terça-feira, 15 de setembro de 2026

Microdispositivo diagnóstico revela doenças de bovinos em 5 minutos


Um pequena quantidade de saliva, urina ou leite das vacas em contato com o reagente revela, em 5 minutos, a doença do animal ou a contaminação por antibiótico (Fotos: Divulgação)

Doenças que acometem os bovinos, especialmente o rebanho leiteiro, causam prejuízos estimados em R$ 6 bilhões por ano para os pecuaristas brasileiros, de acordo com informações publicadas no www.embrapa.br/gado-de-leite. As perdas são decorrentes da queda na produção de leite, no descarte de leite com resíduos de antibióticos, custos de tratamentos e abate prematuro de animais.

O que pode mudar rapidamente este cenário é o avanço da pesquisa. Cientistas do Laboratório de Nanorradiofarmácia do Instituto de Engenharia Nuclear (IEN), localizado na Cidade Universitária, Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro, desenvolveram um microchip diagnóstico capaz de detectar as principais doenças dos bovinos em apenas cinco minutos. Coordenado pelo pesquisador Ralph Santos-Oliveira, Cientista do Nosso Estado da FAPERJ, o estudo integra o Programa Redes de Pesquisa em Nanotecnologia, criado pela Fundação em 2019.

O microchip é impresso em 3D em material transparente e ali são acrescidos reagentes específicos para diversas doenças do gado bovino. Com a ajuda da nanotecnologia, apenas algumas gotas da saliva ou urina do animal em contato com o reagente revelam em cinco minutos qual a enfermidade. Gotas de leite também podem acusar a presença de antibióticos no produto, que deve ser retirado imediatamente de circulação.

A mastite, uma inflamação da glândula mamária, é uma das principais doenças do gado leiteiro, respondendo por cerca de 70% das perdas, principalmente pela redução na produção de leite. Além disso, o leite de vacas tratadas com antibióticos não pode ser comercializado, gerando desperdício e queda de receita. Além da mastite, brucelose, tuberculose, diarréia, tristeza parasitária estão entre as enfermidades que podem ocorrer no rebanho.

Manter a sanidade do plantel de vacas leiteiras exige gastos e tempo. As fazendas contratam médicos veterinários, que fazem visitas periódicas para avaliar, entre outras coisas, a saúde dos animais. Em geral, exames de sangue são feitos para a detecção de doenças, sendo necessário enviar amostras para os laboratórios de análise, que darão a respostas em alguns dias.

Ralph Santos-Oliveira: segundo o pesquisador, o material já está disponível para empresas interessadas na comercialização. O próximo passo será fazer o mesmo microchip diagnóstico para detecção de doenças em equinos.


“A grande vantagem dos microdispositivos para teste colorimétrico é que eles não dependem de profissional com especialização para utilizá-los e fornecem o resultado em tempo real, cerca de cinco minutos”, aponta Santos-Oliveira. O pesquisador explica que o pequeno dispositivo, similar a um kit teste de gravidez, é produzido em impressora 3D e os reagentes são adicionados de acordo com a doença que se quer investigar. Algumas gotas de saliva, urina ou leite – para o caso de detecção de resíduo de antibióticos no leite – são adicionadas ao microchip e a reação será positiva ou negativa para a doença em questão ou presença de resíduo de medicamento. Desta forma, o pecuarista reduz o tempo e o custo do diagnóstico, podendo tomar uma decisão de tratamento mais rápida e evitar prejuízos.

Segundo Santos-Oliveira, que submeteu o projeto ao Programa Agro do Futuro, da FAPERJ, o próximo passo será o registro da patente, mas o material já está disponível para empresas que estejam interessadas na comercialização. O laboratório do IEN também pretende fazer o mesmo microchip diagnóstico para detecção de doenças em eqüinos. De acordo com o pesquisador, qualquer empresa interessada poderá com baixo custo e rapidez atender ao mercado e solicitar a aprovação na Anvisa”, concluiu.

O Programa Agro do Futuro nasceu com o objetivo de apoiar projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação que fortaleçam o ecossistema de agritechs e foodtechs no estado, estimular a criação de novas empresas de base tecnológica, ampliar mercados e consolidar cadeias agroindustriais inteligentes. A proposta é promover a modernização da produção agrícola e da agroindústria, reduzir perdas, ampliar a segurança alimentar e impulsionar a inserção de produtos fluminenses em mercados mais exigentes e sofisticados.

Segundo a presidente da FAPERJ, Caroline Alves, a iniciativa reforça o papel da ciência no desenvolvimento econômico do estado. “O Rio de Janeiro tem enorme potencial para integrar inovação tecnológica ao setor agroalimentar. Queremos estimular soluções que aumentem a produtividade, fortaleçam cadeias produtivas e ampliem a competitividade do estado, sempre com foco na sustentabilidade e na geração de conhecimento e riqueza”, afirma.



Autor: faperj
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 10/09/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=1034.7.1

Pesquisa desenvolve terapia na busca pela cura definitiva da hepatite B crônica

 

Principal doença entre as que afetam o fígado, a hepatite B crônica não possui atualmente terapia que promova a remissão total do vírus no órgão, e exige um tratamento contínuo do paciente (Foto: Magnific)


Doença viral que afeta o fígado e pode passar despercebida por anos, a hepatite B é um problema internacional de saúde pública. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 1,5 milhão de novos casos da doença são notificados anualmente em todo o mundo. Estima-se que dois bilhões de pessoas no planeta estão infectadas com hepatite B, sendo que 296 milhões possuem a forma crônica da doença. O tratamento inclui o uso de medicamentos orais antivirais, que controlam a infecção, com o objetivo de evitar a progressão da doença nos casos crônicos, e a possibilidade dela evoluir para casos de cirrose ou de câncer no fígado. No entanto, as terapias atualmente disponíveis para a hepatite B crônica não promovem a remissão total do vírus no fígado, e requerem o uso contínuo do medicamento pelo paciente e a realização de exames por toda a vida. Vale lembrar que a principal forma de prevenção da infecção pelo vírus da hepatite B é a vacina, que está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), de forma universal, desde 2016.


Nesse cenário, a bióloga Giovana Angelice, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que participa do Programa de Mobilidade Internacional – Doutorado Sanduíche Nota 10 da FAPERJ, na Bélgica, investiga o desenvolvimento de um tratamento inovador e definitivo para a hepatite B, com base no mecanismo do RNA de interferência (RNAi), capaz de bloquear de vez a replicação do vírus dentro das células. Trata-se de um mecanismo celular natural que silencia genes específicos, ao destruir ou bloquear o seu RNA mensageiro (mRNA), impedindo a produção de proteínas.

“A longo prazo, o desenvolvimento de uma terapia nacional baseada em RNAi abre caminho para a criação, no futuro, de um fármaco brasileiro inovador. Isso reduziria a dependência de tecnologia estrangeira, baratearia os custos de saúde para o estado e, o mais importante, ofereceria uma perspectiva de tratamento mais eficaz e acessível para a população fluminense”, explicou Giovana, que é mestre em Biologia celular e molecular pela Fiocruz, onde integra a equipe do Laboratório de Referência em Hepatites Virais do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), e desenvolve a pesquisa sob orientação do professor Francisco Campello do Amaral Mello.

Giovana Angelice: pesquisadora participa, na Bélgica, de estudo sobre o papel do RNA de interferência para bloquear a replicação do vírus da hepatite B (Foto: Divulgação)


De acordo com a pesquisadora, o edital de Mobilidade Internacional da FAPERJ permitiu estabelecer uma importante parceria com o grupo do professor Kai Dallmeier, na Universidade Católica de Leuven (Katholieke Universiteit Leuven), na Bélgica. Essa colaboração estratégica possibilitou, para Giovana, o acesso a um modelo animal inovador desenvolvido pela equipe belga, que reproduz a infecção humana e é essencial para validar a eficácia da terapia desenvolvida pela doutoranda. “As agências de fomento são a espinha dorsal do desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil. Diferente de outros países, a ciência brasileira e fluminense é financiada quase em sua totalidade pelo investimento público. Sem esse apoio, a pesquisa e a inovação não existiriam. Trabalhar em outro país amplia nossa visão de mundo, estimula a criatividade, fortalece a capacidade de resolver problemas e proporciona o aprendizado de um novo idioma, competências indispensáveis para a formação de um pesquisador”, ponderou.

O estudo teve como desdobramento a publicação de um artigo na revista científica internacional International Journal of Molecular Sciences – MDPI, intitulado Evaluation of Interfering RNA Efficacy in Treating Hepatitis B: Is It Promising?.

Impactos da hepatite B no estado do Rio de Janeiro


Carlos Terra: médico hepatologista, ele ressalta que a evolução da hepatite B crônica no fígado do paciente muitas vezes é silenciosa (Foto: Divulgação)


No estado do Rio de Janeiro, foram registrados 754 casos de janeiro a dezembro de 2025, e 352 casos em 2026, de janeiro a agosto, totalizando 1.106 casos nos dois períodos, segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES). A Região Metropolitana I (Rio e adjacências) teve mais notificações, com 449 notificações de casos de hepatite B em 2025, e 192 em 2026. Já a Região Metropolitana II (Niterói e adjacências), teve 77 casos em 2025, e 50 neste ano.

O médico hepatologista Carlos Antonio Rodrigues Terra Filho, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), destacou a necessidade de distinguir os casos de hepatite B agudos e crônicos. “Para que o gestor em saúde pública possa mensurar melhor os impactos da doença, precisaríamos diferenciar as notificações dos casos de hepatite B aguda, que têm impacto bem menor, dos casos de hepatite B crônica. Uma vez contraído o vírus, a pessoa pode ter uma infecção aguda e o próprio organismo encontrar a cura espontaneamente, sem um transtorno maior para o sistema de saúde. Mas, em 5% a 10% dos pacientes com hepatite aguda, o vírus permanece no corpo, com potencial para causar inflamação crônica, para a deposição de fibroses (cicatrizes) que se convertem em cirrose, podendo até evoluir após alguns anos para o câncer de fígado, de forma silenciosa”, detalhou.

Principal causa entre as doenças do fígado, a hepatite B é transmitida por agentes patogênicos encontrados no sangue, por contato sexual ou durante a gestação, da mãe ao bebê. Após um período de incubação de 90 dias, as manifestações clínicas da doença podem ser assintomáticas ou mesmo se tornarem uma hepatite fulminante, dependendo da resposta do sistema imunológico do paciente.




Autor: faperj
Fonte: faperj
Sítio Online da Publicação: faperj
Data: 10/09/2026
Publicação Original: https://www.faperj.br/?id=1106.7.0

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Estados Unidos tentam reduzir preços dos medicamentos: doentes europeus podem ter de esperar mais


Direitos de autor Canva

Doentes europeus poderão ter de esperar mais por alguns medicamentos novos, já que os esforços dos EUA para baixar preços podem levar empresas farmacêuticas a adiarem lançamentos em mercados mais baratos, indica um novo estudo de modelização.

Em maio passado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, avançou com uma iniciativa para alinhar o preço dos medicamentos com os níveis mais baixos praticados noutros países desenvolvidos, o chamado sistema de preços de nação mais favorecida (MFN). No entanto, esta política de preços pode ter consequências negativas.

Os doentes europeus podem vir a esperar mais tempo por alguns medicamentos inovadores, à medida que os Estados Unidos obrigam as farmacêuticas a oferecer preços alinhados com outros países de elevado rendimento, como a Alemanha ou a França, segundo um novo estudo de modelização publicado na revista The Lancet.

Os investigadores analisaram 195 medicamentos patenteados que, em conjunto, representam 87,9 mil milhões de dólares da despesa anual dos Estados Unidos. Concluíram que, em três em cada quatro fármacos estudados, o montante que as empresas perderiam ao baixar os preços no mercado norte‑americano seria superior ao total das vendas anuais nos países usados como referência para fixar os preços nos Estados Unidos.

Para minimizar as perdas nos Estados Unidos, o maior mercado farmacêutico mundial, as empresas “podem ser incentivadas a adiar o lançamento no mercado nos países com preços mais baixos incluídos na referência”, afirmaram os investigadores, uma vez que, ao atrasar os lançamentos, as farmacêuticas evitam ter de igualar esses preços mais baixos nos Estados Unidos.

“As políticas nos Estados Unidos podem afetar o acesso a medicamentos em todo o mundo”, afirmou em comunicado Kerstin Vokinger, autora do estudo e investigadora na ETH Zurique e na Universidade de Zurique.

Quem acaba por sentir o impacto são os doentes.

“O risco é muito concreto: se as empresas farmacêuticas atrasarem o lançamento de medicamentos na Europa porque os preços europeus podem ser usados para definir os preços nos Estados Unidos, os doentes daqui podem ter de esperar mais tempo por tratamentos que já estão disponíveis noutros lugares”, afirmou o European Patients Forum em comentário escrito enviado à Euronews Health. “Para quem vive com uma doença grave ou progressiva, uma espera adicional pode ter um impacto real na saúde e na qualidade de vida.”

A política norte‑americana já se faz sentir na Europa.


Países de referência na Europa incluídos no estudo de modelização MapChart
Impacto na Europa

A Europa tem registado uma quebra nos lançamentos de novos medicamentos nos últimos meses. Dez meses após a ordem executiva de Trump, o número de lançamentos nos mercados da UE caiu cerca de 35% face aos dez meses anteriores, reportou a Reuters em março.

Embora não seja claro se esta quebra está diretamente ligada às políticas nos Estados Unidos, foi anunciado em fevereiro que a retirada do mercado de um medicamento para tratar casos particularmente graves de colesterol elevado pode estar relacionada com a política de preços de medicamentos do Presidente norte‑americano, Donald Trump.

“É verdade que, mesmo em países maiores como a Alemanha, vemos empresas a reconsiderar se lançam ou quando lançam um medicamento”, disse à Euronews Alexander Natz, secretário‑geral da associação de empresários da biotecnologia Eucope, explicando que a situação atual obriga as farmacêuticas a pensar duas vezes antes de avançar com um lançamento.

“Não devemos assumir que vamos deixar de ter acesso a medicamentos, mas devemos contar com decisões muito mais ponderadas por parte das empresas”, acrescentou.

Para Natz, para garantir que a Europa recebe novos medicamentos sem atrasos, os governos têm de estar dispostos a gastar mais.

“É preciso ter um debate, um debate político interno na Alemanha e noutros países, sobre quanto estamos dispostos a gastar com os cuidados de saúde”, afirmou.

Os países já sentem essa pressão sobre orçamentos apertados.

“Os países de referência, da Alemanha ao Japão e à Austrália, enfrentam uma pressão significativa da administração norte‑americana e da indústria para aumentarem os preços e a despesa com medicamentos”, afirmou Thomas Hwang, do Brigham and Women’s Hospital, autor principal do estudo.

“Mas isso confronta‑se com a realidade de que outros países têm uma margem orçamental limitada”, acrescentou.

Para reduzir os impactos negativos, os autores do estudo apontam que fabricantes e países podem passar a usar os preços de tabela — ou seja, o preço de catálogo antes de descontos — em vez dos preços líquidos, que refletem descontos confidenciais.

Entretanto, ao abrigo das regras farmacêuticas da União Europeia recentemente atualizadas, uma empresa tem de lançar um novo medicamento se um país o solicitar no prazo de três anos, sob pena de perder dois anos de direitos de exclusividade.

Esta condição funciona como um “contrapeso” aos efeitos da política de preços de medicamentos de Trump; porém, é “pouco provável que, por si só, altere de forma significativa a dimensão das poupanças”, escreveram os autores. Natz mostrou‑se igualmente céptico quanto à possibilidade de isto ser suficiente para eliminar eventuais consequências negativas da política de preços norte‑americana.
Quanto poupam os Estados Unidos?

Embora a política de preços de medicamentos dos Estados Unidos esteja a provocar riscos de atrasos na Europa, pode permitir aos Estados Unidos reduzir a despesa em 5,2 mil milhões de dólares em medicamentos usados em hospitais e 6,4 mil milhões de dólares em fármacos comprados em farmácias, segundo o estudo publicado na The Lancet. Essas poupanças poderiam subir, respetivamente, para 21 mil milhões e 25,5 mil milhões de dólares com uma aplicação mais ampla da política.

Mas, como 17 empresas celebraram acordos confidenciais com a administração, ficando excluídas destas regras, as poupanças potenciais seriam reduzidas em 71%.

Embora o sistema de preços de nação mais favorecida tenha potencial “para gerar poupanças reais para o governo federal dos Estados Unidos e para os contribuintes (…) se os fabricantes puderem escapar à participação nestes modelos através de acordos paralelos, a maior parte dessas poupanças pode não se concretizar”, advertiu Hwang.

O European Patients Forum afirmou que, se a “implementação da política de preços dos Estados Unidos levar a atrasos no lançamento de medicamentos noutros países sem gerar as poupanças esperadas para o Medicare [programa de seguro de saúde dos Estados Unidos], corre‑se o risco de criar uma situação em que todos perdem, tanto os sistemas de saúde como os doentes”.

A Comissão Europeia está também a analisar o tema, depois de os ministros da Saúde, em meados de junho, terem encarregado a comissária europeia da Saúde de avaliar o impacto da política de nação mais favorecida dos Estados Unidos sobre o bloco: se o MFN está a provocar atrasos nos lançamentos, aumentos significativos de preços e, em última instância, uma redução do acesso a medicamentos inovadores.

No estudo, ainda não publicado mas consultado pela Euronews Health, a Comissão afirma que, por agora, é quase impossível determinar se os atrasos ou as pressões sobre os preços estão diretamente ligados às políticas de preços dos Estados Unidos ou resultam antes das atuais incertezas em torno delas, remetendo para os próximos anos uma maior clarificação.

“Pelo que percebo, o estudo da Comissão diz, basicamente, que é demasiado cedo para comparar preços individuais. Até aqui, tudo bem, talvez seja verdade. Mas as implicações são muito mais amplas”, disse Natz, acrescentando que “não se trata apenas desse preço; trata‑se também de saber se esse produto alguma vez será lançado na Europa, se chegará aos doentes na Alemanha. Essa é a verdadeira questão aqui”.


Autor: pt.euronews
Fonte: pt.euronews
Sítio Online da Publicação: pt.euronews
Data: 14/09/2026

Cirurgia às cataratas em Marte: cientistas testam implantes oculares no espaço



Direitos de autor NASA
Uma equipa de investigação enviou 135 lentes artificiais sem embalagem para a Estação Espacial Internacional, onde ficaram cerca de seis meses expostas às condições da órbita baixa da Terra antes de regressarem para análise.


Uma viagem a Marte pode demorar meses. E o que acontece se um astronauta desenvolver um problema ocular grave a meio do trajecto?

Uma equipa de investigadores nos Estados Unidos enviou lentes artificiais usadas em cirurgias às cataratas para fora da Estação Espacial Internacional, para perceber se os implantes necessários em futuras operações conseguiriam sobreviver à viagem até destinos como Marte.

Os investigadores responsáveis pelo estudo acreditam que, ainda durante a sua vida, alguém vai precisar de uma cirurgia às cataratas em Marte.

“Uma viagem até Marte pode demorar quase um ano, e regressar à Terra por causa de uma catarata que limite a visão, de uma lesão ou de outro problema ocular cirúrgico pode não ser realista”, afirmou Morgan Micheletti, cirurgião oftalmologista e director de investigação no Berkeley Eye Center, nos Estados Unidos.


“Mais cedo ou mais tarde, o tratamento terá de ser feito onde o doente estiver.”

Forma-se uma catarata quando a lente natural do olho se torna opaca. Durante a cirurgia, os médicos removem essa lente e substituem-na por uma lente artificial transparente, chamada lente intraocular.

Fazer o mesmo a milhões de quilómetros da Terra exigiria alguém capaz de realizar a operação, bem como aparelhos, material e

sterilizado e implantes que resistam à viagem.

A ideia também nasceu da fascinação que Micheletti alimenta desde criança.

“Estou fascinado pelo espaço desde que me lembro”, disse.

“Quando me tornei cirurgião ocular, essa fascinação evoluiu para uma questão mais prática. Conseguiria fazer uma cirurgia no espaço?”
Que aconteceu às lentes no espaço?

No âmbito do projecto JAMES, a equipa enviou 135 lentes artificiais sem embalagem para a Estação Espacial Internacional.

Ficaram cerca de seis meses no exterior da estação, em três posições, expostas a condições diferentes: uma ficou voltada para oxigénio atómico altamente reactivo, outra recebeu radiação ultravioleta intensa do Sol e uma terceira ficou parcialmente protegida de ambos.

Outras 45 lentes, também sem embalagem, ficaram na Terra para comparação.

Depois do regresso das lentes enviadas ao espaço, uma equipa do Intermountain Ocular Research Center, da Universidade do Utah, examinou 61 delas, a par de 20 lentes que tinham permanecido na Terra.

A maioria das lentes expostas ao espaço, 42 em 61, não apresentou alterações relevantes.

Das outras 19, oito lentes de acrílico desenvolveram fissuras e rugosidade à superfície, compatíveis com erosão provocada por oxigénio atómico, enquanto cinco adquiriram descoloração amarelada e deixaram passar menos luz em determinados comprimentos de onda.

As seis lentes ajustáveis por luz, que podem ser afinadas com luz ultravioleta após a implantação, apresentaram um aspecto invulgar em “calçada” ou tipo “plástico de bolhas”. Os investigadores ainda não sabem porquê.

Isso não significa, alertam os investigadores, que implantes para cataratas fossem necessariamente danificados numa viagem a Marte.

As lentes foram deliberadamente deixadas sem embalagem e expostas directamente ao ambiente hostil no exterior da estação, para identificar de que forma poderiam falhar. Na prática, viajariam protegidas no interior de uma nave espacial.


Quão realista é uma cirurgia às cataratas no espaço?

A cirurgia às cataratas para lá da Terra continua a ser uma perspectiva distante.

A experiência testou a forma como as lentes artificiais resistem às condições do espaço, não se a própria cirurgia pode ser realizada em segurança fora da Terra. Os investigadores também ainda não sabem se as alterações detectadas em algumas lentes afectariam a visão ou as tornariam inutilizáveis.

O passo seguinte para Micheletti é testar o aparelho usado na cirurgia às cataratas durante curtos períodos de microgravidade, em voos parabólicos.

O equipamento utiliza ultrassons e líquido para fragmentar e remover a lente natural turva do olho.

Se isso resultar, espera avançar para testes mais longos em microgravidade e, por fim, para uma experiência cirúrgica em órbita.

“A progressão tem de ser cuidadosa. Primeiro os materiais, depois o equipamento, a seguir o procedimento e, por último, a própria cirurgia”, sublinhou.

“O meu objectivo a longo prazo é ajudar a tornar possível a primeira cirurgia ocular para lá da Terra.”

Os resultados da experiência foram apresentados no domingo, em Londres, no congresso da Sociedade Europeia de Cirurgiões de Catarata e Cirurgia Refrativa.

Os investigadores acreditam que se trata da primeira experiência controlada em que vários tipos de lentes oculares artificiais modernas são expostos directamente ao ambiente exterior da Estação Espacial Internacional e depois devolvidos à Terra para análise laboratorial.


O passo seguinte é perceber de quanta embalagem e protecção necessitam, sem acrescentar peso e volume desnecessários.



Autor: pt.euronews
Fonte: pt.euronews
Sítio Online da Publicação: pt.euronews
Data: 14/09/2026
Publicação Original: https://pt.euronews.com/saude/2026/09/14/cirurgia-as-cataratas-em-marte-cientistas-testam-implantes-oculares-no-espaco

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Luz da lua, ecrãs de telemóvel e LEDs: o seu quarto está demasiado iluminado?



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Um novo estudo conclui que até a fraca luz de um ecrã de telemóvel durante o sono está associada a alterações potencialmente nocivas na estrutura e função cardíacas.

A poluição luminosa durante o sono noturno – mesmo níveis tão baixos como luz da lua ou luz que entra pela frincha de uma porta – prejudica o coração humano, segundo um novo estudo (fonte em inglês) publicado no European Heart Journal.


“A exposição a níveis mais elevados de luz durante a noite está ligada à remodelação cardíaca”, afirmou Lu Qi, da Tulane University, em Nova Orleães, EUA, que liderou a investigação, num comunicado de imprensa. “É quando se alteram a estrutura e a função do coração e, normalmente, observamos isso em resposta a stress crónico ou lesão cardíaca.”

Embora seja assim que o organismo se adapta a esse stress, “acaba por enfraquecer o coração e pode conduzir a insuficiência cardíaca”, sublinhou.

Por isso, manter os quartos o mais escuros possível “deve ser considerado uma das estratégias potenciais para prevenir doenças cardíacas por parte de clínicos e decisores políticos”, disse Qi.

O estudo incluiu 11.071 pessoas expostas, durante uma semana, a diferentes níveis de luz durante a noite, desde quase total escuridão até intensidades variadas, incluindo luz equivalente ao ecrã de um telemóvel com brilho reduzido ou à luz que entra por uma porta entreaberta.

Três anos depois, os participantes foram submetidos a uma ressonância magnética cardiovascular para avaliar eventuais alterações na estrutura e na função do coração.

Os resultados mostraram que os participantes expostos aos níveis mais elevados de luz noturna apresentavam espessamento das paredes da câmara esquerda do coração, reduzindo o espaço no ventrículo. Surgiram também sinais de redução da capacidade do coração de se contrair e relaxar durante cada batimento, um indicador precoce de disfunção cardíaca.

“A escuridão merece ser reconhecida como um sinal vital, tão essencial para a saúde cardiovascular como o controlo da pressão arterial e ar limpo”, escreveram o professor Thomas Münzel, do University Medical Center Mainz, na Alemanha, e colegas, num editorial que acompanha o estudo.

Apelaram aos clínicos para que passem a perguntar sobre o ambiente de sono: “quão escuro é o quarto, se o doente trabalha em turnos noturnos e quanto tempo de utilização de ecrãs existe após o anoitecer”, recomendando o uso de cortinas opacas, iluminação de cabeceira em tons quentes e a cobertura dos pequenos LEDs de standby dos aparelhos eletrónicos domésticos.

Os municípios também têm um papel a desempenhar, sendo a poluição luminosa “um dos poucos riscos ambientais que as cidades podem controlar de forma direta e acessível”, acrescentaram, apontando luminárias protegidas, lâmpadas de espetro quente e iluminação pública regulável ou acionada por movimento como formas “eficientes em termos energéticos e amigas do clima” de reduzir a exposição à luz.




Autor: pt.euronews
Fonte: pt.euronews
Sítio Online da Publicação: pt.euronews
Data: 11/09/2026

Refeições ao fim de semana fora de horas podem prejudicar coração dos homens


Direitos de autor Cleared/Canva

Horários de trabalho ou de aulas muito cedo obrigam muitas pessoas a ajustar as refeições durante a semana, com horários diferentes dos do fim de semana e dos dias de descanso.

Estas alterações nos padrões alimentares podem perturbar os ritmos biológicos do organismo e ter impacto na saúde cardiovascular, indica um novo estudo francês. Cada hora adicional de “jet lag alimentar” aumentou em 14% o risco de doença cardiovascular e em 21% o risco de doença coronária nos homens, segundo os investigadores.

“Este estudo sugere a importância de padrões regulares de horário das refeições, para além do sono e da qualidade da alimentação, na prevenção da doença cardiovascular”, escreveram os autores.

A investigação, publicada na revista Communications Medicine (fonte em inglês), analisou os horários da primeira e da última refeição de mais de 100 mil participantes em dias úteis e ao fim de semana, ao longo de um período de acompanhamento de 14 anos, entre 2009 e 2023.
Homens são mais afetados

Os participantes foram classificados de acordo com os horários das refeições: o primeiro grupo comia mais cedo ao fim de semana do que durante a semana, o segundo mantinha horários semelhantes em ambos os períodos e o último fazia as refeições mais tarde ao fim de semana.

Os dois grupos que comiam mais tarde ou mais cedo do que o habitual apresentaram um risco cardiovascular superior ao do grupo com horários regulares, independentemente da qualidade global da alimentação.

De forma surpreendente, este padrão só foi observado nos homens; as mulheres não pareceram ser afetadas pelas alterações de horário.

Porquê?

Uma explicação poderá ser o facto de os homens terem, em geral, um risco absoluto mais elevado de doença cardiovascular. Os autores apontam ainda que as mulheres tendem mais do que os homens a seguir rotinas matinais, diferença associada à anatomia e às hormonas, o que pode influenciar a forma como o organismo reage a mudanças no horário das refeições.
Irregularidade nos horários das refeições: o que está por trás

Para os autores, a principal explicação é que o “jet lag alimentar” aumenta o risco de eventos cardiovasculares através da perturbação dos ritmos circadianos.

Os ritmos circadianos são os relógios internos do corpo, baseados em ciclos de 24 horas que ajudam a regular o seu funcionamento. São sobretudo regulados pela luz, mas os padrões alimentares também podem atuar como sincronizadores de relógios periféricos, como os do fígado e do coração. Quando os horários das refeições estão alinhados com esses ritmos internos, a saúde metabólica beneficia; a irregularidade pode desorganizar o equilíbrio interno do organismo.

Os autores assinalam que, se os resultados forem confirmados por novos estudos de grande escala, a regularidade dos horários das refeições poderá tornar‑se um eixo central de intervenções destinadas a reduzir o risco de doenças crónicas e aliviar a carga sobre a saúde pública.



Autor: pt.euronews
Fonte: pt.euronews
Sítio Online da Publicação: pt.euronews
Data: 08/09/2026

Preparar a mente para a cirurgia é tão importante como preparar o corpo



Direitos de autor Canva

“O stress da cirurgia pode agravar sintomas de ansiedade e depressão e afetar a recuperação e a saúde global dos doentes”, afirmou a primeira autora do estudo, Joanna Abraham, num comunicado de imprensa.

Os autores defendem que os cuidados prévios à cirurgia devem incluir não só a preparação física, mas também a preparação psicológica, levada a cabo por profissionais de saúde mental qualificados – algo que os atuais cuidados perioperatórios geralmente não contemplam.

“Reconhecemos a importância de pôr o corpo em forma antes da cirurgia, mas preparar a mente e o cérebro é igualmente crucial”, afirmou o autor sénior do estudo, Eric J. Lenze.

A solução passa por tratar os doentes de forma “holística”, disse Michael S. Avidan, aproximando anestesiologia e psiquiatria.
Impacto de uma chamada telefónica

O estudo incluiu 306 adultos com 60 ou mais anos, agendados para cirurgia cardíaca, oncológica ou ortopédica. Os participantes foram divididos em dois grupos. Um recebeu apenas materiais de autoajuda para leitura autónoma, enquanto o outro falou com um profissional de saúde mental, como um assistente social ou conselheiro de saúde mental, ao longo de oito a 12 sessões telefónicas. Este segundo grupo teve também uma avaliação personalizada por farmacêuticos e médicos, para otimizar em segurança as doses de medicamentos de alto risco.

Três meses após a cirurgia, os doentes que beneficiaram de consulta com profissionais de saúde mental e de revisão da medicação registaram uma redução dos sintomas de depressão e ansiedade entre 2,2 e 2,5 pontos superior à do grupo que recebeu apenas materiais educativos, numa escala de 48 pontos.

Os mais velhos submetidos a cirurgia oncológica apresentaram as maiores melhorias na saúde mental, com valores quase cinco pontos inferiores aos do grupo de controlo.


Os doentes relataram também experiências positivas com estes cuidados adicionais, tanto com os profissionais de bem‑estar como com os farmacêuticos que trabalharam para eliminar medicamentos desnecessários.

“O que torna este modelo de cuidados tão promissor é ser fácil de implementar”, afirmou Abraham. “Os doentes e os profissionais de saúde consideraram o programa manejável e simples de integrar nos fluxos cirúrgicos já existentes. Um acompanhamento proativo da saúde mental não tem de sobrecarregar o sistema hospitalar.”




Autor: pt.euronews
Fonte: pt.euronews
Sítio Online da Publicação: pt.euronews
Data: 10/09/2026