicas no Brasil. Sabemos que esse é apenas um primeiro passo para que a nossa agropecuária possa também ser ecológica e tenha sustentabilidade para o longo prazo”, enfatiza Andre Wongtschowski.


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in EcoDebate, ISSN 2446-9394




Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 03/03/2023
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2023/03/03/transicao-para-a-agroecologia-no-brasil-para-a-producao-sustentavel/

A pobreza de crianças e adolescentes no Brasil

A pobreza de crianças e adolescentes no Brasil, artigo de Adrimauro Gemaque

“Como os pássaros, que cuidam de seus filhos ao fazer um ninho no alto das árvores e nas montanhas, longe de predadores, ameaças e perigos, e mais perto de Deus, devemos cuidar de nossos filhos como um bem sagrado, promover o respeito a seus direitos e protegê-los”, Drª. Zilda Arns Neumann, médica brasileira, fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança.
As crianças e os adolescentes foram os mais afetados pela pobreza nos últimos dois anos. Vários estudos realizados já vinham apontando nesse sentido.

Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), antes da pandemia de covid-19 a pobreza na infância e na adolescência, em suas múltiplas dimensões, tinha atingido quase dois terços da população. Em números absolutos, eram cerca de 32 milhões de crianças e adolescentes em situação de privação no país. Para se ter uma ideia da grandiosidade desse número, ele corresponde a pouco mais que a soma do total de habitantes das sete cidades mais populosas do Brasil, segundo o IBGE.

Estudo do Unicef, denominado ‘As Múltiplas Dimensões da Pobreza na Infância e na Adolescência no Brasil’, divulgado no dia 14 de fevereiro, possibilitou ao organismo da ONU afirmar que ainda antes da pandemia pelo menos 32 milhões de brasileiros de até 17 anos – 63% dessa população – viviam na pobreza.


De acordo com o estudo, a pobreza multidimensional a que os dados se referem é diferente do entendimento tradicional da pobreza monetária. Ela é o resultado da interrelação entre privações, exclusões e diferentes vulnerabilidades a que meninas e meninos estão expostos como trabalho infantil, acesso à moradia digna, água, saneamento, informação, renda, alimentação e educação.

Objetivando analisar a pobreza multidimensional, a pesquisa utilizou dados do Pnad Contínua (IBGE), cujo último ano com informações disponíveis para todos os oito indicadores é 2019. Foram separados dados sobre renda e alimentação, da Pesquisa de Orçamento Familiares – POF 2017-2018 e outras pesquisas do IBGE até 2021, e sobre educação até 2022.



Fonte: Unicef – Gráfico elaborado pelo Autor.

Como demonstrado no gráfico, em nível nacional a dimensão que mais contribuiu para a pobreza foi o saneamento (21,2%), seguido pela renda (20,6%). As privações afetam crianças e adolescentes no Brasil como um todo, como falta de banheiro de uso exclusivo ou de um sistema adequado de esgoto, e as demais são relativas a um nível de rendimento inferior à linha de pobreza e de pobreza extrema, diz o estudo.

Liliana Chopitea, chefe de políticas sociais, monitoramento e avaliação do Unicef no Brasil, ao mensurar a pobreza em suas múltiplas camadas, a organização busca alertar autoridades brasileiras para a urgência de políticas públicas contínuas com a destinação de recursos suficientes para o enfrentamento de privações que vão além da falta de renda e que resultam em graves prejuízos para o desenvolvimento da população mais jovem.

Percentual de crianças e adolescentes de até 17anos com privação Extrema em 2019, por UFs e dimensão



Fonte: Unicef – Gráfico elaborado pelo Autor.

Achados da pesquisa ainda revelaram, que a pobreza multidimensional impactou mais quem já vivia em situação vulnerável – negros, indígenas e moradores das regiões Norte e Nordeste -, agravando as desigualdades no país. Entre crianças e adolescentes, negros e indígenas, 72,5% estavam na pobreza multidimensional em 2019, contra 49,2% de brancos e amarelos.

Parcela de crianças e adolescentes afetados pela privação de renda



Fonte: Unicef – Gráfico elaborado pelo Autor

O percentual de negros e indígenas sem acesso à renda suficiente para alimentação é quase o dobro do de brancos e amarelos. No ranking dos estados, seis tinham mais de 90% de crianças e adolescentes em pobreza multidimensional, todos no Norte e Nordeste. Apenas no Distrito Federal e em três estados do Sudeste o percentual de privação de crianças e adolescentes foi inferior a 50% (confira no mapa abaixo).

Crianças e adolescentes com alguma privação em 2019



Ao analisar o recorte da renda, que também permitiu ao Unicef estudar a falta de dinheiro para comprar comida, os pesquisadores chegaram à conclusão de que, em 2021, o percentual de crianças e adolescentes que viviam em famílias abaixo da linha de pobreza monetária extrema – menos de US$ 1,90 por dia por pessoa (R$ 9,85, na cotação atual dólar) – alcançou o maior nível dos últimos cinco anos: 16,1% (em 2017 eram 13,8%). Então, foi possível saber o contingente de menores da renda necessária para uma alimentação adequada. Passou de 9,8 milhões em 2020 para 13,7 milhões em 2021 – um salto de quase 40%.

Com relação à disparidade regional no que significam as privações não monetárias, três estados, Amapá, Piauí e Rondônia, têm níveis acima de 90%, enquanto apenas São Paulo e Distrito Federal apresentam percentual abaixo de 30%.

Pobreza infantil monetária



Fonte: Unicef – Gráfico elaborado pelo Autor

O panorama da pobreza, quando analisado por dimensões de alimentação e renda, os dois indicadores que chamam mais atenção. Esses indicadores antes da pandemia vinham apresentando queda. Porém, o estudo revelou que entre 2020 e 2021 o número de crianças e adolescentes privados de renda familiar necessária para uma alimentação adequada passou de 9,8 milhões para 13,7 milhões – salto de quase 40%.

Muito embora todos os indicadores avaliados pelo estudo do Unicef tenham impacto em privações das crianças e dos adolescentes, o saneamento básico foi o que apresentou maior percentual. Chegou a 33,8%, seguido pela renda que ficou em 32,9% para a população de 0 a 17 anos.

Distribuição da população de 0 a 17 anos por tipo de privação (em %) – 2019



Fonte: Unicef – Gráfico elaborado pelo Autor.

Conforme demonstrado, os indicadores de saneamento e renda foram os que mais as crianças e adolescentes não tiveram acesso em 2019. Todavia, os números mais recentes analisados da Pnad Contínua de 2020 (IBGE) apontam que as privações atingem quatro em cada dez crianças e adolescentes no país. Apesar de diferenças estatisticamente não significativas, essas proporções eram maiores nos anos anteriores a 2020.

O estudo também analisou o acesso a banheiro e rede de esgoto nos diferentes estados. Nota-se que os índices de privação são maiores no Norte e Nordeste. Com 91,1%, 85,6% e 84% de privações, respectivamente; Piauí, Amapá e Rondônia são os estados que apresentam os índices mais precários. Veja o mapa:

Privação de acesso a banheiro e rede de esgoto em 2020



O estudo do Unicef retrata que a pobreza multidimensional na infância e na adolescência é um fenômeno complexo, com causas diversas e inter-relacionadas, exigindo ações abrangentes e inter-relacionadas.

Os dados apresentados pelo estudo do Unicef revelam que os avanços conquistados na garantia dos direitos de crianças e adolescentes ao longo dos anos em vários campos podem se estagnar e regredir, principalmente em situações de crise, como foi a da pandemia de covid-19. Também ressaltam que os desafios estruturais e as desigualdades regionais, raciais e de gênero persistem no Brasil, apesar de todos os esforços para melhorar as condições de vida de meninos e meninas nas últimas décadas.

Frente a esse cenário de gravidade, é urgente que os gestores públicos nas três esferas de governo (federal, estadual e municipal) priorizem políticas públicas voltadas para a infância e a adolescência, mesmo em um contexto de crise econômica, para reduzir as privações e retomar o caminho da evolução na proteção dos direitos dessa população.

Adrimauro Gemaque, Administrador, Analista do IBGE e Consultor e Gestão Pública.

Referências:

UNICEF. As Múltiplas Dimensões da Pobreza na Infância e na Adolescência no Brasil, 2023. Disponível em: <https://www.unicef.org/brazil/relatorios/as-multiplas-dimensoes-da-pobreza-na-infancia-e-na-adolescencia-no-brasil>.

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in EcoDebate, ISSN 2446-9394







Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 03/03/2023
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2023/03/03/a-pobreza-de-criancas-e-adolescentes-no-brasil/

Botando gasolina em vez de trilhos

Botando gasolina em vez de trilhos, artigo de Montserrat Martins
A questão dos combustíveis e dos transportes deveria ser vista como uma estratégia racional para o país, não nesse clima de paixões políticas




Fico feliz de ver um presidente dando exemplo de se vacinar, revogando um erro do presidente anterior, mas não fico feliz com a volta do imposto federal sobre a gasolina, o que vejo como revogar um acerto do governo anterior.

Só com essa frase já desagradei a dois tipos de pessoas, as que acham que o governo anterior estava certo em tudo e os que acham que o atual está certo em tudo, pois esse é o clima da política “grenalizada” do momento, onde as pessoas tendem em aderir em bloco a um dos grupos políticos que disputam o poder.


A questão dos combustíveis e dos transportes deveria ser vista como uma estratégia racional para o país, não nesse clima de paixões políticas. Porque, para o bem de todos, para termos melhores alternativas de mobilidade e de logística, deveríamos ter em primeiro lugar um planejamento de longo prazo – coisa rara no Brasil – capaz de viabilizar o transporte ferroviário de cargas e de passageiros em todo o país.

Uma nova matriz de transportes não é uma pauta da direita nem da esquerda, está órfã de lideranças políticas que a promovam, pois de fato não faz parte da guerra ideológica, é uma questão de lógica e de civilização. Na Europa e nos Estados Unidos você pode ir a qualquer lugar de trem ou de metrô, as cargas também dispõe de uma ampla rede ferroviária.

Nossas vias urbanas, intermunicipais e interestaduais estão cada vez mais congestionadas, com carros, motos, ônibus e caminhões disputando espaço, num modelo poluidor e caro. Pagamos impostos federais, estaduais e ainda pedágios a concessionárias privadas.

Para onde vai o dinheiro do IPVA, por exemplo, que é bem caro? Os estados que se queixam da perda de arrecadação de impostos sobre combustíveis (outro acerto do governo anterior) não dão satisfação de onde gastam o dinheiro do IPVA, que teoricamente deveria dar conta da manutenção das estradas, só que essas cada vez são mais pedagiadas.

Nem o governo atual, nem o anterior, nem os anteriores, nem os de 50 anos atrás, nenhum governo investiu numa malha alternativa à rodoviária, porque é uma estratégia de longo prazo e os governos vivem de curto prazo, de uma eleição atrás da outra. Mas quando tivemos décadas de ditaduras (desde a de 30, até a de 64) também não foi planejado esse investimento, mesmo tendo os exemplos europeu e norte-americano.

Existem alternativas excelentes para as cidades, como o Aeromóvel, de tecnologia gaúcha, que já foi implantado em outros países, mas aqui se restringe ao Aeroporto Salgado Filho e agora ao de Guarulhos. Com tanta poluição, engarrafamento, impostos e pedágios, o que falta para se pensarem seriamente em outras alternativas?

Não conheço ninguém que diga o contrário, mas, não sendo uma pauta nem da direita nem da esquerda, será que as novas alternativas de transportes não poderiam fazer parte de um mínimo consenso nacional? Ou será que as coisas só vão receber atenção, aqui, quando forem polêmicas?

Montserrat Martins é Psiquiatra.


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in EcoDebate, ISSN 2446-9394







Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 03/03/2023
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2023/03/03/botando-gasolina-em-vez-de-trilhos/