Mostrando postagens com marcador Fungo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fungo. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 22 de março de 2023

A infecção mortal por fungo que se espalha pelos EUA



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

O fungo Candida auris visto do microscópio
Há 8 horas


A infecção por fungos da espécie Candida auris está se espalhando rapidamente e de forma "alarmante", diz o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos.


Os casos nos EUA quase dobraram em 2021: passaram de 756 para 1.471, aponta o relatório da entidade.


Pessoas saudáveis não correm risco de ter complicações relacionadas ao fungo Candida auris, mas aquelas com sistema imunológico comprometido ou que usam dispositivos médicos, como ventiladores ou cateteres, podem sofrer com quadros mais graves ou até morrer.

Por esse motivo, o CDC classifica a situação como uma "ameaça urgente relacionada à resistência antimicrobiana". Muitos pacientes afetados estão em hospitais e lares de idosos.


Um em cada três indivíduos com infecções invasivas por Candida auris morre, mas pode ser difícil avaliar como esse fungo afeta pacientes vulneráveis, avalia a epidemiologista Meghan Lyman, principal autora do relatório do CDC.


A infecção foi relatada pela primeira vez nos EUA em 2016. O aumento mais rápido de casos aconteceu entre 2020 a 2021, de acordo com dados publicados no periódico especializado Annals of Internal Medicine.


Outro motivo de preocupação é o aumento de casos que se tornaram "resistentes às equinocandinas", que é a classe de antifúngicos mais recomendada para o tratamento da infecção por Candida auris.




O CDC atribui o aumento à falta de medidas de prevenção nas unidades de saúde e às melhoras nos serviços de acompanhamento e diagnóstico de casos.


Outro fator que parece ter contribuído, segundo a entidade, foi o estresse ao sistema de saúde relacionado à pandemia de covid-19.


Lyman disse ao canal CBS News que o aumento de acometidos pela doença "enfatiza a necessidade de vigilância contínua, além de expandir a capacidade de laboratórios, criar testes de diagnóstico mais rápidos e criar programas de prevenção e controle de infecções".



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

O fungo Candida auris tem virado uma das grandes preocupações na saúde pública

E no Brasil?


Outros países também têm visto um aumento nos casos de Candida auris.


No ano passado, a Organização Mundial da Saúde incluiu na lista de "patógenos fúngicos prioritários".


No Brasil, já foram identificados ao menos três surtos de maior importância relacionados a esse micro-organismo nos últimos anos.


O mais recente deles aconteceu entre dezembro de 2021 e março de 2022 em um hospital de Recife, em Pernambuco. À época, nove indivíduos foram acometidos.


O episódio foi alvo de um estudo publicado no início de 2023 por cientistas da Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz).


Segundo os pesquisadores, a Candida auris "requer uma grande vigilância por sua alta capacidade de formar colônias e biofilmes, o que contribui para a disseminação do fungo".


"A identificação rápida e precisa dessa espécie é essencial para gerenciar, controlar e prevenir infecções", concluem os especialistas.




Autor: BBC 
Fonte: BBC
Sítio Online da Publicação: BBC
Data: 22/03/2023
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c84dglv22dko

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

O fungo descoberto no Brasil que se espalha e já preocupa cientistas



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Fungos do gênero 'Sporothrix' estão no solo e em algumas plantas. Na natureza, eles ajudam a decompor o material orgânico


Até meados dos anos 1990, o fungo Sporothrix brasiliensis era um ilustre desconhecido. De uma hora para outra, porém, ele se tornou um problema de saúde pública.


Os primeiros casos de infecção por esse patógeno começaram a chamar a atenção no Rio de Janeiro, onde os pesquisadores observaram que a transmissão acontecia principalmente a partir de gatos de rua.

Logo, as infecções se espalharam para outros Estados brasileiros.


Alguns anos depois, a circulação do micro-organismo foi detectada na Argentina, Paraguai, Bolívia, Colômbia e Panamá, com casos pontuais registrados também na Inglaterra e nos Estados Unidos.


Mas o que explica esse espalhamento? Por trás dessa epidemia pouco conhecida, há um exemplo de como o desequilíbrio no meio ambiente pode levar a consequências surpreendentes e inesperadas.

De inofensivo a ameaça


Os fungos do gênero Sporothrix são conhecidos desde 1898. Eles aparecem principalmente no solo e em algumas plantas.


Assim como seus primos-irmãos que pertencem ao mesmo reino, essas espécies são fundamentais para decompor a matéria orgânica na natureza.


Em alguns casos raros, porém, esses micro-organismos podem causar doenças em seres humanos, conhecidas genericamente como esporotricose.


O Sporothrix brasiliensis, por exemplo, consegue se infiltrar nas camadas superficiais da pele. O patógeno coloniza esse tecido subcutâneo e provoca feridas.


O fungo também pode invadir o sistema linfático e afetar os olhos, o nariz e até os pulmões.


Como mencionado anteriormente, esses casos eram raros. Mas a frequência deles passou a chamar a atenção no final dos anos 1990 em algumas localidades do Rio de Janeiro.


Entre 1998 e 2001, pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz) diagnosticaram 178 casos de esporotricose.


“Dos 178 pacientes, 156 tinham algum contato em casa ou no trabalho com gatos que também estavam com essa enfermidade, e 97 levaram alguma mordida ou arranhão desses animais”, descreve o trabalho.


Essa foi uma das primeiras pistas a chamar a atenção dos especialistas: por algum motivo, os números da doença estavam crescendo aos poucos.


“Segundo as últimas estatísticas, já são mais de 12 mil casos em seres humanos desde então”, atualiza o médico Flavio Telles, da Sociedade Brasileira de Infectologia.


“E isso sem contar os incontáveis registros em gatos e cachorros”, acrescenta.




CRÉDITO,CDC/DIVULGAÇÃO
Legenda da foto,

Os ciclos de transmissão do Sporothrix brasiliensis envolvem uma intricada rede de contatos entre plantas, gatos, ratos, cachorros e seres humanos


Com o passar do tempo, os pesquisadores puderam entender melhor o ciclo da infecção não apenas entre as pessoas, mas também em animais que vivem próximos de nossas casas.


“Por algum motivo, o fungo se adaptou aos gatos. Neles, o patógeno causa uma doença disseminada, que provoca ferimentos no rosto e nas patas”, descreve Telles, que também é professor da Universidade Federal do Paraná.


“E um gato infectado transmite para outros, além de passar para cachorros e seres humanos.”


“Isso porque faz parte da biologia dos felinos as disputas físicas na busca por territórios, alimentos e acasalamentos, em que um animal morde e arranha o outro”, complementa.


Que fique claro: os gatos não são culpados pela esporotricose. Eles são tão vítimas quanto os cães e as pessoas — e a falta de políticas públicas para controlar a disseminação do fungo permitiu o espalhamento, reforçam as fontes ouvidas pela BBC News Brasil.


Mas por que essa situação se tornou um problema a partir do Rio de Janeiro durante os últimos anos?

Desequilíbrios ambientais





O microbiologista Marcio Lourenço Rodrigues, da FioCruz Paraná, esclarece que a ascensão do Sporothrix brasiliensis ainda é objeto de estudos e especulações.


“Por que ele já estava ali no solo e, de repente, virou uma emergência de saúde pública?”, questiona.


“Há uma associação direta entre esse fato e a ocupação do solo, o desmatamento e a construção de moradias. Ou seja, você passa a ter uma desorganização de ecossistemas que antes estavam em equilíbrio e isso expõe animais e seres humanos a novos patógenos”, completa.


Assim que o fungo chegou nos gatos silvestres e de rua, o “pulo” para os seres humanos foi relativamente fácil. Afinal, esses felinos são extremamente comuns em muitos bairros brasileiros.


Não raramente, as crianças brincam com eles e os adultos veem com bons olhos tê-los por perto, como uma maneira de controlar infestações de ratos.


Ou seja, todo o contexto de desequilíbrio ambiental somado à proximidade com os animais facilitou o contato com o fungo, que passou a causar a doença em milhares de pessoas nas últimas duas décadas.


Embora essas observações ajudem a explicar como o surto provocado pelo Sporothrix brasiliensis surgiu, elas não permitem entender como o problema se espalhou para outros lugares além do Rio de Janeiro.


Na Argentina, por exemplo, foram detectados 0,16 novos casos por mês de esporotricose felina em 2011. Já em 2019, essa taxa estava em 0,75 casos — um crescimento de mais de quatro vezes em menos de uma década.


“Os gatos transitam por um território e podem atravessar fronteiras secas de Estados ou até de países”, diz Telles.


“Além disso, podem ser transportados pelas pessoas que se mudam de bairro ou cidade”, complementa.


Outra possível explicação para o espalhamento do Sporothrix brasiliensis por vários países das Américas está nos ratos.


Alguns estudos mostram que esses roedores também podem carregar o fungo — e ir de um lugar a outro durante o transporte de alimentos por caminhões ou navios.


Num novo local, os ratos são caçados pelos gatos que moram ali. Os felinos, por sua vez, acabam se infectando e dão início a um novo ciclo de esporotricose.


Para completar, como esses animais carregam o fungo nas garras, na saliva e no sangue, podem transmiti-lo a seres humanos por meio de mordidas ou arranhões.



CRÉDITO,GETTY IMAGES
Legenda da foto,

Gatos de rua são uma das principais vítimas da esporotricose

O que fazer?


Em comparação com outros fungos do mesmo gênero, o Sporothrix brasiliensis é mais virulento (ou seja, se espalha com maior facilidade) e pode causar quadros infecciosos mais severos.


O tratamento também não é dos mais fáceis: nem sempre os remédios antifúngicos disponíveis funcionam de primeira.


A terapia medicamentosa costuma durar, em média, 187 dias, calcula um estudo recente da Universidade Federal do Rio Grande (FURG).


A chave, garantem outros artigos publicados nos últimos anos, está em fazer o diagnóstico correto e iniciar o tratamento o quanto antes.


Isso até evita a criação de resistência aos fármacos — esse, aliás, tem sido um problema frequente nos últimos anos com outras espécies de fungos, que estão se tornando cada vez mais difíceis de combater.


Para Rodrigues, casos como o do Sporothrix brasiliensis revelam como os desequilíbrios no meio ambiente causados pela ação humana têm consequências imprevisíveis.


“Há 15 anos, a esporotricose não era um problema. A alteração de ecossistemas propicia possíveis exposições a patógenos que, antes, não aconteciam”, diz


“E isso gera crises de saúde pública cada vez mais difíceis de enfrentar”, complementa.


Já Telles entende que o episódio reforça a importância de encarar a saúde humana, dos animais e do próprio planeta como uma coisa só.


“Falamos de uma questão complexa, que depende de uma abordagem global. Precisaremos de médicos, veterinários, epidemiologistas, microbiologistas, sanitaristas, ambientalistas e uma série de outros profissionais para lidar com essa e outras crises parecidas”, conclui.





Autor: André Biernath
Fonte: BBC News Brasil em Londres
Sítio Online da Publicação: BBC
Data: 09/02/2023
Publicação Original: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cx897pr3dr8o

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Fungo combate simultaneamente duas das principais ameaças à produtividade de bananeiras

A praga da broca e a doença da fusariose estão entre as mais importantes ameaças às bananeiras e seu controle ainda é um grande desafio para os produtores. A broca é um besouro vulgarmente conhecido como “moleque-da-bananeira” e provoca um efeito direto no rizoma (caule subterrâneo capaz de emitir ramos e raízes), enfraquecendo o sistema radicular da planta, reduzindo a absorção de nutrientes e causando perdas significativas de produtividade. Os insetos adultos também podem ter um papel na disseminação e aumento de infecções por patógenos de plantas. Já a fusariose, também conhecida como “mal-do-Panamá”, causa graves perdas de rendimento e se espalha rapidamente por vários meios.


Para mitigar seus efeitos é necessária uma combinação de práticas de manejo em plantios comerciais, mas é muito importante a busca por alternativas de controle biológico para complementar o manejo em campo. Um fungo ainda pouco estudado no Brasil e no mundo que cumpre esse papel foi recentemente isolado por um grupo que reúne cientistas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Bioversity International (Colômbia), com o apoio de pesquisadores da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA, regional Vale do Ribeira) e do Instituto Agronômico (IAC). O Beauveria caledonica foi encontrado na região de produção comercial de banana no Vale do Ribeira, cerca de 190 quilômetros a sudoeste da capital.

Trabalho apoiado pela FAPESP e publicado na Pest Management Science descreve a capacidade do Beauveria caledonica de infectar e matar a broca-da-bananeira (Cosmopolites sordidus) e de inibir o fitopatógeno Fusarium oxysporum f. sp. cubense (FOC), causador da fusariose.

“A pesquisa demonstrou, pela primeira vez, o duplo papel desse fungo, isolado de brocas-da-bananeira naturalmente infectadas, contra as duas principais restrições fitossanitárias”, diz Jeanne Scardini Marinho-Prado, agrônoma com doutorado em entomologia pela Universidade Federal de Viçosa e uma das autoras do artigo. O grupo comprovou que, comparativamente, isolados de B. caledonica se mostraram mais eficientes no biocontrole de adultos da broca do que isolados de B. bassiana, espécie atualmente usada no combate biológico do inseto em campo.

“Isolamos B. caledonica de adultos da broca-da-bananeira coletados em campo e depois fizemos uma formulação em óleo vegetal emulsionável, totalmente biodegradável, com seus conídios [esporos responsáveis pela reprodução assexuada] para aumentar sua eficácia”, explica Gabriel Moura Mascarin, doutor em patologia de insetos e controle microbiano pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP) e pela Crop Bioprotection Research (unidade de pesquisa vinculada ao Departamento de Agricultura dos Estados Unidos).

Formulação

Mascarin é o primeiro autor do trabalho e principal responsável pela formulação em óleo emulsionável avaliada no artigo. O óleo desempenha um papel importante na adesão do fungo ao corpo do inseto, facilitando sua infecção. O grupo de cientistas ainda descobriu que o fungo produz um composto secundário chamado oosporina, que teve ação antagônica sobre o fungo patogênico FOC. “Esse efeito antagonista de B. caledonica e de seu metabólito oosporina sobre o fungo FOC é inédito”, diz Prado, que atualmente é pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente.

A oosporina foi detectada e quantificada usando as técnicas de ressonância magnética nuclear e espectrometria de massa. Em ensaio in vitro contra o Fusarium, verificou-se que os filtrados acelulares extraídos do caldo fermentado de B. caledonica contendo o composto oosporina exibiram atividade antifúngica sobre os conídios, resultando em forte inibição da germinação do fitopatógeno FOC.

“Neste estudo foi demonstrado que certos bananais comerciais infestados pela broca-da-bananeira podem abrigar uma comunidade muito especializada de espécies de fungos entomopatogênicos”, diz Prado. O solo é um importante reservatório desses fungos que podem parasitar insetos, matando-os ou incapacitando-os. “Por isso, compreender a interação entre C. sordidus e fungos entomopatogênicos, além de entender como ambos podem estar relacionados a outros microrganismos no solo, é crucial para o desenvolvimento de biopesticidas à base de fungos”, explica a cientista, ressaltando que por enquanto não há produtos comerciais com B. caledonica.

Ainda segundo a pesquisadora, o desenvolvimento de biopesticidas com linhagens mais virulentas ao inseto-alvo, seja por seleção em laboratório, formulação, novas estratégias de aplicação ou manipulação genética, pode tornar esse microrganismo mais competitivo para uso em programas de manejo, contribuindo assim para sistemas de cultivo de banana mais equilibrados.

O artigo é assinado por Mascarin, Prado e Márcia Regina Assalin (Embrapa Meio Ambiente), Lucas Gelin Martins, Erik Sobrinho Braga e Ljubica Tasic (Unicamp), Miguel Dita (Bioversity International, Cali, Colômbia) e Rogerio Biaggioni Lopes (Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia).

A íntegra do estudo Natural occurrence of Beauveria caledonica, pathogenicity to Cosmopolites sordidus and antifungal activity against Fusarium oxysporum f. sp. cubense pode ser acessada em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/ps.7063.







Autor: Ricardo Muniz 
Fonte: Agência FAPESP
Sítio Online da Publicação: FAPESP
Data: 24/10/2022
Publicação Original: https://agencia.fapesp.br/fungo-combate-simultaneamente-duas-das-principais-ameacas-a-produtividade-de-bananeiras/39873/

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Fungo que causa doença do carvão na cana “engana” metabolismo da planta

Foto: Zineb Benchekchou/Embrapa

.
Na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, cientistas vêm realizando estudos no sentido de compreender os mecanismos pelos quais o fungo Sporisorium scitamineum provoca a doença chamada “carvão da cana-de-açúcar”. O grupo de pesquisa é coordenado pela professora Claudia Bastos Monteiro-Vitorello, do Departamento de Genética da Esalq.

Quando uma planta é contaminada, há a produção de uma estrutura chamada “chicote” a partir do ápice da cana-de-açúcar, e é através dela que o fungo se dispersa e contamina outras plantas. “Essa estrutura [chicote] dá o nome de carvão da cana-de-açúcar à doença, pois os esporos do fungo dão aspecto de fuligem e se espalham no campo facilmente pela ação do vento, por exemplo”, explica a professora Patricia Dayane Carvalho Schaker, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, que realizou seu doutorado e pós-doutorado na Esalq.

“Chicote” do carvão da cana-de-açúcar – Foto: Claudia Bastos Monteiro-Vitorello/ Esalq

Para infectar a cana-de-açúcar, o fungo consegue transpor o sistema de defesa da planta. Em recente trabalho publicado pelo grupo, o S. scitamineum parece ser capaz de deter as moléculas de imunidade da planta, além de colonizar os tecidos vegetais usando um arsenal de proteínas relacionado à absorção de nutrientes e de enzimas que quebram a parede celular da planta.
Segurança alimentar ameaçada

As doenças e pragas na agricultura são fatores que podem comprometer a segurança alimentar dos países. Estima-se que 10% – 16 % da produção mundial seja perdida pelo aparecimento de patógenos, segundo estudo publicado por pesquisadores da Austrália e Reino Unido.

Atualmente, o carvão da cana-de-açúcar encontra-se distribuído em quase todos os países produtores de cana, incluindo seu centro de origem, em Papua-Nova Guiné, na Oceania. A doença tem aumentada a sua incidência nos últimos anos. “As condições ambientais associadas às mudanças climáticas têm favorecido o desenvolvimento do carvão da cana-de-açúcar. No Brasil, a colheita verde da cana também é considerada um fator de risco, mantendo a incidência da doença em níveis mais elevados”, explica Claudia Bastos.

Distribuição da doença em países que cultivam cana-de-açúcar – Fonte: Monteiro-Vitorello et al. 2017

O foco de estudo do grupo é entender como se dá a interação entre o S. scitamineum e a cana-de-açúcar. “No caso dessa doença, o interesse é grande, pois esse fungo manipula o metabolismo vegetal e o desenvolvimento normal da planta para produzir a sua própria estrutura de reprodução”, ressalta a professora.

O fungo S. scitamineum se nutre das células vivas do hospedeiro e, apesar de produzir sintomas da doença, a planta sobrevive – porém, com desempenho menor que as plantas sadias.

Durante a sua pós-graduação na Esalq, a professora Patrícia estudou a mudança do metabolismo da cana-de-açúcar quando infectada pelo fungo. “Verificamos que, desde as primeiras horas de infecção nas plantas, altera-se a expressão de genes relacionados às vias de florescimento. E esse padrão se perpetua até 200 dias após a infecção, quando as plantas já emitiram chicotes. Vários desses genes simplesmente não são expressos em plantas sadias, indicando que a presença do fungo sinaliza para que a planta ative as vias de desenvolvimento floral, o que permitirá, de forma indireta, a sobrevivência do fungo e a sua perpetuação no campo”, explica Patrícia Schaker.

Ustilago scitaminea, fungo responsável pelo carvão da cana-de-açúcar – Imagem: Shivas RG; Beasley DR, McTaggart AR / Smut Fungi of Australia

Já as variedades de cana-de-açúcar que são resistentes à doença conseguem responder muito mais rapidamente à presença do invasor, e de uma maneira muito mais agressiva. Plantas resistentes conseguem reagir através de uma forte explosão oxidativa, produzindo e liberando rapidamente água oxigenada, composto que é tóxico ao fungo, além de reduzirem a atividade de enzimas antioxidantes. Esses resultados foram publicados e indicam que, em conjunto, essas medidas retardam ou prejudicam a proliferação de fungos.

A relação entre cana-de-açúcar e carvão é complexa e um dos próximos passos do grupo é a realização de testes em uma planta-modelo, como Arabidopsis thaliana, para compreender como o carvão manipula o metabolismo da cana-de-açúcar para emissão do chicote. Parte dessa pesquisa será realizada por Claudia Bastos Monteiro-Vitorello na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. Tanto para a compreensão de um modelo de interação patógeno-planta, quanto para a busca de melhor manejo em campo, o estudo do fungo do carvão da cana-de-açúcar traz desafios e oportunidades para os cientistas e a professora Claudia diz que seu laboratório está de portas abertas para alunos que topem esse desafio.
Maria Letícia Bonatelli, especial para o Jornal da USP




Autor: Jornal da USP
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data: 05/11/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-agrarias/fungo-que-causa-doenca-do-carvao-na-cana-engana-metabolismo-planta/

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Fungo em alga da Antártida mostra potencial contra infecções e outras doenças


Pesquisa avaliou a atividade biológica do fungo Aspergillus unguis, que habita o interior e o espaço entre as células da alga Palmaria decipiens, que serve de hospedeira, e foi coletada nas águas da Ilha Robert, na Antártida – Foto: Hosana Maria Debonsi e Renata Tavares




Um fungo que vive associado a uma alga encontrada nas águas da Antártida mostra potencial antimicrobiano, além de combater doenças como a leishmaniose e apresentar efeito fotoprotetor. A descoberta aconteceu em pesquisa realizada na Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP, que avaliou a atividade biológica do fungo Aspergillus unguis, obtido a partir da alga Palmaria decipiens. O estudo identificou substâncias que apresentam atividade leishmanicida frente o parasita Leishmania braziliensis, que causa a doença, e também protegem a alga dos efeitos nocivos dos raios solares.

A coleta da alga ocorreu na Ilha Robert, na Antártida, pertencente ao arquipélago das Ilhas Shetland do Sul, entre as Ilhas Nelson e Greenwich. “O fungo é endofítico, ou seja, habita os espaços intra e intercelular de um hospedeiro, no caso, a alga Palmaria decipiens, encontrada nas águas da região”, conta a pesquisadora Verônica Rego de Moraes, responsável pelo estudo. “Em laboratório, fragmentos da alga foram colocados numa placa com meio propício para o crescimento de micro-organismos. Posteriormente, foi feito o isolamento da colônia do fungo e sua identificação.”


Uma das Ilhas Shetland do Sul, Ilha Robert está localizada entre as Ilhas Greenwich e Nelson, na Antártida – Mapa: Apcbg via Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0

A pesquisa está inserida no Programa Antártico Brasileiro (Proantar), do governo federal, gerido pela Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (CIRM), que tem presença no continente antártico. O fungo foi objeto de avaliações biológicas desde o extrato bruto, passando pelas frações obtidas e chegando até as substâncias isoladas, de modo a identificar quais apresentam atividade biológica. “Como a resistência a antibióticos está cada vez mais presente no cotidiano, a atividade antimicrobiana foi analisada, pois há interesse em encontrar novas moléculas que sejam efetivas contra os mais diferentes tipos de micro-organismos”, diz Verônica.

“Por meio do ensaio foi verificada a atividade leishmanicida, pois além da leishmaniose ser uma doença negligenciada, o parasita desenvolveu resistência ao tratamento de primeira linha, que pode ainda causar complicações cardíacas”, destaca a pesquisadora. “Também foi pesquisada a atividade de fotoproteção, já que o continente Antártico é o mais exposto à radiação ultravioleta dentre todos os continentes, por isso acredita-se que os micro e macro-organismos desse ambiente produzam substâncias capazes de protegê-los contra possíveis danos solares.”
Proteção


Após coleta da alga, fungo Aspergillus unguis (foto à direita) foi isolado em laboratório para produção de colônias (foto à esquerda), utilizadas nos estudos sobre a atividade biológica contra micro-organismos e os efeitos da radiação solar – Foto: Verônica Rêgo de Moraes

Os pesquisadores isolaram três substâncias da classe das depsidonas, duas já conhecidas na literatura e uma que ainda se encontra em processo de identificação. “As depsidonas são encontradas principalmente em liquens, mas também em algumas plantas e fungos, onde têm a função de proteção contra insetos e micróbios ou luz solar”, relata Verônica. “Estas duas substâncias são bem relatadas na literatura científica, em especial quanto ao seu potencial antimicrobiano, em especial em relação à bactéria Staphylococcus aureus, causadora de infecções, principalmente de pele. Ambas as substâncias também apresentaram atividade leishmanicida, até agora não registrada pelos cientistas.”

Amostra da alga Palmaria decipiens, coletada na Antártida, da qual foi extraído o fungo que teve sua atividade biológica estudada na pesquisa – Foto: Verônica Rêgo de Moraes

De acordo com a pesquisadora, uma das substâncias foi considerada não fototóxica, o que também não é relatado na literatura. “Outras frações obtidas durante o processo de isolamento também apresentaram resultados positivos, principalmente em relação ao potencial leishmanicida”, aponta, “sendo assim um ponto de partida para o isolamento de outras substâncias que possam ser biologicamente ativas”. O fungo Aspergillus unguis é descrito na literatura como uma fonte importante para a produção de compostos bioativos, como anti-inflamatória, aspergillusidonas sequestradoras de radicais e atividade de inibidores de aromatase.

“As aspergillusidonas inibem as espécies reativas de oxigênio (ROS). As ROS têm um papel essencial no início do câncer, quando em altas concentrações, provoca danos ao DNA levando à carcinogênese”, observa Verônica. “A enzima aromatase é responsável pela conversão de andrógenos em estrogênios e é usada como alvo terapêutico para o tratamento do câncer estrógeno-dependente, como o câncer de mama”.


Estudo foi realizado dentro do Programa Antártico Brasileiro, do governo federal, gerido pela Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (CIRM), que tem atuação no continente antártico – Foto: Hosana Maria Debonsi e Renata Tavares

O fungo também é responsável pela produção da β-glucosidase, que tem papel fundamental na conversão de biomassa de celulose para etanol. A pesquisa foi realizada no Laboratório de Química Orgânica do Ambiente Marinho (NPPNS) da FCFRP e é descrita na dissertação de mestrado de Verônica, orientada pela professora Hosana Maria Debonsi, do Departamento de Física e Química da FCFRP. O trabalho teve a colaboração do professor Pio Colepicolo Neto, do Instituto de Química (IQ) da USP, coordenador do Proantar, e da professora Marcia Graminha, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), responsável pela análise da atividade leishmanicida do fungo.


Fungo encontrado nas águas da Ilha Robert produz enzima essencial para produzir etanol – Foto: Hosana Maria Debonsi e Renata Tavares

Na FCFRP, o estudo sobre a atividade antimicrobiana do Aspergillus unguis foi realizado sob a supervisão da professora Niege Furtado, do Departamento de Análises Clínicas, Toxicológicas e Bromatológicas, e as análises sobre a atividade de fotoproteção e a fototoxicidade foram supervisionadas pela professora Lorena Cordeiro, do Departamento de Ciências Farmacêuticas.




Autor: Júlio Bernardes
Fonte: Jornal da USP
Sítio Online da Publicação: Jornal da USP
Data de Publicação: 13/08/2018
Publicação Original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-biologicas/fungo-em-alga-da-antartida-mostra-potencial-contra-infeccoes-e-outras-doencas/