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segunda-feira, 28 de junho de 2021

Os sons que podem mudar a maneira como pensamos



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Kate é percebido como um nome 'pontiagudo' e pode despertar certas emoções nas pessoas


Imagine dois personagens de desenho animado, um redondo e outro pontiagudo. Para qual deles você daria o nome de Bouba, e qual você chamaria de Kiki? E qual dos dois você acha que é mais extrovertido?


Curiosamente, a maioria de nós provavelmente atribuirá o mesmo nome e características a cada uma das formas.


Um número cada vez maior de pesquisas sugere que as pessoas tendem a fazer uma série de julgamentos baseados apenas no som de uma palavra ou nome.


Em sua forma mais básica, isso é conhecido como efeito bouba-kiki, ou efeito maluma-takete, por causa de como nossas mentes relacionam certos sons e formas.


Em vários idiomas diferentes, as pessoas tendem a associar os sons de "b", "m", "l" e "o" (como nas palavras inventadas bouba e maluma) com formas redondas.


E os sons de "k", "t", "p" e "i", presentes nas palavras kiki e takete, são normalmente vistos como pontiagudos.


Estas associações podem estar parcialmente enraizadas na experiência física de emitir e ouvir sons, com alguns sendo mais abruptos e exigindo mais esforço do que outros.


Curiosamente, o efeito bouba-kiki se estende até mesmo aos relacionamentos humanos e à maneira como imaginamos a personalidade de pessoas que nem sequer conhecemos.


O psicólogo cognitivo David Sidhu, da University College London (UCL), no Reino Unido, e a psicolinguista Penny Pexman, da Universidade de Calgary, no Canadá, descobriram que as pessoas percebem certos nomes próprios, como Bob e Molly, como sendo redondos, e outros como Kirk e Kate como pontiagudos.


Em francês, os dois pesquisadores e um colaborador identificaram o mesmo efeito no caso do "redondo" Benoit versus o "pontiagudo" Éric.


Em um estudo separado, os participantes imaginaram pessoas com esses nomes como tendo personalidades metaforicamente arredondadas ou pontiagudas.



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As pessoas tendem a considerar o som da letra 'i' pontiagudo, enquanto o 'o' soa mais arredondado


"Descobrimos que, se você comparar esses nomes muito suaves e que soam macio, como Molly, a esses nomes que soam mais duro como Kate, os nomes que soam mais suaves como Molly são associados a características como ser mais agradável, mais emotivo, mais consciente, enquanto os nomes mais duros, que soam mais incisivos, são considerados mais extrovertidos ", diz Sidhu.


De acordo com ele, essas associações longínquas podem ter origem na sensação desses sons em nossa boca.


"Se você pensar em pronunciar um 'm' e um 't', por exemplo, o som de 'm' parece muito mais suave e, por analogia, captura a suavidade da forma arredondada em relação à forma pontiaguda."


Os sons de "t" e "k" podem parecer mais enérgicos, capturando uma qualidade extrovertida, alegre e animada.


E essa sensação provocada pelas palavras na boca pode influenciar a forma como vivenciamos o mundo.


A qualquer momento, usamos uma série de pistas sutis para reunir informações de todos os nossos sentidos e fazer julgamentos e previsões sobre o ambiente à nossa volta.


"Há algo relacionado a como os humanos são fundamentalmente associativos", diz Pexman.


"Queremos ver padrões nas coisas, queremos encontrar conexões entre as coisas, e vamos encontrá-las até mesmo entre os sons e as coisas que esses sons representam no mundo."


Essas associações podem nos ajudar em tarefas importantes da vida real, como aprender um idioma e adivinhar o significado de palavras desconhecidas.


Em inglês, as palavras para coisas esféricas costumam soar "redondas", como blob (bolha), balloon (balão), ball (bola) e marble (bola de gude). Já palavras como prickly (espinhoso), spiny (pontudo), sting (picada) e perky (alegre) são pontiagudas tanto no som quanto no significado.


Os sons também podem indicar tamanho. Um som de "i" está associado à pequenez, enquanto um som de "o" sugere grandeza.


Alguns desses vínculos existem em milhares de idiomas, com o som do "i" aparecendo desproporcionalmente em palavras para "pequeno" em todo o mundo.


Para quem está aprendendo palavras novas, sejam bebês, crianças pequenas ou adultos, esses padrões podem ser muito úteis. Crianças e até mesmo bebês já relacionam sons redondos com formas circulares.



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A palavra 'prickly' (espinhoso) é tão pontiaguda quanto soa, e associações como esta podem ajudar no aprendizado de idiomas


Os pais tendem a usar associações de sons-formas para enfatizar o significado de certas palavras, como teeny tiny (pequenininho).


Os adultos se beneficiam das associações quando aprendem um novo idioma, achando mais fácil adivinhar ou lembrar palavras estrangeiras quando seu som corresponde ao seu significado.


Algumas pessoas argumentam que essas conexões intuitivas entre sons e significado podem até ser um resquício dos primeiros estágios da evolução da linguagem da humanidade, e que a própria linguagem humana começou como uma série de sons expressivos e inatamente adivinháveis.


Quando se trata da personalidade das pessoas, no entanto, o som não é um guia confiável.


Sidhu, Pexman e seus colaboradores analisaram se havia uma relação entre o nome de uma pessoa e sua personalidade, como se o som redondo ou pontiagudo do nome influenciasse o dono do mesmo. Eles não encontraram tal associação.


"As pessoas ficam angustiadas com os nomes dos bebês. É essa expectativa de que o rótulo importa tanto", diz Pexman.


"Nossos dados sugerem que, embora pensemos assim, se você chamar um garoto de Bob, ele não vai ter mais chance de ter um determinado conjunto de traços de personalidade do que com outro (nome)."


Em vez disso, nossa reação a um nome provavelmente revela mais sobre nossos próprios preconceitos.


"Isso sugere que estamos dispostos a interpretar o nome de alguém, que provavelmente não é uma pista de como essa pessoa realmente é", diz Pexman.


Os resultados preliminares de um estudo em andamento conduzido por Sidhu, Pexman e seus colaboradores sugerem que o som de um nome próprio tem menos impacto à medida que sabemos mais sobre a pessoa.


Quando os participantes assistiram a vídeos de pessoas com nomes supostamente redondos ou pontiagudos, os nomes não fizeram diferença no julgamento deles.



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Nomes que soam mais suaves, como Molly, tendem a ser associados a pessoas agradáveis


"Quando tudo o que você tem é o nome, como nesses estudos em que você apenas mostra um nome e pergunta sobre a personalidade, então talvez esses sons desempenhem algum papel", diz Sidhu.


"Mas, à medida que você começa a obter mais informações sobre a pessoa, essas informações reais sobre a personalidade provavelmente vão se sobrepor a esses vieses."


A pesquisa reforça um crescente corpo de evidências que desafia uma visão de longa data em linguística: que os sons são arbitrários e não têm nenhum significado inerente. Em vez disso, descobriu-se que certos sons evocam associações consistentes não apenas com formas e tamanhos, mas até mesmo com sabores e texturas.


Milk chocolate (chocolate ao leite), brie cheese (queijo brie) e still water (água sem gás) tendem a ser percebidos como bouba/maluma, enquanto crisps (batata frita), bitter chocolate (chocolate amargo), mint chocolate (chocolate de menta) e sparkling water (água com gás) são mais prováveis ​​de serem vistos como kiki/takete.


De acordo com Suzy Styles, psicolinguista da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Cingapura, essas associações sensoriais também refletem nosso ambiente físico mais amplo.


Sons como "b", "m" e "o" contêm componentes de frequência mais baixa, enquanto sons como "k", "t" e "i" contêm componentes de frequência mais alta.


As frequências mais altas, por sua vez, estão associadas a brilho, pequenez e nitidez, não apenas na linguagem humana.


"Você pode pensar em um tambor grande que produz um som mais grave, mais alto e mais duradouro, em comparação com um tambor pequeno de brinquedo que faz um som mais baixo, mais agudo e mais curto. Essas são apenas propriedades físicas do nosso ambiente", diz Styles.


"Portanto, faz sentido que um cérebro que cresce neste ambiente coordene as informações dessa maneira."


Por mais difundido que o efeito bouba-kiki seja, ele pode ser alterado ou ofuscado por diferentes fatores, como nosso próprio repertório de sons nativos.



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A maneira como seu nome ou uma palavra soa pode ter alguns efeitos surpreendentes nos julgamentos que fazemos


Styles e sua aluna de doutorado Nan Shang testaram o efeito bouba-kiki com o mandarim. O mandarim é uma língua tonal, em que o significado de uma palavra pode mudar completamente dependendo da entonação com que é falada.


Em inglês, a entonação pode carregar algum significado, por exemplo, ao indicar uma pergunta, mas não tanto quanto em mandarim.


As pesquisadoras apresentaram então dois tons de mandarim, um alto e outro decrescente, a falantes de inglês e mandarim.


Os participantes que falavam inglês perceberam o tom alto como pontiagudo, e o tom decrescente como arredondado.


Mas os falantes de mandarim chegaram à conclusão oposta, descrevendo o tom alto como arredondado, e o tom decrescente como pontiagudo.


Uma possível explicação é que, se não estivermos familiarizados com os tons de uma língua, como era o caso dos nativos em inglês, então podemos ouvi-los essencialmente como altos ou baixos, e formar associações com base no tom.


Mas se estivermos familiarizados com os tons, como os falantes de chinês, talvez possamos distinguir nuances mais sutis.


No experimento, os falantes de mandarim ouviram o tom alto como suave, prolongado e constante e, portanto, arredondado.


O tom decrescente foi sentido como abrupto, porque cai repentinamente, o que o tornou pontiagudo.


Outros estudos também encontraram variações no padrão bouba-kiki.


Os Himba, uma comunidade remota no norte da Namíbia que fala a língua otjiherero, consideraram bouba como sendo redondo e kiki angular, conforme a tendência geral.


Mas acharam que o chocolate ao leite tem sabor "pontiagudo", sugerindo que nossas associações sensoriais não são universais.


Quando Styles e a linguista Lauren Gawne testaram o efeito bouba-kiki em falantes de syuba, uma língua dos Himalaias no Nepal, elas não encontraram nenhuma resposta consistente.


Os falantes de syuba pareciam confusos com as palavras inventadas, possivelmente porque não soavam como nenhuma palavra syuba real.


Isso tornou difícil para eles formarem qualquer associação significativa.


Uma analogia seria mencionar para um falante de inglês a palavra inventada "ngf" e perguntar se é redonda ou pontiaguda. Provavelmente seria difícil fazer uma escolha significativa.


"Quando ouvimos palavras que não estão alinhadas com o padrão de palavras da nossa língua nativa, muitas vezes é difícil fazer qualquer coisa com essa palavra", afirma Styles.


"Não podemos mantê-la em nossa memória de curto prazo por tempo suficiente para tomar decisões a respeito dela."


Fatores culturais também podem afetar nossa reação ao som de nomes próprios. Em inglês, os sons de "k" e "oo" são percebidos como inerentemente engraçados.


Os nomes femininos ingleses têm mais probabilidade de conter sons percebidos como pequenos, como o som de "i" em Emily, e também apresentam sons mais suaves do que os nomes masculinos.


Mas em outras línguas, os nomes podem seguir um padrão de som completamente diferente.


Sidhu ainda não testou a associação nome-personalidade em diferentes idiomas, mas a expectativa dele é de que varie.


"Os sons na língua que você fala podem afetar isso; que sons são mais comuns em nomes podem afetar isso; até mesmo questões culturais, como ideias sobre personalidade e que traços são positivos ou negativos, imagino que também tenham um papel."


Desvendar essas associações ocultas oferece uma lição importante: provavelmente estamos dando importância demais aos nomes das outras pessoas.


Afinal, Sidhu e Pexman não encontraram evidências de que Bobs sejam realmente mais amigáveis ​​ou Kirks mais extrovertidos.


A descoberta deles pode reforçar os apelos para remover por completo nomes próprios de processos importantes e tornar anônimos currículos e artigos científicos em revisão, para combater o viés inconsciente.


Sidhu apoia a ideia. "Acho que faz muito sentido", diz ele. "Sempre que alguém está sendo julgado, retirar todas essas coisas extras que podem influenciar o julgamento é sempre uma boa ideia."






Autor: Sophie Hardach
Fonte: BBC Future
Sítio Online da Publicação: BBC
Data: 28/06/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-57155268

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Como poluição sonora pode prejudicar seu coração



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Há relações cada vez maiores entre o barulho a que somos expostos diariamente e a nossa saúde


Em 2011, o Aeroporto de Frankfurt, o mais movimentado da Alemanha, inaugurou sua quarta pista de pousos e decolagens. A novidade provocou grandes protestos, com manifestantes marcando presença no saguão todas as segundas-feiras durante anos.


"Está destruindo minha vida", disse um manifestante à agência de notícias Reuters um ano depois.


"Cada vez que vou ao meu jardim, tudo que consigo escutar e ver são os aviões."

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O segundo maior perigo global à saúde humana (depois da covid-19) que encurta nossa vida em quase 2 anos


A nova pista também levou dezenas de aeronaves a passarem diretamente sobre a casa de Thomas Münzel, um cardiologista do Centro Médico Universitário de Mainz, na Alemanha.


"Morei perto de uma Autobahn alemã (nome dado a rodovias sem limite de velocidade) e perto dos trilhos de trem do centro da cidade", diz ele.


"O ruído das aeronaves é, de longe, o mais irritante."


Münzel tinha lido um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2009 que relacionava a poluição sonora a problemas cardíacos, mas as evidências na época eram escassas.


Movido em parte pela preocupação com a própria saúde, em 2011, ele mudou o foco de sua pesquisa para aprender mais sobre o tema.


A exposição a ruídos altos é há muito tempo associada à perda de audição. Mas o barulho de aviões e carros cobra um preço que vai além dos ouvidos.


O barulho do trânsito foi indicado como um grande fator de estresse fisiológico, ficando depois da poluição do ar, e em pé de igualdade com a exposição ao fumo passivo.


Na última década, um número cada vez maior de pesquisas vinculou o barulho de aeronaves e do trânsito nas rodovias a um risco elevado de doenças cardiovasculares.


E os cientistas também estão começando a identificar os mecanismos que estão em jogo.


Estimativas sugerem que cerca de um terço das pessoas na Europa e nos Estados Unidos estão regularmente expostas a níveis de ruído prejudiciais à saúde, geralmente definidos como aqueles a partir de cerca de 70 a 80 decibéis.


Para efeito de comparação, uma conversa normal alcança normalmente cerca de 60 dB, carros e caminhões em torno de 70 a 90 dB, enquanto sirenes e aviões podem atingir 120 dB ou mais.


Vários estudos associam a exposição crônica a esse tipo de ruído a um risco maior de problemas de saúde.


Pessoas que moram perto do aeroporto de Frankfurt, por exemplo, apresentam risco 7% maior de derrame do que aquelas que moram em bairros semelhantes, mas mais silenciosos, de acordo com um estudo de 2018 que analisou dados de saúde de mais de um milhão de pessoas.


Uma análise de quase 25 mil mortes por doenças cardiovasculares de 2000 a 2015 entre pessoas que moram perto do Aeroporto de Zurique, na Suíça, mostrou aumentos significativos da mortalidade no período noturno após sobrevoos de aviões, sobretudo entre mulheres, conforme uma equipe de pesquisadores registrou recentemente no European Heart Journal.


À medida que os cientistas investigam a fisiologia por trás das consequências cardiovasculares da poluição sonora, eles chegam mais perto de um culpado: mudanças dramáticas no endotélio, o revestimento interno das artérias e vasos sanguíneos.


Esse revestimento pode ir de um estado saudável para "ativado" e inflamado, o que pode ter desdobramentos potencialmente sérios.



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As cidades são locais notoriamente barulhentos, mas é complicado separar os efeitos do ruído de outros tipos de poluição


O caminho do ruído até os vasos sanguíneos é mais ou menos assim: quando o som chega ao cérebro, ele ativa duas regiões importantes — o córtex auditivo, que interpreta o barulho, e a amígdala, que gerencia as respostas emocionais a ele.


À medida que o barulho fica mais alto, e especialmente durante o sono, a amígdala ativa uma reação de "fuga ou luta" do corpo — mesmo que a pessoa não tenha consciência disso.


Uma vez iniciada, essa resposta ao estresse libera hormônios como adrenalina e cortisol. Algumas artérias se contraem, outras dilatam, a pressão arterial sobe, a digestão fica mais lenta, enquanto os açúcares e as gorduras inundam a corrente sanguínea para uso rápido dos músculos.


A reação em cascata ao estresse também estimula a criação de moléculas prejudiciais que causam estresse oxidativo e inflamação no revestimento dos vasos sanguíneos.


Este endotélio disfuncional interfere no fluxo sanguíneo e afeta outros processos que, quando comprometidos, contribuem para uma série de doenças, incluindo pressão alta, acúmulo de placa nas artérias, obesidade e diabetes.


Estudos realizados em pessoas e cobaias animais mostram que o endotélio já não funciona tão bem depois de apenas alguns dias de exposição noturna ao barulho de aviões. Isso sugere que o ruído alto não é uma preocupação apenas para pessoas que já apresentam risco de problemas cardíacos e metabólicos.


Adultos saudáveis ​​submetidos a gravações de trem enquanto dormiam tiveram a função dos vasos sanguíneos comprometida quase que imediatamente, de acordo com um estudo de 2019 feito por Münzel e seus colegas.


"Ficamos surpresos que os jovens, depois de ouvir esses sons por apenas uma noite, apresentassem disfunção endotelial", diz Münzel, que também é coautor de uma revisão de estudos sobre ruído e saúde cardiovascular.


"Sempre pensamos que isso fosse algo que levasse anos para se desenvolver."



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Ampliações de aeroportos geraram protestos em muitas partes da Europa por parte de moradores que reclamam do barulho


Enquanto novos dados continuam a surgir, desvendar sua causa e efeito ainda parece complicado.


Não é fácil conduzir experimentos de sono de longo prazo, ou distinguir entre os efeitos do ruído diurno e noturno, ou os efeitos do próprio ruído versus os efeitos combinados da poluição sonora e do ar (que muitas vezes andam juntos).


As consequências do ruído ambiental também são difíceis de analisar devido à natureza subjetiva do som, diz Andreas Xyrichis, cientista de serviços de saúde da Universidade King's College London, no Reino Unido.


Xyrichis estuda unidades de terapia intensiva de hospitais, onde telefones tocando e o barulho de pratos de comida podem ser reconfortantes ou prejudiciais à recuperação, dependendo do paciente.


"Estamos realmente tentando fazer essa distinção entre níveis de decibéis e percepção de ruído", diz ele.


Apesar das questões em aberto, há um reconhecimento cada vez maior das conexões entre poluição sonora e redução da saúde física.


Um relatório de 2018 da OMS observou que, a cada ano, os europeus ocidentais estão perdendo coletivamente mais de 1,6 milhão de anos de vida saudável por causa do barulho do trânsito.


Este cálculo é baseado no número de mortes prematuras causadas diretamente pela exposição ao ruído, assim como nos anos vividos com deficiências ou doenças induzidas pelo barulho.


E esse número tende a crescer. Em 2018, 55% das pessoas viviam em cidades e, em 2050, esse percentual deve chegar a quase 70%, estima a Organização das Nações Unidas (ONU).



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A exposição a barulho excessivo durante a noite pode aumentar os níveis de estresse e levar a alterações na função dos vasos sanguíneos


Alguns governos, atendendo a protestos da população, tentaram silenciar o clamor da urbanização adotando proibições de voos noturnos, incentivando tecnologias mais silenciosas e emitindo multas após reclamações de barulho.


As pessoas podem ajudar a si mesmas garantindo que seus quartos sejam o mais silenciosos possível, modernizando as janelas ou pendurando cortinas que reduzam ruído — e, se puderem, se mudando para bairros mais silenciosos.


Soluções mais baratas podem incluir usar tampões de ouvido à noite ou mudar o quarto para uma parte mais silenciosa da casa, de acordo com Mathias Basner, psiquiatra e epidemiologista da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, e presidente da Comissão Internacional sobre os Efeitos Biológicos do Ruído.


Ele acredita que as pessoas devam tomar essas medidas, mesmo que não se sintam especialmente incomodadas pelo barulho.


"Se você está morando em Manhattan, não vai notar o quão barulhento é depois de um tempo porque fica normal", explica.


"Mas, se você se habituou psicologicamente, isso não significa que não tenha consequências negativas para a saúde."


* Este artigo foi publicado originalmente na Knowable Magazine e foi republicado aqui sob uma licença Creative Commons.




Autor: Cypress Hansen
Fonte: BBC Future (Knowable Magazine*)
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 12/04/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-56650056