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quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Proteínas de origem animal ou vegetal têm o mesmo efeito para nosso corpo?



CRÉDITO,GETTY IMAGES

A importância de uma alimentação adequada para a saúde é algo que a maioria de nós já internalizou.

Estamos cada vez mais preocupados em "comer melhor", consumir alimentos locais e, se possível, de produção sustentável.

Além disso, a crescente conscientização em relação ao bem-estar animal nos levou a consumir mais alimentos de origem vegetal.

Dentro desta tendência, se destaca a preferência por eleger substitutos da carne, o que favorece um consumo maior de proteína de origem vegetal.


Ao mesmo tempo, as empresas alimentícias vêm desenvolvendo produtos que se assemelham cada vez mais à carne, melhorando tanto características organolépticas quanto nutricionais.

Mas também estamos cientes de que adotar um estilo de vida ativo é essencial para se manter saudável.


Assim, destaca-se o crescente interesse por atividades em que há ganho de força e massa muscular, como é o caso da musculação, halterofilismo, powerlifting (levantamento de peso básico) e crossfit.


Por isso, as proteínas que ingerimos ganharam cada vez mais relevância, dado o papel que desempenham nos ditos ganhos de massa e força muscular.


E, neste cenário, as de origem animal são consideradas melhores que as de origem vegetal.

Virtudes da proteína de origem animal

Para conseguir um aumento da massa muscular (hipertrofia) é necessário estimular a síntese proteica no músculo. Os dois principais estímulos são o exercício de força e a proteína alimentar.


Mas o primeiro também aumenta o catabolismo proteico (a degradação de proteínas) no músculo.


Por isso, um aporte nutricional que garanta um saldo proteico positivo (em que a síntese seja maior do que a degradação) é essencial para atingir a hipertrofia muscular.


Em teoria, a proteína de origem animal é considerada melhor para ganho de massa e força muscular devido à sua capacidade maior de estimular a síntese proteica muscular (capacidade anabólica).


Isto é atribuído principalmente à sua qualidade superior, determinada tanto pelo perfil de aminoácidos essenciais quanto por sua biodisponibilidade (proporção de aminoácidos absorvidos e utilizados pelo organismo).


Embora todos os aminoácidos da dieta sejam necessários para sintetizar proteínas novas, os únicos que estimulam a síntese muscular são os essenciais; especialmente a leucina.


Geralmente, a proteína de origem vegetal possui concentrações mais baixas de aminoácidos essenciais do que a de origem animal.


Na maioria dos casos, algumas ou várias não atendem às necessidades, como a metionina nas leguminosas e a lisina nos cereais.


Por outro lado, os aminoácidos da proteína de origem vegetal são digeridos e absorvidos em menor grau do que os da animal.


Por isso, tanto o aporte alimentar inicial quanto a quantidade de aminoácidos utilizados pelo organismo serão menores.


Consequentemente, a proteína de origem vegetal é considerada menos adequada do que a de origem animal para gerar adaptações musculares.

Outros fatores a considerar


Mas além do perfil de aminoácidos e biodisponibilidade da proteína alimentar, há outros fatores envolvidos na síntese de proteína muscular.



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Recomenda-se tomar a proteína de forma uniforme ao longo do dia para maximizar sua síntese no músculo

Independentemente de sua qualidade, a quantidade ingerida deve ser suficiente para gerar um saldo positivo.

Para isso, recomenda-se consumir diariamente entre 1,6 e 2 gramas de proteína por quilo de peso.

No caso da proteína de origem vegetal, por apresentar menor concentração de aminoácidos essenciais totais, se sugere quantidades próximas ao limite superior da faixa: 2 g/kg/dia.

Se ocorrer perda de gordura corporal, são recomendadas quantidades maiores de proteína alimentar, tanto para atletas veganos quanto onívoros.

O objetivo é manter a massa magra.

Além disso, a distribuição diária da ingestão de proteínas também é importante.


Se o objetivo é maximizar sua síntese no músculo, recomenda-se tomá-la de forma uniforme ao longo do dia, em doses de 20-40 g.


Desta forma, é possível gerar múltiplos picos anabólicos.


Outro fator nutricional imprescindível para aumentar a massa muscular é o aporte energético.


Por se tratar de um processo anabólico, o saldo energético deve ser positivo; ou seja, sua ingestão deve ser superior ao seu gasto.

E o que dizem os estudos?


Os estudos realizados até o momento sugerem que, na prática, a origem da proteína não supõe qualquer vantagem ou desvantagem no ganho de massa ou força muscular, independentemente de sua capacidade anabólica, desde que as quantidades ingeridas sejam suficientes.


Neste sentido, não foram observadas diferenças significativas em termos de ganho de força muscular em indivíduos que realizavam séries que trabalham todos os grupos musculares em uma mesma sessão que tomavam proteína de origem animal ou vegetal.


Resultados semelhantes foram descritos em relação à sua influência na hipertrofia muscular.


No entanto, a maior parte destas pesquisas analisou o efeito da origem da proteína quando consumida como suplemento.


Em suma, as evidências disponíveis sugerem que, apesar do que talvez seria de se esperar, a origem da proteína não parece ser um fator determinante em termos de ganho de força e/ou massa muscular.


No entanto, são necessários estudos adicionais para analisar os efeitos de consumi-la por meio da dieta, e não na forma de suplemento.


* Iñaki Milton Laskibar é pesquisador de pós-doutorado no Cardiometabolic Nutrition Group, IMDEA Food. Pesquisador do Centro de Pesquisa Biomédica da Rede de Fisiopatologia da Obesidade e Nutrição (CiberObn), Universidade do País Basco/Euskal Herriko Unibertsitatea.


Lucía González Martínez é formada em nutrição humana e dietética, Universidade do País Basco / Euskal Herriko Unibertsitatea.


Maria Puy Portillo é professora de nutrição, pesquisadora do Centro de Pesquisa Biomédica da Rede de Fisiopatologia da Obesidade e Nutrição (CiberObn), Universidade do País Basco/Euskal Herriko Unibertsitatea.


Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado aqui sob uma licença Creative Commons. Leia aqui a versão original (em espanhol).







Autor: Iñaki Milton Laskibar, Lucía González Martínez e María Puy Portillo
The Conversation
Fonte: BBC News
Sítio Online da Publicação: BBC News
Data: 11/08/2022
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-62390234

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Combate ao HIV: por que redução nas infecções teve pior número desde 2016



CRÉDITO,YANNICK TYLLE/GETTY IMAGES

O número de novos casos de infecções por HIV mundialmente diminuiu apenas 3,6% entre 2020 e 2021, o menor declínio anual de novas infecções desde 2016.

Entre as regiões que viram aumentos nas infecções anuais pelo vírus estão América Latina, Europa Oriental e Ásia Central, Oriente Médio e Norte da África.

Os dados são do relatório "Em Perigo", lançado nesta quarta-feira (27/07) pela Unaids, órgão da ONU para o tema, que expõe falhas na resposta global ao HIV.

Com a pandemia da covid-19 e outras crises globais, nos últimos dois anos, o progresso contra o HIV enfraqueceu, os recursos destinados a contracepção, tratamento e conscientização diminuíram e, como resultado, milhões de vidas ficaram em risco.

"Esses dados mostram que a resposta global à Aids está em perigo. Se não estamos progredindo rapidamente, isto significa que estamos perdendo terreno, pois a pandemia de Aids acaba avançando em meio à covid-19, ao deslocamento de populações em massa e outras crises. Não podemos perder de vista os milhões de mortes evitáveis que estamos trabalhando para impedir que aconteçam", diz Winnie Byanyima, diretora-executiva do Unaids.

Pelo enfraquecimento no combate ao HIV, em 2021 houve aproximadamente 1,5 milhão de novas infecções em todo o mundo. Isto é mais de um milhão de infecções além das metas globais estabelecidas para o mesmo período.


Em média, a Aids tirou uma vida a cada minuto, resultando em 650 mil mortes pelo quadro, apesar do tratamento eficaz do HIV e das ferramentas para prevenir, detectar e tratar infecções oportunistas.



CRÉDITO,NITO100/GETTY IMAGES
Legenda da foto,

No Brasil, medicamentos de profilaxia pré-exposição e pós-exposição ao HIV estão disponíveis gratuitamente no SUS

Brasil é ponto fora da curva

Embora o relatório não mostre dados específicos da progressão de infecções no Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, entre 2019 e 2020 (ano do último levantamento), houve uma queda de 20,7% (de 37.731 contra 29.917) nos casos de Aids notificados.

"O Brasil sempre foi considerado um exemplo na resposta ao HIV. O Programa de HIV e Aids [vinculado ao SUS] é uma política de Estado e seguiu atuante nos últimos dois anos em que a crise de saúde pública causada pela pandemia de covid-19 centralizou a atenção e muitos recursos. O país manteve sua capacidade de atenção à prevenção, diagnóstico e tratamento", afirma Claudia Velasquez, diretora e representante do Unaids no Brasil, à BBC News Brasil.

Durante a pandemia, o Brasil foi um dos países pioneiros a estender a distribuição de antirretrovirais para até seis meses para evitar riscos no recolhimento dos medicamentos e a consequente ruptura no tratamento, além de ter feito doação de medicamentos antirretrovirais para outros países em necessidade.

Mas o território nacional é extenso, e as realidades são diferentes a depender de cada estado e município. O fato de que exista uma oferta pública de serviços de prevenção, diagnóstico e tratamento do HIV e Aids não significa que as pessoas efetivamente conseguirão acessar estes serviços.

Um exemplo disso é que 27% das pessoas vivendo com HIV no Brasil ainda não recebem o tratamento antirretroviral que pode salvar suas vidas.

"No Brasil, diferente do contexto global, a epidemia de Aids é mais concentrada em determinados grupos sociais, as populações-chave, especialmente homens que fazem sexo com outros homens e travestis e mulheres transsexuais. Além de sofrerem todo tipo de violência física e psicológica por conta da transfobia, no Brasil mulheres trans têm um risco 40 vezes maior de se infectar pelo HIV do que a média da população", diz Claudia Velasquez.

Diminuir a desigualdade dentro dos países, melhorando o acesso das populações mais marginalizadas e periféricas aos serviços, de acordo com o relatório do Unaids, é uma das principais formas de impedir a disseminação do vírus.

"As múltiplas desigualdades, potencializadas pela discriminação e pelo estigma, são efetivamente uma barreira de acesso aos serviços de HIV e Aids por parte das populações em situação de maior vulnerabilidade, que encontram dificuldades ou se veem impedidas de ter acesso aos serviços de HIV que podem lhes garantir uma vida saudável e produtiva."

"A crise econômica impacta mais fortemente as pessoas vivendo em situação de pobreza extrema ou miséria. Muitas vezes elas se veem forçadas a tomar decisões difíceis, entre se alimentar ou cuidar da saúde, por exemplo. O resultado é que veem diminuída drasticamente sua capacidade de buscar o diagnóstico ou dar continuidade ao tratamento do HIV. As populações-chave para o HIV têm, ainda, de lidar com o estigma e discriminação, os quais amplificam sua situação de vulnerabilidade."

Por essas razões, Velasquez aponta que os programas de atenção ao HIV e à Aids precisam ser baseados em uma perspectiva multisetorial, abrangendo não apenas os aspectos biomédicos, mas envolvendo também outros serviços de proteção social e de desenvolvimento e sustentação econômica das populações mais vulneráveis.

O relatório também mostra que os esforços para garantir que todas as pessoas vivendo com HIV tenham acesso ao tratamento antirretroviral que salva vidas estão falhando. O número de pessoas em tratamento de HIV cresceu mais lentamente em 2021 do que nos 10 anos anteriores.

Enquanto três quartos de todas as pessoas que vivem com HIV têm acesso ao tratamento antirretroviral, ainda há aproximadamente 10 milhões de pessoas sem acesso aos medicamentos. Apenas metade (52%) das crianças que vivem com HIV em todo o mundo têm acesso a medicamentos que salvam vidas. A lacuna na cobertura do tratamento do HIV entre crianças e adultos está aumentando em vez de diminuir.

O intuito do levantamento, de acordo com o Unaids, é chamar a atenção dos governos para a urgência de dar uma resposta corajosa às desigualdades, ao estigma e à discriminação.



CRÉDITO,DOUGLAS SACHA/GETTY IMAGES
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Se a trajetória atual persistir, o número de novas infecções de HIV pode chegar a 1,2 milhão em 2025, ano no qual os estados membros da ONU estabeleceram uma meta de menos de 370 mil novas infecções por HIV

Desafios para o futuro do cenário global

O relatório expõe as consequências devastadoras que podem resultar da falta de ação imediata para combater as desigualdades que impulsionam a pandemia.

Se a trajetória atual persistir, o número de novas infecções de HIV pode chegar a 1,2 milhão em 2025, ano no qual os estados membros da ONU estabeleceram uma meta de menos de 370 mil novas infecções por HIV.

Isto significaria não apenas perder a meta, mas ultrapassá-la em mais de três vezes.

De acordo com a Unaids, o momento pede solidariedade internacional e um novo fluxo de financiamento, mas muitos países de alta renda estão cortando a ajuda.

O documento também aponta que o financiamento doméstico para a resposta ao HIV em países de baixa e média renda caiu por dois anos consecutivos. Os choques globais, incluindo a pandemia de covid-19 e a guerra na Ucrânia, exacerbaram ainda mais os riscos para a resposta ao HIV.

O pagamento da dívida dos países mais pobres do mundo atingiu 171% de todos os gastos com saúde, educação e proteção social combinados, sufocando suas capacidades de responder à Aids.

A guerra na Ucrânia aumentou drasticamente os preços globais dos alimentos, amplificando os efeitos negativos da falta de segurança alimentar das pessoas que vivem com HIV em todo o mundo, tornando-as muito mais propensas a sofrer interrupções no tratamento do HIV.

Com isso, os recursos para a saúde global estão sob séria ameaça. Em 2021, os recursos internacionais disponíveis para o HIV foram 6% menores do que em 2010. A assistência ao desenvolvimento no exterior para o HIV proveniente de doadores bilaterais, que não os Estados Unidos, despencou 57% na última década.

Os passos para acabar com a Aids até 2030, de acordo com a organização, incluem: serviços liderados e centrados nas comunidades; a defesa dos direitos humanos e a eliminação de leis punitivas e discriminatórias e o combate ao estigma e à discriminação; o empoderamento de meninas e mulheres; igualdade de acesso aos serviços de prevenção, diagnóstico e tratamento, incluindo às novas tecnologias de saúde; e serviços de saúde, educação e proteção social para todas as pessoas, especialmente as afetadas ou vivendo com HIV e Aids em situação de maior vulnerabilidade.






Autor: Giulia Granchi
Fonte: BBC News Brasil em São Paulo
Sítio Online da Publicação: BBC News
Data: 27/07/2022
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-62313331

sábado, 16 de julho de 2022

Como combater 3 hábitos que nos deixam esgotados silenciosamente



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Você está tão exausto que é difícil até mesmo encontrar palavras para descrever essa sensação, ainda que já tenha se certificado de que não possui nenhum problema de saúde?


Talvez você já tenha seguido o clássico conselho: tenha uma dieta equilibrada, se exercite e durma o suficiente.

Porém, há certos hábitos do cotidiano que podem estar afetando seu vigor, e você sequer suspeita disso.


Entre esses silenciosos sabotadores de energia estão velhos conhecidos, como sentar na posição errada ou adiar as refeições.


Há também coisas que fazemos sem perceber, como respirar incorretamente quando temos muitas coisas em mente, segundo apontou a psicóloga Uma Naidoo ao Huffington Post, ou ter muitas abas abertas no computador, como a neurologista Rana Mafee detalhou para a mesma publicação

Há, inclusive, alguns elementos que podem ser considerados inesperados entre esses sabotadores. Para explorá-los, conversamos com a psiquiatra Leela R. Magavi, diretora médica regional do Community Psychiatry and MindPath Care Centers, na Califórnia, nos Estados Unidos.



1. Séries de TV, filmes e notícias


Assistir a filmes ou séries é algo que fazemos para relaxar, então perguntamos a Magavi por que especialistas como ela incluem essas atividades na lista de possíveis fatores que causam cansaço mental.



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"Como seres humanos, somos criaturas emocionais, e muitos de nós somos empáticos e captamos os sentimentos dos personagens de programas de TV e filmes", explica.


"Eles podem nos lembrar experiências dolorosas da nossa vida, qualquer tipo de deficiência, fraqueza, perda ou insegurança, e tudo isso pode causar muitas emoções associadas, como tristeza, ansiedade, medo, raiva, que podem nos afetar ainda que estejam no nosso subconsciente", acrescenta.


"Então, quando você assiste a muitos desses programas de TV, mesmo que não sinta que está pensando abertamente sobre isso, esses sentimentos estarão sob a superfície. Enquanto você está trabalhando, enquanto você está com sua família, essa grande quantidade de emoções pode tomar conta de você e fazer com que se sinta esgotado o dia todo sem que perceba", diz.


Magavi diz que algo semelhante pode acontecer depois de assistir ou ler notícias, "porque elas te levam a pensar sobre o que está acontecendo no mundo".


Porém, ela esclarece que isso não significa que é ruim assistir televisão ou ler jornais.
O que é a felicidade eudaimônica, que explica por que muitos continuam trabalhando sem precisar


O antídoto



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"O que recomendo para combater esse cansaço é, depois de ler ou assistir a algo, processá-lo, seja por meio de um diário ou de uma escrita expressiva (anotar seus pensamentos e sentimentos para entendê-los com mais clareza), ou conversando com um amigo ou familiar."


"Isso permite que as emoções saiam, para que não as internalize e não consumam sua energia."


Mas nem sempre você tem tempo para se cuidar tanto... Existe um método mais simples?


"É bom fazer um 'check-up' mental consigo mesmo: que emoção este artigo ou programa de TV causou em mim? Isso pode ser muito rápido e fácil de fazer".

"Por exemplo, se você acabou de assistir O Rei Leão e se sente triste porque o pai morreu, isso pode fazer com que você se preocupe com a morte das pessoas que você ama. Mas, ao fazer um 'check-up' mental, poderá se lembrar que todos à sua volta estão fazendo todo o possível para que possam se manter saudáveis."


"Algo tão curto como isso pode te ajudar a não internalizar essas emoções e a não se deixar bombardear por elas."


A exceção



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Ler histórias em livros físicos, no entanto, pode ter o efeito oposto ao das telas.


"Não só não tem a luz azul da tela, que causa cansaço ocular e dores de cabeça, mas, quando você lê, precisa usar a sua própria imaginação, por isso muitas pessoas acham que a leitura, mesmo que seja muito emocional, é muito terapêutica e tranquilizadora."

2. Os esportes


O esporte pode ser considerado algo que entretém, tira da rotina, mas que também pode ser um elemento prejudicial para a energia sob alguns aspectos.


"Os fanáticos podem ficar muito absortos no esporte e aceitar vitórias e derrotas como suas, sentindo-se excessivamente tristes e desmoralizados ou eufóricos."


"Qualquer emoção extrema costuma ser desgastante: a felicidade intensa pode esgotar muitos dos circuitos do cérebro; a tristeza profunda pode estar relacionada à ansiedade, que sobrecarrega o cérebro e faz você se sentir muito cansado."



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O antídoto

"O importante é estar consciente do que você está sentindo", diz a especialista.


"Se você está muito emocionado, pergunte a si mesmo: preciso fazer uma pausa, um lanche, um banho rápido... o que preciso fazer para me acalmar no momento?"


"Respire fundo, faça alongamentos e caminhe um pouco", aconselha.

3. Os planejamentos


Planejar é uma maneira de controlar a realidade, de organizar a vida, de conter o caos.


Mas, novamente, algo que instintivamente colocaríamos no pacote de coisas que causam alívio pode justamente causar estresse.


Nesse caso, aplica-se novamente a afirmação de que (quase) tudo em excesso é ruim.


O planejamento é muito útil - até certo ponto.


Estar constantemente exposto a uma agenda cheia de obrigações pode causar aumento da ansiedade e afetar negativamente a memória e a velocidade de processamento de informações.



CRÉDITO,GETTY IMAGES


"Algumas pessoas passam tantas horas organizando horários e listas que não são capazes de viver conscientemente e desfrutar de suas vidas. Sempre estão preocupadas, porque se atrasaram nisso, não estão em dia com aquilo e. realmente, não sentem autocompaixão e gratidão por si pelas coisas que conseguiram realizar naquele dia."


"Isso poder causar muitos sentimentos de tristeza, desmoralização ou fadiga."


"Em algumas pessoas, isso termina nos seus sonhos."


"Tenho pacientes adultos que sonham que vão chegar tarde na escola, que não terminaram a tarefa... Há muitos sonhos que os levam a regressar à infância, onde sentem que estão constantemente atrasados, e isso faz com que eles não se sintam bem na manhã seguinte."


O antídoto


"Sempre recomendo passar de cinco a dez minutos apenas pensando sobre quais são os principais objetivos do dia e, no final do dia, mesmo que não tenham sido alcançados, não gaste muito tempo pensando neles. Pense naqueles que foram alcançados, em por que eles são importantes", diz Magavi.


A psiquiatra também recomenda não fazer planos com muita antecedência, "porque a vida está sempre evoluindo, e é importante ser flexível".


"Quando as pessoas planejam a longo prazo, elas simplesmente antecipam que tudo em seu mundo desconhecido funcionará como um relógio para atingir esse objetivo a tempo."


"Mas, se algo muda em sua família, em seus amigos, em seu trabalho e eles não conseguem atingir esse objetivo, eles se sentem completamente sobrecarregados."


Um truque é planejar o obrigatório - reuniões, compromissos, festas familiares - e deixar o resto do tempo o mais livre possível.







Autor: BBC News
Fonte: BBC News
Sítio Online da Publicação: BBC News
Data: 14/07/2022
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-62144907

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Por que cientistas estão congelando animais de espécies ameaçadas



Legenda da foto,

Veterinários do zoológico de Chester coletam amostra de tecido de um lóris-amor-amor, ave tropical ameaçada


“Ele se foi”, murmura a veterinária Gabby Drake, do zoológico de Chester (Inglaterra), enquanto segura o estetoscópio junto ao peito de um papagaio vermelho de 28 anos.


O pássaro é um lóris-amor-amor (Lorius garrulus), um idoso residente no zoológico de Chester e uma espécie listada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) como vulnerável à extinção.


É triste ver uma ave cheia de personalidade como essa ter que ser "colocada para dormir”. Seus pés pequenos e com garras estão retorcidos com artrite, que atingiu um estágio grave demais para ser tratada.

Mas não será o fim para o código genético único contido em suas células. Alguns pequenos fragmentos de seu corpo se juntarão a amostras de outras 100 espécies que serão congeladas e armazenadas por tempo indefinido no maior biobanco de tecidos vivos do Reino Unido, o Nature's Safe.


Em frascos com um anticongelante rico em nutrientes e acolhedor para as células, as amostras são mantidas a -196°C, ponto em que todos os processos químicos naturais nas células param.



CRÉDITO,NATURE'S SAFE
Legenda da foto,

Amostras de tecido de animais são armazenadas congeladas em nitrogênio líquido


A ideia é que, em algum momento no futuro, em décadas, talvez até séculos, eles possam ser ressuscitados. É uma espécie de "backup congelado" em caso de extinção.

A vida recomeça


Conservacionistas dizem que neste momento estamos perdendo espécies mais rápido do que nunca. Em meio a uma crise de biodiversidade que, segundo estimativas da ONU, ameaça 1 milhão de espécies de plantas e animais de extinção, alguns cientistas trabalham selecionando o que entra no freezer que guardará amostras para o futuro.


"Isso não vai parar a extinção, mas certamente vai ajudar [em alguma medida a atenuar os efeitos negativos]", diz Tullis Matson, fundador da Nature's Safe. Ele é um entusiasta da missão da instituição sem fins lucrativos: preservar tecidos vivos de animais silvestres.



CRÉDITO,NATURE'S SAFE
Legenda da foto,

Tullis Matson, fundador da Nature's Safe, começou a trabalhar com raças raras domésticas


"É aqui que a vida começa de novo", ele sorri, enquanto exibe a imagem de um frasco de células de pele de guepardo sob o microscópio.


O monitor está repleto de células epidérmicas densamente compactadas, um dos blocos de construção de um organismo. O ponto preto no meio de cada célula é um núcleo, contendo um conjunto único de instruções genéticas que fizeram, neste caso, um guepardo.


“Este animal morreu em 2019”, explica Matson. "'Acordamos' essas células há alguns dias. E - você pode ver agora - elas estão por toda a tela. Elas se multiplicaram e se multiplicaram."


As células da pele são muito úteis para essa estratégia, particularmente um tipo de célula do tecido conjuntivo chamado fibroblasto. Estas são críticas para a cura e reparo e, depois de serem removidas do freezer e aquecidas à temperatura corporal em um banho de nutrientes, se dividirão e se multiplicarão em um recipiente.



CRÉDITO,BEN NOVAK/REVIVE AND RESTORE
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Kurt, o cavalo clonado de Przewalski, vive no zoológico de San Diego

Um dos possíveis usos futuros para essas células que vêm de DNA congelado é a clonagem de novos animais.


A clonagem de animais não é nova. Em 1996, cientistas na Escócia clonaram a ovelha Dolly fundindo uma célula de uma ovelha com o óvulo de outra. É tecnologia reprodutiva, nascida no reino dos animais domésticos e agora sendo canalizada para a conservação.


A empresa de biotecnologia americana Revive and Restore produziu recentemente um clone usando células da pele de um furão de patas negras ameaçado de extinção que estava morto havia décadas. Seus óvulos foram congelados em 1988.


A fusão de um fibroblasto de furão com um óvulo produziu um embrião, e um clone – Elizabeth Ann, a furão de patas negras – nasceu em dezembro de 2020.


Eles usaram a mesma abordagem básica para clonar um cavalo de Przewalski - uma espécie considerada o último cavalo vivo verdadeiramente "selvagem" - a um custo de US$ 60 mil (cerca de R$ 300 mil). O clone, chamado Kurt, vive no Zoológico de San Diego, nos EUA.



CRÉDITO,BEN NOVAK/REVIVE AND RESTORE
Legenda da foto,

Um clone de um furão de patas negras nasceu em dezembro de 2020


“Na verdade, era mais barato para o zoológico clonar um cavalo – para trazer mais diversidade genética para a população americana da espécie – do que seria enviar um cavalo de um zoológico europeu”, explica o cientista-chefe da Revive and Restore, Ben Novak.

Quais espécies deveríamos congelar?


Diversidade genética importa. À medida que a população de uma espécie diminui, isso pode levar à endogamia. Nos mamíferos, os descendentes têm um conjunto de instruções genéticas de cada progenitor biológico. E se esses pais são parentes, que é o caso da endogamia, quaisquer doenças genéticas que eles tenham são muito mais propensas a serem transmitidas.


Banco de células, porém, não é a maneira mais barata de ressuscitar genes, diz Novak.


"Os conservacionistas estão lutando para salvar as espécies, mas não conseguimos salvar tudo - a destruição está em andamento. Sair na frente e colocar as coisas no banco nos dá a oportunidade no futuro de fazer a restauração", diz ele. "Se não fizermos isso, vamos nos arrepender mais tarde."


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A veterinária do zoológico de Chester, Gabby Drake, se prepara para levar tecido de uma onça morta para o banco de dados


Há temores, por exemplo, de que o biobanco transmita uma mensagem de que não precisamos nos preocupar em salvar espécies agora "porque podemos congelá-las para mais tarde", afirma o professor Bill Sutherland, biólogo conservacionista da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.


"E há a questão de priorizar o que está armazenado", diz. "Seria maravilhoso conseguir tecido de 20 leopardos-das-neves de 20 locais diferentes, mas seria muito difícil."


Em vez disso, a Nature's Safe trabalha em estreita colaboração com os zoológicos da Europa, em particular o zoológico de Chester.


Sempre que um animal tem que ser "colocado para dormir” ou morre inesperadamente, os veterinários do zoológico levam alguns tecidos para o banco.


"É como um raio de Sol", diz Tullis. “Esse animal morrendo, na verdade, dá um pouco de esperança para o futuro dessa espécie, porque podemos congelar essa genética”.


Embora colocar no banco o que está disponível não seja uma abordagem perfeita, ela forneceu à Nature's Safe amostras de espécies como o sapo-da-montanha, um anfíbio criticamente ameaçado quase exterminado por uma doença fúngica, ou a pega-verde-de-Java, uma ave levada à beira da extinção pelo comércio ilegal de aves silvestres. (Alguns pássaros absurdamente belos têm habilidades de mímica notáveis ​​e acabam sendo também por isso muito procurados).


A cientista-chefe do zoológico de Chester, Sue Walker, diz que se trata de salvar o máximo de material genético possível. “Se não fizermos isso quando o animal morrer, acabamos de perdê-lo”, diz ela.



CRÉDITO,CHESTER ZOO
Legenda da foto,

Pega-verde-de-Java foi levado à beira da extinção pelo comércio ilegal


No início deste ano, em Chester, Goshi, uma jaguar de nove anos, foi encontrada morta. A veterinária Gabby Drake cuidadosamente cortou a orelha esquerda do grande felino, colocou-a em uma embalagem fria e a colocou no Nature's Safe, antes de enviar Goshi para uma autópsia.


“Os jaguares não são os grandes felinos mais ameaçados, mas estão em declínio e enfrentam as mesmas pressões humanas que outros grandes predadores”, diz Drake. "Ela era um animal muito jovem e nunca teve filhotes, infelizmente. É triste, mas é bom saber que seu tecido continuará vivo."


Agora, alguns pedaços do tamanho de ervilhas da orelha preta e aveludada de Goshi, limpos, preparados e banhados em uma solução nutritiva protetora, estão em um repositório cada vez mais biodiverso de nitrogênio líquido.



CRÉDITO,ZOOLÓGICO DE CHESTER
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Células da jaguar Goshi estão agora armazenadas no banco do zoológico de Chester


Tullis está otimista sobre o que a ciência pode ser possível no futuro. "Com a tecnologia de edição de genes, podemos até ser capazes de criar uma nova diversidade genética", especula.


Olhando para o agora solitário jaguar macho patrulhando sua área, Sue Walker, do zoológico de Chester, diz que pode levar "décadas até que tenhamos a tecnologia para fazer o que queremos com essas amostras".


A esperança dela, e da maioria dos conservacionistas, é que o uso de células congeladas de animais mortos há muito tempo nunca seja necessário.


"Mas, se não a coletarmos, essa genética será perdida para sempre", diz Walker. "Perdemos toda essa biodiversidade única."




Autor: Victoria Gill
Fonte: Repórter de Ciência da BBC News
Sítio Online da Publicação: BBC News
Data: 23/05/2022
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-61527339

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Vitamina D e covid-19: as falhas que levaram estudo a ser tirado do ar por revista científica



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A vitamina D está sendo estudada — mas evidências até agora não são robustas o suficiente para sugerir tratamento com ela para a covid-19.


Na medida em que a covid-19 se espalhava pelo mundo ao longo do último ano, outro perigo também se disseminava: a desinformação sobre como tratá-la. Às vezes, a desinformação é criada até mesmo em torno de ideias que contêm algum fundo de verdade — e esse pode ser o tipo de "fake news" mais difícil de combater.

É o caso da vitamina D, alvo de intensos debates sobre um potencial uso como tratamento para a covid-19.

Como se verá mais para frente nesta reportagem, o estudo original que havia mostrado um suposto sucesso da vitamina D tornou-se alvo de críticas porque não seguiu métodos robustos o suficiente para apontar para aquelas conclusões.

Em outras palavras, este estudo, feito na Espanha, não respeitava critérios científicos importantes para que seus resultados pudessem ser indicados com segurança para a população. Ele foi retirado de circulação pela publicação e agora é alvo de uma investigação.

Enquanto isso, no momento, outro estudo mais rigoroso está sendo conduzido na Inglaterra.


Foi a partir dessa controvérsia que informações falsas começaram a se difundir sobre a suposta eficácia da vitamina D contra a covid-19.

Por que vitamina D?



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Peixes gordurosos e derivados do leite estão entre as principais fontes de vitamina D na alimentação — até agora, não há evidências científicas de que suplementação com a vitamina ajude no combate à covid-19


Muitos tratamentos bastante conhecidos pelos brasileiros foram sugeridos para a covid-19.


Hidroxicloroquina, ivermectina e vitamina D — todos esses medicamentos são ou foram, em algum momento, estudados.


É importante lembrar que sugerir que um tratamento possa ser eficaz e depois descobrir que isso não é verdade faz parte do processo científico normal.


O problema é que, hoje em dia, pesquisas online, em fases iniciais ou de baixa qualidade têm sido compartilhadas fora do contexto. E a confusão que isso cria pode ser explorada por pessoas que promovem teorias da conspiração.


Há alguma lógica por trás do motivo pelo qual a vitamina D pode ser útil no tratamento ou prevenção de covid-19.


Ela desempenha um papel na imunidade e já é recomendada, por exemplo, no Reino Unido - onde todos devem tomar o suplemento no inverno (sendo que aqueles com maior risco de deficiência de vitamina D são aconselhados a tomá-la durante todo o ano).


Até agora, porém, nenhuma pesquisa mostrou um efeito suficientemente convincente para apoiar o uso de doses mais altas da vitamina D para prevenir ou tratar doenças, o que pode vir a mudar no futuro.


Assim, é compreensível que o uso de vitamina D para prevenir a covid-19 tenha se espalhado pela internet como conselho de saúde. No entanto, alguns foram muito mais longe, sugerindo em fóruns online como o Reddit que os governos "mal mencionam" a eficácia da vitamina D e, em vez disso se concentram em "vacinas e rastreamento do estado policial".



Ou alegando que a vitamina estaria sendo ignorada porque a Organização Mundial da Saúde (OMS) é "paga pela grande indústria farmacêutica".


Os argumentos podem ser facilmente derrubados — a começar pelo fato de as próprias vitaminas serem uma indústria que movimenta bilhões de dólares.

O que dizem os estudos?



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Conclusões de estudos associando vitamina D e coronavírus não são robustas o suficiente, dizem cientistas


Muitos estudos mostraram uma associação entre a vitamina D e a covid-19, mas a evidência é meramente empírica — o que significa que outros fatores não estão sendo controlados e monitorados para se determinar com precisão uma relação de causa e efeito.


Ou seja, as conclusões desses estudos não são robustas o suficiente: para isso acontecer seria necessário, por exemplo, um ensaio clínico conhecido como randomizado, no qual pessoas recebem um tratamento ou uma versão simulada, ou placebo, para que os cientistas possam ter certeza de que o resultado é causado pelo tratamento.


Estudos observacionais mostram que certos grupos são mais propensos a ter deficiências de vitamina D e a pegar covid-19 — em geral, pessoas mais velhas, pessoas com obesidade e pessoas com pele mais escura (incluindo pessoas negras e do sul da Ásia).


Pode ser que uma deficiência seja o motivo pelo qual esses grupos correm maior risco, ou pode haver outros fatores de saúde e ambientais que levam à queda nos níveis de vitamina D e maior suscetibilidade ao vírus.


Os níveis da vitamina também podem cair como consequência da doença, em vez de serem a sua causa.


Só seremos capazes de isolar a vitamina D como causa realizando testes controlados randomizados conduzidos adequadamente, como o que está sendo executado no momento na Queen Mary's University, no Reino Unido.

Estudos na Espanha


Um artigo da Universidade de Barcelona chamou atenção, alegando ter conduzido exatamente esse tipo de estudo.


Ele sugere que a vitamina D tem um sucesso impressionante, com uma redução de 80% nas admissões em terapia intensiva e uma redução de 60% nas mortes de covid.


Esse resultado foi amplamente compartilhado pela internet.


Mas, desde então, o estudo foi retirado do ar por "preocupações sobre a descrição da pesquisa". O periódico científico The Lancet, que o publicou originalmente, está agora conduzindo uma investigação sobre o artigo.


O problema é que essa retratação não foi compartilhada da mesma forma que o artigo original.


No estudo, a vitamina D foi administrada a todos os paciente em enfermarias, em vez de aleatoriamente para indivíduos, como deveria ter sido feito em uma pesqusa rigorosa.

Legenda do vídeo,

Chefes de UTIs ligam ‘kit covid’ a maior risco de morte no Brasil


E os pacientes de covid-19 estudaos que morreram já tinham níveis radicalmente diferentes da vitamina antes do tratamento, sugerindo que eles estavam mais gravemente doentes antes mesmo de tomar a vitamina.


Ainda assim, a ideia de que a vitamina D pode ser um tratamento eficaz contra a covid-19 ganhou inúmeros adeptos.


O parlamentar conservador David Davis, que convocou o Parlamento para que a suplementação de vitamina D seja introduzida nos hospitais, disse à BBC que, apesar da retração, ele acreditava que o estudo ainda mostrava que a vitamina D era importante e argumentou que o governo deveria financiar mais pesquisas sobre o assunto.


Aurora Baluja, uma anestesiologista e médica de cuidados intensivos na Espanha, que revisou o estudo de Barcelona para o The Lancet, disse que o tipo de efeito "extremo" encontrado no artigo "nunca foi encontrado" em um ensaio clínico randomizado.


Ela disse que, embora a deficiência de vitamina D fosse um "fator de risco bem estabelecido" entre as pessoas que morrem na terapia intensiva, "a suplementação de vitamina D sozinha sempre falhou em reduzir o risco desses pacientes".


Baluja explica que a deficiência é frequentemente causada por algo muito mais profundo, como desnutrição ou insuficiência renal.


Assim, não seria a deficiência de vitamina D que estaria causando a morte dos pacientes.

Qual é o problema?


Quando algumas descobertas se encaixam na visão de mundo das pessoas — por exemplo, que "as coisas da natureza não podem fazer mal", explicou o professor Sander Van der Linden, psicólogo social da Universidade de Cambridge —, a probabilidade de serem compartilhadas tende a ser maior.


Na internet, há diversos grupos debatendo sobre a covid-19. Alguns advogam medicamentos naturais e medicina alternativa; outros são ideologicamente contra a vacinação. Algumas vezes esses grupos distintos acabam se unindo em torno de uma ideia que se encaixa em ambas crenças.


As pessoas antivacinas estão "profundamente conectadas a outros tópicos — religião, ervas e medicina alternativa, a comunidade natural", disse o professor Van der Linden. Com isso, mensagens do tipo "você não precisa de uma vacina, você pode apenas tomar vitamina D" acabam se espalhando por esses grupos, sem que sejam claramente identificadas como partes de uma campanha contra vacinas.


A vitamina D é relativamente segura (embora altas doses possam causar cálculos renais), portanto, esse tipo de conselho pode não parecer o mais nocivo entre as informações incorretas que circulam pela internet.


O perigo, explica o professor Van der Linden, é quando as pessoas sugerem que o suplemento é uma cura milagrosa e deve ser usado como alternativa a vacinas, máscaras e distanciamento social.







Autor: Rachel Schraer
Repórter de SaúdeFonte: BBC
Sítio Online da Publicação: BBC News
Data: 05/04/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-56639392

quarta-feira, 31 de março de 2021

Demanda por energia limpa ameaça uma das regiões mais ricas e férteis na Amazônia



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O boom de investidores chineses em 2019 e 2020 desencadeou o caos na extração de Pau-de-balsa no Equador


Poucos meses se passaram desde que de repente, como se nada tivesse acontecido, a chamada febre do Pau-de-balsa arrefeceu no Equador. Mas as consequências de dois anos de extração frenética dessa madeira são visíveis e preocupantes.


A demanda disparou porque investidores chineses, incentivados por um subsídio estatal, chegaram com muito dinheiro em busca de toneladas dessa madeira, usada na fabricação de pás para geradores eólicos.


A urgência em conseguir a matéria-prima e a falta de controle do governo equatoriano diante das restrições devido à pandemia contribuíram para desencadear o caos, dentre outros territórios, na província de Pastaza, uma das áreas de maior riqueza natural da Amazônia e onde se concentram dezenas de milhares de hectares desta espécie.


O boom do Pau-de-balsa encheu o bolso de muitos, mas também deixou problemas para trás.


A extração frenética dos últimos meses ameaçou o habitat de animais protegidos, aumentou a extração ilegal, precarizou o trabalho e dividiu as comunidades indígenas, afirmam diferentes fontes consultadas pela BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.


"Foi um desastre", descreve Pablo Balarezo, coordenador de economia florestal da Fundação Pachamama, no Equador.


As comunidades indígenas da região, proprietárias ancestrais de muitos dos hectares onde se extrai o Pau-de-balsa, ativistas e empresários pedem ao Estado que intervenha, regularize mais o setor e o proteja dos anos que alguns temem ser irreversíveis.


O Ministério do Meio Ambiente e Águas do Equador realizou operações para interceptar o deslocamento e a exploração ilegal de Pau-de-balsa, mas várias associações acreditam que o esforço não tem sido suficiente. A BBC News Mundo entrou em contato com o ministério, mas não havia recebido resposta até o momento da publicação desta reportagem.



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A falta de controle do Estado durante a pandemia e o aumento da demanda causaram a febre do Pau-de-balsa ao longo do Rio Pastaza, na Amazônia equatoriana

O que é o Pau-de-balsa e para que é usado


O Pau-de-Balsa é uma árvore que cresce nas florestas tropicais, em uma altitude entre 300 e 1.000 metros.


"Na América do Sul, você o encontra na Cordilheira dos Andes, na Amazônia, no Peru, na Colômbia, na Venezuela e no Panamá. Ao norte, você encontra o Pau-de-Balsa na Costa Rica e também no sul do México", diz Ricardo Ortiz, que se dedica à exportação de Pau-de-Balsa há mais de 25 anos.


Do Pau-de-Balsa se obtém uma madeira leve, e cada árvore oferece um rendimento considerável, uma vez que pode chegar a ter entre 25 e 30 metros de altura. Em geral, ela morre aos 6 ou 7 anos, mas "para tirar o máximo proveito, é derrubada aos 3 ou 4 anos, quando sua madeira atinge a melhor qualidade", explica Balarezo à BBC News Mundo.


A madeira do Pau-de-Balsa é usada principalmente para fabricar pás de geradores de energia eólica.



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O Pau-de-balsa fornece uma matéria-prima leve e forte para a construção de pás de geradores de energia eólica


Ortiz conta que à medida que os países mais ricos buscam fontes renováveis ​​de energia, a demanda por Pau-de-Balsa aumentou no Equador.


"Na última década, ela vem crescendo, mas nada se compara ao que aconteceu nos últimos dois anos, desde que a China entrou com força no mercado. O ano de 2020 foi um frenesi. Ficou fora de controle", afirma ele à BBC News Mundo.

Febre do Pau-de-balsa


Como diz Ortiz, nos últimos anos a China liberou bilhões em subsídios para incentivar a instalação de painéis solares e geradores de energia eólica em todo o país.


Há muitos geradores eólicos a serem fabricados — e, para isso, é necessário muito Pau-de-Balsa.


O Equador é o maior vendedor de Pau-de-Balsa do mundo. Ortiz estima que o país exporte 75% do total dessa madeira para todo o planeta. China, Estados Unidos e Europa são os principais compradores.


"Em 2019 e 2020, eu vi algo sem precedentes nos 25 anos que estou neste negócio. Os chineses vieram com muito dinheiro para comprar todo o Pau-de-Balsa que pudessem. O preço da matéria-prima triplicou. Muita gente pobre que vive nas áreas de maior concentração da espécie ganhou muito dinheiro", relata Ortiz.



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O preço do Pau-de-balsa triplicou durante a febre de extração de 2019 e 2020


O "frenesi" aumentou ainda mais no segundo trimestre de 2020, quando os lockdowns impostos pela pandemia de covid-19 foram relaxados, a China anunciou a redução dos subsídios e os investidores correram mais do que nunca para se apossar da madeira.


O empresário explica que compradores dos Estados Unidos e da Europa adquirem madeira certificada e cumprem com mais rigor os contratos. Os chineses, diz ele, trabalham mais em ondas e operam de forma um pouco "mais desorganizada", o que também contribuiu para a enxurrada de demanda.


A necessidade de Pau-de-Balsa e seus lucros inegáveis ​​atraíram muito mais participantes para o negócio do que as empresas tradicionais que já atuavam nele.


As comunidades indígenas também tiram uma renda, e "as máfias fora do Equador atuam como intermediárias e lavam dinheiro para explorar o Pau-de-Balsa", denuncia Balarezo, da Fundação Pachamama.


Por um pedaço de cerca de um metro e meio dessa madeira, se chegou a pagar entre 10 e 12 dólares.


"Juntou tudo. A demanda, os lucros e a falta de controle do governo devido às restrições da pandemia. Ficou uma bagunça", acrescenta Balarezo.

Um problema ambiental... e social


A extração do Pau-de-Balsa por si só não é um problema grave de desmatamento. Trata-se de uma espécie primária e cresce tão rápido que, onde há uma árvore derrubada, volta a crescer outra que em cerca de quatro anos chega a 20 metros.


A "preocupação", concordam empresários, representantes indígenas e ambientalistas, é quando sai do controle sem fiscalização estatal suficiente.


"Com o boom, o Pau-de-Balsa foi explorado sem a técnica necessária. Se desperdiçou madeira, e por acidente e desconhecimento, foram derrubadas outras árvores que, sim, são críticas", explica Balarezo.


Muitas das áreas de Pau-de-Balsa são habitats de animais protegidos, como onças, tartarugas, várias espécies de pássaros e outros mamíferos.


"O desmatamento sem controle ameaça habitats muito delicados. O ecossistema de Pastaza é um dos mais ricos e conservados do Equador. Estamos brincando com fogo", alerta Balarezo.



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Balarezo afirma que a extração indiscriminada de Pau-de-balsa compromete um dos mais ricos e diversos ecossistemas do Equador


O especialista adverte ainda que as máfias camuflam madeiras nobres de outras árvores em caminhões carregados de Pau-de-Balsa.


"Foi algo que documentei e queria denunciar em fevereiro de 2020, mas eles me viram e me ameaçaram com uma arma no peito. Tive que apagar as fotos. Essa gente é muito perigosa."

'Divisão e decomposição dentro das comunidades indígenas'


A febre do Pau-de-Balsa tem gerado conflitos e divisões entre as comunidades indígenas que povoam a bacia do Rio Pastaza.


O negócio rendeu dinheiro, "e muitas comunidades indígenas muito pobres, donas do território, estão aproveitando isso", diz Ortiz.


Mas o dinheiro "corrompe", e alguns o estão usando "mal", gerando problemas de dependência química, alcoolismo e "decomposição" social.



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À medida que o mundo migra para fontes de energia mais limpas, as áreas que fornecem matéria-prima sofrem com problemas ambientais e sociais


"Muitos jovens indígenas, com o dinheiro do Pau-de-Balsa, vão às cidades gastar em festa. Não é que o capital do extrativismo esteja sendo utilizado com um bom fundo social", afirma Andrés Tapia, da equipe de comunicação da Confederação das Nacionalidades Indígenas da Amazônia Equatoriana (Confeniae).


No entanto, não é isso que mais preocupa ele.


"Nossa principal ameaça é a divisão social. Gerou muita polarização entre aqueles que queriam trabalhar por necessidade e os que se opunham ao extrativismo. Muitos se manifestaram contra e proibiram a extração, mas outros, por conta própria, ignoraram esses pronunciamentos", conta Tapia.

Fonte de renda, mas também de precarização


Balarezo e Tapia reconhecem que o boom de Pau-de-Balsa foi uma importante fonte de renda para muitas famílias, mas também admitem que levou à precarização do trabalho.


"Em muitas ocasiões, as negociações são feitas diretamente com as comunidades indígenas, e estas, por não terem alternativas, aceitam condições injustas", relata Balarezo.


"É verdade que pagam a eles pela madeira, mas se você levar em conta todo o esforço de mão de obra, o que eles recebem não é justo. Os intermediários que levam o Pau-de-Balsa para cidades como Guayaquil e Quevedo ficam com a maior parte", acrescenta.



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Setores da comunidade indígena extraem a madeira do Pau-de-balsa, que é transportada por intermediários até as grandes cidades para ser exportada


"Meus trabalhadores são formalizados, mas a extração em massa no oriente pelos indígenas não está regularizada de forma alguma", denuncia Ortiz.


A falta de controle e a penetração de intermediários de cidades grandes em um ano de pandemia também fizeram com que o novo coronavírus se propagasse fatalmente entre as cidades amazônicas, acrescenta Tapia.

Oportunidade econômica, mas se o Estado intervir


Em meio ao que muitos consideram uma crise ambiental e social, as fontes consultadas pela BBC News Mundo concordam que, sendo controlada e administrada pelas autoridades, a exploração de Pau-de-Balsa pode ser uma importante oportunidade econômica.


É verdade que o boom de 2020 já passou, mas por isso mesmo acredita-se que seja o momento ideal para planejar essa atividade.


As principais potências estão buscando obter fontes de energia renováveis ​​e reduzir progressivamente a sua pegada de carbono.



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Com investimento e controle, as fontes consultadas pela BBC News Mundo acreditam que a exportação de Pau-de-balsa é uma grande oportunidade econômica para o país


"Diante de tanta demanda, uma árvore como o Pau-de-Balsa, que se regenera rápido, pode oferecer muita rentabilidade sem comprometer gravemente o meio ambiente", sinaliza Ortiz.


"Se o Estado controlar e a extração de madeira for feita de forma sustentável e amigável, é uma grande oportunidade. Por isso, estamos tentando promover o Pau-de-Balsa amazônico em áreas degradadas e assim diminuir a pressão em territórios que sofreram muito", diz Balarezo.


Ortiz também pede mais investimentos em infraestrutura.


"A Europa e os Estados Unidos vêm comprando há muito tempo, mas não é que se tenha investido muito no país. É verdade que são necessários dezenas de milhões para plantar e construir, mas a rentabilidade poderia ser espetacular", afirma o empresário.





Autor: José Carlos Cueto
Fonte: BBC News Mundo
Sítio Online da Publicação: BBC News
Data: 27/03/2021
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-56359091

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

A fascinante descoberta da rede de 'estradas celestiais' que poderia revolucionar viagens espaciais



No futuro, as rodovias espaciais podem permitir viagens espaciais super-rápidas — Foto: Getty Images via BBC

Se você já teve o prazer de dirigir rápido em uma estrada vazia, imagine fazer o mesmo percorrendo uma via expressa no espaço.


Em um estudo recente, um grupo de astrônomos afirma ter descoberto uma rede de "rodovias celestiais" que permitiria que espaçonaves fossem enviadas a partes remotas do sistema solar a uma velocidade sem precedentes.


Os cálculos dos pesquisadores mostram que um asteroide pode viajar de Júpiter a Netuno em menos de uma década por meio dessas supervias.


Um objeto que viaja por um século por uma rodovia celestial poderia completar uma distância de 15 bilhões de quilômetros, o que equivale a 100 vezes a distância entre a Terra e o Sol.


Mas como funcionam essas estradas cósmicas e o que elas nos ensinam sobre o universo?



Interação entre a gravidade dos planetas forma arcos que se estendem ao longo dos coletores espaciais — Foto: NATAŠA TODOROVIĆ, DI WU, AARON J. ROSENGREN

Um corredor invisível

"Para simplificar, essas rodovias são produzidas pelos planetas", diz Aaron Rosengren, um dos autores do estudo e professor de engenharia mecânica e aeroespacial na Universidade da Califórnia, em San Diego, nos Estados Unidos.


Essas rotas expressas são formadas devido à atração gravitacional entre os planetas, criando assim um corredor invisível que se estende do cinturão de asteroides localizado entre as órbitas de Júpiter e Marte, para além de Urano.



Especialistas já sabiam que vias expressas existem no espaço, mas só agora descobriram que podem ser conectadas entre si, como um complexo sistema de estradas — Foto: Getty Images via BBC


Usando simulações de computador e analisando milhões de órbitas no sistema solar, os especialistas notaram que arcos são formados ao redor de cada planeta, que por sua vez formam o que eles chamam de "coletores espaciais".


Os arcos e coletores são produzidos pela interação da gravidade entre dois objetos que estão em órbita.


Dessa forma, um "corredor gravitacional" é gerado, como descreve Shane Ross, um engenheiro aeroespacial da Virginia Tech University, em um artigo no portal Live Science.


Este vídeo mostra uma simulação de como os arcos são formados ao longo de um coletor espacial durante um período de 120 anos.


Embora sejam invisíveis, as simulações de computador mostraram como a trajetória de partículas que se aproximaram de planetas como Júpiter, Urano ou Netuno foi afetada ao entrar nos coletores.


Além disso, eles observaram que "cada planeta gera esses arcos e todas essas estruturas podem interagir umas com as outras para produzir rotas de transporte complexas", explica Rosengren.


Os cientistas já sabiam que cada planeta pode formar seu próprio "circuito de estradas celestiais", mas só agora descobriram que essas rotas podem se cruzar com as de outros planetas e, assim, formar uma rede mais complexa.


A grande rodovia de Júpiter


O maior número de rodovias detectadas pelos pesquisadores foi encontrado na área para onde influem as forças gravitacionais de Júpiter, o maior planeta do sistema solar.



Maior número de rodovias celestes foi encontrado em Júpiter — Foto: NASA/JPL/UNIVERSIDADE DO ARIZONA


Coletores de Júpiter poderia ser a explicação para o comportamento de cometas e asteroides que tendem a pairar em torno do planeta antes de filmar fora de órbita.


"É incrível como os coletores que emanam de Júpiter podem penetrar no sistema solar", escreve Rosengren no Live Science.


O passo seguinte

Entender como essa rede de rodovias funciona, incluindo aquelas próximas à Terra, pode ser a chave para usá-las como rotas rápidas para viagens espaciais que podem ir mais longe em menos tempo.


Além disso, explicam os autores do estudo, pode ser útil monitorar a trajetória de objetos que podem colidir com nosso planeta, bem como monitorar o número crescente de satélites artificiais que flutuam entre a Terra e a Lua.






Autor: BBC News Brasil
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 08/02/21
Publicação Original: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2021/02/08/a-fascinante-descoberta-da-rede-de-estradas-celestiais-que-poderia-revolucionar-viagens-espaciais.ghtml

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Proxima centauri b: O intrigante sinal que chegou do sistema estelar mais perto do Sol



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Acredita-se que Proxima Centauri b seja um exoplaneta com superfície rochosa e fontes de água líquida


Cientistas investigam uma estranha emissão de ondas que pode ter chegado à Terra a partir de um planeta de fora do Sistema Solar e avaliam se ela poderia ser considerada um indício de vida extraterrestre.


Especialistas dizem que há indícios de que o sinal teria partido de Proxima Centauri b, o exoplaneta que orbita a estrela Proxima Centauri, a mais próxima do Sol, em uma região considerada potencialmente habitável.


Os astrônomos creem que Proxima Centauri b, planeta a 4,2 anos-luz da Terra, tenha uma superfície rochosa e fontes de água líquida. Algumas medições também indicam que poderia ter uma atmosfera, como ocorre na Terra.


A Nasa (agência espacial americana) classifica Proxima Centauri b, descoberto em 2016, como um exoplaneta ligeiramente maior do que a Terra (com massa 27% maior).


As ondas foram detectadas em 2019 por um radiotelescópio gigante instalado na Austrália e, desde então, grupos diferentes de cientistas tentam entender a descoberta.


Entre as hipóteses avaliadas está a de que a origem das ondas esteja ligada a alguma forma de vida fora da Terra.


"Foi um sinal que apareceu uma vez e não voltou a se repetir. Tinha uma frequência diferente da que emitem os dispositivos terrestres como satélites e espaçonaves", explica à BBC Mundo (serviço em espanhol da BBC) a pesquisadora Mar Gómez, doutora em Ciências Físicas pela Universidade Complutense de Madrid.

A detecção das ondas


O Observatório Parkes está localizado no Estado de Nova Gales do Sul, na Austrália. É chamado de "O Prato" por conta do radiotelescópio que funciona ali há 50 anos. Foi ele que detectou o sinal estranho.


Ele já foi usado em várias missões espaciais e compartilha informações com diferentes organizações, como a Nasa.



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O estranho sinal de rádio foi detectado por radiotelescópio na Austrália


"Estamos falando de um telescópio muito importante. Temos que lembrar que ele foi utilizado para receber imagens da aterrissagem da Apolo 12 na Lua", comenta Gómez.


A pesquisadora acrescenta que o observatório também colabora com outras missões como os projetos de busca por inteligência extraterrestre (SETI, na sigla em inglês).


A estranha emissão de ondas chamou a atenção dos cientistas.


"Como no espaço não há som, a única forma que temos para nos comunicarmos, assim dizendo, são ondas de rádio. Nós podemos emiti-las ao espaço exterior. Talvez em outro planeta ou sistema estelar exista uma forma de vida que tente se comunicar dessa forma", afirma.


O projeto Breakthrough Listen, que se dedica à observação e à análise da busca de sinais de vida no Universo, também investiga os sinais.


Trata-se de um fundo de US$ 100 milhões (R$ 520 milhões) que contou com o apoio do astrofísico Stephen Hawking na época de seu lançamento (2015).


Segundo o diário britânico The Guardian, o Breakthrough Listen publicará um relatório sobre os sinais de rádio detectados na Austrália nos próximos meses.



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O telescópio gigante está localizado no sudeste da Austrália


Gómez indica que até agora não há muitas informações na comunidade científica sobre os resultados das pesquisas.

Procura por vida extraterrestre


Há cada vez mais cientistas que defendem uma busca mais séria por vida extraterrestre.


Pallab Ghosh, jornalista de ciência da BBC, relatou em fevereiro de 2020 que esse foi um dos pedidos feitos em uma reunião da Associação Americana para o Avanço da Ciência, em Seattle.


Naquela ocasião, o diretor do Observatório Nacional de Radioastronomia dos EUA, Anthony Beasley, afirmou que deveria haver mais apoio do governo americano para esse campo de pesquisas, rejeitado por décadas pelos financiadores dos projetos governamentais.


A Nasa também tem seus projetos sobre isso e foi além da observação astronômica. Em julho a agência lançou a missão do robô explorador Perseverance para buscar vestígios de vida em Marte.


Esta é a primeira missão da Nasa que procura diretamente "assinaturas" ou sinais biológicos de vida desde a missão Viking, na década de 1970.



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O Perseverance explorará Marte por ao menos um ano marciano (687 dias terrestres)


Justamente nessa época se enviou o primeiro sinal da Terra para tentar contactar possíveis civilizações no espaço.


Gómez explica que todos esses projetos são relevates porque, ainda que se encontre somente bactérias ou micróbios em outros planetas, pode ser uma das notícias científicas mais importantes da história.


"Essa é nossa maior inquietação. O fato de poder existir qualquer forma de vida e a encontrarmos vai nos permitir conhecer nossas próprias origens e como a vida pode se desenvolver. Basicamente é a pergunta final de nossa existência", conclui.







Autor: Boris Miranda BBC News Mundo
Fonte: BBC News
Sítio Online da Publicação: BBC News
Data: 01/01/21
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/geral-55498244

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Por que nosso corpo não produz vitaminas suficientes (e por que isso é perigoso)



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A expedição rumo a Califórnia demorou meses e os marinheiros começaram a sofrer um mal conhecimdo como "a horrível doença dos navios"


No início do século 17, o frei espanhol Antonio de la Ascensión viveu um inferno e pensou ter testemunhado um milagre.


Ele havia sido nomeado cosmógrafo de uma expedição marítima que viria a encontrar a Califórnia, partindo do porto de Acapulco em maio de 1602. Algum tempo depois de zarpar, a tripulação começou a sofrer algo descrito como "a horrível doença dos navios".


De acordo com o boletim de viagem, eles tinham "manchas, uma inflamação na gengiva que os impedia de comer qualquer coisa, espinhas na pele e um inchaço nos joelhos que impossibilitava mover as pernas".


Tudo isso acompanhado de "uma dor universal, em todo o corpo". Os enfermos acabavam morrendo às vezes no meio de uma frase, enquanto conversavam, diz o texto.

"No navio, quando eu cheguei aqui, não se ouvia nada que não fossem gritos e exclamações para Nossa Senhora; e então ela, como uma piedosa mãe, sentiu pena daquela gente. E ela veio, felizmente, e nos dezenove dias em que o navio esteve aqui, todos recuperaram a saúde."


Ele descrevia um milagre: "Não havia tratamento, nem remédio de boticário, nem receita, nem remédio de médico, nem qualquer remédio humano", enfatizou Frei Antonio.


Mas o que houve foi uma descoberta acidental.


Um dos marinheiros que desembarcou para enterrar os falecidos viu uma fruta "que os nativos aqui chamam de xocohuitztales". Ele provou e gostou.


Poucos dias depois, após comer mais dessas espécies de peras com espinhos, ele percebeu que seus dentes não doíam tanto e que se sentia melhor. Então começou a dar os frutos aos companheiros.



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Agora sabemos que o remédio do qual os marinheiros precisavam era comida fresca


Hoje sabemos que os marinheiros sofriam de escorbuto, uma doença que era na época amargamente comum e profundamente misteriosa. Ninguém sabia o que a causava e, embora a experiência mostrasse aos marinheiros que os frutos traziam alívio, não se sabia por quê.


Hoje sabemos que a cura para esta e muitas outras doenças terríveis e fatais é simples: vitaminas.


Mas a descoberta das vitaminas era como um ato de fé que exigia, na época, que se acreditasse em algo que não podia ser visto. E entendê-las é ainda hoje uma tarefa difícil.

Descoberta


Parece haver um consenso coletivo sobre o quão revolucionária foi a descoberta da penicilina, mas o mesmo não se repete em relação ao enorme sofrimento que as vitaminas foram capazes de aliviar.


A história começa em meados do século 19, na época da revolução Pasteuriana, quando infecções microbianas eram vistas como possível explicação para todas as doenças.


Assim, os pesquisadores que procuravam a causa de enfermidades como o escorbuto ou o beribéri esperavam encontrar algo — um micróbio, um agente externo — e não a ausência de algo — uma deficiência nutricional, por exemplo.


Foram necessárias várias décadas e um enorme esforço conjunto de cientistas para se entender o que estava acontecendo.



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Só em 1928 o bioquímico húngaro Albert Szent-Gyorgyi descobriu que a cura para o escorbuto era a vitamina C


A descoberta foi um marco na medicina moderna: pela primeira vez na história aprendemos que as doenças e até a morte poderiam ser causadas não apenas por agentes infecciosos, mas pela simples ausência de uma única substância em nossa dieta, como uma vitamina.


A vitamina A, encontrada em laticínios, fígado e peixes, previne a cegueira e deformidades de crescimento.


A vitamina B1 em quantidade suficiente previne o beribéri, que de meados do século 19 até o início do século 20 foi uma das principais causas de morte na Ásia.


Até mesmo o "vampirismo", como às vezes é chamada a pelagra — que produz desejo por carne crua, sangue na boca, palidez e suscetibilidade ao sol, agressividade e insanidade — é fruto "apenas" da falta de vitamina B3.

São vitais, mas não as temos


Hoje sabemos que existem 13 vitaminas fundamentais à vida humana e as denominamos com as letras A, B, C, D, E e K. O chamado complexo B inclui 8 vitaminas.


Mas por que nossos corpos não conseguem produzir quase nenhuma delas?


Os especialistas acreditam que as primeiras formas de vida, aquelas que existiam há cerca de 4 bilhões de anos, eram capazes produzi-las por conta própria.


Com o passar do tempo, algumas espécies tornaram-se capazes de fabricá-las, como as plantas, que produzem vitamina C.


Outras espécies, não só a humana, perderam essa habilidade.



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As plantas se tornaram "fábricas" de vitaminas.


Os primatas, assim como os porcos-da-Índia, morcegos e pássaros, por exemplo, não podem produzir vitamina C. Isso acontece apesar de termos em nosso DNA todos os genes usados pelos vertebrados que conseguem fabricá-la.


Pesquisas recentes revelam que, à medida que os animais — incluindo nós mesmos — começaram a consumir frutas e folhas que forneciam toda a vitamina C de que precisavam, eles foram parando de produzi-la.


Assim, as espécies passaram a depender umas das outras, criando o que os cientistas chamam de "tráfego de vitaminas".

Duas exceções


No entanto, nós mantivemos a capacidade de produzir duas das 13 vitaminas. Uma delas é a vitamina D, produzida pelas células da pele quando a luz solar incide sobre elas.


É difícil, mas não impossível, obter vitamina D em quantidade suficiente por meio da alimentação.



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Tudo que você precisa é de alguns raios de sol para produzir vitamina D


A outra é a vitamina B12. Neste caso, mais precisamente, ela não é produzida por nossos corpos, mas sim por bactérias.


Essas bactérias vivem em nossos intestinos mas, infelizmente, elas se localizam na parte final do trato digestivo, onde os nutrientes não podem mais ser absorvidos pelo corpo.


Os coelhos têm esse mesmo problema e o resolvem comendo as próprias fezes.


Nós, humanos, preferimos obter a vitamina B12 consumindo outras coisas, como carne bovina. Nestes animais, as bactérias se localizam na parte do intestino onde ainda podem ser absorvidas pelo organismo.

Uma ideia duvidosa


Os alimentos são uma maneira simples e barata de acabar com o sofrimento de milhões de pessoas em todo o mundo.


Uma dieta balanceada, com equilíbrio entre frutas, vegetais, grãos e gorduras, pode fornecer as quantidades (muito pequenas) de vitaminas necessárias para uma boa saúde.


Apenas em casos especiais, os médicos recomendam tomar doses mais altas de vitaminas, como na gravidez, quando um suplemento de ácido fólico, por exemplo, ajuda a prevenir síndromes congênitas em bebês.


Mas, há 50 anos, surgiria alguém que iria transformar a percepção do mundo sobre as vitaminas. Alguém tão poderoso que seria capaz de tirá-las dos consultórios médicos e as levaria para milhões de casas e estabelecimentos comerciais.


Esta pessoa era Linus Pauling, uma superestrela do mundo científico, considerado por Albert Einstein um gênio.



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Linus Pauling é uma "superestrela" científica


Ele ganhou dois prêmios Nobel individuais, um de Química e outro da Paz. Além disso, era descrito como charmoso e carismático. Parecia que ele era capaz de transitar sem esforço de uma área da ciência para outra. Pauling tinha um conhecimento enciclopédico de química, física, biologia e medicina.


No final dos anos 1960, este grande homem teve uma grande ideia. Pauling se convenceu de que as vitaminas não só podiam prevenir doenças causadas por deficiência, mas também fazer algo muito maior.


Ele acreditava que as vitaminas tinham o poder de prevenir doenças que nada tinham a ver com deficiência, mas que ameaçavam a todos nós, como o câncer e problemas cardíacos. Mais do que isso, Pauling dizia que elas poderiam até retardar o envelhecimento.


O segredo, segundo Pauling, era ingeri-las em grandes doses.


Quando ele trouxe esta mensagem ao mundo, o público adorou.


Sua perspectiva acabou inspirando uma geração de "gurus da saúde", que passaram a aconselhar a ingestão de altas doses diárias de vitaminas. Assim, uma enorme indústria foi criada.



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Suplementos, na grande maioria dos casos, não são necessários: a natureza nos dá o que precisamos.


A mensagem dos "gurus" era simples.


Se a quantidade de vitamina C necessária para se combater o escorbuto fosse de 10 miligramas e pudesse ser encontrada em um pedaço de laranja, então o equivalente a mais de 100 laranjas, e mais de 250 vezes a dose diária recomendada, seria ainda melhor porque isso impediria que se contraísse o resfriado comum.


Essa tese, especialmente, acabou se tornando uma "verdade científica" muito popular e persistente, apesar de um conjunto esmagador de evidências dizer que, para a maioria das pessoas, tomar altas doses de vitamina C para prevenir resfriados nada mais é que um desperdício.


O problema é que, em outros casos, estudos mostram que tomar altas doses de vitaminas pode ter efeitos mais desastrosos do que apenas perder dinheiro.


Embora seja possível que um dia se prove que os suplementos vitamínicos em altas doses protejam contra algumas doenças, até o momento as evidências para apoiar essas alegações permanecem bastante vagas.


E à medida que descobrimos mais sobre algumas vitaminas, fica claro que em grandes doses elas podem ter consequências inesperadas e às vezes perigosas.


Até que entendamos mais sobre esses poderosos produtos químicos, a maioria dos médicos recomenda o de costume: dieta balanceada, exercícios e um pouco de sol.






Autor: Redação BBC News Mundo
Fonte: BBC News
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data: 17/12/20
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/curiosidades-55332992

quinta-feira, 21 de junho de 2018

'Competíamos para ver quem tinha mais químico nas mãos': O holandês que foi de entusiasta de agrotóxicos a pioneiro de orgânicos no Brasil


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Joop e Tini se conheceram no Brasil, mas ambos vieram de famílias grandes e ligadas à terra na Holanda; juntos, descobriram paixão por orgânicos

O holandês Joop Stoltenborg se lembra bem de quando o primeiro agrotóxico chegou ao sítio de sua família na Holanda, em 1955, quando tinha 15 anos. Era um herbicida que deixava a pele amarelada.

"Nós ficamos muito felizes. Arrancar o mato à mão demorava dias e pulverizando, demorávamos apenas algumas horas. Aos domingos, quando eu encontrava a galera, a gente olhava quem tinha as mãos mais amarelas de herbicida. Quanto mais amarelo, mais moderna e pop era a pessoa", disse à BBC News Brasil.

Quando estava com cerca de 40 anos, Joop era, em suas próprias palavras, um "especialista em veneno". "Importei livros com descrições sobre centenas de agrotóxicos: o que era bom para qual praga, a dosagem e o grau de toxicidade de cada um."

Hoje, aos 79 anos, o holandês é um dos pioneiros da agricultura orgânica no Brasil - seu sítio é o sétimo certificado como orgânico no país - e um forte opositor dos agrotóxicos.

Em uma palestra no evento Food Forum, em São Paulo, no último mês de março, ele começou colocando cuidadosamente uma máscara e borrifando veneno em um prato de salada fresca.

"Aqui eu usei só a dose permitida, dentro das normas. Agora quero ver quem quer comer essa comida", desafia.

O Brasil é um dos maiores consumidores de agrotóxicos no mundo, e permite o uso de dezenas de substâncias que já foram proibidas em outros países.

Nas últimas semanas, deputados tentaram algumas vezes votar, em comissão especial, o Projeto de Lei (PL) 6.299/2002, que pretende reformular a lei atual sobre registro, fiscalização e controle de agrotóxicos. A votação na Comissão Especial da Câmara dos Deputados foi adiada quatro vezes e deve ser concluída nesta quarta-feira.

O projeto, proposto originalmente pelo ex-senador e atual ministro da Agricultura Blairo Maggi (PP-MT) e cujo relator é o deputado Luiz Nishimori (PR-PR), também quer concentrar no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) a avaliação toxicológica das substâncias e aprovação do seu uso.

Atualmente, os agrotóxicos precisam ter uma avaliação toxicológica feita pela Anvisa, uma avaliação ambiental feita pelo Ibama e uma avaliação agronômica feita pelo Ministério.


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"Quem não gosta de agrotóxicos fica criativo", diz agricultor holandês sobre necessidade de encontrar técnicas alternativas de cultivo

Pela nova lei, a Anvisa e o Ibama ficariam fora do processo e as substâncias seriam integralmente avaliadas por uma comissão técnica que incluiria representantes dos ministérios da Agricultura, da Saúde, do Meio Ambiente, da Ciência, Tecnologia e Inovação e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

O debate vem causando polêmica entre ruralistas, a favor do PL, e órgãos como Anvisa, Ibama e Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), que se posicionam contra.

Os produtores reclamam da demora na liberação dos agrotóxicos e dizem que, quando o governo autoriza a aplicação, os produtos já estão obsoletos. Opositores, por sua vez, afirmam que a nova medida favoreceria apenas os fabricantes dos químicos, facilitando a entrada de produtos possivelmente danosos à saúde e ao ambiente no mercado.

"Eu não estou tão preocupado com a vinda de novos produtos porque acredito que a tendência em todo mundo é que eles sejam cada vez menos tóxicos", contemporiza Joop.

"Mas o Brasil precisa retirar os agrotóxicos que estão no mercado. Ninguém quer comer comida com veneno, mas as pessoas estão comendo."
Histórias de contaminação

A trajetória de Joop - de entusiasta do uso de químicos na agricultura a ativista antiagrotóxicos - incluiu um período trabalhando em plantações mecanizadas no Canadá e uma viagem de milhares de quilômetros até o Brasil, em um Fusca, com um amigo.

"Viajando pelos países da América do Sul, deu pra ver que o Brasil estava crescendo. Era 1965, e aqui havia muito mais máquinas, estradas, caminhões, a indústria estava começando. Deu para ver um ânimo diferente dos outros países."

A viagem terminou em Holambra 2, colônia holandesa no interior de São Paulo, na casa de um tio que já morava no país. Foi onde Joop conheceu Tini, também holandesa, de família grande e ligada à terra.

Juntos, eles tiveram três filhas e duas netas, e criaram o Sítio A Boa Terra que, em 1981, se tornou o sétimo produtor de orgânicos certificado pela Associação de Certificação Instituto Biodinâmico, a maior do país.


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Na Holanda, agrotóxicos começaram a ser usados por pequenos produtores nos anos 1950, quando Joop tinha 15 anos: "Ficamos muito felizes, era o que havia de melhor"

"Decidimos parar de usar agrotóxicos depois que tivemos vários acidentes. O irmão de Tini foi intoxicado pelo vazamento de uma máquina de pulverizar, e o veneno penetrou nos rins. Ele ficou muitos meses na cama e até hoje sofre com problemas renais", afirma.

"Uma vez, estávamos plantando bulbos de flores e colocando um agrotóxico em cima dos bulbos para matar pragas. Atrás de nós vinha um funcionário com um burro, que caiu morto no fim do dia. Tinha cheirado a substância o dia inteiro. Também já tivemos que levar três funcionários para o hospital por intoxicação grave depois de usarmos um veneno misturado às sementes de milho. Tudo isso mexeu muito comigo."

A transição, no entanto, levou cerca de 10 anos, e precisou de uma boa dose de "criatividade", segundo o agricultor.
Pedido de ajuda na internet

Inicialmente, Joop e Tini tentaram - e conseguiram - diminuir o uso de agrotóxicos seguindo uma estratégia chamada manejo integrado de pragas, em que aplicavam agrotóxicos em um ponto específico da germinação.

Isso permitiu, diz o holandês, que eles passassem a aplicar apenas 30% da quantidade de herbicida normalmente recomendada.

"Nessa época também ouvimos falar do uso do lança-chamas para o controle de ervas daninhas, por exemplo, na plantação de cenouras. Pedimos ajuda na internet para saber como usar e uma pessoa da Escandinávia até nos mandou um livro pelo correio."

"Você normalmente semeia a cenoura, e ela começa a nascer em oito dias. Mas 80% das ervas daninhas crescem antes da cenoura. Aí no sexto dia, por exemplo, você passa uma chama que mata essas ervas e depois de uns dias nasce a cenoura tranquilamente, sem mato", descreve.

Hoje, o sítio da família de origem holandesa também produz tomates em estufa usando apenas produtos com certificado orgânico e faz rotação de culturas. A monocultura, segundo especialistas, está associada à necessidade maior de agrotóxicos, já que altera o ecossistema e favorece o surgimento de pragas e insetos.


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Joop saiu do Canadá para o Brasil, com um amigo, em um Fusca; aqui, foi recebido por tio que já trabalhava na agricultura

"Além de plantarmos vários produtos, também deixamos crescer um pouco de mato. Na agricultura convencional existe um fanatismo de combater até o último mato, é quase uma doença."

"Mas se você deixa um pouco, a diversidade de plantas atrai uma diversidade de insetos. E aí você garante que os inimigos naturais das pragas também estejam lá. Se você tem pulgões, terá joaninhas que comem os pulgões", explica.

Ele admite, no entanto, que a produção é mais difícil sem agrotóxicos, e exige mais cuidados e investimento - coisa que muitos pequenos agricultores não estão aptos a fazer.

"É fácil de condenar quem ainda usa (os químicos), mas não é tão fácil de mudar. Eu entendo isso. Ainda falta apoio para investirmos na tecnologia de produzir orgânicos."
Desafio de manter e mudar hábitos de consumo

O setor de orgânicos movimenta mais de R$ 3 bilhões e cresce cerca de 20% a cada ano no Brasil, segundo o Organis - Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável. Cerca de 70% deste mercado corresponde a alimentos produzidos dessa forma e certificados por organismos credenciados no Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Os outros 30% correspondem a cosméticos, roupas, produtos de limpeza e outros.

Mas, apesar do crescimento, Joop diz que ainda é difícil para pequenos agricultores seguirem esse caminho.

Com 30 funcionários, o Sítio A Boa Terra produz couve-flor, brócolis, abobrinha, batata inglesa, batata doce, beterraba, cenoura, gengibre, inhame, mandioca, milho, pepino japonês, alho, quiabo, rabanete, tomate cereja, tomate e açafrão, além de folhas - diversos tipo de alface, almeirão, escarola, rúcula, couve-manteiga, espinafre, repolho e temperos em geral.

Semanalmente, eles enviam para assinantes uma cesta de produtos orgânicos que tem, além da sua colheita, produtos de parceiros. Mas a manutenção dos consumidores, ele diz, é um dos principais desafios.


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Sítio produz 30 variedades de orgânicos mas principal desafio é manter clientes fidelizados

"Temos muitos clientes entrando e saindo, mas os que permanecem ainda são poucos. As pessoas também questionam o preço, mas é preciso lembrar que na agricultura convencional, o produtor tem uma máquina que substitui 10, 20, 40 homens", afirma.

Como exemplo, ele explica que um hectare de batata pode ser cultivado por apenas uma pessoa na agricultura convencional. O manejo orgânico, no entanto, requer pelo menos oito.

"Aliás, todo mundo sabe que batata inglesa é o que mais precisa de agrotóxicos para produzir. Só que o Brasil tem raízes bem melhores que essa. A batata doce, em termos de nutrientes, é dez vezes melhor. Se o consumidor passar a consumir mais inhame, batata doce, cará, mandioca, mandioquinha, a mudança não fica impossível. O consumidor ajuda os agricultores a procurar outros produtos."




Autor: Camilla Costa
Fonte: BBC News Brasil
Sítio Online da Publicação: BBC News Brasil
Data de Publicação: 19/06/2018
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44233668