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quinta-feira, 8 de julho de 2021
A Gravidade da Questão Indígena no Brasil
A Gravidade da Questão Indígena no Brasil, artigo de Juacy da Silva
Estamos diante de um dos mais graves desafios que se tem notícia quanto ao extermínio de povos indígenas em nosso país. Um absurdo inominável
O Brasil há décadas vem enfrentando diversas e sérias crises, incluindo crise política, econômica, social, ambiental/ecológica e cultural, as quais têm se agravado tanto pela presença da pandemia do coronavírus quanto pela visão conservadora e retrógrada dos atuais governantes, tanto no plano federal quanto em diversos estados e municípios.
Por exemplo, mesmo em meio a esta terrível pandemia, a escalada da degradação ambiental, com destaque para o desmatamento e queimadas, principalmente na Amazônia, novamente no Pantanal e no Cerrado e outros biomas, incluindo também a gravidade relacionada com a grilagem e invasões das terras indígenas e terras públicas têm se acelerado de forma impressionante nos últimos anos.
No que concerne `a questão indígena, diversos organismos e estudiosos nacionais e internacionais tem denunciado que um GENOCÍDIO está em curso em nosso país e tudo indica que pode se transformar em uma tragédia humana de proporções catastróficas no Brasil, afetando a vida, a cultura e as formas de subsistência e sobrevivência dos povos indígenas, principalmente na Amazônia Legal, crime este já denunciado no Tribunal Internacional de Haia e outros organismos internacionais. Pior é que esta tragédia humanitária acontece ante a omissão e conivência de autoridades e organismos públicos a quem caberia defender os interesses dos povos indígenas.
Todas essas atrocidades podem ser simplesmente legalizadas nos termos de projeto de Lei (PL- 490) que tramita no Congresso Nacional, bem como ação que está sob análise do Supremo Tribunal Federal, o chamado Marco Temporal, cuja votação foi interrompida e postergada para ser retomada somente no mes de Agosto próximo.
Tanto o PL 490 quanto o “Marco Temporal”, significam um esbulho contra os territórios indígenas e a possibilidade de legalizar a grilagem das terras indígenas, a degradação ambiental através do garimpo e da mineração, pouco importa se essas atividades sejam legais ou ilegais, da mesma forma como vem ocorrendo a exploração madeireira, inclusive exportações ilegais.
Os abusos e desrespeito aos direitos dos povos indígenas foram recentemente , em 22 de março de 2021, denunciados ao Alto Comissariado dos Direitos Humanos, da ONU, pela APIB, conforme termos que aqui transcrevemos “Madame Bachelet, Meu nome é Luiz Eloy, sou indígena do povo Terena. Sou advogado da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil. Estou aqui para falar sobre a situação dos povos indígenas do Brasil neste contexto de pandemia Covid-19. Vivemos um momento muito sério em nosso país. O atual governo brasileiro implementou uma política indigenista extremamente prejudicial aos povos indígenas. Nossas comunidades estão sendo invadidas por madeireiros e garimpeiros. O vírus está matando nossos idosos. Na semana passada, perdemos o último indígena Juma. Essas são culturas e línguas que nunca iremos recuperar. Aqui no Brasil, temos informações de 114 grupos indígenas isolados e de recente contato que estão em perigo. O governo brasileiro e seus agentes devem ser responsabilizados. Estamos diante de uma política de extermínio indígena no Brasil. Portanto, pedimos sua ajuda para deter o genocídio indígena no Brasil. Obrigado Luiz Eloy Advogado da APIB”.
De forma semelhante o CIMI – Conselho Indigenista Missionário, na mesma ocasião, em documento relata como a política do Governo Federal, através da FUNAI, ao invés de representar ações na defesa dos direitos e dos territórios dos povos indígenas, vai exatamente na contramão e contribui para desrespeitar tais direitos.
Vejamos um trecho de matéria divulgada recentemente pelo CIMI “Funai tenta passar a boiada. Além de não adotar medidas para barrar o avanço do vírus junto aos territórios, a Fundação Nacional do Índio (Funai) tem implementado Resoluções e Instruções Normativas que afrontam o Estado Democrático de Direito, avalia o Conselho Indigenista Missionário (Cimi). A exemplo da Instrução Normativa 09, de abril de 2020, que concede a certificação de imóveis rurais em terras indígenas não homologadas, as resoluções 04, de 22 de Janeiro de 2021 que estabelece novos critérios para a “heteroidentificação” de indígenas no Brasil, e a 01/2021, que autoriza a “parceria” entre indígenas e não indígenas para a exploração econômica dos territórios.”
Desde antes de ser eleito presidente da República, Bolsonaro e a quase totalidade de seus apoiadores, principalmente empresários e Congressistas que fazem parte da “Bancada Ruralista”, não tem medido esforços para criticar as demarcações de terras indígenas, adotando um discursos equivocado dizendo que o Brasil tem muita terra para poucos índios e que a demarcação de terras indígenas impedem ou dificultam o progresso, principalmente em relação `as rodovias federais e estaduais que “cortam” esses territórios.
Diante de tantas omissões e conivências de organismos públicos com todas as práticas delituosas e a violência que campeia solta contra o meio ambiente e os povos indígenas e quilombolas, centenas de lideranças indígenas de todas as partes do Brasil, de vários desses povos e de diversos movimentos sociais estão acampadas em Brasília há mais de um mês, para protestar contra todas essas agressões, abusos, negligências e violência contra seus direitos, denunciando todas as atrocidades que vem sendo cometidas, como assassinatos, queima de aldeias, uma verdadeira afronta aos seus direitos constitucionais e que constam de tratados internacionais que o Brasil é signatário e que devem garantir os DIREITOS HUMANOS DOS POVOS INDÍGENAS e outros grupos populacionais que vivem em situação de vulnerabilidade social, cultural, humana, econômica, como os quilombolas e outros mais.
A Assembleia Geral da ONU em sua 107a. Sessão Plenária, ocorrida em 13/09/2007 aprovou a Declaração sobre os Direitos dos Povos Indígenas. Os oito primeiros artigos balizam a importância deste reconhecimento universal e por isso vale a pena conhecê-los.
Artigo 1 Os indígenas têm direito, a título coletivo ou individual, ao pleno desfrute de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais reconhecidos pela Carta das Nações Unidas, a Declaração Universal dos Direitos Humanos3 e o direito internacional dos direitos humanos.
Artigo 2 Os povos e pessoas indígenas são livres e iguais a todos os demais povos e indivíduos e têm o direito de não serem submetidos a nenhuma forma de discriminação no exercício de seus direitos, que esteja fundada, em particular, em sua origem ou identidade indígena.
Artigo 3 Os povos indígenas têm direito à autodeterminação. Em virtude desse direito determinam livremente sua condição política e buscam livremente seu desenvolvimento econômico, social e cultural.
Artigo 4 Os povos indígenas, no exercício do seu direito à autodeterminação, têm direito à autonomia ou ao autogoverno nas questões relacionadas a seus assuntos internos e locais, assim como a disporem dos meios para financiar suas funções autônomas.
Artigo 5 Os povos indígenas têm o direito de conservar e reforçar suas próprias instituições políticas, jurídicas, econômicas, sociais e culturais, mantendo ao mesmo tempo seu direito de participar plenamente, caso o desejem, da vida política, econômica, social e cultural do Estado.
Artigo 6 Todo indígena tem direito a uma nacionalidade.
Artigo 7 1. Os indígenas têm direito à vida, à integridade física e mental, à liberdade e à segurança pessoal. 2. Os povos indígenas têm o direito coletivo de viver em liberdade, paz e segurança, como povos distintos, e não serão submetidos a qualquer ato de genocídio ou a qualquer outro ato de violência, incluída a transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo.
Artigo 8 1. Os povos e pessoas indígenas têm direito a não sofrer assimilação forçada ou a destruição de sua cultura. 2. Os Estados estabelecerão mecanismos eficazes para a prevenção e a reparação de: a) Todo ato que tenha por objetivo ou consequência privar os povos e as pessoas indígenas de sua integridade como povos distintos, ou de seus valores culturais ou de sua identidade étnica; b) Todo ato que tenha por objetivo ou consequência subtrair-lhes suas terras, territórios ou recursos. c) Toda forma de transferência forçada de população que tenha por objetivo ou consequência a violação ou a diminuição de qualquer dos seus direitos. d) Toda forma de assimilação ou integração forçadas. e) Toda forma de propaganda que tenha por finalidade promover ou incitar a discriminação racial ou étnica dirigida contra eles. submetidos a qualquer ato de genocídio ou a qualquer outro ato de violência, incluída a transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo.
Cabe ressaltar que o desrespeito aos direitos dos povos indígenas e tantas formas de abuso e violência contra os mesmos e que estão sendo denunciados há várias décadas e que se agravaram ultimamente, vem ocorrendo ao arrepio e contrariamente aos preceitos legais e constitucionais que garantem a proteção e a integridade dos territórios indígenas e quilombolas, ocupados secularmente e garantidos pela Constituição de 1988, mas que, pela omissão dos poderes constituídos, acabam se transformando em “letra morta” ou como se diz “para inglês ver” e também estão em desrespeito ao contido na Declaração da ONU sobre os Direitos dos povos indígenas, anteriormente mencionada, da qual o Brasil é um dos signatários.
Não bastasse o negacionismo relacionado `a COVID-19, que já dizimou até o dia 03/07/2021 nada menos do que 533.587 vítimas, além de ter afetando 18,75 milhões de brasileiros, uma vergonha para nosso país, que está a caminho de se transformar em um Pária no contexto internacional, ainda temos que conviver com a gravidade do desemprego, subemprego, da fome, da miséria, da exclusão social e da corrupção que continuam entranhadas nas instituições públicas e nas empresas privadas, além da escalada do crime organizado e das milícias que transformam enormes contingentes populacionais vítimas do domínio e atrocidades de um poder paralelo, ante a omissão do Estado Brasileiro.
Cabe ressaltar que desde o descobrimento do Brasil até os dias de hoje o que a história tem registrado e presenciado é um processo de extermínio continuado das populações indígenas, um verdadeiro genocídio silencioso e também um processo de pauperização, quando seus territórios acabam “cercados” por exploração agropecuária, mineração, garimpo, construção de barragens, com deslocamentos e reassentamentos forçados e migração com destino `as periferias urbanas, onde esses remanescentes indígenas se tornam indigentes, mão de obra escrava ou semi-escrava, mendicância e a prostituição feminina, inclusive prostituição infantojuvenil.
A partir dos anos sessenta e setenta do século passado, com o avanço das fronteiras agrícolas rumo ao Centro-Oeste e a Amazônia Legal e a abertura de diversas rodovias estaduais e federais, a violência e o processo de extermínio dos povos indígenas ganham um novo capítulo, principalmente com a formação de grandes latifúndios e a grilagem de terras tradicionalmente ocupadas por povos indígenas em diversas regiões e parte dos territórios na totalidade desses estados que integram a Amazônia Legal.
Diversas matérias e reportagens especiais sobre as questões indígenas, incluindo assassinatos de suas lideranças e os índices elevados de suicídio, principalmente entre crianças e jovens, a degradação e crimes ambientais, poluição urbana, violência no campo, principalmente violência contra tribos indígenas, quilombolas e agricultores familiares, tem sido estampadas em diversos veículos de comunicação no Brasil e em diversos outros países, contribuindo para que a imagem de nosso país esteja se deteriorando a olhos vistos.
Para melhor ilustrar a gravidade desta situação, transcrevo, a seguir algumas. matérias veiculados pelo Jornal El País., em 03/07/2021 e datas anteriores.
“Mais uma vez, é a resistência indígena a primeira a romper o embotamento no qual se mergulha o país. Mobilizados em Brasília e em outros 10 estados, os povos originários lutam contra o PL 490, que decreta o fim das demarcações”.
“Indígenas se mobilizam nacionalmente contra PL 490 e o marco temporal. ‘Não é só pelo indígena, nossa luta é por todos’, diz cacique”.
“Engajando a juventude (MPA): Juventude camponesa se soma a luta indígena para demarcação de terras indígenas”.
“Apib: Juventude indígena protesta no MMA e povos indígenas iniciam vigília no STF, em Brasília e ultrapassando fronteiras para denunciar o genocídio perpetrado pelo governo de Jair Bolsonaro”.
“Ação contra Bolsonaro avança em Haia, e indígenas vão denunciá-lo por genocídio e por ecocídio”.
No Brasil existem aproximadamente 114 grupos indígenas que desconhecem o jogo político em Brasília, mas podem vir a ser totalmente afetados pelas decisões tomadas naquele tabuleiro. Gil Alessi conta como estes povos isolados na Amazônia Legal, que, por decisão própria, não possuem nenhum contato com a sociedade — podem ser extintos caso o PL 490/2007 seja aprovado. (CIMI).
O projeto, que autoriza as possibilidades de contato com as aldeias dos rincões amazônicos, abre as portas para o “genocídio” indígena. Em tramitação na Câmara dos Deputados, o PL é a representação ” criado ao longo das últimas décadas para garantir a igualdade formal e material dos povos indígenas no Brasil”, escrevem Laura Trajber Waisbich e Ilona Szabó, do Instituto Igarapé.
Finalizando, vale a pena ler e refletir sobre a avaliação do CIMI quanto aos riscos que a aprovação do PL 490 pelo Congresso Nacional e se o mesmo vier a ser sancionado pelo Presidente da República representa para o presente e o futuro dos povos indígenas no Brasil.
“A proposta altera o Estatuto do Índio (Lei 6.001/1973) e atualiza o texto da PEC 215, uma das maiores ameaças aos direitos indígenas que já tramitou no Congresso. O projeto permite a supressão de direitos dos indígenas garantidos na Constituição, entre eles, a posse permanente de suas terras e o direito exclusivo sobre seus recursos naturais. O projeto de lei permite a implantação de hidrelétricas, mineração, estradas e arrendamentos, entre outros, eliminando a consulta livre prévia e informada às comunidades afetadas. A proposta permite retirar o “usufruto exclusivo” dos indígenas de qualquer área “cuja ocupação atenda a relevante interesse público da União”. Vai viabilizar ainda a legalização automática de centenas de garimpos nas Tis (terras indígenas), hoje responsáveis pela disseminação da Covid-19, a contaminação por mercúrio, a destruição de nascentes e rios inteiros e o desmatamento.”
Estamos vivendo tempos sombrios no Brasil, ao invés das conquistas aprovadas pela Assembleia Nacional Constituinte e que foram incorporadas na Constituição (cidadã) de 1988 serem implementadas ao longo dessas mais de três décadas, o que temos visto é a supressão de diversas dessas conquistas através de Emendas Constitucionais (atualmente já mais de uma centena) que desfiguram completamente a vontade da Constituinte, por Legislaturas, cujos deputados e senadores não foram eleitos para revisarem a Constituição de 1988, mas que o fazem através desses subterfúgios, atendendo aos interesses de grupos econômicos, nacionais e internacionais, e forças ponderosas que atuam indiretamente através de representantes eleitos no Legislativo ou no Executivo.
Estamos diante de um dos mais graves desafios que se tem notícia quanto ao extermínio de povos indígenas em nosso país. Um absurdo inominável. Alguma coisa precisa ser feita com urgência a fim de impedir e acabar com este genocídio silencioso.
JUACY DA SILVA, professor universitário, fundador, titular e aposentado UFMT, sociólogo, mestre em sociologia, colaborador de diversas veículos de comunicação. Email profjuacy@yahoo.com.br Twitter@profjuacy
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 08/07/2021
Autor: JUACY DA SILVA
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data: 08/07/2021
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2021/07/08/a-gravidade-da-questao-indigena-no-brasil/
quinta-feira, 5 de julho de 2018
Povo indígena Kaxixó, guardião dos cerrados, artigo de Gilvander Moreira
Povo indígena Kaxixó, guardião dos cerrados.
Por Gilvander Moreira1
Ao som de assobios imitando pássaros dos cerrados, em um toré (dança de roda), cantando “Jaci rerê, jaci rará (bis). Sou índio Kaxixó, na luta vou entrar (bis). Conquistar a nossa terra e pra sempre aqui morar (bis). Com muita coragem e vontade de vencer (bis). Sou índio e vou à luta pra vitória a gente ter (bis). Esquecemos a tristeza batendo maracá (bis).Cantando e dançando para nossa festa animar (bis). Jaci rerê jaci rará (bis) …”, iniciamos uma Roda de Conversa com indígenas do Povo Kaxixó na sede do CEDEFES (Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva), em Belo Horizonte, MG, dia 30 de junho de 2018. Foram mais de cinco horas de retrospectiva de uma luta justa, necessária e legítima: a do Povo Indígena Kaxixó.
A Aldeia Kaxixó é composta por quatro localidades: Capão do Zezinho e Criciúma, na margem esquerda do rio Pará, município de Martinho Campos; Fundinho e Pindaíba, na margem direita do mesmo rio, município de Pompéu, no centro-oeste de Minas Gerais, no baixo rio Pará, um dos grandes afluentes do rio Francisco, que irriga 15 municípios antes de desaguar suas águas no rio São Francisco. Os Kaxixó estão atualmente encurralados em aproximadamente 20 hectares de seu território, sendo que, segundo os estudos técnicos, o Povo Kaxixó tem direito a 5.411 hectares de território. “Tem direito a um território maior, mas o território de 5.411 hectares foi o que a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) aceitou com base nos muitos estudos feitos”, alerta Marilda Magalhães.
Segundo as diversas pesquisas realizadas pela equipe do CEDEFES, composta por antropólogas, indigenistas, sociólogos, historiadoras, arqueólogas e engenheiras agrônomas, em 1602, uma das expedições das Entradas e Bandeiras deportou 2 mil índios do centro-oeste mineiro para o litoral do Rio de Janeiro. Mesmo massacrado e vilipendiado, o povo Kaxixó resiste há séculos, no centro-oeste de Minas Gerais. “… os fazendeiros proibiam a gente de dizer que éramos índios Kaxixó. Roubaram nossa terra, nossa língua e nossa religião” – denunciava o cacique Djalma, Kaxixó de uma extraordinária sabedoria. Quinze sítios arqueológicos foram encontrados no seu território ainda em poder de empresas e latifundiários. Os primeiros conflitos de terra com latifundiários teriam ocorrido já no século XVIII com o povoamento e abertura de grandes fazendas na região de Pitangui. O primeiro grande perseguidor dos indígenas nesta época teria sido o potentado capitão Inácio de Oliveira Campos. Nesta ocasião, muitos indígenas teriam sido expulsos, outros assassinados, e os que ficaram foram obrigados a trabalhar nas fazendas, em situação análoga à de escravidão, diríamos em linguagem de hoje. Segundo o saudoso Cacique Djalma Kaxixó: “tentaram esbagaçar os Kaxixó…” (relato de 1999).
As perseguições incessantes aos Kaxixó foram tamanhas, que, inclusive, foram terminantemente proibidos pelos fazendeiros de dizer que seriam indígenas, sendo que na década de 1970, resistiam apenas duas famílias Kaxixó em sua atual área, mas hoje somam 29 famílias com cerca de cem indígenas. Somente em 1986, com ameaças de dissolução completa de sua base e referência territorial, é que os Kaxixó solicitaram apoio ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Pompéu e à Comissão Pastoral da Terra (CPT), e quando questionados sobre a sua relação com a terra se apresentaram como indígenas Kaxixó, revelando a sua memória sufocada e a sua identidade. Foi por meio de estratégias de silêncio e de sua invisibilidade junto à sociedade nacional e aos poderosos da região que conseguiram resistir a um processo contínuo de perseguições e proibições. Nessa época, o CEDEFES iniciou os primeiros estudos técnicos sobre esta comunidade indígena, visando apoiar a sua organização, luta por afirmação de sua identidade e conquista de seus direitos.
Todavia, a demarcação do território Kaxixó continua bloqueada por demanda judicial na Justiça Federal, por questionamentos infundados por parte das prefeituras de Martinho Campos e Pompéu, pelo Governo de Minas Gerais e pela Associação dos Latifundiários da região. Essa aliança, na prática, de duas municipalidades e do Governo de Minas com latifundiários e grandes empresas contra o Povo Indígena Kaxixó demonstra que, de fato, o Estado Brasileiro é cúmplice do sistema do capital e não atua para gerir o bem comum, mas se verga diante dos mega-interesses econômicos de grandes empresas que continuam se apoderando do território do Povo Kaxixó. No Governo de Minas, o PSDB impugnou a demarcação do território Kaxixó e o PT (Governo de Fernando Pimentel) mantém há três anos e meio a posição do PSDB contra o Povo Indígena Kaxixó. Até quando os prefeitos de Martinho Campos e Pompéu e o Governo de Minas Gerais vão continuar do lado dos latifundiários e contra a demarcação do território do Povo Indígena Kaxixó?
Ao apresentar o Plano de Gestão Territorial e Ambiental da Terra Indígena Kaxixó (PGTA), a agrônoma Marilda Magalhães, do CEDEFES, frisou: “O povo indígena Kaxixó é guardião dos cerrados”. De fato, sua alimentação, adereços, canções e jeito de ser-tão refletem a alma dos cerrados. Em um contexto de imensa devastação dos cerrados, demarcar o território Kaxixó tornou-se necessidade urgente e não pode mais ser postergado. Os povos indígenas não querem apenas dançar e serem estereotipados, mas querem falar, serem ouvidos e respeitados pelos não indígenas, pois não toleram mais o rolo compressor do Estado acumpliciado com a elite dominante.
Mais de cem povos indígenas habitavam o estado de Minas Gerais. Atualmente 18 povos, entre os quais, os Xakriabá, Aranã, Maxakali, Xukuru-Kariri, Pataxó Hahahae, Kamakã, Puri, Pankararu, Tuxá, Krenak, Mokurin, Catu Atu Araxá, Xukuru-kariri, Kiriri, Guarani, Karajá, canoeiros e Kaxixó e outras etnias dispersas nos centros urbanos – estão na luta pela retomada de seus territórios e para que sejam demarcados de forma integral. Há quase trinta anos, o CEDEFES, a CPT e o CIMI acompanham a luta do Povo Kaxixó, contribuindo para a organização da história, da cultura e preservação dos testemunhos arqueológicos que existem na área Kaxixó. Alenice Baeta, pós-doutora em Arqueologia, mostrando artefatos cerâmicos encontrados no território Kaxixó afirma em seus estudos: “Está comprovada a presença de diversos povos indígenas na região dos Kaxixó há pelo menos 2 mil anos”. Ao narrar a perseguição atroz e as ameaças incessantes de morte sofrida pelos Kaxixó, o cacique Nilvando apontou a força do resgate da história a partir dos oprimidos: “Ao levantarmos a nossa história, nos levantamos também”.
Referências
CALDEIRA, A. V.; BAETA, A. M.; MATTOS, I. M. & SAMPAIO, J. A. L., Kaxixó: quem é este povo. Belo Horizonte: CESE/CEDEFES/ANAI, Janeiro de 1999.
CEDEFES. Plano de Gestão Territorial e Ambiental na Terra Indígena Kaxixó – PGTA. PNUD/ISPN/FUNAI. Setembro de 2016.
Belo Horizonte, MG, Brasil, 03 de julho de 2018.

Foto 1: Roda de Conversa no CEDEFES sobre: “Povo Indígena Kaxixó: retrospectiva de um processo de luta”. Foto: A. Baeta

Foto 2: Lideranças Kaxixó: Zezinho e Djalma (já falecidos) participando da “Marcha Indígena – 500 anos de Resistência” em Belo Horizonte no ano 2000. Foto: A. Baeta.
Obs.: Os vídeos, abaixo, ilustram o texto, acima.
1 – Caxixó – O Segredo Encantado – parte 1
https://www.youtube.com/watch?v=JX7ysFZfk-w
2 – Caxixó – O Segredo Encantado – parte 2
https://www.youtube.com/watch?v=15yVqctmS-4
3 – Filme Casca do Chão – Povo Kaxixó
https://www.youtube.com/watch?v=mlxE4scSxFQ&index=2&list=PLU3xpnSKCkVk6nWLwNVars8obRXRqQDfD
1 Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH, em Belo Horizonte, MG.
E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br –
www.twitter.com/gilvanderluis – Facebook: Gilvander Moreira III
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/07/2018
Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 05/07/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/07/05/povo-indigena-kaxixo-guardiao-dos-cerrados-artigo-de-gilvander-moreira/
Por Gilvander Moreira1
Ao som de assobios imitando pássaros dos cerrados, em um toré (dança de roda), cantando “Jaci rerê, jaci rará (bis). Sou índio Kaxixó, na luta vou entrar (bis). Conquistar a nossa terra e pra sempre aqui morar (bis). Com muita coragem e vontade de vencer (bis). Sou índio e vou à luta pra vitória a gente ter (bis). Esquecemos a tristeza batendo maracá (bis).Cantando e dançando para nossa festa animar (bis). Jaci rerê jaci rará (bis) …”, iniciamos uma Roda de Conversa com indígenas do Povo Kaxixó na sede do CEDEFES (Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva), em Belo Horizonte, MG, dia 30 de junho de 2018. Foram mais de cinco horas de retrospectiva de uma luta justa, necessária e legítima: a do Povo Indígena Kaxixó.
A Aldeia Kaxixó é composta por quatro localidades: Capão do Zezinho e Criciúma, na margem esquerda do rio Pará, município de Martinho Campos; Fundinho e Pindaíba, na margem direita do mesmo rio, município de Pompéu, no centro-oeste de Minas Gerais, no baixo rio Pará, um dos grandes afluentes do rio Francisco, que irriga 15 municípios antes de desaguar suas águas no rio São Francisco. Os Kaxixó estão atualmente encurralados em aproximadamente 20 hectares de seu território, sendo que, segundo os estudos técnicos, o Povo Kaxixó tem direito a 5.411 hectares de território. “Tem direito a um território maior, mas o território de 5.411 hectares foi o que a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) aceitou com base nos muitos estudos feitos”, alerta Marilda Magalhães.
Segundo as diversas pesquisas realizadas pela equipe do CEDEFES, composta por antropólogas, indigenistas, sociólogos, historiadoras, arqueólogas e engenheiras agrônomas, em 1602, uma das expedições das Entradas e Bandeiras deportou 2 mil índios do centro-oeste mineiro para o litoral do Rio de Janeiro. Mesmo massacrado e vilipendiado, o povo Kaxixó resiste há séculos, no centro-oeste de Minas Gerais. “… os fazendeiros proibiam a gente de dizer que éramos índios Kaxixó. Roubaram nossa terra, nossa língua e nossa religião” – denunciava o cacique Djalma, Kaxixó de uma extraordinária sabedoria. Quinze sítios arqueológicos foram encontrados no seu território ainda em poder de empresas e latifundiários. Os primeiros conflitos de terra com latifundiários teriam ocorrido já no século XVIII com o povoamento e abertura de grandes fazendas na região de Pitangui. O primeiro grande perseguidor dos indígenas nesta época teria sido o potentado capitão Inácio de Oliveira Campos. Nesta ocasião, muitos indígenas teriam sido expulsos, outros assassinados, e os que ficaram foram obrigados a trabalhar nas fazendas, em situação análoga à de escravidão, diríamos em linguagem de hoje. Segundo o saudoso Cacique Djalma Kaxixó: “tentaram esbagaçar os Kaxixó…” (relato de 1999).
As perseguições incessantes aos Kaxixó foram tamanhas, que, inclusive, foram terminantemente proibidos pelos fazendeiros de dizer que seriam indígenas, sendo que na década de 1970, resistiam apenas duas famílias Kaxixó em sua atual área, mas hoje somam 29 famílias com cerca de cem indígenas. Somente em 1986, com ameaças de dissolução completa de sua base e referência territorial, é que os Kaxixó solicitaram apoio ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Pompéu e à Comissão Pastoral da Terra (CPT), e quando questionados sobre a sua relação com a terra se apresentaram como indígenas Kaxixó, revelando a sua memória sufocada e a sua identidade. Foi por meio de estratégias de silêncio e de sua invisibilidade junto à sociedade nacional e aos poderosos da região que conseguiram resistir a um processo contínuo de perseguições e proibições. Nessa época, o CEDEFES iniciou os primeiros estudos técnicos sobre esta comunidade indígena, visando apoiar a sua organização, luta por afirmação de sua identidade e conquista de seus direitos.
Todavia, a demarcação do território Kaxixó continua bloqueada por demanda judicial na Justiça Federal, por questionamentos infundados por parte das prefeituras de Martinho Campos e Pompéu, pelo Governo de Minas Gerais e pela Associação dos Latifundiários da região. Essa aliança, na prática, de duas municipalidades e do Governo de Minas com latifundiários e grandes empresas contra o Povo Indígena Kaxixó demonstra que, de fato, o Estado Brasileiro é cúmplice do sistema do capital e não atua para gerir o bem comum, mas se verga diante dos mega-interesses econômicos de grandes empresas que continuam se apoderando do território do Povo Kaxixó. No Governo de Minas, o PSDB impugnou a demarcação do território Kaxixó e o PT (Governo de Fernando Pimentel) mantém há três anos e meio a posição do PSDB contra o Povo Indígena Kaxixó. Até quando os prefeitos de Martinho Campos e Pompéu e o Governo de Minas Gerais vão continuar do lado dos latifundiários e contra a demarcação do território do Povo Indígena Kaxixó?
Ao apresentar o Plano de Gestão Territorial e Ambiental da Terra Indígena Kaxixó (PGTA), a agrônoma Marilda Magalhães, do CEDEFES, frisou: “O povo indígena Kaxixó é guardião dos cerrados”. De fato, sua alimentação, adereços, canções e jeito de ser-tão refletem a alma dos cerrados. Em um contexto de imensa devastação dos cerrados, demarcar o território Kaxixó tornou-se necessidade urgente e não pode mais ser postergado. Os povos indígenas não querem apenas dançar e serem estereotipados, mas querem falar, serem ouvidos e respeitados pelos não indígenas, pois não toleram mais o rolo compressor do Estado acumpliciado com a elite dominante.
Mais de cem povos indígenas habitavam o estado de Minas Gerais. Atualmente 18 povos, entre os quais, os Xakriabá, Aranã, Maxakali, Xukuru-Kariri, Pataxó Hahahae, Kamakã, Puri, Pankararu, Tuxá, Krenak, Mokurin, Catu Atu Araxá, Xukuru-kariri, Kiriri, Guarani, Karajá, canoeiros e Kaxixó e outras etnias dispersas nos centros urbanos – estão na luta pela retomada de seus territórios e para que sejam demarcados de forma integral. Há quase trinta anos, o CEDEFES, a CPT e o CIMI acompanham a luta do Povo Kaxixó, contribuindo para a organização da história, da cultura e preservação dos testemunhos arqueológicos que existem na área Kaxixó. Alenice Baeta, pós-doutora em Arqueologia, mostrando artefatos cerâmicos encontrados no território Kaxixó afirma em seus estudos: “Está comprovada a presença de diversos povos indígenas na região dos Kaxixó há pelo menos 2 mil anos”. Ao narrar a perseguição atroz e as ameaças incessantes de morte sofrida pelos Kaxixó, o cacique Nilvando apontou a força do resgate da história a partir dos oprimidos: “Ao levantarmos a nossa história, nos levantamos também”.
Referências
CALDEIRA, A. V.; BAETA, A. M.; MATTOS, I. M. & SAMPAIO, J. A. L., Kaxixó: quem é este povo. Belo Horizonte: CESE/CEDEFES/ANAI, Janeiro de 1999.
CEDEFES. Plano de Gestão Territorial e Ambiental na Terra Indígena Kaxixó – PGTA. PNUD/ISPN/FUNAI. Setembro de 2016.
Belo Horizonte, MG, Brasil, 03 de julho de 2018.

Foto 1: Roda de Conversa no CEDEFES sobre: “Povo Indígena Kaxixó: retrospectiva de um processo de luta”. Foto: A. Baeta

Foto 2: Lideranças Kaxixó: Zezinho e Djalma (já falecidos) participando da “Marcha Indígena – 500 anos de Resistência” em Belo Horizonte no ano 2000. Foto: A. Baeta.
Obs.: Os vídeos, abaixo, ilustram o texto, acima.
1 – Caxixó – O Segredo Encantado – parte 1
https://www.youtube.com/watch?v=JX7ysFZfk-w
2 – Caxixó – O Segredo Encantado – parte 2
https://www.youtube.com/watch?v=15yVqctmS-4
3 – Filme Casca do Chão – Povo Kaxixó
https://www.youtube.com/watch?v=mlxE4scSxFQ&index=2&list=PLU3xpnSKCkVk6nWLwNVars8obRXRqQDfD
1 Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH, em Belo Horizonte, MG.
E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br –
www.twitter.com/gilvanderluis – Facebook: Gilvander Moreira III
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/07/2018
Autor: EcoDebate
Fonte: EcoDebate
Sítio Online da Publicação: EcoDebate
Data de Publicação: 05/07/2018
Publicação Original: https://www.ecodebate.com.br/2018/07/05/povo-indigena-kaxixo-guardiao-dos-cerrados-artigo-de-gilvander-moreira/
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