quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Crianças internadas em UTI sofrem uma elevada carga de sequelas psicológicas

Uma revisão sistemática com metanálise publicada no periódico JAMA Pediatrics encontrou uma elevada carga de sequelas psicológicas entre crianças que foram internadas em Unidades de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP), sugerindo que a estratificação e a intervenção precoce para grupos de alto risco são necessárias para minimizar as morbidades psicológicas em longo prazo.

As taxas de mortalidade em UTIP vêm diminuindo, apesar do aumento das admissões na última década. A maioria das crianças internadas sob cuidados intensivos sobrevive e apresenta boa recuperação física. Todavia, apesar dessas melhorias, as morbidades psicológicas de longo prazo entre esses pacientes estão aumentando. Há cada vez mais evidências que sugerem que as experiências e intervenções na UTIP estão associadas a desfechos psicológicos negativos em longo prazo.

O foco na sobrevivência após a admissão se beneficiaria ao incluir uma consideração do bem-estar psicológico nessa faixa etária. No entanto, a compreensão atual das consequências psicológicas pós-UTIP ainda não é bem compreendida. Dessa forma, o objetivo do estudo Assessment of Long-term Psychological Outcomes After Pediatric Intensive Care Unit Admission A Systematic Review and Meta-analysis foi revisar e avaliar sistematicamente os desfechos psicológicos de longo prazo relatados entre crianças previamente internadas em UTIP.



Metodologia

Os pesquisadores realizaram uma busca sistemática através do Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature, Embase, MEDLINE (PubMed) e PsycINFO, desde o início do banco de dados até junho de 2021. Os termos de pesquisa incluíram frases relacionadas a terapia intensiva (por exemplo, unidades de terapia intensiva e terapia intensiva) e termos para transtornos psicológicos, como transtorno de estresse pós-traumático, transtorno depressivo, transtorno de conduta e transtorno do neurodesenvolvimento, limitados à população pediátrica.

Os títulos e resumos dos artigos foram selecionados independentemente por dois revisores, com extração de dados realizada de acordo com a diretriz PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses). Os dados foram agrupados usando um modelo de efeitos aleatórios durante a meta-análise.

Foram incluídos ensaios clínicos randomizados e estudos observacionais relatando distúrbios psicológicos em pacientes com menos de 18 anos de idade que foram admitidos em UTIP com seguimento mínimo de 3 meses. Os transtornos psicológicos foram definidos usando o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais Quinta Edição (DSM-5). Os pacientes eram excluídos da revisão se tivessem sido admitidos na UTIP por condições cerebrais primárias, como traumatismo cranioencefálico (TCE), meningoencefalite e tumores cerebrais, ou se receberam alta para o domicílio para cuidados paliativos.

Os principais desfechos e medidas avaliados foram escores de QI (quociente de inteligência) corrigidos para a idade e desfechos psicológicos em longo prazo, medidos por escalas como a Child Behavior Checklist (escores mais altos indicam mais problemas comportamentais) entre crianças internadas em UTIP.

Resultados

Os 31 estudos independentes (EI) incluídos na análise envolveram 20 coortes internadas em UTIP por uma variedade de indicações de internação (referidas como coortes mistas de UTIP [n=6,654]), 4 coortes para cirurgia cardíaca (n=584), 2 coortes por parada cardíaca (n=199), 2 coortes por choque séptico (n=170), 1 coorte por coqueluche (n=111), 1 coorte por asma aguda grave (n=50) e 1 coorte por bronquiolite (n=18). Desses 31 estudos, 8 relataram um grupo de comparação. Os grupos de comparação incluíram 1.247 participantes totais, dos quais 737 eram crianças saudáveis, 155 eram crianças internadas em enfermaria pediátrica geral e 355 eram crianças que sobreviveram a um incêndio. Um estudo, no qual 36 de 97 pacientes (37,1%) tiveram TCE, foi incluído porque os resultados desses pacientes puderam ser separados durante a análise. Todos os estudos foram publicados entre 1995 e 2020.

Entre um total de 7.786 participantes, a média de idade foi de 7,3 anos, sendo 4.267 (54,8%) do sexo masculino e 3.519 (45,2%) do sexo feminino. Nem todos os estudos relataram raça e etnia.

No geral, 1/19 crianças (5,3%) a 14/16 crianças (88,0%) tiveram problemas psicológicos variando de 3 meses a 15 anos após a admissão na UTIP. Problemas emocionais e comportamentais (22 estudos totais [ET] baseados em 15 EI) e comprometimento cognitivo (19 ET baseados em 13 EI) foram os mais comuns, seguidos por transtorno do estresse pós-traumático (TEPT) (11 ET baseados em 8 EI), ansiedade (2 EI), comprometimento da memória (4 EI), déficit de atenção (3 EI), atraso no desenvolvimento (3 EI), depressão (1 EI) e diminuição da saúde geral (1 EI).

Em suma: de um número total de 7.786 pacientes pediátricos, 5,3% a 88% das crianças apresentaram problemas psicológicos 3 meses a 15 anos depois da internação. Em comparação com crianças saudáveis, aquelas admitidas em UTIP apresentaram escores de QI mais baixos aos 5 anos, desenvolveram mais problemas emocionais e comportamentais e tiveram pior memória.

Conclusões

Esta revisão sistemática com metanálise concluiu que há uma carga substancial de sequelas psicológicas entre crianças previamente internadas em UTIP, sugerindo que a estratificação e a intervenção precoce para grupos de alto risco são necessárias para minimizar as morbidades psicológicas em longo prazo. Os achados também revelaram a complexidade e prevalência das sequelas psicológicas vivenciadas por esses pacientes e destacaram a importância de considerar os desfechos psicológicos entre as crianças que sobrevivem à doença crítica. De acordo com os pesquisadores, os centros de saúde que oferecem instalações de UTIP podem considerar a adoção da infraestrutura necessária para apoiar avaliações psicológicas, com ênfase em planos de acompanhamento de longo prazo. Esses programas seriam mais benéficos se não fossem apenas confinados à UTIP, mas também envolvessem uma equipe multidisciplinar, estendendo-se longitudinalmente mesmo após a alta da criança.









Autor: Roberta Esteves Vieira de Castro
Fonte: PEBMED
Sítio Online da Publicação: PEBMED
Data: 26/01/2022
Publicação Original: https://pebmed.com.br/criancas-internadas-em-uti-sofrem-uma-elevada-carga-de-sequelas-psicologicas/

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